Capítulo 1: Fugitivo.

Steve McGarrett rangeu os dentes e esperou, contendo sua impaciência. Ele detestava cidades grandes... Elas sempre significavam barulhos contínuos e cheiros suspeitos que tomavam-lhe os sentidos e agravavam sua constante e leve dor de cabeça. Entretanto, ele precisava se fazer de bom moço para a polícia de Newark se quisesse informações sobre os irmãos Hesse, então ele teria de aguentar,como sempre.

Steve virou um Sentinela* ativo* tarde na vida, durante uma missão com seu time SEAL(1). A Marinha adorou e rapidamente cuidou de seu conforto e treinamento, mas tão rápido também se frustrou, pois seu novo e poderoso Sentinela simplesmente não conseguia se unir a nenhum dos Guias militares de elite apresentados a ele. Alguns haviam o perturbado tanto que ele acabou precisando usar de força física para afastá-los.

Steve era um dos mais poderosos Sentinelas que a Corporação já tinha visto -como o lendário Ellison, ele tinha os Grande Cinco- visão, olfato, audição paladar e tato acentuados, mas seu controle era irregular e ficava cada vez pior conforme o tempo passava e ele continuava sem se Unir*, sem um Guia para manter seus pés no chão. Ele persistia e sempre completava suas missões, porém permanecia sendo um Sentinela Desunido depois de quase doze anos. Ter durado tanto devia-se a sua absoluta teimosia, mas seu tênue controle estava finalmente se desfiando. Era só uma questão de tempo até seus poderosos sentidos o levarem à loucura ou à selvageria de um animal perdido da manada ou ao suicídio para escapar da dor constante.

Ele bufou frustrado e passou uma mão pelo rosto cansado. Tudo que ele queria fazer era terminar sua missão e então se recolher de volta a sua quieta casa no Havaí para uma muito necessária liberdade. Vinha perseguindo os irmãos Hesse por quase dois anos já e estava se tornando cada vez mais difícil se concentrar na caçada. Ele passava muito tempo em dispersões* e sofria com debilitantes dores de cabeça. Não demoraria muito antes que ele parasse de funcionar por completo.

Um toque leve no seu cotovelo o desperou de seus pensamentos sombrios e ele deu a sua Guia temporária, Catherine Rollins, o que esperava ser um sorriso tranquilizador. Ele gostava de Catherine, de verdade, eles se deram bem tanto como amigos quanto como amantes ocasionais, porém, eles não haviam se Unido, muito para o desapontamento dela. Logo ela teria de ser designada para um lugar diferente e outro candidato a Guia tomaria seu lugar, pois já estava se tornando incrivelmente difícil para Catherine tirá-lo de suas dispersões e Steve tolerava a presença dela cada vez menos.

"Chefe Franklin nos verá agora, Comandante."

Acenando em concordância para ela, gentilmente ele afastou a mão pequena do próprio braço, diminuiu os sentidos e passou por ela em direção do escritório fingindo não ver a dor nos belos olhos. Logo não conseguiria mais tolerar o toque dela de jeito nenhum e não havia nada que eles pudessem fazer para impedir.

SM*-*SM

Detetive Danny Williams jogou o prisioneiro -que protestava e xingava, tentando fugir dele, sem conseguir mesmo sendo o dobro de seu tamanho- nas mãos de dois sorridentes policiais, pegou um bem impresso relatório no canto de sua mesa e se dirigiu para o elevador, arrumando sua gravata e cabelo no caminho. Se o Capitão Devlen queria o maldito relatório agora, então Danny pessoalmente entregaria em mãos para a secretária dele. Entrou e dois membros da SWAT, vestidos como tal, de bom grado abriram espaço para acomodá-lo. O mais alto, um esguio homem de pele escura, sorriu para o diminuto detetive.

Tonio Jackson gostava de Danny Williams, ele tinha uma forte atitude, puramente de Jersey e era um excelente policial e pai. Era uma pena que a vaca da ex-esposa tinha se casado com um rico empreiteiro imobiliário e se mudou para o Havaí, levando a filhinha de Danny com ela. O detetive estava arrasado. Todos sabiam que Danny ficara com as contas bancárias zeradas devido ao divórcio e não podia bancar segui-los ainda.

"Parece que você finalmente prendeu o estuprador do Parque Branch Book, Danny."

"Sim, sim, ele não era dos mais espertos. Tudo que precisou foi a Sonja numa minissaia andando por aí depois que escureceu e ele cometeu o erro de tentar agarrá-la."

Jackson riu. Sonja Bronson, a parceira de Danny, tinha um metro e meio de pura fúria do Bronx com o rosto de um anjo inocente feito por Botticelli e um chute violento que podia derrubar um cara em segundos. A dupla diminuta tinham os melhores recordes de prisão e apreensão na Homicídios.

"Ele ainda tem as duas bolas?"

"Sim, mas agora elas são do tipo que se pode retirar quando quiser. "

"Ai. Eu quase sinto pena pelo cara. Como está a Sonja?"

"Tão bela e perigosa como sempre. Ela pensa que o novo brinquedinho dela está escondendo algo e está prestes a chutar a bunda dele com força."

Jackson fez um som de dor como se fosse com doesse nele. O uso dos saltos stiletto da pequena Sonja como armas letais era legendário na delegacia.

Continuaram batendo papo enquanto o elevador fazia seu caminho lento da torre da delegacia para os níveis superiores de administração. Depois das Guerras Urbanas, delegacias de polícia ficaram mais parecidas com fortalezas, similar a duplicatas de torres medievais, oferecendo abrigo para refugiados durante a comoção civil e até um lar para oficiais e suas famílias quando necessário. A torre da polícia federal de Newark era praticamente uma microcidade. Tinha um heliporto no telhado, veículos blindados nos níveis de estacionamento no porão, seu próprio centro médico e vários restaurantes e self-services, como pequenas propriedades, nos níveis inferiores.

A única coisa que a Torre de Netwark não possuía era um Sentinela e, por isso, Danny agradecia do fundo do coração. Sendo um Guia sem registro e altamente empático, já era complicado o suficiente manter-se discreto e evitar os poucos Sentinelas com que pudesse vir a entrar em contato devido ao trabalho. Por sorte, ele possuía um círculo de amigos na delegacia que o ajudavam e ficavam de olho caso algum Sentinela Desunido viesse farejar por essas bandas. Todos eles acreditavam que Guias deveriam viver de acordo com a própria vontade, não como posse de um Sentinela e propriedade do governo, sem escolhas feitas por si mesmos. Então, Danny mantinha capsulas de neutralizador de odor na sua mesa e armário da delegacia e no carro também, sempre alerta para se manter fora de vista.

A propaganda que o governo apresentava era linhas e linhas de jargões atraentes sobre quão bem Guias eram tratados, porém Danny havia visto por si mesmo a realidade nua e crua, sua prima favorita, Jenny, fora forçada a se Unir com um Sentinela do exército militar com o dobro da idade dela e seu ocasional desprezo e rudeza deixaram uma marca permanente em Danny.
Daniel Williams não era escravo de ninguém.

Ele, com sucesso, focou sua empatia na carreira de policial e tinha 89 homicídios com condenações bem-sucedidas sob seu distintivo e uma fileira de menções honrosas como provas de seu bom trabalho. Fortuitamente Nova Jersey tinha poucos Sentinelas ativados, pois estes eram criaturas territorialistas e gostavam de ter sua área. Isso funcionava a favor de Danny.

Ele saiu do elevador no 27º andar e dirigiu-se para a secretária de Devlen, Marcy, para deixar o relatório. Depois de jogar um pouco de conversa fora com ela por alguns minutos, voltou para a área onde os elevadores ficavam, determinado a sair mais cedo e ir direto para casa passar a noite com algumas bebidas e um jogo que gravara para variar um pouco. Estava exausto depois de desvendar o caso do Parque Branch Brook e sentia que poderia dormir uma semana inteira sem parar. Ao primeiro passo dado para fora do elevador vazio, a porta do escritório do Chefe Franklin se abriu e duas pessoas de lá saíram junto com o Chefe em pessoa, dando apertos de mão em despedida.

O cérebro sonolento de Danny de repente entrou em modo super alerta ao vê-los, pois usavam uniformes padrões azul-claros da Marinha Norte-Americana e o mais alto tinha a insígnia inconfundível em forma de raios de sol de um Sentinela ativado na ponta de seu colarinho e nas costas do colete tático havia em ziguezague na cor preta um relâmpago indicando que ele era Desunido.
Danny paralisou por um momento, o coração batendo acelerado, e isso lhe custou caro.

O homem alto, esguio e de cabelos escuros virou a cabeça, as narinas alargando-se e o mais intenso dos olhares dentre os que Danny já tinha visto em toda sua vida encontrou o seu. Olhos avelã prenderam-se aos azuis e por alguns longos instantes eles apenas fitaram um ao outro.

Xingando, Danny bateu com força no botão que fechava as portas do elevador, no preciso momento em que o cara piscava antes de começar a vir numa linha reta em sua direção, um sorriso feliz rasgando o rosto dele. Danny precisava sair dali de qualquer maldito jeito.

O momento que as portas fecharam, Danny se moveu, enfiando seu cartão de identificação na abertura e socando nos botões do painel de controle do elevador para a torre principal uma série de códigos de emergência. Houve uma resposta imediata -um alarme começou a soar por toda a delegacia e o 27º andar foi rapidamente lacrado- todas as portas se trancando automaticamente devido ao código de alerta terrorista digitado por Danny. O elevador em que ele se encontrava era o único funcionando no momento no prédio. Apertou o botão para os níveis do estacionamento, indo com velocidade acima da média usada para emergências. Era preciso sair de Newark agora pois ele tinha um Sentinela ativo e Desunido preso ao seu rastro.

Ao sair do elevador, encontrou um time da SWAT entrando em resposta ao alarme e casualmente esbarrou no último da fila, espalmando o pequeno pacote de granadas não-letais presas no cinto de acessórios. Isso deveria servir para desorientar o Sentinela se o ruim se tornasse pior. A mente de Danny se apressou furiosamente enquanto ele roubava um carro do esquadrão e saía do estacionamento, ignorando o crescente caos criado por seu alarme. Ele não voltaria lá mais de qualquer jeito.

Ele era um fugitivo agora.

Continua...

(1)SEAL: Sigla para os times do mar, ar e terra da Marinha dos Estados Unidos (The United States Navy's Sea, Air, and Land Teams), eles são a principal força de operação da marinha norte-americana A Sigla é por poderem atuar em todos esses ambientes. Vide wikipedia. Você também conhece outros personagens SEAL como Steven nas séries NCIS e seu spin-off, NCIS: Los Angeles, o qual, alias, já participou de crossover com H5-O.