Capítulo 17

Laila mexia em certos pertences que usara durante a sua curta estadia em Asgard. O armário que pertencia ao quarto onde ela dormira por aqueles poucos dias estava repletos de vestidos, e Laila usou quase todos, sabendo que aquele tipo de roupa era incomum para ela, porém, tradicional naquele planeta.

Ela já conversara com Odin. Laila já passara por diversas entrevistas de emprego, diversas palestras ou até mesmo deu algumas aulas de fotografia, mas nunca se sentia intimidada a falar sobre algo. Até o dia que entrara na sala onde ficava o trono do Rei de Asgard e dirigira a palavra a ele.

Odin era perspicaz, a olhava como se ela fosse um ser inferior, e ela sabia que o rei a considerava daquela maneira, mas era educado o bastante para não colocar sua opinião em voz alta. De qualquer maneira, Odin parecia saber que Laila estivera na companhia de Loki minutos atrás.

O rosto dela entregava um pouco isso. Ao pedir para Odin a permissão de voltar ao seu planeta, ela não conseguiu conter a fisionomia de tristeza que estava carregando. Ela desviou o olhar a todo o momento, principalmente quando dissera ao rei que seu objetivo de estar ali já havia sido concluído. Loki não estava mais imerso em drama e tristeza. Parecia bem. Bem até demais. O príncipe bastardo ainda estava cativo no quarto, mas seu humor parecia ter melhorado muito.

Odin a liberara sem fazer muitas perguntas. Como Laila sempre pensou, ele parecia saber de tudo antes mesmo que ela chegasse a ele e fizesse o pedido. Ela não sabia se fora o modo como saiu do quarto de Loki e andou pelos corredores, temendo que alguém visse as lágrimas no rosto dela, ou se o próprio Loki contara a Odin o que havia ocorrido. A segunda hipótese era mais provável, visto que Loki odiava Odin.

Horas depois, ela se encontrava no quarto. Trancada. Havia trancado a porta por algum tempo para não correr o risco de alguém entrar e vê-la chorando. Não queria parecer fraca, ou ainda mais fraca, diante dos olhos daqueles imortais. Ali ela era apenas uma humana. Uma mortal qualquer que subira até aquele planeta com apenas um propósito.

Ela percebeu dois vestidos em cima de cama. Um fantasma de sorriso passou pelo seu rosto. Frigga. A única pessoa ali que Laila realmente amara desde que conversara, se sentira à vontade ao lado da deusa, mesmo sabendo que ela era rainha de Asgard. Ela tinha uma aura poderosa em torno dela, que fazia jus à fama de companheira de Odin, mas seu instinto materno e carinhoso falava mais alto.

Naqueles poucos dias, Frigga foi como um bálsamo para ela, principalmente quando entrara em seu quarto minutos atrás e a pegara chorando. Ao contrário do que Laila imaginara, a deusa não perguntou o motivo, apenas sentou-se na cama e conversou calmamente com ela, dizendo como foi bom ter a companhia de Laila por aquele curto espaço de tempo e insistindo que a garota levasse os vestidos para Midgard. Como Laila não queria abusar, escolheu apenas dois, que ela realmente amara vestir.

"Você fica linda de vestido."

Frigga havia lhe dito. A mesa coisa que seu filho havia dito dentro daquele quarto no dia anterior.

Laila estremeceu ao pensar em Loki. Não queria pensar naquele homem, mas ao mesmo tempo não conseguia fugir dos seus próprios pensamentos. Principalmente porque ela se lembrava a todo o momento da conversa que havia tido com Loki. E ao lembrar-se da conversa, se sentia confusa.

Thor pedira para ela estar em Asgard porque aparentemente ela era a única pessoa que deixava o irmão mais caloroso. Thor havia lhe dito que Loki melhorava bastante na presença dela, e que ela conseguia lidar com o moreno de uma maneira que ninguém conseguia. Que ela conseguia atingi-lo de uma forma que nunca fora atingido.

Então por que Loki era tão distante?

Laila se fazia essa pergunta a todo o momento. Ela não conseguia acreditar que Loki era tão indiferente a tudo. Ele tinha que sentir pelo menos algo, uma centelha do que ela sentia. Ou o que ele sentia era apenas carnal e ela estava confundindo tudo?

Muitas perguntas. Nenhuma resposta.

Sentia-se tola por gostar dele. Loki era a pessoa mais fria que ela conhecia. Mas mesmo assim ela ainda nutria sentimentos por ele.

Alguém batera na porta. Laila se assustou, lembrando-se que havia destrancado o quarto quando Frigga entrara, mas que havia lembrando-se de voltar a trancá-lo quando a rainha a deixara só novamente. Agradeceu a si mesma por pensar naquilo. Enxugou as lágrimas no casaco que usava e caminhou até a porta, abrindo-a.

Era Thor.

O loiro pediu permissão para entrar e Laila deu um grande espaço para ele passar pela porta. Ele entrou no cômodo, os olhos azuis passando brevemente pela pequena sacola quase feita e por Laila. Ela estava chorando, isso era claro. Os olhos castanhos possuíam a vermelhidão comum de alguém que derramara as lágrimas, mas ele não comentou nada, sabendo que no mínimo invadira a privacidade e o momento da garota ao entrar ali.

- Vejo que sua mala está quase pronta.

Ele disse de forma baixa, tentando iniciar uma conversa. Laila assentiu e caminhou até a sacola, observando alguns pertences que levaria dali, e colocando com cuidado os dois vestidos que escolhera, as duas últimas peças de roupa, justamente para não amassá-las. Ela a fechou e quando tentou levantá-la, surpreendeu-se quando a bagagem saiu de sua mão, leve.

Thor a pegara como se a sacola estivesse cheia de penas. Ele sorriu minimamente para ela e gesticulou para que Laila o seguisse, saindo do quarto.

- Obrigada.

Ela agradeceu, dando uma última olhada no quarto antes de sair pela porta. Seus olhos castanhos corriam de forma quase saudosa por tudo ali. Asgard era linda, isso ela não podia negar, e tudo ali era peculiar demais para que ela não sentisse saudade. Sabia que nunca mais voltaria àquele lugar. Pelo menos levaria alguns pequenos objetos para se lembrar de que tudo fora real.

Eles alcançaram a Ponte Arco-Íris rapidamente, ela sabendo que Heimdall estava à espera dos dois no final da ponte. Ao finalmente chegar onde devia, Laila viu o guardião de Asgard parado quase como uma estátua, mas logo ele se virou e olhou de forma calma para Laila. Os olhos dourados eram fora do comum, e ela sabia que aqueles olhos podiam ver cada ser vivo e cada movimento de cada planeta.

- Espere aqui.

Thor pediu e Laila parou de chofre, fazendo o que o loiro havia pedido. Sentia seu coração bater um pouco mais forte do que o normal. Não iria viajar com Thor igual fizera ao chegar ali. Voltaria só, e isso estava a deixando nervosa. Heimdall pedira para ela fechar os olhos quando acontecesse, ela se sentiria melhor e estaria em Midgard logo. Conversara com o guardião sobre isso horas atrás.

Ela engoliu em seco ao ver Thor conversando com o negro, mas o que lhe chamou mais a atenção foi o modo como os olhos de ambos correram para um ponto atrás dela, olhando aquele ponto com atenção.

Sem pensar duas vezes, ela virou-se. E o que viu a deixou ainda mais triste, confusa e furiosa.

Loki andava calmamente em direção aos três. Trajava vestes mais simples do que o normal, porém ainda escuras com um toque de verde, suas cores. Ela tentou desviar os olhos dele, mas logo ele postou-se ao lado dela, parando ali como se fosse um cão de guarda. Ela não disse nada.

Dois minutos se passaram até ela ouvir a voz dele.

- Ia embora sem se despedir de mim? – ele perguntou de forma irônica.

- Se veio até aqui para conversar nesse tom comigo, é melhor ir embora. Estou indo para casa.

Finalmente. Ela pensou, mas nada acrescentou em voz alta. Percebeu Loki se remexer ao seu lado.

- Eu vou com você.

- O QUÊ?

Ela se virou, o olhando. Pelo rosto de tédio do moreno, ele também não parecia apreciar aquela ideia, então ela se perguntou o motivo de ele ir. Naquele momento, Thor se aproximou, olhando para Laila como se estivesse pedindo desculpas pela informação repentina.

- É uma decisão de Odin. – ele disse, olhando para Loki. – Parece que nosso pai deseja que Loki conheça melhor os humanos e entenda a essência deles. Deixá-lo em Midgard irá fazê-lo se lembrar disso. – ele voltou a olhar para Laila. – Ele será vigiado, não se preocupe.

Naquele momento, Loki revirou os olhos, ignorando perfeitamente o modo como Thor se referiu a Odin, como se o Pai de Todos fosse pai do moreno também. Ele começou a andar em direção ao núcleo onde Laila precisaria ir, Thor aproveitou-se da ausência do irmão e voltou a olhar para Laila.

- Ele precisa ficar perto de você. Meu pai percebeu o quanto ele muda perto de você. Isso vai ser saudável...

- Para quem?

Ela perguntou de forma até mesmo irritada. Thor a olhou de forma tranquila e gesticulou para que ela fizesse o mesmo caminho que Loki fizera segundos atrás. Quando ela chegou ao lado do moreno, respirou fundo.

- Você não vai comigo para Midgard. Você vai para Midgard. É diferente.

Loki deu de ombros.

- Não importa, estaremos próximos.

E com isso ela sentiu, a estranha sensação como se estivesse caindo num abismo sem fim. Fechou os olhos, lembrando-se do conselho de Heimdall.


Ao abrir os olhos, Laila percebeu o tom dourado sumir para dar espaço ao tom branco predominante em sua cidade. O cheiro familiar das árvores do parque chegou ao seu nariz e ele não conteve o sorriso, que nasceu em seu rosto depois de muito tempo escondido.

- Sentiu saudade de casa?

Ela escutou a voz fria ao seu lado e percebeu com certo desespero que Loki ainda estava ao lado dela. O sorriso sumiu rapidamente e ela fechou o rosto, olhando-o.

- Claro que senti.

Pegou a mala, arrastando-a pelo parque. Sentiu a bagagem ficar novamente leve, e percebeu que Loki a pegara do mesmo modo que o irmão fizera minutos atrás. Pelo menos a educação era partilhada em família e os irmãos tinham aquilo em comum. Loki não deu uma palavra a ela na caminhada, e quando eles finalmente entraram no prédio e subiram a escadaria característica do lugar, ele colocou a mala no chão.

Laila perguntou-se se Loki ficaria em seu apartamento igual da última vez, mas o moreno tratou de responder aquele mal entendido logo.

- Estarei por perto... – ele disse. – Se precisar de algo, é só me chamar.

- Como irei te chamar? Você por acaso tem um celular?

Ela perguntou, irritada, esquecendo-se completamente de que não poderia nem cogitar a possibilidade de chamá-lo. Loki sorriu.

- Posso chegar até você facilmente agora. Meus poderes voltaram. Posso me teletransportar. E agora sinto as ondas de seus pensamentos. – ele a olhou com extrema atenção. – É só você focar o seu pensamento em mim, com intensidade. E eu estarei aqui.

Isso não será muito difícil. Ela pensou, mas novamente não colocou seu pensamento em voz alta. Logo depois se lembrou de algo.

- Espera, desde quando seus poderes voltaram?

- Desde que você veio me visitar em Asgard.

- Isso me lembra de algo que aquela ruiva falou. Você já controlou a mente de outras pessoas, não é?

Loki não respondeu àquela pergunta, apenas sorriu de forma jocosa. Laila trancou o maxilar.

- Claro... – ela pensou em voz alta. – Sempre misterioso.

Ele sorriu de forma aberta daquela vez, aproximando-se dela e pegando a mão de Laila. Os lábios finos dele encontraram a pele macia da mão dele, ele depositou um beijo demorado ali, desaparecendo como fumaça logo em seguida.

Ela entrou no apartamento e bateu a porta com força logo depois. Ela esqueceria Loki. Não precisava chamá-lo. Não precisa da companhia dele e muito menos da ajuda dele. Ele que conhecesse a essência dos humanos sozinho. Ela não ia ajudar. Teria que contrariar o pedido e o desejo de Odin e de Thor. Afinal, o que aqueles deuses fizeram de bom para ela? Apenas a aproximaram novamente daquele ser frio e calculista, fazendo-a sofrer o dobro.

Sim, tiraria Loki dos pensamentos. À força.