CAPÍTULO QUATRO: A NOTÍCIA QUENTE DO SÉCULO
A história começava mais ou menos com os ovos que, segundo Olívia me contou, Louis e Leonard jogaram na janela da Sra. Walter, em represália por ela ter denunciado Danna à polícia. Porque Danna, como uma boa namorada, havia ido jantar na casa dos Walter, acompanhando sua sogra no Encontro Semanal de Leitoras de Romance, e, como a boa cleptomaníaca que era, não resistiu à tentação de afanar uma pulseira de prata.
Para o horror das fofoqueiras da rua, ela foi pega no pulo pela sobrinha de cinco anos da Sra. Harper, que a dedurou. Com alguma conversa, a Sra. Thompson convenceu a Sra. Walter e as demais a manterem silêncio a respeito do episódio, mas parece que foi só ela dar as costas que a polícia entrou na história.
Danna foi levada à delegacia para prestar depoimento (e provavelmente cumprir algumas horas de serviço comunitário no futuro), e isso aparentemente deixou Louis furioso, porque ele logo resolveu se vingar.
Para seu azar, porém, o Sr. Walter ainda estava acordado, assistindo aos melhores lances de uma partida de rúgbi, e viu os infratores. Sr. Walter, como antigo fuzileiro, reagiu do jeito que melhor sabia reagir: pegou sua espingarda para assustá-los.
Concomitante a isso, a Srta. Green havia resolvido aproveitar a noite fresca para tricotar na varanda e ouviu a gritaria. Corajosa como o filho definitivamente não era, saiu correndo para tentar intervir, com Black e Potter em seus calcanhares, e rapidamente toda a vizinhança estava na briga.
O fato é: como eu não acordei, eu não sei.
Só fui abrir os olhos no dia seguinte, às nove da manhã, com Petúnia me sacudindo porque Olívia já havia telefonado três vezes.
"Dê um jeito de se livrar dessa garota." Ela rugiu, apontando o dedo na minha direção logo que entreabri os olhos. "E limpe a piscina, que está cheia de folhas secas. Você perdeu a aposta, portanto ainda tem mais quatro semanas de castigo."
Ah, sim, a aposta.
Erroneamente, eu havia cometido o erro de duvidar da capacidade intelectual de Petúnia, afirmando que ela não era capaz de responder a uma questão complexa de lógica em menos de três minutos. É claro, ninguém me culparia por pensar que os neurônios dela haviam cometido suicídio após o começo do seu relacionamento com Vernon. Afinal, ninguém em sã consciência faria algo assim consigo mesmo.
Mas a verdade é que ela me surpreendeu: deu a resposta em dois segundos e quinze e, como eram as regras, escolheu meu castigo.
Conhecendo Petúnia como conheço, ela poderia ter escolhido um milhar de alternativas mais vergonhosas ou cabalmente humilhantes. Mas havia seguido pelo caminho mais agradável, aliviando as próprias responsabilidades, e decidiu, ao invés de me obrigar a correr nua pela rua ou algo assim, deixar a limpeza da piscina, que revezávamos semanalmente, para mim até o final das férias de verão.
Eu poderia ter reclamado, mas sabia que protestos resultariam em cargas piores, portanto aceitei.
"Está bem, está bem." Resmunguei, sentando na cama e esfregando a bochecha. "Por que ela está tão desesperada assim?"
Petúnia, que àquela altura já estava chegando à porta, rodou nos calcanhares e lançou um olhar sarcástico na minha direção.
"Você por acaso não ouviu os gritos na noite anterior, orangotango?" Indagou, arqueando uma sobrancelha diante da minha expressão confusa. "Devia começar a lavar os ouvidos."
Então eu levantei, lavei o rosto, escovei os dentes e fui telefonar para Olívia, porque Petúnia se negou a me dar quaisquer outras explicações, alegando estar ocupada demais para prestar atenção em mim, e foi se arrumar para um encontro com as amigas que tinha naquela tarde.
"Foi a notícia quente do século." Disse Olívia, assim que adentramos no assunto. "Eu peguei o bafafá na metade, mas quando cheguei Sirius estava segurando Louis. Leonard estava chapado, é claro, e provavelmente foi por isso que aceitou acompanhar o irmão em primeiro lugar."
Percebi que ela se referiu a Black por seu primeiro nome, mas optei por apontar aquele fato mais tarde.
"E o que aconteceu?"
"Danna roubou uma pulseira e a Sra. Walter, como era de se esperar, não pôde resistir à tentação de ver sangue esguichando e prestou queixa." Explicou Olívia, logo continuando a contar os detalhes que sabia, o que fez com que nossa conversa durasse cerca de cinco minutos.
"Ela já está em casa?" Indaguei enfim, referindo-me a Danna.
"O que você acha? Obviamente que não. O Sr. Thompsom pagou sua fiança. Ela e Louis voltaram para Londres. São delinquentes demais para viver entre nós. Além disso, a Sra. Thompsom estava preocupada com a má influência de Louis sobre Leonard."
Mordi o lábio ao pensar em não voltar ver Louis naquelas férias.
Era um pouco desanimador ser privada da sua presença. Não importando o quanto eu me esforçasse para superar aquela paixonite, ela se negava a me abandonar. Meu coração batia sempre rápido perto de Louis. Como havia Danna, porém, e a bem verdade é que eu gostava do humor áspero de Danna, aprendi a controlar meus sentimentos.
Agora simplesmente não importava mais, já que eu não voltaria a vê-los.
"Oh." Foi tudo o que pude formular, decepcionada.
"Não me diga que você está pesarosa, Lily Evans." Rebateu Olívia, incrédula. "Achei que já havia se conformado com o fato de que você e Louis, Louis e você, vocês nunca serão um casal."
"Só porque eu me conformei não quer dizer que ainda não alimentasse esperanças secretas." Apontei, em tom de obviedade, o que a fez bufar do outro lado da linha. "Agora, trocando de assunto, você pode me explicar como, num intervalo de uma madrugada, você passou a se referir a Black como Sirius?"
"Ora, achei que devia lhe dar um voto de confiança depois de ter sujado seus sapatos com respingos de vômito." Ela disse, na defensiva. "Sei que você não gosta dele, e acredito que deve haver algum motivo, mas na realidade eu penso que ele é bastante divertido. Além disso, se ele e James não estivessem por perto para segurar Louis e o Sr. Walter, a situação poderia ter terminado em um caos ainda maior."
Refleti e considerei que ela talvez estivesse certa. Só porque eu não os suportava, não queria dizer que Olívia não pudesse gostar deles.
"Acho que você está certa." Admiti. "Bem, apenas não me obrigue a coexistir com Sirius Black, por favor."
Ela riu.
"Está bem. Palavra de escoteira." Garantiu. "Preciso desligar. Eu e mamãe vamos almoçar com a vovó hoje. Nos vemos mais tarde."
Assim que desligamos, voltei para o quarto, pus um biquíni, um short jeans de cintura alta e um boné. Espalhei protetor solar fator 50 sobre o corpo, o que eu detestava, detestava fazer, e calcei os chinelos para ir para a beira da piscina.
Primeiro organizei as cadeiras e objetos que ficavam jogados sobre a mesa. Como costumávamos passar o dia em torno da piscina, havia desde revistas do ano passado a jogos de tabuleiro e copos de plástico sujos e papeis de balas e chocolates por entre as espreguiçadeiras e afins. Depois, coloquei o cloro, liguei o motor e comecei a tirar as folhas secas da água.
Estava cantarolando uma música do Rolling Stones, numa tentativa de me distrair do peso do sol sob meus ombros e da tarefa tediosa, quando a campainha soou.
"Atende a porta, cabeça de fósforo!" Petúnia enfiou a cabeça para fora da janela do seu quarto, no segundo andar, que dava direto para o pátio traseiro. Tinha o rosto cheio de creme de abacate.
Fiz uma careta. Ela parecia ter saído de um filme de terror.
"Já vou, já vou." Resmunguei.
Abri a porta no exato momento em que a campainha soou outra vez. A Srta. Green estava parada na soleira, um sorriso plácido no rosto suado, usando um vestido florido que fazia com que parecesse ainda mais roliça, mas de algum modo bonitinha como uma matrona da era vitoriana.
"Oh, olá, Lily." Disse, suavemente. "Era com você mesma que eu queria falar." Admitiu, dando uma olhadela por cima do meu ombro. "Sua irmã não está nos ouvindo, presumo?"
"Não, ela está muito ocupada com seu ritual de embelezamento Frankenstein." Garanti, embora soubesse que ela não entenderia a referência, e suas sobrancelhas loiro-escuras se franziram em confusão.
"Oh." Fez outra vez, mas, como eu não fiz questão de explicar, ela não ousou questionar. "Bem, é que, você sabe, eu decidi me mudar para uma vizinhança trouxa atrás de mais proteção agora que me separei do pai de Peter, e, bem," a Srta. Green pigarreou, levemente constrangida. "estou tentando aprender a mexer com os utensílios trouxa para evitar chamar a atenção. Será que você se incomodaria em me ajudar a acender o forno?"
Hesitei, porque não queria correr o risco de me deparar com a trupe do Potter, porém acabei por concordar, já que seria muito rude dizer que estava ocupada (embora eu estivesse, sim, ocupada), quando estava claramente de biquíni, uma apologia à preguiça.
"Claro." Disse, mordendo o lábio. "Só deixa eu pegar a minha chave." Avisei, caminhando até o pé da escada. "Petúnia, vou ali na vizinha e já volto!" Gritei e, como era de se esperar, não obtive resposta. Na volta, agarrei o molho de chaves sobre o aparador.
A Srta. Green sorriu quando me viu fechar a porta.
"Obrigada." Falou, começando a descer os degraus que levavam à varanda. "Sei que você e os garotos não se dão muito bem. Mas não se preocupe, pois todos estão dormindo. A noite foi bastante agitada ontem."
"Eu fiquei sabendo." Assenti, enfiando os fiapos de cabelo vermelho que se soltaram do coque para dentro do boné. "Que bom que vocês chegaram a tempo para intervir."
Ela concordou, um pouco mais séria, e nós cruzamos nossos jardins, seguindo pela grama na direção da varanda dela.
"Sei que o Sr. Harper não faria nada de perigoso e que queria só assustá-los, mas se existe algo que aprendi desde que Você-Sabe-Quem surgiu, é que sempre devemos manter os dois olhos abertos para qualquer situação de perigo iminente." Falou, girando a maçaneta e adentrando a residência.
Você-Sabe-Quem era um título que começava a se popularizar mediante o terror espalhado por Voldermort. Não era surpreendente que as pessoas temessem dizer seu nome, como se receassem evocar a má sorte. Com o rastro de cadáveres de mestiços e filhos de trouxas que ele deixara pela Inglaterra, era extraordinário como eu ainda não havia entrado em parafuso.
Mas o trato comigo mesma era simples e havia funcionado com eficiência durante esses últimos seis anos: os problemas do mundo mágico ficam no mundo mágico. Assim, logo que pus os pés em casa outra vez, no começo das férias de verão, empurrei todos os temores, todas as notícias de Hogwarts e do Ministério da Magia para fundo da minha mente, e só tornarei a abrir essa porta no dia do embarque na estação.
Eu merecia esses últimos meses de descanso, pois seriam meus últimos meses em meio aos trouxas.
"Você está certa, Srta. Green." Disse, seguindo-a e olhando ao redor.
A sala era simples e ainda havia várias caixas empilhadas. As cortinas já haviam sido colocadas, provavelmente para possibilitar o uso de magia dentro da residência, e não existia nenhum objeto mágico até onde minha vista alcançava.
A Srta. Green estava fazendo um bom papel bancando uma mulher normal e comum. Exceto com relação à sua cozinha.
Precisei conter uma careta quando entrei no cômodo. Havia pilhas de louça suja, aquilo que eu acreditava ser um pouco de massa para biscoitos na parede e um liquidificador sujo sobre a bancada de mármore. Sobre a mesa se encontravam as caixas de um processador de alimentos ainda lacrado e de uma batedeira. Alguém andava tendo experiências interessantes por ali.
"Não repare na bagunça." Ela deve ter percebido minha expressão chocada. "Não sabia que devia colocar a tampa no liquidificador antes de ligá-lo. Tomei um banho de massa ontem."
"Tudo bem." Controlei um sorriso, imaginando a cena. "Acontece nas melhores famílias." Disse, bem humorada, e me abaixei perto do fogão. Abri a tampa, verificando o forno. Ainda reluzia de novo. Supus que não ficaria daquela forma durante muito tempo, considerando a (falta de) aptidão culinária da Srta. Green. "Bem, o processo na realidade é bastante simples. Você tem fósforos?" Indaguei, levantando o rosto para fitá-la.
"Sim." Ela olhou angustiada ao redor, revirando algumas gavetas do armário debaixo da pia antes de encontrar uma caixa de fósforos, a qual estendeu na minha direção.
"Então," tirei um fósforo de dentro da caixa, falando num tom escolar. "tudo o que você precisa fazer é girar esse botão." Apontei para o dito cujo, girando-o. "Quando você o faz, libera o gás. Depois, você deve abrir a tampa do forno, riscar o fósforo e aproximá-lo do buraco que tem sobre a base de metal, onde fica a boca da chama."
Reparei que a Srta. Green estava espiando por sobre meus ombros, observando ansiosamente todo o processo, e assentia com a cabeça conforme eu falava.
"Parece simples." Disse. Arqueou as sobrancelhas, surpresa, quando viu a chama azul dançar. "Está aceso?"
"Sim." Levantei-me e olhei ao redor atrás de uma lixeira. Acabei deixando o fósforo usado sobre a pia, já que não havia encontrado o local adequado para depositá-lo. "Após isso, tudo o que você precisa fazer é colocar a travessa no forno, fechar a tampa e esperar. Exatamente como acontece com os fornos mágicos. Exceto que eles não avisam quando a comida está pronta. Você mesma deve fazer a vigília."
A Srta. Green fez um ruído de concordância, sua atenção presa no objeto, como se estivesse tentando desvendá-lo, e eu dei a volta na bancada americana de mármore que separava a cozinha da sala de jantar e me escorei sobre ela.
"Por que você não tenta uma vez, só para ter certeza de que consegue?" Sugeri, com um sorriso divertido nos lábios.
"Está bem." Ela esfregou as mãos na lateral do vestido e agarrou um fósforo, determinada.
Começava a acendê-lo quando eu a lembrei de desligar o forno primeiro.
Ficamos por um instante em silêncio, enquanto a Srta. Green tentava acertar o fósforo na pequena boca do forno. Os dedos gorduchos dela tremiam, o que quase me fez ter vontade de gargalhar. Havia me esquecido de como era engraçado ver os bruxos manusearem os objetos trouxas.
Na primeira vez em que vira uma televisão, Cassandra ficara tão encantada com o aparelho que pareceu ter entrado em estado de choque. Precisei explicar diversas vezes seu funcionamento para fazê-la compreender que não, não havia nenhuma pessoa enfeitiçada lá dentro. Quanto mais um milhar delas. Desconfio que até hoje ela duvide um pouco da minha palavra.
"Ei, quem é essa coisinha linda?" Gelei ao ouvir a voz de Black, e voltei o rosto na sua direção.
Ele estava sem camisa, vestindo apenas uma bermuda preta, os cabelos negros bagunçados, a perfeita imagem da perdição. Exceto que seu sorriso cafajeste morreu no exato instante em que me reconheceu e isso tirou um pouco da magia do momento.
"Evans." Disse, surpreso.
"Black." Reiterei, sarcástica, arqueando uma sobrancelha. "Suponho que deveria agradecer pelo elogio."
Os olhos negros dele deslizaram por toda a minha silhueta de modo apreciativo antes de se voltarem para meus próprios olhos.
"O que você está fazendo aqui?" Indagou. "De biquíni?"
"Consegui!" Naquele momento, a Srta. Green se levantou, sacudindo o fósforo queimado, de cujo ainda saía uma curta fumaça, uma expressão triunfante no rosto. "Lily, eu consegui! Funcionou exatamente como você falou." Garantiu, garbosa, e voltou o rosto redondo para Black, sorrindo. "Sirius, meu bem, achei que vocês fossem dormir até tarde hoje."
"É, hmm," ele se remexeu, desconfortável. "está um pouco calor lá em cima."
A Srta. Green anuiu, parecendo achar graça.
"Docinho, eu avisei que quatro rapazes dividindo um pequeno quarto faria o cômodo esquentar na velocidade da luz." Disse, e deu a volta no balcão para que pudesse se aproximar. Como alguém que já está treinado, Black se abaixou e depositou um beijo sobre sua bochecha. "Sente-se ao lado de Lily. Vou preparar seu café da manhã." Depois se virou para mim. "Está com fome, bonequinha?"
Contive um sorriso enquanto Black montava sobre o banco alto ao meu lado.
"Bonequinha?" Perguntei, questionadora.
"Acho que é a sua pele." Explicou a Srta. Green, pensativa. Aproximou-se, abrindo a geladeira, de onde tirou ovos, manteiga e leite. "É linda. Você me lembra da boneca de porcelana que eu tinha quando era criança. Chorei durante horas quando a perdi. Uma verdadeira tragédia. Sirius, você quer quantos ovos?"
"Dois." Ele disse, cruzando os braços e apoiando o corpo sobre o balcão. Olhou ao redor. "Você andou redecorando a cozinha, Srta. Green?" Indagou, divertido, o que a fez rir.
"Apenas aprendendo a mexer nos utensílios trouxas." Confessou. Quebrou os dois ovos contra a borda da pia e os deixou cair sobre a frigideira que tirou de dentro do armário aéreo e untou rapidamente com óleo. "Eles são os mais divertidos. Acredito que há algum tempo já não ria tanto. Você precisa ouvir o ruído que faz aquele liquidificador." Fitou-me. "E você?"
Sacudi a cabeça.
"Ah, não, obrigada. Já tomei café da manhã." Menti, porque não queria ficar ao lado de Black mais tempo que o necessário, embora ele não parecesse muito interessado em me aborrecer. "Na realidade, eu preciso ir. Ainda tenho que limpar a piscina."
"Ah, claro." A Srta. Green anuiu. "Bem, obrigada. Apareça qualquer tarde dessas para tomar um chazinho comigo. Eu posso expulsar os rapazes se você quiser." E me deu um sorriso confidente.
"Ei." Black soltou um resmungo ultrajado.
"Seria legal." Concordei, rindo. Depois me afastei da bancada, onde ainda estava escorada. "Nós nos falamos mais tarde. Não se preocupe, eu acho o caminho." Garanti, vendo que ela pretendia deixar o que estava fazendo para me guiar. "E não se esqueça de desligar o forno se não estiver usando." Apontei para o fogão.
"Ah, meu Deus, eu já ia me esquecendo! Obrigada!"
Deixei a cozinha e segui para o hall, ainda sorrindo, porque era difícil não gostar da Srta. Green depois que se passava alguns segundos ao seu lado, e não percebi que alguém descia as escadas. Ajeitando outra vez o boné, enfiando os fios fugidios para dentro do mesmo, bati no peito do recém-chegado.
Reconheci o aroma natural de Potter antes mesmo de erguer a cabeça. Era difícil ignorá-lo. Cheirava como o paraíso.
"Desculpe." Ele falou, surpreso, e pareceu ainda mais surpreso quando baixei os braços e ergui o rosto. Ele tinha a barba por fazer, os cabelos ainda mais desarrumados que o habitual, como se tivesse tomado um choque. Sua expressão sonolenta desapareceu ao me reconhecer. "Lily?"
"Oi." Disse o que achei que devia dizer naquela situação, embora estivesse ligeiramente desconfortável, e de repente me fiz muito ciente do fato de que usava um biquíni azul turquesa e um short jeans que não era muito decente. Diabos, não calçava nem mesmo os chinelos.
Ele pareceu perceber minha indumentária, porque sua boca afrouxou um pouco.
"Eu... hm," começou a falar, mas parou, e houve um silêncio pesado entre nós. "você fica bem nessa cor."
Eu devia ter feito outra coisa, bufado ou ignorado ou dado uma resposta atravessada, mas sorri. Era engraçado como ele se esforçava para quebrar a tensão que se formou. Não sei se alguma vez teria aquela capacidade. Ou aquela vontade. Das outras vezes em que isso acontecera, eu simplesmente interrompera nosso diálogo e aí se acabara o problema.
"Obrigada, eu acho." Terminei de ajeitar o boné. "Eu estava ajudando a Srta. Green a ligar o forno. Mas vou indo agora." Apontei para a porta. "Até mais tarde."
Desviei do seu corpo sólido e principiava a dar um passo na direção da saída quando sua mão áspera e quente se fechou sobre meu pulso, impedindo-me de continuar.
"Espere." Potter falou, a voz carregada. Suas sobrancelhas estavam muito unidas quando voltei o rosto por sobre o ombro para fitá-lo. "Lily, eu..."
O que quer que ele fosse dizer, porém, foi interrompido por um ruído que vinha da rua. Na realidade, não demorei a identificar aquele ruído como a voz de alguém. A voz de Petúnia, mais especificadamente, que me chamava.
"Cabeça de fósforo! Cabeça de fósforo!"
Fiz uma careta ao considerar que metade da rua poderia ouvi-la. Não que todos não soubessem sobre nossa relação turbulenta e sobre como costumávamos pegar no pé uma da outra, mas ela não tinha nenhuma necessidade de sair espalhando meus apelidos vergonhosos.
"É minha irmã." Expliquei, desconfortável. Pousei a outra mão sobre a de Potter, para obrigá-lo a me soltar. Seus dedos afrouxaram e seu braço despencou ao lado do corpo. "Preciso ir." Disse, arriscando um sorriso de desculpas na sua direção, porque não costumava ser mal educada, não importando com quem fosse, e corri na direção da porta, abrindo-a e atingindo a varanda.
Petúnia estava parada na frente da nossa casa, as mãos na cintura, o corpo enrolado num roupão rosa, o rosto já livre da máscara verde.
"O que você está fazendo aí?" Ela resmungou ao me ver correr por sobre a grama que separava nossos jardins.
"Eu avisei que ia dar um pulo na casa da Srta. Green." Rebati, secando as palmas da mão, que suavam de um modo estranho, contra o tecido do short jeans. Lambi os lábios. "O que você quer?"
Sacudindo a cabeça, fazendo os cachos despencarem do coque, ela bufou e tornou a entrar em casa, deixando a porta aberta atrás de si.
"Eu não quero nada." Reiterou, seca. "É só que o telefone não parava de tocar. Não consigo me maquiar se tomo um susto a cada minuto. Você pode dizer aos seus amigos retardados para pararem de telefonar de cinco em cinco minutos?"
"Você ao menos atendeu ao telefone para ver quem era?" Arqueei uma sobrancelha, sarcástica.
Ela relanceou um olhar azedo na minha direção enquanto começava a subir as escadas.
"É claro que não, mas eu sei que é para você. Vernon está trabalhando e Paige ia passar o dia no spa." Resmungou, mal humorada, ajeitando o cabelo de modo atrapalhado. "Provavelmente será Alex ou Leonard ou qualquer delinquente com quem você costume socializar. Depois daquela tal de Danna, não me surpreenderia se você trouxesse um ex-presidiário para dentro de casa."
Bufei, mas não respondi, porque sabia que discutir não valia o esforço. Deixei-a ir e aproveitei o novo silêncio para retomar o trabalho na piscina.
Quando terminei, puxei o rádio para o pátio traseiro e coloquei um LP do AC/DC. Ouvi Black In Black enquanto preparava o café da manhã: sanduíches de peito de peru com tomate e uma batida de leite com morango. Quando terminei, limpei a cozinha, peguei uma revista e me esparramei na espreguiçadeira para aproveitar o sol da manhã. Petúnia havia saído há pouco tempo.
Perto das onze horas, a campainha soou. Esperava por Alex, já que ele aparecia sempre, mas Leonard foi uma surpresa.
"Oi, Lils." Ele falou, sorrindo, ainda com olheiras, usando uma regata branca e uma bermuda de algodão. "Posso me juntar a vocês hoje? Minha mãe não quer ver minha cara nem pintado de ouro depois que descobriu a reserva de maconha dentro da minha gaveta de meias."
Contive uma gargalhada. É claro que Leonard seria óbvio o suficiente para esconder um saco de maconha num lugar como aquele.
Era surpreendente que tivesse notas tão espetaculares na faculdade. Na maior parte do tempo parecia estar tão obtuso do mundo ao seu redor que não transparecia qualquer indício da sua inteligência superior. Mas eu não o culpava por tentar se abstrair da realidade durante as férias. Era para isso que as férias serviam, afinal: deixar os problemas para trás e relaxar.
"Sem problemas." Garanti, cedendo passagem. "Entrem. Chegaram na hora certa. Estava começando a ficar um pouco entediada."
"Eu ainda estou com um pouco de sono, pra falar a verdade." Disse Alex quando fechei a porta atrás de nós. Ele tirou a camiseta verde, jogando-a sobre o ombro, e arrancou meu boné, movimento ao qual respondi com um grito de protesto, colocando-o na própria cabeça. "Como você pode não ter acordado com a gritaria?"
"Foi a maior ação que tivemos em anos, eu acho." Admitiu Leonard, jogando os chinelos para o canto do pátio, embaixo do guarda-sol, e se espreguiçando.
"Eu não sei. Suponho que meu sono sempre seja assim." Encolhi os ombros, tentando ajeitar os cabelos bagunçados, e os prendi num coque, utilizando seu próprio comprimento para dar um nó. Empurrei os fios soltos para trás da orelha. "Seu irmão vai voltar?" Indaguei, ansiosa, vendo Leonard se jogar na espreguiçadeira onde eu estava minutos antes e abrir a revista sobre moda.
Ele sacudiu a cabeça, distraído.
"Acho que não." Disse. "Mamãe deu um escândalo depois do episódio da pulseira. Eles tiveram uma briga feia. Não que isso seja surpreendente, porque eles sempre têm brigas feias. Mas dessa vez falaram coisas que não deviam um para o outro. E Louis fez as malas e pediu para que papai os levasse para a estação. Ele provavelmente não vai aparecer durante os próximos meses."
"E você não está preocupado?"
"Eu deveria?" Leonard arqueou uma sobrancelha e virou uma página. "Louis sabe se cuidar. Melhor do que eu, na realidade. Ele tem uma vida em Londres, um emprego. Só veio para cá durante suas férias porque mamãe pediu. E eu acho que ele realmente gosta de Danna. Ele pirou quando mamãe falou mal dela. Então é melhor que eles não se vejam durante algum tempo. Até a poeira baixar. Danna claramente não se encaixa aqui. Ela pensa que nossos pais são cafoninhas alienados e subjugados pelo capitalismo e que vamos todos seguir pelo mesmo caminho."
As concepções de Danna sobre a vida em sociedade não me surpreendiam. Eu gostava do seu humor áspero e da sua risada asmática, muito embora ela houvesse roubado Louis de mim. Ela era o tipo de pessoa revolucionária que fazia a diferença, e só de estar ao seu lado eu me sentia um pouco mais forte e independente também.
Pensar que não voltaria a vê-los me deixou um pouco triste.
"Deus, chega desse assunto." Alex tomou a dianteira antes que pudéssemos continuar a conversa. Abaixou-se para aumentar o volume do rádio. "Talvez nós devêssemos sair hoje à noite. O que acham de jantarmos em algum lugar?"
"Preciso ver com a mamãe. Meu castigo hipoteticamente termina hoje." Disse, sentando-me na cadeira que havia ao redor da mesa. Cruzei as pernas.
"Depois de ter visto o que Danna pode fazer, a Sra. Evans provavelmente deve estar agradecendo aos céus por ter uma filha como você." Falou Leo, divertido, e eu soltei uma risada baixa, embora ainda desanimada. Então ele olhou ao redor e fixou a atenção na cerca alta que dividia minha residência e a da Srta. Green. "Ei, os caras novos da vizinhança moram aí ao lado, não é?"
Anuí, desconfortável. Era estranho pensar que ultimamente eles estavam envolvidos em todos os acontecimentos importantes do bairro.
"Sim."
"Por que você não os convida para darem um pulo aqui?" Sugeriu Leonard, levantando-se da espreguiçadeira e jogando a revista sobre a mesma. "Eu ainda não agradeci direito por eles terem impedido Louis de pular no pescoço do Sr. Walter."
"É, não, eu acho que não seria uma boa ideia." Neguei com a cabeça, mordendo o lábio, e desviei os olhos.
"Lily não gosta dos caras." Explicou Alex, percebendo a confusão na expressão de Leonard. "Ela estuda com eles." Gesticulou, indiferente, e agarrou meu protetor solar para começar a espalhá-lo pelo tórax e pelas pontas das orelhas, que geralmente ficavam queimadas do sol. "Lils, espalha protetor nas minhas costas."
Levantei, aproximando-me dele e peguei o tubo das suas mãos.
"E não é só isso." Disse. "Você não acha que seria um pouco inadequado receber tantos garotos na minha casa? Quero dizer, vocês sabem como a Sra. Walter está sempre de olho. Ela adoraria ter algum motivo para espalhar boatos sobre mim."
Leo me encarou, um pouco surpreso.
"Como alguém poderia espalhar boatos sobre você? Você é a imagem da virtude, Lils! Principalmente quando usa aquele vestidinho amarelo. Parece uma garotinha." E me presenteou com um sorriso torto que continha um perceptível que de malícia. Por serem irmãos gêmeos, ele e Louis possuem muito em comum, exceto que Louis sempre parecia mais selvagem e misterioso, enquanto Leonard ficara com toda a inteligência e astúcia.
Fiz uma careta, controlando um sorriso.
"A imagem da virtude." Repeti, com as mãos ainda sobre os músculos das costas de Alex. "Faz quase com que eu me sinta como uma divindade. Vocês devem se curvar a mim, mortais?"
"Acho que não, espertinha." Alex se virou, dando um piparote na minha testa. "Mas você bem que gostaria, hein?" Agarrou o protetor solar da minha mão, arremessando-o para Leonard, que o pegou no ar com alguma dificuldade. "Passa na cara aí, branquelo. Você está descamando igual cobra trocando de pele."
Naquele momento a campainha soou, o que me surpreendeu, porque Olívia não estaria de volta até metade da tarde e eu não podia pensar em mais ninguém que viesse me visitar por livre e espontânea vontade. Limpando as mãos no short jeans, segui na direção da porta. Atrás de mim, absorvido pelas notas da música, Alex simulava uma guitarra e cantava TNT, do AC/DC.
Girei a maçaneta e abri a porta. Lauren e Isabelle estavam na soleira. Usavam vestidos de verão leves e de alças nas cores azul e roxo, respectivamente, com biquínis por baixo. Os cabelos castanhos e brilhantes de ambas estavam escondidos atrás de largos chapéus. Carregavam bolsas trançadas nos braços.
Ergui as sobrancelhas ao vê-las.
"Bom ver você, Liloca." Lauren se aproximou, plantando dois beijinhos no meu rosto, e passou por mim, seguindo na direção do pátio traseiro.
Belle fez o mesmo, sorrindo largamente.
"Viemos nos inteirar das fofocas." Explicou, e rebolou na direção de Alex e Leo, sem me dar outra opção senão suspirar, porque sabia que algo viria daí, e segui-las, fechando a porta.
Alex e Leonard repetiram a história com detalhes cada mais exagerados daquela vez, de modo que pudessem obter as reações apropriadas das garotas, reconhecidamente dramáticas. Elas fizeram caras e bocas, soltaram gritinhos em momentos estratégicos e riram quando descobriram sobre o esconderijo de maconha de Leonard.
Sentada numa das espreguiçadeiras, meio entretida com minha revista, mas com metade da atenção na conversa, ergui os olhos quando vi Lauren jogar o longo cabelo brilhante por sobre o ombro e empinar os peitos.
"Pois eu sou seu anjo da guarda, Leo, querido. Tenho algo aqui na bolsa que vai curar sua crise de abstinência." E inclinou o corpo, enfiando a mão dentro da bolsa trançada, que deixara ao lado da cadeira, debaixo do guarda-sol. Tirou dela um saquinho cheio de folhas de maconha e folhas de celofane. "Consegui com um antigo colega de escola na nossa última festa."
"Vamos fazer um baseado." Sugeriu Alex, ansioso. "Faz tempo que não fumo uma erva da boa."
"Faças as honras, Leonard!" Isabelle pulou na cadeira, tomando o saco da mão da irmã e passando-o para Leonard, que o agarrou com uma expressão apreciativa. "Você precisa me ensinar sua técnica. Os meus nunca ficam tão profissionais quanto os seus."
"Anos de treinamento árduo, meu bem." Ele respondeu, com um sorriso torto.
"Sua irmã insuportável não está em casa, não é, Lily?" Indagou Lauren, voltando o rosto para mim.
Embora Lauren e Petúnia regulassem de idade, nunca haviam se dado bem. Petúnia achava que Lauren era uma lambisgoia atirada, que estava sempre tentando arriar as calcinhas para o namorado alheio (o que não era de todo mentira). Lauren, por sua vez, acreditava que Petúnia era uma pessoa sexualmente reprimida e puritana demais para ser agradável (outra vez, não era de todo mentira). Desse modo, trocavam farpas sempre que se viam. O que era um pouco engraçado, porque elas usavam os xingamentos mais baixos com os semblantes mais doces.
Encolhi os ombros, indiferente. Petúnia não estava em casa agora, mas, com Vernon trabalhando e Paige indisponível, ela se transformava numa bomba-relógio: poderia explodir na minha porta a qualquer momento.
"Não por enquanto." Disse, fechando a revista e me sentando melhor para ver Leonard trabalhar. Ele tinha dedos ágeis para enrolar. "Portanto é melhor que vocês não fiquem altos demais. Ela adoraria nos delatar para nossos pais."
"Você não vai dar nem uma tragada?" Isabelle me fitou, surpresa.
"Eu vou." Garanti, tranquilizando-a. "Mas diferente de alguns de vocês, a maconha não me faz ficar doidona, só me faz ficar relaxada. E não quero você tirando a roupa porque de repente decidiu que quer viver a vida em liberdade pura." Apontei, citando sua última experiência, o que fez Alex começar a gargalhar.
Havíamos tido um trabalho danado para convencer Isabelle a tornar a se vestir no verão passado. Quase havíamos sido surpreendidos pela Sra. Strauss, o que fez Olívia prometer que nunca mais fumaria dentro de casa.
"Águas passadas." Ela fez um sinal de descaso, embora contivesse um sorriso. Tirou um isqueiro da bolsa, lançando-o na direção de Leonard. "Aqui, Leo. Comece os trabalhos."
"Vai ser um prazer acender essa belezinha." Disse Leonard, alguns segundos depois, levantando-se e segurando o baseado por entre os dedos. Acendeu-o, arremessando o isqueiro de volta para Isabelle, e se sentou ao pé da cadeira de Lauren, estendendo as pernas, dando uma profunda tragada. Fechou os olhos por um segundo antes de soltar a fumaça, então entregou o baseado para Alex.
Cerca de dez minutos e vários revezamentos depois, estávamos terminando o segundo baseado.
Eu dei apenas algumas tragadas se comparada aos demais. Mesmo assim, como havia dito, maconha não costumava virar muito minha personalidade do avesso. Eu só ficava indiscutivelmente relaxada. Era como se nada pudesse me perturbar, nem a dor, nem a tristeza, nem as pessoas desagradáveis.
Alex tinha uma reação semelhante, porque havia se esparramado sobre a grama, o rosto virado para o sol, uma expressão meio preguiçosa, cantarolando uma música que não fazia o menor sentido.
Lauren e Isabelle, por outro lado, tinham aquela reação chata de começar a rir por coisas idiotas e não calar a boca um minuto sequer e desataram a falar sobre moda, Paris, escola, garotos, sexo, praias, planos para os dias seguintes... Em certo momento ficou difícil de acompanhar.
Me virei ao contrário sobre a espreguiçadeira, pousando os pés na parte do encosto das costas, e deixando a cabeça pender para baixo, na parte em que deviam ficar os pés, e fiquei encarando o mundo meio de cabeça para baixo, o baseado preso entre os dedos. Leonard havia acendido o terceiro, o que me dava total liberdade de dar as últimas duas ou três tragadas daquele que tinha em mãos.
Por um longo momento tudo o que podíamos ouvir eram as vozes das garotas, até que Alex ergueu a cabeça.
"Ei, devíamos usar o resto para fazer um bolo." Sugeriu, no que obteve rápida concordância de Isabelle.
"Boa ideia!" Ela bateu palmas, risonha e cheia de energia, e se levantou. "Lily, você entra com os ingredientes principais e nós entramos com o ingrediente especial." Piscou para mim. "Você acha que tem tudo o que precisamos?"
Eu duvidava que ela conseguisse cozinhar algo com aquele estado de letargia, mas não iria objetar.
"Provavelmente." Assenti, a voz meio mole, jogando a bituca do baseado sobre a mesa. "Veja na despensa."
Isabelle foi para a cozinha, puxando Leonard consigo. Como habitualmente, ele não parecia se importar de segui-la cegamente. Eles tinham esse pseudorrelacionamento aleatório, que geralmente se aprofundava em festas, e sempre ficavam juntos quando não encontravam mais alguém com quem se agarrar.
Enquanto eles tentavam assar um bolo chapados, Lauren ouviu os ruídos que vinham da casa ao lado, de risadas altas, e decidiu entrar em contato.
Empurrou uma cadeira para perto do muro, subindo nela para que pudesse visualizar o pátio traseiro da residência da Srta. Green, e se escorou sobre ele, nada majestosa, porque lhe faltava algum equilíbrio. Daquele ângulo, sua bunda ficava visível, e Alex não fez nenhum esforço para fingir que não estava olhando.
"Ei, Sirius!" Lauren chamou, a voz risonha e meio anasalada que usava quando estava chapada. "Sirius! Iuhu!" Sacudiu a mão.
Houve um som estranho do outro lado, como se uma porta estivesse sendo aberta, e logo nós ouvimos a resposta confusa de Black:
"Lauren, o que você está fazendo aí?"
"Uma festinha particular." Ela disse, dando uma gargalhada escandalosa que não se encaixava na situação, já que não havia dito nada particularmente engraçado, mas que fazia bastante sentido quando alguém conhecia a personalidade doidona de Lauren. "Venha, pule o muro. Seus amigos podem vir também."
"Não sei se Lily iria aprovar esse tipo de invasão." Remus falou, claramente hesitante.
"Lily?" Lauren voltou o rosto para mim, empurrando os cabelos para o lado, e eu fiz um sinal de ok com os dedos, porque não estava com vontade de conversar.
Eu raramente estava com vontade de conversar ou discutir quando usava maconha. Pra falar a verdade, não usava muito. Só eventualmente no verão. E nunca partia pra nada mais pesado, porque minhas experiências anteriores com LSD haviam sido péssimas (eu havia tido dores de cabeça horríveis e um enjoo que durou cerca de quatro horas, mas que me vez vomitar sem parar).
"Lily disse que tudo bem."
Houve um segundo de silêncio incrédulo do outro lado do muro.
"O quê?" Lauren indagou, confusa. "Lily disse que tudo bem. Qual parte da sentença vocês não entenderam, queridinhos?" Então apoiou o cotovelo sobre o muro e me olhou outra vez. "Meu Deus, ruiva, quão vadia você pode ser com as pessoas? Os homens aqui realmente estão com medo de você."
Encolhi os ombros, sem interesse.
"Sei lá, Laurie. Eu sempre ajo como um anjo." Zombei, a voz meio mole, e soltei uma risada baixa, estendendo os braços, espreguiçando-me.
O sol estava forte e eu estava começando a suar um pouco, por isso agarrei a revista, que havia jogado por aí, e cobri o rosto com ela. Pretendia tirar uma sonequinha. Com Leonard e Isabelle ocupados na cozinha, talvez nós tivéssemos alguns minutos de silêncio para variar.
"Bom, se a Evans não se opõe, aí vou eu." Disse Black. Ouvi um ruído, que provavelmente era dele pulando o muro, mas não me movi. Ao contrário, fechei os olhos, e a revista bloqueou toda a claridade, de modo que eu estava na perfeita escuridão.
"Ei, bonitinho, você não vem?" Lauren indagou.
"Alguém precisa ficar em casa para receber a Srta. Green." Falou Remus, em tom de desculpas. "Mas não se preocupe. James deve aparecer assim que sair do banho."
Black cumprimentou todo mundo com naturalidade. É claro, já havia se deparado com todos nós, não apenas na festa das garotas, mas na noite anterior, durante o que, anos depois, eu e Olívia ainda chamaríamos de "babado do século". Os garotos apertaram as mãos como bons moços educados.
Isabelle, que, apesar do meu aviso, havia perdido sua chance de arriar as calcinhas para Sirius Black da última vez, saiu da cozinha para dizer lhe dar as boas vindas adequadas: um suspiro meio meloso, risinhos sexuais e provavelmente mordidas de lábios. Até então, nada de diferente. Depois de algum tempo, você começa a reconhecer os sinais de "garota querendo garoto", principalmente quando divide o Salão Comunal com alguém como Black.
"Ei, Sirius, senta aqui." Lauren falou, normalmente. "Me conta sobre a noite anterior. Você está recebendo pontos no currículo por agir como herói nas horas vagas?" E riu.
Diferente da irmã, Lauren não parecia nada afetada pelo charme masculino. É claro, ela não costumava ser uma romântica, de modo que não gastava seu tempo tentando conquistar quem não queria ser conquistado. Sua diversão era não ter compromisso.
"Há algo de esquisito em vocês." Ele comentou, surpreso. "Vocês estão... bêbados?"
"Chapados." Corrigiu Alex. "Lauren Linda conseguiu uma erva de qualidade pra nós, então nós fumamos alguns baseados. Sabe como é, só pra descontrair. Mas o barato não dura muito. Só umas duas horas, dependendo do quanto você fumar."
Tirei a revista do rosto. Sirius e Lauren estavam sentados nas cadeiras ao redor da mesa, debaixo do guarda-sol. Ele usava uma camiseta simples e azul escura sem estampa e bermudas jeans.
"Black nunca fumou." Disse, fitando-o de cabeça para baixo. "Nós não temos essas coisas lá na escola."
"Sério?" Lauren virou a cabeça para olhá-lo, incrédula. "Uau, que careta! Não me lembro de conhecer alguém além de Petúnia que nunca houvesse experimentado. Nem mesmo uma tragadinha. Nós estamos fazendo um bolo, se você quiser dar uma mordida. Não é tão bom quanto o baseado, mas fica gostoso."
Ele me observou, talvez procurando traços de agressividade em minha expressão, algo no qual não pudesse confiar, mas eu não estava com ânimo para tentar perturbá-lo. Fumar maconha era como entrar num reino de paz e eu só queria curtir minha própria calmaria.
"Pode ser." Confirmou. "Por que você está nessa posição?"
"Fotossíntese." Respondi, séria, o que o fez rir.
Alex, que havia se esparramado na grama outra vez, arqueou o tronco, apoiando o peso do corpo sobre os cotovelos.
"Lilie é uma chapada serena. Nada tira ela do sério. Nós tentamos uma vez. Picotamos sua blusa preferida. É claro que quando o efeito passou ela esfregou minha cara no asfalto, mas você pode saber quão poderoso é o efeito do negócio sobre você." Explicou, com um sorriso. "Já Lauren e Belle são mais do tipo porra louca."
"Porra louca e linda." Corrigiu Lauren, dando uma gargalhada convencida. Depois olhou para Sirius, que parecia estar se divertindo entre nós. "Vamos sair pra jantar mais tarde, eu acho. Abriu uma lanchonete nova a umas quatro quadras daqui. Você pode ir com a gente. Eu super estou precisando de alguém com músculos pra afugentar Scottie. Você poderia fazer isso, só, sabe, em nome da amizade."
"É claro, Laurie. Sem problemas." Black pegou a mão dela, acariciando-a com o dedão, e piscou o olho, divertido.
Encarei-a.
"Scott deu em cima de você?" Indaguei, surpresa. "Ele deu em cima de mim e de Olívia também."
"Scottie está precisando ter uma conversinha de homem pra homem." Interrompeu Alex. "Há um limite para o nível de inconveniência que alguém pode aturar. Se ele não sabe beber, então que não fique bêbado. Eu quase tive que tirá-lo de cima de uma garota na festa."
Lauren jogou o cabelo sobre o ombro, indiferente.
"Ele só está na fossa." Explicou, embora não fosse uma novidade. Todos sabíamos sobre o estado de Scott. "Eu normalmente não me oporia a oferecer um ombro amigo, mas Scott faz o tipo grudento, e Deus sabe que eu não fico com nenhum cara que possa agarrar meus pés mais tarde."
Naquele momento, a cabeça de Potter apareceu sobre o muro que divisava minha casa e da Srta. Green, uma expressão confusa em seu rosto.
"Ei, Sirius?" Ele chamou, hesitante, e deslizou os olhos na minha direção.
"Pula pra cá." Sinalizou Black, com um sorriso torto. "Foi a própria Lilie quem nos convidou." Disse meu apelido com um certo tom de zombaria, com o qual não me importei, pois estava consciente de que ele sempre fazia tudo o que fazia com o objetivo de me aborrecer. Um hobby bem chato aquele, aliás.
Percebi que Potter vacilou, então sacudi a cabeça numa afirmativa.
"Vem." Disse, suavemente. "Nós vamos deixar Black doidão."
"Vocês vão o quê?" Ele piscou, confuso, enquanto pulava o muro com uma agilidade surpreendente.
Tinha os cabelos negros úmidos e desarrumados, o que parecia ser seu estado natural, e não vestia camiseta. Ao contrário, pois a trazia jogada sobre o ombro. Usava uma bermuda preta que ia até os joelhos e tinha os pés descalços.
Apreciei seu abdome nesse meio tempo. É difícil ver algo tão bonito à mostra e simplesmente resistir à tentação de dar uma espiadinha. Era um pouco ultrajante, na realidade, que as pessoas mais desagradáveis fossem aquelas que geralmente eram as mais atraentes, mas, bem, o que não tinha remédio, remediado estava.
"Nós estamos fazendo um bolo de maconha." Disse Alex, como se aquela simples frase explicasse tudo. Riu do semblante ainda confuso de Potter, que, como não tinha acesso às drogas trouxas, não fazia ideia do que poderia ser maconha, depois se sentou. "Oi, Lils, você tem os colegas mais engraçados." Levantou-se, dizendo que ia mijar, e foi cambaleando para dentro de casa.
Potter se sentou na espreguiçadeira ao meu lado, passando a mão pelo cabelo, e me olhou, um pouco sério, como se estivesse tentando ler minha alma.
"Você comeu isso?"
"Eu fumei isso." Corrigi, erguendo um dedo indicador, e depois sorri. "Nós podemos fumar também. É uma erva."
Naquele momento, Lauren puxou assunto com Sirius sobre a noite anterior, querendo ouvir sobre seus atos heroicos, e a atenção foi parcialmente desviada de nós. Além disso, Leonard havia ligado o batedor, misturando a massa de bolo, enquanto Isabelle devorava uma barra de chocolate que havia encontrado na gaveta secreta de Petúnia.
Ao contrário de todo mundo, que parecia bem relaxado, Potter não parecia estar se divertindo. Ultimamente, na realidade, ele parecia pouco divertido, o que era um pouco surpreendente. Ele sempre era o rei da comédia no colégio e agora, ao meu redor, parecia mais como o Zangado, dos Sete Anões.
"Há quanto tempo você está no sol?" Indagou, deslizando os olhos pela minha pele.
"Algum tempo." Admiti. "Por que você não deita e se vira nessa posição, como eu? É engraçado."
"Sua pele está vermelha." Ele estendeu a mão e tocou meu ombro numa carícia gentil, uma crítica velada em sua voz. Tinha as sobrancelhas franzidas. "Você passou algum tipo de óleo ou poção pra se proteger do sol?"
"Protetor solar." Disse, apontando para o objeto que estava sobre a mesa perto de Lauren e Sirius. Agarrei a revista que tinha abert sobre a barriga e a estendi na sua direção. "Toma. Lê um pouquinho. Relaxa. Eu estou bem. Por que você anda tão sério ultimamente? Eu pensei que, de nós dois, a pessoa chata fosse eu."
Ele aceitou a oferta da revista, mas não a abriu. Pousou-a ao seu lado. Arriscou um sorriso para mim.
"Eu acho que nossas personalidades se inverteram nessas férias." Falou, a voz divertida. Depois voltou a estender a mão, tocando na minha. Eu não recuei, não porque não queria, o que, bem, eu nem sei se queria ou não, na realidade, mas porque meus reflexos estavam lentos e eu só vi o movimento chegando quando ele já tinha chegado. "Lily, sua pele está quente. Talvez fosse melhor você sair do sol por alguns minutos."
Arqueei o tronco, rompendo inconscientemente o contato entre nós. Apoiei o peso do corpo sobre os cotovelos e mordi o lábio, pensativa. Estava mesmo um pouco calor, porém nada que fosse muito perturbador.
"Você está certo." Admiti, pensativa. "Papai James."
Ele me encarou, incrédulo.
"Você acabou de me chamar de Papai James?" Indagou, os lábios crispados.
"Você é um careta." Revirei os olhos, endireitando-me. Então levantei. Estava de biquíni, assim como Lauren e Isabelle, mas Potter não aparentava ter percebido aquilo até então, porque lançou uma longa olhada surpreendida pelo meu corpo. "Vem, vamos ali." Apontei para dentro de casa, chamando-o. "Mamãe comprou um protetor solar com um fator mais forte. Eu acho que Petúnia o escondeu no quarto dela."
Ele me seguiu obedientemente quando adentramos a cozinha, agarrando a minha mão num movimento distraído. Não me opus. Potter tinha uma mão áspera e quente que parecia muito gostosa contra a minha. Provavelmente era por isso que as garotas estavam sempre ansiosas por tê-la deslizando por todo o seu corpo.
Leonard estava derrubando a massa do bolo dentro de uma forma untada e parecia desatento demais para prestar atenção em nós.
"Hey, cowboy." Isabelle, por outro lado, nunca perdia a chance de flertar com um rapaz atraente, mesmo que tivesse um rapaz atraente bem ao seu lado, por isso sacudiu a pá da batedeira, que estava levando para a pia, e sorriu maliciosamente, piscando um olho. "Eu sou a Belle."
Potter a encarou, educado, mas nem um pouco fascinado, o que era um pouco surpreendente. Poucos eram capazes de resistir ao charme das irmãs McKenzie.
"Esse é James." Vendo que ele não parecia muito inclinado a dialogar, eu tomei a dianteira e respondi, suavemente. "James, essa é Isabelle, irmã da Lauren, que está lá fora com Sirius, e aquele é Leonard. Você o conheceu na festa. E viu ele ontem, eu acho."
"E aí, Jamie." Leonard ergueu o rosto na nossa direção e sacudiu a cabeça. "Está afim de lamber as pás da batedeira?"
Sorrindo, parecendo se divertir, Potter negou com a cabeça.
"Talvez da próxima vez." Prometeu, amigável, e desarrumou o cabelo, fazendo com que se parecesse um pouquinho mais com o cara insuportável com quem eu costumava conviver na escola e um pouquinho menos com o cara sério e compenetrado que parecia ter tomado seu lugar naquele verão.
"Vamos deixar os cozinheiros cozinharem." Disse, puxando-o, e nós seguimos para a sala.
"Leo, acho que a gente deveria fazer uma cobertura de chocolate." Sugeriu Isabelle, deixando-nos ir, a atenção voltada para a louça que começava a lavar na pia. "Um bolo não é um bolo sem uma cobertura decente."
Levei Potter pelas escadas. No caminho passamos por Alex, que havia se atirado no sofá, ligado a televisão e cochilado numa posição esquisita, as pernas tortas e jogadas para lados diferentes, a boca aberta, o cabelo loiro grudado na testa e com a respiração pesada.
Passamos pela porta do banheiro, do quarto de papai e mamãe e pelo meu e entramos no quarto de Petúnia, o quarto proibido.
Ela tinha espalhado alguns pôsteres do Embalos de Sábado à Noite, seu filme preferido, pelas paredes pintadas de rosa claro. Havia uma foto autografada do John Travolta, seu ídolo, na mesa de cabeceira, e ursos de pelúcia espalhados pela cama coberta por uma colcha lilás, presente da vovó. Todos eles dados por Vernon, é claro. Antes dele, Petúnia achava que ursos de pelúcia eram para crianças.
Soltei a mão de Potter para ir bisbilhotar no seu armário.
"Esse é o seu quarto?" Indagou Potter, ao meu lado, olhando ao redor com uma expressão esquisita.
"Deus, não. É o quarto da Petty Monstro, minha irmã." Rebati, com uma careta. Abri as gavetas. Encontrei dentro de uma meia um conjunto de brincos que havia ganhado do papai no verão passado e que achava que havia perdido. "Oh, que ladra!" Exclamei, sacudindo a caixinha transparente onde eles estavam guardados. "Ela é malévola." Resmunguei, séria, entregando os brincos para Potter.
Ele me presenteou com um meio sorriso, provavelmente se divertindo com meu modo de falar, e guardou o pequeno objeto em seu bolso.
"Você tem um jeitinho bem adorável de agir quando está fora do seu estado de sobriedade." Apontou, a voz macia, o que me fez olhá-lo com uma sobrancelha arguida, meio desafiadora, meio indiferente. Potter riu baixo e desviou da meia que arremessei na sua direção. "Posso ver seu quarto?"
"A primeira porta do lado direito." Disse, voltando-me para minha busca. Fechei as gavetas, seguindo para o guarda-roupas. "Não mexa na minha gaveta de roupas íntimas, Don Juan."
Ele me deixou sozinha. Demorei cerca de cinco minutos para encontrar o esconderijo secreto dos cosméticos roubados. Petúnia tinha uma caixa de sapatos escondida no maleiro do roupeiro, atrás das roupas de cama. Lá dentro encontrei não apenas o protetor solar especial que estava procurando, mas também alguns batons e rímeis que mamãe comprava especialmente para ela.
Não era à toa que ela dizia haver um fantasma na casa. Petúnia era uma ladra de marca maior.
Tomei o cuidado de colocar tudo em seus devidos lugares, inclusive a meia que arremessei em Potter, e segui para o meu quarto. Quando cheguei lá, Potter estava olhando para meu mural de fotos, composto apenas por fotos trouxas, já que Alex e Olívia eram visitas constantes.
"Se divertindo?" Perguntei, zombadora, pousando o protetor sobre a penteadeira.
"Sim." Ele concordou com um gesto de cabeça e estendeu a caixa com os brincos para mim, sem desviar a atenção das fotos à frente. "Seus brincos."
"Obrigada." Fui para frente do espelho para colocá-los. Eram pequenos morangos delineados por um fio de ouro que ficavam muito bem em minhas orelhas. Prendi os cabelos num coque alto para deixar a joia em evidência. Dei um passo para trás para admirar meu trabalho perfeito.
Potter voltou a atenção para mim por um segundo, sorrindo.
"Ficaram lindos em você." Disse, para o que eu respondi com um sério e compenetrado aceno de concordância que o fez rir. Então ele inclinou o corpo e puxou uma foto do mural. "Posso ficar com essa? Uma troca pelo lenço."
Fitei a foto. Era de quando eu era criança. Usava um macacão rosa, que não dava para ver na foto, porque era em preto e branco, e estava segurando um pato de pelúcia com um beicinho de choro, porque era meu ursinho preferido e eu o havia derrubado numa poça de lama.
Alex costumava rir e dizer que eu estava ridícula. É claro, ele estivera presente naquele dia. Inclusive fora ele quem insistira para que mamãe fizesse aquele rabo de cavalo lateral na minha cabeça, porque vira num filme e queria descobrir como alguém conseguia deixá-lo torto daquele jeito.
"Vá em frente." Encolhi os ombros. "Não mostre pra ninguém. Seria chato se soubessem que estamos trocando presentes." Disse, e agarrei o protetor solar outra vez. "Você espalha nas minhas costas?"
Potter escondeu a foto no bolso e sentou na ponta da cama.
"Vem aqui." Chamou, a voz intensa, os olhos meio esverdeados me fitando com um tipo de olhar totalmente diferente de um minuto atrás.
Segui na sua direção, ainda meio aérea. A maconha não me dava o tipo de percepção necessária para perceber quando o clima de um ambiente mudava de agradável e comum para subitamente tenso e eletrificado. Afinal, tudo estava sempre numa serenidade imperturbável.
Enfiei-me no meio das suas pernas, sem contato físico, e segurei sua mão, derramando nela um pouco de protetor solar. Dei as costas, sentindo as mãos dele deslizarem sobre minha pele numa carícia vagarosa e constante.
Foquei a atenção na parte da frente. Espalhei protetor por entre os seios e no pescoço.
"Odeio protetor solar." Comentei, a voz aborrecida. "Tem um cheiro estranho." Cheirei a ponta dos dedos para confirmar minha própria tese. Fiz uma careta. "Além disso, minha mão fica toda esquisita. Meio áspera e pegajosa."
Por um minuto eu pensei que Potter não havia escutado, porque ficou em silêncio, mas logo ele falou:
"Vira pra mim."
Eu obedeci. Ele estava com a mão estendida e, obedientemente, derrubei nela mais protetor. Não objetei quando ele a espalmou sobre minha barriga, espalhando o produto. Senti minha pele formigar de um jeito exótico e meu estômago borbulhar. E Potter parecia ter uma reação semelhante, porque parou por um momento, uma expressão dura.
Então ele segurou minha cintura com as duas mãos e apoiou o rosto sobre o vale dos meus seios, um tipo de cansaço bruto se apoderando do seu semblante e que não estava ali um minuto atrás.
"Qual o problema, James?" Perguntei, curiosa, tocando a ponta do seu cabelo, sem saber como reagir diante daquela demonstração de carência.
"Só me deixa ficar aqui um minuto." Ele pediu, abraçando-me então, trazendo-me tão pra perto dele que eu podia sentir seu peito oscilar pela respiração e o ar quente fazer cócegas contra minhas costelas. "Só me deixa ter você por um minuto. Um minuto."
Nós ficamos quietos e imóveis pelo que pareceu ser uma eternidade - até eu me cansei, uma vez que ele estava meio que me apertando com força e minha perna havia começado a formigar. Empurrei-o suavemente para trás, pousando as mãos sobre os seus ombros nus, obrigando-o a recuar.
Ele ergueu os olhos para mim, os óculos deslizando pela ponte do nariz.
"Acho que você também precisa passar protetor solar." Sugeri, sabiamente, o que o fez rir. Franzi o cenho, sem entender aquela reação.
"Eu amo você chapada." Ele explicou, a voz macia, e sorriu torto, um sorriso que fez meu coração bater rápido de um modo muito esquisito, que não combinava com todo o barato que eu costumava sentir quando estava chapada.
Estendi o protetor na sua direção, dando um passo para trás, rompendo o contato entre nós.
"O que você vai me dar de aniversário?" Indaguei, curiosa.
"Seu aniversário?" Potter franziu as sobrancelhas.
É claro, ele não sabia sobre meu aniversário. Nós não costumávamos conversar e, já que meu aniversário não caía durante o ano letivo, nunca descobrira a data.
"Meu aniversário é na semana que vem." Respondi. Todos os anos nós fazíamos uma festa doida, porque eu era a única do grupo que fazia aniversário nas férias e nós não nos víamos no resto do ano. Era um motivo a mais para comemorar. "Você vai vir, não vai?" Presumi que ele continuaria na casa da Srta. Green até o final das férias e, se eu não o convidasse, provavelmente alguém o faria.
Ele concordou, sorrindo.
"Eu não perderia por nada."
"Bom. Mas você deve saber: meu aniversário é minha data preferida no mundo todo." Disse, erguendo o indicador, uma expressão séria. "Como meu convidado, você tem uma grande responsabilidade. Não estrague isso pra mim, James. Além disso, eu quero o melhor presente. Eu adoro presentes de aniversário."
"Entendi." Disse Potter, tentando disfarçar a risada. Estendeu a mão, segurando na minha outra vez, o que parecia estar se tornando um gesto frequente entre nós, e tornou a me puxar contra ele. Seu sorriso aumentou diante da nossa proximidade. Ele parecia adorar, adorar aquilo. E eu, bem, eu não sei exatamente se adorava, mas não era de todo ruim. Afinal, ele era meio macio e quente, com um cheiro fantástico, e não conheço ninguém que não gostasse de algo macio, quente e perfumado. "Eu prometo que vou te dar o melhor presente, Lily."
Sorri em retribuição. Eu não estava mentindo quando havia dito que adorava presentes de aniversário. Mais do que presentes de Natal. Porque o aniversário era o meu dia especial (e nenhuma Petúnia mal-humorada poderia mudar isso).
"Eu vou estar sendo muito, muito ousado se pedir um beijo?" Ele falou, enroscando os braços na minha cintura.
"Você vai estar sendo muito, muito ousado." Respondi, ficando séria. "Eu posso estar chapada, espertinho, mas não estou louca." Dei um piparote na sua testa, o que provocou nele uma careta. "Não pense que pode tomar essas liberdades todo o tempo."
"Por que você me odeia?"
Revirei os olhos, empurrando seus óculos, que deslizavam, de volta para o lugar.
"Não odeio você, James, seu bobo." Disse. "Eu acho você infantil, intragável, arrogante e mulherengo, mas eu não odeio você. Eu sei que eu falei, mas por que você me tirou do sério. Você fez do meu quinto ano um ano muito difícil. Não é simples assim esquecer tudo o que aconteceu."
"Eu sei." Ele falou, com uma careta. "Mas eu cresci."
"Eu..." Hesitei. Não sabia se devia lhe conceder o benefício da dúvida. Uma parte de mim, naquele momento, simplesmente não se importava de ser sincera, mas outra parte, uma parte mais lógica, uma parte sóbria, dizia que talvez eu tivesse problemas mais tarde. Não devia cutucar a onça com a vara curta.
Ele poderia voltar a grudar no meu pé do mesmo jeito que havia feito antes. E todo o progresso aparente que havíamos feito, aprendendo a coexistir naqueles últimos dias, escoaria pelo ralo.
"Eu acho que você talvez tenha crescido. Agora. Quando você voltar para Hogwarts, vai ter toda a pressão sobre você. O cara popular, o capitão do time de quadribol, as garotas, a obrigação de perturbar a paz alheia. É difícil se livrar dos estigmas."
"Não sei se algum dia voltarei a ser daquele jeito." Disse Potter, uma voz subitamente dura, a tensão se espalhando pelo seu rosto outra vez.
Apertei o dedo indicador sobre sua testa enrugada, forçando-o a desfazer aquela expressão.
"Por que está fazendo isso?" Perguntei, confusa. "Por que está estragando isso com uma conversa chata?"
"Porque eu quero poder tocar você quando você está sóbria. Eu adoro tocar você. Sua pele é suave e cheirosa. Você é suave e cheirosa." Ele disse, rouco, usando os dedos para fazer cócegas no meu quadril. Eu me contorci por um momento. "E quando você está bêbada parece ser a única maneira de fazê-la baixar a guarda para mim. Baixe a guarda para mim nas férias. É o suficiente, se você estiver disposta."
Eu o encarei.
Havia acontecido alguma coisa diferente desde a última vez em que eu o vira, na estação King's Cross. O rapaz inconveniente e persistente parecia ter desaparecido por completo, como se aparatado para um lugar muito longe, de onde não havia volta.
Agora existia um tipo de dureza ao seu redor e em seus olhos. Uma seriedade mortal, uma circunspecção que não existia antes. O riso desleixado, o ar risonho eventualmente ainda estava lá, mas não possuía a mesma presença constante de antigamente. Era como se toda a personalidade dele como eu costumava conhecer tivesse se estilhaçado e ao juntar os cacos tudo houvesse ficado muito diferente. Bagunçado, eu acho.
Não podia entender como James parecia precisar de mim daquela maneira e com aquela intensidade, mas eu não costumava dar as costas para as pessoas que precisavam de mim. Não podia deixar uma pessoa sofrer sem fazer nada para ajudar.
"Está bem." Respondi, de modo mais suave. "Você vai me contar o que aconteceu?"
"Quando você realmente quiser saber, você pode me perguntar."
Eu estava disposta a protestar, dizendo que queria saber naquele momento, mas Lauren apareceu.
"Ei, pombinhos, vamos jogar pôquer. Vocês estão dentro ou fora?"
N/A: Como prometido, tivemos mais de James e Lily. E o próximo capítulo vai ser quase todo deles. Afinal, ninguém pode desmistificar a acromântula diabólica sem um pouco de estudo e observação, não é mesmo? :)
A preocupação com o bem-estar e proteção da pele começou lá pela década de 80, mas eu resolvi adiantar um pouco o tempo com relação a isso (sou branquela e sempre tive muitos problemas com o sol, hahahah)! Sobre a manutenção das piscinas, não achei nenhum artigo sobre isso, mas sei que meus avós colocaram uma piscina com motor também na década de 80, então, se ainda não havia a tecnologia na época, é provável que estivesse chegando em breve!
Lembrando que estamos na época das calças boca de sino, roupas de cintura alta, biquínis cheios de babados, muito couro e acessórios brilhantes. E, claro, a onda hippie está muito em alta! A Danna é uma hippie, como deixei bem claro, na maior vibe Woodstock, que preferia se rebelar contra os estereótipos e aquele conceito de "vida segura e ascensão social" e sociedade capitalista.
O LSD foi proibido ainda na década de 60, mas continuou sendo usado por muito tempo depois disso. Os efeitos colaterais que a Lily afirma ser tido são uns efeitos bem comuns dessa droga. Era muito popular. Inclusive, diz-se que um dos álbuns do Beatles, o "St. Peppers Lonely Hearts Club Band", foi todo produzido e gravado com os membros sob efeito de LSD.
As drogas só passaram a ser encaradas como um problema social no fim da década de 70, quando o uso excessivo começou a comprometer muitos jovens. Antes disso era usada como forma de contestação e de liberdade.
Rowling em nenhum momento aborda essa temática, embora eu acredite que os bruxos devam ter suas versões de drogas, como poções e coisas assim, mas vamos supor que nossos bruxinhos nunca tiveram nenhum contato com esse mundo!
Nós nos vemos no próximo capítulo! Deixem seus comentários! ;)
