Choque
O grito que ela soltou foi tão estridente que Loki temeu que todos do hotel tivessem escutado, mas logo depois ela parou, colocando a mão na boca e o olhando de forma horrorizada.
- Laila, acalme-se.
Ele pediu gentilmente, sabendo que isso não adiantaria. E ela realmente não pareceu ouvi-lo. Logo voltou a gritar, não de temor, mas de raiva.
- Seu maldito assassino! – ela gritou. Parecia buscar algo com os olhos. - Eu vou ligar para a polícia agora mesmo...
Achou o que buscava e caminhou diretamente para uma mesa que ficava perto da porta de saída da suíte. Onde estava um vaso de flores amarelas e um telefone. Ele percebeu astutamente o que ela ia fazer caso não a impedisse e gesticulou com o pulso. Cordas prateadas foram conjuradas em frente a ela e se entrelaçaram nos pulsos de Laila com tanta força e precisão, que ela jurou que havia mãos invisíveis apertando aquelas cordas.
Ela o olhou, amedrontada.
- O que... o que você fez? Como você fez isso?
- Posso fazer mais do que isso, se você não se acalmar.
Ela não respondeu, apenas ficou olhando aquele homem que minutos atrás julgava ser bom. Mas não. Loki era ruim. Ela agora compreendia aquilo, como se uma luz tivesse iluminado sua mente e ela tivesse conseguido juntar todas as peças. Aquele mistério todo que o envolvia... não era porque ele era um homem calado, ele era simplesmente um homem criminoso.
De repente ela começou a rir, histericamente. Loki franziu o cenho, não entendendo absolutamente nada das reações daquela humana. Ela o olhou de forma divertida, mas ele conseguia observar o temor nos olhos castanhos misturado à diversão.
- O jornal disse que você é um deus, e que aquele louro era seu irmão. O deus Thor! – ela voltou a rir histericamente. – Você, um deus! Nova Iorque sendo invadida por alienígenas comandados por um deus! É ridículo! Parece filme!
Ela continuou a rir, e aquilo o deixou extremamente irritado. Ele deu um passo em direção a ela, gesticulando para que as cordas sumissem.
- Eu sou um deus, Laila. Não sou desse mundo.
- Eu não acredito em você. Isso é patético.
Ela começou a andar na direção oposta ao telefone em cima da mesa, como se fosse caminhar para a varanda, mas logo Loki estava a sua frente. E dessa vez ele não aparecera de um jeito comum, na verdade, ele aparecera durante um reflexo verde. Laila olhou para o lugar onde ele estivera segundos antes e viu uma imagem perfeita do homem seminu desaparecer logo em seguida quando a imagem a sua frente ficou mais nítida.
- Como... o que é isso?
Sou eu. Apenas me transportei para outro lugar. Isso é magia.
Ele disse, mas a figura dele nem abriu a boca para dizer tal coisa. Ela demorou alguns segundos para perceber que a voz dele estava dentro da mente dela. Ela colocou as mãos nos ouvidos, como se com aquilo a voz fosse desaparecer.
Acredita em mim agora? Acalme-se, Laila.
Ele pediu novamente dentro da cabeça dela. Laila apertou as mãos.
- Pare com isso...
E foi assim que a pequena fincada na cabeça foi embora, como se ela tivesse tomado um remédio e a dor de cabeça irritante passasse automaticamente. Ela olhou aterrorizada para ele, vendo-o se aproximar. Ela deu dois passos para trás.
- Não me toque. – ela pediu, fazendo-o parar. – Na televisão... eu vi você. Você estava fraco, você estava sendo preso. E estava amordaçado.
- Não estou fraco. Não mais. – ele sorriu maliciosamente. – Nem mesmo preso.
- Desde quando começou a usar magia?
- Desde muito tempo.
Então, como se algo tivesse despertado dentro daquela garota, ele viu. Os olhos castanhos estavam em chamas e ela parecia prestes a atirá-lo pela janela igual ele fizera com Tony Stark na última vez em que estivera em Nova Iorque. Laila se aproximou dele e plantou as duas mãos no peito nu dele, empurrando-o com uma força surpreendente.
- E posso saber aonde você andou praticando isso? – ela gritou. – Provavelmente no meu apartamento, não? Quando a idiota aqui saía para trabalhar e achava que estava ajudando alguém que poderia se tornar um amigo! – a voz dela alterou ainda mais. – Por que eu, seu maldito? Por que logo eu? Não podia seguir a merda de sua vida e deixar a minha em paz?
Ela ia empurrá-lo novamente, mas ele desviou-se, fazendo-a se desequilibrar. Laila estava de toalha também, e não parecia se dar conta disso. Também não parecia perceber que ela havia acabado de xingar e empurrar um homicida. Loki a olhou com atenção.
- Ninguém pode saber que estou aqui. Não sou bem vindo nesse planeta, como deve desconfiar.
- Então por que está logo aqui?
- Eu não pedi para estar aqui! Eu simplesmente caí nesse maldito planeta quando estava fugindo do inferno que vivia!
Ele gritou, fazendo-a recuar. Nunca pensou que veria aquele homem gritando. O contraste com o homem calado que ela conhecera era muito estranho, e isso a deixou assustada. Mas logo ele se calou, fazendo um silêncio desconfortável se instalar na sala. Depois de algum tempo, Laila percebeu o que ele havia falado e franziu o cenho.
- Espera... fugindo? – ela começou a juntar as peças. – Fugindo de onde você mora?
Laila voltou a olhar para a televisão, que passava agora um programa ridículo sobre plantas. Mas a notícia estava gravada demais na mente dela para ela se esquecer de qualquer palavra.
- Você é um assassino onde mora também?
- Não diria assassino. Minha família tem uma mente muito pequena para conseguir rotular alguém corretamente.
Laila empalideceu.
- Mas é claro! – ela disse. – É por isso que você não gosta de falar da sua família, não é? Porque a sua família não gosta de você. – ela alterou o tom da voz novamente. – E quem poderia discordar disso? Você é um assassino! – ela foi em direção a ele, cutucando-o no peito. – Um maldito assassino!
E então ela parou. Antes mesmo de ele calá-la com magia. Os olhos castanhos que antes estavam em chamas agora eram cobertos por um terror anormal. Ela abriu a boca como se estivesse vendo um animal enorme entrando no quarto.
- Por... por que está ficando assim?
Ele não entendeu o que ela quis dizer, mas ela continuava o observando de forma amedrontada e de repente colocou a mão na boca, gritando. Em um gesto automático, ele olhou para sua própria mão. Azul. A cor maldita que ele evitava a todo custo. A cor que mostrava descaradamente a origem dele. Loki se assustou com a própria transformação. Normalmente só ficava daquela maneira quando tinha contato direto com algo Jotun.
- Por que está ficando assim?
Ela voltou a perguntar e ele finalmente a olhou, um pouco confuso.
- Eu... eu não sei.
- Você está mentindo!
Ela gritou, sentando-se no sofá e se afastando dele como se aquilo fosse passado pelo ar. Ela o olhava com medo. Medo da sua aparência. Os olhos azuis dele começaram a tomar uma coloração vermelha, o que a deixou ainda mais apavorada. Ela começou a chorar e Loki começou a se irritar com tudo. Não tinha controle nem sobre o seu corpo, nem sobre sua origem. Ele pegou o vaso que estava ao lado do telefone e arremessou na parede, quebrando o vidro em micro pedaços e fazendo as flores caírem pelo chão.
Laila encolheu-se com o barulho e seu choro aumentou.
- Cale a boca! Pare de chorar!
Ele gritou, sentando-se ao lado dela. Mas ela não recuou dessa vez. Estava aterrorizada demais para falar algo, e temia que ele pudesse ficar ainda mais violento. Ele juntou as mãos azuis e apoiou os cotovelos nas pernas, olhando fixamente para o chão. Ela permaneceu ali, calada e engolindo o choro, seus olhos não se desgrudando de Loki. Ela conseguia ver algumas linhas mais escuras pelo seu corpo, que faziam desenhos nos seus braços e costas. Desenhos estranhos. Ela não sabia a origem daquilo, assim como não sabia como ele havia se transformado naquilo. Mas as linhas estavam sumindo...
Loki sabia que ela estava ao lado dele, o observando. Estava encolhida, como se fosse um animal acuado. Mas ele não deu muita importância a isso. Ele precisava pensar no que iria fazer no momento, pois ela havia descoberto parte da história. Grande parte da história.
Demorou algum tempo até a pele pálida característica dele substituir a coloração azul. As linhas sumiram totalmente e ele parecia mais calmo. Mas Laila não ousava se mexer. De repente ele quebrou o silêncio da sala.
- Você vai continuar a tirar suas fotos nesse lugar. Vai continuar sua vida normalmente. Mas de boca fechada sobre o que você viu na televisão e principalmente sobre o que você viu aqui.
- Eu não vou fazer isso.
- Isso não é um pedido.
- Não importa, eu não vou fazer.
Loki olhou para ela com fúria. Realmente não queria dizer o que ia dizer no momento, mas parecia ser a única maneira de calá-la. Isso e levá-la para a cama, pelo visto.
- Laila, ou você permanece de boca fechada, ou terei que matá-la.
Ela fotografava as ruas apinhadas de Bordeaux com extrema atenção. Era seu último dia ali e ela finalmente iria para casa. Nunca pensou que ficaria feliz ao sair da França depois de poucos dias, mas ficar trancada em um hotel com um assassino mudou toda a expectativa dela.
Havia um festival de vinhos naquele dia, e ela pegava as nuances e peculiaridades das pessoas com facilidade. Sorrisos, bebedeiras, pedidos de casamento e até mesmo as ruas únicas daquele lugar. Fotografava portas de bares, mesas espalhadas pela calçada, turistas com diversas sacolas e artistas de rua.
Ela sentia suas mãos levemente trêmulas, e por causa disso, algumas fotos saíam embaçadas, mesmo que a velocidade do obturador estivesse fácil de manejar. Ela fechou os olhos e respirou fundo.
- Acalme-se, Laila. Antes de tudo, você é uma profissional.
Ela disse a si mesma, olhando em volta para tentar achá-lo. Ele não estava à vista, mas algo lhe dizia que ele estava por perto. Como uma sombra, um felino. Ela pendurou a câmera no pescoço e saiu do amontoado de gente, entrando em um pequeno café e comprando uma garrafa de água gelada. Afastou-se da multidão, andando por ruas mais tranquilas. Abriu a garrafa e tomou vários goles grandes, mas logo depois sentiu sua mão tremer novamente, derrubando um pouco de água na sua camisa no processo.
Ela fechou a garrafa, caminhando em direção a um banco de uma pequena praça ali perto e sentando-se. Colocou a garrafa no banco e enfiou o rosto nas duas mãos, tentando tampá-lo enquanto as lágrimas desciam livremente. Percebeu alguém se sentar ao seu lado. Mas não se incomodou em olhar. Sabia que era ele. Podia sentir o cheiro característico dele. Ou sua presença assustadora.
Loki olhou em volta, preocupado com a atenção que ela poderia criar ali ao chorar em um dia como aquele. Se ela vira o noticiário, muitas pessoas ali poderiam ter visto também.
- Não posso fazer isso...
Ela choramingou, mas não parecia dizer isso para ele. Parecia ter deixado escapar um pensamento em voz alta. Ele revirou os olhos.
- Vocês humanos são muito fracos. – Laila não respondeu, mas retirou o rosto das mãos. Os olhos estavam levemente vermelhos. Ela estava triste. – Pretende fazer o que agora?
Ele perguntou. Ela deu de ombros.
- Já terminei meu trabalho. Posso ir embora.
- Podemos.
Laila dessa vez o olhou com atenção.
- O quê?
Perguntou, visivelmente aterrorizada. Ele sorriu levemente.
- Não acha que eu a deixaria só quando você já sabe demais, não é? Eu vou com você. – ele percebeu que ela ia reclamar. – E não discuta comigo, por favor.
Ela se deitou em sua cama de banho tomado, depois de horas de voo e estresse em filas de aeroporto. Estava exausta. Tanto fisicamente quanto emocionalmente. Tivera o cuidado de trancar a porta antes de se deitar, pensando em como a presença daquele homem na sala passara de saudável para temerosa em apenas alguns dias.
Laila percebeu como tudo aquilo mudara. Ela gostava da presença dele ali, dias atrás. Pensava que o apartamento não era mais vazio quando ele estava por perto. Dera assistência a ele quando ele precisara. Mas agora não. Tudo aquilo mudara. Agora ela era prisioneira dentro de seu próprio apartamento. E ele passara de um possível amigo para um assassino.
Um maldito assassino bom de cama.
Porque não queria admitir a si mesma, mas a sensação de Loki entre suas pernas voltava toda vez que ela pensava na noite em que passaram juntos. Ele a tomara, e ela deixara de bom grado.
No momento, não sabia quem ele era realmente. E deitar-se com ele poderia ter sido o maior erro de sua vida. Mas ela estava arrependida?
Não conseguiu achar a resposta, logo a exaustão a venceu, e ela estava dormindo.
Loki estava na sala há quase duas horas, andando de um lado para o outro e pensando no que iria fazer a partir daquele momento. Ele não podia deixar a garota cativa em seu próprio apartamento. Ela tinha uma vida naquela cidade, o sumiço repentino dela geraria suspeitas. Isso poderia chamar atenção, que era a última coisa que ele precisava no momento.
Ele pensou se o noticiário da televisão dias atrás fora uma estratégia da SHIELD para relembrar e alertar indiretamente os midgardianos do que havia ocorrido e o do homem responsável por tudo. Se aquilo fora intervenção da SHIELD, Thor no mínimo já devia ter avisado que ele tinha fugido de Asgard.
Ou não?
Ele não sabia responder essas perguntas. Na certa se Thor pedira para Heimdall ficar de olho em Midgard, o guardião já sabia do paradeiro de Loki, e seu irmão também.
Ele começou a ficar inquieto, tenso e estressado, sabendo que se aquilo fosse possível, seu tempo naquele planeta estava contado. Mas como sairia dali?
Laila abriu os olhos de forma relutante, e ficou surpresa ao ver o céu ligeiramente alaranjado, indicando que a noite estava próxima. Havia dormido parte da manhã e a tarde inteira, e incrivelmente ainda se sentia cansada.
Ela fechou os olhos, se remexendo debaixo do cobertor e gemendo quando colocou os braços para fora para espreguiçar. A noite estava fria, e ela sentiu falta do sol de Bordeaux no mesmo momento. Quando ela voltou a abrir os olhos, percebeu uma presença ao seu lado.
Ela gritou, afastando-se de Loki o tanto que o tamanho da cama permitia. Ele estava sentado ao lado dela, e parecia estranhamente calmo, contrastando com sua atitude nas últimas horas.
- Como você entrou aqui? A porta estava trancada.
- Não seja tola, Laila. Portas trancadas são obstáculos ridículos para alguém que faz magia.
Ele percebeu o rosto dela ficar sério. Não queria admitir, mas não gostou daquilo. Estava acostumado a vê-la sempre tranquila e de bom humor. Sorrisos eram algo comum para ela. Sorrisos fáceis. Aquilo não parecia existir mais. Ela não parecia disposta a sorrir novamente enquanto ele estivesse por perto. Ele se remexeu, inquieto com o pensamento. Aproximou-se dela milimetricamente e a olhou com atenção.
- Escute... você trabalha em um jornal. Você é da imprensa, não é?
Ela o olhou, desconfiada.
- Sim... trabalho. – respondeu.
- Então você vai fazer algo para mim. Preciso saber se noticiários como aquele foram colocados na televisão em outros países. Preciso saber se meu rosto apareceu e aonde apareceu, ou se foi uma terrível coincidência na França. Preciso saber tudo.
- De jeito nenhum. – ela ousou negar. – Se eu não posso denunciá-lo, não vou ajudá-lo.
A expressão dele voltou a ser severa e irritada.
- Você sabe que não tem escolha, Laila.
Ele dizia o nome dela de forma tão comum, que ela desconfiava de que ele já havia ameaçado muitas pessoas do mesmo modo, com aquela fala sussurrada e calma dele. E ela sabia que ele tinha razão. Estava sem escolha. Ele era uma ameaça, e ele podia descartá-la com um simples gesto. Algo que ele já fizera com outros. Ela engoliu em seco, assentindo.
- Tudo bem... vou procurar pra você. – ela observou-o ficar mais calmo. – Mas com uma condição.
Loki revirou os olhos.
- Qual condição?
- Antes de tudo, quero saber sua história completa.
- Isso está fora de cogitação.
Laila fechou a cara no mesmo momento, jogando o cobertor para o lado e saindo da cama, passando diretamente por ele. Loki achou que estava lidando com uma criança. Ela saiu do quarto e ele a seguiu. Ela andou rapidamente para a cozinha.
- O que vai fazer? Pegar uma faca para me matar?
Ele ironizou, mas ela não respondeu de imediato. Começou a pegar algumas panelas no armário.
- Eu vou comer. Humanos precisam disso. Não sabia?
Respondeu, acendendo o fogão. Loki apenas continuou apoiado no batente da porta, observando-a com um peculiar fascínio.
