Sofia
A primeira semana de aulas tinha sido bastante atribulada mas ao mesmo tempo descontraída. Ainda era complicado para mim associar salas a corredores e conseguir fazer todos os horários devidamente. Mas eu estava a conseguir. Eu e o André nem sempre tínhamos aulas juntos, mas isso não nos impedia de nos vermos.
- Senhorita Redbird, está atrasada dois minutos.
- Eu sei, professora, desculpe. Não volta a acontecer.
Tinha aula de transfiguração com a professora Joana, a directora. Não era nada fácil enfrentar o olhar firme dela, mas ela não era má. Aliás, estava sempre com um sorriso para nós. Eu não fui a única a chegar atrasada, vários alunos chegaram depois de mim. E ela ralhou com todos eles. Acho que afinal eu não estava na lista negra.
Começávamos por fazer apresentações e coisas simples nas aulas, mas era o sificiente para nos irmos conhecendo uns aos outros. Era óptimo poder começar a sentir-me integrada e sentir que não era a única com medo de falhar ou de descobrir que afinal não pertencia ali. Mas sempre que conseguia fazer algo esses pensamentos desapareciam. E saía das aulas sempre com um sorriso enorme e com uma fome danada, só de pensar na comida boa que estava no salão grande à minha espera.
- Vá, anda lá Sofia, não tenhas medo. Eu ajudo-te! Não andei a manhã toda à tua procura para dizeres que não.
Pronto, eu não queria mesmo admitir outra vez que tinha medo de voar, mas o André estava a ser insistente de uma forma querida e eu não queria fazer-lhe a desfeita. Os alunos do primeiro ano não podiam ter as suas próprias vassouras, mas podiam pedir uma autorização especial para poderem usar as da escola. Ele era doido por Quidditch e isso fazia com que se pudesse sempre encontra-lo nos campos da escola.
Pus-me na vassoura atrás dele e ele sorriu-me.
- Segura-te bem a mim.
Fez um meio sorriso e eu revirei os olhos, mas com um sorriso. Às vezes achava que ele sentia mais por mim do que aquilo que devia. Nunca era mal educado ou aproveitador, mas eu também não queria deixar chegar a esse ponto. Gostava muito dele, mas não nesse nível.
- Vê lá se é.
Mas enlacei os braços à volta dele e fechei os olhos. Pelo menos até estarmos no ar. Ele tinha razão, voar não era assim tão mau e ele até voava bem. Pelo que me tinha contado, já praticava há um tempo. Enquanto voávamos íamos conversando sobre os mais variados assuntos, daqueles que não mudam o Mundo, mas que mudam amizades. E ria-me bastante com ele, porque ele tinha essa particularidade: fazia rir qualquer um à sua volta.
Ainda éramos novos e tínhamos chegado à escola recentemente, e ele foi a primeira pessoa que eu conheci. Foi uma amizade rápida, como é óbvio, e embora ele tivesse sido escolhido para os Gryffindor e eu para os Ravenclaw não gavia problema nenhum, pois encontrava-me com ele todos os dias para explorarmos um pouco mais o castelo ou simplesmente para irmos para à beira do Lago conversar sobre nada em especial ou mesmo ficar calados só a olhar para a água, o que raramente acontecia, porque o André é daquele tipo de pessoa que tem tema de conversa para tudo de forma agradável e nunca houve silêncios constrangedores entre nós.
- Olha ali. - apontou ele - Aquela árvore. Ontem fez-me uma bela nódoa negra.
- A árvore já lá estava, André.
E começou a rir. O riso dele era das coisas mais agradáveis de se ouvir, era pura alegria, nada o perturbava, nada o desiludia. Ou pelo menos eu achava que não. Ele aterrou, desmontámos da vassoura e acabámos por nos sentar na relva do jardim onde ele me tinha levado.
- Então diz-me lá, és sempre assim tão calada ou simplesmente não gostas de mim?
Assim que ele disse isto desatei a rir e ele seguiu-me o riso. Eu não era calada. Muito pelo contrário. Mas às vezes eu perdia-me um pouco nos meus pensamentos e isso deixava-me distraída.
- Desculpa, é do feitio. Mas eu gosto de estar contigo. És simpático e agradavelmente conversador, portanto falas pelos dois. Mas tudo bem, eu falo - aclarei a garganta - então, eu venho da Argentina, de Buenos Aires, mas isso tu já sabes. Só vivia com a minha mãe. Nunca conheci o meu pai.
Encolhi os ombros, não era algo com que me preocupasse, eu e a minha mãe estávamos bem e nunca fiz referência à minha irmã. É uma história que fica para outro dia, não gosto de falar de coisas más. Ele perdeu um bocado o sorriso, mas foi perguntando mais coisas sobre mim, algumas delas demasiado privadas e eu quase lhe bati, mas sabendo que ele estava a brincar.
- Então e tu? A tua família é toda tonta como tu ou...?
Comecei a rir mas ele ficou subitamente calado e eu olhe-o com a sensação que disse algo que não devia.
- O que foi?
- Nada.
- Disse algo que não devia?
- Não, é só que... - levantou-se - Vamos embora.
- Mas porquê?
Puxei-o pelo braço para ele se voltar a sentar. Eu já era teimosa na altura.
- Fiz alguma coisa que não devia? Diz lá.
Fiz o meu olhar mais aborrecido, o que até era engraçado, porque eu não meto medo a ninguém, ainda hoje não meto. Sou demasiado pequena para me levarem a sério quando estou chateada, pelo menos até me verem irritada a sério.
- Eu fui adoptado.
Ele estava um bocado irritado, mas eu não lhe perguntei nada. Não era minha intenção chatea-lo.
- Eu não ia gozar. Não tem piada, e eu também não tenho pai, não sei se reparaste. E além disso eu já sabia que és adoptado, tu contaste-me.
Encolhi os ombros. Ele é que quis começar com aquele questionário um sobre o outro. Mas senti-o descontrair-se enquanto desenvolvíamos o assunto. Acho que lhe fez bem desenterrar tal assunto.
- Eu sei. Desculpa, é só que... Este assunto é-me um bocado sensível. Não é que eu seja sensível!
Acrescentou muito depressa e eu sorri a acenar com a cabeça. Foi muito mais fácil a conversa a partir daí. Falámos sobre tudo: a nossa vida antes de irmos para a Escola de Magia, o quanto ela ia mudar por termos ido para lá, o que esperávamos de disciplinas que nem fazíamos ideia que podíamos aprender antes de recebermos a carta, o medo que eu tinha de falhar, etc. Passaram horas até nos levantarmos outra vez para irmos embora, horas que nos tornaram amigos, verdadeiros amigos. Não tínhamos segredos um para o outro, mas havia apenas uma coisa que eu não lhe havia contado, sobre a minha irmã. Esse era o meu segredo. E eu nunca o contara a ninguém. Não via necessidade disso e eu tinha medo do que iriam pensar de mim.
Durante muito tempo fomos inseparáveis, uma amizade para a vida, ainda hoje o é, e não me arrependo de nada do que vivi com ele, e também não mudava nada, porque muito do que sou hoje, devo-o a ele.
Mason
Conseguia vê-los da minha janela do quarto. Irritava-me vê-los sempre a passear e a aproveitar as tardes juntos. Porque é eu não podia fazer aquilo também?
- Mason, estás pronto? Já são horas de...
A minha mãe entrou de repente no meu quarto e quando viu como eu estava suspirou. Ela não gostava que eu me transformasse muitas vezes, mas eu não conseguia controlar. Quer dizer, mais ou menos.
- Eu sei, só não entendo porque é que continuamos a ir a esse estúpido médico, se ele nem sabe o que está a fazer.
- Não fales assim, ele faz o melhor que pode.
- Bem, não é o suficiente, pois não?
Perguntei, irritado. Eu não era mal educado e ela sabia isso. Mas eu tinha de controlar o meu feitio se queria ficar nesta escola.
- Eu sei, meu amor. Não tens culpa. E não vamos falar disto como se fosse uma doença. Tenho a certeza que isto vai parar. Vais poder começar a vir às aulas como todos os outros.
- Eu só queria...
Respirei fundo a evitar olhar pela janela onde a Sofia estava com aquele otário. Evitei dizer que só queria estar lá fora e conhecê-la. Ou outra qualquer, na verdade, mas naquele momento era ela que eu queria conhecer. Não sei bem porquê, mas queria.
- Deixa lá. Isto passa.
Não queria que a minha mãe percebesse. Ela não era parva nenhuma nem daquelas mães chatas, mas era mais fácil não ter ninguém a fazer perguntas.
- Anda, vamos chegar atrasados. Já que estás assim, podes ser tu a falar com o médico.
- Está bem.
Eu lembrava-me de tudo tanto em criança como em adolescente. Bem, quase tudo. Muitas coisas pareciam um borrão quando eu ficava pequeno. Acho que era a própria natureza a não me deixar entender coisas que uma criança não deve entender. Lembram-se da situação das miúdas, certo? Bem, é uma das coisas que vira um borrão quando eu fico pequeno.
- Mas se ele me tentar dar alguma vacina no rabo, leva um soco, aviso já.
- Está bem, Mason.
Ela revirou os olhos, mas com um sorriso. Acho que ela não entendeu que eu estava a falar a sério. Eu não precisava de mais vacinas para nada. Ninguém me podia ajudar. No fundo a minha mãe sabia isso e ela era a última pessoa no Mundo que iria deixar que alguém me fizesse mal.
Ainda espreitei mais uma vez pela janela. Eles já não estavam lá. Onde teriam ido? Ele estava a agarrar na mão dela neste momento? Estaria a beija-la como o meu irmão beijava a namorada dele? Abanei a cabeça para afastar estes pensamentos. Mas porque que caralho é que eu só conseguia pensar nisto? Eu nem a conhecia! Era bom que isto tal como tudo na minha vida, eu nunca sabia com o que contar no minuto seguinte. Literalmente.
Sofia
Estava tudo a decorrer normalmente: o castelo já não me pregava partidas que me faziam chegar atrasada às aulas. Eu ainda achava o castelo maravilhoso, com todos os eus segredos, as aulas eram super interessantes, adorava Magia, principalmente transfiguração.
Mais alunos começaram a chegar, o que não me fazia sentir a única pessoa tão pequena como era na verdade. Bem, alguns mais velhos eram simpáticos, outros... nem por isso.
- Olá, novata.
Eu não a conhecia, mas não julgo as pessoas antes de as conhecer, embora esta aluna me parecesse um pouco estranha, e com estranha quero dizer arrogante.
- Hum... Olá.
Estiquei-lhe a mão para a cumprimentar, ela não a apertou e eu fiquei um pouco corada e baixei o braço.
- Sou a Sofia.
- Jasliin.
Ela sorriu-me com o que me pareceu ser uma amostra de sorriso falso, mas como eu é que era mais nova que ela na escola mantive-me calada e ela seguiu caminho enquanto eu encolhia os ombros e me dirigia ao salão principal para ir tomar pequeno-almoço e ir ter com o André.
Havia outra rapariga, do meu ano, que era completamente estúpida e tinha começado a implicar comigo do nada. Lembro-me de ter batido nela no primeiro dia de aulas, sem querer. A Raquel. Ela era dos Slytherin, mas mesmo assim insistia em se meter com toda a gente das outras equipas. Eu nunca lhe fiz mal e não compreendia toda esta antipatia. Ela era alta e com o cabelo preto esticado. Tenho de admitir que ela era bonita. Mas ser bonita não chegava para compensar o quão horrível ela era.
- Bom dia, Sofia. Acordaste tarde hoje? Nem tiveste tempo de te pentear.
As atrasadas das amigas dela davam aqueles risinhos baixos irritantes e eu só revirava os olhos.
- Bom dia também para ti, Raquel.
Mas qual era o problema dela?
- Disse alguma coisa de mal? Desculpa, sempre me ensinaram a ser sincera.
- Ah foi? E a ser estúpida, também?
- Porque é que estás a ser tão rude? Só vim cumprimentar-te.
Ela fingia-se de inocente sempre que passava algum professor e o facto de se fartar de dar graxa no fim das aulas não ajudava nada a mostrar a cobra que ela era.
- Não tens mais nada para fazer? Estudar? Dar graxa aos professores?
- Nem por isso. Sabes, alguns de nós já nascem com talento natural para estarem no topo. Já pessoas como tu... Bem, é o que se vê.
Deus, como eu a odiava! Mas tentava ignora-la o mais possível. Quanto mais trela se dava a este tipo de parvas mais elas achavam que estavam no topo. Além disso nem era preciso enervar-me muito com ela. Era a típica idiota mimada que achava que todos tínhamos de nos curvar para ela. Era só o que faltava. Não se preocupem, vão ter várias oportunidades para ver o que eu quero dizer. Evitei responder-lhe torto dado que isso me levaria a um castigo não merecido e foi apenas a chegada do André que me salvou de lhe ir à cara.
- Hum, Raquel estás suja na cara.
Ergui uma sobrancelha a olhar para ele. Mas porque raio é que ele estava a ser tão educado e simpático para ela? Ia bater-lhe também.
- Acho que é Nutella. Ah não, espera, é base. Devias lavar a cara.
Ia cuspindo o sumo que tinha na boca quando ele disse aquilo. A cara que a Raquel fez foi impagável! Ficou de todas as cores até finalmente ficar vermelha e se ir embora a praguejar e a empurrar alunos que estavam no caminho dela.
- Podes agradecer-me depois.
O André sentou-se ao meu lado e eu abanei a cabeça, mas ainda a rir.
- Obrigada, ela mereceu. Idiota da porra.
- Alguma vez vais dizer uma asneira que preste?
Perguntou-me já com a boca cheia de comida.
- Mas estou a incomodar-te é?
- Não, não! Já não está cá quem falou.
Foi nesta decorrer de aulas e início de nova vida que conheci aqueles que viriam a ser as pessoas que mudariam a minha vida. Numa dessas noites friorentas das férias de Natal fui até à Sala da escola, onde a maioria das pessoas se reunia para vários fins: ler, ver filmes, simplesmente conversar. A directora Joana era uma directora preocupada e queria que os alunos se sentissem tão bem quanto possível. Eu não ia a casa porque sabia que o André ia lá ficar e viajar para a Argentina era mesmo caro. A minha mãe viria visitar-me, era mais barato por ser visita à Escola, com uma autorização especial, por isso não havia problema nenhum.
