Sua cabeça latejava e mesmo deitado, sentia-se vagamente tonto. Estava aconchegado em seu futon, embora não se recordava de ter ido para o quarto na noite anterior. Sentiu uma pontada mais intensa ao recuperar sua última lembrança, recordou-se de várias garrafas de saquê e da menina de cabelos cor de rosa lhe encarando com aqueles olhos verdes espantados. Chegara à conclusão de que a mesma não teria o carregado até ali sozinha e torcia para que a menina não tivesse chamado algum samurai ou até mesmo seu pai e irmão.
A amargura do dia anterior lhe veio á mente. As decisões que Fugaku e Madara tinham tomado sem seu consentimento eram inadmissíveis, de forma alguma se tornaria o tolo que esperavam que ele fosse.
De repente o painel de seu aposento foi aberto e para seu alívio, lá estava Mikoto com seu sorriso gentil. Sentou-se para receber um beijo na testa, só então reparou que a menina de cabelos róseos também estava ali, havia se tornado uma fiel acompanhante de sua mãe e Sasuke só podia esperar que ela de fato fosse muda, para que não denunciasse sua fraqueza por saquê á Uchiha.
– Ohayo! Faz um dia tão belo lá fora e você aqui o desperdiçando dormindo. –pronunciou animada aquela reprimenda.
– O dia ontem também parecia belo, entretanto no fim das contas não foi bem assim. –rebateu prontamente aborrecido.
– Seu irmão me contou o que aconteceu na reunião. –sentou-se elegantemente ao seu lado e pôs-se a acariciar seus cabelos na vã tentativa de colocar os fios rebeldes em seus devidos lugares. – Veja pelo lado bom, seu otou-san está colocando sobre seus ombros um grande fardo, ao se casar com a princesa se tornarás o homem mais poderoso entre todos.
– O que nenhum de vocês é capaz de compreender é que não desejo o poder, além disso, seria apenas uma farsa para que otou-san e Madara reinassem. Sonho em liderar os Uchiha, no entanto nem para isso sou digno.
– Está erroneamente enganado filho! Tens tudo para se tornar um homem tão grandioso quanto meu Fugaku. –fez uma pausa. – Ele o sabe que é melhor para ti, quer o seu bem tanto como eu.
– Humpf. –soltou antes de erguer-se, não queria mais discutir aquele assunto. Amava a mãe, mas Mikoto nunca entenderia seus pontos de vista.
– Essa noite temos um jantar no palácio do Imperador, todos nós temos de estar presentes embora Hiashi ainda não queira anunciar oficialmente seu compromisso com a jovem Hinata.
– Mesmo? Pois eu não irei. –soltou decidido.
– Sasuke! Deves comparecer á esse jantar, é bom que mostre respeito ao Hyuuga. –repreendeu.
– Não tenho obrigação alguma disto, quanto menos de me casar com quem quer que seja.
– Seu otou-san não ficará nada contente com este seu comportamento.
– Assim como o mesmo não se importa com minhas vontades não ei de me importar com as dele, agora se puder me dar licença. –solicitou grossamente.
– Não quero vê-los brigados. –lamentou-se, mas atendeu a vontade de Sasuke saindo dali em passos lentos.
– E quanto á você pirralha? Por acaso quer assistir enquanto me troco? –indagou com uma voz tão séria que a menina apressou-se em abanar a cabeça de um lado para o outro e sair correndo para alcançar Mikoto.
Ele soltou um pequeno riso sem humor, era incrível como crianças acreditavam em qualquer brincadeira.
...
Treinava suas habilidades no dojo, precisava aprimorar seus golpes corpo a corpo e Naruto como sempre era seu fiel companheiro, mas não era apenas um treino. Os dois desafiavam-se todos os dias á superar um ao outro, de forma que o nível de suas habilidades era bem equilibrado, se não semelhante.
– E foi isso, encontrei Sakura-chan aflita diante de sua embriaguez e o carreguei até seu quarto. De que adianta ser um bom guerreiro se uma dose de saquê o derruba Uchiha? –provocou esquivando-se de uma série de murros e pontapés que o moreno destinava á si.
– Calado dobe. –rosnou de volta.
– Devia me agradecer, isso sim. Já o peguei em tantas situações comprometedoras que se viessem á tona, acabariam com sua imagem. –continuou. – Como a vez em que o vi com sua amante. –nesse momento, Sasuke acertou-lhe uma cotovelada no estomago e chutou a junta de seu joelho esquerdo, fazendo com o que o loiro fosse ao chão gemendo de dor.
– Já disse para não falar coisas como essas novamente. –mais uma vez suas feições escureceram e a ameaça estava explicita ali.
– Vejo que continuam se empenhando. –era Itachi quem cruzava as portas naquele exato momento. – Quais coisas não devem ser ditas por Naruto? –indagou desconfiado.
– Seu onii-san não tem bom humor para provocações. –Naruto respondeu recuperando-se. – Leva brincadeiras muito á sério.
– Concordo plenamente contigo. –o Uchiha mais velho assentiu.
– Esse treino me deixou faminto, com licença. –o loiro pôs-se a caminhar mancando um pouco.
– Imagino que as provocações devem ter sido bem pesadas, para ter acertado um ponto tão estratégico. –observou.
– Naruto é um baka. –disse apenas.
– Como estás? –quis saber.
– Com todos opinando em minha vida? Estou realmente bem por isso. –foi irônico. – Me diga Itachi, por acaso sabia dos planos que otou-san tinha para mim?
– Ele só contou que queria que eu o sucedesse, mas não contou o que tinha em mente para você. Sinto muito, fico apreensivo só de imaginar o que pode acontecer caso você, ou melhor, Madara assuma o poder do país.
– Não é apenas Madara o culpado, nosso otou-san também não é nenhum inocente.
– Ele e Madara mantêm as aparências, entretanto se detestam. Desde jovens brigam por tudo, foi assim com suas armas, a liderança do clã e até mesmo a nossa okaa-san. –ressaltou. – Com algo tão grande em jogo, Madara faria qualquer coisa para passar por cima de nosso otou-san.
Sasuke concordava com o ponto de vista de Itachi. Por mais que o pai não demonstrasse, não tinha confiança alguma sobre o irmão mais velho. Madara era astuto como uma raposa e traiçoeiro como uma cobra e todos sabiam disso, mesmo que convivessem tão próximos á ele.
– Ao menos se Madara agisse, otou-san perceberia a besteira que está fazendo. –Sasuke praguejou, mas mostrou-se arrependido depois. – Digo, otou-san deveria agir antes dele.
Mais uma vez alguém cruzava a entrada do dojo, era Uchiha Fugaku com sua pose firme e olhar duro:
– Mikoto disse-me que não quer ir ao jantar do Imperador essa noite. Percebe a diferença entre ti e Itachi? Vê o porquê o escolho como meu sucessor? Mesmo que seja alguns anos mais velho que você, na sua idade já era e agia como um homem. –disparou as palavras como flechas como se o filho caçula fosse seu alvo.
– Otou-san –Itachi começou em sua defesa.
– Quieto Itachi. –o caçula ordenou. – Não preciso que ninguém fale por mim. Como espera que eu aja como um adulto se ficam fazendo escolhas por mim, como se fosse uma criança de colo? –questionou da mesma forma fria e distante que o pai usara, fazendo o mesmo soltar um pequeno riso.
– Então fique, mas não reclame do tratamento que recebe. –concluiu antes de se retirar.
– Sasuke... –Itachi começou.
– Apenas me deixe sozinho. –sibilou amargamente.
...
– Fugaku adora quando uso este quimono. –Mikoto terminava de arrumar-se, a mesma trajava uma vestimenta de seda pura, era azul marinho quase negro e tinha uma faixa vermelha como sangue.
Embora fosse criança, Sakura se perguntava como alguém tão gentil, doce e animada como Mikoto era casada com alguém tão carrancudo e calado quanto Fugaku, já que pessoalmente, Sakura sempre sentia algo próximo ao medo quando via o patriarca Uchiha.
– Estou bonita? –a morena indagou virando-se para a menina.
A Haruno balançou a cabeça repetidamente, seu olhar também dizia mesmo que de forma muda, sua opinião.
– Queria levá-la comigo, ia se surpreender ao ver o tamanho e esplendor do palácio, mas infelizmente não é possível. –declarou meio triste. – Ao menos poderá ficar de olho em Sasuke, ele pensa que não notei o cheiro de saquê que emanava dele esta manhã.
O saquê... Sakura fez o possível para permanecer com as mesmas expressões, não queria que Mikoto desconfiasse que ela tinha ajudado seu filho a se embebedar. Vê-lo bem naquela manhã fez com que ficasse mais tranquila, afinal pelo estado em que Sasuke ficara parecia que nunca mais acordaria.
A família Uchiha já tinha saído quando se pôs a jantar com os outros criados. Após isso, Sakura começou a caminhar pelo distrito mais uma vez. Gostava de ir até o pequeno riacho e ver a lua refletida na água cristalina, era como se a beleza da mesma tivesse sido duplicada e o número de estrelas se tornasse ainda mais infinito.
Não havia ninguém ali naquele horário, Sakura apreciava a calmaria do distrito embora sentisse falta da alma que tinha em sua antiga moradia. O paradeiro era tanto que quando o vulto negro passou pela entrada do dojo, que ficava rumo á frente do riacho, a mesma pôde distingui-lo bem, mesmo com a escuridão da noite.
A curiosidade ultrapassou sua covardia e silenciosamente, seguiu a mesma direção. Encostou-se á parede e curvou apenas a cabeça para ver, mantendo-se parcialmente escondida á tempo de ver algo brutal acontecer: a figura vestida de negro, segurou a cabeça de um samurai entre as mãos e a virou brutalmente, um som como algo se quebrando ressoou daquele ato e Sakura deixou que um suspiro escapasse por sua garganta.
Instantaneamente o assassino virou-se para sua direção e antes que conseguisse se esconder, ele a viu. Soltou o corpo sem vida no chão e caminhou lentamente até a menina, uma máscara cobria-lhe o rosto, a única abertura visível era para os olhos escuros.
Ela foi recuando cada vez mais depressa e quando percebeu estava correndo e não se atreveu a olhar para trás até ouvir a voz cortante em advertência:
– Pare agora mesmo onde está e lhe darei uma morte rápida e sem dor. –voltando-se para olhar quem diferia aquela frase, Sakura deu de cara com Sasuke que apontava sua katana na direção do inimigo que jazia de costas para ele.
Lentamente o homem de negro virou-se, alguns passos separavam a dupla. Num movimento extremamente rápido, ele aproximou-se derrubando com um golpe a espada do Uchiha. Sasuke não se deixou abalar, ou ao menos não demonstrou, partiu lhe golpeando com os punhos fechados. Seu adversário esquivou-se de todos, mas deixou sua guarda aberta o suficiente para que o samurai lhe desse um chute baixo. O inimigo caiu, porém foi por pouco tempo, tirou uma adaga de um compartimento em sua perna e ergueu-se pegando impulso. Rápido como um raio, atingiu a canela do moreno, que estava desprotegida, pois Sasuke se encontrava sem sua armadura. Com a mesma velocidade com a qual havia o cortado, sumiu embrenhando-se no meio da escuridão.
Sasuke virou-se e tentou correr para alcançá-lo, mas foi surpreendido por uma formicação crescente em sua perna. Quanto mais aquela sensação se espalhava por seu corpo, mais sentia suas forças esvaindo-se, havia sido envenenado por alguma substância tão potente que causara aquele efeito todo em apenas um minuto.
Ele foi ao chão sem sentir nada, nem o baque da queda. Sua mente flutuava, mas ainda assim pôde ouvir a voz infantil chamar seu nome desesperadamente enquanto via o borrão rosa correr em sua direção:
– Sasuke-kun!
...
Quando abriu os olhos sua mãe colocava outro lenço úmido sobre sua testa. Seus olhos negros iluminaram-se de alívio:
– Oh, ele acordou! Fugaku, Itachi, venham ele acordou! –gritou como uma mãe desesperada, não parecia em nada a mulher elegante que sempre mostrava ser.
Logo os dois chegaram. Itachi tinha feições preocupadas enquanto Fugaku fazia questão de esconder qualquer emoção. Sem entender absolutamente nada, Sasuke quis saber:
– O que houve?
– Alguém invadiu o distrito e matou Shisui. Essa pessoa também o nocauteou com alguma lâmina envenenada. –o pai contou brevemente.
– Dormiu por três dias Sasuke, era um veneno desconhecido por nossos monges. –o irmão acrescentou.
– Quem matou Shisui e por quê? –indagou com a voz ainda fraca.
– Esperávamos que você respondesse á essa pergunta. –o pai cobrou.
– Não consigo me lembrar de nada. –respondeu.
– Isso não importa agora Fugaku, o importante é que nosso filho está são e salvo. –a morena interveio.
– Fugaku-sama! –Naruto adentrou sem ser anunciado. – Teme você acordou! –exclamou ainda aos berros. – Er... Perdoem-se, acontece que Sakura-chan estava aqui e presenciou tudo o que aconteceu aquela noite, ela me contou tudo. –informou.
– Mas Sakura não fala. –Mikoto afirmou como se fosse algo óbvio.
– E acreditou mesmo nos relatos de uma criança muda Naruto? Isso é demais até para você. –Fugaku zombou.
– Não, o dobe tem razão. Sakura estava lá naquela noite e ela fala. –Sasuke interveio lembrando-se da voz fina gritando para si.
...
