FIFTEEN
British Accent
Assim que começou a andar pelo corredor do Conservatório de Música da NYU, Nick finalmente se deu conta de quem eventualmente veria naquela tarde. Ele não sabia muito bem como lidar com a situação, queria ser seguro e maduro, mas ainda assim preferia evitar qualquer contato seu professor. Tudo tinha acontecido rápido demais e muita coisa aconteceu apenas no espaço de uma noite e uma manhã.
Entrou na sala, acompanhado de outros colegas que também chegavam. Kerr estava atento a alguns papéis e parecia fazer os últimos ajustes para começar a aula. Nick sentou-se em seu lugar de sempre e, pela primeira vez que entrou na faculdade de música, não queria estar ali. Estava um pouco ansioso até por como seria sua abordagem em relação a Kerr e, principalmente, qual seria a dele.
O professor finalmente olhou a pequena plateia que sempre se formava em suas aulas e Nick percebeu que ele discretamente o procurava entre os alunos. Os olhares deles se encontraram por alguns segundos, mas Nick permaneceu inexpressivo e Kerr lhe lançou um sorriso discreto.
- Professor! - Um aluno levantou uma das mãos lá do fundo da sala. - Teve show do John Mayer ontem!
- Sim, foi excelente. - Kerr respondeu com um brilho diferente e, por um momento, Nick temeu que ele dissesse alguma coisa sobre o fato de terem ido juntos. - Alguém mais foi ao show? - Para surpresa dele e de Nick, alguns alunos levantaram as mãos indicando que tinham ido. Nick agradecia aos céus por Nova York ser tão grande naquele momento. Ele, obviamente, não levantou a mão indicando que foi ao show.
- Ele é um ótimo músico. - Uma das meninas disse tentando parecer "profissional", mas no fundo todos sabiam o porquê as mulheres gostavam de John Mayer, especialmente pelo fato dele ter namorado metade das mulheres de Hollywood. - Katy Perry tem muita sorte! - Ela brincou referindo-se a cantora pop, noiva de John Mayer, e todos riram.
- Já que estamos no clima de Mayer, que tal falarmos de blues? - Kerr se animou e iniciou sua aula como se realmente estivesse de bom humor. Nick prestou atenção como sempre fazia, mas agora era inevitável pensar em Mark toda vez que olhava seu admirado professor. Ou melhor, lembrava-se de seu erro.
Ficou aliviado assim que a aula acabou. Talvez estivesse bom para um primeiro reencontro. Mas ele queria mais era juntar suas coisas e dar o fora dali o mais rápido possível. Ainda tinha mais duas aulas aquela tarde. Porém, enquanto os alunos saíam, Kerr pediu a Nick que esperasse. Ele não se surpreendeu, sabia que aquela possibilidade existia e, já que não tinha mesmo pra onde fugir, era melhor deixar as coisas claras logo de uma vez.
- Nick. - Ele começou daquele jeito tentando não parecer invasivo, mas já sendo.
- Professor. - Nick meio que o interrompeu e não o chamava mais pelo nome.
- Sei que queria um tempo para clarear as ideias, só queria deixar claro que a noite foi incrível. - Ele era bem mais velho que Nick, mas agora parecia um adolescente.
- Isso não vai mais acontecer, certo? - Nick respondeu seco, sem se preocupar se pareceria áspero. - Na verdade, a culpa foi minha. Você é solteiro, e por mais que meu relacionamento estivesse afundando, eu não deveria ter feito aquilo. Mark cometeu erros também e de certa forma acredito que ele merecia isso de mim, mas eu sou melhor do que isso e não deveria ter deixado as coisas entre nós chegarem aonde chegaram. - Nick dizia e Kerr permanecia naquela expressão de quem ia aos poucos perdendo qualquer esperança que tinha. - Preciso dar um jeito de consertar o erro. E não estou dizendo que foi ruim, só quero dizer que não deveria ter acontecido.
- Uau. - Kerr tentou parecer natural e, mesmo dando um passo involuntário para trás, não conseguiu disfarçar a decepção. - Está certo então. Você é quem deve saber o que é melhor pra você.
- Você é bonito. - Nick continuou sincero, não estava apenas tentando amenizar as coisas. - É inteligente, é um homem bem sucedido... Seu último problema na face da terra é arrumar alguém pra ficar com você, tenho certeza. Então não me sinto culpado por estar te dispensando. - Ele sorriu, brincando como se quisesse cortar o clima pesado. - Ainda estou estudando, não tenho grana, não tenho emprego, nem sei por onde começar depois que sair da faculdade e vou ter que morar no apartamento do meu padrasto no Brooklyn... - Ele riu da situação, realmente aquilo tudo o fazia soar como um verdadeiro perdedor. - Você é formado em Juilliard, é maestro, tem doutorado e é um dos professores que os alunos mais disputam pra ter aulas na NYU. Seu apartamento é em Upper East Side. - Kerr se permitiu rir da comparação. - Nem que eu quisesse, estaria a sua altura.
- Nada disso importa num relacionamento. – Kerr retrucou depressa demais.
- É claro que importa e você sabe disso. - Nick disse já se preparando para se retirar da sala. - Você ainda é meu melhor professor e espero que continuemos trabalhando juntos... - Ele fez uma pausa antes de continuar. - Mas não seremos nada mais além de, no máximo, amigos.
- Eu agradeço a honestidade, Nicholas.
- Não precisa agradecer por isso. - O loiro sorriu despedindo-se e deixou a sala. Não tinha sido fácil, mas finalmente ele tinha conseguido. Aquilo era o primeiro passo para tentar consertar tudo.
O próximo? Ele precisava de ideias, precisava de sugestões. E já sabia pra quem ligar.
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Mark Padalecki, só pra variar, ainda estava na Clínica. Mas naquela noite, era por uma boa causa. Ele lia o livro que seu pai lhe deu de aniversário até porque queria ter algumas ideias, algo diferencial para trabalhar com os pacientes que eram atendidos por voluntários. Sentia que Bradley tinha muito a ensiná-lo.
Eram sete horas da noite e ele estava em um dos quartos dos pacientes. Um senhor que tinha acabado de operar o quadril, parecia que tinha escorregado na frente de casa. Padalecki checava a medicação e falava com a esposa dele, dando dicas e comentando sobre como pessoas da idade deles deveriam prestar atenção especial ao tipo de calçado que usavam, pois quedas naquela idade eram muito comuns. E depois de certa altura da vida, seu corpo não se recupera mais como antes.
Alguém abriu a porta sem bater e, quando ele olhou, viu que se tratava do Dr. James Lafferty, seu chefe.
- Doutor, na minha sala quando terminar. - Ele não cumprimentou os pacientes e sequer falou qualquer coisa com Mark antes. Definitivamente ele parecia furioso. Ele bateu a porta e Mark despediu-se do casal calmamente, sem nenhuma pressa e com toda educação que seu pai tinha lhe dado.
Ajeitou o jaleco branco e saiu do quarto andando a passos largos até a sala de Lafferty. Antes mesmo de entrar, Padalecki o viu de costas encarando a janela com a vista mais bonita dentre todas as alas do hospital. Ele era o neurocirurgião-chefe afinal de contas. Mark entrou na sala após um suspiro, já sabia que estava encrencado por algum motivo que não tinha certeza. O que será que James queria com ele? Ou melhor, qual das coisas que ele tinha feito James descobriu? Sentiu uma sensação familiar, igual àquela que sentia quando era chamado na sala de Jim Beaver quando estava na escola.
- Pois não, doutor. - Ele entrou e deixou que a porta de vidro se fechasse sozinha atrás de si.
- O que você fez, hein? - Ele disse e Mark realmente constatou que ele estava furioso. Ele jogou alguns papéis na direção do moreno alto que não estava entendendo nada.
- Nada! - Mark respondeu sem ter certeza, lógico. - Eu acho.
- Sabe o que é isso? - James perguntou obviamente ciente de que Mark não faria ideia, tanto que não se surpreendeu quando o garoto à sua frente balançou a cabeça negativamente. - Isso são liminares judiciais que obrigam o laboratório farmacêutico responsável pelo maleato de sunitinibe a dar os comprimidos para Penelope.
- Que ótimo! - Mark nem conteve a felicidade ao saber. Não entendeu porque Lafferty tinha achado ruim.
- Sabe que somos parceiros desse laboratório. - O neurocirurgião dizia ríspido. - Agora vamos ficar mal vistos com eles.
- E daí? - Mark praticamente debochou. - Isso vai conseguir prolongar a vida dela, ela é só uma criança! Ela vai poder ter uma vida relativamente mais saudável, sem precisar ser enfraquecida o tempo todo por quimioterapia. Não estou vendo problemas nisso.
- Você não entende nada de administração hospitalar, Padalecki. - James quase vociferou. - Isso é questão...
- Burocrática. - Mark o interrompeu. - Nada mais. São papéis e números. Estou mais preocupado com pessoas. - Ele não dizia se gabando de ser uma boa pessoa, mas sim como se aquilo fosse além do óbvio.
- Isso vai custar um parceiro para a Clínica. Eles certamente não vão mais fazer negócios conosco. - James olhou os papéis em cima da mesa e voltou a concentrar-se no fato de chamar o advogado da Clínica para derrubar aquela liminar ou não. Ele sabia que ia ser o homem mais cruel de todos se tirasse isso da menina. - Você nos custou dinheiro, Mark.
- Não vou me desculpar por isso. - Mark deu de ombros. Ele poderia ter crescido, mas ainda tinha aquela marra clássica de adolescente.
- Vai perder sua residência na Clínica. - James disse sério.
- O que? - Mark não queria se mostrar abalado, mas agora realmente era o pior dos momentos para ele ouvir aquilo. Especialmente porque ele precisava se formar.
Antes que James pudesse dizer outra palavra, alguém, também vestindo branco, entrou na sala sem bater. O loiro alto tinha por volta dos seus cinquenta anos e Mark se surpreendeu ao ver de quem se tratava.
- Ackles. - James disse ao ver Jensen se colocando ao lado de Mark o cumprimentando discretamente. - Lenox Hill Hospital é um pouco mais longe daqui. Errou o caminho do trabalho? - Apesar de ser uma ironia, não foi nada muito sério.
- Mark, pode me esperar lá fora? - Jensen dirigiu-se a seu enteado sem dar atenção a James. Sem entender, Mark acenou com a cabeça e deixou a sala de Lafferty.
- Faz muitos anos. - James disse saindo de trás de sua mesa a fim de ficar mais perto de Jensen. - Do que precisa?
- De nada. - Jensen respondeu tranquilo. - Só vim avisar que o responsável por essa liminar sou eu e Christian. - Ackles continuou apontando discretamente com os olhos para os papéis em cima da mesa de James.
- Por que será que não estou surpreso. - James suspirou realmente nenhum pouco impressionado.
- E se está pensando em derrubá-la, saiba que vai se queimar com a comunidade médica. - O pai de Nick poderia até fazer ameaças, mas aquilo nem precisava ser uma. Era lógico e evidente que isso "pegaria mal" entre os médicos que ficassem sabendo.
- Jensen, você conhece essas coisas tão bem quanto eu! - Lafferty praticamente se defendia. - De vez em quando temos que ser filhos da puta, também é parte do trabalho!
- Também é parte do trabalho correr alguns riscos de vez em quando! - Jensen respondeu no mesmo tom exaltado que James estava começando a criar. - Você queria operar essa menina, pelo amor de Deus.
- Você acabou de falar em correr riscos e agora está me condenando? - O moreno alto deu um passo para trás sem entender.
- Não esse tipo de risco. Porque isso é burrice. - Jensen ia se acalmando, respirou fundo antes de continuar. - Eu e Christian pedimos a liminar porque é justo, não foi de propósito para prejudicar você ou a Clínica.
- Eles são nossos parceiros, Ackles, isso também se trata de negócios. - James dizia mais como empresário agora do que como médico.
- Nós três fizemos faculdade juntos. - Jensen relembrou como se realmente fizesse mais tempo que parecia. Lafferty apenas se calou. - Tivemos as mesmas aulas, os mesmos professores, estudamos com os mesmos livros... Como pode ser que você tenha se saído tão diferente?
- Eu sou responsável por esse hospital. - James dizia, orgulhoso.
- Katherine é responsável por ele. - Jensen dizia convicto. - E por acaso é a mulher do Christian. - James se surpreendeu ao ouvir aquilo.
- Kane e Cassidy? - Lafferty achou estranho.
- É, eu sei, nada a ver né? - Jensen até brincou.
- Nada. - Lafferty riu. E parecia que o clima pesado já não era mais tão pesado assim.
Fez-se silêncio entre eles por alguns segundos. James voltou a olhar os papéis em sua mesa ao lado do telefone do advogado da Clínica. Jensen o conhecia bem e sabia que ele era difícil, mas acabaria cedendo, pois era acima de tudo um grande médico.
- Por mais que seja difícil, me conhece desde a faculdade, Lafferty, portanto peço que acredite que minha opinião é imparcial nisso. - Jensen disse e James não tirou os olhos de sua mesa. - Mark é um dos melhores alunos que tem. Ele vive nesse hospital, isso custou o relacionamento dele... - Ackles dizia com pesar na voz. - Pergunte-se, faça uma reflexão pessoal agora e responda: você era assim na faculdade? - Jensen até riu ao lembrar todas as farras que ele e Christian aprontavam com James. - Sabe que esse moleque se esforça mais do que qualquer outro residente aqui. E ele só tem 24 anos.
- A metade da nossa idade. - James riu e ficou mais relaxado. - O garoto é brilhante realmente. Tem certo problema em respeitar autoridade... - James disse e Jensen praticamente gargalhou. Sabia muito bem do que o colega de profissão estava falando. - Porque se ele pensa que eu não sei tudo que ele já fez aqui passando por cima do que eu mandei ele fazer, está é muito enganado. - Ele concluiu mostrando que realmente Mark não o enganava.
- Deixe esses garotos trabalharem. - Jensen dizia com aquele tom sábio de quem já tinha vivido bastante. - Não vamos estar aqui pra sempre, Lafferty. Na verdade, vamos nos aposentar logo, estamos beirando os cinquenta. - Jensen riu reparando que James tinha parte do cabelo ficando grisalho, assim como ele. - É a vez deles. E espero que, assim como eu, sinta-se orgulhoso por fazer parte do aprendizado deles todos, não só de Mark, mas de todos esses residentes que estão aqui. Dê uma chance a eles, é seu trabalho ensinar medicina, não apenas praticá-la.
- É uma atitude mesmo muito nobre essa de passar conhecimento adiante. - Lafferty deu-se por vencido e estendeu a mão ao colega e amigo. - Quando se aposentar, me avisa que vamos pescar. Se é que ainda adora fazer isso.
- Sempre. - Jensen riu retribuindo o cumprimento. - Precisa conhecer Jared, pai do Mark.
- É, sempre desconfiei de você. - James agora riu alto referindo-se a sexualidade de Jensen.
- Eu namorava Danneel! - Jensen riu também. - Desconfiava de que? Nem vem! - Os dois riram e se despediram rapidamente. Lafferty parecia mais calmo e resolveu não recorrer à liminar, apenas acatou o pedido do juiz. Pegou o telefone e parecia conversar com uma das enfermeiras da recepção.
Jensen deixou a sala e foi a procura de Mark. Viu pela grande janela de vidro que dava para o corredor, que ele estava examinando um paciente numa pequena sala usada para diagnóstico. O garoto tinha os cabelos bem maiores do que o normal – provavelmente se esquecia de cortar – a barba feita, estava todo vestido de branco e seu jaleco já tinha seu nome, um bordado não muito preciso, onde dizia "Dr. Mark Padalecki, residente". Jensen observou que ele tinha um estetoscópio no pescoço e ouvia com atenção uma mulher que parecia dizer onde sentia dores. Ele estava em pé e ela sentada em uma maca.
Sentiu um orgulho incomum, diferente. Não era seu filho afinal de contas, então não podia ser igual. Era quase que maior, afinal de contas inspirar uma pessoa que não tem o seu sangue a fazer uma coisa que ela pensou nunca fazer na vida, era impagável, era... Era indescritível. Imaginou que se Jared soubesse que todos os caminhos difíceis que percorreu o levariam até ali, com certeza o percorreria quantas vezes fossem necessárias.
A mulher saiu da sala com alguns papéis em mãos quando Mark abria a porta para ela sair. Parecia dar instruções de onde ela deveria ir para que fizessem os exames.
- Jensen! - Ele se empolgou ao ver o médico ainda ali. Estranhou a atitude, mas Ackles lhe deu um demorado abraço. - Eu estou bem, tio Jensen. - Ele disse um jeito quase infantil. - Não se preocupe comigo. - Achou que o abraço se devia ao fato de ter tido seu rompimento com Nick.
- Eu sei. - Ackles respondeu quando o soltou. - Só queria dizer que é realmente um grande homem apesar de tudo. - Ele foi sincero e Mark não deixou de se surpreender. - E por isso sei que você e Nick vão acabar se acertando. - Ele concluiu e Mark apenas sorriu de canto baixando os olhos, como se não tivesse a mesma certeza de Jensen.
- Estou tentando não perder minha residência no momento. - Mark respondeu voltando a olhar Jensen. - Uma coisa de cada vez.
- Não se preocupe, James é fogo de palha desde a faculdade. - Jensen riu ao responder e Mark sorriu de volta fazendo Jensen se lembrar de Jared com aquelas covinhas.
- Sei que essa liminar foi coisa sua. - Ele disse e ambos riram. - Obrigado por aquilo, me sinto bem por ter feito alguma coisa que teoricamente estava longe do meu alcance.
- A sua sorte é que Katie é casada com Christian e foi ele quem arranjou tudo isso. - Jensen eslcareceu e Mark ficou até surpreso, não sabia daquilo apesar de ter uma vaga lembrança de que Nick havia comentado sobre o assunto.
- Agradeça a ele também então. - Mark concluiu.
- Por que não faz isso você mesmo vindo jantar conosco hoje? Eu e sei pai vamos organizar um jantarzinho lá em casa. Apareça. - Jensen convidou imaginando que Nick também receberia o mesmo convite. Talvez fosse uma tentativa forçada de seus pais para fazer eles se acertarem.
- Adoraria, Jensen, mas hoje começo meu voluntariado. - Mark disse orgulhoso de si. - Falei com doutor Bradley e marcamos pras nove da noite. Estarei aqui pra ajudar ele e observar pra aprender como tudo funciona.
- Que ótimo, Mark! - Jensen realmente ficou feliz ao ouvir aquilo. - Tenho certeza que vai gostar muito, até porque Bradley é um excelente médico, tenho certeza que vão se dar bem trabalhando juntos.
- Espero que sim. E isso inclusive me lembra que tenho que te agradecer por indicá-lo também.
- Imagine, não foi nada. Fico feliz com sua iniciativa. - Jensen concluiu e abraçou o jovem médico despedindo-se dele. - Agora vá falar com James, ele está te esperando.
- Vou tentar me desculpar, quem sabe ele volte atrás. - Mark respondeu enquanto ele e Jensen andavam e direções opostas. Jensen riu apenas e o garoto andou com pressa até a sala de seu chefe. Não sabia muito bem o que esperar, mas estava mais tranquilo depois de ver Jensen por lá.
Ele parou em frente a porta de vidro ao ver que James estava ao telefone, esperando que ele lhe desse sinal pra entrar. Assim que o médico desligou chamou por Mark, que entrou na sala parecendo um soldado comportado. Jogou os cabelos para trás e encarou o médico que, com o cenho franzido, o encarou de volta.
- Eu tenho dobro da sua idade. - Lafferty começou saindo de trás de sua mesa. - O dobro da experiência e o dobro do conhecimento.
- Eu sei, doutor. - Padalecki respondeu, de maneira um tanto quanto humilde.
- Então não pense que me engana. Já usei esse jaleco de residente muito mais tempo do que pode imaginar. Então não pense que pode fazer as coisas pelas minhas costas. - Lafferty sentou-se em sua mesa pra continuar a falar.
- Mas eu avisei o senhor sobre Penelope! - Mark disse tentando se justificar. - Não fiz nada pelas costas.
- E quando pretendia me contar que ligou pra Jensen Ackles? - Lafferty desafiou e Mark não tinha uma boa resposta. - Ou dos exames de sangue que pede pras enfermeiras quando suspeita de alguma coisa sem me consultar primeiro? Ou de quando entrou na sala de ressonância magnética e decidiu fazer o exame sozinho como se tivesse conhecimento e autorização pra fazer aquilo sem outra pessoa responsável. - Mark estava dividido entre o medo e a surpresa de saber que seu chefe estava por dentro de todas as coisas que ele havia feito sem pedir autorização dele primeiro.
- Doutor... Eu... - Ele tentou se explicar, mas sem muito sucesso.
- Não te recriminei porque confio em seus instintos, Padalecki. - James disse sincero, porém ainda sério. - Mas não ache que isso aqui é algum tipo de filme ou série de TV. Seja responsável! É a única coisa exigida de você aqui fora de seu conhecimento médico.
- Eu vou ser, eu vou ser. - Mark apressou-se em responder. - Eu vou pedir sua autorização sempre daqui pra frente.
- Vai mesmo. - James disse voltando a ficar em pé e cruzar os braços. - Todo mundo nesse hospital já está ciente de que nada do que você pedir será feito se não tiver minha assinatura no papel.
- Certo. - Mark disse ligeiramente frustrado, mas nem pensou em retrucar. Antes que seu chefe pudesse voltar a falar, seu pager tocou mostrando o número de Bradley James.
- Pode ir. - Lafferty concluiu e Padalecki praticamente saiu correndo enquanto agradecia. Eram quase nove horas da noite.
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Nicholas Ackles mal tinha encostado na comida, mas não quis fazer desfeita a seus pais. Sentou à mesa na hora do jantar e distraiu-se com a conversa conforme podia. Christian Kane estava presente, com sua esposa Kate Cassidy, naquele clima recém-casados e Jensen não deixou de pensar que só mesmo um mulherengo como Christian poderia acabar se casando aos 50.
Jared contava alegremente sobre o projeto de Conservatório de Música que Jensen estava planejando com ele, no Brooklyn, para jovens músicos. Eles iriam abrir um novo espaço com instrumentos e até quem sabe um pequeno estúdio e investir em jovens que gostariam de se aperfeiçoar antes de serem aceitos numa grande universidade. Ele comentava de professores com quem queria trabalhar e Nick dava ótimas dicas sobre pessoas que conhecia.
- Onde está Mark? - Christian perguntou num tom de voz mais baixo a Jensen, sabia que algo havia acontecido entre os dois e ele e Nick haviam rompido.
- Ele provavelmente não pode vir. - Nick foi quem respondeu, pois escutou a conversa dos dois. Sempre que o nome "Mark" era citado, ele ouvia, não importava a frequência. - Tinha um encontro hoje a noite. - Ele nem conseguiu disfarçar o ciúmes e Kate mordeu o lábio pra não rir. Nick tomou mais um gole de seu vinho e Jared franziu o cenho estranhando ouvir aquilo. Olhou para Jensen como se pedisse algum tipo de explicação.
- Mas já? - Christian tentou dar um ar engraçado, mas não adiantou muito.
- Que encontro? - Jared finalmente perguntou.
- Fui entregar um livro a ele no hospital bem na hora que ele estava marcando de se encontrar "às nove" com um médico loiro com um sotaque britânico insuportável. - Nick disse entregando completamente que estava se derretendo em ácido de tanto ciúmes e raiva.
- Bradley? - Jensen riu. - Não é um encontro, Nicholas. - Jensen fez uma pausa pra rir um pouco mais alto. - Propus e incentivei Mark a fazer trabalho voluntário, Bradley é o chefe da ala dos voluntários na Clínica e provavelmente pediu que Mark fosse lá as nove horas pra ficar com as crianças. E quem sabe aprender a colocar algum nariz de palhaço pra diverti-las.
- Que seja. - Nick respondeu como se não se importasse, mas a verdade é que ele estava mais do que aliviado ao ouvir aquilo.
- Esse garoto me deu tanto trabalho que é o mínimo que ele pode fazer agora pra se redimir. - Jared brincou e todos riram. Até mesmo Nick permitiu-se um sorriso contido.
