Nota da Autora: essa fanfic não segue a cronologia de Thor: The Dark World, por ter sido escrita antes de o filme ser lançado.
Midgard
Abriu os olhos vagarosamente, sentindo cada parte do seu corpo gritar de dor. Aquilo era raro, e ele havia sentido tal desconforto físico apenas em dois momentos de sua vida. Quando se soltou da mão de Thor anos atrás, caindo em um mundo desconhecido logo depois, e quando foi jogado no chão diversas vezes por aquela criatura nomeada Hulk.
Permaneceu ali onde estava, quieto, escutando sua respiração ruidosa e difícil depois da grande queda, cada tomada de ar doía o seu peito, cada movimento com os olhos parecia fazer sua cabeça explodir. Tentou se situar onde estava, mas não conseguia discernir o lugar se não se levantasse e andasse um pouco por ele, e isso não estava nos seus planos no momento.
Queria apenas permanecer deitado até que a dor cedesse pelo menos um pouco. Por mais que fosse um deus e se recuperasse rápido de machucados físicos, cair em outro planeta de costas em uma velocidade anormal poderia se tornar algo catastrófico se ele abusasse do seu corpo.
Loki fitou o céu escuro e preenchido de estrelas que estava acima de si, pensando que uma delas poderia ser sua casa, poderia ser Asgard.
Mas Asgard havia deixado de ser sua casa há muito tempo.
Depois de ter sido capturado pelo time ridículo que se chamava Vingadores, Thor havia voltado para Asgard levando consigo ele, preso e amordaçado como se realmente fosse um vilão e alguém potencialmente perigoso, e não um irmão que havia dividido lutas e segredos durante muito tempo.
Loki não conseguiu se reintegrar em Asgard. Frigga havia recebido o filho com amor e carinho, como era de se esperar de uma mulher com tamanha doçura e condolência. Mas ele não conseguira os mesmos sentimentos de Odin e de todos que moravam ali.
Os olhares questionadores e acusadores pareciam furar as costas de Loki quando ele passava pelos corredores e pátios do palácio real de Asgard, deuses que claramente não concordavam com o retorno dele e preferiam vê-lo preso ao invés de livre e andando por ali como se fosse digno.
Os olhos asgardianos gritavam a ele que era ele o assassino, era ele o deslocado ali, o herdeiro do Rei dos Gigantes, Laufey. E não filho de Odin. Agora que sua origem fora colocada em pauta por Odin a todos, tais pessoas o fitavam como se ele fosse uma praga que havia muito tempo convivido com eles, mas que agora descoberta, deveria ser exterminada. Afinal, a maldade estava em sua genética e não demoraria a voltar à tona na mente do Deus da Trapaça, não?
E ele era o irmão inferior em Asgard. Sempre fora. Loki poderia lidar facilmente com estereótipos de assassino e desonesto e com olhares de reprovação, mas nunca com o rótulo de irmão inferior.
Conviver com isso sua vida imortal inteira e suportar tal fato como se realmente não se importasse estava se tornando uma grande tarefa e uma imensa tortura. Então ele fugira de Asgard, deixando um bilhete para Thor onde apenas ele poderia encontrar, pedindo para que ele não voltasse a procurá-lo, mesmo sabendo que isso seria justamente o que o irmão iria fazer. Tentou fugir pela ponte Arco-Íris, mas Heimdall estava atento, então teve que gastar todas as suas energias para se tele transportar para qualquer lugar que poderia ser considerado um planeta.
Infelizmente o salto havia dado errado e as forças de Loki tinham se extinguido antes mesmo de ele pousar em algum terreno seguro. E ele tinha caído.
A dor alucinante ainda estava forte, mas seu corpo parecia acostumar-se a ela a cada segundo passado, o que facilitou um pouco quando ele levantou a cabeça e os ombros parcialmente, correndo os olhos azuis pelo local onde estava.
Árvores. Árvores de troncos escuros e com poucas folhas nos galhos. O tipo de árvores que Midgard possuía. Fitou mais atentamente em volta. Estava em um parque. Aquilo era mais que claro. O ar era agradável, mas era gelado. Loki odiava quando se sentia bem no frio, mas já havia se resignado de que a temperatura baixa não afetava seu corpo igual aos corpos de outros seres. Alguns animais voaram de uma árvore próxima, o chão estava úmido por causa da pouca neblina que havia no local.
De repente ele se sentiu inquieto, e um desespero foi tomando seu corpo aos poucos ao perceber que havia caído em um lugar familiar demais para que ele se sentisse saudável.
Sim, ele observou com mais atenção o tipo de vegetação que o envolvia, a terra úmida e fofa que estava debaixo do seu corpo, a grama que circulava o caminho que cortava aquele lugar, e constatou que havia caído no planeta que mais odiava.
- Merda.
Laila corria em grande velocidade pelo parque, os tênis batendo no asfalto do caminho principal, a respiração estava pesada pelo grande esforço físico. O cabelo longo e ondulado estava preso em um rabo de cavalo alto, que balançava quando ela dava passadas mais largas. A música que escutava estava alta, ela preferia assim a escutar os barulhos estranhos que os animais noturnos faziam naquele lugar. Sempre que se esquecia do seu MP3 e era obrigada a correr sem música, achava que estava sendo seguida.
Passava todas as noites por ali, correndo e descarregando sua energia adquirida durante o dia. Trabalhar em um jornal local tinha seus pontos negativos. Quando havia uma reportagem de urgência, todos ficavam tensos. Laila adorava descansar seu corpo, cansando-o. Visto de longe, aquilo não parecia fazer sentido.
O vento gelado batia em seu rosto à medida que ela corria. O inverno estava chegando. O mês de outubro já estava no fim, e a partir de novembro a tendência da temperatura era apenas cair e cair. Até que a neve tomasse conta do lugar.
Para qualquer pessoa, a cidade de Novosibirsk poderia ser considerada gelada em todas as épocas do ano, mas Laila já estava tão acostumada com a temperatura normalmente baixa que se sentia bem ali. E as pessoas exageravam, os meses de julho e de agosto eram os mais quentes do ano, podendo, com alguma sorte, chegar a vinte graus. E mesmo que a maior parcela dos moradores apreciasse tal época do ano, ela preferia o frio.
O frio era melhor para correr durante a noite, ficar debaixo do cobertor era melhor do que sentir sua pele grudada na roupa por causa do suor. Gostava de fotografar as pessoas brincando nos lagos congelados, os animais cavando um pouco os montinhos de neve para achar algum alimento. Adorava o aspecto das árvores quando o natal se aproximava.
Respirou fundo, sentindo o cheiro peculiar do parque. Continuou a correr no mesmo ritmo, até perceber que as árvores do seu lado esquerdo estavam mais espaçadas do que o normal. Laila conhecia o local muito bem, cada pedacinho do parque já fora fotografado por ela e ali era sua pista preferida de corrida. Franziu o cenho.
Era curiosa demais para ignorar aquilo. Diminuiu as passadas, sentindo os músculos protestarem pela parada brusca do exercício. Caminhou lentamente para as árvores e percebeu que quando mais adentrava o parque, mais os galhos estavam em número menor. De repente, chegou ao fim.
Um círculo estranho estava ali. A grama onde o círculo estava gravado já não existia, como se alguém tivesse queimado e desenhado anéis dentro do círculo. Aquilo parecia obra de alguém que queria provar a existência de extraterrestres e havia feito as próprias evidências.
Laila deu de ombros e retirou do bolso seu MP3, fotografando o círculo. Caso aquilo virasse notícia e Igor quisesse uma reportagem, ela já tinha uma foto para estampá-la.
Recolocou os fones que havia caído no momento em que ela parara bruscamente e voltou a correr, primeiro mais devagar, até retomar o ritmo em que estava minutos atrás.
Corria por cerca de dez minutos e de repente sentiu seu corpo trombar no corpo de alguém. A força do impacto fez com que Laila se desequilibrasse e caísse no chão. Ela usou as mãos para tentar melhorar a queda, mas isso fez apenas com que ela ralasse as palmas. Preocupou-se mais com quem poderia ter a feito cair do que seus machucados. Estava tarde e poderia ser perfeitamente um ladrão.
Laila virou-se para trás, ainda estava sentada no asfalto, mas percebeu que a pessoa na qual havia esbarrado também tinha caído, e parecia um pouco tonto, julgando pelo modo com que ele se apoiava em um banco próximo.
Ela se levantou e caminhou lentamente até ele, percebendo que era mais um homem estranho do que um ladrão, e parecia estar perdido ali.
Laila se aproximou dele, agachando-se por perto. Não sabia como ajudá-lo. Usava uma roupa estranha, algo emborrachado e cheio de tiras, com alguns detalhes dourados. Ela franziu o cenho e permaneceu quieta, observando-o. Seus cabelos eram negros como a noite, e estavam jogados para trás, mas alguns fios pareciam rebeldes, como se queda de ambos tivesse feito com que ele se soltassem da linha meticulosa que ele penteava-os.
De repente o homem a olhou. Seus olhos eram de um tom azul glacial, quase cinza. Parecia um tanto quanto surpreso com a presença dela, e a olhava com tanta intensidade que Laila se sentiu inquieta imediatamente. Ele parecia ler seus pensamentos ao observá-la com tanta determinação.
Pensou que não poderiam ficar ali, se fitando em silêncio.
- Você se machucou?
A pergunta era um tanto quanto tola. Estava mais que claro que ele havia se machucado. Uma parte do seu queixo parecia ralado assim como a mão dela e o lábio inferior tinha um pequeno corte. Laila temeu que ele tivesse batido a cabeça, já que seus machucados estavam no rosto.
Loki apenas continuou fitando a garota. Não poderia imaginar que iria ver uma humana tão cedo. E logo ali, em um parque, em uma madrugada de Midgard. Ela parecia ofegante, alguns fios grudavam no rosto, estava suada e a blusa que vestia estava levemente colada em seu corpo por causa disso.
Sua pele era branca como a neve, mas estava um pouco corada, ele ainda não sabia se era por causa do esforço físico ou porque ela havia se machucado. Conseguia ver a mão ralada dela. Os olhos eram castanhos, amendoados. Os lábios eram rosados e cheios e ela possuía um nariz delicado. E ela parecia esperar uma resposta por parte dele.
- Não...
Laila não sentiu convicção na resposta do homem. Ele parecia confuso com tudo.
- Você bateu a cabeça?
Ela perguntou e ele não entendeu como aquilo poderia ser relevante. Ela se sentiu culpada. Sabia que havia sido ela a trombar no homem, já que estava correndo em uma velocidade rápida e com música alta, não percebendo de fato o momento em que ele entrou em sua frente.
- Olha, me desculpe. Eu realmente não te vi... posso fazer algo por você? Levá-lo para casa?
Ele não respondeu de imediato. Ela estava lhe pedindo desculpas? Uma humana culpada poderia ser uma boa isca para começar a noite, julgando que ele não tinha para onde ir nem por onde começar. Precisava de um local para ficar e esfriar a cabeça e tentar pensar melhor em seu próximo passo. Poderia facilmente ficar em um hotel midgardiano, mas não queria lugares públicos.
- Eu moro longe daqui...
Ele soltou no ar.
- Eu moro aqui perto, posso pegar meu carro e levá-lo. Você mora em outro bairro?
- Em outro planeta.
A resposta dele a surpreendeu. Aquele homem claramente havia batido a cabeça e não estava dizendo nada com sentido. Em um momento estranho e com uma atitude de pessoa culpada, Laila se levantou e gesticulou com a cabeça para ele fazer o mesmo.
- Vem... talvez lá em casa você possa dar um telefonema.
Loki esperou a garota virar-se de costas para se levantar e começar a segui-la, um sorriso malicioso tomou seu rosto no momento em que ele percebeu que fora fácil demais conseguir o que queria.
Nota da Autora: muito obrigada pelos comentários!
