Peculiaridades

Laila acordou na manhã do dia seguinte, quase não acreditando que ainda não havia claridade o suficiente para entrar através do tecido das cortinas. Sempre acordava muito cedo nos dias de semana, mas ela teve a impressão de que estava ficando um pouco mais preguiçosa naqueles últimos dias. Só não sabia o motivo.

Poderia ser uma quebra de rotina. Aquele homem estava a tirando de suas manias cotidianas. Ou não?

Ele já estaria acordado?

Ela não sabia responder, não escutava nenhum barulho vindo do lado de fora do quarto. Gemendo em protesto, ela se remexeu debaixo do grosso cobertor e retirou-o de cima do corpo, sentindo no mesmo momento como a manhã de segunda feira em Novosibirsk estava fria. Daria tudo para ficar o dia inteiro em casa, apenas curtindo um cobertor e um chocolate quente.

Mas não podia, precisava trabalhar. Então antes de seguir o costume de entrar diretamente no chuveiro, ela jogou o robe grosso por cima do corpo, fechando-o para que o frio diminuísse. Abriu com cuidado a porta que deixara entreaberta e percebeu que o apartamento ainda estava escuro, indicando que a cortina da sala ainda estava fechada.

Ela entrou na sala com relutância, seus olhos castanhos procurando rapidamente e de forma automática o sofá.

Ele ainda estava dormindo. Seus braços estavam por trás da cabeça e os cabelos levemente bagunçados. Mas parecia confortável daquele modo. Não parecia sentir frio. A coberta que Laila lhe dera estava jogada apenas na metade do corpo, até a cintura, deixando o peito delineado visível. A pele dele não estava nem ao menos arrepiada. Ela franziu o cenho, achando aquele fato no mínimo peculiar.

Ele parecia relaxado, como ela nunca vira, ainda mais que na noite anterior, quando ela tinha o observado dormir naquele mesmo lugar. Naquele momento, ele parecia estar mais tranquilo. As pequenas linhas de expressão do rosto normalmente sério estavam desanuviadas, deixando-o ainda mais bonito.

Ela tentou sair daquela linha de pensamentos.

Laila deixou a sala, indo em direção ao banheiro e fechando a porta com cuidado para que fizesse o mínimo de barulho. A água quente correu pelo seu corpo e foi muito bem vinda. Daquela vez ela lavou o cabelo, sabendo que demoraria horas para que ele se secasse sozinho, mas não arriscava ligar o secador com ele ali dentro. Poderia acordá-lo.

Quinze minutos depois, ela saiu do banheiro e entrou no quarto, enrolada na toalha. Pegou roupas quentes e vestiu-as, rezando para que elas aquecessem o seu corpo rapidamente. Deus, não estavam nem no inverno. Quando chegasse aquela estação, Laila sofreria.

Ela pegou sua bolsa e seu material de fotografia, tendo o cuidado de separar a câmera digital da câmera manual. Não precisaria da manual naquela manhã. Saiu do quarto, decidindo comer algo quando chegasse à padaria mais próxima. Não queria acordá-lo com o barulho da cozinha. Ele poderia se virar com o próprio café-da-manhã?

Por Deus, Laila. Ele é um homem, e não uma criança.

Meneou a cabeça e olhou-o com atenção. Ele ainda estava dormindo, e não parecia que ia acordar tão cedo. Ela não sabia o que fazer. Ele não sabia da rotina dela, onde ela trabalha e a que horas costumava chegar.

Decidiu deixar um bilhete, dizendo que teve que sair mais cedo. Colocou o endereço de onde ela trabalhava, junto com o telefone do local e o seu celular. Depois de colocar o bilhete em cima da mesa da cozinha, perguntou-se se seria prudente deixar um desconhecido dentro de sua própria casa. Relutou por alguns minutos, mas no fim apenas deu de ombros, indo em direção à porta.

Se aquele homem quisesse lhe fazer mal, já teria feito. Ficaram sozinhos boa parte do tempo e ele não tentou nada. Nada. Ter um homem bonito como aquele dentro do seu apartamento e não fazer nada era praticamente um pecado, uma abominação. Era estranho pensar que dormiram sob o mesmo teto, mas em lugares diferentes. Dormiram. Apenas isso.

Laila meneou a cabeça, tentando tirar tais pensamentos da sua mente. Ela destrancou a porta, olhando-o uma última vez antes de sair para trabalhar.

Definitivamente estava há muito tempo sem ter qualquer tipo de relação com um homem.


Loki acordou cerca de duas horas depois de Laila ter saído do apartamento. Abriu os olhos rapidamente e seus sentidos começaram a ficar alertas em menos de um segundo. Dormira muito, e de forma pesada. Pesada demais. Ele não se lembrava qual fora a última vez que havia dormido daquele jeito, visto que evitava a todo custo se entregar ao sono da forma mais profunda.

Aquilo podia ser perigoso visto por um lado. Quando dormia, ficava vulnerável. Depois ele meneou a cabeça, pensando que estava sendo tolo. Ele estava em um buraco em Midgard, onde seria quase impossível alguém achá-lo. De qualquer maneira, sua companhia era uma humana, e só. Ela não representava perigo, e caso o fizesse, ele poderia quebrar o pescoço dela sem usar magia.

Mas onde ela estava?

Ele se sentou no sofá e mexeu a cabeça, procurando-a com esse gesto. Mas o lugar estava silencioso demais, e se Loki descobrira algo desde que estava ali, era que aquela garota era tudo, menos silenciosa.

Levantou-se e andou até a cozinha, onde percebeu um bilhete colocado ali que continha um recado e um endereço. E números que ele não fazia ideia do que representavam.

Ficou quase aliviado ao perceber que estava só. Gostava da solidão, de ter apenas a sua própria companhia. E precisava dessa solidão no momento, principalmente para pensar. Pensar em um modo de sair dali. Precisava sair dali. Humanos eram seres inquietos e conversadores, ele temia que ela pudesse abrir a boca para vizinhos ou pessoas próximas. A SHIELD tinha espiões em cada canto do mundo, ele não ficaria surpreso caso surgisse algum ali.

Seu estômago roncou e ele correu os olhos pelo local, procurando por algo para comer. Não havia frutas ali, nem mesmo pães. Ele achou um pote com rodelinhas de massas doces onde se lia 'biscoitos' e comeu alguns, mas não apreciou o gosto daquilo. Permaneceu quieto por um tempo, tentando busca a energia interna do seu corpo, que não veio.

Ele estendeu a mão para o bilhete que estava pousado em cima da mesa e concentrou-se. A folha pequena de papel mexeu-se levemente, mas depois de alguns segundos voltou a cair, inerte. Porém, Loki ficou satisfeito. Apenas o fato de conseguir mover aquele objeto indicava que seus poderes estavam voltando. Aos poucos, mas voltando.

Era por isso que estava dormindo de forma tão pesada? Era seu corpo pedindo pelo descanso? Pedindo pela recuperação dos seus poderes para finalmente sair dali? Ou era simplesmente porque se sentia à vontade dentro daquele lugar?

Ele não soube responder àquelas perguntas naquele momento. Saiu da cozinha, andando até o corredor e decidindo analisar com mais cuidado o lugar onde estava. Pela primeira vez estava só ali, e aquilo poderia se uma oportunidade única.

Ele entrou no quarto dela sem receio, correndo os olhos azuis atentamente pelo cômodo. Nada estava fora do lugar. Ela era metódica quando a assunto era arrumação. A única quebra de organização era uma roupa que estava jogada de qualquer forma na cama. Possuía rendas, era a roupa que ela usava para dormir.

Ele levantou a roupa, fazendo com que o aroma dela inevitavelmente chegasse ao seu nariz. Loki fechou os olhos, percebendo de imediato que apreciava muito o perfume dela. Não era adocicado como o perfume costumeiro das mulheres. Mas era feminino demais para que ele o ignorasse.

Ele tentou tirar aqueles pensamentos da mente. Há muito não possuía uma mulher, há muito não tinha uma companhia feminina. Mas ele não estava tão desesperado a ponto de se rebaixar e procurar uma companhia humana. A menos que...

Loki repassou todas as conversas que havia tido com ela e não se lembrou de nenhuma em que ela mencionasse um companheiro. Anotou isso mentalmente. Uma humana sem alguém sempre era um alvo mais vulnerável.

Ele correu uma última vez os olhos pelo quarto, observando duas peças de roupas meticulosamente dobradas em cima de uma poltrona, assim como tênis ao lado. Roupas parecidas com as que ela estava usando quando se conheceram. Corrida. Ela gostava de correr, era isso que estava fazendo quando praticamente o atropelou. Ele anotou isso mentalmente também.

Estava quase saindo do quarto, quando uma fotografia chamou a sua atenção. Ele se aproximou da cômoda dela, as orbes azuis olhando com atenção o parque em que ele caíra sendo retratado pelas lentes dela. A fotografia era preto e branca, mas ainda assim era bonita. O equipamento dela estava ao lado, lentes de diversos tamanhos colocadas uma ao lado da outra. Loki percebeu que além de fotografar por trabalho, ela fotografava por prazer.

Não perdeu mais seu tempo olhando o quarto, saiu do cômodo e pela primeira vez percebeu uma porta ao lado da porta em que ele acabara de sair. Não fazia ideia do que estava do outro lado da porta, e sabia que não teria força para se teletransportar, caso quisesse. Resolveu arriscar. Sua mão contornou a maçaneta da porta, sentindo o metal mais gelado do que o normal.

Calmamente, ele a abriu, percebendo de imediato como ela era tola em deixar tudo destrancado. Depois se lembrou de que ela morava sozinha, e que não tinha motivos para trancar tudo. Ele deu de cara com um corredor, sentindo facilmente a brisa gelada bater em seu corpo. Havia uma escada ali, que o levava a um patamar mais alto e claro.

Não pensou duas vezes antes de subir as escadas. Havia outra porta o bloqueando, mas essa era de vidro, o que o possibilitou a ver o que tinha do outro lado.

Era a cobertura do apartamento dela. Ele abriu a porta, sentindo o lugar ainda mais frio. Estava a uma altura considerável e o vento ali era mais forte. Ele olhou tudo atentamente. Havia um jardim circulando um banco ali perto, as flores coloridas quebravam o padrão acinzentado do local. Uma pequena estufa estava ao lado, onde ele percebeu que ela cultivava plantas de todas as formas e tamanhos.

Mas o que lhe chamou a atenção naquele lugar fora um quarto fechado que estava no canto. Sem pensar duas vezes, Loki caminhou até ele, pousando a mão na fechadura da porta e a abrindo. Destrancada. Que espécie de pessoa deixa tudo destrancado?

Ele entrou ali, e o que viu não lhe disse nada. O cômodo não possuía janela e nem um tipo de claridade, a não ser a do dia que entrava pela porta que ele abrira. Pela escuridão, ele conseguiu enxergar apenas equipamentos estranhos e bacias com líquidos transparente. Havia fotografias penduradas em uma espécie de fio.

Ele não entendeu absolutamente nada do que aquele cômodo representava, então fechou a porta e voltou a fitar a cobertura. Podia dizer com absoluta certeza que o lugar lhe agradava. Não sabia dizer o motivo. Poderia ser o silêncio daquele local, apenas o som do vento se era ouvido. Ou como ele era frio. Loki gostava do frio. Ou até mesmo o cheiro das plantas, tal cheiro o deixava calmo.

Ele respirou fundo, seus pensamentos girando em torno de diversos assuntos, cada um mais diferente que o outro. Procurou focar-se nos mais importantes. Esperaria a garota chegar e diria a ela que saíra para procurar um lugar para ficar, apenas para não gerar suspeitas. Por mais que ele quisesse sair dali, ele sabia que se realojar seria ainda mais perigoso. Quanto menos midgardianos o vissem ali, melhor.

Depois de muito pensar, ele percebeu que poderia até fugir, mas no final teria que fazer algo que ele nunca pretendera fazer. Algo que ele detestava.

Seduzi-la.

Seduzi-la para tê-la totalmente sob controle. Ele convivera poucos dias com ela, mas já percebera que aquela garota era esperta, não sabia se podia confiar completamente na inocência dela, mesmo ela sendo humana.

Ela não mencionara um companheiro, mas Loki sabia que aquilo também não seria realmente um problema caso existisse alguém. Ele sorriu levemente, mas logo seu sorriso morreu.

Teria que se rebaixar a tanto? Tomar uma humana para conseguir um lugar para se esconder e permanecer anônimo até conseguir tomar uma atitude mais viável?

Quando seus poderes voltariam?


Laila chegou do trabalho, sentindo-se exausta. Como de costume, trancou a porta, jogando a chave em um potinho que ficava ali perto, andando calmamente até o quarto. Suas mãos foram em direção ao pescoço e ela desatou o grande nó que fizera no cachecol, retirando-o do corpo e o jogando em cima da poltrona enquanto se jogava no colchão de sua cama.

Fechou momentaneamente os olhos, mas logo depois os abriu, sabendo perfeitamente que, caso ficasse muito tempo assim, cairia no sono com facilidade. Estava cansada, mas ainda tinha trabalho a fazer. Muito trabalho.

Loki entrou no quarto dela de forma silenciosa, e quando Laila o viu, soltou uma pequena exclamação por causa do susto, colocando a mão no peito e sentindo seu coração bater rapidamente.

- Desculpe-me. Você me assustou. Esqueci que você estava aqui... – logo depois do que falara, Laila colocou a mão na boca e o olhou como se pedisse desculpas. – Ora, isso não foi muito educado.

Loki sorriu de forma sincera, achando até mesmo engraçado a profusão de reações que aquela garota conseguia ter em menos de trinta segundos. Ele enfiou as mãos nos bolsos da calça e se aproximou um pouco da cama, dando de ombros.

- Não precisa se preocupar. – acalmou-a.

Sem conseguir se conter, ela correu os olhos amendoados pelo homem que estava a sua frente. Ele estava perto. Perto o suficiente para que ela o puxasse pela manga da blusa e o obrigasse a cair na cama junto dela. Perguntou-se como seria a reação dele caso o fizesse. Depois piscou algumas vezes, percebendo a área em que seus pensamentos rumaram. Laila desviou os olhos dele, tentando focá-los em outro lugar que não fosse o corpo esguio que estava a sua frente.

Loki não precisou estar atento para perceber o olhar que ela lhe dera. Conseguia detectar um olhar daquela maneira a léguas de distância. Desejo. De uma forma pura e até mesmo momentânea. Ele poderia até mesmo começar a provocá-la ali, mas algo lhe dizia que ainda não era o momento certo. De qualquer maneira, ele gostou do olhar que ela lançara sobre si, ele só não sabia ainda o motivo de ter gostado tanto.

Em Asgard, aquele tipo de olhar normalmente era direcionado ao seu irmão, Thor. E não a ele. Loki não era o tipo de homem que chamava a atenção quando entrava em um salão asgardiano. Até porque normalmente ele estava na companhia de Thor, que parecia um gigante loiro e musculoso.

Quando voltara de Nova Iorque, logo depois de ter sido preso, aquela situação havia piorado. Se caso existisse mulheres asgardianas que um dia se interessaram por ele, aquilo não era mais plausível. Loki era detestado em Asgard, e deitar-se com um traidor era praticamente pedir para ser exilado do seu próprio povo.

Ele não tinha mais paciência com concubinas, então não tinha uma mulher há um tempo considerável. Aquilo não o perturbara muito, visto que ele estava trabalhando em seu plano e tinha outras prioridades.

Laila percebeu que o homem estava pensativo e sentiu que o silêncio do quarto estava começando a incomodá-la. Remexeu-se em cima do colchão, olhando-o no processo.

- Está com fome?

Ela perguntou, no qual ele negou levemente com a cabeça.

- Já me alimentei. Comprei algo para você.

Ele indicou o corredor e Laila saiu da cama, indo em direção à cozinha. Ele não havia comprado algo para ela comer, e sim comprado a padaria inteira. Ela sorriu, vendo diversas coisas que ela amava em apenas uma mesa. Pegou um pequeno croissant e mordiscou-o, olhando para ele.

- Obrigada! Parece que você adivinhou que eu estava faminta... e sem tempo. – ela olhou para o relógio de parede que ficava ali. – Hoje não terei tempo nem para correr...

Loki percebeu que ela estava desanimada com a ideia de não praticar sua corrida. Pensou que seria uma boa hora para iniciar uma conversa aparentemente comum para conhecê-la melhor. Laila estava no seu segundo croissant quando ele perguntou.

- Você corre todas as noites?

- Sim... é um hobby meu. Quando não corro, me sinto um pouco lenta. – ela sorriu de uma forma doce. – Mas hoje não terei tempo para isso... preciso revelar algumas fotografias.

Loki perdeu sua linha de raciocínio. Ele franziu o cenho e a olhou com mais atenção.

- Desculpe, revelar fotografias?

Ele perguntou, confuso. Laila sorriu novamente, pegando a mão dele de forma automática.

- Venha.

Ela o puxou para fora da cozinha, e no mesmo momento percebeu certa relutância por parte do moreno, como se ele não gostasse de ser tocado. Ela soltou a mão dele rapidamente, olhando-o com um pouco de timidez.

- Me desculpe... às vezes acho que todos são iguais a mim.

- Iguais a você como? – ele perguntou, curioso.

Laila deu de ombros.

- Eu não me importo de ser tocada, abraçada... eu gosto do contato físico. – depois ela parou de falar, percebendo que ele poderia interpretar suas palavras de forma incorreta. – Bom... há pessoas que não gostam de ser tocadas.

Para que ela se calasse e aquela conversa não ficasse ainda mais estranha, Laila saiu da cozinha, gesticulando para que ele a seguisse. Ele a atendeu, andando até o corredor. Ela entrou rapidamente no quarto e pegou um envelope pardo que parecia um pouco cheio, para depois abrir a porta que ele abrira horas atrás.

O vento cortante passou por ambos os corpos e ela começou a subir a grande escada com Loki em seu encalço.

- Um dia, quando recebi uma promoção, abracei meu chefe sem pensar duas vezes... – ela começou a contar. – Igor quase me matou, mas foi automático. Os russos conseguem ser muitos sérios em certos momentos...

Loki sorriu de forma genuína, pensando se seria prudente dizer a ela que ser abraçado de forma brusca por alguém que não tinha muita liberdade não era uma característica russa, e sim de qualquer espécie, sendo ela midgardiana ou asgardiana. Mas decidiu não dizer nada.

Quando chegaram à porta de vidro, ela colocou a mão na maçaneta e virou-se para ele.

- Você está com frio? – ele negou com a cabeça. – Sua mão estava gelada...

Ele deu de ombros para aquela observação no momento em que ela abria a porta de vidro. O vento os saudou novamente, dessa vez mais gelado e forte. Ele percebeu como ela era perceptiva, por sorte poderia usar o clima daquela cidade como desculpa para a temperatura do seu corpo.

Ela andou até o quarto que ele visitara horas atrás, abrindo a porta e virando-se para ele.

- Esse é o meu laboratório de fotografia.

Ela o apresentou ao lugar e fechou a porta quando ele entrou no cômodo escuro. Loki ao menos fingiu surpresa ao ver todo o equipamento colocado ali quando ela acendeu a luz, mas sentiu-se estranho fechado naquele cubículo com ela. O lugar não era pequeno, tampouco era grande, e por causa dos inúmeros instrumentos ali, eles eram obrigados a ficarem pertos um do outro.

Laila retirou alguns negativos de dentro do envelope, colocando-os em cima de uma prancheta onde havia uma luz mais forte. Os olhos amendoados dela estavam atentos aos pedaços de papel, mas ela parecia concentrada em outra coisa.

- O que você fez durante o dia? – ela perguntou a ele.

- Estive fora pela parte da tarde. Procurando um lugar para ficar.

Loki percebeu os olhos dela perderem o foco momentaneamente, mas logo ela voltou a sua atenção aos papéis. Laila não queria admitir a si mesma, mas ficou um pouco desanimada com a perspectiva de ele ir embora. Mas um dia ele teria que ir, não?

- Você não precisa ter pressa.

Ela disse antes que pudesse fechar a boca para impedir as palavras. Mas logo depois se arrependeu do que disse. Ele era um estranho, que ela estava hospedando ali por um espaço curto de tempo. E ela ainda não havia parado para pensar em um motivo plausível sequer para hospedá-lo. De qualquer maneira, aquilo não mudava o fato de ele ser um estranho. Mas ela falava como se ele fosse um amigo.

- Estranho... – ela disse para si mesma em um sussurro.

- O que é estranho? – ele perguntou.

Laila virou-se para ele e gesticulou com a mão.

- Apenas um pensamento alto. – esclareceu.

Ela voltou a mexer nos negativos e ele olhou para a prancheta, tentando entender aquele tipo de tecnologia, mas para ele ainda eram pequenos pedaços de papéis escuros. Laila desviou os olhos da prancheta por segundos, percebendo como ele olhava para aquilo tudo.

- Estou separando os negativos para ver quais as fotos estão melhores. Preciso dessa luz forte para conseguir escolher melhor... esses negativos são os das fotos que tirei no domingo, no parque e pela cidade, lembra?

Ele gesticulou afirmativamente com a cabeça. Laila continuou.

- Eu adoro esse tipo de trabalho. Um trabalho mais livre. Não gosto muito de fotografar cenários muito limitados e escolhidos a dedo pelo departamento onde trabalho, mas é preciso... – as mãos dela eram rápidas ao escolher os negativos. – Pessoalmente, gosto quando Igor me manda para outros países ou cidades, normalmente tiro as fotografias para as matérias de cultura... Adoro viajar!

Loki estava calado, apenas escutando-a falar. E como falava! Ela não parava nem para respirar, e à medida que ia se empolgando com o assunto, as palavras saíam de forma mais rápida. Se ele não fosse tão bom com as palavras, ele não estaria entendendo nada.

Achou aquilo engraçado, e permitiu-se sorrir um pouco, observando-a melhor. Ela já separava com mais cuidado os negativos, e o monte de papéis havia se transformado em apenas alguns. Ela levou duas tiras para perto dos olhos, semicerrando-os. Loki percebeu que ela mordia o lábio inferior quando se concentrava um pouco mais.

- É isso. – ela declarou, quebrando a direção dos pensamentos dele.

Ela não o esperou dizer algo, caminhou diretamente para o interruptor e desligou a luz branca, ligando a luz vermelha. Loki fechou os olhos momentaneamente. Odiava aquela cor, e realmente não sabia o propósito daquilo.

- Por que a luz vermelha?

Laila estava mexendo em um equipamento onde ela enfiara os negativos.

- Qualquer luz branca que encontrar o papel da fotografia o queima.

- O papel pega fogo? – ele perguntou.

Laila sorriu.

- Não... a fotografia fica toda negra. Veja...

Ela iluminou parcialmente um pedaço de papel com a pequena luz do equipamento e depois o entregou para Loki, que o analisou de forma interessada.

Laila começou a colocar as fotografias na primeira bacia de água, esperando o tempo certo. Loki observou tudo aquilo, vendo o papel branco começar a ser preenchido por formas negras e brancas. Segundos depois, quando ela colocara as fotografias na última bacia para retirar os resíduos, ele via as fotografias de forma clara.

Aquilo o fascinou. Não pelo fato de parecer mágica, mas pelo fato de ela o fazer de uma forma tão fácil e apaixonante. Ele conseguia perceber o modo carinhoso que ela pegava as fotografias da bacia e as pendurava delicadamente no fio onde antes continham outras.

Ela gesticulou para que ele a seguisse.

- Venha.

Ela desligou a luz, deixando as fotografias secando no pequeno varal. O vento estava forte ali em cima. Loki observou os longos cabelos dela dançarem quando a corrente batia nos fios. Quando ela fechou a porta de vidro, o barulho do vento sumiu.

- Amanhã terei que acordar cedo. Vou passar no laboratório e pegar as fotografias e logo saio para trabalhar. Mas você pode ficar à vontade... – ele sorriu para ela. – Vou tomar um banho. Só um instante...

Ela entrou no banheiro, fechando a porta. O barulho do chuveiro ligado foi ouvido com clareza. Loki percebeu ali a sua deixa para sair de onde estava. Andou até a sala, sentindo sua cabeça um pouco pesada. Não sabia se era por causa da luz vermelha daquele quarto ou se era porque ela falava demais.

Ele caminhou pela sala, observando agora com mais atenção as fotografias que estavam ali. Havia uma que quebrava um pouco o padrão de paisagens em preto e branco que ela parecia gostar. Estava emoldurada de uma forma diferente, e era a única do cômodo que possuía cores. Havia duas pessoas na fotografia, uma era logicamente Laila, com alguns anos a menos, sorria de uma forma doce. A outra era mais velha, mas ele conseguiu ver os traços parecidos.

Ele percebeu alguém se aproximar e virou-se. Ela parara perto dele. Usava aquela roupa que ele vira em cima da cama, e que fizera com que Loki sentisse o perfume dela. Ele ainda achava aquela peça de roupa um pouco curta, mas começou a apreciá-la, pois a falta de pano revelava as pernas torneadas da garota.

Ele apontou para a fotografia.

- Quem é?

Laila se aproximou um pouco mais.

- Minha mãe... – ela deixou a resposta no ar, olhando para a fotografia.

- Ela não mora na cidade?

Loki perguntou, um pouco curioso pela resposta.

- Não... minha mãe já faleceu... mas chegou a conhecer a Rússia. – um sorriso percorreu os lábios dela, mas logo depois a fisionomia de tristeza voltou. – Perdi minha mãe logo quando me formei...

Loki a observava com atenção, já fazendo anotações mentais e aproximando-se dela. Poderia aproveitar-se daquele momento vulnerável da garota para colocar o seu plano em prática. O olfato dele conseguia capturar facilmente o cheiro dela. Ele pensou que não seria tão difícil ter que seduzi-la.

Ele se aproximou um pouco mais e os olhos castanhos de Laila encontraram os olhos azuis dele. Ela sentiu-se zonza no mesmo momento, percebendo que o seu coração martelava dentro do peito apenas pelo fato da proximidade dele. Ele a olhava intensamente, como se estivesse lendo a sua alma com as orbes claras.

- Minha mãe é meu exemplo de vida... – ela gaguejou, no mesmo momento que a mão dele pegava uma mecha do cabelo dela e a colocava para trás do ombro. – A tenho em grande estima... mas não posso falar isso de toda a minha família.

No mesmo momento em que ela terminou a frase, ele deixou a mão cair ao lado do próprio corpo, olhando-a com mais atenção. Mas Laila era esperta o suficiente para perceber a pouca diferença no olhar. O que era aquilo? Receio?

- Afinal... é muito ruim quando nossa própria família nos decepciona, não é?

Ela perguntou, visivelmente curiosa por causa da reação dele. Loki desviou os olhos dos dela, fitando diretamente o chão.

- Sim... – ele parecia pensar.

Laila percebeu ali um ponto fraco dele, como se aquele assunto de repente o fizesse se lembrar de algo que ele tentava esquecer-se a todo custo. Ela remexeu-se, inquieta. Pousou delicadamente a mão no braço dele.

- Boa noite.

Desejou, achando melhor deixá-lo a sós com seus próprios pensamentos.