Glace et Larmes

Ela acordou horas depois sentindo que algo estava errado. O colchão que ela costumava dormir era um pouco mais duro, o lugar mais claro e frio. Respirou fundo. E o cheiro... Aquele cheiro era delicioso. Com relutância, ela abriu os olhos e demorou um pouco para se lembrar de que não estava em casa, e que quando fechara os olhos estava nos braços daquele que a salvara, e que aquele lugar era ermo e localizado em uma montanha de gelo. Possivelmente um lugar onde humanos não pisariam tão cedo, apenas sobrevoavam com helicópteros.

Ela passou a mão ao lado dela, no colchão, sentindo a maciez do cobertor. O cheiro dele estava por todo o lugar, mesclado ao cheiro incomum e característico de gelo. Mas ali não estava frio, contrariando as expectativas dela. Uma chama cálida estava ao seu lado, iluminando um pouco a cama e um pouco mais a frente. Com mais atenção, Laila percebeu que havia uma folha de papel em cima do travesseiro que estava ao lado do seu.

Pegou-a, sentindo seus dedos um pouco trêmulos. Ainda estava cansada, e nervosa.

Laila,

Deixei-a sozinha para que fique mais à vontade. Eu precisava sair para resolver problemas pessoais comigo mesmo e minha mente perturbada. Não tema o lugar onde está. Apesar de ele parecer um pouco lúgubre à primeira vista, montei-o para que qualquer um consiga viver no mais confortável lar já criado. Não vou demorar, espero.

L.

Laila releu o pequeno bilhete várias vezes. A letra dele era bonita. Inclinada, mas caligrafada. Ela pegou o papel e dobrou-o, colocando-o em um criado de madeira rústica por perto. Teria que se lembrar dele quando saísse dali. Aquele pedaço de papel era a única prova concreta de que Loki um dia existira. Ela nunca teria algo mais palpável dele.

Engoliu em seco, olhando em volta. O que ele quis dizer com mente perturbada? Loki estaria com problemas com Odin novamente? Ela não queria pensar muito nisso. Loki parecia alguém simples, e em dois segundos, se transformava em algo complexo demais para ser entendido.

Ela se levantou da cama, sentindo que o chão era coberto por um tapete grosso e quente. Estava escuro ali, mas ao dar o primeiro passo, ela percebeu que a pequena chama que a mantinha aquecida, também a seguia. Sorriu com isso, achando no mínimo infantil ela andar em círculos, tentando se desviar da chama, em vão.

Cansou-se da brincadeira e logo começou a explorar a pequena caverna. Em cima de um móvel ali perto, havia uma bandeja preenchida com o que parecia ser uma refeição recém-feita. O cheiro incrível que ela havia sentido logo quando acordara vinha do pão quente, que emanava o aroma característico e delicioso de massa assada. Uma caneca continha um líquido também quente, que soltava um vapor com um cheiro que ela não reconhecia, mas que era agradável ao olfato do mesmo jeito.

Ela pegou um pedacinho do pão e colocou-o na boca, andando até mais fundo na caverna. Surpreendeu-se quando uma parede do que parecia gelo tampava o restante do lugar, mas logo ela viu uma fechadura em um canto e andou até ao que parecia uma porta. Ela temia que aquilo desmoronasse na cabeça dela, mas Loki dissera que aquele lugar era seguro, e afinal, ela estava diante de uma porta, sem dúvidas. Que tipo de porta estaria ali apenas com o intuito de fazer as paredes de pedra caírem?

Respirou fundo e empurrou-a com um pouco de relutância, mas essa se abriu como se fosse uma porta comum de madeira instalada em uma casa normal. Ela piscou algumas vezes quando a claridade do lugar atingiu seus olhos. Estava diante de um banheiro rústico, mas ao mesmo tempo belo. Havia prateleiras feitas de gelo instaladas na parede, bem como um grande espelho. Ela olhou para o que parecia um box feito de uma fina camada de cristal e não acreditou quando abriu uma torneira de vidro e a água correu.

Ali era frio. A chama que a seguia parou perto da porta, como se soubesse que não era mais necessária, já que o lugar possuía um brilho único e azulado. Mas no mesmo momento em que a chama deixou o seu lado, o calor também a deixou. Ela estremeceu, colocando a mão na água para ver sua temperatura, e surpreendeu-se em demasia quando viu que ela estava quente.

- Feiticeiros...

Murmurou, aproveitando-se de que estava só e retirando a roupa do corpo. Apesar da água estar quente, o lugar era feito de gelo, e aquilo não ajudava muito. Porém, o gelo parecia manter a temperatura estável, visto que ele mantinha o calor no interior. Tudo ali estava selado.

Ela entrou debaixo d'água e sentiu-se melhor no mesmo momento em que ela fez contato com seu corpo, retirando os nós de tensão dos seus músculos. Seu pescoço estava levemente dolorido, e Laila tentou não chorar quando se lembrou do motivo da dor, e de estar ali.

Banhou-se por vários minutos, lavando até mesmo os cabelos. Havia tudo o que um humano precisava para manter-se ali, como Loki prometera. Pegou uma toalha negra e felpuda que estava em uma prateleira de gelo e saiu do banheiro logo em seguida, sendo acompanhada novamente pela pequena chama. Sorriu. Aquilo parecia um cachorrinho.

Procurou por roupas e sentiu a ironia do bilhete de Loki quando viu que ali não havia roupas limpas, apenas as que ela usava, e ela se recusava a colocar roupas sujas depois do banho delicioso que havia tomado. Por sorte, a cama estava cheia de cobertores fofos e algumas peles, que ela jogou no corpo, no mesmo momento em que enrolava a toalha nos cabelos longos e puxava a bandeja do móvel diretamente para a cama. Ali ela fez sua refeição, sentindo-se sonolenta no mesmo momento.

Não sabia se era a iluminação do local, com aquela chama a aquecendo e a pele a deixando confortável, não sabia se era a quietude anormal do local, ou se era o estresse mental que havia acabado com suas energias. Ela só sabia que estava só e não havia nada mais a fazer, a não ser deitar-se naquele colchão macio e entregar-se ao sono.


Loki chegou quase uma hora depois que Laila havia adormecido. Ele descongelou a entrada, fechando-a logo depois com magia, mas fazendo o vento gelado entrar no lugar e encontrar o corpo dela. Ela estremeceu um pouco, mas apenas murmurou algo incoerente e remexeu na cama, voltando a respirar profundamente. Colocando a bandeja no móvel onde ele havia a deixado horas atrás, ele sentou-se ao lado dela, observando-a com visível atenção e até mesmo sentimento. Uma das pernas dela estava para fora da pele que ela usava como cobertor. Os cabelos estavam levemente úmidos, pois ele tocara os fios e levara-os ao nariz para sentir o cheiro que eles possuíam. Ela havia se alimentado e banhado, como ele queria que ela o fizesse.

Ele percebeu-a inspirar profundamente, mas logo a respiração dela voltou ao normal e ele focou a sua atenção de forma automática nos seios, que estavam cobertos pela pele. Ele retirou o pequeno cobertor dali e fitou diretamente o que havia descoberto. Sua mão rumou para a pele da barriga dela e ele a tocou com delicadeza, fazendo-a estremecer.

Depois de algum tempo, Laila percebeu que seu corpo se arrepiava e abriu os olhos, piscando-os vagarosamente para a imagem entrar em foco. Percebeu Loki ao seu lado, correndo os dedos com lentidão pelo corpo dela, até chegar aos seios, onde ele os passou também com delicadeza para que ela sentisse aos poucos o seu toque.

Laila fechou os olhos.

- Então você voltou.

Ele sorriu minimamente, os dedos indo em direção ao pescoço dela. Laila estremeceu, mas ele apenas aproximou-se e beijou a pele ali, como se quisesse curá-la através do gesto carinhoso. Ela esperou-o se afastar para olhá-lo nos olhos e agradecê-lo pelo que ele havia feito por ela, mas Loki não lhe deu essa oportunidade. Seu rosto continuou perto do pescoço dela, e ele mordiscou a pele ali com delicadeza, sabendo que o lugar estava machucado.

- Seu cheiro... Me enlouquece.

Ele disse em um murmúrio, fazendo-a sorrir. A mão longa de Loki correu pela cintura dela, indo até as pernas e afastando-as vagarosamente. Ela não objetou e fez o que ele desejava, sentindo-o logo em seguida tocá-la em seu ponto mais sensível. O gemido que ela soltou deixou-o ainda mais impaciente. Queria senti-la, queria vê-la entregar-se a ele. Queria tê-la naquele momento como dele, para sempre dele.

Ele encaixou-se no meio das pernas dela, beijando-a no processo. Ao sentir os lábios dele sobre os seus, a boca dela abriu em um convite para algo mais íntimo, e ele encontrou a língua dela, tocando-a vagarosamente e começando um beijo lento e quente. A chama ao lado dela já não era mais útil, Laila sentia-se aquecida apenas pelo toque dele.

As mãos dela foram em direção à roupa que ele usava, uma combinação clássica de uma roupa social escura. Ela retirou os botões com impaciência das casas, deslizando a camisa pelos ombros largos de Loki. Ele terminou de tirar a peça de roupa, jogando-a no tapete que cobria o chão. Ela trabalhou no cinto dele, retirando-o também dali e abrindo o zíper da calça que ele usava.

Sentiu a mão trêmula dela entrar pela sua roupa e tocá-lo diretamente, e naquele momento achou que ia enlouquecer. O desejo pelo corpo dela praticamente triplicou, e ele deixou a boca dela, descendo os lábios pela extensão do pescoço diretamente e contendo-se em não mordê-la fortemente ali, pegou-se brincando com os mamilos dela com os lábios, vendo-a gemer, contorcer-se diante do toque dele, mas o que interessava Loki estava mais abaixo.

Ele encontrou o centro dela com a língua, colocando-a à borda para que ela começasse a desejá-lo na mesma proporção que ele a desejava. Funcionou. À medida que Loki introduzia o dedo nela e a sugava com os lábios, ela gemia mais alto e pedia por mais. E ele iria dar mais, porém, do modo como ele queria.

Ele se afastou novamente, se desfazendo das roupas com rapidez e indo de encontro ao corpo dela novamente. Penetrou-a com facilidade, Laila estava pronta para recebê-lo, e o abraçou logo quando o sentiu invadi-la, colocando as pernas em volta da cintura dele e puxando-o para mais perto. Ele afundou-se nela, colocando seu rosto perto do rosto dela enquanto mexia o quadril para penetrá-la. Não se beijavam, estavam concentrados no toque que os unia, ela deixando escapar gemidos enquanto arfava, ele apenas canalizando seu desejo nos movimentos, para que não fosse violento demais, mas não tão carinhoso.

Laila passara por mal bocados nas últimas horas, mas nem por isso ele iria tomá-la como se ela fosse de cristal, pois sabia que aquela garota era muito mais forte do que parecia ser, e ele admirava isso nela. Gostava de pessoas que não demonstravam fraqueza e o surpreendiam quando eram testadas.

Ela recebeu as investidas mais fortes dele de bom grado, ambos em um frenesi único por causa do ato. Loki chegou ao clímax no mesmo momento que ela, sentindo um ao outro chegar ao seu próprio prazer, ele derramando-se dentro dela, ela arqueando-se em direção ao corpo dele, enquanto estremecia e amolecia nos braços dele.

Ah! Loki adorava quando ela semicerrava os olhos, quando estava entregue ao momento pleno, quando estava deleitando-se com seu próprio prazer, esquecendo por um momento da presença dele, mesmo que os braços estivessem em torno do pescoço dele e a mão estivesse fortemente fechada no cabelo negro que ele possuía.

Demorou algum tempo para que ele se afastasse dela, olhando-a nos olhos. Era aquele momento que Laila estava esperando minutos atrás, agradecê-lo por tudo o que ele havia feito, mas ao abrir a boca, foi algo totalmente diferente que saiu, surpreendendo a ambos.

- Eu amo você.

Sussurrou, sentindo-se envergonhada no mesmo momento. Loki ficou parado por alguns segundos e não respondeu de imediato, mas logo depois se aproximou e beijou-a com uma ternura surpreendente. Ele não disse mais nada. Não podia, não conseguia.

A verdade era que Loki a amava também. Muito. Como nunca amaria ninguém, ele desconfiava. Mas ela era apenas uma garota humana, e ele um imortal. E ela envelheceria e morreria em pouco tempo, e ele permaneceria daquele modo, jovem e vazio, tentando se apegar à única lembrança que restaria dela, o som dos seus risos, o aroma do seu corpo e o toque único que ela possuía.

Ele engoliu em seco e correu a mão delicadamente pelo cabelo dela.

- Descanse um pouco, Laila. Logo terá que voltar para sua casa.

Ela não gostou daquilo. Por ela, passaria dias ali, mas precisava voltar para a vida real em breve. Não se incomodou de Loki não ter falado o que ela esperava. Sabia que ele a amava. O modo como a acariciava e como a olhara nos últimos momentos antes de ela dormir lhe disseram isso.


Eles se aproximavam do prédio onde Laila morava, ela sentindo-se estranha ao ver o local novamente depois do que acontecera na noite anterior, havia praticamente sido agredida ali. Loki estava quieto ao seu lado, o que não era muito atípico, já que ele sempre ficava calado quando andava pelas ruas, como se estivesse imerso em pensamentos.

Ao se aproximar da porta de entrada do prédio, ele parou, e ela percebeu que ele não iria acompanhá-la até o seu apartamento. Não quis admitir, mas esperava que, depois do que havia acabado de acontecer aos dois, ele voltasse a morar, mesmo que provisoriamente, ali.

- Bom... Eu te vejo depois?

Ele não respondeu àquela pergunta e Laila franziu o cenho. Loki pegou gentilmente a mão dela, puxando-a com delicadeza para o corpo dele. Plantou um beijo leve na testa dela, sentindo o aroma dos cabelos que ele tanto amava.

Ao se afastar dela, Laila o fitou com atenção, estranhando o gesto. Mas o que viu nos olhos de Loki quase a deixou desesperada. Ela já havia visto aquela expressão no rosto dele, e o brilho diferente nas orbes azuis. Foi no dia em que o levaram de volta para Asgard. E, como naquele dia, aquela expressão só podia significar uma coisa. Adeus.

- Loki! Não!

Ela tentou correr em direção a ele, mas ele havia se virado e desapareceu como fumaça, no mesmo momento em que Laila se desequilibrou com o pátio úmido por causa da neve, caindo no chão de joelhos, fechando suas mãos em nada.

Não se preocupou em se levantar. A sua dor emocional praticamente a ordenou a permanecer ali, com o rosto voltado para o chão. Laila percebeu segundos depois que estava chorando.