Eternidade

Estava frio. Muito frio. A neve encobria parte das árvores de galhos secos, caindo em pedacinhos pequenos por toda a grama que parecia um manto branco. Os bancos também estavam cobertos de neve, Laila não iria se sentar, então se afastou daquele lugar do parque e continuou a andar pelo chão escorregadio.

Adorava aquela época do ano. Janeiro era o mês mais frio da Rússia, e a cidade de Novosibirsk era contemplada por diversos turistas de todo o mundo. Crianças brincavam em seus trenós improvisados, adultos pareciam virar crianças, montando bonecos de neve e sujando as calças com isso. Alguns arriscavam até mesmo a se aproximar do lago que ficava ali, colocando a mão na fina camada de gelo que cobria a água e observando-a se despedaçar no que pareciam ser lindos cristais.

Laila fotografava tudo, não perdendo nenhum movimento, nenhuma paisagem. As botas estavam úmidas, mesmo que fossem projetadas para andar na neve, as mãos enluvadas com grossa lã agarravam a máquina preciosa e cara. Elas estavam tremendo.

Mas Laila sabia que não estavam tremendo devido ao frio.

Estar naquele lugar, era como estar perto dele. Tudo ali a fazia se lembrar dele. A neve que cobria os bancos, o ar frio que parecia entrar em suas vestes pesadas, o vento gelado que batia em seu rosto. Até mesmo o cheiro de gelo, um aroma que ela sempre identificou nele, mesmo que inconscientemente. Ele nascera no gelo. Será que havia retornado a ele?

Meneou a cabeça, retirando tais pensando de sua mente. Lembrar-se dele seria a mesma coisa que se torturar. Havia se prometido nunca mais sofrer o abandono, nunca mais pensar em Loki, nunca mais sentir esperanças de vê-lo novamente, conversar com ele sobre diversos mundos que ela nunca iria visitar, sobre o lugar onde ele morava. Conversar com ele era como desabafar mentalmente. Laila tinha a leve impressão de que ouvi-lo dizer tudo o que ele já havia feito por diversos fins, a fazia se sentir mais humana, não perfeita.

Seu corpo estremeceu, a lembrança do que viveu ali naquele parque invadindo novamente sua mente sem pedir licença e permissão. Ela estava correndo na época, não estava tão frio, apesar de o ar naquele parque sempre estar em uma temperatura mais baixa do que o normal.

Laila caminhou mais dois passos e lembrou-se do modo brusco como havia se encontrado com ele, jogando o homem e a si mesma no chão. Tentou conter um sorriso quando a lembrança lhe veio à mente, inutilmente. Ele parecia tão perdido naquele momento...

Mas o sorriso morreu no mesmo instante. Ela respirou fundo, meneando a cabeça e voltando a andar pela neve que cobria os caminhos do parque. As pessoas já começavam a sair dali, uma evidência incontestável de que a temperatura abaixava a cada minuto transcorrido.

Ela se sentou, observando tudo com atenção e tentando ignorar aquela sensação horrível que sentia em seu peito, como se o coração estivesse se comprimindo, causando uma pequena dor que não conseguia passar despercebida.

Ela pegou a câmera e focou a lente poderosa em um pequeno esquilo que havia se arriscado a sair de um buraco no tronco de uma árvore. A criaturinha olhou para ela e piscou algumas vezes, para depois correr e sumir em meio a montinhos de neve que estavam ali perto.

Laila observou a foto que havia tirado. Aquela sim tinha ficado linda. Um momento clicado rapidamente, mas congelando de forma perfeita a natureza. Sorriu, voltando a câmera na posição de fotografia.

Mataria Igor quando terminasse aquele trabalho.

Não que não estivesse fazendo o que mais amava, mas ficar ali, naquele lugar onde tudo lhe lembrava ele, apenas observando cada árvore, pessoa e animal jogar na sua cara que a vida era bonita e que ela estava perdendo tudo aquilo por causa de uma esperança boba, fazia com que ela quase desistisse do trabalho.

Igor pagaria bem, assim como pagava por todas as suas fotos. Uma reportagem de como Novosibirsk poderia virar um ponto turístico no mês de janeiro certamente proporcionaria pontos positivos ao jornal local. E Laila teria todos os créditos como fotógrafa.

Focou a lente novamente em um ponto específico da neve, tentando pegar um prisma ali. E o que viu fez suas mãos tremerem.

Um vulto. E poderia se passar por um vulto comum, se não fosse pelas cores predominantes na roupa da pessoa. Verde e preto. As cores que ele usava, suas cores preferidas.

Ela se levantou imediatamente, passando a corda da câmera no pescoço e virando-se de costas para a pessoa que estava ali. Não era ele. Não poderia ser...

Deu alguns passos para frente, tentando ignorar o coração martelando rapidamente dentro do seu peito. Foi quando sentiu dedos fortes e determinados lhe pegarem pelo pulso. Ela congelou onde estava, fechando os olhos e respirando fundo para tentar retomar a calma que havia fugido naquele momento. Mas aquilo apenas fez o aroma inconfundível de gelo, com um leve toque mentolado que ela nunca conseguira identificar, invadir seus sentidos.

Se você se virar agora, tudo estará acabado.

Porque ela tinha que ser realista e sincera consigo mesma, se fitasse novamente aqueles olhos azuis claros, observando-a com a intensidade que sempre a observavam, como se estivesse lendo sua alma, Laila não conseguiria deixar as emoções que reprimira por dois meses de lado, elas iriam voltar rapidamente, com mais força e causando um estrago maior.

Não olhe para ele, saia daí e finja que nada aconteceu.

Mas como fingir que o homem que amara não estava agora a segurando tão possessivamente? Como fingir que não era ele ali, e sim uma lembrança ou um sonho que iria se dissipar novamente quando ela acordasse? Como ignorar o que ela ansiara por mais de um ano? Uma chance de conversar com ele pela última vez?

- Não ignore, Laila. Eu estou aqui.

Ah sim, ainda tinha aquela maldita habilidade de ler pensamentos, principalmente quando ela estava vulnerável de forma emocional, o que geralmente acontecia sempre que ela estava ao lado dele. Isso deixava tudo mais fácil para o maldito invadir sua mente e lê-la com tranquilidade.

Ela respirou fundo, percebendo que se não virasse e o olhasse naquele momento, iria se arrepender pelo resto da vida. Então enfiou na cabeça que sairia quebrada e possivelmente mais machucada, mas iria tentar.

Então ela se virou.

E quando fitou aqueles malditos olhos glaciais, suas pernas perderam a força e seu lábio começou a tremer. Ela apertou a câmera nos dedos, tentando por meio disso buscar tranquilidade e estabilidade. Estava vestido com as mesmas roupas que vestia quando se conheceram, aquela roupa de couro, emborrachada e estranha que caía tão bem nele como um terno de corte perfeito em um empresário. Os cabelos estavam longos da forma que ela se lembrava, na altura dos ombros largos. Ele sorriu um sorriso enviesado e lindo, deixando tudo mais difícil para ela.

- É você.

Ela disse o óbvio, sentindo-se tola no mesmo momento. Às vezes se sentia assim quando estava perto dele, tão perto dele como estava naquele momento, conseguindo sentir até mesmo a respiração dele bater em seu rosto, transformando-se numa nuvem depois disso.

- O que você está fazendo aqui?

Loki pareceu pensar por alguns segundos antes de responder, fitando as árvores do parque lhe engolirem. Lembrava-se perfeitamente daquele local. Havia caído a alguns metros de onde estavam, e havia passado vários momentos peculiares dos últimos meses ali, momentos que ele rotulara como os melhores de sua vida. Mas ele nunca iria admitir isso para ela. Não agora.

- Eu vim te ver.

Respondeu o óbvio. Quando saiu dali, pensou que nunca mais iria pisar naquele lugar maldito que ele chamava de Midgard. Um local que ele abominava simplesmente por ser tão obtuso em diversos aspectos, repleto de humanos limitados.

Mas infelizmente ela morava ali.

Laila puxou o braço com força, aproveitando-se do devaneio dele e afastando-se um pouco. Não era muito segura aquela proximidade. Loki a fitou com intensidade.

- Por que você quer me ver? Para ver como estou depois que você resolveu sumir da minha vida?

Ela perguntou, deixando o tom de rancor e mágoa aparecer em sua voz. Loki continuou a fitá-la, desejando ardentemente apenas puxá-la de encontro a si e colar seus lábios naqueles lábios carnudos que sempre se abriam para lhe dizer coisas atrevidas. Mas não o fez.

Ele olhou mais uma vez para o parque. O céu agora estava arroxeado, e ia escurecendo à medida que o tempo se passava. Não havia mais pessoas ali, e ele sabia que ela estava trabalhando, julgando a câmera que estava em suas mãos.

- Você sabe por que eu vim.

- Não o vejo há mais de um ano. Depois do que fez, percebi que nunca soube o porquê de suas ações.

Ela praticamente cuspiu as últimas palavras. Aquilo doeu nele. Ela, uma humana comum, uma fotógrafa de um jornal local, uma anônima em uma cidade da Rússia, o machucando. Aquilo poderia soar estranho e até mesmo ameaçador, se Loki não tivesse a certeza de que aquela humana a quem se referia era a mulher que ele amava.

Amava-a com todas as forças e fraquezas que vinham junto com o amor, e não gostava dessas últimas. Mas a amava.

- Eu ainda vou lhe dizer o motivo de ter feito aquilo.

Laila virou-se, tentando se afastar o máximo dele. O pior já havia passado, ela já havia começado uma conversa com o Loki de carne e osso, e não o fantasma dos seus sonhos, e já havia fitado depois de meses aqueles olhos azuis. O que mais seria pior do que aquilo?

Ela percebeu que ele estava a seguindo.

- Sonhei diversas vezes com isso, Loki.

Ele sentiu sua pele se arrepiar. Adorava o modo como ela falava o seu nome, adorava o modo como ela caminhava, suas pernas longas e determinadas dando passos rápidos, as botas que ficavam sempre bonitas nela enfiando-se na neve até quase o tornozelo. Ela havia saído do caminho do parque, indo em direção ao caminho do prédio onde ela morava, o caminho que ele se lembrava como se tivesse o feito no dia anterior.

- Não foi um sonho, Laila.

A voz dele. Aquela maldita voz masculina demais e com um sotaque que ela ainda iria descobrir a origem. Ela parou de andar quando a frase dele finalmente fez sentido, franziu o cenho e virou-se, olhando-o dessa vez de forma confusa.

- O quê?

- Os sonhos... Não foram exatamente obras do seu subconsciente. Foram obras minhas.

Ele disse aquilo como se fosse algo comum manipular os sonhos de alguém. E para ele era. Laila estava acostumada com aquele tipo de coisa por parte dele. Mas a afirmação a deixou um pouco zonza, como se nada fizesse sentido no momento. Loki voltou a se aproximar da garota, parando a centímetros dela.

Chegaria a hora em que ele teria que dizer o que realmente veio fazer ali, e o porquê de ter ido embora.

- Tentei lhe contar por meio de sonhos o motivo de eu ter ido embora de forma abruta. Mas parece que sua mente lançou um escudo para se proteger da minha pessoa. Sempre que eu aparecia em seus sonhos como sou, você acordava.

Graças a Deus por isso.

Ele sorriu com o pensamento dela, tentando ignorar a vontade de falar que aquele Deus que ela às vezes acreditava não existia. Mas não perdeu seu tempo ali iniciando uma discussão que ficaria grande, em vez disso, passou a mão calmamente pelos cabelos longos e pouco ondulados dela, sentindo a textura dos fios, sedosos ao toque como a melhor seda de Asgard.

Laila tentou ignorar as reações de seu corpo, mas já era tarde. Focou seus olhos castanhos na neve, para depois fitá-lo diretamente. Não havia sol, mas a claridade do lugar refletia nas orbes dela, deixando-as em um tom de mel, o tom que Loki adorava.

- Você tem sua oportunidade agora.

Sim, ele tinha. Loki descera até Midgard para isso. Bom... Não para isso em específico. Mas se a mente dela o expulsava toda vez que ele tentava se justificar por meio de sonhos, o único meio que encontrou para alcançar seu objetivo fora esse, falando a ela diretamente e olhando-a nos olhos. O que tornava tudo mais difícil.

Estava difícil naquele momento.

- Podemos ir para algum lugar mais particular?

Ela sabia exatamente o lugar que ele gostaria de ir, e pensou seriamente se valeria a pena deixar que aquele homem entrasse novamente em seu apartamento, depois de tanto tempo desaparecido. Mas Laila também sabia que uma conversa mais séria não poderia se desenrolar em meio àquilo ali. Estava frio demais e seu corpo começava a protestar por causa da neve.

Ela assentiu, virando-se de costas e andando calmamente para o caminho que dava para seu prédio. Loki a seguiu, temendo dizer algo para ela naquele momento e ela desistir do que estava fazendo. Logo depois, sentiu-se tolo por temer algo tão banal, mas sabia que não poderia abusar da sorte dele e da paciência dela. Depois de ter desparecido por um ano, qualquer garota no lugar dela teria tentando matá-lo.

Sim, ela estava sendo até razoável.

Ela entrou no prédio e esperou que ele a seguisse. Fechou o portão e começou a subir as escadas, não direcionando uma palavra a ele. Ao fechar a porta atrás de si e jogar o cachecol no sofá, virou-se para ele e cruzou os braços em frente ao corpo em um sinal claro de autoproteção.

- Já estamos aqui.

Ela disse algo óbvio, tentando com isso incitá-lo a começar a falar. Mas naquele momento ela percebeu algo que raramente via nos olhos de Loki. Vulnerabilidade e insegurança. Ele parecia um homem comum no meio de sua sala, e não um deus nórdico que costumava ter o controle de tudo.

Loki passou as mãos nos cabelos longos, e começou a andar de um lado para o outro da sala. Laila o acompanhava com os olhos, mas nunca iria iniciar aquela conversa. Se ele havia deixado o seu mundo seguro e seu planeta querido, ele que tomasse aquela iniciativa.

De repente ele parou de andar e respirou fundo, virando-se novamente para ela.

- Eu não sou uma pessoa acostumada a sentimentos, Laila. Posso dizer que sou insensível, quase um robô, como vocês dizem aqui em Midgard. Não consigo pensar em alguém como algo desejável e querido, meus atos são baseados em fatos concretos... Ignorando completamente as reações que as pessoas poderiam ter caso pensassem de forma menos racional.

Não me diga.

Ela pensou de forma irônica, o que fez com que ele sorrisse.

- Pare de ler meus pensamentos!

Ela esganiçou. Ele não respondeu, apenas pegou os pulsos finos e delicados dela, enfiando a mão por debaixo da manga da blusa de couro, sentindo a pele quente que ela possuía. Aquilo quase a queimou. Ele era tão frio... Ela não queria que ele a tocasse. Não naquele momento. Aquele toque poderia abrir portas que ela havia fechado há meses, e poderia piorar tudo para ela.

- Mas isso mudou, Laila. E esse foi o motivo de eu ter ido embora de forma repentina.

Ela apenas continuou o fitando, não acreditando em nada do que ele estava lhe falando.

- Você está me dizendo... Que foi embora porque deixou de ser insensível, se preocupando mais com as pessoas e enfiando na cabeça que nós humanos temos sentimentos?

- Não, eu fui embora porque eu te amo.

A afirmação lhe pegou desprevenida. Completamente desprevenida. Estava preparada para tudo, menos para aquilo. Achou que ele estava brincando com seus sentimentos novamente, mas logo descartou a possibilidade. Ele permanecia a fitando com uma seriedade absurda, os lábios finos comprimidos.

Loki pegou o rosto dela, as mãos frias tocando levemente as bochechas aquecidas dela. A pele dela era sempre quente perto da pele dele, mesmo que o lugar de onde saíram minutos atrás estivesse gelado.

- Eu te amo, Laila. Amo como nunca amei ninguém. Sinto por você uma ânsia de lhe ter por perto sempre, de cuidar de você. Até mesmo de mudar por você...

Ele finalmente desviou os olhos, retirando suas mãos do rosto dela e deixando os braços soltos ao lado do corpo alto e esguio.

- Fui embora porque senti medo disso. Eu odeio amar, sinto que fico vulnerável demais com isso, como se a qualquer momento alguém pudesse novamente me dizer algo que modifique minha vida completamente...

Estava chegando, a enxurrada de palavras que ele não conseguira conter alguns meses atrás, e que ela conseguia retirar dele com tanta facilidade, como se tivesse algum poder para isso. Palavras que ele nunca dizia para ninguém, mas que precisavam ser ditas de uma forma ou de outra, ele sentia necessidade disso, de ouvi-la falar a ele que estava tudo bem e que aquilo que ele estava sentindo era comum. Mas não era. Loki não estava preparado para aquilo.

- Ninguém irá te machucar novamente, Loki. Não tema o que ainda não aconteceu.

Como uma humana conseguia dizer tais palavras para desarmar alguém como ele? Um deus que estava acostumado a jogar com tais palavras para conseguir o que desejava? Como ela conseguia deixá-lo mudo quando queria?

Laila se aproximou, percebendo ali a vulnerabilidade que ele tanto temia. Estava sim, presente nele, mas aquilo era mínimo perto do que ela sentia. Poderia estar mais vulnerável que ele ao levar adiante o que ela pretendia, mas desde pequena ela se jogava em tudo o que fazia, não deixando nada inacabado, e não iria mudar isso naquele momento.

Colocou as mãos nos braços dele. Não alcançava com facilidade o rosto. Ele era alto demais para ela, mas ela amava aquilo nele, como se ele fosse um deus protetor, mas que agora precisava justamente de proteção.

- Loki... Amar não é perder... Amar é ganhar algo acima de tudo. Amor é o sentimento mais poderoso que alguém pode sentir... Amor é o que eu sinto por você.

Ele ficou estático. Laila o pegou desprevenido do mesmo modo como ele a pegara minutos atrás. Ela já havia lhe dito tais palavras, mas nunca com aquela intensidade, e ele também nunca poderia imaginar que os sentimentos dela fossem permanecer os mesmos depois do que ele havia feito com ela.

E não só com ela.

Como ela poderia amar alguém como ele? Ele matara milhares da raça dela, e amara fazer aquilo. E ele faria de novo, caso eles estivessem no caminho dele. Loki mataria facilmente alguém que fizesse mal a ela...

Laila não precisava saber ler pensamentos igual ele para ter conhecimento do que se passava na mente perturbada de Loki. Ela o fitou com extrema atenção.

- Eu o amo pelo que você é, Loki.

- Eu sou um monstro.

Os olhos dele já começavam a ficar vermelhos e os lábios estavam assumindo um tom azulado. Laila se lembrou perfeitamente do primeiro momento em que ele apareceu daquela forma para ela. Ela havia gritado, como se realmente estivesse fitando um monstro. Isso havia magoado Loki, de certa forma, mas na época ele era duro demais consigo mesmo para admitir.

- Você pode ser o que for. Você tem seu lado ruim, sim. Arrisco dizer que ele é parte predominante de você e sempre será. Mas meu papel aqui é achar o seu lado bom.

Ela acariciou os cabelos negros dele perto da nuca, para depois deixá-lo. Loki sentiu falta do toque dela no mesmo momento, como se ele o acalmasse. Fechou os olhos quando ela se afastou.

- Laila...

Ele a chamou de forma suplicante. Laila fechou os olhos dessa vez, abrindo-os logo em seguida e fitando uma fotografia na parede que ela havia emoldurado há pouco tempo. Ela sabia que já estavam em um terreno muito perigoso, mas também sabia que se existia um momento para se afastar, o momento era aquele.

Mas ela não se afastou, apenas virou-se novamente para ele e descobriu um Loki praticamente desesperado por dentro. Ela conseguia observar isso nos olhos azuis, mesmo que o semblante dele estivesse passando calma.

- Deixe-me tocá-la...

Ele aproximou as mãos do rosto dela novamente, fazendo-a estremecer. Mas Laila não recuou.

- Você já me tocou. – ela quase brincou. – O que pretende com isso? Me atormentar?

Ele começou a acariciar os cabelos dela, aproximando-se milimetricamente com isso.

- Mais atormentado do que já estou? – ele perguntou. – Não a toquei do modo como eu queria.

Ele abaixou um pouco, quase tocando seus lábios finos nos lábios dela. Ele percebeu que ela não havia se afastado, mas também não terminara com a distância. Por mais que Loki estivesse inseguro e quisesse beijá-la, ele não faria nada que ela não concordasse. Já tinha machucado demais aquela garota.

Mas a mão de Laila começou a tocar timidamente o braço dele, subindo vagarosamente para o ombro largo, onde ela puxou-o com gentileza em sua direção. Loki entendeu o que ela queria e, finalmente, beijou-a, sentindo-se pela primeira vez depois de meses, completo.

O corpo de Laila amoleceu, entregando-se facilmente a ele como sempre se entregava quando ele a tocava daquele jeito, os lábios finos e possessivos comprimindo os lábios trêmulos e sempre inocentes na opinião dele.

Loki a abraçou, matando o desejo que estava incomodando seu corpo desde que botara os pés na neve daquele parque. O corpo dela moldou-se ao seu. Sentia os seios dela comprimindo o seu peito largo, sentia os cabelos dela entre seus dedos, que se fechavam nos fios da nuca enquanto a língua invadia a boca dela com tanta vontade que Laila se sentia possuída por ele naquele momento.

Ficaram ali por minutos, ela apenas guardando em sua mente o toque dele, o modo como ele a beijava, o aroma mentolado e de gelo que ele emanava, a roupa de couro deslizando pela palma dela quando Laila corria as mãos pelos braços longos.

Mas para Loki, aquilo era insuficiente. Sem pedir permissão daquela vez, ele a levantou facilmente com os braços, indo em direção ao quarto. Depois de um ano, parecia que ele nunca havia saído daquele apartamento. Lembrava-se até mesmo das pequenas imperfeições das paredes do corredor.

Ele a colocou na cama calmamente, olhando-a com uma intensidade absurda. Laila sentiu seu rosto queimar, de todas as coisas que planejara para aquele dia, aquela estava em último lugar na sua lista, se é que estava na lista, já que para ela, vê-lo novamente seria um sonho.

Ele retirou as botas dela com calma, suas meias e sua calça, os olhos gélidos parecendo em fogo quando passavam avidamente pelas pernas dela. Loki adorava as pernas de Laila. Eram pernas bonitas. Coxas nem tão grossas, nem tão finas. Perfeitas...

Ele correu as mãos longas pelas coxas dela, sentindo a pele se arrepiar à medida que ele a tocava. Laila estava de olhos fechados agora, não conseguia concentrar-se em tudo ao mesmo tempo. Ou o olhava fascinada, ou sentia aquele toque que ela tanto sentira falta.

Ela preferia senti-lo, pois sabia que se o fitasse naquele momento, ficaria ainda mais vulnerável.

Loki a despiu com as mãos, sem usar mágica, algo que ele preferiu imensamente, pois estava adorando o modo como ela gemia ao toque dele, o modo afoito como ela se levantou para ajudá-lo a retirar sua própria blusa. Mas quando ela finalmente estava nua, abriu os olhos e o fitou quase de forma desapontada.

- Eu não sei tirar essa roupa emborrachada, Loki.

Ele sorriu calmamente, começando a puxar um monte de tiras. O couro da roupa dele começou a ficar mais solto ao corpo e Laila observou tudo com fascínio, até perceber que ele retirava tudo com facilidade e rapidez. Loki estava nu em poucos minutos, colocando a vestimenta estranha no chão. Ela um dia iria saber como ele conseguia vestir aquilo todo dia, mas no momento ambos tinham outras prioridades.

Loki se aproximou e Laila afastou as pernas para recebê-lo, tendo plena consciência do membro dele em sua entrada. Mas ele não a penetrou, mas escolheu justamente aquele momento para fitá-la com atenção.

- Você não sabe como senti falta de você...

Ele disse em um sussurro. O coração de Laila estava quase na boca por causa da demora dele, mas ela esperou com paciência.

- Do seu cheiro... – ele aproximou o nariz do pescoço dela e respirou fundo, fazendo-a arrepiar-se. – Do modo como você geme quando estou dentro de você...

Ele a penetrou vagarosamente, fazendo com que ela gemesse do modo como ele esperava. Ele quase sorriu, mas desconcentrou-se quando ela o enlaçou com as pernas, puxando-o de encontro ao corpo dela. Loki afundou-se nela completamente, tendo plena consciência de que ele pertencia àquele lugar, e que aquela garota que ele agora tomava, era sua. E seria sempre sua.

O quadril dele mexeu-se levemente, fazendo os movimentos certos para deixá-la louca. Loki passou uma das mãos entre os corpos, tocando-a no seu ponto mais sensível. Queria que ela tivesse mais prazer que ele naquele momento, queria mostrar a ela como ele a amava, e como ele a queria. Queria fazer daquela garota uma companheira para a vida inteira, mas aquilo podia esperar, no momento ele estava concentrado demais no modo como o corpo dela encontrava o seu e como ela se contorcia à medida que ele a tocava com os dedos e com o membro.

Ele tomou a boca dela de forma ávida, encontrando a língua dela com facilidade. Ela arranhava os ombros dele, não conseguindo pensar com coerência. O que estava fazendo? Quando ele a deixara, Laila prometera não se entregar a nenhum homem que não a merecesse, e agora estava fazendo o que prometera não fazer justamente com o homem que a deixara.

Mas de que isso importava quando dois corpos se juntavam de forma plena e perfeita? De que isso importava quando ela sentia o membro dele saindo e entrando nela, quando ela sentia o toque dos dedos dele entre as pernas dela, quando ela sentia os lábios finos dele caminhando pela sua pele como se estivesse a reverenciando?

E estavam. Para ele, mesmo que Laila fosse uma simples humana quando eles se conheceram, naquele momento ela representava mais. Para ele, ela era uma deusa. Uma bela deusa.

Ela estremeceu levemente quando chegou ao seu prazer, fechando os olhos e entreabrindo os lábios. Loki gostaria muito de ter uma fotografia daquela cena que ele estava vendo, mas sabia que sua mente era a perfeita máquina para guardar aquilo sem que ninguém tivesse acesso.

Sim, ele guardaria Laila na memória para sempre. E se pudesse, a teria ao lado dele pela eternidade.

Ele chegou ao seu prazer minutos depois, travando o corpo ao dela e beijando o colo dela naquele momento. Desabou em cima do corpo frágil, depositando beijos pela linha do pescoço, pelo vale dos seios, descendo até a barriga, onde ele deitou a cabeça, respirando fundo.

Laila não sabia o que fazer. Não sabia se o tirava dali, se iniciava uma conversa ou se o acariciava. Pois estava confusa. Sabia que ele havia descido até a Terra para dizer os sentimentos que o engasgavam, mas até quando aquilo seria o suficiente? Laila se sentia mais leve ao saber que era amada, mas se sentiria completamente satisfeita apenas com aquilo?

Sentiu o aperto costumeiro no peito.

- Eu espero que a sua volta a Midgard tenha valido a pena.

Ela brincou, remexendo-se na cama. Queria sair dali, queria se distanciar dele. Não poderia mais continuar com aquela loucura. Ele a amava, sim. Podia sentir agora isso, e arriscava dizer que seu coração estava até mais leve com a mudança de perspectiva. Mas tinha que ser realista para não se machucar novamente. Eles nunca poderiam ficar juntos.

Então deu-se por satisfeita com o motivo que ele lhe dera e decidiu retomar sua vida normalmente, se fosse possível.

- Por que está inquieta?

Ele perguntou, se afastando dela e sentando-se na cama para observá-la. Laila desviou os olhos dos dele, fitando o teto claro do quarto.

- Você devia ir para sua casa, Loki... A real. Asgard. Não é esse o nome dela?

- Você não quer ficar comigo?

Laila revirou os olhos, ele parecia uma criança, de vez em quando. Uma criança mimada. Se não fosse um assassino da melhor marca, poderia achar que ele era até ingênuo.

- Era tudo o que eu mais queria.

- Era?

- Loki, pense bem. Você é um deus, imortal. Você vive em outro planeta. Eu sou apenas humana, meus dias aqui irão acabar antes mesmo de você...

Ele a beijou, calando-a no mesmo momento. Não conseguia suportar nem a ideia de perdê-la para a morte. Iria até o mundo inferior e confrontaria Hela em pessoa caso aquilo ocorresse.

Ela permaneceu quieta, apenas apreciando o beijo. Sabia que provavelmente nunca iria sentir novamente o beijo daquele homem que amava. Ele descolou a boca da dela, olhando-a com intensidade.

- Venha comigo. – ele fez o pedido.

- Co-como?

- Foi para isso que vim. Para te levar comigo. Para Asgard.

Laila ficou parada, apenas o fitando, daquela vez nos olhos. Buscava o brilho da malícia, tentava descobrir se ele estava brincando com os sentimentos dela. Mas nada achou. Ele permanecia convicto no pedido.

Ela pensou um pouco naquilo. Que proposta absurda! Morar em outro planeta com deuses à sua volta lhe jogando na cara que a qualquer momento a velhice iria visitá-la, levando consigo sua beleza, jovialidade e saúde, e deixando apenas a sabedoria, saudade e lembranças.

- Eu tenho uma vida aqui... Não posso. Eu... Eu sou mortal.

Foi a vez de Loki sorrir de forma genuína. Ele se aproximou dela e correu levemente os dedos pelos braços desnudos, fazendo-a se arrepiar.

- Sabe, antes de vir para cá, eu conversei com minha mãe... E com Odin. Sobre você... Foi até surpreendente, a rapidez com que eles concordaram com meus planos. Eles estão dispostos a lhe dar a maçã dourada...

- Me desculpe, o quê?

- A maçã dourada, Laila. A fruta que lhe dará a imortalidade.

Os olhos castanhos de Laila se arregalaram ante a informação repentina. Imortalidade? Aquilo poderia ser dado daquele modo? Ela sabia que não. Os deuses deviam guardar tais frutos com muita segurança, caso alguém quisesse usá-los indevidamente. Mas sua imortalidade fora autorizada pelo próprio rei de Asgard, e aquilo a deixou extremamente tonta e... Honrada.

- De quanto tempo precisa?

A pergunta dele a retirou de seus pensamentos.

- De quanto tempo?

- Para organizar sua vida em Midgard, para finalmente deixar isso aqui.

Laila pensou um pouco, escolhendo as palavras com cuidado para que ele não a entendesse de forma errada.

- Loki, eu sou humana... Eu não posso deixar isso aqui... Minha vida é aqui.

- Sua vida é ao meu lado.

Aquilo a deixou completamente... Feliz. Ela não conseguiu conter o sorriso que apareceu em seu rosto. Loki achou-a ainda mais bela naquele momento. Ela não sabia o que dizer. Por que não? Ela não tinha mais parentes ali, salve Mercedes, que já tinha uma vida formada. Ela tinha paixões, mas aquilo nunca seria comparado ao que sentia por aquele homem que a fitava ansiosamente esperando uma resposta.

- Pode me dar um mês?

Ela perguntou, fazendo-o sorrir. O sorriso dele era belo. Era raro também. Mas as pessoas diziam que a beleza das coisas raras eram as mais esperadas. Ele se aproximou dela.

- Ficarei ao seu lado nesse tempo. – ele disse de forma simples. - Posso acompanhá-la para onde quiser depois. Você gosta de viajar, não é? Já tentou teletransporte? Posso te levar para onde você quiser...

Os braços dele enlaçaram-na pela cintura, puxando com facilidade o corpo dela e pressionando-o contra o seu. Um sorriso bobo percorreu o rosto dela e ela automaticamente o abraçou, pousando o rosto no peito nu dele.

- Você não vai mais sumir?

- Nunca... Sumir da sua vida nunca mais. Estarei perto sempre quando você precisar. Eu te amo, Laila. Não quero ficar longe de você... – ele a apertou mais um pouco. – Se quiser voltar para Midgard depois de algum tempo, te levarei para diversos lugares. Lugares que você nunca visitou. Você poderá tirar suas fotografias como desejar... E depois voltaríamos para Asgard.

- Isso é permitido?

Ela perguntou. Loki fez uma careta.

- Não sei. Mas posso conversar com minha mãe. De qualquer maneira, não sou conhecido pela minha obediência em Asgard, você verá quando estiver lá.

Ela sorriu. Nunca havia sentido uma felicidade tão plena e pura.

- Eu mato quem lhe impedir de ser feliz, Laila.

Ele disse em um sussurro. Ela parou de sonhar, olhando-o de forma atenta.

- Loki, nada de mortes.

Ele olhou para a janela, fitando o céu que já estava quase negro. O quarto estava escuro. Ele jogou a coberta fofa por cima dos dois, a abraçando ainda mais no processo.

- Vou tentar.

Ele prometeu. Laila escondeu o rosto, sorrindo com as palavras dele. Depois de algum tempo sentindo-o acariciá-la, ela dormiu com tranquilidade e paz, sabendo que ao acordar, ele estaria ao seu lado.

Sempre.