Intimidade

- Um mês depois -

Ela sentia o ar gelado entrar em seus pulmões, fazendo seu peito doer e ao mesmo tempo regozijar-se pelo oxigênio. Seus tênis estavam completamente molhados, mas ela não esperava algo diferente naquele mês. O final de novembro estava próximo, e dentro de poucos dias o mês abriria espaço para dezembro aparecer. O mês que Laila sempre gostou, apesar de sempre festejar as festas de fim ano sozinha, ou, muito raramente, com Mercedes e sua família.

Ela focava sua atenção nas curvas que a pista de corrida fazia, tentando por meio disso manter o equilíbrio. Estava de noite, apenas ela e o que parecia ser um casal estavam no parque. Muitos preferiam ficar em casa, mantendo-se aquecidos. Alguns passavam na rua olhando-a como se ela fosse louca de correr em meio àquele frio. Mas a prefeitura de Novosibirsk sempre mantinha aquele parque e a pista livre da neve que já se acumulava nas gramas.

Os pensamentos de Laila vagavam em diversos assuntos. Um mês se passara desde que voltara para seu planeta, e havia um mês que não via aquele homem que um dia ocupou boa parte de seus pensamentos. Não, ele ainda estava lá. Laila pensava em Loki algumas vezes, mas a frequência já havia diminuído bastante. Ela não o procurara, como havia prometido a si mesma. Todavia, parar de pensar completamente nele era praticamente impossível.

Meneou a cabeça para tirá-lo de seus pensamentos e diminuiu o passo pouco a pouco, sabendo que depois de alguns metros estaria na saída do parque, e consequentemente perto de casa. Seu corpo estava frio, mas ela sentia o suor escorrer pelas suas costas, bem como seu coração bater rapidamente.

Ela saiu do parque cerca de vinte minutos depois, indo até seu prédio e subindo os inúmeros lances de escadas. Sonhava com um banho quente e com uma cama ainda mais quente. Era uma noite de sexta-feira. Laila havia trabalhado muito durante a semana e felizmente Igor não havia dado tarefas extras para ela pelo fim de semana. Ela estava livre para fazer o que quisesse.

Pensou sem conseguir se conter em como a falta dele deixava o apartamento vazio, mas novamente fechou a sua mente, não querendo sofrer. Pois sofria. Sentia-se mal toda vez que pensava em Loki. Um mal estar estranho, como se tudo aquilo que acontecera não passasse de um pesadelo, ou um sonho que não acabara bem.

Ela jogou as chaves em um potinho ali perto depois de ter trancado a porta e rumava para o quarto quando viu a luz vermelha da secretária eletrônica acendendo e apagando, indicando que ela havia recebido um recado. Ou melhor, três, ela observou. Seria Loki? Ele não usaria o telefone... Mas como ele a procuraria então?

Não, não podia ser ele...

Contudo, mesmo que soubesse que as chances eram mínimas, ela percebeu que sua mão tremia quando a levava até o botão e o apertava.

"Olá, querida..."

Não, não era ele. A voz era mais rouca e mais rude. A voz que ela achou que nunca mais iria ouvir, mas que sempre a perseguia em seus pesadelos, quando Laila estava vulnerável sentimentalmente. O corpo dela deu os primeiros sinais de medo... Sua pele começou a se arrepiar.

"Senti sua falta, minha filha. Achei que nunca mais a veria..."

A voz pausou, como se o pai de Laila estivesse pensando em como iria dar a notícia.

"Fiquei orgulhoso de ver seu nome em um jornal local da Rússia. Não resisti e procurei saber onde estava."

Ela começou a sentir as paredes se fechando ao seu redor. Tudo voltou. As surras que aquele homem havia dado em sua mãe e o modo violento como ele levava sua vida... Sentiu-se sufocar.

"Pretendo vê-la em breve."

O recado chegou ao fim. A última frase foi o suficiente para que Laila se sentisse ainda mais tonta. O resto do oxigênio que ainda estava em seus pulmões saiu, e ela não conseguia puxar o ar à sua volta.

Desmaiou logo em seguida.


No dia seguinte, Laila mexia em suas plantas dentro da estufa. Colocara todos os vasos ali para que o frio não as matasse. Suas mãos não estavam com terra, infelizmente o frio da cidade já a afetava. Ela usava luvas, mas logo as tirou quando viu que terminara boa parte do trabalho e só faltava cortar os galhos mais secos. Ela pegou uma pequena tesoura de poda e começou a retirá-los um por um com cuidado, os olhos castanhos detectando com facilidade quais estavam mortos.

Laila estava tão concentrada que não percebeu uma presença atrás de si. Loki a olhava por minutos, apenas observando os cabelos longos e levemente ondulados caindo dos ombros e formando uma cascata, ocultando o rosto belo. Ela jogou-os para trás, mas ainda assim não teve conhecimento da presença dele ali.

Ele adorava observá-la. Principalmente quando ela estava mexendo nas plantas. Normalmente a humana cantava, mas naquele dia em específico ela estava quieta, como se o silêncio fosse mais reconfortante.

Loki percebeu um sorriso genuíno surgir em seu próprio rosto ao fitar as mãos delicadas mexerem com cuidado nas folhas. Sentira falta daquela garota. Muita falta. Logo depois desse pensamento, ele se repreendeu. Não podia ter aquele tipo de sentimento.

Como um gato se aproximando sem fazer barulho, ele caminhou até ela, plantando calmamente a mão no ombro da garota. A reação de Laila não foi diferente da que ele imaginara. Ela gritou alto, jogando a tesoura para o lado e virando-se para ele. A princípio, Loki achara divertido o modo como ela se assustara, mas logo quando ela virou-se para ele, ele viu algo que não estava em seus planos.

Os olhos castanhos estavam afundados em terror e o corpo delicado dela estremecia levemente, algo bem incomum para o tipo de reação que ele esperava. Ele tinha certeza que ela ia se assustar, mas não a ponto de vê-la daquela forma. Logo depois os olhos dela foram percorridos pelo brilho incomum das lágrimas, e Laila caiu no choro, afastando-se dele como se Loki fosse um cachorro grande demais para um animal muito pequeno.

Loki franziu o cenho, achando aquilo no mínimo peculiar. Lembrou-se de que tentara buscar os pensamentos dela na noite anterior, mas o que achou foi apenas medo e confusão. E depois nada, como se a garota estivesse dormindo ou pior... As ondas dos pensamentos de Laila naquele momento não estavam diferentes, Loki conseguia sentir o medo no fluxo dela, e até mesmo farejá-lo em seu corpo.

Ele se aproximou calmamente.

- Laila... O que houve?

Perguntou de forma baixa, visivelmente preocupado. Mas ela não o respondeu, apenas encolheu-se onde estava na estufa, continuando a derramar as lágrimas abundantes. Ela se contraiu ainda mais ao vê-lo abaixar-se, mas logo os braços fortes dele a levantaram com facilidade e Loki andou até a escada, descendo-a e fechando a porta com um pequeno chute.

Ele colocou-a no sofá com delicadeza, observando-a nesse meio tempo. As lágrimas ainda corriam pelo rosto dela, mas ela parecia mais calma à medida que o tempo passava. Loki esperou alguns minutos passarem, tendo a consciência do corpo dela ainda trêmulo. Levou a mão ao cabelo sedoso e acariciou os fios longos, olhando-a no processo.

- Pode me contar por que está assim?

Ele voltou a perguntar, e dessa vez os olhos castanhos o fitaram. Ela passou nervosamente a língua pelos lábios para umedecê-los antes de responder.

- Eu... Eu recebi uma ligação do meu pai ontem... – a voz dela estava trêmula – Ele me achou, Loki... Ele sempre me acha.

Encolheu-se novamente e as lágrimas voltaram a correr livremente pelo rosto dela. Loki pegou-se pensando no que aquela garota havia acabado de falar. Conhecia a história de vida de Laila, e sabia como o pai dela era quando a garota era ainda pequena, e como o homem tratou a mãe dela.

Em um movimento voluntário e automático, ele se aproximou, puxando-a para ele e a abraçando-a no processo. Ele sentia o corpo dela estremecendo ao seu toque, mas sabia que, ao contrário das vezes em que a tocara, ela estremecia de medo. Com relutância, ela descansou a cabeça no peito largo dele e sentiu os dedos longos daquele homem infiltrando-se pelo seu cabelo e acariciando-o.

- Ele não irá te machucar, Laila. Eu prometo...

Às palavras dele, ela começou a relaxar. Os minutos foram passando de forma rápida. O crepúsculo começava a se aproximar. O céu estava alaranjado e com um leve tom roxo, logo a noite cairia. E ele ainda estava ali, ao lado dela, abraçando-a e acariciando-a. Depois de quase meia hora, ela percebeu aquela peculiaridade e franziu o cenho, afastando-se um pouco dele e o fitando nos olhos.

- O que você está fazendo aqui?

Ela perguntou, não se importando se aquilo iria soar rude, afinal, ele a ajudara a se acalmar, mas também a assustara, dando início à crise de choro quase sem sentido. Mas Loki não pareceu ofendido, as linhas do seu rosto estavam leves e um meio sorriso apareceu em seus lábios finos.

- Eu senti saudade.

Ele respondeu, e Laila procurou a ironia por entre as palavras dele, mas nada achou. Loki dissera aquilo de forma sincera, mas arrependera-se no mesmo momento. Os olhos castanhos dela brilharam com as palavras, mas as lágrimas já não estavam mais presentes. Ele não queria dar esperança a ela, não queria fazê-la achar que ele sentia algo a mais do que isso. Ele sentia?

Ela se afastou um pouco mais, tendo completa consciência naquele momento do quanto estavam próximos.

- Achei que não estava mais nesse planeta. – pautou.

- Odin me quer em Midgard... – ele respondeu. – Provavelmente pretende me ensinar uma lição semelhante à que ensinou a Thor quando o enviou para esse mesmo planeta.

- Thor viveu na Terra?

Laila perguntou, visivelmente surpresa. Um sorriso mais largo apareceu novamente no rosto do moreno, mas logo o sorriso morreu.

- Meu irmão viveu em Midgard por meses... Odin o enviou até aqui para ensiná-lo a humildade que todo rei precisa carregar. – ele revirou os olhos. – Só que Thor aprendeu mais do que isso. Aprendeu a amar... Ama uma humana de nome Jane Foster desde que deixou essa terra.

O sorriso que Laila deu foi genuíno, diferente do sorriso irônico do outro.

- Eu sabia que ele tinha ido visitar alguém especial quando pediu um momento por aqui na época em que me buscou...

Logo ela se calou. Não queria falar sobre aquilo. Pensar naquela época podia causar estranheza a ambos. De qualquer maneira, Loki cortou o assunto.

- Meu irmão é um tolo por amar uma humana.

Ele disse, fazendo com que Laila recuasse de forma brusca dessa vez. Sentiu como se Loki tivesse a agredido fisicamente.

- Eu esqueci como você odeia minha raça...

Ela disse, olhando para o tapete e pensando em como era tola por ter achado algo diferente. Loki nunca havia lhe dito nada romântico, nem mesmo palavras sinceras sobre o que sentia em relação a ela. Apenas palavras ácidas.

- Não é isso...

Ele tentou explicar, mas percebeu que ela virara o rosto e agora o olhava com certa impaciência e irritabilidade.

- E o que é? Eu estou cansada de você vir aqui e me deixar confusa. Estou cansada disso. – apontou para os braços dele que estavam quase a circulando. – E de como você muda de ideia o tempo inteiro. Você devia me deixar em paz, de uma vez por todas...

Então chegou. A enxurrada de palavras mal criadas que apenas uma mulher triste e com o coração quebrado poderia dizer. Loki apenas escutou aquele monte de mentiras dela. Sim, ela estava mentindo, ele não brincava com ela, e ele não queria deixá-la. Nem mesmo queria se afastar naquele momento, e percebeu que seu corpo começou a ficar ansioso quando a viu se afastar dele à medida que soltava as palavras de alguém ferido.

- Laila... – ele tentou chamá-la.

- Eu não aguento nem mesmo seu pai dizendo o que é melhor para o reino dele e para você. Ele nunca pensou em mim!

- Laila...

- Nunca pensou em como eu ficaria com você aqui, perto de mim, jogando na minha cara que é superior e que nunca sentirá algo por uma garota comum.

- LAILA!

Ele gritou, fazendo-a calar-se e voltar-se para ele, assustada. Loki revirou os olhos e aproximou-se dela, as mãos longas pegando os dois lados do rosto e obrigando-a a se aproximar dele.

- Cale a boca, sim?

Ele pediu, e logo a calou com um beijo. Sentir os lábios dele novamente sobre os seus proporcionou a Laila um prazer sem tamanho. Queria rejeitá-lo, não queria que seu corpo se arrepiasse, não queria que seu coração se acelerasse e nem que sentisse que o ar estava a abandonando aos poucos.

Mas no momento em que Loki a tocava, o corpo dela não lhe pertencia mais, e sim a ele. Sempre seria assim. E ele sabia disso, mas respeitou-a e permaneceu até mesmo quieto, apenas esperando a reação dela, que foi positiva, pois ela não se afastou e nem mesmo mordeu seu lábio, apenas separou os dela para que ele aprofundasse o beijo, o que ele fez com prazer e entusiasmo. Estava no mesmo conflito que ela, queria ignorar aquele monte de sensações que possuíam o seu corpo no momento em que a tocava, no momento em que tinha Laila para si, em que sentia a pele sedosa dela correr por baixo de sua mão, o cabelo longo esbarrando em seu braço e o corpo trêmulo quando ele a deitava no sofá, não se importando muito com as almofadas espalhando-se no chão.

As mãos ávidas corriam pelo corpo feminino, redescobrindo aquilo que ele temia nunca mais ver. Pois não queria admitir para si mesmo, sentira falta do corpo dela, mas também sentira falta da dona do corpo, de Laila, e de tudo o que ela representava para ele. Sua fraqueza. Fraqueza porque não conseguia crer que estava se sentindo assim em relação a uma mulher, principalmente a uma mulher humana.

Mas nada daquilo importava no momento. Ele terminou o beijo cálido que estava dando, bem como recolheu as mãos, fazendo-a protestar com os olhos, mas antes de ela abrir a boca para perguntar o motivo daquilo, ele se afastou e sorriu, puxando-a para ele.

- Venha aqui.

Ela deixou-se ser puxada por ele e logo percebeu as mãos dele retirando a blusa que ela usava. Levantou os braços, ajudando-o no processo. Loki fez o mesmo com sua blusa, retirando-a do corpo magro. Os olhos castanhos de Laila não conseguiam deixar aquele corpo. A pele dele era tão pálida...

- Quero que faça algo por mim.

Ele pediu, gesticulando para que ela se abaixasse. Laila olhou para ele com confusão, mas já sabia o que ele estava insinuando. Ela teria coragem de fazer aquilo? Depois de tudo o que Loki fizera com ela? Levaria aquilo adiante? Uma situação que a deixava ainda mais submissa a tudo?

O sorriso dele era malicioso quando ele se desfez do restante das roupas dela, bem como retirou a própria calça e ficou nu em frente à garota. Ele estava excitado, e Laila surpreendeu-se quando se sentiu pulsar em expectativa de experimentá-lo daquele jeito novo. Ela engoliu em seco, aproximando-se dele.

Ele observou-a com os olhos atentos, sentiu a mão tímida envolver o seu membro e respirou fundo com calma, prendendo um pouco a respiração diante da expectativa de vê-la sugá-lo. Com timidez, ela o colocou na boca, fazendo com que ele fechasse os olhos.

Senti-la... Diretamente naquele lugar. Aqueles lábios que poucos minutos atrás estavam lhe dizendo desaforos e palavras desafiadoras, agora envolvendo o seu membro e com timidez o sugando para que o deixasse à borda da loucura.

Laila também fechou os olhos, parte porque não queria entender o motivo de estar fazendo aquilo para um homem que só a fazia sofrer, parte por sentir a mão dele acariciando as costas dela vagarosamente, fazendo-a arrepiar-se apenas com aquele toque quase inocente. Quase. Até o momento de ele subir o toque e pegar as os cabelos longos dela quase com violência, empurrando-a para ele com avidez.

Ela tentou evitar, mas logo ele comandava os movimentos do modo como queria, deixando-a praticamente à mercê da vontade dele, deixando-a mais submissa do que minutos atrás.

Depois de algum tempo ele parou de súbito, olhando-a com uma fome anormal. Laila estava sem fôlego, o cabelo levemente bagunçado e os lábios inchados. Loki apreciou verdadeiramente aquela imagem, e pensou seriamente em fazer aquilo mais vezes. Ela ficava linda daquela maneira.

Ele a empurrou para o sofá bruscamente e espaçou as pernas dela, penetrando-a sem pedir autorização e nem pensando muito se ela estava desacostumada com tudo. A queria, e a tomaria de qualquer maneira. Contudo, ela parecia apta a aceitá-lo de qualquer modo, sendo ele dominador, violento ou mais calmo. Achou que se sentiria suja com o que acabara de acontecer e como aconteceu, mas percebeu seu corpo ainda mais excitado do que o normal, percebeu seu centro implorando para que fosse possuído por ele.

Loki começou a mexer o quadril com velocidade, sentindo-a apertá-lo à medida que o prazer daquela garota aumentava. Pensou seriamente que trocaria Asgard por aquela terra de bom grado se ela estivesse disposta a recebê-lo daquela maneira e fazer sem pestanejar tudo o que estava fazendo no momento.

Ela o abraçou automaticamente, fazendo com que os corpos ficassem mais próximos. Aquela aproximação súbita fez com que ele perdesse um pouco a linha de raciocínio. E logo ele descobriu que não desejava apenas o corpo dela, e não estava satisfeito apenas em possui-la.

Com aquilo em mente, ele fez seu último movimento, deixando-a também à borda. Chegaram juntos ao prazer, ela estremecendo e tombando a cabeça no sofá, ele aproveitando-se disso e mordiscando quase com reverência aquele pescoço delicioso.

E Loki percebeu, tarde demais, mas de forma agora certa, que a queria de todas as maneiras, se sentiria incompleto se ela fosse um mero objeto sexual. Queria fazê-la bem, queria fazê-la feliz. Queria ver os sorrisos dela na mesma proporção com que ouvia os gemidos de prazer.

Loki percebeu que gostava daquela humana mais do que imaginara.