SEVENTEEN
The three "Ds"
Cerca de uma semana já havia se passado e Mark sentiu que o voluntariado tinha lhe feito muito bem. Estava, sim, mais enterrado em trabalho do que nunca, mas ao mesmo tempo tinha a certeza de que vinha fazendo a coisa certa. Ainda sentia lá no fundo de sua alma a falta de Nick, queria poder simplesmente esquecer tudo e voltar pra ele. Mas não conseguia, era mais forte que ele. Pensava o tempo todo se realmente tinha merecido aquela traição, afinal mais de uma vez trocou o namorado por algo da faculdade. Mas será que era tão difícil para Nick entender o que era uma oportunidade única? Por que ele simplesmente não compreendia que a viagem poderia ser adiada, mas aquele congresso não?
Passou as mãos pelo rosto e respirou fundo. Tinha prometido a si mesmo não pensar mais naquilo, mas lá estava ele, pensando outra vez. Estava trancando seu armário para sair pra almoçar – contou cerca de vinte minutos pra fazer isso – mas para sua surpresa, na porta do vestiário dos residentes, uma figura conhecida entrava sorrindo.
- Ty! - Mark disse ao ver o enfermeiro e, claro, também amigo. - Como está? - Ele esticou uma das mãos para cumprimentá-lo.
- Muito bem. - Tyler Hoechlin respondeu e acrescentou, em tom de brincadeira - E o senhor, doutor?
- Está tudo certo. - Mark queria mais acreditar naquilo do que qualquer outra coisa.
- Então, vai mesmo pra Maryland? - Tyler perguntou enfiando as mãos nos bolsos do jeans preto.
- Não. - Mark disse com um sorriso triste. - Seria incrível mesmo, mas não é a hora. Não estou pronto, preciso me formar. - Ele foi honesto, mas Tyler pareceu surpreso com a decisão. - Se for pra ser, eu vou conseguir de novo, não será um problema. Existem muitos hospitais bons e referência em neuro, mas estou gostando muito de trabalhar com Dr. Lafferty.
- Ah! - Tyler ergueu as sobrancelhas ao ouvir o nome do médico. - Dr. Lafferty, então está explicado porque quer ficar. Até eu ficaria. Ele é excelente. - Tyler complementou e Mark concordou com a cabeça. - Cara difícil pelo que sei, como pessoa, mas como médico, ele é impecável.
- Verdade, não são só boatos. - Padalecki riu. - Mas ele tem confiado em mim pra mais coisas do que eu poderia imaginar. Se eu acabasse indo para o Johns Hopkins, ia perder muito aqui, porque lá eu seria apenas mais um residente tentando crescer entre muitos neurologistas. Tem muita gente lá, cara. Todo mundo quer ir pra Baltimore. Eu não conseguiria me destacar, não agora a essa altura do campeonato.
- Você tem razão. - Tyler rendeu-se. - Acho que fez a coisa certa, porém acho que mesmo assim depois que se formar, deve tentar entrar lá. É uma grande escola, Mark.
- Eu sei. Mas agora tenho muito tempo pra mudar meus planos. - O filho de Jared encarou os próprios pés e dessa vez não sorriu. Lembrou-se que tinha feito tantos planos com Nick e nenhuma deles ia ser mais possível.
- De que está falando? - Tyler estranhou a expressão de Mark.
- Eu e Nick terminamos há umas duas semanas. - Ele chutou o tempo, não tinha muita noção, parecia que fazia mais tempo do que realmente era.
- Eu sinto muito mesmo, cara. - O enfermeiro tocou o ombro do outro de forma a mostrar apoio. - Se precisar de alguém pra conversar, pode contar comigo.
- Valeu, cara, mas já está tudo bem. - Mark respirou fundo e novamente tentou não pensar mais naquilo. - Mas e você? Está de folga? - O médico estranhou não ver o outro de branco.
- Estou. - Hoechlin sorriu animado. - Vou buscar minha noiva daqui uma hora, vamos ao cinema mais tarde, precisamos também ver coisas do casamento... Sabe como as mulheres querem que participemos dessas coisas que no fundo nem gostamos muito de fazer. - Ambos riram.
- Casamento é? Está uma onda de casamentos, estou achando que essa 'praga' pega! - Mark brincou sorrindo aberto. - Primeiro a mamãe, depois o papai com Jensen e agora você!
- Chega uma altura na vida que todo mundo pensa nisso. - Tyler rendeu-se ao futuro dos casais. - Mas não estou achando ruim não, estou gostando. Além do mais, Amanda é uma mulher maravilhosa.
- Tenho certeza que sim. - Mark disse olhando para o relógio. - Cara, eu estou pensando em almoçar, não quer vir comigo?
- Claro, tenho muito tempo até buscar minha futura esposa! Seria uma ótima ideia. - Tyler concordou e ambos passaram a andar juntos até a saída do vestiário. - Tem uma lanchonete muito boa aqui perto. Não faço questão de comer em lanchonete de hospital e clínicas. – ele brincou.
- Tudo bem, podemos ir lá, não vou voltar a Clínica hoje à tarde. Tenho aulas. - Mark esclareceu enquanto os dois seguiam conversando é claro, quase que exclusivamente sobre seus trabalhos.
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- Só falta pintar. - Carl McFadden, antigo colega de escola de Mark e Nick, que agora tinha uma concessionária de carros em Nova York, falava mostrando o Corvette quase pronto, reformado, para Nick. - O pessoal trabalhou quase exclusivamente a semana inteira nele. Foi um milagre praticamente.
- Ficou ótimo. - Nick dizia olhando o carro detalhadamente. Ainda tinham alguns ajustes para fazer, alguns detalhes internos como estofamento e painel, mas eles não tinham pressa quanto a isso, pois Nick fez questão de que todos arrumassem peças originais. O conserto saiu mais caro do que comprar um carro novo, mas Jensen concordou em arcar com os custos, uma vez que o carro era importante para Jared também a surpresa não seria só de Mark.
- É, estamos fazendo o melhor possível. - Carl disse olhando o carro de longe. Ele inclusive estava sujo, colocando a mão na massa. - Você deve estar mesmo muito apaixonado. Com o que gastou aqui, compraria dois carros zero.
- Eu sei, mas esse carro é especial. - Nick disse sorrindo ao se lembrar de todas as vezes que ele e Mark se pegaram dentro daquele Corvette, ou das discussões, das fugas de casa... Além do mais, aquele carro era simplesmente a cara de Mark. Dava pra ver de longe que era dele.
- Mark vai ficar louco quando ver isso. - Carl disse rindo enquanto buscava um catálogo de pinturas de carro para achar exatamente a cor que o Corvette tinha antes de ser destruído.
- Vai mesmo. - Nick estava confiante. - Acha que precisamos de mais quanto tempo?
- Ah vai precisar uns três ou quatro dias até as peças originais chegarem e a pintura secar completamente. - O amigo analisava os últimos detalhes. - O estofamento vamos colocar ainda hoje.
- Certo, me avise sobre o pagamento e se precisar de mais tempo. - Nick disse já se preparando pra sair da loja. - E me ligue, temos que marcar de nos vermos cara! Estamos muito afastados, todos nós.
- É trabalho demais, cara. - Carl disse mostrando as mãos sujas e as mangas da camisa no meio do antebraço. - Mas podemos jogar aí num final de semana.
- Certeza. - Nick pôs os óculos escuros e despediu-se rapidamente do amigo. - A gente se fala.
- Até mais, Nick.
Nick Ackles entrou no Jaguar e pegou caminho da NYU. A faculdade ficava ainda há uns quinze minutos dali. Ele tinha aulas a tarde toda e sentia-se feliz, confiante. Essa ideia do Corvette tinha renovado suas esperanças.
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Depois do almoço com Tyler, Mark aproveitou pra ver mais uma pessoa antes de ir pra aula – sabia que se atrasaria por isso, mas não teria problema, pois era importante. Tinha tempo que não via seu padrinho.
Ele pegou o metro e foi até o Brooklyn, andou algumas quadras e logo estava no bom e velho bar de Chad, que conhecia tão bem e parecia que não ia lá há anos. Seu padrinho, como sempre, estava pegando no batente. Apesar dele ser o dono do bar, sempre deixou claro que isso não significaria que deixaria seu patrimônio nas mãos de outras pessoas. O bar estava fechado, pois ainda era cedo, mas Mark entrou mesmo assim.
- Não acredito. - Chad disse ao ver o afilhado entrando sorrindo. - O que você fez de errado? Está precisando de dinheiro? - Chad brincou abraçando o moreno alto, agora mais alto que ele.
- Não, tio Chad, só estava com saudades. - Mark disse com um sorriso sincero ainda com as mãos nos ombros do padrinho. - Eu sou o pior afilhado de todos, me desculpe a ausência.
- Meu afilhado vai ser médico. - Chad disse com um orgulho quase paterno e Mark sorriu aberto. - Está mais do que perdoado!
Os dois andaram juntos até uma mesa de fundo, passando por alguns funcionários que limpavam o chão e a mobília deixando tudo pronto para o bar que seria aberto mais tarde. Algumas coisas tinham mudado, estava ligeiramente mais moderno, mas ainda mantinha o ambiente de rock clássico com pôsteres de bandas alternativas e famosas. Mark sentiu seu coração aquecer enquanto andava por ali, era bom estar "em casa".
- Está com uma cara péssima. - Chad dizia sincero enquanto Mark maquiava um sorriso de canto e jogava os cabelos para trás, na vã ilusão de que pareceria melhor. - Está mais magro também. Você era forte na época da escola, agora está aí... - Chad apontou para o corpo de Mark, que apesar de bonito, realmente tinha perdido massa muscular desde que parou de se exercitar. O moreno alto não pareceu ligar muito pra isso e apenas sorriu balançando a cabeça negativamente. - E sinto muito por você e Nick, seu pai me contou.
- Está tudo bem. - Ele tinha isso como um mantra para cada vez que alguém mencionasse Nick Ackles. - Estou estudando, ele também está, não é hora pra relacionamento. Achamos que daríamos conta juntos dessa vida, aparentemente não damos. - O moreno alto dizia como quem não queria mais falar no assunto e Chad entendeu.
- Enfim, vocês precisam conversar, afinal não vão se livrar um do outro. - Chad dizia encostando-se confortavelmente na cadeira. - Seus pais estão firmes, fortes e a caminho do altar.
- É, eu sei, eu e Nick vamos organizar a despedida de solteiro deles. Não sei o que fazer com o seu Jared. - Mark brincou imaginando seu pai em Vegas completamente perdido e achando tudo um exagero. - Não posso nem chamar strippers, que é o clássico das despedidas de solteiro.
- Pode chamar uns caras... - Chad riu fazendo Mark rir alto.
- Tio Jensen me mata. - Mark disse em meio a risos. - Imagina eu levar uns "bombados" pra dançar de sunguinha pro seu Padalecki e depois o senhor Ackles ficar sabendo... Vai dar merda pro meu lado. - Chad era quem ria agora. - Até porque meu pai não é mais nenhum menino de trinta anos. Praticamente um senhor de cinquenta.
- Você e o Nick são dois moleques mesmo que só sabem chamar a gente de velho. - Chad brincou fazendo Mark rir mais uma vez. - O que tem em mente então?
- Não faço ideia! - Mark respondeu após um suspiro. - Acho que Nick tem razão, eu vivo pra faculdade, não consigo nem pensar em onde fazer festa porque simplesmente sequer conheço lugares novos ou diferentes pra ir... Agora pede uma lista de hospital pra ver se eu não sei citar um a um. - Ele disse um tanto quanto triste passando as mãos pelos olhos. Estava com sono.
- Mark, fico orgulhoso de você, assim como Jared e Jensen. - Chad agora falava mais sério. - E até mesmo Nick, apesar dele culpar sua dedicação o tempo todo. Mas realmente você precisa equilibrar sua vida, o que você tem feito, não é saudável. E você é médico, já deveria saber disso.
- É muita coisa! - Mark dizia como se pela primeira vez tivesse que explicar o que fazia. - Eu tenho muitos livros pra ler, eu preciso saber de muitas coisas. Eu sei nomear todos os ossos e músculos do seu corpo e sequer posso me vangloriar por isso, pois isso é simplesmente minha obrigação. Além do mais...
- Mark. - Chad o interrompeu porque já tinha entendido onde ele queria chegar. - Você é brilhante e eu sei que precisa correr atrás mesmo pra ser neurocirurgião. Não é nada fácil. Eu imagino. O que quero que entenda, é que a vida não é só isso. E pra ser neurocirurgião você precisa se divertir, dormir e comer direito.
- Eu sei, eu sei. - O moreno alto suspirou. - Vou arrumar a minha vida, padrinho, eu prometo. - Ele agora foi sincero, o problema é que ele sabia o trabalho que teria pra conseguir isso. - Preciso ir pra aula. - Ele checou o relógio de relance. Estaria muito atrasado.
- Vai lá, garoto. - Chad disse com um sorriso de canto. - E sabe que estou aqui pro que precisar. - Ambos levantaram-se e Mark novamente abraçou o padrinho.
- Eu sei, prometo não ficar tanto tempo sem dar notícias. - Ele falou sério e Chad assentiu com a cabeça apenas observando o futuro neurologista deixar o bar. Ao mesmo tempo que lembrava que aquele homem que agora era mais alto que ele, um dia alcançava sua cintura com certo esforço e o abraçava pelas pernas. Não deu pra negar a enorme vontade de ser pai que agora bateu em seu peito.
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Nick saía da aula por volta das sete da noite. Tinha ficado mais tempo no conservatório porque sentiu que era o único lugar em que poderia clarear a cabeça. Checou o relógio antes de entrar no Jaguar e tomou o rumo de casa. Ele sorriu melancólico ao perceber que estava tomando o caminho da Soho, esqueceu-se que não morava mais lá, era pelo menos a quarta ou quinta vez que aquilo acontecia.
Respirou fundo cansado quando fez o retorno até o Brooklyn, seu celular vibrou dentro do bolso da calça. Número desconhecido.
- Alô?
- Nick? Nick Ackles? - Perguntou a voz feminina do outro lado da linha.
- Sou eu. - Ele respondeu um pouco inseguro, achando aquela voz ligeiramente familiar. - Quem está falando?
- Olá Nick, aqui é Claire Thompson. - Ela respondeu de um jeito que fez Nick perceber que ela estava sorrindo do outro lado da linha.
- Claire? - Ele levou alguns segundos para se lembrar de sua antiga colega de escola. - Como vai? Que surpresa.
- Estou ótima, Nick. Bom ouvir sua voz. - Ela disse educada, mas bastante animada.
- Bom ouvir a sua também, espero que esteja tudo bem. - Ele disse parando num sinal vermelho.
- Está sim, peguei seu número com a Becca. Estou ligando para o pessoal da escola pra falar sobre a nossa festa de reencontro dos formandos da Kennedy High.
- Uau, não sabia que haveria uma. - disse realmente surpreso, ficou até animado em rever amigos. E os que também não eram tão amigos depois que ele e Mark assumiram o namoro na escola. - Vai ser um prazer comparecer.
- Que ótimo! Posso confirmar Mark também? - Ela disse e Nick se surpreendeu por ela ainda imaginar que estivessem juntos.
- Posso... te passar o telefone dele e você confirma com ele. - Nick disse um pouco inseguro que ela fizesse perguntas, mas apenas se concentrou em acelerar o carro quando o sinal abriu.
- Oh... - Era como se ela tivesse entendido que ali não havia mais namoro. - Vai ser muito gentil da sua parte se você puder me passar o número dele.
- Imagine, sem problemas. Assim que chegar em casa, te mando uma mensagem no celular com o número dele.
- Certo! - Ela agradeceu simpática. - Muito obrigada, Nick. Mandarei os detalhes por e-mail, se puder me enviar o seu endereço também...
- Claro, com certeza.
Despediram-se rapidamente e Nick ficou até empolgado com a notícia. Parecia mesmo ser uma ótima ideia reunir o pessoal já que todos pareciam estar sempre muito ocupados com trabalho e estudos. E com certeza ia ser bom saber como todos acabaram se dando na vida.
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- Está atrasado. – Doutor Lafferty passou por Mark no corredor ao checar de relance o horário e perceber que Mark tinha acabado de chegar. – Precisei de você mais cedo.
- Desculpe, doutor. – Mark apressou-se em dizer, sabendo que nem tinha uma boa desculpa – Não vai mais acontecer.
- Espero mesmo. – Ele disse ficando mais sério olhando a ficha de um paciente. – E vamos para minha sala, preciso falar com você.
Mark já sentiu um frio correr pela espinha, só pelo tom de voz e expressão já conhecia muito bem seu médico-mentor. Suspirou apenas e o seguiu até a sala já tão conhecida por ele – esteve lá tantas vezes que apostaria qualquer coisa com qualquer outro residente que esteve lá mais vezes que todos eles juntos.
Lafferty sentou-se na cadeira atrás de sua ampla mesa e colocou os óculos – Mark não sabia que ele tinha começado a usar, mas fazia sentido.
- É, aparentemente a idade chega. – Ele disse ao reparar que Mark queria fazer algum comentário sobre os óculos, mas não se atreveu, apenas percebeu o sorriso contido do jovem médico. – Vai chegar pra você também.
- Ficou ótimo no senhor, doutor. – Mark foi sincero e Lafferty apenas suspirou resignada e até se permitiu sorrir de canto.
- Doutor... – Ele começou e Mark ficou sério. Ainda não tinha se acostumado com ele, um médico renomado, referindo-se a ele com o mesmo "título". Era uma sensação incrível, porém de uma responsabilidade única. – Essa semana apareceu uma criança de cinco anos com os três "Ds"...
- Disastria, disfagia e diplopia. – Mark respondeu automaticamente, como se estivesse sendo sabatinado. Lafferty não pareceu muito impressionado, mas sinalizou com a cabeça que sim, era daquilo mesmo que ele estava falando.
- Falta de equilíbrio, rigidez muscular, câimbras e dificuldades para se movimentar em geral. – Lafferty franziu o cenho e pegou a ficha da criança a quem se referia, pronto para dizer a Mark do que se tratava.
- Degeneração Espinocerebelar? – Mark disse inclinando-se para frente, os olhos ligeiramente arregalados. Foi um chute certeiro. – Está brincando! – Ele voltou a encostar-se na cadeira quando o médico a sua frente confirmou a rara doença.
- Infelizmente não estou. – Ele entregou a ficha da criança para que Mark lesse e visse algumas radiografias. O garoto estava perplexo. – A parte boa é que ainda está no começo, conseguimos diagnosticar cedo.
- Não que isso mude alguma coisa. – Mark disse naturalmente, mas pareceu desdenhoso. – Quer dizer... – Ele foi rápido voltando os olhos para um Lafferty olhando feio pra ele. – É uma doença rara, não sabemos muito sobre como curá-la, apenas trata-la. É como se fosse Huntington.
- Existe uma cirurgia cerebral. – Laffety prosseguiu para total surpresa de Mark. Ele nunca tinha ouvido falar daquilo na faculdade. – É inovadora, é cara e, pra ser sincero, basicamente experimental.
- Nunca ouvi falar. – Mark disse ainda segurando a ficha da criança aberta.
- É porque eu faço parte da pesquisa e apenas divulgamos para a comunidade médica. Não está ao conhecimento público ainda, não fomos a mídia. A Universidade de Columbia em parceria com os pesquisadores do Johns Hopkins estão trabalhando nela ainda. – Lafferty explicou e Mark ficou impressionado por saber que seu "chefe" era parte de algo tão grandioso.
- E quer fazer a cirurgia nesse menino? – Mark disse apontando para a ficha do menino de cinco anos.
- Se os pais autorizarem sim. – Lafferty respondeu com a segurança de quem pensou muito a respeito antes de tomar a decisão de apresentar essa opção aos pais da criança. – E se eles quiserem tentar, quero que esteja comigo na sala de cirurgia.
- Está falando sério? – Mark tinha os olhos brilhando e uma sensação impagável de recompensa.
- Mas é claro. – Lafferty disse remexendo-se na cadeira, percebendo e conhecendo bem aquele olhar cheio de expectativas de um garoto que parecia realizar um sonho bem a sua frente. – Quer ser neurocirurgião, não é? – Mark só conseguia sorrir aberto e dizer um sim com a cabeça. – Então precisa participar de cirurgias e ver como funciona. – O médico disse como se fosse mais do que óbvio.
- Doutor, eu não tenho palavras para agradecer, eu realmente esperei muito por isso, mas não achei que fosse acontecer até o ano que vem, ao menos enquanto já estivesse em residência após minha formatura. É uma oportunidade incrível, nem acredito que... me escolheu... – Ele riu, não sabia muito bem como colocar as palavras.
- Vai ser um médico brilhante. – Lafferty disse, pigarreando. – Já é.
- Obrigada doutor, significa muito vindo de alguém como o senhor. – Mark mal conseguia se conter, iria finalmente estar numa sala de cirurgia.
- Mas se continuar chegando atrasado e não dormindo... – Lafferty voltou a expressão carrancuda e Mark baixou os olhos. – Vou te mandar pro olho da rua.
- Não vai mais acontecer e...
- Não vai mesmo. – O médico o interrompeu. – E nada de dobrar turnos, acha que não fico sabendo? – Lafferty dizia quase como um pai e Mark não tinha uma boa resposta. – Descanse, tenha qualidade de vida, e o que quer que tenha de errado em sua vida pessoal, você tem duas escolhas. – Mark estava surpreso quando encarou o médico a sua frente. – Resolva ou não deixe afetar seu lado profissional.
- Sim, senhor. – Mark respondeu sério e já levantando-se quando seu bipe tocou mostrando o número da ala de emergência. – Obrigado, obrigado mesmo, doutor Lafferty.
- Vai. – Ele apressou Mark fazendo sinal com a mão de que ele deveria levar a ficha da criança com ele no momento em que ele fez menção de deixar sobre a mesa. Olhou de longe através da porta de vidro o garoto correndo com os cabelos balançando em busca das escadas. Sorriu ao lembrar-se de si mesmo quando tinha aquela idade e não teve dúvida que ainda ouviria muito falar daquele garoto alto, com cabelos compridos e sobrenome polonês.
