CAPÍTULO UM: UM DISTINTIVO MUITO BRILHANTE

Bocejei.

Logo água voou contra o meu rosto, o que fez com que Olívia reclamasse.

Alex recém havia chegado. Estudava num internato Suíço e costumava reclamar da necessidade de estudar até o cérebro fritar. Não era muito inteligente, apesar disso. Suficientemente agradável, muito carismático e dono de um físico visualmente fantástico, mas nenhum crânio da matemática.

Nós havíamos feito a pré-escola e o primário juntos, mas logo seguimos nossos próprios caminhos. Com os pais de Alex separados, a Srta. Chilton achara por bem enviar o filho para estudar no exterior – sobrava mais tempo para ir a spas, chás beneficentes e encontros com as amigas. Olívia era a única a continuar na escola local, embora o Sr. Strauss quisesse que ela terminasse o colegial em Londres. Como era de se esperar, Olívia declinara a ideia, porque não era uma primorosa estudiosa.

"Alex, é bom você parar com isso antes que nós quebremos as suas pernas." Rugiu Olívia, tirando a água do rosto. Prendeu os cabelos num coque.

Endireitei-me sobre a espreguiçadeira. A manhã já ia alta. Nós havíamos movido o som da sala para o pátio traseiro, o que sempre fazíamos quando nos reuníamos.

Mamãe estava trabalhando e Petúnia saíra com algumas amigas, o que significava total liberdade durante as próximas horas.

"É melhor esfriar os ânimos, garota. Estresse causa rugas." Ele emergiu, rindo, e se aproximou da borda da piscina. Seus cabelos loiros e sem corte estavam grudados à testa e os olhos azuis reluziam sob o sol escaldante daquele verão. "Quer ajuda para aliviar a pressão?" Perguntou, sorrindo torto, e logo empurrou mais água na nossa direção.

"Ai, Alex! Dá pra parar?" Gritei, encolhendo-me. Ainda nem havia tirado o short jeans.

Caí da cama com as batidas na porta. Olívia e Alex apareceram lá pelas 9h, trazendo LPs, refrigerantes e toalhas embaixo do braço. Mal tive tempo de escovar os dentes e colocar uma camiseta antes que eles derrubassem minha porta a socos.

"Ô, ruiva, fica de boca fechada aí, que senão só vai restar um banho frio pra você!" Ele apontou para mim, fazendo uma careta ameaçadora. Foi tão excêntrica que me fez rir. E isso, é óbvio, não o agradou. "Não me obrigue a reagir agressivamente, Lily Evans." Disse, a voz grossa, e ergueu as sobrancelhas, apoiando os braços na beirada da piscina e impulsionando o corpo para cima. Água respingou, mas não chegou a nos atingir, e eu joguei os cabelos por cima do ombro num gesto displicente.

"Lily Evans não tem medo da morte, meu bem." Falei, fazendo Olívia bufar e se esparramar sobre a espreguiçadeira, colocando os óculos-escuros.

"Façam uma batalha verbal, por favor." Ela pediu, aborrecida. "Há alguém tentando se bronzear aqui. E, já adianto, sou eu."

"Prefiro contato físico." Disse Alex, caminhando na minha direção. Agarrou meu tornozelo antes que eu pudesse escapar e puxou meu corpo na sua direção. Eu gritei, sacudindo-me, enquanto ria. "Vem espontaneamente com o lobo mau, porque eu tenho mãos grandes que vão te segurar bem."

"Alex, não." Apontei o dedo na sua direção, forçando-me a ficar séria.

Ele explodiu numa gargalhada e, num movimento rápido, sacudiu o meu corpo, jogando-me sobre seu ombro. Gemi com o impacto, mas mal tive tempo de respirar antes de percebê-lo se mexer. A velocidade dos passos me deu a noção exata de para onde estávamos indo.

"Alex, não!" Gritei, ao mesmo tempo em que caíamos na piscina, e água se esparramou para todos os lados, cobrindo-nos, e adentrando pelas minhas narinas e boca aberta.

Soquei e chutei Alex ao voltar à superfície. Ele riu, provavelmente se divertindo com a ineficiência dos meus ataques. Deu palmadas fortes contra minhas costelas para me fazer cuspir a água que engoli.

"Bastardo." Gemi, nadando até a borda. Ele me ajudou a me sentar sobre a mesma enquanto eu tirava os cabelos da frente do rosto.

"Relaxa, bebê." Disse, colocando a mão sobre meu joelho e o afagando gentilmente. Embora agisse como um Neandertal na maioria do tempo, conseguia ser muito gentil quando a necessidade pedia. Talvez fosse por isso que Cassandra fosse perdidamente apaixonada por ele. "Respira fundo que já passa." Sorriu o sorriso brilhante e confiante que fazia muitas garotas suspirarem.

"Muito obrigada por me dar um banho, Alexander." A voz furiosa de Olívia estava muito próxima de nós. Quando erguemos a cabeça para encará-la, ela estava parada logo à frente, molhada da cabeça aos pés, a pele reluzindo pela gordura do bronzeador. Nos entreolhamos, começando a gargalhar. "Ah, bem, suponho que agora eu seja a piada do momento, não é mesmo?" E se abaixou para me cutucar com o dedo indicador, os lábios formando um beiço de birra.

"Você é sexy demais para ser uma piada, garota." Alex flertou, piscando, o que fez com que Olívia revirasse os olhos, porque aquela era sempre a técnica de atuação quando ele percebia que estava perdendo uma batalha. Geralmente, apelar para a adulação de ego era algo infalível. E era, pelo menos no que se tratava de mim.

Olívia lhe lançou um olhar duro por sob os cílios e se sentou ao meu lado, enfiando os pés na água aquecida pelo sol da manhã.

"Quais são os planos para a tarde?" Alex perguntou, passando a mão pelos cabelos molhados a fim de arrepiá-los. "Minha sugestão é fazer alguns sanduíches para o almoço, tirar uma soneca embaixo do guarda-sol e ir até a casa dos gêmeos à tardinha. Eles nos convidaram para aparecer na reunião de família à noite e a gente não pode dispensar cerveja e rosbife de graça." Disse, ansioso.

"Tá, pode ser." Eu disse, sacudindo as pernas, distraída. "Faz, tipo, décadas que não vejo os gêmeos. Leonard entrou para Cambridge afinal?"

"Ah, o que você acha?" Olívia revirou os olhos outra vez, fazendo um sinal de impaciência. Empurrou os óculos de sol, prendendo-os sobre a cabeça. "Com o QI de Leonard, eu me surpreenderia é se ele não entrasse em alguma universidade ilustre. O bastardo é um gênio. Está pretendendo fazer Direito, como se esperava do filho preferido. Já Louis..." Deixou a frase morrer.

Eu a olhei, expectante. Embora Leonard fosse mais sociável do que o irmão, Louis sempre havia sido o meu preferido. Sua expressão de eterno aborrecimento e o sorriso selvagem que dava ao observar algo que lhe agradava haviam feito minhas bochechas corarem na juventude. O que era um pouco surpreendente, porque ele e Sirius Black, o garoto mais quente de Hogwarts, eram muito semelhantes, exceto pelo fato de o segundo despertar tanta admiração em mim quanto ver a grama crescer.

Alex soltou uma risada baixa ao observar minha fisionomia se contorcer da curiosidade à ansiedade. Não eram exatamente segredos os meus ataques de rubor, o que tornava inútil qualquer tentativa de mascarar aquela atração unilateral.

"Louis se mudou para Londres assim que pegou seu diploma do colegial, ano passado." Disse ele. "Está morando com alguns amigos, trabalhando como barman e tocando à noite em bares. Nada que faça uma mãe se orgulhar."

"Ele está aqui?" Perguntei, inclinando o corpo para frente de modo inconsciente.

"Ele e a namorada." Olívia sacudiu a cabeça. "Esquece o cara, Lily." Aconselhou. "A garota que Louis trouxe a tiracolo é uma vadia suburbana. Dá pra ver a laia dela a quilômetros. Engraçada, sim, só não deixe nenhum objeto de valor à vista. Mamãe disse que a viu roubar seus brincos de pérola. É claro, como a boa anfitriã que é, foi incapaz de trazer o fato à tona."

Suspirei, frustrada. Encolhi os ombros.

"Tá, tá bem." Joguei o cabelo molhado para trás dos ombros. Deslizei os olhos por sobre a piscina, distraída. "Vamos preparar alguma coisa para comer. Acho que só a satisfação provocada pelo estômago cheio é capaz de curar minha desilusão."

Alex riu, saiu da piscina e nós seguimos ainda meio molhados para a cozinha, onde optamos pela escolha culinária mais prática: sanduíches de peito de peru.

Trouxemos o rádio para dentro, colocamos um LP do Elvis num volume agradável e ficamos conversando enquanto dividíamos um pote de sorvete de creme depois da refeição, sentados em frente ao balcão americano, os cabelos úmidos, cheirando a protetor solar e rindo de maneira demasiado idiota de piadas ruins. O sol estava muito quente lá fora e suávamos mesmo debaixo do ventilador de teto, mas a temperatura incomum mal se tornava um problema diante da boa companhia.

Embora o mundo da magia fosse meu mundo na maior parte do ano, gostava de relaxar e agir como uma trouxa nas férias. Significava me livrar das frustrações, da pressão imposta pelos bruxos puro-sangue, do preconceito. Preconceito de todos os tipos: por ser monitora, por ser ruiva, por ser antissocial. A vida escolar era um eterno revezamento de preconceitos.

Eu e Olívia lavamos a louça e Alex foi para o pátio traseiro se esparramar numa das espreguiçadeiras.

"Cassie vai vir?" Perguntou Olívia a certa altura, secando os copos.

"Não sei, Cassandra é meio inconstante." Encolhi os ombros, derrubando mais detergente na esponja. "Ela foi para a França com os avós e pretende voltar a tempo para o meu aniversário, mas você sabe como são os adolescentes paparicados. Sempre se sentem à vontade para quebrar promessas."

Olívia riu.

Ela e Cassandra se davam muito bem, apesar da origem distinta. Cassandra Willer era filha única e herdeira de uma considerável fortuna. Seus pais, bruxos como toda sua família, tinham cargos importantes no Ministério da Magia, o que sempre lhe concedia privilégios com relação a informações sigilosas. Também era bastante aborrecível e seu pavio curto era legendário. Não tanto quanto sua coragem, claro. Ela tinha uma constante necessidade de provar sua coragem.

Obviamente, Olívia não tinha a menor ideia da sua procedência socialmente favorecida. Embora eu confiasse suficientemente em Olívia para compartilhar o segredo da minha natureza, não queria destruir a última amarra que mantinha com o mundo trouxa. Fazê-lo significava nunca mais ser vista da mesma maneira pela minha melhor amiga.

"Você é tão irascível com os ricos." Ela comentou, mordendo o lábio, divertida, e se apressou para pegar o prato que eu recém terminava de lavar.

"Eu os invejo." Gesticulei com indiferença. Minhas mãos cheias de sabão diminuíram o efeito dramático do gesto. "Seria bom não precisar me preocupar com o amanhã. Quero dizer, que preocupações você pode ter, tendo todo o dinheiro do mundo ao seu dispor?"

Olívia rolou os olhos.

"Que bobo." Fez uma careta para meu argumento inconsistente. "Escreve pra Cassie. Ela não pode perder seu aniversário. Eu e Alex temos pensado nos pormenores durante os últimos dois meses. Queremos fazer uma festa lendária. Nós precisamos da contribuição criativa da Miss Bundinha."

"Tá, tá." Murmurei, impaciente.

Depois disso desligamos o rádio e seguimos para o pátio traseiro para nos juntarmos a Alex, que dormia. Por via das dúvidas, repassamos nossos protetores solares – bronzeador, no caso de Olívia. O sol forte nos fazia suar e eu suspirei enquanto tirava os cabelos da nuca, prendendo-os num coque frouxo, e seguia para baixo do guarda-sol.

Já começava a ficar vermelha e pouco daquela cor se converteria em bronzeado. No máximo uma suave marca do biquíni, acompanhada de algumas outras sardas no rosto. Elas eram o meu calvário.

Olívia bocejou sonoramente, abrindo uma revista na frente do rosto, e eu puxei o almanaque de cruzadas debaixo da pilha de toalhas e utensílios dispensáveis que havíamos deixado sobre a mesa próxima das espreguiçadeiras. Assim passamos a tarde. Podíamos ouvir alguns ruídos vindos da casa ao lado, principalmente a Srta. Green gritando ordens, e logo inteirei Olívia a respeito dos novos vizinhos, provincialmente ignorando o fato de que os conhecia. Enquanto Pettigrew não resolvesse socializar com o resto dos grifinórios de Hogwarts, o mundo continuava a ser perfeito.

Alex acordou do cochilo perto das três e meia, o que fez com que eu erguesse os olhos na sua direção. Ele estava rosado, suado e sonolento, o que mesmo assim o tornava muito agradável.

"Campeonato." Ele disse, coçando o queixo, esfregando o rosto para afastar o torpor. "Vamos fazer um campeonato, Lilie." Sugeriu, espreguiçando-se. "Tipo quem consegue ficar mais tempo embaixo d'água ou... ou um gol a gol." Deu um grande sorriso diante da minha sobrancelha arqueada. Eu não era reconhecida pelas minhas qualidades esportivas.

"Um gol a gol, Alex? Sério?" Perguntei, sarcástica, e ele pulou de pé, agarrando a bolinha de borracha que costumava jogar para Bob, seu pastor belga, e que havia ficado na minha casa desde o último passeio.

"Você tem que ser mais macho, garota." Alex revirou os olhos. "Mais proativa!" Sacudiu os braços exageradamente, o que me fez rir, e quicou a bolinha no chão. "Eu sugiro então uma competição premiada. O ganhador detém os direitos sobre o perdedor durante duas horas. Abuso no último nível." Deu um riso torto. "Prometo que vou pegar leve."

Olhei para Olívia. Ela havia esquecido a revista e virado de barriga para baixo. Seu cabelo estava todo bagunçado. Além disso, ela tinha a boca entreaberta e o braço torcido numa posição estranha.

"Você é a única em condições de aceitar o desafio." Alex disse, atraindo minha atenção outra vez, como se tivesse lido meus pensamentos. Pulou na piscina, logo emergindo, e sacudiu a cabeça, lançando água para todos os lados. "Vamos lá, em nome do sexo feminino!"

"Já que minha honra está em jogo..." Fiz uma careta, abandonando o almanaque de cruzadas e a caneta sobre a cadeira.

Perto das seis, todos deixamos a área dos fundos e fomos para o chuveiro. Alex devorou o resto do saco de pães enquanto esperava que nos banhássemos, o que eu e Olívia o fizemos razoavelmente rápido, considerando que éramos mulheres. Ainda penteávamos o cabelo e debatíamos sobre a roupa quando ele voltou, cheirando a sabonete, e parou na porta do quarto, vestindo uma bermuda e uma camisa polo.

Tinha secado o cabelo com a toalha. As maçãs do rosto estavam meio vermelhas por causa do dia na piscina, dando-lhe um ar infantil e encantador, e eu e Olívia nos entreolhamos ao perceber que compartilhávamos a mesma ideia. Alex era um espécime masculino atraente demais para nosso próprio bem. Apenas nossa larga história era capaz de apagar qualquer impulso romântico, fato pelo qual eu secretamente agradecia.

"Os pães acabaram e eu ainda estou com fome." Ele tinha as sobrancelhas franzidas. "Hora de ir."

"Garoto, você tem uma perna oca." Zombou Olívia enquanto calçava a sandália sem salto.

"Acho que sim." Ele anuiu, concordando, muito sério, e nós rimos. "Sua saia está curta demais, Olívia." Reclamou, com uma careta, porque era muito superprotetor. "Mas tá, dessa vez passa." Virou-se para mim. Eu usava um vestido simples que ia até o joelho, na cor amarelo claro, e tinha prendido o cabelo com uma presilha de metal. "Como você consegue parecer tão... tão virginal?" Indagou, surpreso.

"A devassa da relação sou eu, meu bem." Disse Olívia, esticando-se para se aproximar do espelho da penteadeira. Espalhou o batom rosa sobre os lábios. "Lils é o anjo bom."

Eu ri.

"Só porque você quis assim." Respondi, pegando a pequena bolsa de mão, onde havia colocado um espelho, o brilho labial e a chave de casa. "Alex, desce e fecha as janelas e a porta dos fundos. Petúnia vai jantar fora e a mamãe vai chegar tarde hoje. Nós descemos em um minuto."

Mas o minuto prometido se transformou em cinco, porque repentinamente eu descobri que não achava o par do meu brinco preferido.

Olívia, ao invés de contribuir na busca, apenas bateu o pé, impaciente, disse que ia urinar e logo depois desceu para dar as más notícias a Alex. Eu já estava revirando os lençóis quando ele subiu outra vez, o meu bom-humor tendo desaparecido, soterrado pela frustração.

"Vamos lá, Lily. Eu não estava brincando quando disse que estava com fome." Ele falou, escorando-se no marco da porta, cruzando os braços. Sua expressão era ameaçadora.

"Não." Rugi, furiosa. "Quero o meu brinco!" Joguei o travesseiro longe, empurrando o edredon para o chão, e bufei ao perceber que não o encontraria tão facilmente. Era muito provável que houvesse se perdido na volta de Hogwarts. Com Petúnia tendo simplesmente jogado meu malão no quarto, todos os pertences haviam se espalhado. "Era o brinco da vovó. Não posso ter perdido aquela merda, Alex!"

Mas o tempo passou e o brinco não apareceu. Logo a paciência de Alex se foi e ele avançou na minha direção. Pegou-me pela cintura e me jogou sobre seu ombro. Esperneei e bati os pés.

"Ah, tá, transforme isso num hábito, bastardo!" Grunhi, socando suas costas, enquanto ele começava a se mexer, sem me responder, e avançava pelo corredor, descendo as escadas. "Eu não estou brincando, Alex! Ponha-me no chão." Esbravejei, puxando seu cabelo. Ele soltou um ruído de aborrecimento, aumentando a pressão na minha cintura.

Olívia ergueu a cabeça ao ouvir o barulho. Ela havia se entretido com um programa de perguntas e respostas na televisão, o que era muito típico seu.

"Acho que isso significa que estamos prontos para ir." Comentou, dando um meio sorriso, divertindo-se com o meu estado.

"Toma, boneca." Alex jogou minha bolsa, que havia pegado de cima da penteadeira, na direção dela. Olívia a agarrou no ar. "Você é a guardiã da chave. Ai, Lils!" Reclamou quando atingi suas costelas com um soco. Arqueou subitamente o ombro, fazendo-me pular. Gemi. "Comporte-se ou você será castigada."

"Cala essa boca." Resmunguei, o rosto corado de fúria, desistindo de resistir.

Nós saímos primeiro. Olívia veio logo atrás, depois de trancar a casa.

Escurecia. Apenas demos os primeiros passos na direção da próxima rua, onde ficava a casa dos gêmeos, quando eu vi as luzes da casa da Sra. Walter acesas. Como de praxe, ela estava espionando nossos hábitos depravados para que pudesse nos delatar com mais eficiência para os nossos pais.

Embora mamãe não fizesse o tipo excessivamente moralista, não ia aprovar o fato de eu estar sendo carregada como uma mulher das cavernas por aquele que devia ser meu melhor amigo. Ela sempre desconfiara de que no fundo eu e Olívia mantínhamos alguma paixão muito secreta por ele e que esse sentimento estava apenas esperando o reagente certo para explodir e vir à tona.

Isso costumava preocupá-la por um ou dois minutos, até encontrar um novo problema com que se descabelar.

"Alex, me coloca no chão." Mandei, voltando a espernear. A última coisa que precisava era de alguma preocupação. "A Sra. Walter está nos vendo!" Guinchei, de maneira aguda e preocupada.

Houve repentinos ruídos à nossa volta, de passos pesados, risos recém-abafados e uma tosse forçada. Nós paramos. Alex se mexeu, aparentemente desconfortável, e eu suspirei, percebendo-me ignorada, e dei um pequeno tabefe nas suas costas. Olívia sorriu. Ela havia parado dois passos atrás, de modo que ficava no meu campo de visão.

"Ahh, oi." Disse, amigável, cumprimento que foi repetido por Alex. "Vocês estão de visita ou..." Olhou para o lado. Estávamos ao lado da casa de Pettigrew, cujas luzes da varanda estavam acesas. A Srta. Green havia inclusive pregado um enfeite na porta. "São novos por aqui?" Perguntou, arqueando as sobrancelhas.

Mediante o questionamento, eu me preocupei. Olhei outra vez para a casa de Pettigrew, temerosa. Não, por favor, que não seja verdade, implorei.

"Nós estamos com Peter." Gemi internamente ao ouvir aquela voz rouca e cheia de segurança, que significava a personalização dos meus temores.

Ergui o rosto, mordendo os lábios, desejando que tudo fosse um sonho, e empalideci ao reconhecer Sirius Black, Remus Lupin e James Potter logo à frente, com mochilas nas costas e vestindo calças jeans e camisetas de bandas, mesclando-se perfeitamente à multidão.

Como era de se esperar, Black tomara a dianteira, porque não podia conter os próprios impulsos de flertar com qualquer coisa que usasse saias, e tinha apontado para a adorável residência da Srta. Green. Seu cabelo escuro estava sem corte, caindo desalinhado sobre os olhos, e havia um indício de barba mal aparada em seu rosto. O conjunto harmônico o tornava suficientemente atraente para fazer as pernas de qualquer garota tremerem.

Potter, por sua vez, parecia muito mais alto do que no último ano. Seus ombros haviam crescido e os braços e mãos grandes e rudes eram provavelmente o traço mais atraente nele. Os treinos físicos de quadribol haviam operado milagres com sua silhueta magrela, embora contribuíssem para bagunçar ainda mais o cabelo castanho-escuro. E, ainda que eu receasse admitir, as mudanças haviam sido benéficas. Muito benéficas. As mudanças físicas, é claro. Com relação ao psicológico, tudo muito provavelmente continuava exatamente igual: um garoto de sete anos dentro de um bastante visualmente agradável corpo de dezessete.

Para meu desgosto, Remus, que parecia exatamente o mesmo de sempre: com olheiras, cansado e um pouco triste, logo me reconheceu. A surpresa na sua expressão fez com que eu me encolhesse. Não estava pronta para vestir a carapaça de monitora.

"Lily?" Ele indagou, chocado, e atraiu não apenas a atenção dos seus comparsas de crime, mas também de Alex e Olívia.

Eu suspirei de modo audível, chegando enfim à conclusão de que não poderia fingir que não os conhecia agora que alguém havia tão simpaticamente gritado meu nome. Agora só me restava sacudir a cabeça e tentar manter a compostura, tanta quanto fosse possível nessa situação desagradável.

"Vocês." Disse em sinal de reconhecimento, friamente.

Black estava sorrindo, um pouco divertido, porque nunca poderia imaginar me surpreender numa posição tão comprometedora, e passou a mão pelo cabelo bagunçado de um jeito muito sexy, o que fez Olívia me lançar um olhar imediato. Um olhar que basicamente queria dizer: Você conhece o deus do ébano e não me disse, vadia? E eu soube que teria de dar muitas explicações mais tarde.

"Você conhece os caras, Lils?" Perguntou Alex, curioso. Ele virou um pouco o corpo para facilitar nossa interação e eu me remexi, tentando me soltar, o que se provou ser uma tarefa infrutífera.

"Colegas de escola." Respondi, seca. A posição estava começando a me deixar sem ar por ter o estômago pressionado contra seu ombro. Minhas costas doíam. "Alex, dá pra me pôr no chão, porra?" Grunhi, sacudindo os pés. O meu vestido, para minha sorte, não revelava nada que devia ser mantido em segredo. "Já disse que a Sra. Walter está nos vendo." Soltei um muxoxo, cansada de remar contra a maré.

"Ah, para de chorar. Carona grátis." Ele disse, divertindo-se – aparentemente, tudo era uma diversão na sua vida. Lançou um olhar para a casa de Sra. Walter, que estava escondida por entre as cortinas. "A Sra. Walter provavelmente não está olhando para nós, mas para os novos vizinhos. Gente nova é fofoca nova." Falou quase imediatamente. Então se virou para os recém-chegados. "Yeah, bom, nós vamos indo, caras." Disse, sacudindo a cabeça numa despedida.

"Sim, é... Foi um prazer." Remus disse, educado, o que foi repetido por Sirius, com quem Alex trocou um rápido aperto de mão antes de começar a andar.

"Sabe como é, nós temos rosbifes para comer, jogos para ganhar... Uma Lily para carregar." Deu um tapinha amigável sobre minha perna, o que me fez socar com força suas costas. Ele mal sentiu o impacto, como era de se esperar. Ou foi muito bom em ignorá-lo.

"Muito engraçadinho, seu selvagem." Murmurei, fria e cheia de rancor, o que fez Olívia rir. "Comece a andar, antes que eu belisque você. Os gêmeos não vão nos esperar pra sempre." Resmunguei, como se aquele fosse verdadeiramente o motivo para a minha pressa.

"Tá bem, tá bem. Até mais." Alex começou a caminhar, erguendo o braço numa despedida simples, e isso levou Olívia, que parecia muito mais interessada em flertar do que caminhar, a se mexer.

"A gente se vê." Ela falou, sacudindo a cabeça, enquanto passávamos por eles. "A propósito, meu nome é Olívia." Piscou para Remus, para a minha surpresa, e não para o Black.

Ignorei os olhares ainda impressionados. A situação já era suficientemente vergonhosa sem plateia. Agora minha reputação havia sido destruída por completo. Quase sete anos tentando manter a imagem implacável para tê-la aniquilada em míseros sete segundos.

Meu ânimo havia despencado depois daquilo e nem mesmo as piadas de Alex foram capazes de mudar a situação. Na metade do jantar, comecei a voltar ao meu normal – também, era impossível manter a seriedade diante dos sussurros maliciosos de Olívia no meu ouvido. Mesmo o menor movimento de Danna, a namorada de Louis, era o suficiente para gerar uma piada interna. O que não era surpreendente, já que à primeira vista a garota era um soco no estômago da moda: o estilo hippie, os dreads no cabelo loiro, a roupa desbotada e meio suja e as tatuagens a transformavam num aborto social.

Minha mãe teria um infarto ao mero vislumbre das suas unhas roídas. E inclusive Alex parecia achá-la um pouco repugnante. Seu hálito de cigarro e seu sorriso malicioso diziam na hora que era problema.

Mas um problema era tudo o que um cara problema desejaria. Louis também fumava, vestia-se com calças jeans rasgadas e camisetas do AC/DC, tinha o cabelo castanho escuro sem corte e um pouco seboso pela falta de água e olhos injetados que significavam que ele estivera fumando maconha nas últimas horas. O que, basicamente, não diminuía sua beleza em nada.

Era ultrajante que alguém completamente desleixado como Louis pudesse continuar sendo estupidamente atraente.

"Para." Olívia me cutucou de modo discreto enquanto nos sentávamos à mesa para jogar cartas. "Danna totalmente já percebeu você analisando o namorado dela." Sussurrou, o que me fez corar.

Relanceei os olhos na direção de Danna, que havia se sentado à minha frente, ao lado de Louis, e ela sorriu, um sorriso torto e fraco, embora não agressivo, que era o que eu esperava. Ela esticou o braço e rodeou os ombros de Louis, acariciando sua nunca num gesto possessivo, só que não havia nenhuma ameaça em sua expressão.

Daquele momento em diante decidi que gostava de Danna.

Mais tarde, bem mais tarde naquela noite, Leonard tossiu. Ele se engasgou com a fumaça do cigarro de maconha. Alex fez uma careta diante dos resquícios de saliva que voaram na sua direção, inclinando o corpo para o lado a fim de desviar.

Já passava das duas da manhã. Eu havia ligado para a mamãe, avisando que estava na casa dos Thompson, o que a fez relaxar, porque a Sra. Thompson era uma religiosa fervorosa e costumava vir checar a nossa reunião de meia em meia hora até seu calmante fazer efeito.

Nós havíamos jogado todos os tipos de jogos de cartas até a meia noite, quando fomos para a garagem. Leonard manobrou o carro do Sr. Thompson para fora, nós puxamos algumas cadeiras e as poltronas da sala, ligamos o rádio num volume razoável e nos livramos dos sapatos.

"Não, eu só acho que não vale a pena perder tempo estudando bobagens." Louis dizia, massageando o joelho desnudo de Danna, que fumava.

"Você não pode estar pensando em viver da música." Olívia o olhou, chocada. "Você sabe que os Estados Unidos são o lugar para fazer sucesso. Daqui nós basicamente só tivemos os Beatles e o Queen, e isso não faz muito o seu estilo, pelo que eu posso ver." Apontou para sua camiseta.

"Nós não vivemos da música." Danna interrompeu, distraída. "Eu sou garçonete num pub de Londres." Encarou as unhas, começando a tirar o esmalte do dedão.

Alex bocejou. Estava abafado, porque a garagem não tinha janelas, e ele tinha uma fina película de suor sobre o rosto, a qual secou com um movimento de mão.

Leonard, com os cabelos castanhos bem cortados e as têmporas úmidas, estava jogado numa das poltronas, completamente alheio ao diálogo, um baseado na mão. Os olhos cinzentos estavam semicerrados, e ele tentava a todo momento subir os dedos pelo joelho de Olívia, que estava numa das cadeiras ao seu lado e que o estapeava e dava risinhos cada vez que percebia o ato.

"Estou sedenta." Cocei a nuca, prendendo os cabelos num coque desleixado, não me importando em interromper a conversa. Olhei para Louis. "Não tem cerveja?"

A cerveja tinha o péssimo hábito de me alegrar. Eu não costumava abusar dos alcoólicos, mas admitia o prazer que uma cerveja gelada num dia quente podia proporcionar. Com um pai socialmente beberrão como o meu, cerveja nunca faltava na nossa geladeira. Ele normalmente fazia vista grossa quando eu decidia acompanhá-lo. Mamãe era a única de nós a pensar que uma dama bem-educada nunca deveria beber em público.

"Sei lá. Acho que tem." Ele encolheu os ombros. Virou-se para Leonard, que agora encarava o teto. Para alguém que parecia tão dentro das regras, ele se mostrava bastante à vontade com a perspectiva de fumar toda a erva que o irmão contrabandeava da capital. "Leo, pega a ceva pra gente. Acho que a coroa comprou um engradado ontem à noite."

"Eu não. Vai você." Leonard disse, a voz mole, dando um sorriso agradável e meio frouxo para Olívia, que começou a rir.

Leonard flertara com Olívia durante metade da noite, como se ela fosse seu prêmio por bom comportamento.

"A gente vai." Prontificou-se Alex, erguendo-se da cadeira. Espreguiçou-se e me olhou. "Bora lá, Lils. Me ajuda?"

Nós saímos da casa dos gêmeos perto das quatro. Alex nos acompanhou até a casa de Olívia e nós duas subimos as escadas da residência dos Strauss pé ante pé, descalças, para não acordar a Sra. Strauss, reconhecida pelo seu sono leve.

Atingido o objetivo, fechamos a porta neon do seu quarto com um movimento suave e puxamos a cama auxiliar. O quarto estava uma bagunça, com roupas espalhadas por todos os lados, e apenas empurramos o que estivesse em nosso caminho para os cantos. Não trocamos muitas palavras nesse meio tempo. Nem mesmo fizemos a higiene pessoal ou colocamos pijamas confortáveis. O álcool havia nos deixado moles e logo desabamos sobre o colchão, simplesmente desejando um sonolento boa noite e puxando o lençol por cima da cabeça.

Acordamos no dia seguinte com a Sra. Strauss me sacudindo, perto das sete e meia. Mamãe estava furiosa porque eu não havia voltado para casa. Então eu peguei minhas sandálias, cumprimentei o Sr. Strauss, que tomava café na sala de jantar, e fui para casa, descabelada, sonolenta e com as pernas ainda um pouco frouxas por causa da cerveja.

Era apenas uma quadra e eu caminhei rápido, porque, embora fosse cedo, o asfalto começava a ficar quente.

Eu vi os garotos saindo da casa da Srta. Green, provavelmente prontos para se reintegrar ao mundo bruxo, e bocejei enquanto me aproximava. Podia ver mamãe andar para lá e para cá na sala de estar, cuja janela estava entreaberta, e fiz uma careta. Meus planos iniciais não envolviam nada além de dormir até o meio dia. E agora eu iria ganhar um sermão.

"Oi." Cumprimentei Remus e os demais com um aceno curto, seguindo pelo pequeno caminho de pedra até a porta de casa, até que me dei conta de que havia esquecido a bolsa na casa dos Thomas. "Droga." Praguejei.

"A noite foi boa, hein, Evans?" Black disse, a voz áspera e divertida logo atrás, e eu lancei um olhar indiferente por cima do ombro enquanto tocava a campainha.

"Ah, cala essa boca." Murmurei, revirando os olhos, quando mamãe abriu a porta.

Naquela manhã, ela tinha os cabelos loiros presos num rabo-de-cavalo e vestia um tailleur na cor acinzentada que caía muito bem com seu tom de pele levemente dourado do sol. Usava uma maquiagem suave. Sua expressão furiosa, porém, quebrava todo o encanto angelical do conjunto.

"Lily Evans." Ela sibilou, irada. "Você perdeu o juízo, mocinha?" Bateu o pé, segurando com tanta força a maçaneta que seus dedos deviam estar brancos.

"Posso sentar primeiro?" Perguntei, cansada. Minha cabeça começava a doer. Não apenas pelo sol forte ou pela bebida, mas pelo cansaço. Não fazia o meu feitio conseguir sobreviver com tão poucas horas de sono. Eu me sentia como se um trator houvesse passado por cima de mim ou como se tivessem me jogado no triturador de alimentos.

Mamãe me olhou feio. O tipo de olhar mortal que me fazia começar a chorar durante a infância.

"Ah, você pode. Mas sugiro evitar. Porque o seu traseiro vai ficar quadrado depois do castigo que eu vou te dar, garota." Falou, arqueando as sobrancelhas, e me cedeu passagem, o que me fez gemer um agradecimento e tomar rumo para o sofá, atravessando o hall com preguiça.

A porta bateu com força atrás de mim e os passos pesados de mamãe seguiram os meus, mas entrecerrei os olhos, esforçando-me para ignorá-los.

Papai sorriu e ergueu a cabeça do jornal. Ele costumava tomar o café da manhã e logo se acomodar na poltrona próxima da janela para ler as notícias do dia. O ritual, é claro, nunca havia sido quebrado. Exceto quando eu tinha seis anos e Petúnia tropeçou na escada, quebrando o braço dois minutos antes de ir para a escola.

"Bom dia, neném." Ele disse, dando-me um sorriso consolador, do tipo que já me dava prévias condolências pelas represálias que viriam a seguir. Baixou os olhos tão logo mamãe voltou.

"Muito bem, Lily Evans." Ela parou na minha frente assim que eu me acomodei no sofá de dois lugares de frente para o televisor, pondo as mãos na cintura. "É chegado o momento de rever os conceitos de 'isso é bom' e 'isso não é bom'." Suspirei, afundando o corpo contra o encosto macio. "Tirar notas boas na escola, sim, isso é bom. Dormir na casa dos seus amigos sem me avisar, mocinha, isso definitivamente não é bom. E acho que você é grande o suficiente para ser responsável."

"Mãe," gemi, enfiando o rosto entre as mãos. "eu sou responsável, eu juro." Murmurei, desanimada. "Até mostrei meu novo broche de Monitora-Chefe. Você não acha que isso é ser responsável? Papai, você não acha que eu sou responsável?" Lancei um olhar desesperado para papai, que pigarreou e ignorou a expressão nada aprazível da mamãe, que sempre detestava que apelássemos para a bondade alheia nos seus momentos de algoz.

"É claro que é, princesinha." Ele garantiu, a voz um pouco rouca, e dobrou o jornal, dando um sorriso amarelo. "Ela tem um distintivo muito brilhante, Margot."

"É claro. Isso é verdade, não é?" Eu pulei no lugar, ansiosa por colaborar. "E eu até... eu poli ele e... e... você sabe, brilha e faz aquela coisa que as... coisas brilhantes fazem." Terminei num murmúrio de voz, ciente de que não estava sendo bem-sucedida. Pelo jeito como mamãe me olhava, soube que não havia cedido um milímetro.

"Você está de castigo." Então ela nos deu as costas e voltou para a cozinha.

Mamãe não precisava dizer nada mais. Os castigos eram rituais sagrados, cuja característica básica se mantém: quatro dias sem sair de casa. Isso significava que os amigos podiam entrar, mas eu não podia sequer pôr os pés no hall com outro intuito senão o de abrir a porta para recém-chegados, e também significava que meus planos de jantar na casa de Alex haviam sido cruelmente assassinados.

Papai tentou me animar com um tapinha na cabeça que obviamente não teve resultado e depois daquele início de manhã catastrófico subi para o segundo andar, tomei uma ducha, sequei o cabelo, coloquei o pijama e me enfiei na cama, disposta a dormir durante o resto do dia. Com papai e mamãe trabalhando e Petúnia muito ocupada em agradar sua sogra, o lugar estava em silêncio absoluto, o suficiente para me fazer dormir por horas ininterruptas, até acordar com o ruído do telefone.

Ignorei as duas primeiras ligações, com muita preguiça para levantar, mas ele continuou a tocar, de modo que tive de me arrastar para fora do colchão e ir até o corredor para atendê-lo. O ruído ininterrupto começava a me dar dor de cabeça.

"O quê?" Resmunguei contra o bocal tão logo levei o aparelho ao ouvido.

"Então..." A voz de Olívia se fez ouvir. "Seu pai disse para o meu pai que você está de castigo."

"Yeah." Cocei a testa, empurrando os cabelos para longe do rosto, e me encostei contra a parede. A sonolência costumava minar minha capacidade de me equilibrar. "A mesma coisa de sempre. Alguns dias sem sair de casa. O que significa que os nossos planos para hoje foram por água abaixo."

"Vamos sobreviver." Garantiu ela. Deu um bocejo do outro lado da linha, o que me fez bocejar também. "Preciso ir com a mamãe ao supermercado hoje à tarde e depois vamos dar uma passada no shopping. Acho que só posso aparecer aí à tardinha, mas tenho certeza de que Alex ficará feliz em entretê-la. Ele parecia muito entusiasmado com a perspectiva de um novo campeonato de gol a gol." Zombou, referindo-se à nossa atividade no dia anterior, enquanto Olívia dormia sob o guarda-sol.

Obviamente, a situação fora um desastre. Eu era tão habilidosa quanto uma criança de dois anos e a palavra "mira" nunca fizera parte do meu dicionário. O que só podia significar diversão para os demais. Rir de Lily Evans às vezes podia ser uma tarefa gratificante.

Suspirei, esfregando a testa.

"A ideia não parece muito excitante." Murmurei. "Bem, o que você acha de uma festa da piscina? Pelo que eu sei, mamãe vai ter uma reunião emergencial extraordinária hoje, o que significa algumas horas a mais de liberdade."

"Uma festa da piscina soa bem, mas quem você está pretendendo convidar?" Ela rebateu quase imediatamente. "Aliás, você sabe, não perguntei nada a respeito, mas ficaria muito grata se você me desse mais informações sobre os três deuses gregos com quem você vem convivendo nos últimos seis anos. Manter tais tipos de segredos da sua melhor amiga não soa nada agradável, garota. Sua mãe nunca lhe ensinou a compartilhar?"

Fiz um ruído de aborrecimento, revirando os olhos. Sabia que aquele momento chegaria. Minha sorte era que Olívia tinha tato o suficiente para perceber o quanto o encontro da noite anterior havia me aborrecido e não tentara levar uma conversa por esse caminho. Mas, como sempre, sua curiosidade vencera.

"Black, Potter e Lupin." Expliquei, com tom de voz monótono. "São garotos do meu ano. Particularmente irritantes, apesar de bastante visualmente agradáveis. Eu manteria distância se fosse você."

"Gosto de correr um pequeno risco." Olívia riu baixo, ao que eu respondi com um grunhido. Ela soltou um som de surpresa. Eu não costumava compartilhar a rotina do meu período letivo, de modo que ela não tinha muitas informações sobre o que acontecia no resto do ano. Consequentemente, não estava familiarizada com meu desprezo unilateral pelos rapazes da Grifinória. "Ah, está bem, se você garante que eles são assim tão execráveis, vou reservar minhas piscadas de cílios para caras mais aprazíveis."

"Faça o que achar melhor. Confio na sua capacidade de discernimento." Disse, encolhendo os ombros, embora soubesse que ela não poderia ver meus movimentos. Aquele era um sinal de desistência. Estava ciente de que os Marotos eram carismáticos por natureza. Era preciso ser muito sábia para ser capaz de ver por detrás dos seus sorrisos fáceis. "Bem, você vai aparecer ou não?" Indaguei, optando por mudar de assunto.

"Obviamente que vou." Respondeu Olívia, como se fosse óbvio. "Você consegue imaginar uma oportunidade de diversão e não me ver nela? É porque nunca aconteceria!"

"Então está bem. Dê uma passada na casa dos gêmeos hoje à tarde. Vou ligar para Alex e verificar se Lauren e Isabelle estarão em casa. Leonard disse que elas voltavam de viagem hoje. E, você sabe, se não as convidarmos, elas vão ficar terrivelmente aborrecidas. E as McKenzie aborrecidas, tsc, significa toda a humanidade em sofrimento." Nós soltamos um ruído mútuo de aborrecimento.

Lauren e Isabelle eram engraçadas, mas demasiadamente sinceras. Às vezes, sinceridade pode ser uma benção. Sinceridade em excesso, porém, prejudica sua capacidade de socializar.

"Dou um jeito de levar o rum. Papai andou comprando algumas garrafas novas, Natu Nobilis e alguns conhaques, o que significa que posso assaltar o bar sem correr o risco de ser pega." Disse Olívia, ansiosa. "O que você acha de Cuba Libre?"

"Sem exagero. Qualquer coisa está bem. Você não vai querer mamãe furiosa ao nos surpreender bêbadas."

Fomos interrompidas pela campainha soando freneticamente. Campainha soando freneticamente era o sinal de que Alex havia chegado (sempre naturalmente impaciente e deselegante), e, como sempre, não estava nem um pouco disposto a esperar.

"Preciso desligar. Alex está preste a derrubar minha porta. Nos falamos mais tarde."

"Okie dokie. Beijo, ruiva."

Desci correndo as escadas tão logo pus o telefone no gancho. Deslizei pelo hall encerado, abrindo a porta antes que Alex tivesse tempo de apertar a campainha outra vez. Ele usava uma regata branca que deixava expostos seus bíceps malhados, uma bermuda azul escura e chinelos. Fazia calor, e ele estava pronto para um dia na piscina.

Como era típico seu, foi passando sem esperar por cumprimentos. Após quase dezessete anos, já se sentia em casa.

"Então, Lils, eu estava pensando que talvez nós pudéssemos jogar um gol a gol outra vez. Sou uma pessoa muito bondosa, o que significa que vou lhe conceder a chance de uma revanche sem pedir nada por isso." Disse, lançando uma olhada curta por cima do ombro, enquanto atingia a sala de estar, arremessando a toalha de banho que trouxera para cima do sofá.

"Vou declinar a oferta." Respondi, a voz arrastada, bocejando. Aproximei-me, deixando que ele tomasse a dianteira e abrisse a porta fechada da cozinha e que dava para o pátio traseiro. A água da piscina brilhava pelo reflexo do sol, parecendo muito atraente. "Você pode ir entrando na água, se quiser. Vou subir, escovar os dentes, colocar um biquíni... Ser arrancada da cama não é nada lisonjeiro, sabe."

"O quê? Mas sou um gentleman!" Ele declarou, aparentando ultraje. Sua expressão me fez dar um riso baixo.

"O que você disser, cavalheiro." Concordei apenas para não contrariá-lo. Alex contrariado era como um bebê chorão. Dei as costas, espreguiçando-me. "Podemos jogar Banco Imobiliário, o que você acha? Não estou muito propensa a atividades físicas hoje."

Alex fez um ruído, livrando-se da camiseta.

"Ainda de pilequinho, hein?" Indagou, zombador.

"Só cansada, viking." Respondi, asperamente. "Nem todos têm poços de energia como você."

Subi as escadas que levavam ao segundo andar sem esperar por uma resposta. Sabia que a retórica de Alex era surpreendentemente infalível quando se tratava de me envergonhar e não queria ouvir nenhuma verdade desagradável.

Troquei de roupa, fiz a higiene bucal, abri a janela do quarto e estendi os lençóis. Quando terminei as tarefas, suava. Tive de prender os cabelos num coque frouxo. Donde estava, podia ouvir os ruídos de Alex na piscina. Ele puxara o LP para perto da porta dos fundos, de modo que Chuck Berry estava a toda altura. Discrição não era seu nome do meio.

Vestindo um maiô azul turquesa e calçando os chinelos, desci as escadas com passadas rápidas.

Alex estava sob o sol brilhante da manhã, os olhos fechados, o corpo dourado reluzindo, simulando tocar uma guitarra. Já dera um mergulho e seus cabelos loiros caíam sobre a testa. Havia uma poça sobre o chão e ao seu redor.

Ri, aproximando-me. Ele certamente era uma visão para animar o dia.

"Humor dançarino hoje?" Perguntei, recebendo em resposta apenas um esgar de lábios ínfimo no momento em que seus olhos se entreabriram.

"Mostre-me seus dotes de bailarina, princesa." Disse, agarrando a minha mão e me puxando contra seu corpo úmido num gesto rápido. Eu soltei um gritinho surpreso, deixando-me envolver, e dei um giro sobre o próprio corpo. Meus membros responderam imediatamente à guia enérgica e eficiente de Alexei, de modo que pareci me desmanchar em seus braços.

Nós sorrimos um para o outro. Anos de amizade nos habituaram à proximidade física sem suscitar emoções fortes. Diferente do que quase todas as mulheres ao meu redor pensavam, meus joelhos não tremiam perto de Alex, tampouco meu estômago borbulhava. Mas ele era tão agradável de se olhar, tão fantástico, que às vezes eu gostaria apenas de uma oportunidade para avivar a chama do amor romântico e experimentar um pouco de toda aquela paixão. Por enquanto, porém, eu estava segura.

Dançamos na grama por algum tempo, rindo dos nossos próprios passos amadores e desengonçados, até que o disco terminou.

Quando enfim paramos, suávamos. O sol quente havia deixado nossos rostos vermelhos, principalmente o meu, porque não tivera o tempo de passar protetor-solar.

"Está passando uma reprise de O Poderoso Chefão no cinema." Disse ele enfim, soltando minha mão após um último giro bem-sucedido e esfregando a testa úmida. Foi até o toca-discos, trocando o LP para um do Elvis. Embora Black Sabbath fosse sua banda preferida, gostava do rock clássico. "O que você acha de convencermos seu pai a nos levar assim que o castigo terminar?"

"Você sabe que O Poderoso Chefão é meu filme preferido. Conte comigo." Sorri, aproximando-me e inclinei o corpo na sua direção, mordendo o lábio. "Cuidado com a agulha. Você arranhou três discos porque não controla sua força. Papai quase teve um treco quando viu o arranhão no Sympathy For The Devil, do Rolling Stones. E era uma versão limitada e autografada. Sabe quão importante isso é para o homem?"

Ele rodou os olhos, aumentando o volume do toca-discos, de modo que quando a música começou a tocar, estava a toda altura.

Olívia chegou no fim da tarde, como prometido. Eu e Alex estávamos já um pouco entediados depois de três partidas de Banco Imobiliário, dois programas de tevê e pipocas. Ela vinha cheia de glamour, trazendo uma sacola embaixo do braço, o cabelo bem preso no topo da cabeça, calçando sandálias de couro e vestindo uma saia longa, tingida em casa. A moda hippie estava em alta, o que significava que Olívia procuraria se adequar aos padrões da grande massa.

Eu e Alex nos entreolhamos, erguendo a cabeça do televisor. Cheirávamos a protetor solar e cloro e estávamos a imagem do desleixo, com os pés em cima da mesa de centro da sala de estar, cheios de farelos dos sanduíches de tomate do almoço e com as mãos engraxadas do sal das pipocas.

"Por onde você andou?" Ele perguntou enfim, a boca cheia, apoiando o braço sobre a guarda do sofá e virando o corpo para trás. Olívia pendurava a sacola e a bolsa no armário dos casacos, perto da porta.

"Atrás de promoções." Ela respondeu, indiferente. Caminhou até a sala, jogando-se na poltrona do papai, e eu a segui, fechando a porta atrás de mim. "Você sabe como é difícil encontrar um vestido com lantejoulas que sirva na mamãe? Mamãe e papai vão a uma festa da empresa de papai e a temática é os anos 50. Bem, não faz tanto tempo assim, não é? Mas a moda mudou terrivelmente. Reviramos as lojas atrás de algo brilhante que não esteja bordado numa calça boca de sino ou algo assim." Desviou os olhos na direção da tevê. "O que vocês estão assistindo?"

"Frankenstein." Disse, agarrando a bacia de pipocas da mão de Alex e a estendendo na direção de Olívia. "Pipocas?"

Perto das seis, fui tomar banho enquanto Olívia telefonava para Lauren e Isabelle e Alex tirava as folhas secas da piscina.

Desci cerca de meia hora depois, com o sol já se pondo, os cabelos molhados trançados e vestindo uma calça jeans desbotada cintura alta e uma regata preta estampada com a imagem do Sonny, personagem de O Poderoso Chefão, presente de papai e que costumava deixar Petúnia horrorizada. De acordo com seu senso estético, vestir roupas com slogans e rostos de pessoas era o cúmulo da cafonice.

Ela tem pesadelos com meu guarda-roupas desde que vira eu e o papai com nossas camisetas desbotadas e combinadas do Queen (era aniversário de Freddie Mercury e nós resolvemos homenageá-lo) na noite em que trouxera Vernon para jantar pela primeira vez. Seu ataque de pânico fora tão exagerado que mamãe precisou solicitar que nos vestíssemos de modo mais formal.

Louis, Leonard e Danna tinham chegado há pouco. Podia escutar o ruído da sua conversa do segundo andar.

Eles haviam se acomodado nas cadeiras e espreguiçadeiras do pátio traseiro, ao redor da piscina, e acendido as luzes. Danna tinha um cigarro preso entre os lábios, usava uma saia comprida verde suja de esmalte vermelho e deu um sorriso mole ao me ver, um sinal amigável de reconhecimento.

"Olá." Cumprimentei, calçando as sandálias que havia esquecido na beira da piscina.

Louis apenas sacudiu a cabeça numa saudação muda.

"'Noite." Respondeu Leonard, distraído com um cubo mágico. "Dá pra descolar uma bebida, Lils? Minha garganta tá seca."

"Ô, Olívia." Me virei para fitar Olívia, que estava esparramada numa das espreguiçadeiras, as pernas cruzadas, lendo uma revista de moda. "Não era você quem ia ficar de barman hoje à noite? Cadê a Cuba Libre? Promessa é dívida, bombom."

"Calma, benhê." Ela sacudiu o braço, distraída, sem voltar os olhos para mim, o que fez com que Louis desse uma pequena risada rouca. "Alex vai cuidar de tudo."

"Yeah." Ele apareceu atrás de mim, que estava posicionada em frente à porta que levava para a área dos fundos, dando-me um susto de morte. "Eu tenho a medida perfeita para misturar a Coca-cola com o rum. Ajude-me a pegar os copos, Lily. Enquanto isso, Louis, puxa a mesa mais pra perto. E saquem suas moedas. Hoje é a noite do pôquer, bastardos!"

Mamãe e papai chegaram perto das 21h. Nós não ouvimos o ruído da porta se abrindo. Estávamos discutindo. Olívia e Alex juravam de pés juntos que Louis estava roubando. Louis, por outro lado, negava veementemente, e nós estávamos num impasse, porque Danna concordava com ele e Leonard, como eu, não vira nada. E as apostas continuavam na mesa: notas de uma libra, várias moedas e chicletes.

Os copos vazios se acumulavam nos espaços livres da mesa. Havia uma aura de fumaça ao nosso redor, proveniente dos cigarros acendidos, e o piso estava sujo de refrigerante derramado.

O toca-discos continuava ligado, embora o LP já tivesse acabado há muito tempo, pois nós havíamos nos esquecido de virar o disco. Nossos sapatos estavam jogados aos pés dele, porque resolvemos deixá-los longe da piscina caso algum dos garotos resolvesse demonstrar sua hombridade nos arremessando na água (o que era mais comum do que o esperado).

"Eu me nego a continuar jogando até que tenhamos um julgamento!" Gritava Alex, o rosto corado, já um pouco embriagado pelo rum.

"Você está esvaziando nossos bolsos, Louis." Concordou Olívia, sacudindo a cabeça com veemência, aborrecida. Poucos eram os que conseguiam blefar de modo tão eficiente quanto ela. Aqueles que conseguiam derrotá-la a enfureciam. Afinal, se autodeclarara a Rainha do Pôquer e esse não é um título que deva ser adotado erroneamente. "Há algo de podre no reino da Dinamarca!"

"Você não pode me culpar por ser talentoso." Ele rebateu de modo quase imediato, encolhendo os ombros, aceitando o cigarro que Danna, ao seu lado, ofereceu. Deu uma profunda tragada no mesmo, soltando a fumaça pelo nariz. "Nem mesmo estou tocando nas cartas, por Deus! Olhe a quantos quilômetros de mim o baralho está." Apontou para o outro lado da mesa, onde estava Leonard, o Dealer da rodada. "Exijo uma retratação. Sem provas, sem acusação."

"Duelo pela honra!" Berrou Alex, erguendo os braços, mostrando inconscientemente todo o seu jogo para nós. Ele não estava com uma mão muito boa. Não era à toa que apelava para subterfúgios, como acusar o adversário de trapaça. Com sua sorte atual, também choraria.

"Não estamos mais no século XV, Alex!" Leonard revirou os olhos. "Você não pode pegar o seu florete e marcar hora e local."

Suspirei. Eu e Danna nos entreolhamos, ambas impacientes.

"Vocês realmente estão tendo um jogo entusiasmado aqui, não, crianças?" Quando percebemos, papai estava escorado no umbral da porta, aparentando algum cansaço, mas sorrindo na nossa direção. Podíamos ver a mamãe por detrás dele, abrindo a geladeira da cozinha, de onde tirou uma garrafa de água, e ela de modo nenhum parecia igualmente simpática.

"Sr. Evans, sou alvo da calúnia." Declarou Louis, as sobrancelhas franzidas, cheio de dramaticidade.

"E nós somos alvos da punga. Que, em outras palavras, significa roubo." Rebateu Olívia, as bochechas vermelhas de indignação, apontando o dedo na sua direção. "Devolva meus cinquenta cents, bastardo!"

Alex sacudiu a cabeça em sinal de concordância e soltou ruídos ininteligíveis.

"Ah, Olívia, sem chororô! Você sabe que Louis não está roubando. Só está furiosa porque ele descobriu uma falha no seu blefe!" Revirei os olhos. "Aliás, obrigada por isso, Louis."

"A Rainha do Pôquer perdeu a majestade." Leonard começou a rir, o que apenas deixou Olívia mais furiosa. Ela fez um som de repulsa, e, num gesto irritado, arremessou as cartas na cara dele.

Houve um segundo de silêncio chocado entre nós, até que começamos a gargalhar.

"Lily." Mamãe, que recém se aproximava, tentou sobrepor sua voz ao barulho dos risos. Era uma tarefa difícil, porque a risada de Alex era como um trovão num dia de chuva, e Danna tinha um riso meio asmático e esquisito, o que mais tarde explicaria se tratar de reflexos da forte asma que tivera quando criança. "Lily, onde está a sua irmã?" Perguntou, cansada e impaciente.

"Quê?" Voltei a cabeça para ela, distraída, os lábios ainda curvados. "Não sei, mãe. Não vejo Petúnia desde ontem."

O rosto dela se converteu numa máscara de indiferença. Sempre o fazia quando estava furiosa e não queria demonstrar seus sentimentos em público. Acreditava que era deselegante esbravejar e se descabelar, então guardava aqueles momentos de fúria para o seio da família. Ah, quão afortunados nós éramos.

"Louis, mocinho, apague esse cigarro agora mesmo." Mandou, a voz autoritária, e teve sua ordem imediatamente atendida. Sua expressão impassível rapidamente fez com que a diversão incidisse por nós como brisa passageira, até desaparecer. Ela fixou os olhos em papai, que enxugava algumas lágrimas. "Henry, você precisa conversar com essa menina. Está cheia de liberdades." Ia continuar a falar, mas então percebeu que todos tinham a atenção fixa nela e agarrou o braço dele. "Vem, vamos subir. Quanto a vocês," relampejou os olhos na nossa direção outra vez. "deixem tudo brilhando quando saírem."

"Pode deixar, Sra. Evans." Concordou Leonard, enfaticamente.

"Seu pedido é uma ordem, Sra. Evans." Louis lançou um sorriso galanteador na sua direção, que ela recebeu com um falso torcer de nariz e um meio sorriso discreto. Como eu, ela também tinha um fraco pelos rebeldes. Secretamente, sua banda preferida era o Kiss. Se eu contasse, ninguém acreditaria. Principalmente Paige.

"Lindas pernas, Sra. Evans." Alex lhe piscou um olho, o que enfim desmanchou a expressão dura, e ela riu enquanto papai fazia cara feia.

"Mantenha seus comentários espertinhos só para você, meu jovem." Resmungou, agarrando a mão da mamãe e a puxando para dentro da casa.

Nós rimos por algum tempo, até que percebemos que estávamos sozinhos outra vez e o dilema do pôquer continuava a pairar sobre as nossas cabeças.

"Partida vale-tudo! Eu desafio vocês!" Alex batucou na mesa, imitando o som de tambores, o que fez com que os copos tremessem. Leonard precisou segurar sua taça antes que ela voasse para o chão. "Joguem todas suas fichas na mesa. Quem ganhar é o vencedor e leva a bolada." Apontou para nossa pilha de notas amassadas e moedas. "Dez libras, senhoras e senhores! Uma fortuna de valor inigualável."

"Desafio aceito." Respondeu Louis, com um sorriso de soberba, estendendo as suas cartas, que, como eu, Danna e Leonard, ainda segurava, para que fossem embaralhadas e distribuídas outra vez.

"Não fique tão confiante, maldito seja!" Gritou Olívia, levantando-se. Seu rosto cheio de sentimentos repentinamente se transformou em mármore, o que só podia significar que tinha um plano. "E partida vale-tudo é o caralho! A grana é minha!" Agarrou as notas, saindo correndo do pátio.

Houve um curto instante de desorientação entre nós, rompido após ouvirmos o ruído da sua gargalhada. Foi o suficiente para que começássemos a falar ao mesmo tempo, erguendo-nos e correndo para segui-la. Eu e Leonard nos chocamos na hora de passar pela porta que levava à cozinha e àquela altura Olívia já estava quase no hall, descalça.

Alex, que estava à nossa frente, resvalou no tapete e caiu, derrubando Louis, que estava logo atrás, e Olívia ficou encurralada quando descobriu que mamãe havia passado a chave na porta. Foi assim que terminou a nossa noite.


N/A: Como não poderia deixar de ser, acho que os trouxas da vida da Lily deviam ter uma grande participação numa história que se passa durante suas férias de verão. Olívia, Alex e Leonard serão personagens recorrentes em nossa trama a partir de agora, mas não se preocupem, porque logo teremos muito mais dos Marotos (no próximo capítulo, para ser mais exata) =]

Obrigada pela recepção. Peço a gentileza de que aqueles que estão seguindo a fanfic também deixem seus comentários!

Pretty Woman, thanks pela review inspiradora. Saiba que não desisti de Naruto! Ainda tenho as anotações dos projetos guardadas por aqui. Só estou em dúvida se as histórias não demoraram demais para serem contadas. Comecei a escrevê-las antes da saga Shippuden. Puxa, foi há muito tempo, quando todos nós tínhamos outra visão do mangá (a medicina, por exemplo, era uma incógnita, e isso influenciou em 100% o tratamento da Tenten). Não estou certa de que tudo não pareceria estranho demais! Estou considerando isso. Prometo fazer o possível pra não te decepcionar! =))