SIXTEEN

Guitars

Mark não era um cara que sorria muito, desde criança. Ele não gostava muito, sentia que era uma ação íntima demais. Gargalhar, soltar o riso, mostrar os dentes, ficar sem ar e sorrir com os olhos. Apenas as pessoas mais íntimas já o tinham visto fazer coisas desse tipo. Noventa por cento do tempo ele era sério – não necessariamente carrancudo – mas não gostava de mostrar seu bom humor. Nick era das raras pessoas que o viam cobrir o rosto e ficar ruborizado de tanto rir.

No entanto, há cerca de uma hora ele estava rindo tanto das palhaçadas do doutor Bradley que até mesmo ele se permitiu brincar com as crianças e agora usava uma peruca azul fluorescente, com o cabelo todo enrolado de palhaço por cima daqueles fios longos. Foi o momento em que ele finalmente se deu conta de que precisava cortar um pouco os cabelos. Ele ria de Bradley enquanto o médico imitava o Pateta, personagem da Disney, pra uma menina que estava deitada com o braço quebrado – aparentemente quebrado por seu padrasto, um homem extremamente violento que havia sido preso por basicamente espancar a menina. Ela estava acompanhada da mãe e da psicóloga do hospital, que estava extremamente satisfeita com o trabalho que os voluntários do hospital faziam não só pela menina, mas por todas as crianças daquela ala.

- Ei, doutor. - Bradley disse assim que se afastou da cama da menina, deixando um animalzinho qualquer feito com balão. - Precisam de ajuda na maternidade do hospital. Se importa de me acompanhar?

- Na maternidade? - Mark estranhou. Estava aí um lugar que ele ainda não tinha ido, pois as enfermeiras geralmente davam conta do trabalho sem ajuda dos médicos. Além do mais ele não entendia ainda muito bem de obstetrícia. - Vamos, claro.

- Nunca esteve lá, não é? - Bradley percebeu a insegurança de Mark enquanto andavam tirando os adereços divertidos.

- Pra ser sincero, não. - Mark respondeu deixando a peruca de lado e ajeitando os cabelos. - Sempre trabalhei quase que exclusivamente na neurologia.

- É isso que quer? - O médico inglês perguntou enquanto esperavam o elevador no corredor do terceiro andar. A maternidade ficava no térreo. - Ser neurologista?

- Sim, quero ser neurocirurgião. Por isso escolhi trabalhar com Dr. Lafferty, meu padrasto quem me indicou.

- Quem é seu padrasto? - Bradley perguntou mais pra puxar assunto do que por curiosidade.

- Dr. Jensen Ackles, ele é neurocirurgião do Lennox Hospital. - Eles entraram finalmente no elevador.

- Sério? - Bradley deu uma boa olhada para Mark, dos pés a cabeça. - Ele é seu padrasto? Quer dizer, eu lembro do filho dele e poderia jurar que ele tinha cabelos loiros!

- Nick. - Mark disse com um sorriso fraco, como se tudo voltasse a sua mente. - Deve estar se referindo ao Nick.

- Nicholas, isso mesmo. Nick Ackles. - Bradley disse sorrindo ao lembrar do garoto que conheceu quando o loiro tinha por volta dos cinco ou seis anos de idade. - Não sabia que Dr. Ackles tinha dois filhos, até porque meus pais disseram que a esposa dele morreu quando ele era bem jovem, ele mal tinha entrado na faculdade. Eu não lembro o nome dela, mas dizem que era muito bonita e.. Ah! - Bradley pareceu dar-se conta enquanto tagarelava e Mark estava com um pouco de preguiça de explicar. - Jensen se casou com a sua mãe então?

- Não, ele casou com meu pai. - Mark respondeu olhando um Bradley confuso. Ele achou até graça na expressão do outro. - Eles namoram há uns dez anos já, vão casar agora daqui alguns meses.

- Tenho que confessar que estou surpreso. - Bradley agora ria fazendo Mark rir também.

- Eu imagino, mas eu sempre soube do meu pai e Nick até lidou muito bem com tudo. - Mark continuou quando os dois chegaram ao andar e passaram a caminhar na direção da ala neonatal da Clínica.

- Você e Nick se dão bem? Imagino que foram criados como irmãos. - Bradley arriscou e Mark sorriu mais aberto, enquanto pensava em tudo que aprontaram quando moravam com seus pais e estavam bem no início do relacionamento.

- Nós... também namorávamos. - Mark disse é claro sem perder a expressão no olhar do outro, que arregalou os olhos azuis e conteve a vontade de rir.

- Isso é bem... incomum. - Bradley respondeu e Mark riu, realmente nunca tinha contado aquela história antes. Era no mínimo engraçada se não fosse trágica. Lhe passou pela cabeça o quanto ele e Nick tiveram muitos dramas até chegarem onde chegaram e, agora, entendia bem a expressão que dizia: um dia vocês vão rir de tudo isso.

- Não sei se você o viu mais cedo, quando ele veio me entregar um livro. Aquele era Nick. - Mark esclareceu.

- Sim, lembro vagamente. - Bradley respondeu como se buscasse na mente a figura que Mark descrevia. - Mas não prestei muita atenção.

Antes que pudessem continuar a conversa, uma das enfermeiras andou na direção deles quando os dois entraram no berçário da Clínica. Ao verem cinco bebês recém-nascidos nos colos das enfermeiras, entenderam o porquê de elas estarem bastante atarefadas. Parecia mesmo que alguns bebês tinham combinado a hora de nascer, porque cinco grávidas numa só noite era uma raridade.

- Doutores. - Ela cumprimentou, simpática, e os dois acenaram a cabeça retribuindo o cumprimento. - Como podem ver, estamos precisando de ajuda hoje. Estamos com dois pediatras ocupados com dois bebês que nasceram prematuros e aqui está uma loucura. Mudança de lua é sempre um tumulto. Quando me falaram isso na faculdade, custei a acreditar, mas aqui vi que era verdade. Precisamos pesar alguns bebês e fazer exames completos, mas estamos quase sem pessoal, pois o turno da noite é o que menos temos enfermeiras. - Ela explicava enquanto andava até um dos pequenos berços e pegava uma menina que chorava copiosamente.

- O que ela tem? - Bradley perguntou esticando os braços como se pedisse que a enfermeira lhe entregasse a criança.

- Está com uma cólica muito forte. Não está se adaptando ao leite em pó e a mãe não consegue amamentá-la. – a enfermeira explicou.

Mark fixou os olhos nos braços de Bradley, que segurava aquela criatura tão pequena, que chegou a distrair-se por um momento imaginando como poderíamos nascer tão vulneráveis. (eu ia me distrair com os braços do Bradley e nem ia conseguir pensar nos bebês...rs...)

- Tudo bem, veremos o que podemos fazer. - Bradley respondeu prestativo. - Vou chamar mais dois residentes, acho que vai ajudar bastante. - Ele terminou a frase e ofereceu a menina para que Mark a segurasse.

Padalecki titubeou por um segundo, dando-se conta de que nunca tinha pego um bebê em seus braços. A menina ainda choramingava mas estava mais calma. Mark, pela primeira vez, ficou com medo de não saber fazer alguma coisa. Ele esticou os braços e, percebendo que ele era um tanto desajeitado, a enfermeira o ajudou, ensinando a ele onde ele deveria segurar a criança e pedindo pra que ele fosse firme.

- Segure pela cabeça, até que você consiga fazê-la repousar nessa dobra do seu cotovelo. - Ela dizia e Mark segurou a menina tentando não parecer tão apavorado. Bradley saiu sorrindo. - Isso mesmo, você está fazendo direitinho. - Ela continuou quando Mark finalmente tinha a menina em seus braços completamente.

- Como ela se chama? - Ele perguntou já ficando aos poucos mais confortável com ela. Até arriscou balançar de leve.

- Krystal. - A enfermeira respondeu lendo na fitinha em torno do braço da menina que usavam para identificar os recém-nascidos. - Pode ficar com ela por um momento? Ainda temos outros bebês que acabaram de chegar e não dormem de jeito nenhum.

- Claro. - Padalecki respondeu inseguro, mas a menina pareceu gostar de seu colo. Ele sorriu e a enfermeira saiu.

Ele olhou ao redor vendo tantos bebês, a maioria dormia, mas parecia que uma parte deles estava rebelde quanto ao sono. As enfermeiras tentavam se virar como podiam e ele de repente se deu conta de que não ouvia mais o choro de Krystal. Estava embalando-a devagar e quando olhou para seus braços, encontrou uma menina calma, já sem lágrimas nos olhos e que olhava pra ele, com enormes olhos castanhos e poucos fios de cabelo. Ela movimentava as mãozinhas minúsculas na direção do rosto dele, como se quisesse segurar em seus cabelos. Ele sentiu uma enorme vontade de rir. Aparentemente bebês faziam isso com as pessoas.

- Está pensando em quando tiver o seu? - Uma das enfermeiras apareceu esticando os braços como se pedisse Krystal.

- Não. - Mark disse rindo entregando a menina com cuidado. - Vou ser um péssimo pai, não sei se seria uma boa ideia ter filhos.

- Aparentemente Krystal não concorda com você. - A enfermeira disse sorrindo. - Ela parou de chorar em segundos no seu colo. Acho que você leva mais jeito do que pensa.

- Quem sabe. - Mark disse incerto, mas feliz. Apesar de ser quase uma hora da manhã, ele sentia-se bem, não estava cansado e nem sonolento. Claro que uma cama seria bem vinda, mas sabia que se estivesse em casa, estaria afundado nas cobertas pensando em Nick e praticamente sendo o legítimo projeto de ser humano.

A melhor coisa era trabalhar. No fundo ele sabia que estava evitando ir pra casa porque sabia que seria a primeira vez em anos que iria pra lá sem Nick estar por perto. Ele não queria lidar com aquilo porque sentia que não saberia como. O melhor lugar em que ele poderia estar era aquele, a Clínica, afundado em trabalho e, agora, um monte de bebês.

Não demorou muito pra que Bradley voltasse com dois médicos, apresentando-os a Mark enquanto buscavam serviço que não faltava. Ia ser um turno longo e, com certeza, muitos sairiam dali sem nem querer pensar em filhos.

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Nick chegou apressado ao lugar que tinha marcado horas antes. Era um restaurante comum, meio lanchonete, perto do apartamento no Brooklyn onde ele estava morando. Estacionou o Jaguar – carro bastante incomum naquela área de Nova York – seguido por olhos de alguns curiosos. Não estava pensando muito, estava ansioso.

Quando chegou, já avistou sentada perto de uma das janelas, sua velha amiga de escola, bebendo um chocolate quente e sorrindo ao ver ele.

- Está atrasado. - Becca disse brincando no momento em que Nick sentou-se de frente pra ela, reclamando baixinho do frio.

- Desculpe, o trânsito estava mesmo ruim. - Ele explicou apoiando as mãos sobre a mesa. - Desculpe te fazer esperar.

- Não tem problema. - Ela sorriu carinhosa. - O que você queria conversar de tão importante que não poderia ser por telefone?

- Eu preciso de você. - Nick começou mais sério e Becca passou a prestar atenção como se aquilo fosse caso de vida ou morte. - Preciso... pegar o Mark de volta.

- Nick... - Ela recostou-se na cadeira com um sorriso triste. - Isso não vai ser fácil. Steve me contou o que aconteceu. Mark dormiu na casa do James.

- Imaginei mesmo que fosse pra lá. - Nick disse como se aquilo não fosse uma grande surpresa. - Mas você ajudou ele na época da escola, quando brigamos... Acho que está na hora de eu retribuir.

- Ok. - Ela respirou fundo e pensou por alguns segundos. – Mas se der certo, vocês dois vão ficar me devendo pela eternidade. O que tem em mente?

- Nada. - Nick disse rindo de sua situação trágica. - Por isso te liguei, eu não tenho ideia de por onde começar.

- Acho que fora o Jared, você conhece o Mark melhor do que qualquer pessoa no mundo. - Ela continuou. - Deve saber exatamente o que ele gosta, o que seria irresistível pra ele e, principalmente, o que realmente mostraria a ele que está disposto a qualquer coisa pra reconquistá-lo.

- Eu não sei mais, esse é o problema. - Nick era quem tinha um olhar desesperançoso agora. - Eu não o conheço mais, isso posso te dar cem por cento de certeza. Ele não é mais aquele garoto da escola e, certamente, não é mais a mesma pessoa há anos. Ele é dedicado e completamente apaixonado pela medicina a ponto de colocar qualquer coisa a frente disso. Ele queria até mudar para Maryland por causa de um simples estágio.

- Entendi. - Becca ouviu pacientemente o quase desabafo de Nick. - Eu acho que o caminho que temos que seguir então é resgatar um pouco do "Mark que se perdeu". - Ela dizia quase filosofando. - Ele tem que perceber o que realmente importa, Nick. Você mesmo está dizendo que além dele não ser mais a mesma pessoa, ele parece ter esquecido o que é realmente importante.

- É. Acho que podemos partir daí. - Nick disse agora sentindo-se um pouco melhor com tudo. - Quem sabe se eu desse um jeito de levar ele pra algum lugar, sei lá...

- Não, eu já sei. - Ela disse com o brilho típico no olhar, aquele quase infantil. - Onde está o Corvette?

- Está no ferro-velho, acredito eu. - Nick disse sem ter certeza. - Tenho que perguntar ao Jared. Eu sei que praticamente não sobrou nada depois do acidente do Mark. Ele destruiu o carro.

- Foi feio o acidente, não é? - Ela disse preocupada por um momento.

- Pior dia da minha vida, pior semana da minha vida. - Nick não gostava nem de lembrar. - Foi o purgatório.

- E se você desse um jeito de reformar o carro? - Becca sugeriu um pouco incerta. Ela não entendia nada de carros e talvez aquilo fosse locura. - Quer dizer, pode chamar alguns profissionais, pode até mesmo chamar Jared e Steve, certamente eles vão te ajudar. Pode ser que leve um bom tempo, mas acho que é bem válido você tentar. Quer coisa melhor do que isso pra "resgatá-lo"? Imagino as lembranças que trará à tona com aquele carro pronto na frente dele.

- Uau. - Nick pensou por um momento. - Eu sabia que estava certo em te chamar. - Ele riu a fazendo rir também. - É uma ótima ideia, claro que devemos tentar. Vai dar um baita trabalho, mas vai valer a pena! - Ele realmente estava empolgado agora.

- E pode contar comigo também. - Ela segurou as mãos do amigo em cima da mesa em forma de apoio. - Sei que vocês dois foram feitos um pro outro e é uma pena que tenham que passar por isso.

- Você é maravilhosa, Becca. Steve tem sorte de ter você. - Ele disse igualmente segurando as mãos da amiga. -Falando nisso, como foi que vocês se encontraram? Vocês mal se falavam na época da escola!

- Pois é. - Ela riu agora lembrando-se de tudo como se tivesse sido há muito tempo, quando na verdade mal faziam dois ou três anos. - Eu acabei indo pra Londres, ele também. Nos encontramos em Cambrigde um dia, ele veio puxar assunto e saímos. Não foi nada muito glamouroso como você e Mark, mas... Foi algo mais normal... Estamos bem. - Ela tinha um sorriso sincero e Nick estava genuinamente feliz pelo casal.

- Torço por vocês também, Steve é meu melhor amigo desde que estávamos na quarta série e ele merece alguém como você. Sei que ele dá trabalho às vezes... - Nick disse e ambos riram, Becca concordava com a cabeça. - Você é a melhor coisa que aconteceu a ele, acabou colocando ele mesmo na linha. - Ele brincou.

Ficaram conversando por mais algumas horas, planejando os mínimos detalhes sobre essa "missão" - como Nick tinha acabado de nomear – despediram-se e cada um seguiu seu rumo, claro que Nick foi cavalheiro o suficiente para deixá-la em casa. Passou alguns minutos breves conversando com Steve também quando foi deixá-la, tentou distrair-se e foi pra sua "nova" casa no Brooklyn. Era igualmente difícil ir pra casa todos os dias sabendo que não tinha lugar "pior" do que aquele apartamento para fazê-lo lembrar de Mark, especialmente porque algumas coisas dele ainda estavam por lá.

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Era uma das raras vezes em que Mark acordava e não queria sair da cama. Seu corpo estava praticamente o obrigando a dormir. Ele tinha ido pra casa por volta das cinco da manhã. Dormiu até a hora do almoço, sem dar tempo de pensar em nada quando chegou. O apartamento estava intacto, mas o quarto estava significativamente maior sem Nick. A cama era maior e foi quando se deu conta de que seu armário era bem maior e tinha mais da metade esvaziado. Não havia mais instrumentos musicais pelo quarto. Guitarras, violões e amplificadores haviam ido com Nick. Não tinha nada pra comer e uma pilha de roupas pra lavar se acumulava.

Era coisa demais para ele lidar e ele preferiu fingir que não estavam ali. Tomou um banho rápido e foi pra cama. Ele mesmo chegou a pensar que não dormiu, mas basicamente entrou em coma. Estava há horas acordado e finalmente resolveu se render ao sono.

Ele acordou e andou até a cozinha e não tinha, obviamente, nada pronto, nada feito. Nem a pau ele iria cozinhar. Iria comer na lanchonete da Clínica. Esfregou os olhos e andou até o banheiro para fazer sua higiene pessoal. Pensou em ligar para alguma diarista vir dar um jeito naquele apartamento e passou mais de quinze minutos no telefone com a mãe. Explicou o que tinha acontecido e Sandy ficou triste – chegou a convidá-lo para passar uns dias no Canadá, que obviamente ele não aceitou. E nem poderia, tinha trabalho demais.

Jared também ligou pra saber como o filho estava, conversaram por um bom tempo, Jensen havia contado o que mark havia feito na Clínica e ouviu um pai orgulhoso lhe elogiar. Contou como foi o voluntariado e, por último, pensou que deveria ligar logo para Nick para falarem sobre a despedida de solteiro dos pais, que haviam prometido planejar juntos.

Ele respirou fundo, deixou o celular de lado no sofá da sala e, ainda estava de toalha de banho, quando se deu conta da hora e que precisava ir pra aula. Lembrou-se que disse a Bradley que a noite tocaria violão para as crianças. Não estava mais com o instrumento em casa, pensou que tinha que ir ao apartamento do Brooklyn para buscá-lo. Não precisava nem ligar para o pai, pois ainda guardava sua chave antiga de casa.

Saiu de casa com pressa. Pegou o rumo da estação do metro até o Brooklyn. Conhecia aquele caminho relativamente bem. Ele vestia branco, como sempre – o que o fez pensar que ele tinha esquecido quase como era usar outra cor de roupa – e tinha uma pasta não muito pesada pendurada no ombro. Todos os livros que precisava estavam em seu armário na NYU.

Depois de meia hora de viagem, ele havia chegado a seu antigo bairro. Não ia lá há anos, mas se deu conta de que pouco mudou. Era um bairro de classe média, mas fora algumas lojas novas, nada estava diferente por lá. Ele andou duas quadras até o prédio e um monte de lembranças lhe cercaram. Enquanto subia as escadas, pensou no quanto sua vida havia mudado.

Pôs a chave na fechadura da porta de seu antigo apartamento e abriu sem dificuldade. Paralisou no momento em que viu Nick Ackles sem camisa, vestindo apenas um jeans claro com um cinto preto e descalço. Mark ficou confuso e Nick mais ainda. Ele engoliu a seco ao ver aquele corpo que conhecia tão bem exposto ali. Lutou intimamente contra o impulso de agarrá-lo ali mesmo.

- O que está fazendo aqui? - limitou-se a perguntar fechando a porta atrás de si.

- Seu pai... deixou que eu ficasse aqui. - Nick tinha que admitir que Mark Padalecki era a última pessoa com quem ele imaginava encontrar naquela manhã. - O que você está fazendo aqui?

- Vim buscar meu violão. - Mark esclareceu andando sem pressa até seu antigo quarto, percebendo que era exatamente onde Nick estava dormindo. Na sua antiga cama e usando seus antigos armários. Foi uma breve viagem no tempo.

- Ele está no quarto de seu pai. - Nick disse quando viu onde Mark havia entrado. - Pus minhas coisas lá também, seu violão está lá. Sua guitarra também.

- Por que não está na suíte? - Mark perguntou, já que o quarto além de muito maior, tinha uma casa de casal e mais espaço pra colocar tudo. As paredes do quarto de Mark ainda tinham pôsteres mal cuidados de algumas bandas de heavy metal.

- É estranho demais. - Nick disse torcendo o nariz. - Nossos pais provavelmente já dormiram ali eventualmente... estranho. - Ele quase riu e Mark também achou graça, Pensou que faria o mesmo se tivesse que mudar de volta pra lá.

Mark entrou no quarto antigo de seu pai seguido por Nick. Ele viu o violão preto ali. Não parecia que fazia tempo que ninguém tocava. Quando o moreno alto pegou no instrumento, tocou algumas cordas aleatórias, mas não ficou surpreso por estar afinado.

- Estava empenado. - Nick respondeu, fazendo afirmar as suspeitas de Mark de que Nick havia tocado o instrumento. - Dei um jeito nele ontem a noite. Mas não sabia que você o queria.

- Vou tocar pras crianças. - Ele esclareceu colocando o violão na capa preta que o protegia. - Na ala dos voluntários, quero fazer alguma coisa diferente hoje a noite.

- Achei muito legal essa sua iniciativa. - Nick foi sincero se aproximando ainda mais do agora ex-namorado.

- Seu pai me deu a ideia. - Mark esclareceu tentando manter o foco da conversa com Nick tão perto dele.

Os dois estavam a centímetros de distância e Nick sentiu seu coração acelerar. Nunca tinha sido tão difícil ficar perto de Mark e o moreno alto sentiu-se como na época da escola, quando ele e Nick ainda estava se descobrindo juntos. A mesma sensação de ficar excitado na frente do outro estava voltando agora. Era como se ele quisesse reprimir algo, mas ao mesmo tempo queria soltar aquele sentimento logo. E Nick não disse mais nada e ele não se moveu.

Sem saber exatamente como, já estavam com as bocas coladas envolvidos num beijo quase proibido. Era aquele misto de sentimento de saudade que durou apenas o tempo de Nick passar seus braços pela cintura de Mark para o orgulho do moreno falar mais alto e ele se afastar andando até a porta do quarto.

- Mark! - Nick chamou, segurando o pulso do namorado.

- Eu não consigo. - Mark foi honesto e se virou para olhar diretamente os olhos do loiro. - Eu não posso fingir que nada aconteceu, ainda não dá.

- Por que está fazendo isso? - Nick soltou a mão e seus ombros caíram, cansados. - Eu te amo, você me ama... Podemos consertar isso!

- Não dá! - Mark disse mais firme. - Não consigo esquecer o que você fez!

- Como se você não tivesse merecido! - Nick respondeu no mesmo tom ofendido. - Eu errei, mas você não é nenhuma vítima aqui. - Ele continuou e Mark começou a se exaltar.

- Eu nunca te traí! - Ele praticamente cuspiu as palavras em resposta. – Vai querer comparar mesmo o que você fez com o que eu fiz? Vai querer comparar a minha preocupação com o nosso futuro com o seu caso com o professorzinho?

- Eu não tive um caso com o Kerr. Foi um beijo, Mark. Um beijo que só aconteceu porque você ficou esse tempo todo focado no futuro e esquecendo que a gente tinha um presente. E que esse presente estava quase deixando de existir.

Mark não tinha uma boa resposta, apenas tinha o cenho franzido encarando um Nick Ackles que respirava fundo, o olhar carregado de orgulho. Ele pensou em dizer algo, mas não conseguiu. Nick parecia nem esperar uma resposta.

- Eu errei, Mark. - Nick continuou e o moreno alto passou as mãos pelos cabelos. - Mas não errei sozinho.

Mark deixou o quarto assim que Nick parou de falar. O loiro não se moveu para impedi-lo e nem para acompanhá-lo até a porta. Apenas fechou os olhos ao ouvir a porta bater indicando a saída do outro, respirou fundo e achou que talvez não tivesse dito as coisas certas, mas conhecia bem quem passou anos ao seu lado e isso faria Mark ao menos pensar a respeito. Ele tinha certeza que ele não esqueceria aquelas palavras – para o bem ou para o mal.