A morena parou diante do painel de madeira que servia de entrada ao cômodo. Era um quarto simples, tinha um futon no centro, uma cômoda em um canto e uma mesa baixa com um banquinho no outro.

– Poderá ficar aqui. –Mikoto disse-lhe sorrindo. – Deve estar com fome não? Pedirei para alguém lhe preparar alguma coisa e temos de providenciar roupas também.

Uma das coisas que os pais sempre fizeram questão de lhe ensinar foi a gratidão e mesmo agora que havia os perdido, Sakura tinha seus valores ainda mais fortes dentro de si. Quase que automaticamente, curvara-se aos pés da morena que se surpreendeu com tal reação, mas ainda assim sorriu e ajoelhando-se fez com que a menina lhe olhasse nos olhos:

– Entendo que esteja agradecida, mas jamais deve se curvar assim para alguém, exceto para o Imperador é claro. –afastou uma mecha de cabelo dos seus olhos.

A Haruno assentiu admirando-se com a ternura daquela mulher que era dona de uma beleza esplendorosa, com sua pele pálida compondo o contraste de seus cabelos com os olhos tão escuros quanto um céu sem estrelas.

Após isso, Sakura consumiu com uma fome voraz a sopa de legumes que lhe fora preparada, em seguida pôde limpar-se e por fim vestiu uma espécie de quimono cinzento e totalmente livre de enfeites. Quando retornou ao aposento que estava destinado á si viu que Mikoto a ainda a aguardava. A morena se ergueu e com uma escova pôs-se a pentear os longos fios de cabelo da menina com extrema delicadeza, depois disso os arrumou numa trança.

– Agora sim, estás bem melhor. –elogiou.

Sakura tocou a trança lembrando-se então das manhãs em que a mãe trançava seus cabelos enquanto o pai narrava algum gracejo com o simples objetivo de vê-las sorrir. Daí em diante foi impossível segurar o que nenhuma criança de sete anos suportaria, naquele momento então lançou-se sobre a mulher abraçando-a com os braços cercando sua cintura.

Mikoto sentia as lágrimas quentes encharcando seu quimono, mas não se importou nem com isso, nem com os soluços fortes que a menina soltava. Apenas pôs-se a passar a mão em sua cabeça e ficar ali com ela, até que suas lágrimas tivessem se secado e o sono tivesse chegado aos seus olhos.

...

A katana foi lançada ao chão, Sasuke havia sido desarmado.

– Assim não dá teme! Você não está nem recuando quando eu ataco. –Naruto exclamou exasperado.

– Não estou muito disposto hoje. –assentiu aparentemente abatido.

– Isso é graças á informação falsa que recebemos ou simplesmente está sentindo falta da sua amante secreta? –indagou rindo.

No mesmo instante Sasuke recuperou sua espada do chão e segurou a lâmina encostada rente ao pescoço de Naruto:

– Nem pense em falar algo desse tipo novamente, ouviu dobe? –ameaçou, seus olhos pareciam tomados ainda mais pela escuridão.

– T-tudo bem Sasuke, já entendi. –vacilou, o moreno liberou-o sem tirar os olhos de si.

Ohayo! –Mikoto surgiu pela porta do dojo sorrindo-lhes. – O que fazem aqui tão cedo? Deveriam estar se alimentando. –aproximou-se do filho tentando inutilmente ajeitar suas madeixas rebeldes.

– Um bom guerreiro começa o treinamento junto do sol. –comentou o loiro que já tinha se recuperado do momento tenso.

– Então otou-san permitiu mesmo que ela ficasse. –afirmou Sasuke vendo a menina de cabelos róseos que estava com a cabeça baixa, desde o momento em que abrira os olhos, vinha acompanhando Mikoto por todos os cantos.

– Sim, Sakura é um amor. Ela parece não conseguir se comunicar, mas é capaz de nos compreender e é extremamente gentil. Foi uma grande sorte conseguir salvá-la filho. –falou toda orgulhosa de seu caçula.

– Humpf. –soltou, era o que pronunciava sempre que não tinha mais nada a dizer. Notou então que a menina agora o observava e os grandes e redondos olhos verdes pareciam querer arrancar algo de si, desconfortável com tal sensação voltara sua atenção á mãe que logo se pôs a dizer:

– Seu otou-san quer vê-lo aqui esta noite, será oferecido um banquete para o Imperador e outros convidados mais importantes.

– E por que será que ele não veio me solicitar pessoalmente? –perguntou com um amargor na voz.

– Ele é um homem muito ocupado Sasuke e também você o conhece, Fugaku é orgulhoso. –justificou sem jeito.

– Que seja. Quem são os outros convidados importantes? –quis saber.

– Alguns senhores feudais e também Nagato. –a mãe respondeu-lhe.

Nagato era fundador da Akatsuki, uma aliança de samurais com os mesmos objetivos dos Uchiha. Eles serviram Jiraya em seu reinado e desde a consagração do Império Hyuuga, vinham tentando convencer o Imperador a reassumirem seus lugares na área militar do país. Fugaku via o líder Nagato como seu rival, mas quando se encontravam fazia questão de manter a compostura: "mantenha seus amigos por perto e os inimigos mais ainda" –dizia o patriarca Uchiha desde quando os filhos eram pequenos.

– Nagato hein... Então provavelmente sua esposa virá. –Naruto disse sugestivo olhando para o Uchiha que o observou friamente.

– Sim, provavelmente Konan virá. –Mikoto concordou naturalmente. – Agora vão comer. Venha Sakura. –saiu sendo seguida pela menina.

...

A Haruno assistia enquanto duas criadas ajudavam Mikoto com seu belo quimono vermelho e negro, cores dos Uchiha. Logo em seguida, ela tratou de passar o pó em seu rosto e com um pincel, delineou de preto seus olhos da mesma cor.

– No passado fui uma gueixa. Minha presença era a mais valorizada nas casas de chá e eu tinha todos os homens aos meus pés. –contou sorrindo. – Porém cometi um erro que para qualquer gueixa é inadmissível: apaixonei-me. –agora coloria seus lábios de vermelho. – Por isso abandonei todo o meu prestígio com o único intuito de me tornar a senhora Uchiha e gerar os filhos de Fugaku. –virou-se para a menina com um sorriso ainda estampado na face. – E jamais me arrependi dessa escolha, pois amar e ser amada de volta é a melhor recompensa que podemos ter na vida.

Diante da entrada para o grande salão que serviria como sala de jantar Mikoto parou e disse a Sakura:

– Vê aquele homem de cabelos compridos e olhos acinzentados? –a menina assentiu. – É nosso Imperador, diante dele deve curvar-se, lembra-se? –mais uma vez ela fez que sim com a cabeça. – Aquele diante de Fugaku é Nagato, não se engane ao vê-los conversando como amigos, ambos são rivais. Já aquela mulher ao seu lado é Konan, assim como eu, ela abandonou tudo para se juntar aquele homem e também foi a única que ultrapassou meus lucros e minha fama como gueixa.

Sakura observou a mulher de quem Mikoto falava: tinha cabelos azulados e um par de olhos cor de laranja emoldurados por cílios espessos. Estava pintada assim como Mikoto e trajava um quimono lilás com pequenas nuvens brancas desenhadas nele.

– Infelizmente não poderás passar daqui, tenho de ir acompanhar meu marido, nos vemos mais tarde. –acariciou seu rosto.

A Haruno então foi á cozinha e se alimentou junto da criadagem. Quando voltou á espreitar o salão novamente, viu que as mesas estavam ainda mais cheias agora. Fugaku continuava trocando algumas poucas palavras com seu rival e o Imperador, Mikoto ao seu lado tinha um sorriso terno que não se desfazia em nenhum momento. Itachi parecia extremamente concentrado na conversa do pai, já Sasuke parecia distraído, seus olhos pareciam focar o nada. Ás vezes o mesmo parecia despertar e olhava á sua volta, para a família e então seus orbes voltavam a encarar o nada, na verdade Sakura observou melhor a linha de seu olhar e viu que na verdade, Sasuke encarava alguém: a bela Konan, que o retribuía da mesma forma discreta.

– Ei Sakura-chan o que faz aí? –a rosada saltou assustada, era Naruto o samurai que treinava com Sasuke.

O loiro fez uma cara de derrota ao lembrar-se de algo:

– Ah sim, você não fala. Deverias estar brincando agora, ou até mesmo dormindo... –mostrou-se confuso. – Bem, tenho de ficar aqui de guarda o que é extremamente chato. –mostrou a língua e a menina riu. – Olha só, parece que consegue sorrir. –imitou-a exibindo a fileira de dentes brancos que possuía, daquele jeito parecia ainda mais jovem, mais criança. – Espero vê-la sorrindo assim mais vezes, mas agora Sakura-chan é melhor que vá brincar lá fora, essas pessoas não são muito sociáveis ou tolerantes com crianças. –alertou.

Sakura então deixou o local e lá fora, pôs-se a conhecer melhor o distrito. Havia uma pequena ponte e um riacho que lhe lembrou de sua casa, atravessou-o saltitando entre as pedras maiores, distraindo-se enfim. Também caminhou pelos campos e parou diante da árvore que possuía o seu nome, a cerejeira. Seus pais sempre diziam que ela tinha a beleza e a delicadeza de uma e que assim como a árvore, sempre enfeitaria as primaveras de suas vidas.

De repente seus ouvidos foram invadidos por alguns sons inconstantes, parecia uma pessoa espreguiçando-se ou ainda sentindo dor. Seguiu o som que se tornava cada vez mais audível e foi se misturando com gemidos mais graves. Parou diante do dojo, abriu ligeiramente uma fresta do painel e depois de alguns segundos procurando, viu a mulher de cabelos azuis movimentando-se sobre o moreno que abraçava seu corpo.

Sakura ficou sem ação e ainda mais perplexa quando a mulher abriu os olhos e a viu ali parada. Cessou os movimentos na mesma hora e sussurrou ao rapaz:

– Ela nos viu! –o moreno que até então, tinha escondido sua face no colo da mulher mostrou-se e se dirigira diretamente á ela também.

Não esperou mais nada, bateu a porta e saiu correndo assustada. Sem olhar para trás, continuou até chegar ao seu quarto onde se refugiou respirando aliviada. Só quando se viu mais tranquila, deitou-se no futon e adormeceu rapidamente.

No meio de seu sono, porém sentiu que alguém a balançava levemente e quando abriu os olhos mesmo com o cômodo iluminado apenas por uma vela, conseguiu enxergá-lo. Seus olhos estavam firmes e sérios e sua voz mais ainda:

– Se alguém descobrir o que vira esta noite, eu mesmo me encarrego de ti, por isso é bom que esqueça o que presenciou pirralha. –proferiu aquelas palavras a fazendo tremer. – Estamos entendidos?

Balançou a cabeça para cima e para baixo, confirmando.

– Boa menina. –afastou uma mecha de cabelo que lhe cobria o rosto, então se levantou e saiu tão silenciosamente quanto entrou.

Com o coração acelerado, Sakura fez questão de esquecer o que tinha visto. Não queria de modo algum despertar a fúria de Uchiha Sasuke.

...