ELEVEN

Blues

Era por volta de três da manhã quando Nick e Mark voltaram pra casa. A festa de Mark tinha sido divertida para os dois e, apesar do cansaço, Mark ainda falava sem parar, comentando fatos e revendo cenas em sua mente enquanto Nick trancava a porta do apartamento e tirava a jaqueta sorrindo. Tinha preparado tudo e estava mais do que feliz por Mark ter gostado.

Tomaram banho e Mark ainda quis comer alguma coisa antes de deitar. Na cozinha, o loiro olhava o namorado tomar um copo enorme de leite com chocolate e enquanto devorava um pedaço de um bolo qualquer que tinha em cima da geladeira, como se fosse a coisa mais deliciosa do mundo.

- Que é, Ackles? - Ele perguntou rindo enquanto terminava de engolir a comida.

- Estava aqui pensando na nossa comemoração de aniversário de namoro. - Nick começou e o namorado passou a prestar mais atenção. - Pensei em algumas coisas, quero saber o que acha.

- Certo. - Moreno alto disse colocando o copo vazio na pia e andando até o loiro, que estava na porta no cômodo. - O que tem em mente?

- Winnipeg. - Nick disse não escondendo o sorriso.

- Cara, você gosta desse país hein? - Mark disse rindo abraçando o namorado pela cintura. - Qual é essa sua fixação com o Canadá?

- Qual é, a cidade é incrível! - Nick começou, mas sabia que nem precisaria se esforçar, Mark iria adorar a cidade. - Tem ótimos lugares para irmos, podemos matar o final de semana e uns dois dias de aula. O que acha?

- Por mim, tudo bem. - Padalecki respondeu tranquilo. - E onde vamos ficar?

- Vamos olhar na internet. - Nick começou já ficando mais empolgado. - Podemos já comprar passagens e fazer as reservas.

- Agora? - Mark fez cara de cansado, mas ele sabia que Nick tinha se animado e não iria desistir.

- Vem, vamos. - Nick riu do jeito do outro e o puxou pela mão até o quarto.

Mark deitou na cama, Nick fez o mesmo acomodando o laptop no colo. Ele ligou e fez uma busca rápida em alguns hotéis em Winnipeg. Encontrou vários, Mark apontou para alguns, Nick abriu links para ver as acomodações e, depois de olharem pelo menos uns dez hotéis, se decidiram pelo Fort Garry Hotel, que tinha a melhor localização para tudo que planejaram fazer na cidade. Fizeram uma reserva no restaurante Infernos Bistro, que servia frutos do mar e culinária francesa, Nick foi contra, mas Mark adorou o nome e insistiu até demais pra que fosse aquele.

- Vai ser o máximo. - Nick disse enquanto finalizava as compras de passagens, reservas no restaurante e no hotel. - Sério, vai ser o melhor aniversário que já tivemos. - Ele riu fechando o laptop.

- Pelo preço é bom que seja mesmo. - Mark disse já sonolento. - De qualquer forma, tudo com você fica perfeito.

- Você me tira do sério direto... - Nick começou ajeitando-se na cama a fim de abraçar o namorado. - Me irrita, me cansa, me chateia...

- Eu espero que venha um "mas eu te amo" por aí, senão vai ficar complicado. - Mark disse interrompendo o loiro.

- Idiota. - Nick disse rindo beijando a nuca do moreno alto e suspirando. - Mas eu te amo sim.

- Também de amo, Ackles. - O outro respondeu e caiu no sono quase que imediatamente. Nick também não demorou, fosse culpa do cansaço ou da bebida.

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A semana tinha seguido tranquila para os dois. Já era quinta-feira e Nick andava pelo saguão do campus rumo ao Conservatório de música pensando no que levaria na mala. Eles viajariam já no dia seguinte e ele não sabia exatamente como estaria o clima. Bem, o Canadá é sempre frio, certo? Pensava ele enquanto ajeitava o violão nas costas e encontrava com alguns colegas já em sala de aula.

Kerr Smith, como excelente professor que era, já estava em sala conversando com alguns alunos e trocando ideias sobre composições de ópera enquanto eles o enchiam de perguntas assim que perceberam que o moreno de olhos azuis entendia muito do negócio.

- Completamente impossível nomear minha preferida. - Ele dizia enquanto Nick se aproximava da rodinha de colegas em torno do professor. - Talvez eu fique com Nessum Dorma, versão dos Três Tenores, mas... - Ele pensou por um segundo. - Ainda não seria minha resposta definitiva.

- Ópera? - Nick brincou sentando-se ao lado de Kerr. - Que papo nerd! - Todos riram inclusive o loiro.

- Não tem uma ópera preferida, Ackles? - O mesmo colega que perguntou a Kerr agora perguntou a Nick.

- Gosto das óperas de Richard Wagner... - Nick pensou um pouco, talvez soasse um pouco clichê. - "Tristão e Isolda".

- Ópera sem canto? - Kerr surpreendeu-se um pouco.

- É, não sei. Acho que dá mais liberdade de interpretação pra quem está ouvindo. - Nick explicou. - É um trabalho árduo para os músicos e maestros criarem um ambiente sem ter ninguém pra narrar os acontecimentos... é meio que... fantástico. Não é qualquer um que sabe escutar.

- Não poderia concordar mais. - Kerr disse mostrando o belo sorriso. - Que tal falarmos sobre ambientação musical? - Ele sugeriu já que Nick tinha tocado no assunto. - Tristão e Isolda, quem conhece? - Ele perguntou e alguns alunos, a maioria, se manifestou positivamente.

- Não que seja o assunto mais interessante do mundo... - Nick olhou a sua frente e viu o rosto conhecido do colega que fazia aulas com ele também na matéria de História da Música. - Mas é bem melhor do que falar sobre música na pré-história com aquele maluco do Josh. - Ele finalizou e todos riram ao lembrar-se das aulas estranhas e engraçadas de Jackson.

- Josh é o melhor. - Kerr disse rindo, levantando-se de onde estava e pegando o aparelho de som. - Fizemos mestrado juntos aqui na NYU e ele é inteligentíssimo.

- Ele imita pássaros. - O mesmo aluno disse sarcástico.

- São os nossos primeiros cantores, por que não deveríamos falar deles? - Kerr sorrindo começou. - Preste mais atenção a sua volta e verá que existe música até no meio do trânsito.

A aula seguiu-se de maneira tranquila. Todos pareciam fascinados ao ver Kerr falar sobre as óperas sérias – os dramas – e as comédias com tenores, sopranos, barítonos e contraltos. Nick nunca teve antes uma aula tão produtiva. Kerr acabou entregando ser um grande fã de Luciano Pavarotti, Enrico Caruso e Cecília Bartoli.

Nick repensou sua preferência por óperas sem canto quando ouviu Plácido Domingo, José Carreras e Luciano Pavarotti cantando em trio Nessum Dorma, ópera de Giacomo Puccini. Pra qualquer pessoa de fora do ramo, talvez pensasse que seria a maior chatice de todas se passar a tarde, cerca de seis horas, ouvindo e estudando ópera. Nick? Nem viu o tempo passar.

Na saída da aula, o professor fez um sinal discreto para que Nick o esperasse, pois queria falar com ele. Ackles sentiu um frio lhe correr pela espinha. Não sabia porque continuava deixando o professor fazer aquilo, não sabia se no fundo ele estava de propósito se aproveitando da situação dele com Mark ou se ele realmente estava interessado a ponto de não se preocupar se o outro tinha ou não namorado. Os colegas iam saindo, ele demorava para guardar suas coisas até que o último colega saiu e ele finalmente estava mais uma vez sozinho com Kerr.

Ele viu Smith andar devagar em sua direção como se o medisse dos pés a cabeça, como se aproveitasse cada segundo que tinha a oportunidade de simplesmente ficar olhando pra ele. Um deleite óbvio que Kerr parecia nem fazer muita questão de esconder.

Nick não disse nada, esperou que Kerr falasse. Não que ele estivesse achando de todo ruim, massageava seu ego que alguém olhasse pra ele daquele jeito. O que ele tinha vontade de fazer? Rir freneticamente, mas apenas sorriu.

- Queria falar sobre sua música. - Kerr disse enterrando as mãos nos bolsos.

- Não, não queria. - Nick disse sincero, fazendo Kerr sem querer arregalar os olhos. - Vamos parar com a palhaçada, por favor. Podemos falar abertamente sobre isso?

- Nick... eu... - O professor sorriu nervoso e agora aproximava-se um pouco mais do loiro. - Eu acho que você deveria...

- Ok, eu começo porque você claramente está um pouco confuso. - Nick disse tranquilo, apesar de seu coração estar batendo um tanto quanto forte. Smith se calou para ouvi-lo. - Eu estou com Mark há quase cinco anos, sou sim apaixonado por ele e acho que sabe disso, Kerr. - Ele fez uma pausa e o professor concordou com a cabeça. - Quero que saiba que tenho uma profunda admiração por você e se eu fosse solteiro, não descartaria a hipótese de ter algum tipo de relacionamento com você. Mas não é o caso aqui.

- Eu sei, só acho que tem uma droga de namorado que não liga pra você. - Kerr se aproveitou da sinceridade de Nick para também expor sua opinião, mesmo soando meio rude - Quer dizer, se eu fosse ele, nunca te deixaria um segundo longe sabendo que tenho o cara mais incrível do mundo ao meu lado.

- Eu fico realmente lisonjeado. - O loiro disse ajeitando o violão nas costas. Estava sendo sincero e tentando parecer modesto. - Mas nada vai acontecer entre a gente... Quer um amigo? Estou aqui... Mais do que isso não vai ser possível.

- Nick, tudo bem. - Kerr tentou esconder um pouco a decepção, mas o aluno percebeu. - Só quero que saiba que quando quiser ter alguém que se importa ao seu lado, estou aqui. - Kerr tentou soar descompromissado. - Mas ok... Quer beber alguma coisa?

- Kerr... - Nick titubeou aceitar, mas acabou tentando se convencer de que não teria nada demais. - Tudo bem, mas por pouco tempo, preciso ir pra casa fazer as malas.

- Ah é mesmo? - O professor começou interessado enquanto saíam da sala. - Vai viajar?

- Eu e Mark vamos a Winnipeg comemorar aniversário de namoro. - Ele disse tentando parecer algo normal, sem querer se exaltar muito.

- É mesmo uma cidade incrível, vão gostar. - Kerr disse mais parecendo professor do que amigo.

- Espero que sim... Na verdade eu gosto muito do Canadá. Gostaria de conhecer melhor. - O loiro disse soando um pouco sonhador.

- Vai ficar decepcionado se eu disser que domingo a noite John Mayer virá tocar no Madison Square Garden? - Kerr provocou enquanto ele e Nick deixavam o prédio do Conservatório rumo a cafeteria do campus.

- O que? - Nick pareceu não acreditar de verdade. - Não pode estar falando sério!

- Ia te chamar pra ir, estou com dois ingressos... - Kerr disse tentando não soar pretensioso ou invasivo. - Sei que é um grande fã dele.

- Ah cara... - O aluno realmente pareceu decepcionado. - Ok, não vai ser o último show dele no mundo né? Ele fará outros aqui... - Ele tentou se consolar.

- Tenho certeza que sim. - Smith sorriu pra ele concordando.

Kerr, apesar do que Nick havia dito e da admiração pela sinceridade do rapaz, não se deu por vencido, sentia que ainda tinha mais coisas para acontecer entre os dois. Não queria desistir por mais que fosse contra o envolvimento de professores com alunos – especialmente quando esse envolvimento partia dele – mas Nick era realmente visto de forma diferente por ele. Ficava ainda mais irritado ao saber que Mark não parecia dar valor suficiente ao que tinha.

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Só pra variar, Mark Padalecki estava estudando. Uma música baixinha tocava em seu fone de ouvido – tinha descoberto que aquilo o impedia de pegar no sono durante as leituras. Ele lia o livro que ganhou de Jensen de aniversário enquanto fazia anotações em uma folha em branco ao lado na escrivaninha. Foi distraído apenas por seu celular vibrando dentro do bolso da calça branca.

- Que é? - Não importava quem era, com exceção de Nick, ele atendia assim a todos.

- Mark? É Tyler Hoechlin. - Disse a voz grave do outro lado da linha.

- E aí, Ty! Como está? - Mark sorriu ao lembrar do enfermeiro que não via há meses.

- Tudo ótimo e com você? Está ocupado?

- Estou estudando, mas está tudo certo. - Mark falava e girava na cadeira giratória em meia-lua.

- Olha só, estou indo para Baltimore hoje a noite... Sabe o congresso com Ben Carson? - Tyler disse e Mark quase deu um pulo da cadeira. Parou o que estava fazendo ao ouvir o nome do mais influente neurologista dos Estados Unidos, o primeiro negro a conseguir se formar na área e hoje era o Diretor do Departamento de Neurologia Pediátrica do melhor hospital de neurologia do país, o Johns Hopkins.

- Sem-essa! - Mark disse as palavras pausadamente. - Não acredito que conseguiu um passe para entrar! - Padalecki estava mais do que impressionado.

- Não. - Tyler riu ao imaginar a expressão de Mark ao ouvir aquilo. - Consegui dois!

- Cara, não brinca com isso! - Mark levantou-se da cadeira exaltado. - Não está dizendo que...?

- Mas é claro que estou te convidando pra ir! Está a fim? - Tyler parecia se divertir em fazer alguém feliz.

- Mas é lógico! - Padalecki andava de um lado para outro pelo quarto, estava em êxtase. Era um momento em que ele poderia considerar um marco na sua vida. Nunca mais teria uma oportunidade como aquela. - Quando vamos?

- Em algumas horas, pode ser? - Tyler perguntou e Mark checou o relógio. - O avião sai por volta da meia-noite.

- Cara, minha mochila fica pronta em cinco minutos! - Mark parecia comemorar uma das maiores conquistas de sua vida.

- Então estamos passando te buscar. Minha noiva irá nos levar no aeroporto.

- Não sei como te agradecer! - Mark já juntava as coisas para a viagem antes mesmo de desligar o telefone.

- Não precisa! - Tyler riu simpático.

- É por isso que eu te amo, cara! - Padalecki brincou antes de desligar ouvindo igualmente a risada de Hoechlin.

Nick batia a porta de casa trancando-a quando ouviu a última frase do namorado. Se tinha alguém que ouviria "eu te amo" de Mark seria Nick, definitivamente ele gostaria de saber com quem Padalecki estava falando. Mas nem precisou perguntar. Viu Mark saindo do quarto e o abraçando feliz em seguida, como se todos os problemas do mundo tivessem sido resolvidos.

- Você não vai acreditar! - Ele segurava nos ombros de Nick que permanecia sério, porém surpreso. - O Congresso de Neurologia Pediátrica em Baltimore, com Ben Carson... Tyler conseguiu dois passes e me chamou pra ir com ele! - Os olhos de Mark brilhavam tanto que Nick ficou confuso quando ao que aquilo significava já que, pra ele, não parecia ser nada demais.

- Que ótimo! - Nick disse mais empolgado. - Quando será?

- Hoje a noite já viajamos, começa amanhã pela manhã. - Mark disse e Nick franziu o cenho. - Segundo esse cronograma na internet. - Mark completou puxando o site da organização médica que promovia o evento.

- Hoje? - Nick repetiu, quase enfurecido. - Vai viajar hoje? - Ele mal podia acreditar que Mark havia esquecido o que tinham combinado há duas semanas atrás.

- Ah amor, qual é! Por que está com essa cara? Por que vou com Tyler? - Mark sorriu daquele jeito de quem se divertia ao ver Nick com ciúmes do enfermeiro. - Deixe isso pra lá.

- Você é inacreditável, Mark. - Nick disse saindo da sala e andando em direção a cozinha. - Inacreditável.

- Qual é, Nick! - Mark agora sentia-se ofendido. - Esse Congresso é a oportunidade que preciso, é na área que quero me especializar, é com o cara mais fera do mundo a respeito do assunto, praticamente ao lado de casa, bem aqui em Maryland... É sério que vai ficar assim só porque eventualmente vou viajar com um cara que é, além de meu amigo, hétero? - Mark não via sentido naquilo, pois não fazia ideia que Nick estava se referindo a viagem ao Canadá.

- Mark... - Nick disse calmamente, magoado e achando que aquilo era realmente a gota que faltava. - Boa viagem.

O loiro andou pelo corredor do apartamento até o quarto batendo a porta em seguida. Mark, no meio da sala, suspirou cansado. Pensou por um momento que era a melhor coisa a se fazer, dar um tempo ao namorado, assim ele poderia pensar melhor em tudo que estava fazendo. Ele voltou ao quarto terminar de fazer as malas. Arrumou tudo para o final de semana enquanto Nick estava tomando banho. Assim que o loiro saiu, ele tentou novamente uma conversa.

- Estarei logo de volta, por favor, não fique bravo. - O moreno alto pediu, quase implorou ao namorado.

- Não estou bravo. - Nick disse com a toalha branca enrolada na cintura. - Faça sua viagem, Mark. Aproveite bastante. - Ele disse sarcástico.

- Eu te amo, por favor, me entenda só desta vez. - Padalecki se aproximou e beijou o loiro, que correspondeu o selinho. Estava cansado demais de brigar, estava irritado demais e achou que era hora de tomar uma decisão, pois aquilo que o namorado havia feito, era o ponto final que ele precisava para começar a dar fim naquele relacionamento.

A última coisa que Nick ouviu antes de chorar foi a porta do apartamento fechada por Mark. Olhou sua mala pronta para o Canadá no canto do quarto e mal podia crer que Mark havia esquecido de um dos momentos mais importantes para os dois, algo que planejaram juntos e mais uma vez, Mark o trocara pela faculdade.

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Nicholas Ackles tinha passado o final de semana inteiro dentro do quarto, entre cobertas, dormir, acordar, comer, ir ao banheiro e voltar pra cama. Sentia dores de cabeça e estava um verdadeiro projeto de ser humano. Estava vendo algo na televisão – parecia um filme qualquer que ele não estava prestando atenção – quando seu celular tocou num bipe, um barulho de mensagem de texto.

"Não acredito que esqueci nossa viagem! Me perdoe, amor! Vou compensar você quando voltar. Feliz cinco anos de namoro. Te amo." Nick sorriu triste. Levou dois dias para ele finalmente perceber? E era assim que ele demonstrava? Uma porcaria de uma mensagem de texto? Ackles nem se deu ao trabalho de responder. Jogou o celular de canto e olhou o relógio. Domingo, quase seis da tarde.

Zapeou os canais da televisão e deparou-se com B.B. King dando uma entrevista para algum jornalista qualquer nesses programas de música que ninguém assistia muito. O ícone do blues mundial dizia "a coisa bonita sobre aprendizagem é que ninguém poderá tirar isso de você." Nick sorriu fraco ao ouvir aquilo. Blues era realmente algo que vinha da alma, ele sentia-se um impostor por gostar tanto daquela arte negra.

Blues. Lembrou-se da vez em que o mesmo BB King disse que John Mayer era o futuro do blues e por isso passou a ouvir as canções dele.

John Mayer. Nick pareceu lembrar-se de algo. "John Mayer irá tocar no Madison Square Garden", Nick ouviu a voz em sua mente, aquela voz conhecida. "Estou com dois ingressos." Ele voltou a alcançar o celular e procurou na agenda o número que queria.

- Alô?

- John Mayer? - Nick riu ao ouvir a voz do professor.

- Não, aqui é Kerr Smith, acho que ligou pro número errado. - Kerr brincou e Nick riu com vontade pela primeira vez desde que Mark viajou.

- Ainda está com os ingressos? - Ele disse em meio a risos, sentando-se na cama, mais desperto.

- Estou. - Kerr respondeu tentando não se animar muito. - Por quê?

- Isso significa que podemos ir então... - Nick tirou as cobertas de cima de seu corpo e passou a andar rumo ao banheiro.

- Não era pra você estar no Canadá?

- Podemos ou não? - A última coisa que Ackles queria era falar sobre aquilo.

- Lógico... - Kerr nem fez questão de insistir. O que ele mais queria estava acontecendo. - Te encontro no Madison Square Garden que horas?

- Só vou me arrumar, se quiser posso te buscar. - Nick disse com um sorriso de canto.

- Seria ótimo. - Claro que o professor não perderia a chance. - Vou mandar uma mensagem com meu endereço e nos vemos mais tarde então.

- Até logo então. - Nick desligou a ligação assim como seu professor. Não sabia o que estava fazendo, mas não queria pensar naquilo.

Ele tomou banho, se arrumou mais do que deveria e pegou as chaves do Jaguar. Estava num misto de raiva, mágoa e vingança que não sabia exatamente para qual lado correr. Talvez ouvir um pouco do blues de seu ídolo o fizesse clarear mais as ideias.

Now I'm gonna dress myself for two

(Agora vou me vestir para dois)

Once for me and once for someone new

(Por mim e por alguém novo)

I'm gonna do some things you wouldn't let me do

(Farei algumas coisas que você não me deixaria fazer)

I'm gonna find another you

(Encontrarei outro igual a você)