Descanso

Chegou em casa, exausta. O dia fora extremamente cansativo e ela achou que sua cabeça ia explodir. Precisava extravasar isso de alguma forma. Sentia a necessidade extrema de correr naquela noite. Entrou no seu apartamento, rapidamente observando que Loki não estava ali. Ficou um pouco curiosa com isso, mas não se dedicou muito tempo pensando onde ele poderia estar. Andou até a cozinha, colocando as sacolas em cima da mesa, onde continha o jantar para aquela sexta-feira. Aproveitou-se do seu momento sozinha para caminhar rapidamente até o quarto, jogando a bolsa na cama e já retirando o grosso casaco que usava.

Pensou no que dia que havia tido. Por mais que a sexta-feira fosse sempre mais cansativa, a notícia que Igor lhe dera conseguira a animar até o último nível. Apenas a mera oportunidade de visitar novamente a França deixava-a em expectativa, e mesmo que seu chefe tivesse lhe pedido para que ela não se empolgasse demais, ela já estava daquela maneira.

Ela colocou uma calça escura e uma blusa de manga comprida no corpo. A noite estava fria, mesmo que ela fosse correr, deixar que o vento gelado batesse em seu corpo quente não era prudente. Ela calçou os tênis rapidamente e amarrou o longo cabelo, respirando fundo e pegando os fones de ouvido, bem como seu celular.

Ocorreu a Laila que talvez Loki pudesse estar no térreo, assim como ele estava na parte da manhã. Antes de sair para correr, ela subiu as escadas e abriu a porta de vidro. Não ficou muito surpresa ao vê-lo no mesmíssimo lugar, sentado no banco. Ela se aproximou dele, sabendo que ele sentira a presença dela, pois os tênis fizeram barulho quando ela andou até o banco. Os olhos dele não se desviaram, estavam daquela vez focados em um ponto fixo do céu, que não estava estrelado, mas coberto por uma neblina estranha. Ele parecia procurar algo, como se soubesse que acima daquele manto escuro, alguém estivesse o observando.

Laila tirou aqueles pensamentos insanos da mente e se sentou ao lado dele, olhando-o dessa vez com mais atenção. Loki não desviou os olhos do céu, mas sentiu-se inquieto com ela ali ao lado dele, o observando como se estivesse lendo-o, algo que ele estava acostumado a fazer, mas não tão acostumado a sentir dos outros.

Ela pousou delicadamente a mão no ombro dele e sentiu-o enrijecer no mesmo momento.

- Fique à vontade... eu vou correr. – ela retirou a mão do ombro dele. – Há comida em cima da mesa. O jantar.

Percebeu que ele não gostava muito de ser tocado, mas nada disse. Na verdade, não se sentia à vontade em falar algo com ele, o sentia distante demais, como se o homem estivesse em outra dimensão, e apenas o corpo dele estivesse ali. Desde que ela tocara no assunto família com ele, ele estava daquela maneira, e ela não tinha nem ao menos noção de como o faria voltar ao normal. Não que o normal dele fosse falador e animado.

Com aqueles pensamentos em mente, Laila se levantou do banco em silêncio, se afastando dele novamente e fechando a porta de vidro logo depois que passou pelo batente.


Abriu a porta do apartamento, sentindo todo o seu corpo doer. Gostava daquela sensação. As pernas estavam levemente trêmulas, a respiração entrecortada e o cabelo um pouco grudado no rosto por causa do suor. Laila retirou os fones do ouvido, desligando o celular e se sentindo melhor ao saber que no dia seguinte teria um dia um pouco mais relaxante, mesmo que isso significasse trabalhar em casa.

Antes de qualquer coisa, Laila caminhou para a lareira e a acendeu, inundando a sala com uma claridade confortável e um calor bem vindo. Ela começou a se alongar, sabendo que seus músculos protestariam no dia seguinte caso não fizesse isso. A madeira dentro da lareira estalou, e ela pegou um ferrinho que estava ali perto, inclinando-se para atiçar o fogo.

Naquele momento inoportuno, Loki entrou na sala de uma forma silenciosa demais para que a garota o escutasse. Seus olhos frios pousaram no corpo dela sem que ele conseguisse se conter. Ela estava com uma roupa tão grudada à pele, que ele conseguia ver cada nuance de curva que ela possuía. Estava inclinada, e a real vontade dele era de se aproximar dela e correr as mãos por aquele corpo, para experimentar se realmente a carne e a pela dela eram tão deliciosas como aparentavam ser. Tal pensamento fez com que ele praticamente salivasse. Mesmo que ela fosse uma mortal qualquer, ele tinha que admitir, estava há muito tempo sem uma companhia feminina.

Aquilo não era saudável. Ele estava faminto pela garota que estava a sua frente, e conseguia achar motivos o suficiente para não se aproximar dela em nenhum momento. Pois seria loucura se o fizesse.

Subitamente, ela se virou. E quando viu o homem ali, exclamou e colocou a mão no peito, que arfava devido à atividade física que ela estivera praticando minutos antes.

- Você me assustou.

Ela disse, logo depois seu rosto foi percorrido por um sorriso. Ela o olhou com atenção, sentindo-se extremamente desconfortável com ele ali a fitando.

- Eu vou tomar um banho.

Avisou, saindo da sala rapidamente. Loki permaneceu sozinho, tentando inutilmente ignorar a sensação diferente que corria pelo seu corpo. Não conseguia imaginar-se sentindo desejo por uma mortal, mas estava claro que ele estava excitado. Não de uma forma incontrolável e imprudente, de uma forma que ele ficava normalmente quando concubinas visitavam o seu quarto em Asgard.

Não. De uma forma mais branda. Mas mesmo assim estava. E aquilo o deixou incomodado.

Sentou-se no sofá, tentando colocar seus pensamentos em ordem, e consequentemente de alguma forma a esperando sair do banheiro.


Ela voltou à sala cerca de uma hora depois. Usava uma roupa um pouco menos colada ao corpo e consequentemente mais confortável. Seus cabelos estavam limpos, secos e soltos e o rosto um pouco cansado. Portava um daqueles aparelhos estranhos que ela sempre carregava em mãos. E parecia mexer no que ela um dia chamara de lente.

Ela não pediu permissão ao sentar-se ao lado dele no sofá, colocando as pernas para cima e começando a mexer na configuração da câmera. Ele se sentiu inquieto com a presença dela ali, mas logo depois se acostumou, virando-se para ela para observá-la melhor.

- Você já jantou?

Ela perguntou, não desviando os olhos castanhos atentos do aparelho que mexia.

- Sim.

Monossilábico. Era o que ele era. Laila estava começando até mesmo a apreciar isso. Ela ignorou aquela informação desconfortável, e enquanto mexia no balanço de branco da câmera, resolveu deixá-lo atualizado da situação dela.

- Meu chefe me deu uma notícia boa hoje... normalmente o jornal abre espaço para reportagens culturais. Igor gosta de me mandar para outros países para fazer as fotos. Ele me disse que estou cotada a ir para a França... – ela percebeu que ele continuava calado, então resolveu continuar. – Talvez o resultado saia na segunda-feira, ou mais cedo. Há duas vagas... penso... você poderia ir comigo caso eu conseguisse?

Ela o olhou brevemente, sentindo-se extremamente tola ao fazer aquela proposta de uma forma tão informal naquele momento. Loki sentiu ali um motivo para realmente se preocupar. Se ela fosse para a França, e o levasse, ele teria que tomar extremo cuidado. Não podia simplesmente viajar por Midgard como se fosse um visitante bem vindo. De qualquer maneira, a recusa àquele convite geraria suspeita, e os olhos castanhos dela o fitavam com uma leve expectativa.

- Seria um prazer te acompanhar a essa viagem. – ele pontuou.

O sorriso de Laila aumentou, e ele conseguiu observar um leve rubor correr pela pele pálida do rosto dela. Sentiu vontade de sorrir ao constatar isso, mas se segurou. Ela voltou a mexer na câmera.

- Você melhorou? – ela perguntou automaticamente, sem conseguir se conter.

Fitou-o novamente e esperou a resposta. Mas a fisionomia de Loki era de alguém que estava perdido no assunto. Laila deu de ombros.

- Me desculpe... achei que estivesse triste.

Ela tentou deixar claro seu engano. Loki franziu o cenho.

- E o que a faz pensar que estou triste?

Ela não sentiu raiva nem rancor na pergunta dele, apenas uma leve e real curiosidade.

- Seus olhos... e você fica distante também.

Ela voltou a mexer na câmera. Loki ficou extremamente inquieto com aquela resposta. Era como se aquela garota o conhecesse há eras. Literalmente. Ele continuou a fitando, tentando entender aquela mortal como ela parecia entendê-lo. Laila percebeu os olhos frios pousados sobre si, mas tentou ignorar, o que estava se tornando extremamente difícil. Depois de alguns minutos, ela desistiu, desviando sua atenção da câmera e voltando a olhá-lo.

- Por que está me olhando assim? – ela perguntou.

Ele não respondeu. Apenas aproximou-se dela, inalando delicadamente e com descrição o aroma que a pele daquela mortal emanava. Era natural, não parecia aqueles perfumes que as pessoas de Midgard usavam. Ele conseguia discernir com facilidade a essência dela.

- Boa noite.

Ele desejou, se afastando abruptamente dela e saindo do sofá. Caminhou até o corredor e Laila conseguiu escutar tarde demais o barulho delicado da porta que dava para o térreo se fechando. Seu coração martelava dentro do peito. Ele a deixara um pouco zonza.

E sozinha.


Mesmo que fosse uma manhã de sábado, Laila acordou relativamente cedo, sentindo-se até mesmo disposta. Nove horas da manhã e o dia parecia promissor, ela conseguia ver a claridade anormal bater na cortina e suspeitou que a manhã estava ensolarada, o que ela confirmou assim que saiu da cama e abriu as cortinas. Sorriu, era difícil ter um dia assim em Novosibirsk. Ela retirou seu pijama e colocou uma roupa confortável, sabendo que não teria dia melhor para mexer em suas plantas e regá-las. Depois ela se dedicaria às fotografias e possíveis reportagens.

Saiu do quarto, indo até o banheiro e escovando os dentes. Escovou os cabelos também, e os amarrou em um coque mal feito. Queria sentir o sol batendo em sua pele quando subisse para o térreo. Ela andou pelo corredor e entrou na sala silenciosamente, olhando com atenção o sofá. Ele ainda estava dormindo. Sua respiração estava calma e seus braços estavam para trás da cabeça. O cabelo, sempre alinhado, estava um pouco bagunçado. E o maldito ainda estava belo.

Laila saiu de seu estado de fascínio momentâneo e andou até a cozinha, preparando o café o mais silenciosamente possível. Assou alguns biscoitos e deixou alguns ali, enfiando outros na boca e pegando uma grande caneca de café. Voltou para o corredor e subiu as escadas que davam para o térreo.

Ela colocou o rosto para cima para sentir o sol bater em sua pele. Sorriu. Andou até a estufa e puxou alguns vasos maiores de plantas para fora, colocando-os ali para mexer na terra e tirar alguns matinhos que poderiam matar as flores. Começou a cantarolar, mexendo na terra e sentindo o calor bem vindo de um sábado ensolarado. Perdeu a noção do tempo naquele processo.

Loki acordou cerca de uma hora depois, ficando extremamente incomodado ao perceber que já era dia e ele havia dormido muito. De novo. Em Asgard, normalmente acordava ainda à noite. Sua mente nunca descansava inteiramente, e parecia uma máquina trabalhando constantemente. Ali não. Ali ele conseguia dormir boa parte da manhã e parecia descansado quando acordava. O que tinha seu ponto positivo. Contudo, ele não gostava de dormir assim. Sentia-se vulnerável.

Ele andou pelo apartamento, procurando pela garota. Mas a cama dela já estava arrumada e o lugar estava silencioso. Apenas um cheiro agradável vindo da cozinha indicava que ela esteve ali, bem como seu perfume natural, que ficava pelo ambiente por onde ela passava.

Loki entrou na cozinha e viu o prato de biscoitos que ela havia deixado na mesa. Pegou um e colocou na boca, sentindo o gosto adocicado daquilo. Não apreciava muito aquele tipo de gosto, mas de alguma forma sentiu vontade de comer mais um.

O que era aquilo?


Vinte minutos depois ele subiu para o térreo, silencioso como um felino, ele percebeu rapidamente a presença da garota e fechou a porta atrás de si com cuidado. Seus olhos se fecharam brevemente ante a claridade, mas logo quando ele se acostumou com o sol forte, ele fitou-a mais atentamente.

Ela estava mexendo nas plantas. Estava ajoelhada em frente a um vaso de flores, e enfiava as mãos na terra quase com prazer, cantarolando uma música de forma baixa em um idioma que Loki não reconheceu. Seu cabelo, mesmo preso, parecia mais claro devido ao sol, assim como sua pele parecia ainda mais branca. Algumas mechas se soltavam do elástico que ela havia colocado, caindo sobre os ombros dela. Loki percebeu, mesmo que contrariado, que ela ficava ainda mais bela quando parecia totalmente à vontade com tudo.

Ele agachou-se ao lado dela e Laila saiu de seu devaneio pessoal e virou o rosto para o lado, assustando-se novamente com a presença dele, como se assustava sempre.

- Meu Deus! Se eu tivesse um gato, ele faria mais barulho que você.

Loki não sabia o que era um gato, mas deu um pequeno sorriso com a observação dela. Logo voltou a olhar o trabalho que ela estava fazendo.

- Por que mexe nas plantas se pode pagar alguém para cuidar delas para você?

Ele perguntou, visivelmente curioso. Estava claro que aquela era uma atividade no mínimo suja, e mesmo que ela parecesse tranquila, ele não imaginava como enfiar a mão naquela terra pudesse ser agradável. Laila sorriu.

- Mexer com plantas me faz lembrar minha mãe... sinto falta dela. É como se eu estivesse mais perto dela com isso.

Ele não disse mais nada depois daquilo, e Laila pareceu entrar em seus próprios pensamentos também para notar algo. Suas mãos voltaram a afofar a terra e depois de alguns minutos, de repente ela abriu a boca.

- O que você quer almoçar?

- O que você cozinha.

Ele respondeu sinceramente. De alguma maneira, tudo o que aquela garota cozinhava era apreciado por ele, principalmente aqueles biscoitos marrons que ele comera pela manhã. Laila sorriu, levantando-se e indo em direção a um tanque ali perto, retirando a terra das mãos enquanto as lavava calmamente.

Ela retirou o elástico do cabelo, balançando a cabeça e fazendo a cascata de fios escuros cobrirem as costas. Espreguiçou-se e decidiu deixar o vaso onde estava para tomar um pouco de sol direto antes de voltar com ele para a estufa.

Ela saiu da estufa, indo em direção à porta. Olhou para Loki enquanto andava, mas antes que pudesse chamá-lo e passar por ele, foi barrada pelo braço do homem. Ela o fitou, um pouco nervosa e confusa por aquela interrupção.

Loki se aproximou minimamente dela, olhando-a com atenção. Os olhos dele estavam ainda mais claros devido ao sol, e ela apreciou muito ao ver que as orbes não pareciam tão frias quanto antes. Pelo contrário, ela conseguiu perceber uma inquietação ali, como se o homem a sua frente estivesse lutando com pensamentos contraditórios. Ele pegou uma mecha do cabelo dela, passando os fios pelos dedos longos e sentindo a textura sedosa que eles possuíam. O leve cheiro do cabelo dela chegou ao nariz dele. Ele voltou a olhá-la, mas antes que algo acontecesse, Laila escutou o telefone.

Era um som fraco por eles estarem no térreo, mas era, incontestavelmente, o telefone. Ela amaldiçoou aquele aparelho, mas depois se lembrou de que precisava atender.

- Eu preciso atender... pode ser Igor.

E de repente, ela não estava mais lá. Deixou-o só, com a textura sedosa dos fios dela na mente dele. Loki respirou fundo, perguntando o que estava acontecendo consigo. E o que ele havia acabado de fazer. Barrou-a e aproximou-se dela sem perceber, e quando voltou a raciocinar com clareza, já estava com os cabelos dela entre seus dedos. Ele fechou os olhos, mas logo os abriu novamente ao escutar um grito vindo do primeiro andar.

Alertou-se, mas antes que pudesse fazer qualquer coisa, Laila apareceu no último degrau da escada. Segurava um aparelho escuro na mão e estava radiante com um sorriso satisfeito no rosto.

- Conseguimos! Vamos para a França!