Medo e Fúria

O seu horário estava quase acabando, apesar de estar sentada na sua mesa e com o computador aberto em um programa de edição de fotos. Começara a trabalhar em uma foto que tirara meses atrás e teria que entregá-la a uma revista que Igor indicara, mas seus pensamentos agora estavam tão leves e fora de rumo, que ela não via nem mesmo a imagem que o monitor mostrava.

Laila estava feliz. Feliz por estar se sentindo uma garota comum no momento. Mesmo que para isso ela tivesse que ignorar que estava tendo um caso com um deus nórdico, alguém que significava apenas uma lenda e crença antiga para os outros, mas que para ela era tão real e palpável como um objeto inanimado do escritório.

Sim. Loki a visitava todas as semanas agora. Não por obrigação, mas ela conseguia sentir que ele a visitava por prazer e por sentir falta da companhia dela, apesar de ainda não ter voltado a morar definitivamente com ela. Nem ela queria aquilo. Lembrava-se da época que ele a enganara para viver em seu apartamento, a experiência não fora boa.

Mas Loki sentia saudade dela. E demonstrava isso através do toque, dos sorrisos sinceros e espontâneos – mesmo que raros – e do modo como falava com ela. Como se ela fosse uma igual, e não um ser inferior, como ele achava. Laila sempre tinha a impressão de que Loki debochava da origem dela ao conversar com ele, mas aquela impressão ia diminuindo à medida que as visitas dele ficavam mais frequentes.

Ela sorriu de forma doce, lembrando-se da noite anterior. Ele entrara no apartamento dela de surpresa, Laila estava deitada em sua cama lendo um livro, mas ele fizera questão de interromper a leitura e jogar o livro no chão, prensando-a na cama...

O rosto dela ficou avermelhado e ela desviou os olhos para a unha recém-pintada. A voz de Mercedes interrompeu seus pensamentos.

- Vejo alguém sorrindo de forma apaixonada por semanas...

A mulher jogou no ar, fazendo com que Laila a olhasse e sorrisse.

- Deixe de ser debochada...

Laila disse, ainda sorrindo. Mercedes apenas voltou seus óculos para o rosto e voltou a digitar da forma como ninguém digitava. Às vezes Laila se sentia tonta ao ver a rapidez dos dedos de Mercedes, e perguntava-se como aquela mulher conseguia acertar todas as letras do teclado sem olhar para ele de forma direta.

- Eu preciso ir.

Laila disse, olhando para o relógio no processo. Passara da hora de ir embora e a fotografia ainda não estava pronta. Teria que mexer na imagem depois do final de semana, já que paradoxalmente sua casa não possuía um computador com editores de imagens. Ela não gostava muito da tecnologia, e queria ler algo ou cozinhar um prato diferente naquele final de semana, e não ficar enfurnada dentro de uma sala com a cara enfiada no monitor. Talvez se Loki aparecesse...

Bom, ela não iria criar expectativas. Despediu-se de Mercedes e foi até a sala de Igor para avisar que as fotografias para as próximas edições do jornal estavam em cima da mesa dela, mas que a fotografia para a revista ainda iria demorar. Seu chefe não se importou, já que a fotografia da revista não era exatamente um trabalho e obrigação. Laila não estava ganhando nada com aquilo financeiramente, era apenas uma oportunidade para divulgar seu trabalho.

Ela colocou o pesado casaco no corpo, fechando os botões e passando a faixa para apertá-lo mais ao corpo, enrolou o cachecol de lã no pescoço e enfiou a toca na cabeça, abaixando-a o máximo que ela conseguia. A cidade de Novosibirsk era miseravelmente fria naquela época.

Saiu do prédio, sentindo o vento cortando o seu rosto. Mas aquilo não a incomodou muito. Na verdade, se sentia estranha desde que começara a caminhar pela rua. Adotara o método de ir para o trabalho andando para evitar o trânsito e economizar na condução, e mesmo que seu corpo pedisse por um lugar quente, o frio a ajudava a pensar.

De qualquer maneira, a sensação estranha a perseguia por cada rua onde ela passava. Mais cinco minutos e estaria finalmente em casa, então acenderia a lareira e faria um chocolate quente. E aquele tudo iria passar. Não iria?

Ao avistar seu prédio em meio à neblina, sentiu-se um pouco melhor. Ela apressou o passo e caminhou até a entrada, mas quando viu um vulto a seguindo, parou de chofre e ficou alerta. Não era Loki. De alguma forma, ela sempre sabia quando era ele, como se a presença dele enviasse um alerta para ela. Era outra pessoa, mais baixa...

Ela virou-se para fitar quem a seguia e quase desmaiou, percebendo a sensação estranha aumentar quando viu quem estava parado a poucos metros dela, a olhando de forma atenta e até mesmo divertida.

Seu pai.

Ela se aproximou calmamente, tendo a plena consciência dos olhos injetados dele por causa da bebida. Ele não era muito de beber, era violento porque nascera daquela maneira, sua raiva inexplicável era sempre grande, e nunca tinha uma origem ao certo.

- Pai?

Ela perguntou idiotamente, e ele sorriu de forma quase maldosa, aproximando-se ainda mais.

- Olha, fico feliz que ainda se lembre de mim, Laila. Achei que você tinha se esquecido até mesmo dessa palavra... E o que ela significa.

Aquilo não era bom. Laila conhecia aquele homem e lembrava-se dele o suficiente para entender e saber que o tom de voz dele não era dos melhores. Ele procurava confusão, e a chamava para aquela confusão que ele queria criar. Ele sempre começava conversas assim com a mãe dela, na época em que viviam juntos. Conversas que nunca acabavam bem. Laila sentiu todo seu corpo estremecer, mas manteve-se firme e cruzou os braços em frente ao corpo, tentando ignorar o silvo do vento batendo em seus ouvidos. Iria ser corajosa, não era porque ele era violento que ela o deixaria falar o que bem quisesse.

- Eu nunca soube o real significado dessa palavra... – ela provocou. – Para mim, pai seria alguém que cuida da filha e a faz feliz... Bom... Eu não tive isso de você.

Ele não gostou da resposta da garota, e demonstrou isso com um aperto nos lábios finos. Laila não tinha muito dele em termos de aparência. Ele possuía cabelos negros e lisos, mas ela herdara os cabelos ondulados da mãe. Os olhos castanhos eram os mesmos do pai, mas não possuíam a maldade que os dele possuíam.

- Olha aqui, garota, não vou tolerar você falando comigo desse jeito. Eu ainda sou seu pai! Eu te procurei por todos os cantos desse mundo.

- Disso eu tenho certeza, mas agora que me achou, o que quer de mim?

Laila perguntou, querendo finalizar de uma vez aquela conversa idiota e que não levaria a lugar algum. A mera presença dele a enojava e a deixava mal.

- Eu quero apenas um teto para morar... E algum dinheiro... Você não vai me negar auxílio como fez anos atrás, não é?

- Eu te neguei algo anos atrás? – Laila estava confusa. – Quando?

- Quando fugiu com aquela puta que você chama de mãe!

A raiva que Laila guardava para si saiu do seu corpo com uma rapidez anormal. Ela sentiu seu corpo estremecer de fúria e fechou as mãos em punhos, esquecendo-se de que ele queria começar uma discussão e que ela nunca daria esse gosto para ele.

- Não chame minha mãe de puta! Ela aguentou um homem nojento como você porque ainda acreditava nas pessoas. Era o defeito dela! Acreditar nas pessoas! – gritou a última frase. – Eu não vou deixar você me explorar como fez com ela. Por mim você vai continuar com sua vida miserável. Não me peça mais ajuda. Suma definitivamente da minha vida!

Ela esqueceu-se de que vizinhos poderiam estar ouvindo, mas depois pensou melhor. Todas as janelas do prédio estavam fechadas, e ela precisava falar alto até mesmo para ele ouvir por causa do barulho do vento. Ninguém os ouviria ali. Ela deu as costas para ele e começou a andar em direção ao prédio.

Esse foi seu erro.

Depois de apenas dois passos dados, Laila sentiu uma mão forte pegá-la no braço e logo foi arremessada para a parede, sentindo suas costas baterem fortemente no concreto duro e frio. Ela gemeu, mas não teve tempo de respirar e nem dizer algo, logo a mesma mão envolveu o seu pescoço e ela pegou-se arfando por ar.

- Você vai aprender a me respeitar, garota. – ele apertou ainda mais o pescoço dela. – Nem que para isso eu precise te ensinar igual fiz com sua mãe.

Ela fechou os olhos, uma lágrima teimosa correndo seu rosto. Não queria chorar, não queria demonstrar fraqueza, mas ela sentia uma dor excruciante no peito por não estar conseguindo respirar. Tentou gritar, mas aquela tentativa fora ridiculamente falha.

Laila não conseguiria sair dali, então ela fez a única coisa que lhe veio à mente. Ela pensou no nome de Loki, e no deus, pedindo mentalmente que se ele realmente a vigiasse como sempre vangloriava fazer, que viesse em seu auxílio.

Ela sentiu que estava perdendo a consciência, seu corpo começou a amolecer e ela escutava vagamente a respiração pesada do homem à sua frente. E então, subitamente, a mão deixou o seu pescoço. Em um gesto automático do seu corpo, ela respirou fundo, buscando o oxigênio que tanto desejava e tossindo quando sentiu a garganta arder, arfando para que a sensação de enforcamento passasse.

Ela percebeu o corpo de Olavo ser arrastado para longe dela e semicerrou os olhos. A neblina havia aumentado, já estava de noite e ela perguntara-se quando a noite havia caído na cidade e quanto tempo estava ali fora com aquele homem desagradável. Ela percebeu um vulto negro perto do vulto que agora era seu pai. Esse era mais alto, e seu coração deu um salto ao ver Loki jogar com violência o pai dela no chão, colocando quase com classe a bota no pescoço do homem e apertando-o com isso. Olavo começou a se contorcer.

- Ah... É agradável, não é? A sensação de morrer aos poucos enquanto o ar sai vagarosamente dos seus pulmões...

Loki disse naquela voz arrastada e Laila ficou estupefata, apenas observando aquilo tudo. Sua mão delicada estava pousada no peito, como se ela estivesse contendo o próprio coração de pular para fora do corpo. Loki agachou-se ao lado do homem, olhando-o com visível asco.

- Prometa que fará o que a garota pediu. Que nunca mais a procurará. Que sumirá da vida dela. Definitivamente.

Ele afrouxou o aperto do pescoço do homem, mas esse se tornou mais violento assim que sentiu que Loki recuara.

- Quem é esse maldito? – perguntou, olhando para Laila. – É alguém com quem você anda fodendo?

A paciência de Loki terminara naquele segundo. Ele estalou o dedo e uma linha negra passou pelos lábios do homem, costurando-os juntos para que esses não mais se abrissem. A agonia de Olavo ao perceber o que Loki fizera fora até mesmo grotesca de se ver. O homem começou a tentar tirar a costura, mas seus lábios sangravam muito quando ele arrebentava a linha e logo a linha voltava a costurar a parte arrebentada.

Laila gritou e colocou as mãos na boca, tentando por meio disso afastar a ânsia de vômito que se apoderara de seu corpo. Loki pegou o homem pela jaqueta e o levantou como se ele fosse feito do algodão mais leve já criado. O rosto de Olavo estava vermelho, ele tentava gritar, mas era impedido pelas linhas mantendo seus lábios juntos de forma dolorosa.

- Se falar algo dela novamente, sua boca voltará a ser costurada. – ele voltou a estalar os dedos com uma mão enquanto a outra abaixava o homem pela jaqueta e o colocava no chão. – Comporte-se, tudo bem?

Ele perguntou ironicamente. Olavo olhou para aquele homem estranho e alto à sua frente.

- O que você é? Um tipo de feiticeiro?

- Quase isso. – Loki sorriu. – Agora suma.

Algo no olhar daquele homem disse a Olavo que ele falava sério, e que ele costuraria sua boca com aquele tipo de feitiçaria sem pensar duas vezes caso ele não fizesse o que fora ordenado a fazer. Ele olhou de forma hostil para a filha uma última vez, antes de virar-se para trás e correr.

Loki permaneceu alguns segundos olhando aquele homem, perguntando-se se valia a pena ir atrás dele e terminar o serviço, tirando a presença indesejável dele de Midgard, mas enquanto o vulto se afastava, ele decidiu que tinha assuntos mais importantes a resolver. Voltou a sua atenção para Laila no mesmo momento, andando rapidamente em direção a ela. Seus olhos azuis pousaram no pescoço dela. O lugar onde aquele homem colocara os dedos estava levemente arroxeado. O lábio inferior dela sangrava um pouco e ela tremia muito, um pouco desatenta a tudo que estava à sua volta. Ela iria desmaiar, isso ele tinha certeza.

Ele a abraçou.

- Feche os olhos.

Pediu gentilmente e ela o fez em um gesto automático de cansaço, e não porque ele pedira. Laila não percebeu o que ele estava fazendo, sentiu vagamente um vento mais gelado percorrer o seu corpo e de repente o frio dobrou e ela abriu os olhos, tentando observar algo.

Eles estavam em um lugar ermo. A paisagem que ela fitava parecia-se com uma montanha congelada. A vista era bela dali, ela conseguia ver várias montanhas por perto e um grande abismo em volta deles. O céu estava escuro, mas a neve que caía dava a impressão de deixá-lo mais claro. Ele a levou para dentro do que parecia uma caverna feita de gelo e fez um gesto estranho com a mão. Camadas de gelo tamparam o que seria a entrada, deixando o lugar um pouco mais escuro.

Loki conjurou fogo, em volta dela, fazendo com que ela se aquecesse à medida que o tempo se passava. Laila aproveitou da luz conjurada e olhou em volta. Ali havia tudo o que uma pessoa necessitava, e ela não precisou pensar muito para saber que era onde ele estava morando naqueles dias exilado em Midgard.

Ele a pegou no colo, colocando-a em uma cama extremamente confortável e grande. Os cobertores macios ajudavam o cansaço aumentar. Ela piscou os olhos vagarosamente, gesticulando para que ele se aproximasse. Loki fez o que ela pediu, deitando-se ao lado dela e a observando com visível preocupação. Ele passou a mão delicadamente pelo rosto dela.

- Não me deixe nunca... Sinto-me protegida quando está por perto... – sua mão desceu até o peito dele e ela começou a brincar com a borracha da roupa que ele usava. – É uma pena que você viverá para sempre, e eu morrerei cedo...

E dormiu, deixando aquela preocupação no ar. Ao vê-la fechar os olhos, Loki sentiu-se desesperado com o que ela acabara de falar, pois aquela última frase o atingira de forma súbita e forte no meio do peito, como se fosse um golpe físico. Ele sentiu seus olhos lacrimejarem, algo extremamente raro para ele. Respirou fundo para conter as emoções e recuperar a tranquilidade.

Depois daquilo, percebeu que a amava.