Possibilidades

Laila já estava deitada há quase quarenta minutos. O apartamento estava silencioso, apenas o som da sua respiração se era ouvido. Por mais que sentisse o cansaço em seu corpo, assim como o sono, seus olhos castanhos estavam abertos e focados na claridade ínfima que projetava manchas no teto.

Lembrava-se a todo o momento da conversa que havia tido com Loki. Laila não era a pessoa mais esperta e inteligente do mundo, mas ela conseguira captar com facilidade a mudança de humor dele ao citar a decepção com a família. Ele já sofrera algo do tipo? Não tinha liberdade o suficiente para perguntar aquilo a ele, principalmente a ele, que era tão calado e parecia ser fechado quanto a questões mais pessoais.

Ela respirou fundo, decidindo por ir dormir. Amanhã seu dia seria cheio. Mas logo outra pergunta começou a girar em sua mente.

Ele ia beijá-la?

Laila podia jogar todas as suas apostas que sim. Podia jurar que ele estava se aproximando dela no momento em que ela falava da sua mãe. Mas por que a proximidade? E o toque? Ela não conseguia tirar aquele toque da cabeça, mesmo que tivesse sido um leve roçar da pele dos dedos dele com a pele do ombro dela.

Ela descobriu ansiando por mais do toque dele. Mesmo que tal toque tivesse sido leve e sem segundas intenções. Ela não podia se culpar. Ele era um homem bonito. Muito bonito. E havia algo de diferente nele, um mistério que o circundava e parecia fazer parte da essência dele. Mas ela poderia apenas estar viajando, afinal, seu sono já estava elevado o suficiente para fazê-la pensar em coisas tolas e sem nexo.

Com esse pensamento, ela caiu na inconsciência.


Loki estava sentado no sofá da sala, e mesmo que o cômodo estivesse muito escuro, ele focava os olhos claros nas fotografias que decoravam as paredes daquele lugar, especialmente a fotografia que ela havia lhe falado horas atrás. Seus pensamentos giravam em torno de assuntos diversos, mas que se mesclavam entre e si e tinham algo em comum. Desapontamento.

Ela também já fora desapontada por causa da família?

Pensar naquilo fez uma amargura voltar para seu corpo, inundando até mesmo o gosto da sua boca. A mortal tinha mais em comum com ele do que ele imaginara. Ficar em Midgard na presença dela poderia ser tolice, o faria lembrar-se apenas de assuntos que ele não gostaria de lembrar no momento. Assuntos que ele fazia questão de trancar em seu subconsciente, já que se resignara de que nunca conseguiria apagá-los definitivamente de sua mente.

A curiosidade também estava presente, mesmo que ele não gostasse de admitir. Mas pensara bastante no que Laila havia lhe dito. Ela se desapontara com quem? Talvez um irmão? Ela teria parentes vivos? Percebeu que não sabia muito desse aspecto da vida dela, e anotou isso mentalmente para perguntar a ela quando pudesse.

Loki percebeu que não conseguiria dormir tão cedo, então apenas continuou sentado no sofá, focando sua atenção em um objeto que estava em cima da mesa de centro, tentando por meio disso movê-lo. O pequeno cristal deslizou com leveza pela mesa, mas depois de alguns centímetros voltou a ficar imóvel. Mas ele não viu aquilo de forma negativa. O movimento do objeto, mesmo que ínfimo, apenas lhe confirmava de que seus poderes estavam voltando.

Sorriu levemente, mas logo depois o seu sorriso morreu, e ele percebeu tarde demais que nem a ideia da expectativa de voltar a fazer magia o animara como ele achou que iria. Odiava aquilo. Sabia exatamente o motivo de estar daquela forma.

Família. Uma palavra tão pequena, mas que ele ainda não sabia caracterizar. Não sabia o poder que aquela palavra tinha verdadeiramente sobre si. Ou sabia? Poderia saber...

Mas ainda não estava forte o suficiente para admiti-lo.


Laila escutou um barulho estranho e abriu os olhos, percebendo que ainda era noite. Ela quase gemeu em frustação, mas algo lhe chamou a atenção. Havia uma silhueta recortada na janela, e ela puxou o ar para dentro dos pulmões a fim de gritar o mais alto que conseguisse. Mas ela estava sentindo sono e não conseguia raciocinar direito. Antes que pudesse soltar o grito desesperado, a claridade da lua bateu no rosto do suspeito, e ela percebeu que não estava na presença de algum ladrão ou alguém possivelmente perigoso.

Ele a olhava quase com tranquilidade, mas ela conseguia perceber as orbes azuis em fogo. Loki se aproximou da cama dela, ficando de joelhos ali e deitando-se em cima dela rapidamente. O corpo dele pressionou-a ainda mais no colchão e Laila automaticamente abriu as pernas para que ele se encaixasse melhor, e se sentiu extremamente excitada quando percebeu o modo como ele a olhava.

Ele permaneceu a fitando por alguns segundos, até tomar os lábios dela com voracidade. Os lábios dele eram quentes, e passavam essa sensação a cada toque. A língua dele invadiu a boca dela sem pedir muita permissão e Laila pegou-se gemendo com aquele beijo. As mãos longas e experientes subiram rapidamente a camisola fina e curta que ela usava, e foi preciso apenas alguns segundos para que o dedo dele a encontrasse e começasse a acariciá-la da forma mais sensual e prazerosa que ela já havia experimentado.

Ele se afastou dela brevemente depois de alguns minutos a tocando, para retirar a blusa negra de algodão que usava. Laila pegou-se observando o corpo dele, cada linha do músculo que delineava o peito. Ela se surpreendeu ao ver suas próprias mãos indo em direção à calça de pijama dele, e com um movimento fluido, ela a abaixou, conseguindo assim o seu objetivo.

Loki voltou a deitar em cima dela, os lábios finos encontrando dessa vez o pescoço da mortal, mordiscando a pele ali e sugando-a levemente para descobrir o gosto que ela tinha. A mão dele voltou a encontrar o sexo dela, e ele colocou a lingerie que ela usava para o lado com experiência, introduzindo um dedo nela e deixando-a a beira da loucura.

Depois de alguns segundos se deliciando com aquilo, ele pegou o próprio membro e direcionou-o na entrada dela, olhando-a com atenção.

Laila respirou fundo na expectativa de recebê-lo, mas logo um barulho esquisito cortou o silêncio do quarto. Ela franziu o cenho, buscando a origem do som.

- Não acorde.

Ele pediu, e aquilo não fez o menor sentido para ela. Mas à medida que ela piscava, a imagem do homem a sua frente começava a ficar embaçada, como se os olhos delas estivessem lacrimejando. Segundos depois, ele havia sumido por inteiro.

Laila abriu os olhos completamente dessa vez, sentando-se no colchão e percebendo um barulho irritante incomodá-la. O mesmo barulho que antes havia interrompido os dois. O despertador. Ela olhou para o pequeno relógio e sem pensar duas vezes, jogou-o no chão, fazendo-o se espatifar e o barulho cessar. Duas coisas eram facilmente percebidas. A primeira era que estava amanhecendo. E a segunda era que claramente o que havia vivido fora apenas um sonho.

Não conseguia acreditar que aquilo fora um sonho. Poderia jurar a si mesma que aquilo realmente ocorrera. Conseguia até mesmo sentir a sua pele quente nos lugares onde ele havia percorrido as mãos, ela estava com dificuldade de respirar do mesmo modo que estava no sonho e, mesmo ela não querendo admitir, estava excitada. Sentia vergonha de si por estar excitada depois de um mero sonho. Sentia-se novamente com seus dezessete ou dezoito anos.

Tentou se controlar, sabendo que ao abrir a porta, possivelmente iria vê-lo. Como ia encará-lo com as imagens do sonho na cabeça? Laila respirou fundo e engoliu em seco, retirando o pouco de cobertor que ainda restava de cima do seu corpo. Havia chutado toda a roupa de cama para longe de si enquanto dormia. E sabia exatamente o motivo.

Ela saiu calmamente do quarto e não ousou entrar na sala, indo diretamente para o banheiro e ligando o chuveiro. Fechou a porta com cuidado, tentando não fazer nenhum barulho adicional. Cerca de trinta minutos depois, estava de banho tomado, cabelo seco e roupa mudada. O casaco grosso já esquentava a sua pele. Ela borrifou um pouco de perfume no pescoço e passou um creme nas mãos. Às vezes aquele tipo de clima ressecava sua pele, e Laila era vaidosa e sentia-se na obrigação de se cuidar.

Ela andou pelo corredor e passou pela sala a fim de ir para a cozinha. Mas percebeu que não havia ninguém ali. Nem sinal dele no sofá. As roupas de cama estavam exatamente do modo como ela deixara para ele na noite anterior, como se ele não tivesse passado a noite ali. Ela achou aquilo no mínimo estranho e procurou-o pelo apartamento, mas não o achou.

Laila foi até a cozinha e preparou uma caneca de cappuccino, decidindo já pegar as fotos e ir para o trabalho. Não estava atrasada, mas não tinha nada a fazer ali. Poderia esperar Loki aparecer, mas aquilo era tolice. Ele tinha o direito de sair a hora que quisesse.

Ela subiu as escadas que levavam para o térreo rapidamente e abriu a porta de vidro. O vento gelado da cidade a saudou e ela se sentiu um pouco melhor. Adorava o frio, e a temperatura baixa apenas lhe indicava que estava em casa. Seus olhos castanhos perscrutaram o ambiente e no mesmo momento pousaram na silhueta de uma pessoa que estava sentada no banco perto do jardim de inverno.

Ele estava imóvel, e não parecia ter se dado conta da presença dela. Ela se aproximou aos poucos, percebendo que ele estava imerso em pensamentos. Os olhos azuis estavam focados em uma planta amarela que estava por perto. Aqueles olhos... que no sonho a olharam com um fogo anormal, agora estavam quase apagados. Laila suspirou e Loki se deu conta da presença dela pela primeira vez. Ele virou o rosto em direção a ela.

- Desculpe-me... tomei a liberdade de subir. – voltou a fitar a planta. – Eu precisava pensar...

Laila não respondeu, apenas se aproximou mais e sentou-se no banco ao lado dele. O cheiro de cappuccino invadiu o nariz de Loki, mas ele não achou aquilo ruim. Estava focado demais no perfume dela para que o cheiro da bebida o incomodasse.

- Você não conseguiu dormir, não é?

Laila perguntou e Loki a olhou com atenção, perguntando-se mentalmente como ela sabia daquilo. Ela apenas deu de ombros, percebendo a fisionomia questionadora dele.

- Você parece cansado... – ela observou – E não ficou muito bem depois da nossa conversa ontem.

Loki conseguiu captar a curiosidade nas palavras dela, mas de alguma forma ela não o questionou. Parecia respeitar o espaço dele, não optando por fazer perguntas. Aquilo de certa forma mexeu com ele. Aquela mortal ao seu lado parecia lhe entender melhor do que o seu irmão um dia entendera, ou aquelas pessoas que um dia ele chamara de pai e mãe. De certa forma, ele subitamente se sentiu mais à vontade ao lado dela.

Laila tomou um gole do seu cappuccino e se levantou do banco, indo em direção ao estúdio. Loki a acompanhou com os olhos, atento a cada movimento da garota. Ela saiu do pequeno cômodo cinco minutos depois com um envelope em mãos e tomando um gole da sua bebida, parecendo terminá-la. Voltou a se aproximar dele.

- Eu vou para o jornal... – ela avisou. – Fique à vontade.

Ele se levantou calmamente. Laila percebeu novamente a altura que aquele homem possuía.

- Eu preciso sair... – ele disse. – Posso descer com você?

- Claro.

Ela piscou e sorriu para ele, indo em direção à porta de vidro, sendo seguida por Loki.

Laila esforçou-se para não pensar sobre o sonho na presença dele. Tinha medo de que, caso as imagens voltassem à sua mente, ela não conseguisse se conter. O atacaria ali mesmo.


Laila apertava a ponta da caneta que segurava, fazendo um barulho irritante percorrer todo o local em que estava. Seus olhos castanhos estavam pousados em Mercedes, uma mulher negra e um pouco acima do peso, na casa dos quarentas anos, e que escrevia mais rápido que qualquer pessoa viva daquele mundo. Mercedes redigia a reportagem que as fotografias de Laila ilustrariam. Precisavam daquela matéria para no máximo a hora do almoço.

Laila adorava Mercedes. De todos os seus conhecidos na cidade, ela era a única em que Laila confiava inteiramente. Não sabia dizer se era porque Mercedes já era mãe e passava essa sensação maternal para ela, ou se era porque a mulher era mais velha e consequentemente mais sábia. Quando Laila tinha suas dúvidas, normalmente se abria com ela.

O que ela estava quase fazendo.

Não sabia realmente se contava para Mercedes sobre Loki. Concluiu minutos depois que não era o momento. Mercedes poderia achá-la louca. Que espécie de garota enfia um desconhecido dentro do seu apartamento e convive com ele como se fossem amigos? Ela mesma em certos momentos não acreditava na sua ousadia, ou na sua burrice. De qualquer maneira, Laila decidiu abordar aquele assunto de outra maneira.

- Mercedes... o que você faria caso estivesse pensando demais em um homem que só a vê como... no máximo... uma conhecida?

Laila perguntou. Mercedes continuou a escrever por breves segundos, mas depois seus dedos ágeis pararam e ela olhou para a garota através dos óculos ligeiramente quadrados. Deu um pequeno sorriso para Laila, aquele tipo de sorriso que dizia para a garota que ela sabia do que se tratava realmente o assunto.

- Não se sinta louca, Laila... – ela pontuou primeiramente. – Isso já aconteceu comigo.

- E o que você fez sobre isso? – Laila perguntou avidamente.

- Me casei com ele.

A fisionomia de Laila passou de animada para emburrada em apenas dois segundos. Ela murchou na cadeira, voltando a apertar a caneta. Mercedes olhou para o objeto, visivelmente irritada com aquele barulhinho.

- Não é o meu caso... – Laila parecia pensar alto.

- Qual é o seu caso?

- Eu tive um sonho erótico com ele. Com esse cara... mas é praticamente impossível, porque eu nem ao menos troco um aperto de mão com ele...

Mercedes voltou a sorrir, parando de digitar e olhando novamente para a garota.

- Mais do que normal. Quanto mais misterioso o homem for, mais fantasiamos sobre ele. – ela piscou para Laila. – A mente feminina é um labirinto de curiosidades.

Laila ia responder, mas no momento em que abriu a boca, seu chefe se aproximou das duas, olhando-as com atenção. Mercedes voltou a escrever rapidamente, mas os olhos de Igor voltaram-se para Laila. Ele parecia entusiasmado ao dar a notícia.

- Coloquei seu nome como prioridade na lista de fotógrafos que viajarão para França no começo da semana. – ao ver o sorriso de Laila, sorriu também. – Sei que você adora esse tipo de trabalho, e é uma das poucas fotógrafas que podem viajar a qualquer momento.

Laila começou a se empolgar. Igor gesticulou com as mãos.

- Um funcionário que não tem filhos nem marido é o melhor funcionário do mundo. – ele olhou para Mercedes.

- Sei que você me ama, Igor. E eu também tenho carinho por você. – a negra respondeu, sem deixar de escrever no computador. – Mas prefiro o conforto do meu lar a hotéis estranhos.

Igor revirou os olhos e fitou Laila novamente.

- A resposta deve sair amanhã. Você não poderá viajar sozinha, pois são duas vagas. Tecnicamente eu teria que mandar dois fotógrafos, mas eu sei que você dá conta do trabalho sozinha. Então...

- Posso chamar quem eu quiser?

Laila perguntou com expectativa, interrompendo o homem. Mercedes a olhou de soslaio, mas nem por isso deixou de digitar.

- Sim. – ele respondeu. – Mas não tome decisões precipitadas, Laila. Eu ainda nem confirmei a viagem!

Igor disse, saindo de perto das duas com um sorriso no rosto. O jeito de garota de Laila contrastava drasticamente com o jeito responsável de Mercedes. Ele não sabia como as duas se davam tão bem, mas agradecia a Deus todos os dias pela amizade entre as duas.

Aquelas mulheres faziam reportagens ótimas.

Laila começou a pensar na possibilidade de viajar novamente para a França, um rosto conhecido percorrendo sua mente. Tinha olhos azuis e lábios finos. E uma voz que daria inveja a qualquer homem vivo. Ela sorriu, esquecendo-se momentaneamente da presença da mulher ao seu lado.

- É um passo grande chamar um possível desconhecido para viajar. Principalmente um desconhecido que você nunca trocou um aperto de mão. – Mercedes parecia ler os pensamentos dela. – Mas eu apoio a ousadia.

Laila deu de ombros, mas sorriu para a amiga.

- Eu gosto de aventuras.

Respondeu, e logo Mercedes também sorriu, dando-lhe a confirmação de que ela tinha o seu apoio.

Afinal, ele já está praticamente morando lá em casa.

Laila pensou, mas não colocou tal pensamento em voz alta.