EIGHTEEN

Just don't go to jail

And I still don't know why

(E ainda não sei porque)

Why I love you so much

(Porque eu te amo tanto)

Nick Ackles sentia-se tão bem que nem parecia que seu coração estava partido. Não via Mark tinha quase duas semanas e agora se encontrava já há longos minutos admirando o que poderia chamar de esperança: um Corvette preto, em perfeitas condições, como se tivesse acabado de sair de fábrica. Peças originais, acessórios, cor, inclusive rodas e estofamento. Ele não tirava os olhos nem para conversar com o amigo.

- Não vou nem perguntar se gostou. – Carl dizia observando a expressão de Nick.

- Cara, isso está tão... perfeito! – Nick não conseguia encontrar outra palavra. – Sério, estou alucinado em olhar pra isso, quase quero o carro pra mim. – O loiro riu fazendo Carl rir também.

- Se o Mark não quiser voltar pra você, me avisa, que por esse carro, eu quero. – O amigo de cabelos pretos cacheados brincou e Nick bateu em seu ombro de leve. – Vocês vão ficar bem.

- Assim espero... – Nick ficou de frente par ao amigo e ambos apertaram as mãos. – Obrigado por tudo.

- Que é isso, cara. – Carl disse sem falta modéstia. – Sempre que precisar.

- Você também. – Nick sorriu quando respondeu. – A propósito, e aquela reunião dos cinco anos de formatura? Vai aparecer?

- Vou, acho que sim. – Carl respondeu com certa dúvida. – Admito que tenha algumas pessoas lá que eu nem de longe gostaria de rever.

- Acho que posso dizer o mesmo, mas... – Nick pensou por um momento. – Também tem muitas que eu definitivamente quero. E até porque acho que iria ser divertido, relembrar histórias e momentos.

- Nisso você tem razão. Nos vemos lá? – Carl perguntou enquanto Nick se preparava para deixar a garagem da concessionária onde estavam.

- Claro! Vamos sim, tenho certeza que vai ser bom. – Nick disse mesmo sem ter assim tanta certeza.

Acenou de longe para o amigo mais uma vez e então andou até seu conhecido Jaguar rumando para a faculdade. Ainda era de manhã, mas ele teria aulas a tarde, seria um bom intervalo para praticar alguns instrumentos de percussão. Acabava sempre os deixando de lado porque sua paixão pelos violões e guitarras – elétricos ou acústicos – sempre tomavam todo seu tempo e atenção.

Não demorou mais de vinte minutos para chegar ao estacionamento da universidade e pegar algumas baquetas no porta-luvas – tinha comprado depois de ver Nicko McBrain lançando pela Vic Firth sua linha de baquetas profissionais. Não pôde resistir a comprar um par só pra ter a assinatura do baterista nelas.

Sorriu ao girá-las no ar quando entrou no prédio. Demorou tanto pra aprender aquilo.

Quando andava pelo corredor rumo a sala de percussão no conservatório de música da NYU, ouviu alguém já tocando o instrumento. Nick percebeu a batida heavy metal numa sequência de batidas fortes e agressivas, consecutivas mesclando alguma coisa meio Mike Portnoy e Keith Moon. Era rebelde, agressivo e pensou que, seja quem for o cara que está tocando, tem originalidade, técnica e com certeza sabia o que estava fazendo.

Não precisou abrir a porta, pois ela já estava aberta e mostrava, para sua total surpresa, uma menina. Uma garota de não mais que 19 anos, com os cabelos pretos, cacheados que apesar de presos num rabo de cavalo, podia se perceber que eram bem longos. Nick entrou e ficou assistindo quando a garota sorriu ao vê-lo e não parou de tocar abruptamente, pelo contrário, finalizou lindamente em batidas precisas, compassadas e dignas do fim de um clássico do rock progressivo.

Nick pôs as baquetas embaixo de um dos braços e aplaudiu por breves segundos. A garota saiu de trás do instrumento muito maior que ela – que até dava um contraste interessante – e andou na direção do loiro.

- Desculpe, só estava tocando um pouco. – Ela disse simpática, já se preparando para sair.

- Nunca te vi por aqui, você é aluna nova aqui? – Nick chutou pela idade, não por vê-la tocando afinal, ela era quase muito melhor que vários veteranos.

- Sou caloura sim, mas não de música, estou na escola de artes. – Ela disse colocando o casaco azul. – Só estava procurando um dos meus professores de dança e passei por essa sala, porta aberta, sabe como é... É quase como se me chamasse para entrar.

- Entendo perfeitamente. – O loiro respondeu simpático estendendo uma das mãos. – Sou Nick e... seja bem vinda a NYU... eu acho. – Ele sorriu meio sem jeito.

- Obrigada! – Ela retribuiu o aperto de mão. – Sou Melody... Mel. – Ela sempre preferiu só o apelido. – Muito prazer Nick e belas baquetas as que você tem aí. – Ela brincou ao ver quase escondido o símbolo do Iron Maiden talhado na madeira. – Ele é um grande baterista.

- Ele é e, a propósito, você também. Pra uma garota, você toca bem demais. – Nick disse recebendo um olhar desaprovador da morena bem mais baixa que ele.

- "Pra uma garota"? – Ela repetiu as palavras dele num tom de sarcasmo. – O que isso quer dizer exatamente?

- Nada! Quer dizer... Não foi isso que eu quis dizer! – Nick apressou-se em explicar-se, mas já era tarde demais. Ela continuava com o cenho franzido olhando pra ele. – Desculpe, eu não quis ofender, eu sou idiota as vezes, faço cada besteira! O que eu quis dizer foi é que você é uma ótima baterista e eu definitivamente só vou começar a tocar quando você sair, porque não quero que você veja. – Nick dizia atrapalhado até que a garota começou a sorrir de novo do jeito dele. – Isso mostra o quão boa você é, estou até intimidado e...

- Ok, ok, certo. – Ela disse interrompendo-o já que ele parecia não estar mais fazendo muito sentido. – Está tudo bem, já estou acostumada a ouvir essas coisas, só estava brincando.

- Mas não é certo! – Ele continuou. – É a força de um hábito que temos que perder.

- Quem sabe um dia. – Ela deu de ombros. – Mas você não estava falando sério quando disse que só ia tocar se eu saísse, né?

- Mas é claro que era sério! – Nick disse quase que indignado. – Sem chance de eu tocar na sua frente, você vai rir. Sou muito amador perto do que vi você fazer.

- Qual é! O sênior em música aqui é você, senhor Nick... Não eu. – Ela tinha um olhar quase infantil enquanto insistia pra ver ele tocar. – Anda logo vai, prometo que não dou palpite.

Nick pensou por um momento e riu pra si mesmo. Novamente girou as baquetas e, morrendo de vergonha, resolveu que aceitaria o desafio. Marchou até o instrumento, andando cuidadosamente entre os pratos e sentou-se no banquinho.

Ele pensou duas vezes antes de começar, mas a menina a sua frente estava com tanta expectativa que ele pensou que iria até decepcioná-la se não começasse a tocar logo. E ele assim o fez, optou por inspirar-se num solo de que viu há um tempo atrás de Tommy Lee e seu Mötley Crüe, ainda quando o baterista fazia graça nos shows e tinha uma parafernália de bateria que o fazia elevar-se no palco e até mesmo tocar – com o instrumento junto – de cabeça pra baixo.

Inspiração a qual não passou despercebida por Melody, que aplaudiu rindo enquanto Nick sentia-se mais à vontade com o instrumento quando, além de tocar com a mesma métrica de Tommy Lee, ainda aproveitou pra fazer graça e imitar as caras e bocas que o baterista tinha mania de fazer nos shows.

- Obrigada, Nova York! – O loiro ergueu as baquetas, segurando uma em cada mão, fingindo ser uma celebridade com uma plateia imensa a sua frente.

- Isso foi ótimo! – Mel disse sincera quando Nick voltava ao centro da sala, onde ela estava. – Parabéns!

- É, não foi tão bom quanto o seu solo, mas obrigado. Onde aprendeu a tocar daquele jeito? – Ele perguntou curioso.

- Meu pai me ensinou. – Ela respondeu e Nick arqueou as sobrancelhas. Bateria não é o instrumento mais comum entre garotas, muito menos uma atividade pai e filha.

- Que legal. Seu pai é baterista então? – Ele perguntou e a menina balançou a cabeça dizendo sim. – Então parece que você herdou o talento dele.

- Você deveria conhece-lo, quem sabe ele teria umas dicas. – Ela disse checando o relógio.

- Claro, seria um prazer. – Nick disse empolgado. – É sempre bom conhecer pessoas do ramo, manter contatos, o ramo da música é basicamente feito de contatos...

- Quer ter uma banda? – Ela perguntou andando em direção a porta, acompanhada pelo garoto.

- Não, já passei dessa fase. – Nick respondeu rindo. – Acho que só quero trabalhar num ambiente que envolva talento, quero ter uma gravadora, quero trabalhar com arranjos e composições, tenho ótimas ideias. – Ele disse empolgado. – Não acho que eu esteja num nível de orquestra, mas adoraria continuar poder estudando, aprender mais instrumentos, ser bom em outros que não sejam apenas os de corda. Por exemplo, amaria tocar sax!

- Uau. Parece que alguém já tem tudo planejado. – Ela disse impressionada e, pela primeira vez o rapaz se viu fazendo planos os quais não incluíam Mark. Chegou até a assustar-se quando se deu conta. – Bom, preciso ir pra minha aula. Foi ótimo te conhecer Nick.

- Ótimo te conhecer também, Mel. – respondeu sorridente. – Me dá seu telefone. – pediu naturalmente, mas soou como um interesse que na verdade ele não tinha. Entregou seu celular a ela pra que ela colocasse seu número.

- Claro. – Ela ficou ligeiramente corada e digitou os números devolvendo o celular ao garoto. – Ligue quando quiser... Ou pode mandar Whatsapp.

- Pode deixar. – Ele guardou o celular de volta no bolso e observou a menina sair sorrindo e olhando pra ele. Observando assim de longe, ela definitivamente lembrava alguém.

- Ei, Nick. – Uma voz conhecida vinda da porta chamou por ele. – Te procurei em todas as salas de conservatório, essa era a última que eu pensava te encontrar.

- Sou tão ruim assim de bateria que você nem me imagina na sala de percussão? – Nick respondeu evitando mostrar que estava surpreso com a presença de Mark.

- Claro que não foi isso que eu quis dizer e você sabe disso. – O jovem médico respondeu enterrando as mãos no jeans branco. Tinha uma bolsa preta com o laptop dentro pendurada no ombro direito. – Como está? – Mark perguntou diante do silêncio do outro.

- Estou bem, e você? Como está o hospital? – Nick perguntou colocando as baquetas novamente embaixo de um dos braços.

- Talvez eu participe de uma cirurgia complicada. – Ele respondeu sorrindo, não prestando muita atenção na parte trágica que aquilo representava.

- Uau... – Nick disse impressionado. – Parabéns.

- A propósito... aquela que vi saindo era Melody Portnoy? – Mark respondeu referindo-se a garota com rabo de cavalo que tocava bateria feito uma profissional.

- O que...? – Nick fechou os olhos e riu baixinho. – É, acho que agora tudo faz sentido.

- Não a reconheceu? – Mark disse rindo ao perceber a reação do outro. – É a filha do Mike Portnoy... Ex-baterista do Dream Theater.

- Eu sei quem é Mike Portnoy. – Nick respondeu entendo também porque achou que ela fosse familiar; de fato ela era bem parecida com o pai, mas ele nunca adivinharia que se tratava daquela Melody. – Ela disse o nome dela, disse que aprendeu a tocar bateria com o pai e que eu deveria conhece-lo.

- Ela é fera tocando bateria. – Mark respondeu ajeitando a bolsa do laptop sobre o ombro.

- Eu sei. – O loiro lembrou-se de vê-la tocando por alguns segundos quando entrou. – Mas antes estava mais impressionado, mas agora sabendo que é genético... – Ele brincou e os dois riram. – Enfim, por que está aqui?

- É sobre a despedida de solteiro dos coroas. – Mark disse lembrando-se porque estava lá. – Eu não sei aonde ir, ou o que fazer... Estou totalmente sem ideias. Lembrei que íamos preparar isso juntos, não sei se é ainda o que quer.

- Claro, vamos fazer sim, no que depender de mim, a gente ainda está junto nisso. – Nick percebeu a oportunidade perfeita para finalmente poder mostrar o Corvette reformado ao ex-namorado. – Janta comigo.

- Você sabe que dou plantão a noite. – Mark disse já esperando aquele suspiro frustrado de Nick. Ele passou a língua pelos lábios e continuou. – Mas podemos almoçar.

Nick pensou por um momento quando ouviu a palavra "plantão" e não quis continuar a imaginar que ouviria aquilo pra sempre de Mark se eles conseguissem se acertar.

- Você vai a festa de reunião de formandos da nossa escola? – Ele viu uma boa oportunidade de poder trazer algumas lembranças a mais a Mark, além do Corvette. Era a oportunidade perfeita.

- Que reunião? – O jovem médico parecia confuso.

- Claire não te ligou? – Agora era Nick quem parecia surpreso.

- Deve ter ligado, eu raramente posso atender ao celular. Recebi muitas ligações essa semana, mas só uso meu pager pro hospital. – Mark analisou pensando nas ligações não atendidas que viu no celular sem prestar muita atenção. Geralmente retornava quando era seu pai, Jensen ou Chad, ou até mesmo do hospital.

- Bom, eles estão organizando essa reunião e muita gente já confirmou presença. Talvez seria interessante confirmar também, mesmo sem saber se vai poder ir. Ou você não se sente bem com essa coisa de "voltar a escola"? – Nick estava curioso, talvez Mark lembrasse apenas dos momentos negativos que passaram juntos. Talvez ele só se lembraria do preconceito, dos "amigos" que perderam, dos rolos, das brigas, de se esconder...

- Deve ser divertido. – A resposta de Mark interrompeu os pensamentos de Nick, fazendo ele se surpreender novamente. – Vai ser bom mostrar pra metade daquela gente que nos demos bem na vida. Até parece que vou perder a chance de esfregar o "doutor" na cara de alguns perdedores. – E aí estava de volta o Mark Padalecki com 16 anos.

- Claro que quer. – Nick sorriu contido, sentindo o coração dar um salto com o tanto que amava aquele homem a sua frente, lembrando do quanto o jeito marrento dele o cativou, e teve vontade de gargalhar ao ver um Mark prepotente, do mesmo jeito que fazia quando se tratava de futebol americano. – Posso te buscar então... a gente janta, conversa sobre nossos pais e vamos... Pode ser? – Nick quis que aquilo soasse de um modo natural, não queria forçar a barra e afastar Mark de novo.

- Tudo bem pra mim. – Mark respondeu e em seguida bocejou. – Vou pra casa dormir.

- Bom, isso é novidade. – O músico riu deixando a sala junto com o moreno alto. – Vou pra aula. Te mando sms com o número da Claire, vê se retorna pra confirmar presença, ela deve estar louca atrás de você.

- De você também pelo jeito. – Mark não resistiu ao lembrar que ele já havia brigado fisicamente com Nick por causa dela. – Só não vá parar na cadeia.

- Cala boca, Padalecki. – Nick não resistiu ao riso ao ver Mark rindo também enquanto andavam em direções opostas pelos corredores do conservatório.

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- Está enrolando ela. Ela vai te largar. – Jensen dizia rindo enquanto Christian Kane lhe explicava em detalhes os motivos concretos pelos quais não queria se casar logo.

- Se ela me ama, ela vai entender e não pressionar. – Doutor Kane tinha já pensando em tudo. Tomou mais um gole de seu mocaccino.

- Você namorou tantas mulheres que acabou não entendendo como nenhuma delas funciona, não é mesmo? – Jensen continuou o gracejo andando na direção de sua mesa quando ouviu seu telefone tocou. Christian continuava, em vão, tentando se explicar. – Pois não, Julie? – Ele disse ao falar perceber que a ligação vinha da recepção do hospital. – Claro, peça a ele para vir até minha sala. – Ele disse e Christian passou a prestar atenção ao ver a expressão um tanto quanto surpresa de seu colega e amigo.

- O que foi? – Kane levantou-se curioso.

- Não vai acreditar em quem está aqui pra falar comigo. – Jensen disse sorrindo ajeitando o jaleco.

- Quem? – O médico que tinha os cabelos presos a um rabo de cavalo perguntou ainda mais curioso.

- Com licença. – A voz conhecida de outro colega de profissão acabava de entrar na sala.

- Entre, doutor Lafferty, fique à vontade. – Jensen disse estendendo a mão para cumprimentar o colega que imediatamente retribuiu e em seguida andou na direção de Christian repetindo o gesto, trocando frases de como vai e tudo bem. – Em que posso ajudar, James? – Ackles agora assumiu uma postura mais a vontade.

- Vou deixar vocês conversarem. – Kane fez menção de sair, mas James o interrompeu.

- Na verdade, se quiser ficar, não tem problema. Uma opinião a mais pode ser interessante. Sei que é cardiologista. – James disse num tom profissional.

Kane olhou para Jensen – conseguiam se entender perfeitamente apenas com o olhar – e viu que o melhor amigo pareceu gostar da ideia. Mas, pelo tom de James, tudo parecia muito sério. E era.

- Certo, eu fico, então. – Kane respondeu e voltou ao seu lugar, sentando-se em uma das poltronas onde geralmente os pacientes ficavam quando consultavam com Jensen. James sentou-se ao lado, na poltrona ao lado de Kane enquanto sentia os olhos curiosos dos colegas em sua direção.

- Bem, acredito que já sabem sobre nossa pesquisa com a universidade de Columbia em relação a operação que pode dar mais qualidade de vida aos pacientes com degeneração espinocerebelar.

- Sim, eu li o artigo. – Jensen assentiu assim como Christian. – Um pouco fantasioso, pra ser honesto.

- E realista. – Kane disse, ambos sérios.

- Mas acho importante ter esperança. – O médico loiro acrescentou e James sentiu-se desconfortável em sua cadeira. – Eu sei que você é um grande médico James, mas não sei, doenças degenerativas são basicamente incuráveis. Como vai parar a degeneração? É a mesma coisa que querer curar Alzheimer.

- Células-tronco. – James disse e por alguns segundos os outros dois ficaram em silêncio. – Temos doadores na universidade de Columbia.

Jensen recostou-se na sua cadeira e agora aquilo se parecia uma boa ideia se analisada friamente. Tudo que envolvesse células-tronco ainda era muito experimental e por isso ele se sentia inseguro e, pela cara de Christian, ele tinha a mesma opinião.

- De que paciente estamos falando? – Kane arriscou diante do silêncio de Jensen e do olhar de expectativa de James.

- Um menino de cinco anos.

- Você perdeu a cabeça. – Kane disse quase rindo e Jensen se remexeu na cadeira ao ouvir a idade do tal paciente.

- Jim...

- Jensen, eu sei, eu sei tudo que vai me dizer. – James interrompeu o que parecia ser um sermão sobre o quão errado era arriscar a vida de uma criança que, com tratamento, poderia sobreviver alguns anos. – Eu sei que ele é muito jovem.

- Muito jovem? – Jensen foi quem riu incrédulo. – O que acontece se operarmos esse menino e perdermos ele na mesa? O que vamos dizer aos pais deles? "Ah desculpe se seu filho morreu, daqui a alguns anos iria acontecer mesmo."

- Como tem coragem de dizer uma coisa dessas, Ackles? – James se exaltou e Christian preferiu só assistir. – Mais alguns anos? A que tipo de vida? A qualidade de vida desse menino ia piorar a cada ano! Quem quer isso para o próprio filho? Você tem um, deve saber como é!

- Tenho um pra saber o suficiente que se Nick tivesse em estado vegetativo, eu seria egoísta o suficiente pra mantê-lo aqui só pelo bem de tê-lo por perto. – Jensen disparou como um quase desabafo. – Esses pais iriam cuidar desse menino até o último suspiro, acredite, e entre isso e uma cirurgia em que podem perdê-lo em minutos, eles vão preferir a primeira alternativa.

James sabia que não iria ter argumentos pra vencer o emocional de ninguém. Ele passou as mãos pelo rosto e resignou-se. Talvez ele fosse esse monstro todo, sempre a favor da ciência e daquela opção que nunca ninguém quer tentar porque tem medo. Não venceria o egoísmo de ninguém.

- Os pais dele já concordaram. – James disse por fim e Jensen suspirou.

- Então o que quer aqui, Lafferty? – Kane foi quem pareceu perder a paciência.

- Não quero fazer isso sozinho, quero que opere comigo, Jensen. – Ele foi modesto de um jeito que Jensen raramente viu.

- Pra que? – Christian disse quase debochando. – Pra caso algo der errado você ter alguém pra dividir a culpa?

- Você é um babaca, Kane, sempre foi. Nem sei como conseguiu se formar. – Foi a vez de James desabafar.

- Ei! – Kane levantou-se quase perdendo as estribeiras. – Meu trabalho é impecável. Sinto muito se consegui a mesma coisa que você sem ter que sacrificar tanto a minha vida pessoal.

- Por que acha que estou aqui, Kane? – James também se levantou. – Não quero dividir a culpa com ninguém, quero fazer o que muitos médicos fizeram com a penicilina, com quimioterapia, com antibióticos... Um dia alguém também disse a eles que era loucura. – Ele fez uma pausa para respirar e se conter. – Estou aqui porque preciso dos melhores médicos comigo. Preciso de um segundo neurocirurgião, e Jensen, você é o melhor que conheço.

Ackles engoliu a seco, sentiu uma responsabilidade pesar apesar do lisonjeio. Gostava de arriscar, gostava do jogo, gostava do diagnóstico, de ver o antes e o depois. Ser médico era tudo que ele sempre quis e sim, isso também significava fazer "coisas grandes". Ou ao menos almejá-las. Um grande colega estava pedindo que fizesse parte de algo – um colega que ele julgava no mínimo responsável, apesar de perceber que seu ego era quem direcionava grande parte desse objetivo.

- E preciso de você também, Christian. – James disse sem encarar Kane. – Preciso de um cardiologista na sala, o menino nasceu com sopro no coração. – Kane só fechou os olhos, incrédulo com o que Lafferty queria: não apenas operar uma criança, mas uma criança com problema cardíaco. Murmurou baixinho algo como "esse cara só pode estar zoando com a minha cara."

- Eu quero ver tudo. – Jensen começou antes que outra discussão se iniciasse. – Exames, ficha, histórico médico, quero conversar com os pais, quero conversar com o menino... Eu quero todo acesso possível a tudo.

- Concedido. – James nem esperou ele terminar pra concordar.

Ackles deu uma última olhada para a Christian que agora sentia-se na obrigação de participar pois já sabia da condição do menino e iria se culpar se algo acontecesse e ele não estivesse lá pra dar o melhor de si. Kane mordeu os lábios como se lutasse contra seus instintos e passou o olhar de Jensen para Lafferty.

- Também quero ver tudo e quero poder discutir o assunto com outro cardiologista, doutor Pellegrino. – Kane disse e James assentiu com a cabeça.

- Sem problemas. Só quero saber se posso contar com ambos. – Lafferty meio que se preparava para a outra notícia.

- Pode. – Jensen respondeu pelos dois.

- E tem mais uma coisa...

- Lafferty... – Kane já estava em pé ainda e agarrava-se as costas da poltrona para não agarrar James pelo pescoço.

- Quero que um dos alunos de medicina da NYU nos acompanhe na cirurgia. Ele é praticamente um residente e está se formando, quer ser neurologista e eu acho que seria excelente pra ele. – Jensen e Kane revirou os olhos sabendo exatamente de quem o outro estava falando.

- Eu não concordaria com isso normalmente, pois é uma cirurgia que irá demorar horas, mas sei que Mark deve estar nesse momento muito feliz e não sou eu que vou estragar isso. – Jensen começou. – E também porque sei que ele precisa disso, vai ser um divisor de águas pra ele, pra definir se é isso mesmo que ele quer.

- Também não gosto da ideia, acho cedo pra ele. – Kane também opinou. – Mas concordo quando Jensen diz que ele precisa passar por isso.

- Eu acho que ele não quer apenas ser neurocirurgião... – James arriscou um palpite. – Ele gosta muito de crianças e se dá muito bem com elas... Agora com o voluntariado... – James sorriu ao lembrar das vezes em que encontrou ele e Bradley com capas de super-herói por cima dos jalecos, perucas coloridas, óculos engraçados e das noites com violão na ala das crianças com queimaduras graves.

- Quem sabe o que o futuro reserva pra aquele garoto. – Kane cruzou os braços e se permitiu sorrir também repassando memórias do garoto alto do Brooklin com Nick.

James preparava-se para sair após agradecer os dois e a promessa de mantê-los informados e de encaminhar a papelada para Jensen.

- Ei Jim... – Ackles o fez soltar a porta antes de sair. – Obrigado por estar fazendo isso por ele. - Jensen disse e Lafferty apenas sorriu contido. – Espero que saiba que ele não vai te decepcionar e que será um grande médico.

- Mas é claro que sim. – James respondeu com o sorriso mais aberto. – É preciso ser um grande médico como eu para reconhecer outro.

- Lógico. – Jensen respondeu com um sarcasmo divertido e James apenas sorriu de volta ao deixar a sala.

And we'll never be royals

(E nós nunca seremos realeza)

It don't run in our blood

(Não está no nosso sangue)

That kind of lux ain't for us

(Esse tipo de luxo não é pra gente)

We crave a different kind of buzz

(Nós desejamos outro tipo de agitação)