Naruto acompanhou até a entrada da sala, pôde ver a preocupação em seus olhos azuis antes que entrasse. Sentiu-se mais aliviada ao ver que não teria de conversar á sós com Madara, já que Mikoto e Sasuke também se encontravam ali. Parou diante do mais velho e ao lado de Mikoto, antes que Madara dissesse qualquer coisa, a mulher tocou-lhe o ombro com um olhar que a rosada não soube decifrar, poderia ser pena ou simplesmente acolhimento.
– Sakura... –começou, nunca tinha ouvido seu nome ser pronunciado por ele, aquilo lhe provocou um estranho desconforto.
– Hai. –assentiu mesmo sabendo que ele não havia feito pergunta alguma.
– Deve estar se perguntando o porquê de tê-la chamado aqui. Bem, acredito que tens visto de perto as dificuldades pelas quais o distrito vem passando. –fez uma pausa, como se quisesse analisar o que rondava a mente da garota. – A Akatsuki nos causou muitos problemas, por isso tenho um plano em mente, algo que os pagará na mesma moeda. Porém não posso fazer isso sozinho e para que as coisas saiam como planejei, apenas as habilidades dos meus ninjas não serão suficientes. Por mais contraditório que pareça, necessito de graça, astúcia e beleza. –ao ver o rosto confuso da garota, Mikoto acudiu-a esclarecendo:
– O que Madara quer dizer é que precisa de uma gueixa, assim como fui um dia. Uma que seja de confiança e que consiga se infiltrar na grande corrente da Akatsuki por meio de seu elo mais frágil.
– Precisamos de você Sakura. –Madara por fim afirmou. – Mikoto poderá ensiná-la tudo o que sabe. Pense em todos os anos que vivera aqui, a vida que lhe foi garantida, não acha que já é mais do que hora de retribuir o teto que teve sobre sua cabeça?
– Não. Sakura não tem de pagar por nada, ela não vivia aqui de graça, era uma criada e trabalhava como qualquer outra. –Mikoto partiu em sua defesa. – Ainda assim, peço que considere o plano de Madara, só quando a Akatsuki deixar de existir, nossas vidas poderão voltar ao normal, até mesmo terei minha família completa novamente. –a morena pediu com os olhos negros retendo lágrimas.
A Haruno sabia que não devia nada a Madara e nunca faria algo por ele, porém Mikoto também fazia aquele pedido, e por ela sim, tinha grande respeito, admiração e até mesmo um amor de filha. Sabia o quanto a mulher zelava pelo bem de sua família e manter-se afastada do marido e do filho mais velho, só estava a fazendo mal.
– Farei o possível para cumprir minha parte no plano. –respondeu com seu tom baixo, porém decidido.
– Ótimo. –o Uchiha sorriu satisfeito. – Terá um árduo caminho pela frente, como disse antes, Mikoto irá ensiná-la todos os cuidados e estratégias para que se aproxime aos poucos e encante Sasori, o filho de Nagato e herdeiro único da Akatsuki.
– Irei me empenhar em seguir todos os conselhos de Mikoto-sama. –assentiu prontamente.
– Essa não será sua única preocupação. Poderei manter alguém sempre á sua espreita, no entanto é inevitável que fique exposta ao ninho de inimigos, por isso terá um treinamento para que aprenda a se defender e a manejar uma espada, deixo isso por conta de Sasuke. –o outro explicou.
Viu as feições duras do Uchiha sobre si, lembrou-se instantaneamente dos momentos em que Sasuke a ameaçara com aquela mesma expressão vazia, sentiu-se insegura por isso, mas agora era tarde demais para pensar á respeito.
...
Ao amanhecer, Sakura notou que sua rotina já estava diferente de alguma forma. Acordou junto do pôr do sol como sempre fazia e foi servir Mikoto e arrumar suas vestimentas, mas foi interrompida pela mulher:
– Sakura você não é mais uma criada, outra pessoa pode fazer isso por mim, ou melhor, por nós, já que agora também precisará desses cuidados. –a rosada pensou em rebater, podia muito bem servir á si mesma, no entanto sabia que não tinham tempo á perder.
Ainda nos aposentos de Mikoto, viu quando a Uchiha caminhou até o armário e retirou três caixas de lá. As trouxe uma de cada vez, até onde a rosada estava:
– A preparação de uma gueixa deve começar em sua infância, mas como não temos essa possibilidade terá o importante papel de trabalhar todas as habilidades de uma em um período bem menor.
Abriu as três. Dentro da primeira se encontrava um quimono vermelho todo florido com flores de cerejeira. Na segunda havia um par de tamancos altos de madeira e na terceira, que também era a maior delas, tinha um sangen*.
– Muitos confundem gueixas com prostitutas. Ambas se enfeitam, mas só uma gueixa tem a classe de uma. Até que tenha sua estreia será uma maiko*, a levarei em casas de chá onde deve servi-lo, manter conversas agradáveis e entreter á todos, vestida sempre com elegância e delicadeza, como esse quimono... Foi o meu primeiro logo, é muito especial para mim, mas quero passá-lo á ti. –ergueu o tecido em sua direção.
– Não, Mikoto-sama, não posso aceitá-lo. –negou-se.
– Faço questão. –persistiu. – Acredito que não terei muito que lhe ensinar sobre comportamento, já que foi sempre tão polida nesse quesito, porém aprenda desde já Sakura: não se recusa presentes.
– Hai. –curvou-se em aceitação.
– Para compor esse visual, terá de aprender a flutuar mesmo com esses tamancos pesados. –apontou o conteúdo da segunda caixa. – Gueixas são acima de tudo, artistas. A face deve ser uma pintura, o penteado uma moldura, a dança os gestos mais vívidos e sutis possíveis, a voz uma melodia inesquecível aos cavalheiros e quando tocar um instrumento, ele deverá sempre compor a trilha sonora perfeita para que todos só admirem á ti.
– Não sei se conseguirei ser assim tão magnifica como a senhora foi. –confessou sem jeito depois de ouvir com atenção, o discurso da mulher.
– Não deve ter-me como meta, pois sei que ultrapassará todas elas. Erga-se, vamos ver se o quimono lhe cai bem.
Mikoto ajudou com as várias camadas do quimono e por fim, amarrou o obi*. Ficara um tanto largo e cumprido, afinal na idade em que o vestiu pela primeira vez, a Uchiha já era mais alta que Sakura, que conservava um porte pequeno, se comparada ás outras mulheres do clã. Apesar de tudo, Mikoto sorriu ao vê-la com a peça e ajudou-a a calçar os tamancos.
– Quero que dê passos curtos, não se apresse antes de pegar o jeito. –instruiu.
Cheia de confiança, Sakura moveu os um dos pés para frente e depois o outro, repetindo os gestos umas três vezes, até que não conseguiu se equilibrar á tempo e foi ao chão.
– Sakura! –a mulher foi ao seu encontro, ajudando-a a se colocar de pé.
– Sinto muito, Mikoto-sama. –pediu envergonhada.
– Não se preocupe, você foi bem na verdade. Apenas esqueça que está os calçando e ande livremente, como se estivesse correndo por aí como sempre fez. –o sorriso doce lhe encorajou e mais uma vez, Sakura pôs-se a andar.
Tirou a concentração de seus pés e pôs-se a caminhar rumando a parede oposta á si. Dessa vez seus movimentos foram mais leves, de forma que conseguira chegar ao objetivo, mas ainda assim parecia ter se esforçado demais para um ato simples como andar.
– Está quase lá Sakura, ganhará mais confiança conforme praticar. –e assim foi, até a hora do almoço Sakura ficara caminhando de um lado para o outro. Durante a refeição, foi a hora de aprender como deveria se sentar, servir os demais convidados que estivessem á sua volta, comer e até beber saquê da maneira correta.
Durante a tarde, dedicaram-se á prática do novo instrumento. Sakura jamais imaginou que Mikoto teria tanta habilidade em algo como aquilo. A morena deslizava os dedos pelas cordas do instrumento com agilidade e perfeição. No começo, a rosada mostrou-se tímida, no entanto não demorou muito para que começasse á cantarolar junto da outra e quando deu por si, era a única a pronunciar as canções.
Após banhar-se, jantou junto de Mikoto. Dessa vez não como uma criada, mas como uma aprendiza de gueixa que deveria exercitar suas habilidades de servidão. Já tinham terminado quando o painel se abriu, revelando a figura masculina:
– Venha. –disse bruscamente, Sakura sabia que se referia á ela própria.
– Sasuke, trate de não machucá-la. –Mikoto advertiu.
– Humpf. –soltou enquanto esperava a rosada alcançá-lo.
Desde então não dirigira uma palavra sequer á Sakura e a mesma também não sabia o que lhe dizer, nunca havia lutado antes. Se Naruto fosse seu treinador, talvez as coisas ficassem menos tensas do que estavam.
Limitou-se apenas á observá-lo: vestia um quimono azul marinho, sua katana como sempre estava embainhada em sua cintura. Lembrava-se do mesmo caminhando á frente na noite em que a levara para o distrito Uchiha, constatou então que os passos firmes ainda eram iguais, assim como a postura superior, embora estivesse mais alto e forte do que naquela época.
Só quando o mesmo parou e virou-se para si, que reparou que já se encontravam no dojo, que estava vazio àquela hora. Foi então que o moreno jogou uma espada de madeira em sua direção, por sorte conseguiu segurá-la a tempo, caso o contrário, agora teria um galo na cabeça.
– Segure-a firme, mantenha os cotovelos parcialmente flexionados á frente de seu corpo. –instruiu nitidamente sem paciência, mostrou com sua própria espada enquanto Sakura se empenhava o máximo para imitá-lo. – Existem vários tipos de golpes, mas vamos tentar um de altura média. Se usar muita força, seu movimento ficará mais lento, entretanto ao utilizar de rapidez, tende a aplicar pouca intensidade. O que devemos procurar, portanto é o equilíbrio entre esses dois fatores. Procure deixar a lâmina mais inclinada quando for realizar o ataque, assim o raio atingido será maior. –explicou golpeando o ar.
A garota imitou-o, mas sentiu que não tinha sido precisa ainda. Notando isso, Sasuke resmungou:
– Não, não é assim. –embainhou a espada novamente e caminhou até ela. Sakura pensou que o mesmo lhe daria um chacoalhão, porém Sasuke apenas contornou-a ficando atrás de si, então passou os braços ao seu redor, segurando as mãos dela junto das suas, em torno do cabo da espada de madeira, aplicando juntamente com ela, o movimento necessário. – Vê? –repetiu o golpe e se afastou bruscamente.
Sem que percebesse, Sakura ficou com o rosto corado. Aquela devia ser a maior aproximação que tivera com alguém do sexo oposto até então, por isso sentia-se um pouco trêmula.
– Será que agora entendeu? –perguntou em tom de cobrança.
– Hai. –assentiu tratando de desviar do olhar negro do moreno, ele parecia intrigado com algo.
– Certo, então o faça sozinha agora, para ambos os lados.
Sakura firmou-se e pôs se a golpear o ar com a arma de madeira. Sabia que estava fazendo o certo dessa vez, mas seu mentor nem ao menos demonstrara algo ou a elogiara, apenas continuava ora parado, ora andando ao seu redor, com as mesmas expressões que não diziam nada.
– Aqui, golpeie isto. –apontou para um objeto de madeira revestido e almofadado, algo próprio para treinamentos e assim ela o fez.
Sentia-se ofegante após repetir a mesma ação tantas vezes, enquanto Sasuke apenas assistia á tudo em silêncio. Supôs que já deveria ser tarde e o cansaço tinha de fato, tomado conta de si, logo simplesmente parou.
– Cansou-se? –fez a pergunta mais óbvia que poderia ter dito naquele momento, Sakura apenas afirmou com a cabeça. – Humpf. –estendeu a mão para que a mesma lhe entregasse a espada e assim o fez, depois o mesmo virou-se bruscamente e lhe passou uma rasteira.
A Haruno abriu os olhos procurando o impacto que não viera e só então percebeu que só não caiu, pois o Uchiha segurava uma de suas mãos, ainda assim seu corpo estava todo inclinado, pronto para a queda.
– Vejo que tem realmente muito que aprender. –puxou-a para que voltasse a postura normal. – Pode ir agora, mas lembre-se de parar apenas quando eu ordenar que o faça. –declarou rígido, soltando sua mão e encaminhando-se para fora dali.
Sakura contentou-se em ficar calada, descobrira então que seu treinamento de defesa era bem mais duro e difícil do que o que tinha com Mikoto.
...
Sangen: um instrumento de corda japonês.
Maiko: aprendiz de gueixa, frequenta festas e casas de chá acompanhada sempre de uma gueixa mais experiente, com quem também deve aprender sobre as artes da música, dança e como ser uma anfitriã.
Obi: faixa que usada para amarrar o quimono.
