CAPÍTULO TRÊS: DEIXANDO LILY COM TODA A DIVERSÃO
Quando nos aproximamos de onde Potter, Remus e Pettigrew estavam sentados, acomodados num dos sofás que foram arredados para perto da janela, com copos de cerveja na mão, Remus e Potter pareciam estar no meio de uma conversa séria, porque ambos tinham os cenhos franzidos, e ergueram os rostos com aborrecimento quando Black pigarreou.
"Trouxe um presente para você." Disse para Potter, e me empurrou na sua direção, de modo que tropecei e caí no lugar vago ao seu lado com um baque.
"Ai." Reclamei, tirando o cabelo do rosto e lutando para me endireitar.
"Pads!" Grunhiu Potter, parecendo furioso. Voltando-se para mim, ajudou-me a sentar melhor e teve a decência de segurar a barra do meu vestido, que subira durante a queda, aproximando-se das coxas, e baixá-la de modo bastante puritano. "O que você está fazendo com ela?" Indagou, queixoso, e fixou-se em Black outra vez, as narinas infladas.
"Lily tem uma experiência a fazer." Ele garantiu, cruzando os braços, e me olhou, expectante.
"Eu não tenho, não." Reclamei, afastando a mão de Potter de mim, e enfiei os cabelos para detrás das orelhas, ofegante. "Eu só estava fazendo xixi." Disse, sem considerar que aquele era um tópico bastante pessoal para ser comentado em público. "E ele apareceu." Apontei para Black, fitando-o com uma careta.
Remus o encarou, cheio de um horror que beirava o cômico.
"Você invadiu o banheiro enquanto ela estava fazendo xixi?" Indagou, a boca meio entreaberta de incredulidade.
"É claro que não." Black revirou os olhos, mas se voltou para Potter com surpreendente seriedade, já que, pela expressão fechada, ele demonstrava profundo aborrecimento. "Não, Prongs." Repetiu, com firmeza. Olhou de Remus a Pettigrew. "Eu esperei ela sair, obviamente."
"Obviamente." Repeti, sarcástica, e minha voz deve ter vacilado, porque Pettigrew, que estava sentado na poltrona ao lado de Remus, curvou o corpo na minha direção, parecendo surpreso.
"Você está bêbada." Apontou.
"Eu não estou bêbada." Afirmei, fazendo um beicinho muito impróprio, e cruzei os braços, afundando-me no sofá. "Por que todo mundo fica dizendo isso?" Perguntei, embora para ninguém especial, e apontei para Louis, que cambaleava na direção do banheiro. "Louis está bêbado. Eu? Eu não. Eu não cambaleei."
Black arqueou uma sobrancelha.
"Eu precisei segurar você para que não despencasse da escada."
"Tudo friamente calculado." Garanti, sacudindo a cabeça. "Eu tinha a parede. Não precisava de você." Sorri ao me recordar do seu perfume. Black podia ser um quebrador de corações, mas cheirava como o paraíso. Provavelmente uma estratégia da natureza para ajudá-lo a atrair suas presas de modo mais eficiente. "Embora" sentei-me ereta sobre o sofá e me virei para Potter e Remus. "eu deva compartilhar que ele tem o cheiro mais..."
"Lily!" Black me interrompeu, num tom suplicante, e pousou as mãos sobre meus joelhos, cheio de intensidade no olhar. "Isso não é relevante." Garantiu, tanta firmeza em suas palavras que eu acabei por concordar, meio hipnotizada. "Nós viemos aqui para que você pudesse cheirar James, lembra?"
Voltei o rosto para Potter, ligeiramente pensativa. Em contrapartida, ele tinha franzido o cenho, confuso.
"Me cheirar?" Repetiu.
"Não." Sacudi a cabeça. Black se afastou, porque de repente o olhar de Potter pareceu queimá-lo. "Eu não quero ser grosseira, Potter, mas você infelizmente não tem a aparência de alguém que foi agraciado pela mãe-natureza." Disse, embora, sem o devido contexto, aquela parecesse uma declaração absolutamente aleatória.
Curvei o corpo na sua direção.
"Aqui, deixe-me experimentar." Pedi, pousando a mão sobre seu ombro, disposta a comprovar minha teoria.
Os músculos dele congelaram quando meu nariz tocou a base do seu pescoço, quase como se tivesse se preparando para um ataque, mas eu ignorei sua exagerada reação e inspirei profundamente, completamente desiludida com relação a qualquer espécie de resposta física positiva. Depois de todos aqueles anos, teria sido capaz de perceber se ele evocasse qualquer faísca em mim.
Para meu eterno terror, porém, as portas do paraíso se abriram no instante seguinte, levando seus tentáculos até mim e me pegando de jeito.
Meu cérebro gritou ao sentir seu perfume, tão pecaminosamente incrível. Era uma mescla de amadeirado com amaciante de roupas e parecia tão delicioso que eu poderia devorá-lo.
Há muito a se dizer sobre o cheiro de um homem. Não, reformulando: há muito a se dizer sobre quão bem reagimos ao cheiro de um homem. Olívia e eu tínhamos essa teoria de que a paixão tinha tudo a ver com os feromônios. Nunca havíamos gostado de um rapaz sem gostar do seu cheiro natural. Assim, saber que havia algo em Potter que me atraía soava como um choque dos mais perturbadores.
Afastei o rosto, um pouco confusa com aquela surpreendente intensidade. Olhei para Black, que me encarava, ansioso.
"Bem, até que você não está sempre errado, Blackie-Deckie." Disse, muito séria, e ele abriu um largo e pretensioso sorriso, ignorando o apelido que lhe conferi. Joguei-me contra o encosto do sofá novamente, surpresa pelo modo como a realidade cruel tinha me acertado como um soco e revirado tudo dentro de mim. "Totó, eu tenho o pressentimento de que não estamos mais no Kansas." Murmurei, citando o Mágico de Oz, e coloquei a mão sobre o estômago, que estava borbulhando.
"Totó?" Repetiu Pettigrew, para ninguém em especial. "Quem é Totó?"
"O Mágico de Oz." Respondi, como se fosse óbvio, uma sobrancelha arqueada. Era um pouco ultrajante que eles não tivessem o menor conhecimento sobre cinema. "Você precisa de um pouco de cultura trouxa, garoto. Um clássico é um clássico."
"Agora que comprovou minha teoria, você sairá com James." Black tomou a dianteira, atraindo minha parca atenção outra vez. "Você lhe deve."
"É claro que não." Respondi, revirando os olhos. "Agora eu estou ocupada."
Naquele momento, num feeling perfeito, Olívia apareceu, ajeitando a manga da camiseta, que parecia sempre querer deslizar pelo seu ombro, e se aproximou de nós, interrompendo toda a confusa conversa, uma expressão nauseada.
"Casa." Foi tudo o que ela disse, abaixando-se para tirar os sapatos, e se apoiou no braço de Black, que estava logo ao seu lado.
Eu concordei de modo profuso.
"Meu pé está realmente doendo." Reclamei. Ergui a perna, mostrando minha sapatilha dourada. "E esse horrível sapato..." Suspirei. "Só meu deu bolhas e atraiu homens para mim. Ninguém me disse que aconteceria algo assim quando o calçasse."
"Do que você está falando?" Indagou Remus, aparentando preocupação.
"Aqui ó." Curvei-me e descalcei a sapatilha, mostrando a bolha que tinha no dedo mindinho. "Além disso, Scott tentou me beijar." Apontei para Scott, que, àquela altura, estava dormindo encostado à lareira, um copo de plástico na mão. "Embora eu não tenha certeza de que ele não me confundiu com Mia, o que eu acho que aconteceu. E depois, ou antes, não sei, antes, sim, antes, vocês."
"Ei." Olívia postou as mãos na cintura, com as sobrancelhas franzidas. "Scottie também tentou me beijarrr!" Exclamou, em tom acusatório, mas logo deu uma risada bêbada que dissolveu toda a pesada atmosfera que pareceu enredar os garotos. Jogou o cabelo sobre o ombro. "E tambéeem me xamou de Mia. Axo que alguéim está apaixonado!"
"Scott é uma dor no traseiro." Reclamei, e me voltei para Remus e Pettigrew, com a perna ainda estendida, as mãos debaixo do joelho para mantê-la erguida. "Os caras..." Comecei, em tom filosófico. "Quando eles são uma dor no traseiro, ninguém nunca há de consertá-los! Vocês deviam fazer um curso sobre o que dizer e não dizer para uma garota."
Potter se aproximou, pegando meu pé, e fixou a atenção na bolha, interrompendo o discurso.
"É, tá." Disse, desinteressado. Empurrou os óculos com a ponta do dedo. "Você devia fazer um curativo. De outra maneira, vai doer quando calçar o sapato outra vez. Mas primeiro precisamos estourar a bolha para tirar o ar." Afirmou.
Os dedos ásperos dele seguraram a planta do meu pé com firmeza, provocando cócegas, e eu lutei para conter a vontade de gargalhar.
"Eu não vou estourá-la. Dói." Disse, mordendo o lábio, como se aquela justificativa fosse lógica o suficiente para dispensar qualquer tipo de cuidado profundo. "E você não pode me obrigar."
Alguém trocou o LP para o do Kiss e o som pareceu animar Olívia, que soltou os sapatos e deu um pulinho no lugar.
"Ééé..." Começou, a voz vacilante, com um sorriso frouxo, fazendo menção de seguir para a cozinha, onde Isabelle e Leonard pareciam entretidos num sério procedimento boca-a-boca de ressuscitação. "Axo que vou pegar uma bebidiinha enquanto experou."
"Calma aí, mocinha." Black segurou seu braço, impedindo-a de se afastar. "Nem mais uma, nem mais duas bebidinhas pra você. Já vai ter bastante com o que se arrepender amanhã."
Prevendo que Olívia parecia disposta a protestar, o ar risonho morrendo em seu rosto, um biquinho nos lábios, Remus pousou o copo de cerveja que segurava, e que parecia intocado, sobre a mesa de centro que havia sido empurrada para o lado da janela e se levantou.
"Acho que devemos levar Olívia para casa enquanto você cuida da Lily, James." Disse, dando um tapinha sobre o ombro de Pettigrew, que entendeu o recado e se ergueu no mesmo instante, sacudindo a roupa amassada para livrá-la dos farelos de salgadinho.
"Sim. Vocês podem ir na frente." Potter anuiu, sério, e eu funguei.
"Eu não preciso da sua ajuda." Disse, vendo os demais se afastarem, e me afundei contra o encosto do sofá. Ele ainda segurava meu pé, mantendo-o bem preso entre seus dedos, e o toque estava começando a parecer perturbador. Embora eu não tivesse certeza de que a náusea era provocada por ele e não pelo álcool. "Está me fazendo cócegas." Admiti, tentando controlar o riso.
Ele deu um meio sorriso e apertou ligeiramente a planta do meu pé, fazendo-me gargalhar.
"Não tem nenhuma parte de você que não seja perfeitamente rosada e macia?" Indagou, sério por um momento, e ajeitou outra vez meu vestido, fazendo a saia descer, cobrindo minhas coxas, para as quais lançou um olhar preguiçoso.
"Sim." Afastei sua mão, que propositalmente havia ficado sobre meu joelho, ainda segurando o tecido do vestido. "Meu cotovelo."
Ele sorriu e, passando a mão pelo cabelo, voltou a atenção para meu pé outra vez. Antes que eu tivesse tempo para protestar, usou as unhas para puxar a borda da bolha, provocando um pequeno furo, e ela murchou, grudando-se à pele outra vez.
Eu chiei, tentando escapar do seu agarre, mas Potter era um apanhador, afinal, e, como era de se esperar, segurou-me com firmeza.
"Pronto, pronto." Deu um tapinha indolente sobre meu tornozelo, pousando-o no chão outra vez. "Vai doer por um ou dois dias, mas logo sua pele estará em perfeito estado outra vez." Levantou-se e estendeu a mão na minha direção. "Vamos para casa. Com o filho que tem, a Srta. Green possui curativos em quantidade o suficiente para enfaixar todos os feridos de uma possível guerra mundial e não vai se importar de nos emprestar um."
Hesitei, porque não queria visitar a Srta. Green (estava muito tarde para visitas). Além disso, não seria adequado que ela me visse ao lado de James Potter. Por mais que fosse desagradável de admitir, ele era um rapaz muito bonito e tinha mãos ásperas, quentes e agradáveis, todo um potencial perfeito para seduzir uma garota semiembriagada.
Ao fim e ao cabo, mordi os lábios e aceitei sua oferta. Pelo menos a parte que envolvia voltar para casa.
Os dedos dele se fecharam ao redor dos meus, espalhando arrepios ao longo da minha espinha.
Aparentemente inconsciente de toda a estática que parecia provocar em mim, ele me puxou com delicadeza, ajudando-me a levantar, embora sua expressão impassível não demonstrasse nenhuma candura.
O movimento fez com que eu apertasse os olhos, um pouco nauseada, mas meu enjoo passou despercebido. Assim, usando Potter como pilar de sustentação, estendi a perna e enfiei o pé na sapatilha dourada, recuando quase no mesmo momento, porque a bolha ardeu.
"Ai." Reclamei, com uma careta. "Não quero ir de sapato."
Potter enrugou o nariz, ligeiramente impaciente, e se abaixou para agarrar a sapatilha abandonada.
"Tire o outro pé." Apontou com o queixo ao perceber que eu continuava imóvel.
Fiz o que me fora ordenado, muito obediente, e ele agarrou ambos os pés do sapato com a mão livre, erguendo-se rapidamente.
Olhei ao redor, desconfortável, porém logo percebi que ninguém estava prestando atenção em nós. As festas de Lauren e Isabelle costumavam ser muito badaladas, contudo grande parte dos convidados era composta por amigos e colegas da escola particular onde ambas estudavam, gente que eu não conhecia, e, por conseguinte, não tinha porque me preocupar com sua opinião.
Era já perto das quatro da manhã naquele momento, percebi ao verificar no relógio de mogno da família, e o grosso do movimento havia diminuído.
A maioria das pessoas havia debandado ou se enfiado nos quartos – que, chocantemente, estavam sempre disponíveis! Uns poucos perdidos continuavam dançando debaixo do lustre, logo à frente, distraídos demais para fixarem sua atenção em qualquer coisa que não fosse seus copos de bebidas.
Na verdade, era um pouco surpreendente que ninguém houvesse chamado a polícia, considerando a magnitude do evento.
Potter começou a andar num ritmo breve, fácil de acompanhar, e eu o segui, nossas mãos atadas uma à outra.
A brisa noturna e fresca tocou nossos rostos assim que atingimos a varanda, bagunçando meu cabelo e afastando um pouco da náusea que começava a crescer, e eu sorri quando vi as estrelas brilhantes. Um céu sem nuvens significava um dia de calor intenso a seguir.
"Vamos pela grama." Pedi, puxando Potter. Saí do caminho de pedras de basalto. A grama estava verde e gelada, fazendo-me suspirar. Lancei um curto olhar na sua direção. Ele exibia um sorriso torto enquanto se deixava guiar, aparentando diversão. "Está fresquinha." Confessei, mexendo os dedos dos pés. "Você não quer experimentar?"
"Não." Ele sacudiu a cabeça. "Vou deixar você ficar com toda a diversão."
Ergui uma sobrancelha, pomposa.
"Você é quem sabe." E virei a cabeça, voltando a atenção para o caminho à minha frente.
Atingimos a calçada e caminhamos num silêncio confortável até a casa da Srta. Green, cuja tinha as luzes da cozinha acesas. Passei reto por ela, no intento de ir direto para a árvore do meu jardim, mas Potter me parou com um puxão suave de mão.
"Você não quer fazer um curativo?" Indagou.
"Não." Sacudi a cabeça. Baixei o rosto, esticando um pouco a perna e apertando os olhos para conseguir enxergar a pequena bolha em meio à semiescuridão. "Estou bem." Disse. Vire-me para a árvore. Ela parecia muito, muito grande vista de baixo. "Você me ajuda a subir?"
"Não. Você não precisa de mais nenhum arranhão. É mais seguro levá-la na minha vassoura." Ele disse, pensativo. Soltou minha mão para tirar a varinha do bolso, a qual sacudiu em silêncio.
Eu funguei, aborrecida com a perda do calor aconchegante, e estiquei os dedos, porque ainda era como se sentisse a pele dele na minha. Antes que pudesse pensar a respeito, porém, sua vassoura apareceu voando, cruzando a janela aberta do segundo andar, e Potter a agarrou rapidamente, olhando ao redor para se certificar de que estávamos sozinhos.
Voltando a enfiar a varinha no bolso, largou minhas sapatilhas no chão e montou na vassoura. Estendeu a mão para mim outra vez e eu aceitei, sentando-me de lado e com muito, muito, muito cuidado sobre o cabo.
"Eu odeio vassouras." Revelei, intimidada, ao perceber como planávamos a poucos centímetros do chão. "Nunca fizeram com que eu me sentisse segura." Mordi os lábios.
Podia parecer estúpido para nascidos bruxos, mas meu pensamento tinha todo o sentido do mundo. Havia aviões, é claro, porém era um tipo de voo completamente diferente. Não sentíamos o atrito do vento, não tínhamos aquela impressão de viver perigosamente, aquela flexibilidade de movimentos. As vassouras eram objetos perigosos.
Os braços de Potter rodearam minha cintura e eu internamente agradeci por aquele círculo de proteção, a despeito da quebra de limites de distância entre nós.
"Não se preocupe. Não vou deixar você cair." Ele disse, dando um pequeno impulso, e saímos do chão com delicadeza, subindo no ar numa curta e segura velocidade, atingindo um dos galhos da árvore e seguindo na direção da minha janela aberta.
Estendendo os braços, agarrei-me ao parapeito de madeira, passando as pernas para dentro do quarto com a ajuda de Potter.
Só percebi que meu coração estava batendo acelerado quando, já segura dentro de casa, voltei-me para encará-lo, sua expressão quase oculta pela sombra e proteção oferecida pela árvore.
"Como posso agradecê-lo?" Indaguei, cheia de uma cordialidade que não estava ali antes.
"Um simples obrigado seria bom." Ele sorria, pude perceber brevemente. Inclinou o corpo na minha direção, aproximando nossos rostos. "Mas já que você perguntou, quero que fale meu nome. Apenas uma vez está bem."
Pisquei, um pouco confusa, mas pensei que não havia nada de terrivelmente perigoso naquele pedido e concordei.
"Obrigada, James."
Houve uma súbita intensidade em sua expressão, que não existira até então, e seu maxilar endureceu. Por um instante, pensei que fosse estender os braços e me agarrar, porque foi isso que seus olhos me disseram que iam fazer, mas foi apenas um momento, e quando a brisa soprou entre nós, sacudindo as folhas, tudo havia desaparecido.
"Boa noite, Lily." Ele recuou, fazendo menção de se afastar.
"Espere." Chamei, apressada. Estendi a mão. "Meu lenço." Lembrei, expectante. "Eu gostei dele. Você disse que eu podia ficar."
Potter sorriu, enfiou a mão no bolso e tirou de lá o lenço de linho que eu havia usado para conter o sangramento do pequeno corte que tinha no braço. Eu o agarrei com firmeza, satisfeita, quase inconsciente do roçar dos nossos dedos.
Ele ficou com a atenção fixa em mim durante um segundo, estendeu a mão e fechou o indicador e o dedão sobre meu queixo, numa carícia fugaz.
"Obrigado." Disse, descendo com sua vassoura e me deixando só.
Não perdi muito tempo com quaisquer análises sobre sua palavra final. Troquei de roupa, colocando um pijama confortável, e cambaleei para debaixo do lençol, suspirando quando enfim percebi o travesseiro sobre a cabeça. Sentia o corpo mole do álcool e um leve enjoo, que tinha a esperança de que passaria após algumas horas de sono.
Acordei na manhã seguinte com os gritos de Petúnia, que aparentemente estava atrasada para um compromisso e havia manchado sua saia preferida com rímel.
Tinha uma bruta dor de cabeça e resmunguei enquanto jogava as pernas para fora da cama e seguia até a porta do quarto, abrindo-a para atingir o corredor. Petúnia desviou de mim enquanto corria na direção do banheiro, um pano úmido nas mãos. Mamãe vinha logo atrás, tentando acudi-la.
Desci as escadas, os olhos apertados. Papai estava sentado na sua poltrona perto da janela. Ergueu a cabeça ao me ver, sorrindo.
"Bom dia, princesa. O café ainda está na mesa." Anunciou, apontando com o queixo na direção da cozinha.
Gemi ao focalizar o relógio posicionado em cima da lareira: recém 8h da manhã. Pensei em voltar a dormir, mas logo o choro de Petúnia ecoou no andar superior. Suas lágrimas de crocodilo quase sempre eram capazes de fazer a casa tremer. Isso me fez desistir. Por mais que quisesse, não seria capaz de pregar os olhos enquanto ela não terminasse seu surto – eles podiam durar de trinta minutos a uma hora, dependendo do nível da catástrofe.
Assim, aborrecida, encaminhei-me para a cozinha. Talvez me sentisse um pouco melhor depois de comer alguma coisa.
Tomei uma xícara de café preto e comi duas fatias de pão torrado com geleia de morango, porque não tinha certeza se meu estômago sensível aceitaria laticínios depois da tequila da noite anterior, e agarrei um pacote de ervilhas congeladas no freezer. Quem sabe um cochilo no sofá ajudasse a diminuir o desconforto.
"Tudo bem, Lily?" Mamãe indagou assim que desceu as escadas, jogando a bolsa sobre o ombro, e viu minha expressão nauseada e o topo da minha cabeça coberto por um pacote de ervilhas.
"Sim, mãe." Respondi, a voz anasalada, e fechei os olhos com um gemido. "Só uma dor de cabeça horrível. Acho que peguei muito sol ontem."
Papai se levantou da poltrona, fechando o jornal e depositando-o sobre a mesa de centro, onde eu tinha estendido os pés. Abaixou-se para plantar um beijo sobre minha testa.
"Por que não pede para Olívia vir lhe fazer companhia?" Sugeriu, com um sorriso, ajeitando o pacote quando ele começou a deslizar.
"Talvez mais tarde. Vou tentar dormir um pouco." Disse, afundando-me entre as almofadas do sofá, e bufei ao ouvir os barulhos no segundo andar. Aparentemente, Petúnia ainda soluçava. "Quando vai ser o velório da saia da Petúnia? Ou deveria dizer, da filha da Petúnia?"
"Deixe sua irmã em paz por um dia. Ela está estressada." Mamãe agarrou as chaves sobre a lareira. "Pelo que entendi, Vernon irá apresentá-la à irmã dele hoje. E você sabe como Petúnia está sempre preocupada em parecer impecável." Revirou os olhos, aparentando algum cansaço. "Eu e seu pai chegaremos tarde. Vamos jantar com Jean-Claude e François. Deixei algum dinheiro no pote de biscoitos se você precisar comprar alguma coisa. E não fique no sol."
"Sim, claro." Concordei, porque não havia nenhuma maldita maneira de me convencer a sequer me mover com aquela dor de cabeça.
Minutos depois de eles terem se despedido e partido, eu ainda ouvia alguns resmungos de Petúnia no estado de semiconsciência em que estava. Para minha sorte, meu cansaço era muito superior à qualidade dos meus sentidos, e em pouco tempo todos os sons desapareceram e eu imergi numa profunda escuridão.
Quando acordei outra vez, estava suando, o pacote de ervilhas caído sobre o colo, molhando minha camisola, e tudo estava silencioso.
Espreguicei-me, sentindo-me melhor, e bocejei.
Joguei o cabelo por cima do ombro, levantando-me. Subi para o andar superior, agarrei uma muda de roupas limpas no quarto e segui para o banheiro. Tomei uma ducha fria, lavei os cabelos e desci para a cozinha cerca de meia hora depois, pronta para fazer um lanche de verdade.
Preparava panquecas quando ouvi a campainha soar.
Desliguei o liquidificador e corri para a porta. Vi Alex através do olho mágico e rapidamente girei a maçaneta. Ele vestia uma regata e uma bermuda jeans desbotada e tinha uma expressão nauseada típica de alguém que vomitou todo o álcool que ingeriu.
"Ainda vivo, viking?" Indaguei, dando-lhe passagem. Ele trotou pelo hall e se jogou sobre o sofá com um suspiro.
"Não exatamente." Disse, lançando um olhar preguiçoso por sob os ombros. Tinha olheiras e parecia sonolento. "Abracei a privada durante metade da madrugada." Confessou. "Mas agora acho que finalmente estou voltando ao normal. Passei um café forte, entrei debaixo do chuveiro frio e tomei alguns litros d'água para repor tudo aquilo que expeli, então logo estarei pronto para outra."
Segui para a cozinha, amarrando os cabelos úmidos num coque.
"Deus me ajude. Não vou estar pronta para outra tão cedo." Resmunguei e voltei a atenção outra vez para as panquecas.
"Seus pais não desconfiaram de nada?" Ele gritou da sala, ligando a televisão. "Sinto por tê-la deixado na mão, aliás. Como você fez para subir a árvore? Estava bêbada feito um gambá, pelo que eu me lembro. E olha que eu não lembro de exatamente muita coisa."
Agarrei a frigideira no armário debaixo da pia, depositando-a sobre o fogão, e derramei um pouco da massa nela após acender o fogo.
"Não. Se mamãe tivesse qualquer desconfiança, cabeças teriam rolado." Disse, em voz alta o suficiente para ser ouvida. Abri a gaveta para pegar uma espátula. "Potter, meu colega, me ajudou a subir. Você se lembra dele, não lembra?"
Citar Potter trouxe à tona as lembranças da noite anterior. Do seu auxílio para voltar para casa, da maneira como flertou comigo e, pior, como eu correspondi ao seu toque quente e à sua mão calejada que ainda agora pareciam extremamente atrativos, mesmo por debaixo de recordações bastante confusas e desconexas.
Não era como se eu não soubesse que havia algo mágico nele. Potter podia não ter a beleza aterradora de Sirius Black, mas tinha um considerável número de admiradoras, e alguém não pode chamar tanta atenção se não tiver nada de especial. Supunha que nunca havia sido atingida por sua teia porque nunca havia me permitido aproximar o suficiente. Assim, não sabia como seus dedos ásperos pareciam fazer cócegas sobre meu joelho, nem como seu cheiro provocava borboletas em meu estômago. O tipo de borboleta mais indecente e mais perturbador, maldito fosse.
Sim, bem, além disso, o bastardo era charmoso. E honrado. Se houvesse tentado me beijar, provavelmente não levantaria grande oposição. É claro, eu não estava estupidamente bêbada, mas a bebida normalmente me fazia mais doce do que eu gostava de transparecer. Tinha esperança de que o encanto da noite anterior fosse apenas isso: encanto da noite anterior.
"Yeah, nós nos esbarramos uma ou duas vezes." Alex apareceu na porta da cozinha, escorando-se no umbral. "Ele estava por perto enquanto estávamos no pátio traseiro. Provavelmente para garantir que você não cairia de cabeça na piscina." E deu uma risada escandalosa que soou como um trovão num dia de chuva.
Torci o nariz ao me lembrar dos nossos passos de dança totalmente fora de sincronia ao redor das espreguiçadeiras.
"Ele está afim de você, você sabe."
"Eu sei." Concordei, séria, dando as costas para ele, e me concentrei em tirar a segunda panqueca da frigideira. "Como você sabe?"
"Você não percebeu que ele quis quebrar meu nariz com um soco na noite em que fomos apresentados?" Alex ergueu a sobrancelha. "Nenhum cara tem esse tipo de reação de graça. E, né, eu tinha as mãos em você. Motivo suficiente para perturbá-lo. A verdade é que eu meio que gostei dele. Ninguém consegue lançar um olhar tão duro quanto aquele cara."
Lancei um olhar zombeteiro na sua direção.
"Não se apaixone." Zombei, o que o fez torcer os lábios em aborrecimento. "Vai comer?" Sinalizei com o queixo as duas panquecas já prontas.
"É claro." Alex esfregou as mãos e correu para o banco vazio em frente ao balcão americano. "Tem xarope?"
Peguei o xarope de amora de dentro do armário, jogando-o na sua direção. Tirei um garfo de dentro da gaveta, pousando-o ao lado do seu prato.
"Então, você vai lhe dar uma chance?" Ele perguntou depois de alguns segundos, a boca cheia.
"Ao Potter?" Alex revirou os olhos, soltando um ruído de concordância, e eu suspirei, apertando as sobrancelhas, porque sabia a resposta, a mesma que havia dado durante anos, mas de repente a lembrança das mãos dele no meu joelho parecia ter um peso muito significativo que mudava tudo. "Não. Talvez. Algum dia."
Nós terminamos de comer na frente da televisão e assistimos 007 Contra o Satânico Dr. No, com direito a sorvete de creme, no começo da tarde antes de resolvermos visitar Olívia. De acordo com sua mãe, ela estava com muita dor de cabeça para sequer sair da cama, então, se Maomé não vai até a montanha, a montanha vai até Maomé.
Como era de se esperar, ela estava a imagem da miséria, jogada entre os lençóis, o rosto meio verde, e não ergueu a cabeça quando nós entramos.
"Uma vergonha." Resmungou. Sentou-se, tirando o cabelo da frente do rosto. "Nunca mais vou colocar os pés na rua."
"O que aconteceu?" Perguntei, seguindo até a janela e abrindo as cortinas. O ar abafado de dentro do cômodo tinha um cheiro rançoso, e eu empurrei a janela, deixando entrar a brisa da tarde. Olívia chiou, escondendo-se atrás do lençol.
"Eu vomitei. Isso foi o que aconteceu." Disse, ainda atrás do seu refúgio, e rolou na cama, enrolando-se inteira. "Nos pés de Remus. Aquele nerd delicioso com quem você estuda. E que nunca mais vai querer olhar nos meus olhos depois de ter encarado meu jantar parcialmente digerido, só pra constar."
Alex começou a rir diante da imagem, o que a fez soltar um gemido dramático e langoroso.
"Remus não é esse tipo de garoto superficial." Garanti, tentando puxar seu lençol. Ela estava tão envolvida nele que tornou aquela uma tarefa árdua. "E foi um acidente. Tenho certeza de que ele vai se esquecer disso em um dia ou dois. Agora, por favor, você quer fazer o favor de sair dessa cama? Claramente seu problema não é ressaca, é vergonha, e vergonha não prende ninguém no colchão."
"Não posso." Olívia arqueou o corpo sobre os cotovelos, mordendo o lábio inferior. "Sério, foi extremamente embaraçoso."
"Por favor, não chore." Disse Alex, jogando-se na cama. Olívia pulou com seu peso. "Se um cara desiste de uma garota só por causa de um vômito, por favor, ele não é um cara."
Revirei os olhos, contendo um sorriso.
"Alex está todo filosófico sobre os caras hoje."
"O problema não é que ele vai desistir de mim. É que ele já não parecia interessado em mim. E eu não fiz nada além de piorar minha própria imagem." Rebateu Olívia, levantando-se. Seguiu até a cômoda, tirando dali uma muda de roupas. Calçou os chinelos, respirando fundo. "Bom, deixa pra lá. Existem outros rapazes por aí. Vou tomar uma ducha."
A Sra. Strauss tirou cookies do forno bem na hora em que descemos, prontos para ir para casa de Alex, porque ele precisava esconder os cacos do vaso chinês que havia quebrado antes que sua mãe voltasse do spa, e os comemos enquanto jogávamos uma partida de War na sala de jantar.
Perto das 20h, nos separamos.
Segui para casa. Acendi todas as luzes ao entrar, porque não gostava do escuro, e subi para o quarto, pronta para começar a fazer alguns deveres. Agarrei o vestido que havia jogado no chão depois da festa, dobrando-o e recolocando-o dentro do roupeiro (precisaria de uma justificativa para colocá-lo para lavar, afinal), e parei ao ver o lenço bordado em cima da escrivaninha, ao lado da janela.
Lavei-o na pia do banheiro, usando sabonete para fazer espuma suficiente a fim de esfregá-lo arduamente. Assim que a mancha de sangue desapareceu, sequei o tecido molhado com o secador.
A campainha soou cerca de meia hora depois. Franzi as sobrancelhas enquanto descia as escadas. Não achei que fosse ter mais visitas por hoje.
"Oh," ofeguei ao me deparar com Potter. "olá."
Ele estava vestindo calças jeans e uma camiseta azul escura sem estampa e passava a mão livre pelo cabelo bagunçado enquanto me encarava.
"Eu vim trazer seus sapatos." Disse, estendendo o braço. Entre seus dedos estava meu par de desconfortáveis sapatilhas douradas.
"Obrigada." Respondi, surpresa, agarrando-as. Havia me esquecido completamente delas. Então percebi que ainda tinha o lenço dele por entre os dedos. Joguei os sapatos embaixo do aparador do hall de entrada. Não pretendia voltar a usá-los. "Eu estava limpando seu lenço." Confessei, ao ver que o olhar dele baixava para o objeto, e o estendi na sua direção. "Obrigada."
Potter ergueu uma sobrancelha e enfiou as mãos nos bolsos.
"Achei que você houvesse gostado dele."
"Ah, eu gostei." Confessei, desconfortável. Na realidade, sempre achei que lenços eram algo romântico. Uma marca poética do passado. Mas não via muita utilidade em andar com um no bolso. Quero dizer, na maioria dos lugares, eu poderia usar magia. "Mas eu achei que havia sido um pouco impositiva ontem à noite, quando pedi para ficar com ele."
Ele deu um sorriso torto na minha direção.
"Você sempre é um pouco impositiva." Disse, divertido.
Eu arqueei as sobrancelhas, pronta para dar uma resposta atravessada, mas acabei por desistir. Não estávamos na escola. Não havia nenhuma necessidade de provar quem era o vencedor naquela batalha pelo poder. Ninguém estava nos julgando.
"Talvez." Encolhi os ombros, com um pequeno sorriso. Baixei o braço. Olhei através dele. As luzes da rua estavam acesas e alguns vagalumes piscavam em torno dos arbustos que mamãe havia plantado no jardim. Eles sempre apareciam no verão. Era uma paisagem tão conhecida, e Potter parecia não fazer parte dela ao mesmo tempo em que inexplicavelmente parecia completá-la. "É estranho ter você aqui." Confessei, mordendo o lábio.
"É estranho ver você no verão." Ele admitiu, após um curto aceno, e nós nos encaramos.
Ele tinha o maxilar ligeiramente quadrado e os ombros largos. Seus olhos tinham um tom amêndoa ou musgo, dependendo do ângulo da luz. Era estranho como pareciam tão sérios. Tudo que sempre havia obtido de James Potter eram gracejos.
"Obrigada por ter servido de babá para mim ontem à noite." Disse, suavemente, sabendo de todas as coisas que poderiam ter acontecido se ele não estivesse lá, ou se ele quisesse que acontecessem.
Com um novo sorriso, ele trocou o peso de um pé para o outro.
"Você já me agradeceu por isso."
"Eu sei. Mas eu não estava exatamente sóbria." Admiti, encolhendo os ombros. Houve um estranho silêncio entre nós. Não nos movemos. Coloquei a mão na maçaneta. Era hora de dar um ponto final à nossa momentânea trégua. "Boa noite, James." E fechei a porta.
Durante as horas seguintes, adiantei os deveres de casa. Havia quase um metro de tarefas para História da Magia. Quando acabei minha mão estava dolorida.
Petúnia chegou por volta das 21h, trazendo algumas sacolas consigo, e se pendurou no telefone com Paige por volta de meia hora. Sua voz aguda quase me impedia de me concentrar, mas controlei a vontade de mandá-la calar a boca. Significaria ouvir muitos outros gritos por pouca satisfação.
Estava quase indo dormir, perto da meia noite, quando papai e mamãe chegaram, meio risonhos.
A televisão estava ligada a toda altura, porque Petúnia estava assistindo a um filme de romance enquanto pintava as unhas.
"Olá, princesas." Papai deu um beijo em cada uma de nós. Seu hálito cheirava a cerveja e charuto, que ele costumava fumar em ocasiões especiais. Trazia embaixo do braço uma caixa de madeira decorada com o símbolo de Cuba que certamente deveria ter sido um presente de Jean-Claude. "Ainda acordadas?"
"Estudando." Respondi, vendo que mamãe tinha dificuldades para soltar a fivela da sandália. "Vocês se divertiram?"
"Sempre nos divertimos com Jean-Claude e François." Ela respondeu, com um sorriso mole, e soprou para tirar os cabelos da frente do rosto. Seu coque estava meio frouxo.
Jean-Claude e François compunham o casal de franceses que eles haviam conhecido durante sua lua de mel, há 22 anos, quando foram para Paris pela primeira vez. Desde então, costumavam manter contato frequente, senão através de visitas, então por cartões postais (Jean-Claude e François não tinham filhos, portanto podiam gastar suas economias viajando pelo mundo ao invés de alimentando crianças que um dia iriam chamá-los de "velhos babões" pelas costas – vulgo Petúnia).
Como não poderia deixar de ser, já havia me encontrado com ambos em diversas ocasiões e sabia como eram divertidos. Era quase impossível não gargalhar ao seu lado. Não era à toa que mamãe sempre ficava tão feliz depois das suas reuniões.
"Eles vão ficar na Inglaterra até o final da semana." Disse papai, agarrando o controle remoto para diminuir o volume da televisão, o que fez Petúnia soltar um resmungo. "Estávamos pensando em fazer um almoço no domingo. O que vocês acham?"
"Depende. Eu preciso estar presente?" Ela indagou, torcendo o nariz, e soprou as unhas recém-pintadas. "Eu meio que tinha um lance para o domingo..."
Mamãe fungou, de um jeito muito semelhante ao de Petúnia, e lançou uma olhadela indiferente na sua direção.
"Pois o lance terá de ser adiado." Avisou, arqueando a sobrancelha. "Ultimamente você anda mais interessada na nossa conta bancária do que em nós. O que nos faz pensar se existe algo no seu peito além de amor pelo dinheiro. Você sabe, mocinha, que não estaremos aqui para sempre."
Me encolhi no sofá ao ouvi-la começar o discurso.
Mamãe não costumava ser muito dramática, já que era demasiado prática para isso, mas volta e meia tinha crises sentimentais ao pensar que eventualmente a deixaríamos. Ademais, quando completou trinta anos começou a se preocupar verdadeiramente com a poupança e com a herança que nos deixaria e sobre como devíamos aproveitar a presença um do outro enquanto era tempo.
De inicialmente engraçado, logo se transformou em aborrecedor.
"Mãe..." Petúnia lançou na sua direção aquele olhar de Por-favor, cuja vítima preferida parecia ser Paige.
"Querida, está tarde. Vamos discutir sobre isso amanhã." Sugeriu papai, vendo que a conversa levaria um dos envolvidos às lágrimas, e começou a subir as escadas, procurando fugir o mais rapidamente possível daquele arroubo dramático. "Tenho uma reunião importante às 10h e preciso estar descansado. Boa noite, bonequinhas."
Mamãe terminou de tirar as sandálias e se levantou, aborrecida.
"Tsc. Vocês não tem mesmo um pingo de amor pela mamãe!" Reclamou, abandonando a sala de modo teatral.
"Por que papai permite que ela beba?" Resmungou Petúnia para si mesma, vendo-a se agarrar no corrimão e oscilar lance de escadas acima. Fechou o esmalte, agarrando o controle remoto para aumentar o volume da televisão outra vez.
Fui para cama cerca de uma hora mais tarde.
Embora o tempo estivesse levemente abafado, havia uma brisa agradável e por isso deixei a janela aberta e me enrolei no lençol. Devo ter dormido em alguns minutos, porque não ouvi mais nada durante o resto da noite, que foi bem animada, pelo que vim a saber no dia seguinte.
N/A: Bem, como prometido, aqui tivemos nosso primeiro momento LilyJames! Eles não são fofos juntos? :3 Esperem até ler a cena que planejei para os dois!
No próximo capítulo, como a própria Lily bem falou, descobriremos o que aconteceu nessa madrugada, que foi bem animada (com direito a escândalos e tudo!). E teremos um pouco mais das irmãs McKenzie, porque não podemos ignorar Lauren e Isabelle, não é mesmo?
A título de curiosidade, os nomes dos próximos dois capítulos já estão decididos: "A Notícia Quente do Século" e "Desmistificando a Acromântula Diabólica".
Espero que vocês continuem acompanhando! Nos vemos logo ;))
