FOURTEEN

Medicine

A segunda-feira amanheceu como deveria: o sol escondendo-se atrás das nuvens e o vento frio de Nova York cortando o rosto de quem precisava acordar cedo para trabalhar. Mais uma semana se iniciava e um romance terminava. Mark Padalecki não dormiu mais que três horas e, quando acordou, sentia seu corpo doendo como se tivesse passado o domingo inteiro na academia. Não que o lugar fosse completamente estranho, mas não era onde ele estava acostumado a acordar. James, apesar de todo o tempo longe de Mark, provava que ainda continuava digno ao "cargo" de melhor amigo.

- Ei... - O agora economista e jogador de hóquei cumprimentou o amigo ao vê-lo no sofá do pequeno apartamento vestindo sua camisa. - Tem café na cozinha... Eu não sei cozinhar muito bem, mas... Acho que posso arriscar umas panquecas. - James brincou, mas Mark não sorriu. Os cabelos no rosto não escondiam a expressão amarga e triste de alguém que tinha o coração mais que partido.

- Não precisa. - Padalecki respondeu calçando os sapatos brancos. - Preciso ir pra faculdade. Tenho muitas coisas pra fazer. – esfregava o rosto com as mãos, como se quisesse afugentar os pensamentos e não conseguisse se concentrar direito no que estava fazendo. Era a falta de sono, de descanso, ele sabia. Mas também a falta de Nick. Andou até o banheiro a fim e fazer sua higiene pessoal.

James mordeu o lábio inferior como se pensasse fixamente em fazer alguma coisa para resolver aquilo. Não queria ver o amigo daquele jeito – nunca tinha visto ele tão abatido quanto aquela manhã. Não sabia direito o que dizer, apenas ouviu Mark na noite anterior, como bom melhor amigo que era, mas queria dar bons conselhos, gostava de Nick e sabia que por mais que ele amasse Mark, foi uma pisada feia na bola.

Antes que ele pudesse arquitetar algo pra dizer, Mark saiu do banheiro e andou até a cozinha a fim de servir-se um pouco de café. Forte, sem açúcar. James apenas observou e resolveu não dizer nada, sabia que a coisa certa a se fazer era esperar que Mark se abrisse.

- Cara obrigado. - Mark disse ao pegar sua mochila e seu jaleco branco. - Sabia que poderia contar com você. - Mark foi sincero, mas ainda estava abatido, tanto pelo sono quanto pela situação em si. Ainda pensava em Nick o tempo todo. - Quem sabe marcamos algo essa semana pra conversar direito, um almoço...

- Claro, sabe que estou aqui pro que precisar. Somos amigos. - James respondeu o abraçando, dando dois tapinhas nas costas dele. Gostaria de poder fazer mais, mas infelizmente aquilo era o máximo que ia conseguir.

- Eu realmente preciso ir. - Mark respondeu com um sorriso fraco. - Mas vamos marcar um almoço, com certeza. - Ele deixou o apartamento trocando um último olhar com James e seguindo para a clínica, era seu último ano de faculdade, dificilmente passava em sala de aula.

x.x.x.x.x

Nick andava pelas ruas de Nova York com todas as suas coisas no porta-malas do Jaguar. Rumo ao Queens, mas sem intenção de ficar por lá. Eram por volta de oito horas da manhã e ele sentia uma dor de cabeça digna de enxaqueca – culpou a garrafa de vodka que havia bebido durante a noite toda. Os óculos escuros ajudavam a amenizar a dor que a claridade causava a seus olhos. Sentia-se cansado, queria correr para onde Mark estava e resolver tudo, mas sabia que desta vez não seria fácil.

Ao chegar na casa de seu pai, viu Jared na varanda com lápis e papel, estava de cabeça baixa e parecia escrever partituras. Não foi nenhum palpite de sorte ele ter acertado mentalmente, mas aqueles cabelos nos olhos e a concentração lembrava muito o jeito de Mark quando escrevia músicas na época da escola. Jared apenas viu que havia alguém no portão quando Nick bateu a porta do Jaguar ao deixar o carro.

- Nick! - Ele abriu um sorriso ao ver o genro. - Entre! - Ele levantou-se para abrir o portão para o loiro, intuindo que algo estava errado pela cara dele e pelo horário.

Nick entrou em casa e então finalmente tirou os óculos. Abraçou Jared e não pode evitar quando o choro veio. Por alguns segundo chorou copiosamente no ombro do noivo de seu pai e Jared já imaginava o motivo, mas não falou nada. Apenas acariciou os cabelos do músico como se ele fosse um verdadeiro filho.

- O que aconteceu? - perguntou assim que Nick se acalmou por um momento.

- Eu... - Nick não sabia exatamente como contar o que aconteceu, sentia-se envergonhado. - Onde está o papai?

- Está no hospital, ele não dormiu em casa, teve plantão. - Jared respondeu conduzindo o garoto até a sala, como se pedisse que ele se sentasse. - Se quiser, pode ficar aqui até ele chegar, ele deve estar em casa daqui a pouco.

Nick suspirou e encostou-se no sofá. Distraiu-se por um momento ao perceber que a foto da sua mãe continuava ali. Jared percebeu pra onde ele estava olhando e sentiu que não deveria "interromper". Nick sorriu de leve ao ver mais uma vez de onde tinha puxado os bonitos olhos castanhos.

- Não fica com ciúmes? - Nick disse quase brincando.

- De quem? Da foto da sua mãe? - Jared quase não segurou o riso. - Claro que não, ela foi uma mulher maravilhosa, tenho certeza. - Jared dizia convicto. - Sei que não passou muito tempo com ela, mas você sabe que estou certo. - Ele concluiu e Nick parecia mais aberto a contar sua história.

- Eu traí o Mark. - Ele ainda não havia dito aquilo em voz alta, muito menos pensado sequer que um dia aquele verbo sairia de sua boca. Ele engoliu a seco e ficou com medo de olhar nos olhos de Jared, literalmente com medo de ser repreendido, pois sabia que não havia justificativa para aquilo.

- O que aconteceu? – Jared o surpreendeu com o tom calmo da pergunta.

- Estávamos num momento péssimo, Mark chegou num limite que... - Nick buscava organizar seus pensamentos. - Eu sei que não tem desculpas pra isso, mas foi algo que me deixei levar, simplesmente aconteceu.

- Eu sei como essas coisas funcionam. - Jared disse com o peso da experiência nas costas, especialmente porque ele mesmo mais de uma vez traiu Sandy enquanto eram casados. E seus motivos não eram igualmente justificáveis, apesar de não serem torpes. - Mas não preciso nem dizer que não deveria ter feito isso. - Jared assumiu um tom mais firme, quase paterno.

- Eu sei, eu sei... - Nick respondeu passando as mãos pelo rosto seguindo até os cabelos. - Eu preciso que ele me perdoe, Jared. - Seu olhar para seu praticamente padrasto era quase apelativo.

- Eu acredito que vocês vão resolver, mas conhece o filho que tenho. - Jared tocou o ombro de Nick. - Não vai ser nada fácil fazer ele te ouvir.

- Eu sei muito bem o que me espera. - Nick sorriu de canto, sabendo mesmo que a batalha seria longa e difícil.

- Imagino que tenha saído de casa. - Jared disse ao constatar o óbvio. - Seu quarto ainda está aí.

- Nem pensar. - Nick nem cogitou a possibilidade de voltar pra casa. Ainda mais agora que seus pais há anos estavam acostumados a viver sozinhos, ele sentia que iria atrapalhar, mas o problema principal é que ele sentia que aquilo era um retrocesso. E apesar de não ser uma pessoa orgulhosa, naquele momento ele se permitiu ser. - Sei que o papai vai chiar, mas queria saber se poderia ficar no seu apartamento no Brooklyn.

- Por mim, é claro que pode. - Jared disse sorrindo. - Está bagunçado, acho que precisa de uma boa limpeza pra tirar o pó. Fora isso, é todo seu. E eu sei que seu pai iria preferir que ficasse aqui.

- Eu sei, mas não dá, Jared. - Nick disse já se levantando. - Eu criei certa independência e você e o papai também. Não dá pra voltar atrás nisso. - Ele concluiu e Jared teve que concordar, apesar de saber que ele e Jensen, por terem sido praticamente pais solteiros, sabiam se adaptar às coisas como ninguém.

- Vou buscar a chave. - Jared disse e Nick apenas ficou na sala observando as coisas ao redor. Pensava em Mark e ao mesmo tempo se deu conta que nem sabia por onde começar a consertar o que havia feito.

x.x.x.x.x

Mark chegou à Clínica Central de Manhattan e deixou suas coisas no armário dos vestiários onde os enfermeiros e médicos residentes colocavam seus pertences. Saiu rapidamente de onde estava e andou pelos corredores até encontrar o neurocirurgião-chefe, James Lafferty – com quem já havia tido alguns problemas, pois era um médico extremamente exigente.

- Doutor. - James disse ao ver Mark e lhe entregou uma prancheta - Vou checar todos os pacientes que atender hoje. - O tom não era de incentivo ou motivação, era quase uma ameaça.

- Sim senhor, doutor. - Mark disse como se aceitasse o desafio. Apesar de estar tudo desmoronando na sua vida, iria se concentrar no que aparentemente sabia fazer melhor do que imaginava: praticar medicina.

Mark seguiu para o primeiro quarto, quando viu do que se tratava, pela primeira vez desde que entrou nessa carreira para ser médico neurologista. Constava em seu prontuário que se tratava de uma menina de cinco anos que tinha um tipo raro de câncer na hipófise – uma glândula localizada na base do cérebro.

Ele abriu a porta meio que torcendo pra não ver algo muito chocante que o fizesse desistir. Mas não, ele encontrou apenas uma simpática menina acompanhada do pai. Ela já não tinha cabelos, mas sorria ao ver o médico. Segurava um pequeno coelho de pelúcia e estava na cama, visivelmente debilitada, com soros nas duas mãos e muitos medicamentos pra tomar.

- Bom dia. - Mark disse tentando forçar um sorriso ao ver que a menina não parecia emocionalmente abalada. - Como está hoje, Penelope?

- Muito bem. - Ela respondeu brincando com seu coelho.

- Como vai, senhor Garcia? - Mark cumprimentou o pai da menina que não parecia ter a mesma animação, apesar de se esforçar na frente da menina.

- Bem. - Ele respondeu incerto. - Me diga que ela está melhorando. – pediu, esperançoso.

- Ela está bem, o câncer está estável e permanece do mesmo tamanho há um mês. Isso é uma ótima notícia. - Mark respondeu enquanto lia as informações no prontuário que continha o histórico da menina. Há dois anos ela estava em tratamento contra aquele tipo de câncer.

- Ainda não podemos operar? - Ele perguntou mais baixo como se não quisesse que a filha ouvisse.

- O que os médicos lhe disseram, senhor Garcia? - Mark perguntou estranhando a dúvida do pai, já que esse tipo de câncer é inoperável.

- Que poderiam arriscar a cirurgia se o tumor se estabilizasse. - Ele dizia como se aquela fosse a melhor notícia de todas.

- Eu fortemente lhe recomendo a não fazer isso. - Mark disse seguro, porém não sabia se estava na posição de dizer aquilo a um pai. Mas era verdade e ele sentia o peso da responsabilidade, a obrigação de ser claro com o homem.

- E o que faremos? Ela ficará fazendo quimioterapia até morrer? – seus olhos denunciavam o desespero que começava a crescer dentro de si.

- Estamos fazendo o que nos cabe, senhor. O objetivo maior é deixar Penelope confortável, praticamente saudável. No entanto, os riscos de uma cirurgia no caso dela são maiores do que as chances de um real benefício. - Mark dizia tentando ter a mesma frieza de um médico que via aquilo acontecer todos os dias, mas devido aos acontecimentos recentes na sua vida, sentiu-se demonstrando mais emoção do que deveria.

- Certo. - O pai olhou a filha brincando com seu bichinho de pelúcia, parecia oferecer chá para ele com sua pequena xícara de plástico cor-de-rosa. Os ombros do homem pareceram agora carregar uma tonelada e ainda assim ele tentava sorrir sempre que a menina voltava os olhos para a ele - Acho que você está certo.

A voz dele era um sopro repleto de dor e Mark sentiu o peito doer com a ideia de que aquela seria a realidade da sua profissão. O médico se aproximou do criado mudo e verificou as bandejas com os remédios de Penelope. Queria ter certeza de que havia atentado para tudo no que diria respeito aos pacientes atendidos. Lembrava das duras palavras de Lafferty em seu último descuido. Não queria passar por aquilo novamente e, mais que isso, não queria que seus pacientes corressem riscos desnecessários.

Observando a bandeja de medicamentos sentiu falta de alguma coisa. Avisou ao pai da garota que voltaria em breve e saiu sem dar maiores detalhes. Andou a passos largos atrás de Lafferty, checou novamente a prancheta e lembrou-se do que viu, não queria cometer nenhuma gafe. Encontrou o neurocirurgião-chefe no quarto de um dos pacientes e discretamente o chamou até a porta.

- Que é, Padalecki? Algum problema? - Lafferty disse com o ligeiro mau humor típico.

- Fui ver Penelope Garcia, senhor. - Mark começou cuidadoso e detalhista. - E não vi os comprimidos de maleato de sunitinibe. Achei que ela tomasse.

- Esse remédio custa 20 mil dólares, acha que o pai dela tem dinheiro pra isso? Não seja ingênuo. - Lafferty disse e Mark arqueou as sobrancelhas.

- Sim, mas... - Mark não sabia se era um absurdo ele se indignar com aquela resposta ou se era o fato de James ter sido tão frio. - Ela não pode continuar fazendo quimioterapia. Vai durar um ano ou dois! O tratamento vai "engolir" o cérebro dela e matar todo o sistema imunológico. A melhor maneira seria que ela tomasse os comprimidos porque...

- Doutor! - James Lafferty chamou-o pelo título que buscava como se quisesse mostrar a ele quem ele deveria ser. - Acha mesmo que outros cinco ou seis neurologistas não pensaram nisso antes que você?

- Eu realmente espero que tenham pensado. - Mark disse provocando.

- Eles não têm dinheiro pra bancar outro tratamento. - James disse com mais calma, como se tivesse renovado a paciência que tinha com alguns médicos novatos. - Achou que ser médico se tratava de curar gripes, resfriados e um pouco de sangue em algum corte em função de um jogo qualquer ou esporte? São essas coisas com as quais vai ter que lidar. Acostume-se ou vá fazer outra coisa.

- Não estou me queixando da medicina. - Mark afrontou no momento em que Lafferty insinuava dar as costas. - É injusto que uma menina de cinco anos tenha câncer? Claro que é, mas não temos controle sobre isso. Merdas acontecem. - Mark mal pode acreditar que disse aquilo ao chefe de neurologia da Clínica, um renomado médico com pós-doutorado na Alemanha. - Só estou dizendo que não é ato solidário da nossa parte mostrar alternativas a um tratamento, pois esse é o nosso trabalho. Curamos e salvamos quando é possível, e quando isso foge das nossas mãos, temos que no mínimo ser honestos.

- Esse é um problema de dinheiro e não de saúde. - Lafferty agora estava a beira de ficar furioso. - Isso foge as nossas mãos. Está indignado com o preço? Vá atrás das indústrias farmacêuticas.

- Acho só que o senhor poderia ter feito alguma coisa, ter encaixado ela num sistema público de saúde, dar alternativas ao pai dela como procurar órgãos jurídicos para conseguir prolongar a vida da filha. - Mark respirou fundo e resolveu se acalmar, estava tornando aquilo tudo muito emocional.

- Esse não é o nosso trabalho, Padalecki. - Lafferty dizia convicto e quase num sussurro. - Acho que você precisa voltar ao primeiro semestre da faculdade pra saber o que é Medicina. Aparentemente você esqueceu ou aprendeu errado.

- Acho que o senhor é quem deveria relembrar o juramento de Hipócrates que com certeza fez em sua formatura, quando jurou ser "sempre fiel aos preceitos da honestidade, da caridade e da ciência". Talvez a parte da caridade tenha se perdido no meio do caminho.

Mark deu as costas ao professor, não esperando que este respondesse. Andou pelo corredor pisando duro, querendo ignorar as retaliações que certamente viriam devido a seu comportamento. Mas deu de ombros, imaginando que seu juízo estivesse um pouco abalado pelo que aconteceu com ele e Nick.

Sabia que não poderia salvar todos os pacientes e que, infelizmente, saúde e situação financeira eram uma dualidade no mundo inteiro, mas não queria se tornar aquele tipo de médico que não se importava com as pessoas. Sabia que não poderia se envolver, mas isso não significava que ele não poderia fazer algo de bom que fosse além de dar diagnósticos e prescrever remédios.

Voltou a seu armário e buscou entre seus livros algum que falasse o que precisava saber com certeza, porém não encontrou o livro específico que precisava. Imaginou que tivesse deixado em casa talvez. Não ia ter tempo de buscar, talvez ele pudesse ligar pro Nick e... Bem ele não poderia fazer isso, não é mesmo? Ou poderia, afinal, era algo importante, não apenas uma desculpa pra falar com ele. Ele tentava se convencer daquilo ao mesmo tempo que pegava o celular e ligava para o, agora, ex-namorado.

Demorou alguns toques para que o loiro atendesse, talvez ao ver o nome de Mark no visor, ele se perguntou se deveria atender ou não. O moreno alto estava prestes a desligar, mas a voz do outro soou do outro lado da linha.

- Mark? - Nick perguntou pra ter certeza de que era realmente ele.

- Ei. - Ele disse meio que tentando disfarçar a vontade de chorar que apareceu vinda do nada. - Preciso que me faça um favor se não estiver ocupado.

- Pode falar. - Nick disse quase como se estivesse falando com um completo desconhecido.

- Preciso do meu livro de Oncologia, aquele de capa vermelha. Acho que deixei em casa.

- Eu sei qual é. Precisa dele agora? Posso levar para você. - Ele quis parecer prestativo e tinha esperança de que ao ver o outro, talvez as coisas fossem ser diferentes.

- Certo, estou na clínica. - Mark respondeu. – Quando chegar na recepção, pode dizer que veio me entregar algo, estarei na sala dos residentes.

- Tudo bem, logo estarei aí.

Ambos desligaram sem se despedir como estavam acostumados e Mark achou que aquilo foi mais fácil do que ele pensou. Talvez com o tempo e pelo tempo que passaram juntos, poderiam se tratar no mínimo como adultos, até mesmo porque eles não poderiam "se livrar" um do outro. Seus pais se casariam em breve.

Voltou a pensar em Penelope. Enquanto pensava em no casamento de seus pais, achou que seria uma boa ideia falar com Jensen. Talvez ele já soubesse de tudo e a conversa seria um pouco estranha. Mas queria manter um bom relacionamento com Ackles e não apenas por questão de família, mas porque ele era também um médico no qual Mark se espelhava.

- Mark. - A voz de Jensen do outro lado da linha não havia mudado. Continuava como sempre foi.

- Como está, Jensen? - Mark perguntou educado e mais tranquilo ao perceber que não havia nenhum constrangimento entre eles dois.

- Estou bem, filho. - Jensen parecia inseguro de perguntar de volta, certamente já sabia o que havia acontecido. - Sinto muito pelo que houve com você e Nick.

- Está tudo bem, Jensen. - Mentiu o jovem médico. Não sabia muito bem como continuar aquela frase. - Mas estou ligando por outro motivo. É algo sobre a clínica.

- Certo, o que houve? Está com alguma dúvida? - Jensen agora parecia mais mentor do que nunca.

- Tem uma garotinha aqui com câncer na hipófise.

- Sinto muito que tenha que lidar com isso justamente agora. - Ackles entedia muito bem do que aquilo poderia se tratar.

- É, mas eu quero ajudar ela e...

- Mark... - Jensen o interrompeu como se quisesse dar logo um choque de realidade no garoto. - Não sei se irá encontrar algum neurocirurgião no mundo que irá arriscar operar essa menina. Eu mesmo não o faria.

- Eu sei, Jensen, também acho a cirurgia uma péssima ideia. Mas queria ajudar de alguma forma. Pelo menos a conseguir um tratamento alternativo adequado. Você sabe bem que o maleato de sunitinibe é muito caro. A família não tem condições de pagar por ele.

- Eu sei, existem formas jurídicas ou quem sabe por doações... É um medicamento caro mesmo. - Jense suspirou do outro lado d alinha, já tinha lidado algumas vezes com esse tipo de problema. - Posso ajudar falando com algumas pessoas.

- Obrigado, Jensen. Sério mesmo. - Mark permitiu-se ficar até mais tranquilo ao ouvir aquilo.

- Tudo bem, sei o que está sentindo. - O loiro disse do outro lado da linha. - Essa luta interna entre fazer o que é certo e justo ao mesmo tempo, mas saber que tem limitações.

- Todo médico tem complexo de Deus então? - Mark brincou. - Achei que era um mito.

- Não, não é. - Jensen também riu. – Mas o problema é que muitos médicos se acham deuses e esquecem de serem apenas humanos. E como ser humano você pode fazer muito.

- Eu sei, é que... Eu quero fazer mais, Jensen! Só preciso de espaço. - Mark dizia enquanto andava de um lado para outro sozinho no vestiário.

- Sempre pode fazer trabalho voluntário, na Clínica de Manhattan especialmente. - Jensen disse e foi como se uma ótima ideia que nunca passou pela cabeça de Mark.

- É mesmo? - Mark pareceu animado.

- Acho que isso vai ajudar inclusive você a se manter um pouco ocupado e não ficar aí, na fossa trabalhando sob pressão.

- É, Dr. Lafferty é difícil.

- Lafferty? James Lafferty? - Jensen reconheceu o nome. - Ele é um excelente médico, mas uma péssima pessoa! - Ackles até riu ao dizer aquilo sobre seu velho colega de profissão. - Ande na linha com ele, ele não terá dó de você.

- Sei muito bem disso. - Mark sorriu como se tivesse dezesseis anos e lembrasse das coisas que aprontava na escola e era repreendido por algum professor, pensando que havia comprado uma briga com a pessoa errada.

- Fale com o doutor James, Bradley James. Ele é o médico responsável pela ala dos voluntários aí, trabalha com crianças, adultos, idosos... Ele vai ficar feliz em saber que você está interessado. Ele é formado há pouco tempo também. Veio recentemente da Inglaterra e logo implantou as técnicas que aprendeu no Instituto Gesundheit, na Virgínia.

- Ele trabalhou com a equipe do Patch Adams? – Mark pareceu surpreso e empolgado com a informação – Bradley James. Anotado.

- Qualquer coisa me ligue, estou aqui pro que precisar. - Jensen certamente não estava somente se referindo à medicina e Mark sabia.

- Obrigado, Jensen. E digo o mesmo. - Ele sorriu antes de desligar e logo andou até a recepção pra saber quem era o jovem médico com quem ele deveria falar.

Ele chegou ao extenso balcão onde atendentes e enfermeiros circulavam sempre rumo à emergência ou apressados às salas de cirurgia. Nada que ele já não estivesse acostumado a ver todos os dias.

- Ei, Lisa. - Ele chamou por uma das secretárias responsáveis pelos formulários dos pacientes. - Onde posso encontrar o doutor Bradley James? Conhece ele? - Ela abriu um sorriso ao ouvir o nome dele.

- Mas é claro que conheço, todas as mulheres dessa clínica conhecem. - Ela riu sem tirar os olhos do computador. - Ele está bem ali. - Ela apontou para a emergência onde o médico tinha um nariz divertido de palhaço e brincava com uma criança que ria alto, de uma maneira contagiante, enquanto ele parecia imitar a voz de um personagem de desenho animado.

- Ah tá, valeu. - Mark disse saindo de onde estava e indo na direção do médico. Levou alguns minutos para se aproximar, parecia que não queria atrapalhar.

Ele fez um sinal discreto de que queria falar com o médico e o mesmo logo se despediu da criança e de sua mãe, que pareciam muito satisfeitas e andou na direção de Mark. Ambos passaram a andar juntos até o corredor do hospital, perto da recepção.

- Doutor Bradley James. - O loiro alto de olhos verdes se apresentou e agora Mark entendia o motivo da empolgação de Lisa. Ele era realmente bonito, tinha um sorriso cativante e o sotaque britânico lhe davam um charme peculiar.

- Doutor Mark Padalecki, sou residente na neurologia. - Mark se apresentou e ambos pararam perto do balcão enquanto Bradley parecia preencher alguma ficha de paciente. - Queria me juntar à ala dos voluntários, me indicaram você aqui no hospital.

- Que ótimo, doutor. - Bradley respondeu e agora dava sua total atenção a Mark. - Esse tipo de ajuda é sempre boa e muito rara eu diria, todo mundo aqui é muito ocupado.

- Acho que vai ser uma boa experiência pra mim. - Mark disse tentando disfarçar a tristeza. - Preciso me distrair e trabalhar muito.

- Bom, precisamos de alguém pra ficar aqui a noite. - Bradley disse enquanto dava uma checada rápida na grade de horários. – Gostamos de contar histórias e cantar para as crianças antes delas dormirem. Uma boa noite de sono é capaz de curar muitas doenças, Mark. Especialmente as do coração. – ele sorriu de lado, os olhos brilhando feito um menino e Mark entendeu que não havia conseguido disfarçar bem seus sentimentos.

- Sim, concordo com isso. Então, eu estou livre as noites. Posso começar hoje?

- Com certeza! É ótimo ver a sua empolgação.

Mark ficou encarando o médico tão jovem e tão bonito. Conversaram mais algum tempo sobre o projeto, Bradley dizendo que se Mark quisesse poderia tocar violão ou outro instrumento para as crianças, contou que sua dedicação ao trabalho voluntário veio de berço, acompanhava os pais que eram voluntários num orfanato em Cambridge e tomou gosto pela coisa. Já estavam há uns quinze minutos conversando quando o pager de Bradley tocou e ele se despediu, dizendo que tinha um chamado.

- Mas então, hoje as nove horas, pode ser? - Mark viu atrás dele um rosto conhecido, que parecia não ter gostado muito do que tinha acabado de ouvir.

- Pode ser sim. - Mark assentiu com a cabeça, distraído pela presença de Nick.

Bradley sorriu e se afastou, notando o rapaz loiro que parecia estar esperando por Mark. Mas antes que os dois pudessem se cumprimentar, o médico britânico voltou tirando um post-it azul turquesa do bolso, anotando alguma coisa e estendendo para Mark.

- É meu telefone. Caso se atrase hoje a noite.

Mark pegou o papel e Nick queria que um raio caísse sobre a cabeça do médico que corria com um jaleco branco que eles notaram depois tinha o símbolo do Batman desenhado nas costas.

Eles se olharam por alguns segundos sem saber muito bem como agir. Nick, é claro, só conseguia pensar que não fazia nem 24 horas que eles haviam terminado e Mark já estava marcando encontros com outra pessoa.

- Seu livro. - Nick entregou o livro para o outro, de qualquer jeito.

- Obrigado. - Mark disse baixo e Nick já não tinha mais nada pra dizer, porém não queria ir embora. Estava com raiva, mas não podia fazer nada. Mark desviou o olhar para seu próprio livro.

- Precisamos conversar. - Nick disse por fim. -Mark, eu acho que...

- Eu não quero conversar, Nick. - Mark foi sincero. - Não estou pronto, não quero falar disso.

- Estou falando da despedida de solteiro dos nossos pais. - Nick disse de um jeito meio ríspido e Mark ficou sem graça por um momento.

- Claro, eu te ligo. - Padalecki disse já preparando para sair. - Obrigado por trazer.

- De nada. - Nick respondeu, mas Mark já estava andando rápido pelo corredor e nem ouviu. Ackles mordeu o lábio inferior e saiu do hospital com passos firmes.