Amparo

- Seis meses depois -

Thor andava pelos corredores do palácio de Asgard imerso em pensamentos. Não fazia ideia de que horas eram, nem mesmo se precisava fazer algo mais antes de ir se deitar, a única certeza que tinha no momento era que não poderia adiar mais a conversa que estava adiando há tempos.

Precisava falar com Odin.

E quando ele pensava Odin, ele não pensava no rei de Asgard, e sim em seu pai. Thor sabia que Odin fora resoluto em encarcerar Loki, mas a pedido de Frigga, Loki não tinha uma pena de morte sobre as costas, o que seria comum se ele fosse qualquer cidadão de Asgard.

Thor não queria pensar naquilo. Loki virara um problema. Não por ser complicado e chato de resolver, mas por estar esgotando cada força que ele ainda possuía. Não queria admitir a si mesmo, mas não gostava da ideia de ter seu irmão dentro de uma cela em uma masmorra. Ele era um assassino frio e cruel, mas ainda assim era seu irmão.

Chegou à sala do trono alguns minutos depois. Por sorte ela estava vazia, apenas dois guardas costumeiros estavam parados nas portas, e acenaram brevemente ao vê-lo. Thor aproximou-se do trono, Odin estava sentado ali, as rugas de preocupação eram vistas de longe, bem como sua testa levemente franzida, indicando que ele pensava em algo complicado.

- Pai.

Ele chamou, fazendo com que Odin saísse de seus pensamentos e olhasse para o filho, não reclamava quando era chamado de pai, pois sabia que seu filho o respeitava de qualquer maneira. Pelo menos um deles.

- O que foi? O que aconteceu?

A segunda pergunta fora feita automaticamente. Os últimos dias em Asgard não foram completamente tranquilos, e Thor entrar ali para dar notícias ruins ou inquietantes tornara-se corriqueiro.

- É sobre Loki.

Odin fez uma careta e gesticulou com a mão, tentando dispensar o filho e dizer por meio daquele gesto que não estava interessado no assunto. Mas Thor foi resoluto e permaneceu ali, respirando fundo e comunicando o que queria.

- Loki está piorando... não come há uma semana...

- Loki não precisa comer para viver. – Odin deixou bem claro.

- Não é a falta de alimentação que me incomoda... – Thor parecia pensativo. – Pai, quando Loki está daquele modo, ele pode ser mais perigoso. Não gosto de vê-lo calado. E ele está em sua forma diferente...

Aquilo finalmente chamou a atenção de Odin, que ponderou por alguns minutos, olhando para Thor logo em seguida.

- O que você tem em mente?

Perguntou para o filho verdadeiramente curioso, pois não via um caminho saudável que poderia percorrer para ajudar Loki em algo sem que o tirasse da cela.

- Há uma humana... Em Midgard... – Thor começou a relatar seu ponto de vista. – Ela estava na companhia dele quando a SHIELD o capturou... Um dos agentes me disse que Loki tentou protegê-la no momento...

Odin parecia verdadeiramente interessado. Uma humana? Olhou para o filho, esperando por algo mais.

- Heimdall a observou por algum tempo. Ela mora no país que os humanos chamam de Rússia...

- Faça isso.

Odin ordenou, sem nem ao menos perguntar a Thor o que ele pretendia. Na verdade, o rei já tinha uma noção do que o filho queria fazer, e achou aquele plano no mínimo absurdo, mas ele sabia que tal plano poderia dar certo, mesmo que as chances fossem mínimas. Afinal, Loki nunca protegera ninguém senão ele mesmo.

Thor assentiu e se virou, contente em saber que tinha a autorização oficial do rei de Asgard para seguir com seus planos.


Laila estava sentada no sofá. Era uma noite de sábado, a madeira da lareira crepitava e o fogo abrandava um pouco o frio. O natal estava se aproximando. Daqui alguns dias a cidade de Novosibirsk estaria coberta de neve. Laila adorava aquela época, mas sempre se sentia um pouco triste também, pois sua mãe adorava aquela época também, e tudo que era alusivo ao natal lhe lembrava ela. De qualquer maneira, mesmo que fosse uma época bela e de comemoração, Laila sempre se sentia um pouco sozinha.

Ela observava as diversas fotografias que estavam jogadas parte na mesa de centro, parte em seu colo. Eram as fotografias que ela havia feito em Bordeaux e Londres. As fotos de Londres ficaram ainda mais belas, infelizmente o desfecho da viagem não condizia com as fotografias.

Colocou as fotos de lado, respirando fundo e olhando para a janela. Sua mente viajou para a figura do mesmo homem que sempre viajava. Loki. Ela não conseguia tirá-lo da cabeça. Como ele estaria? Seis meses se passaram e ela não tivera nenhuma notícia. Provavelmente ele estaria encarcerado. Ou morto? Havia penas de morte no lugar onde ele pertencia? Deuses podiam morrer da mesma forma que humanos?

Estremeceu ante esses pensamentos. Porém, havia outro assunto que estava a deixando inquieta. E era aquilo que ela considerava mais importante, e ao mesmo tempo tirava todas as suas noites de sono. Ela pensava, sem conseguir se conter, se Loki havia manipulado sua mente. Ela ouvira claramente aquela agente ruiva dizer que ele já fizera aquilo antes com humanos... Por que não com ela? E se tudo o que ela sentira tivesse sido uma mera manipulação? Os sentimentos, as sensações, todos irreais?

Ela tentava não pensar muito naquilo. Uma lágrima não muito bem-vinda correu pelo seu rosto e ela a enxugou com a manga do suéter rapidamente, obrigando-se a não chorar por uma pessoa que ela nem sabia se era completamente real.

O que ela sentia por ele? O que estava acontecendo com ela?

Um clarão chamou a sua atenção e ela virou-se para a janela novamente, olhando para fora para ver se havia possibilidade de chuva. Mas o céu estava limpo, apesar da neblina estar tampando boa parte da rua lá fora.

Aquele clarão... Não fora algo normal. Algo tinha caído, mas ela não sabia o que era. Ou pelo menos ainda não sabia. Alguém teria percebido, ou julgaram ser um raio fora de hora? Seria Loki voltando para o planeta dela? Ela sabia que pensar naquilo era assumir sua tolice, mas também se conhecia o suficiente para saber que era curiosa demais para deixar aquilo sem respostas.

Ela se levantou rapidamente do sofá, enfiando seus pés nas pantufas e correndo em direção ao quarto para trocar de roupa.


Já achava que sua decisão tinha sido tolice. O frio estava mais acentuado do que ela realmente imaginara. Mesmo com o casaco grosso, Laila sentia sua pele protestar com o vento gelado. Suas luvas começavam a ficar úmidas por causa do tempo. Ela respirou fundo, soltando o ar pela boca e vendo a nuvem que aquilo fazia. Seus olhos castanhos procuraram pela última vez a possível origem do clarão, mas ela andara pelo parque inteiro e não havia visto nada. E ela não poderia ficar ali. Estava tarde. Mesmo que seu bairro fosse razoavelmente tranquilo, nunca era esperto ficar tarde da noite andando sozinha.

Ela deu meia volta, sentindo-se repentinamente desanimada quando não achara nada. Deu dois passos em direção à saída do parque quando um vulto chamou a sua atenção. Seu coração foi quase à boca. A sombra que a pessoa projetava por estar debaixo de uma árvore era enorme, indicando que poderia ser Loki, mas não era. Pois logo o homem saiu do lugar de onde estava, revelando ser alguém totalmente diferente.

Ele era loiro. Seus cabelos lisos batiam abaixo do ombro, que eram largos demais até para alguém de outro mundo. Afinal, com certeza ele era de outro mundo. Ele vestia uma roupa similar à roupa de Loki quando esse trombara em Laila no dia em que se conheceram. Os olhos azuis não eram gélidos como os do moreno, mas passavam uma sensação de preocupação. Ele segurava um martelo grande na mão direita, e sua capa vermelha esvoaçava em volta do corpo forte à medida que o vento batia no tecido.

Ele se aproximou de Laila, olhando-a com atenção.

- Laila? Laila Alethea?

Chamou-a, surpreendendo-a. Não sabia que alguém poderia ter noção do seu segundo nome, principalmente pronunciá-lo corretamente. Com relutância, ela assentiu.

- Meu nome é Thor, vim de...

- Eu sei quem você é. – ela o cortou. – Você é irmão do Loki.

Foi a vez de Thor ficar surpreso. Não fazia ideia de que Loki havia falado de si para aquela garota. Isso só comprovava o que ele estava pensando: que ela era diferente aos olhos do irmão. Ele se aproximou mais um pouco, Laila podia ver a bondade no rosto dele, e sentiu-se mais à vontade com aquilo. Ele era muito diferente de Loki nesse aspecto.

- Vim aqui para lhe pedir ajuda. Há seis meses Loki está em Asgard, e há seis meses ele vem definhando aos poucos. Meu irmão nem come mais... – ele pausou, perguntando-se se aquela informação era desnecessariamente forte para ela ouvir. – Ele está em um processo incomum de tristeza.

O coração de Laila se apertou quando ela escutou aquilo. Seis meses passara ali sem ter notícias de Loki, e agora ouvia tudo em primeira mão, e preferia não ter ouvido. Pois eram notícias tristes. Preferia imaginar que Loki estava bem em seu lar, mesmo que de certa forma cativo.

Respirou fundo, olhando para o loiro.

- Loki se entregou facilmente àqueles agentes... Ele decidiu que seria melhor ir embora.

- Não, ele foi levado embora. Pelo bem de Midgard.

Thor respondeu, esperando a reação da garota. Midgard... Era daquela forma que eles chamavam seu planeta. Laila havia até mesmo se esquecido disso. Ela deu de ombros, fitando o chão e ficando em silêncio. Ao ver que a garota não ia dizer mais nada, Thor se adiantou.

- Desci até aqui para lhe fazer um pedido. – Laila voltou a olhar para ele. – Preciso que venha comigo para Asgard... Para tentar ajudar meu irmão.

Ela franziu o cenho.

- Não entendo...

- Eu preciso de sua ajuda para que meu irmão volte a ser quem era. Ele não era uma pessoa boa, mas se ele continuar daquela maneira, cairá ainda mais cedo na escuridão... Você é a pessoa que pode tirá-lo daquilo.

- Você está me dando crédito demais.

Ela quase riu, mas sabia que a situação era séria.

- Um guardião de Asgard viu como Loki te protegeu no momento em que foi capturado. Meu irmão nunca fez isso por ninguém...

- Não posso simplesmente largar minha vida aqui e ir para outro planeta. É insano. – ela estava achando que a conversa tomava um rumo louco.

- Ligue para Mercedes. Diga que você precisa tirar... Como que vocês chamam aquele período de ócio? Ah, férias.

Thor sugeriu. Laila o olhou, espantada.

- Como sabe que tenho uma amiga que chama Mercedes?

Ele sorriu.

- Heimdall é nosso guardião. Nada escapa aos olhos dele. E você está sendo vigiada depois que meu irmão se interessou por você.

- Isso dá medo.

- Não se preocupe. Apenas achamos que uma pessoa como você merece proteção. Heimdall lhe observando pode fazer isso muito bem.

Laila sorriu sem conseguir se conter. Thor era caloroso, o tipo de pessoa que conquistava as outras sem manipulação. Ele parecia sábio, e olhava para ela com um misto de seriedade e expectativa. A preocupação dele era válida e sincera, ele descera para outro planeta para pedir ajuda pelo seu irmão. Laila achou que ela poderia fazer o mínimo por ele.

Depois de pensar por alguns minutos, ela assentiu, fazendo com que ele abrisse um sorriso largo no rosto bonito.

- Posso pegá-la aqui amanhã? Você precisa resolver tudo com Mercedes e eu preciso visitar uma pessoa...

Ele parecia pensativo, mas logo Laila sentiu que ele ficara envergonhado. Ela sorriu, fingindo não ter escutado a última observação. Na certa visitaria uma mulher humana, que tinha a mesma sorte e azar de conhecer um deus belo e sedutor. Ela respirou fundo, assentindo.

Ele colocou a mão enorme no ombro dela.

- Vá para casa. Aqui está frio e ermo.

Logo girou o martelo, surpreendendo-a quando levantou voo, como se a gravidade abaixo dos seus pés fosse nula.


Ela já havia comido algo que substituíra o almoço. Tirara a manhã inteira para pedir férias para Igor e dizer a Mercedes que precisava sair para arejar a cabeça. A amiga concordou com ela, tinha percebido como Laila ficara depois do suposto término de namoro. Já Igor não gostou muito da ideia de deixá-la ir, mas liberou-a do mesmo jeito, pois Laila não tirava férias há dois anos.

Ela estava sentada no sofá. Usava uma calça apertada de malha escura e botas sem salto, com um casaco que estava completamente fechado. Ela não sabia como estaria o clima no outro planeta, mas era mais que óbvio que ali fazia frio.

Estava ansiosa. Thor ainda não dera sinal de vida e ela se perguntava se teria que fazer uma mala e levar roupas, ou se o que iria fazer lá em cima ia demorar. De qualquer maneira, não teve tempo de achar uma resposta, logo a campainha tocou.

Não gostou daquilo. Se Thor resolvesse chegar, uma possível visita estragaria tudo. Como iria explicar alguém as roupas do loiro? Caminhou até a porta e a abriu, fitando o irmão de Loki com surpresa.

- Olá.

Ele entrou no apartamento sem pedir permissão, observando tudo com atenção. Ela era organizada, muito diferente de Jane, que deixava tudo em cima da mesa ou jogado no sofá. O apartamento era bonito e havia fotografias de Midgard por toda a sala. Eram belas fotos.

- Como sabe onde eu moro?

Ela perguntou, fazendo com que ele parasse sua análise se virasse para ela.

- Heimdall... Ele tem um olho em tudo.

Ela assentiu, não pensando muito na ideia de alguém observando tudo o que ela poderia fazer dentro da suposta privacidade de seu apartamento.

- Devo fazer as malas?

Thor negou com a cabeça.

- Tudo será disponibilizado quando você chegar. – ao ver que Laila ainda olhava para ele, acrescentou com um gesto. – Vamos?


Chegaram ao parque minutos depois. Por sorte era uma tarde fria de domingo, as pessoas preferiram ficar no aconchego quente de casa a andar ali naquele gelo. Thor olhou para um lado e para o outro quando alcançaram um local ermo entre as árvores.

Ele ficou um pouco sem jeito, mas logo depois a surpreendeu com um abraço apertado. Laila abriu os olhos, assustada. Não sabia o que pensar daquilo. Ele estava a agradecendo por aceitar ajudá-lo?

- Isso pode ser estranho. – ele falou. – E incômodo.

- Espere, o qu...

- Heimdall, quando quiser.

Thor olhava para cima. Laila quis sair do aperto dele, mas logo um vento forte girou em torno dos dois, ela achou que ia ser arremessada, mas a sensação foi completamente diferente. Ela foi sugada. Para cima.

Laila fechou os olhos, já sabendo que boa coisa não poderia vir daquilo. A última vez que alguém a abraçara assim, ela fora teletransportada e a sensação não fora nada agradável. Sentia vagamente o cabelo de Thor bater eu seu rosto e o afundou no peito largo dele, notando como ele era mais forte que o irmão. Porém, o modo que ele a segurava era diferente. Thor era protetor, e seu toque não tinha malícia. Loki era malicioso até quando respirava.

Quando experimentou novamente seus pés em algo sólido, abriu os olhos, sentindo os braços fortes de Thor a deixando. Ela olhou tudo em volta. Aquilo era... Lindo.

O lugar todo possuía um tom dourado, de onde estava ela podia ver estrelas, como se estivesse dentro de uma nave espacial. As cores dos planetas eram visíveis. Laila sorriu e ficou observando aquilo por longos minutos, até que escutou uma voz séria atrás de si.

- Seja bem-vinda a Asgard.

Ela se virou. Havia um homem belo e negro ali, com uma armadura peculiar e dourada. Seus olhos eram dourados também, e possuíam um brilho incomum. Laila não precisou pensar muito para saber quem ele era.

- Você é Heimdall, não é?

O negro olhou para Thor.

- A garota é esperta.

Laila sorriu para ele, que voltou à sua posição. Seus olhos focaram-se no painel cheio de estrelas que ela observava segundos atrás. Thor gesticulou para que ela o seguisse. Laila andou até ele, não tirando os olhos de Heimdall. Aquilo devia ser legal, poder observar cada ser vivo sem ser observado.

- Por que Heimdall não conseguiu achar Loki quando o procurava?

Ela andava ao lado de Thor quando fez a pergunta. Chegaram a uma ponte que parecia de vidro e possuía diversas cores. Ela olhou aquilo tudo fascinada, mas sentiu medo, pois a ponte não parecia muito segura. Um tropeço e ela cairia fácil.

- Midgard foi o último planeta que achamos que ele iria. Sem querer ofender, mas meu irmão odeia aquele planeta. E lá havia mais possiblidade de ser descoberto. Nunca achei que ele ia escolher aquele...

- Acho que ele não escolheu. Ele meio que caiu na Te... Midgard. Quando o encontrei, ele estava machucado e parecia cansado.

Thor pensou, como se tudo naquele momento se encaixasse.

- Faz sentido...

- Quando irei vê-lo?

Ela perguntou. Os dois já alcançavam o final da ponte, entrando no que parecia um castelo de ferro dourado. Tudo ali era diferente, Laila dividia sua ânsia em observar tudo com a ânsia de querer vê-lo.

- Amanhã. – Thor respondeu, deixando-a desanimada. – Descanse um pouco. Em breve sentirá uma leve dor de cabeça por causa da viagem...

Laila fez uma careta.

- Por que vocês só avisam depois?

Thor sorriu, gesticulando para ela.

- Venha, vou acompanhá-la até seu quarto. – ao ver que Laila ainda o olhava, respondeu. – Prometo que amanhã você irá vê-lo... Só preciso dizer ao rei que você já está aqui...

Ela assentiu, sabendo que não seria prudente invadir assuntos daquele planeta. Ela poderia esperar mais algumas horas.

Afinal, já esperara seis meses.