TWELVE
My name is John and
I'm gonna play some songs for you.
It's really over
(Está realmente acabado)
You made your stand
(Você tomou sua decisão)
You got me cryin'
(Você me fez chorar)
As was your plan
(Exatamente como planejou)
O Madison Square Garden estava lotado. Nick teve até trabalho para estacionar quando chegaram e, apesar da conversa entre os dois ter sido boa, ainda sentia-se confuso, perdido e alheio. Ele apenas mudou a expressão quando ele e Smith sentaram em sua mesa, bem no centro do público da área VIP. A luz do palco se acendeu, e embora estivessem a uma distância considerável do palco, podiam ver sentado em um banquinho, checando a altura do pedestal de seu microfone e segurando um violão acústico preto, um John Mayer que, apesar de ser um astro do blues, parecia tímido à sua plateia.
- Boa noite. - Ele disse e o público respondeu com aplausos e alguns gritos. Nick sorriu ao ver o cantor e Kerr sorriu ao ver Nick sorrir. - Meu nome é John e eu vou cantar algumas músicas para vocês hoje. - Era a clássica frase que Mayer dizia no início de todos os seus shows.
Os primeiros acordes de Tracing começaram. Nick, assim como quase todos os presentes, não deixaram o novo príncipe do blues cantar sozinho. Ele viu Kerr agora também prestando atenção no cantor. Sem pensar muito bem no que estava fazendo, buscou a mão do professor sobre a mesa a segurando por alguns segundos.
- Obrigado por isso. - Ele disse e Smith concordou com a cabeça. - Era tudo que eu precisava.
O show durou exatamente uma hora e meia, como em todos de John Mayer, não deixando de apresentar um setlist que Nick nunca se perdoaria se perdesse. Ele seguiu com Waiting For The World To Change, I Don't Trust Myself (With Loving You), Belief, Gravity, entre outros clássicos sem deixar de tocar uma das preferidas de Nick: City Love.
O show mal havia acabado e ele já sentia-se bem. Aquela noite, aquelas músicas, eram tudo que Nick precisava para esquecer Mark, esquecer os problemas de relacionamento e da vida lhe cobrando que tomasse decisões. Aquela noite ele era apenas Nick Ackles, um estudante de Música da NYU que adorava blues e tinha acabado de ver o show de um de seus ídolos. Não era o namorado de Mark, nem o jogador de futebol na escola e nem o aluno de Kerr.
- O que achou? - Kerr perguntou assim que deixaram o majestoso Madison Square Garden e caminhavam para o estacionamento.
- Foi incrível. - O loiro respondeu ainda lembrando dos riffs, dos solos que Mayer fez durante o show. Tocar blues era a coisa mais difícil do mundo, ele sabia. Mas o que de fato impressionava era a criatividade, a forma como as notas transformavam-se emoções e parecia entrar direto dentro da alma. - De longe o melhor show da minha vida. - Ele respondeu sincero enquanto andava de mãos nos bolsos da calça social preta.
- Também achei. - Kerr disse ainda sorrindo. Mas não era exatamente por causa de John Mayer. Apesar de gostar do músico, sabia que em outra ocasião não teria pagado tão caro por dois ingressos, mas por Nick a história era diferente - Queria ter conseguido passes pro camarim, poderíamos falar com ele...
- Acho que aí já é pedir demais. - Nick riu olhando para o céu de Nova York sem nenhuma nuvem. Limpo, do tipo que se não fossem tantas as luzes da cidade seria possível ver muitas estrelas.
- Ah merecíamos conversar com ele. - Kerr brincou. - Mas você mesmo disse que certamente não será o último show dele aqui, especialmente porque ele mora em Nova York, então...
- Então pra que passes de camarim se podemos encontrar ele na rua? - Nick brincou rindo com mais vontade agora, assim como Kerr.
- Tem razão. - Ele disse e os dois finalmente chegaram ao Jaguar estacionado. Antes de entrar, pela segunda vez, Kerr admitiu que nunca pensou que entraria naquele carro.
Ambos bateram suas portas e Nick tirou a jaqueta preta que vestia jogando no banco de trás. Ele ligou o som do carro e Rolling Stones começou a tocar. Ele bocejou cansado, mas estava de bom humor, até vulnerável... Sentindo-se tranquilo. Kerr o observava com o canto do olho enquanto eles traçavam suas opiniões sobre o show e comentavam sobre música no geral durante o caminho de volta. Kerr morava em Upper East Side. Ackles parou em frente ao prédio elegante no bairro nobre de Manhattan e esperou que o professor se despedisse.
But when my loneliness is through
(Mas quando minha solidão acabar)
I'm gonna find another you
(Encontrarei outro igual a você)
- A noite foi fantástica, sério. - Nick disse sincero - Espero que possamos repetir.
- Também espero. - Kerr disse encarando os olhos castanhos de Nick, que mesclavam paz e um toque de melancolia.
- Boa noite. - Ackles disse com um sorriso de canto, mas Kerr não se moveu. Parecia pensar, ou melhor, tomar coragem por um segundo. Até que numa espécie de 'estalo', ele disse tentando soar naturalmente e como se aquilo não fosse nada demais.
- Tenho um vinho branco do Porto que estou guardando para uma ocasião que mereça. - Smith disse e Nick baixou os olhos por um segundo. - Se quiser subir, relaxar...
- Não posso beber, preciso dirigir. - Não era realmente esse o motivo, mas Nick tentou se convencer de que talvez fosse melhor ir pra casa.
- Qual é... - Kerr sorriu e não parecia que iria desistir assim tão fácil. - A Soho fica há quinze minutos daqui, não vai ter problemas em chegar. Além disso, pode buscar o carro amanhã e voltar pra casa de táxi.
- Kerr, eu sei que há alternativas, mas... - o professor não o deixou terminar.
- Vai pra casa fazer o que? - Ele perguntou, propositalmente maldoso, como se quisesse cutucar a ferida do outro. Ele não sabia o que tinha acontecido, mas o caso é que era aniversário de namoro dele com Mark e ele estava ali, dentro do carro com outro homem voltando de um show de blues. Algo deveria estar bastante errado.
- Sabe de uma coisa? - Nick pareceu dar-se por vencido, Kerr tinha acertado em cheio. Ia pra casa fazer o que? Pensar no quanto Mark estava se divertindo em Baltimore com Tyler Hoechlin? - Acho que uma taça de vinho não será um problema.
Nick viu Kerr comemorar internamente, pois ele mordeu o lábio inferior e seus olhos brilharam dentro do carro mal iluminado. Nicholas estacionou melhor o carro na frente do prédio e ambos desceram do veículo andando em direção à entrada. Kerr morava num apartamento que ocupava todo o décimo segundo andar. Logo de cara, um belo piano de cauda na sala, pinturas de bom gosto, algumas esculturas nas estantes e balcões de madeira maciça polida e um belo estofado com tapetes que pareciam ser caros.
- Quero te mostrar um lugar. - Kerr disse ao entrar com Nick em casa e perceber que o garoto olhava tudo ao redor. Ele seguiu o professor até um cômodo quase escondido no final do corredor.
You take your sweaters
(Leve seus casacos)
You take your time
(Leve o tempo que precisar)
You might have your reasons
(Você deve ter seus motivos)
But you will never have my rhymes
(Mas nunca terá minhas rimas)
- Ah não brinca! - Nick disse ao ver que o cômodo se tratava de um estúdio. Não muito grande, mas os equipamentos eram da melhor qualidade assim como os instrumentos.
- Gostou? - O professor perguntou entrando na sala de gravação onde havia uma proteção acústica.
- Isso é o máximo. - Nick respondeu animado ao ver tudo aquilo. - Ainda farei isso um dia em casa sem dúvidas.
- Seu objetivo com música é esse? - Kerr perguntou sério, curioso.
- Quem sabe abrir uma gravadora? - Nick disse desinteressado como se não tivesse pensando bem a respeito ainda. - Talvez abrir um conservatório de música independente... Tem tanta gente boa por aí que só precisa de uma chance. - Ele disse encarando o violão acústico de doze cordas que Kerr tinha por lá.
- Tem um grande coração, Nick. - O professor disse mais pensativo. - Acho que grande até demais.
- Pode ser. - Nick disse distraído ao ver um violão acústico no canto do cômodo, igual ao que John Mayer usou no show.
- Vou buscar o vinho. - Ele disse sem conseguir tirar o meio sorriso do rosto.
- Posso? - Nick apontou para o violão, pedindo permissão.
- Lógico. - vendo Nick tão a vontade, seduzido pela música, sem pretensão de ir embora, ele pensou que agora sim era oficial, e mal acreditava que aquilo estava acontecendo. - Fique a vontade, volto logo.
Nick pegou o violão de uma maneira tão carinhosa como se temesse que ele se desmanchasse entre seus dedos. Sentou-se no banquinho que era destinado ao baterista e tocou todas as cordas, para verificar a afinação. Como ele já esperava, estava perfeita. Fechou os olhos e não escolheu a música, apenas deixou seus dedos deslizarem por algum riff conhecido, era a melhor forma de saber o que seu coração estava dizendo. Apenas pegava o violão e esperava que a melodia fosse se revelando conforme ele tocava.
Só quando começou a cantar os primeiros dois versos, percebeu que se tratava de "I'm gonna find another you", do próprio John Mayer.
I'm gonna sing my way away from blue
(Vou cantar meu caminho para longe da tristeza)
I'm gonna find another you
(Encontrarei outro igual você)
Com duas taças em uma mão e uma garrafa de vinho branco do Porto, Kerr Smith parou à soleira da porta aproximando-se em silêncio, para não atrapalhar. Conhecia bem a sensação de se envolver com o que estava cantando, mas a forma que Nick se entregava à música era raro de se ver.
Smith lembrou-se da primeira vez que viu o rapaz entrar por sua sala. Ele estava um pouco tímido e bastante inseguro. O curioso é que ele respondia a todas as perguntas, como se tivesse lido muito antes de escolher estudar aquela matéria de instrumentos de corda. Ele levou um tempo pra se soltar na aula – especialmente quando se tratava de cantar. Evidentemente pelo que Kerr estava presenciando ali, ele tinha perdido essa timidez, pois cantava com o coração, sem se preocupar com público.
Nick não viu que seu professor o observava. Quando terminou de cantar olhou na porta e viu que ele estava lá, olhando pra ele de uma maneira que ninguém nunca havia feito antes. O admirando e não o vendo apenas como aluno, mas como o homem que ele certamente havia se tornado. A naturalidade com que sentia aquilo o fez sentir confortável e achava que o homem a sua frente merecia mais do que sua consideração, mas sem dúvida sua confiança. Ele pôs o violão de volta no suporte e levantou-se andando na direção do outro.
- Planejamos há duas semanas - Nick começou suspirando enquanto Kerr lhe entregava uma das taças e o servia em seguida. - Escolhemos hotel, restaurante e os lugares que visitaríamos em Winnipeg. - O professor não disse nada, apenas ouvia, sabendo perfeitamente de quem Nick estava falando. - E então hoje, depois que recebeu uma ligação de um cara aí... Esqueceu completamente a viagem e foi a Baltimore, num congresso médico qualquer... - Ele dizia com certo desdém, como se fosse realmente um absurdo.
- Eu realmente sinto muito. - Professor disse sincero. Mas não por Mark e sim por deixar Nick daquele jeito. - Você não merece passar por isso.
- Talvez não seja questão de merecimento. - O loiro começou a falar e apenas parou para tomar um gole de vinho. Realmente excelente. - Acho que eu permiti chegar a esse ponto... Apesar das brigas e chateações, sempre acabei perdoando ele ou fingindo que nada estava acontecendo.
- Não é sua culpa. - Kerr disse depois de beber um gole também. - Nem por um segundo pense que você é o responsável por isso.
- Depois de hoje, eu realmente acho difícil pensar em ter algum tipo de futuro com Mark. – sentenciou aborrecido.
- Não encare isso como o fim de algo, talvez seja a oportunidade pra você começar uma coisa nova. - Kerr disse se aproximando mais do outro. - Talvez isso seja o que estava faltando pra te fazer abrir os olhos e ver que seu mundo não é aquele rapaz.
- É fácil seguir em frente. - Nick disse deixando-se aproximar pelo outro. - O difícil é deixar pra trás.
- Ele não merece você. - Kerr disse quase num sussurro, pois estava muito perto do outro. Nick não conseguiu pensar em nada para responder quando se deparou com aqueles olhos azuis tão perto dele, despindo sua alma.
Kerr tirou a taça das mãos de Nick colocando-a em cima de um teclado fechado. Nick não o impediu mesmo sabendo perfeitamente o que estava por vir. Ele não se moveu e não se negou. Kerr apenas o encarou mais uma vez para ter certeza de que não faria nada que o outro também não quisesse. O professor roçou seu nariz no de Ackles e o loiro apenas fechou os olhos. Era uma dúvida que ele precisava saciar, era uma curiosidade que tinha acabado de brotar nele. "E se?"
When I was your lover
(Quando eu era o seu amor)
No one else would do
(Ninguém mais poderia ser)
And if I'm forced to find another
(E se estou obrigado a encontrar outra)
I hope she looks like you
(Espero que ela pareça com você)
And she's nicer too
(E que seja melhor também)
Ackles se deixou envolver pelos lábios do professor e correspondeu o beijo que de nenhuma maneira foi uma surpresa. Nick sabia, soube desde que ligou para ir ao show, soube desde que ouviu John Mayer tocar Gravity e quando aceitou entrar na casa dele. Uma taça de vinho sempre é um convite para o inesperado.
O que Nick não sabia era se aquele beijo era diferente porque de fato as emoções eram outras, ou se porque a boca era outra. Kerr o envolvia com os dois braços enquanto ele correspondia ao abraço, apertando o corpo forte do professor junto ao seu. Era um beijo quente, que parecia ter sido guardado por muito tempo e, apesar de ser a primeira vez que ambos faziam aquilo juntos, suas línguas eram sincronizadas e o gosto do vinho era apenas o toque que complementava aquela reação em cadeia que tinha finalmente explodido.
Nicholas permitiu-se não pensar em nada nem que fosse enquanto beijava seu professor. Correu os dedos pelos cabelos dele, sentiu os músculos dele se moverem quando passou uma das mãos pelas costas e percebeu elas se arquearem na direção dele. Seus quadris estavam colados ele sentiu Kerr descer uma das mãos até suas coxas, apertando.
Eles soltaram-se por menos de um segundo retomando o beijo rapidamente, mas dessa vez mais rápido, mais urgente e, com certeza, um pouco mais obsceno. Kerr sutilmente empurrou Nick até a parede do estúdio e desceu as duas mãos pelo traseiro do outro, ouvindo Nick gemer baixinho, surpreso. Ao sentir a ereção do outro roçando em sua cintura, Nick parou para respirar.
- Não sei o que dizer. - O loiro disse um pouco atordoado e ofegante.
- Não precisa dizer nada. - Kerr sorriu quase débil. - Não estamos exatamente conversando.
- Kerr... - Nick soltou-se dos braços do outro ficando de costas pra ele. Passou uma das mãos pela boca. - Isso está tão errado que eu nem sei por onde começar.
- Não. Não diga isso. - Kerr sentiu aquele baque de realidade finalmente presente. - Eu sei que tem assuntos inacabados, mas... Não diga isso.
- Olha... - Nick voltou a encará-lo. - Mesmo se algo for acontecer entre a gente, não pode ser assim... - Ackles foi sincero e parecia mais lúcido. - Eu vou pra casa, não quero fazer nada que vá me arrepender depois. - Ele concluiu e Kerr suspirou aproximando-se novamente.
- Se precisa de um tempo para absorver isso, vou entender e vou estar aqui. - O professor disse tentando soar compreensivo, mas sua vontade era de arrastar aquele homem para sua cama. - Leve o tempo que precisar.
- Eu preciso mesmo de um tempo. - Nick foi sincero, não estava apenas querendo se livrar do outro, afinal, tinha gostado sim do que tinha acabado de acontecer. - Preciso dormir, minha mente precisa descansar.
- Entendo. - O moreno alto disse após respirar fundo, mas sem perder a esperança. - Nos vemos na aula.
- Obrigado por ser assim. - Nick até sorriu. Fraco, mas sorriu. - De verdade. - Ele deum um selinho demorado no outro, Kerr quase não o deixou ir embora de novo. - Boa noite.
- Boa noite. - A voz do professor era fraca, mas ele mordeu o lábio inferior ao ver Nick atravessando o corredor rumo a saída do apartamento.
So go on baby
(Então vá em frente, amor)
Make your little get away
(Faça sua pequena fuga)
My pride will keep me company
(Meu orgulho me fará companhia)
And you just gave yours all away
(Você jogou o seu fora)
