CAPÍTULO SEIS: IDIOTAS SENTIMENTALOIDES
As coisas entre eu e James ficaram estranhas depois da noite passada.
Demorei um longo tempo para pegar no sono, revirando-me na cama, rememorando os eventos, pensando se estava fazendo a coisa certa, se devia seguir o conselho de mamãe e deixar a porta do meu coração aberta ou se devia manter a guarda alta. Era difícil pensar coerentemente. Minhas resoluções geralmente iam por terra quando sentia a pele dele na minha.
Acordei tarde no dia seguinte.
"Ei, anormal." Petúnia enfiou a cabeça no vão da porta do quarto, como costumava fazer, e começou a gritar. "Acorda, garota! Alex está lá embaixo."
Resmunguei, decidida a ignorá-la. Revirando-me na cama, fechei os olhos outra vez e me preparei para voltar a dormir.
"Nem pensar, aberração. Pode ir levantando!" Ela me cutucou. Sua unha grande machucou minha costela. "E vê se dá o fora. Seu castigo acabou e hoje é o meu dia na piscina. Paige e algumas amigas vão vir passar a tarde, portanto você pode ficar fora para sempre, no que depender de mim."
"Tá, Petúnia, tá." Reclamei, mal humorada, empurrando sua mão para longe. "Estou indo. Diz pra ele esperar dez minutos."
Ela se afastou, batendo a porta, e eu me sentei na cama, empurrando o lençol para os pés.
Esfreguei o rosto, levantando-me, e segui para o banheiro, contendo um bocejo. Me espreguicei no caminho, coçando a cabeça.
No banheiro, lavei o rosto e escovei os dentes. Tentei ajeitar o cabelo, mas aparentemente ele estava num daqueles dias de rebeldia, portanto fui para o chuveiro, crente de que um banho de creme poderia ajudar a atenuar o frizz, um dos efeitos do cloro da piscina. Como Petúnia monopolizaria a casa, aquele seria um problema a menos por hoje.
Tomei uma ducha rápida. Quando saí, enrolei-me numa das toalhas de debaixo da pia e fui para o quarto.
Cerca de quinze minutos depois, desci as escadas, ajeitando meu vestido, com o cabelo molhado preso numa trança. Alex estava na sala, vendo televisão, e voltou a cabeça assim que cheguei. Dali podíamos ver Petúnia, que estava esparramada numa das espreguiçadeiras na beira da piscina, vestindo um gigante biquíni de babados e franjas.
"Você demorou." Ele reclamou, com uma careta. "O que diabos estava fazendo lá em cima?"
"Acordando." Disse, com a sobrancelha erguida. "O que você está fazendo aqui? Precisa perder esse hábito de me acordar todo santo dia. Mereço um descanso nas férias."
"A empregada estava passando aspirador, então não havia jeito de pregar os olhos." Falou Alex, os lábios torcidos. "Mas você se engana se acha que foi minha primeira vítima. Fui bastante bonzinho com você. Passei na casa de Olívia antes. Acho que deveríamos jogar Assassino. Temos bastante gente."
Fitei-o, impassível, enquanto me aproximava e me abaixava para agarrar o controle da televisão, desligando-a.
O jogo Assassino era basicamente o jogo preferido de Alex, porque ele ganhava na maior parte das vezes. De modo resumido, envolvia corrida e colares com nossos próprios nomes. Os participantes deveriam roubar o máximo de colares que pudessem, eliminando aqueles que os tivessem perdido, até sobrar um.
"Você só pode estar fora do seu juízo normal se espera que eu comece a correr a esta hora da manhã." Disse. "Sinto, mas meus planos para o dia são fazer as unhas, ler a nova edição da Vogue e talvez ir na sorveteria hoje à tarde. Qualquer coisa mais complexa do que isso está fora de cogitação."
"Não pense você que eu vou compactuar com essa tarde de garotinhas." Rebateu Alex, levantando-se. "Minha hombridade está em cheque."
"Então vá fazer algo másculo, como caçar porcos ou cavar um buraco." Sugeri, sacudindo a mão em sinal de despedida. Fui até a cozinha para fazer um sanduíche. "Encontre-me na casa de Olívia quando decidir que seu orgulho foi restaurado. E, ah, traga-me um waffle se passar perto da padaria."
Ele apareceu enquanto eu agarrava os frios e a manteiga na geladeira.
"Bem," Alex cruzou os braços, cheio de segurança, o queixo empinado. "na realidade, eu estava pensando mais em algo como ir para Londres. Louis vai se apresentar amanhã. Ele e Danna nos convidaram para dar um pulo no Black Pub Label se estivéssemos na capital."
Encarei-o, imóvel, com uma das mãos ainda dentro do saco de pães de sanduíche.
"O que você quer dizer?"
"Aparentemente a banda de Louis conseguiu a abertura do show de um grupo de norte-americanos chamado Blue Öyster Cult." Ele explicou, encolhendo os ombros. "Louis telefonou para Leonard ontem à noite, contando as novidades. Nós estávamos pensando em pegar o trem no final da tarde. Vamos ficar no apê com Louis e os outros caras."
Sentei-me no banco em frente à bancada americana, pensativa.
Não havia nenhuma maldita maneira de que mamãe me permitisse ir para Londres sozinha. Eu sabia que Alex, conhecendo meus pais tanto quanto eu, não estava me incluindo nos seus planos. Mesmo assim, seria fantástico ir. Desde metade da nossa adolescência escutávamos Louis falar sobre seu futuro sucesso musical. É claro, até então pensávamos que era só um sonho idiota.
"Como você vai entrar?" Indaguei, franzindo as sobrancelhas. "Não acho que sua identidade falsa vá ser de alguma utilidade em Londres. Os caras realmente são bons em detectar mentirosos por lá."
"Pela porta dos fundos." Ele explicou, com um sorriso traquinas, cruzando os braços. "Danna consegue nos fazer passar pela entrada dos funcionários. Tudo o que precisamos fazer, estando lá dentro, é nos manter fora de problemas."
Anuí, séria, e voltei a preparar meu sanduíche.
"Seria realmente genial." Disse. "Vão apenas você e Leonard?"
"Bem, eu conversei com Lauren e Isabelle no jantar. Aparentemente Lauren tem um tipo de encontro inadiável com as amigas, mas Isabelle está disposta a ir, desde que consigamos um quarto só para ela." Alex revirou os olhos, encolhendo os ombros. "Quanto a James e Sirius... É, acho que James não estava muito afim, então Sirius disse que eles iam ficar por aqui mesmo."
Suspirei, com algum desânimo, dando a primeira mordida no pão.
"O JP que eu conhecia nunca declinaria a oferta de farra." Confessei, um pouco a contragosto. Já era um fato confirmado que, apesar das mudanças terem tornado James numa versão mais dura e sombria de si mesmo, ele estava dez vezes mais atrativo do que quando agia como um neandertal repetitivo. "Algo deve ter acontecido no começo do verão. Me alcança o suco de laranja dentro da geladeira, viking."
Alex descolou o suco e um copo do armário, colocando ambos na minha frente, pelo que eu agradeci com um gesto de cabeça.
"O cara é centrado." Comentou. "Ele é amigável e faz você rir na maior parte do tempo, mas parece que nunca está relaxado. E Sirius, não sei, Sirius está sempre cobrindo as costas dele, acho que até de modo meio inconsciente. É um pouco estranho, sim, só que nós também temos nossas estranhezas. E a vida é estranha, então..."
"A vida é estranha mesmo." Concordei, pensativa.
Depois do meu café, Alex foi encontrar Leonard para confirmar os planos para os próximos dois dias enquanto eu segui para a casa de Olívia, já um pouco menos encantada pelo meu cronograma. Fazer as unhas e ler a Vogue não parecia nem de longe tão excitante quanto ir a Londres e entrar clandestinamente num bar.
Ao que parece, Olívia já estava a par das novidades, porque não pareceu surpresa quando compartilhei minha conversa com Alex.
Ela estava sentada na mesa, passando geleia no seu pão torrado, o cabelo escuro preso num coque apertado no topo da cabeça. Vestia uma camiseta preta desbotada, com a estampa da capa do oitavo álbum do Pink Floyd, The Dark Side of The Moon, meu presente para seu aniversário em 73. Ela era totalmente apaixonada por Roger Waters naquela época.
"Linda camiseta, a propósito." Disse, piscando, o que a fez rir. Sempre fazíamos a mesma piada quando nos víamos usando os presentes uma da outra.
"Obrigada. Como você pode ver, ela está nova!" Mostrou o recorte com tesoura que havia feito na gola, criando um decote canoa, e a cor, que já atingia um cinza escuro. Deu uma mordida no seu pão. "Há algo que eu preciso contar. Vovó me apresentou ao garoto mais lindo, inteligente e fantástico do universo ontem à noite."
Ergui as sobrancelhas.
Ouvir Olívia falar daquela maneira sobre um garoto não era algo muito surpreendente. Ela estava sempre apaixonada. Às vezes eu pensava que o amor, ou, na maior parte dos casos, a paixão era seu principal combustível. Era raro que passasse muito tempo sem que arranjasse um substituto para a decepção anterior.
"Bem," tomei lugar ao seu lado, servindo-me de um copo de café preto. "então vamos a ele."
"Oh, não, não me obrigue a ouvir sobre esse jovenzinho mais nenhuma vez, Lily, meu bem." Sra. Strauss, que adentrou o cômodo, já de avental, para começar a recolher a louça suja do café da manhã, fez uma careta, enrugando o nariz. Olívia tinha o mesmo hábito de enrugar o nariz quando estava aborrecida com algo. "Sinto como se meus tímpanos tivessem sido perfurados pelo nome Sebastian."
"Shh, mamãe." Ela mandou, com um bico. "Você só está sendo má porque acha que há algo de errado com ele."
"Ele é o lobo vestido de cordeiro, isso eu sei. Então sim, há algo de errado com ele. Ou melhor, com sua falsa pose de garoto bom." Rebateu a Sra. Strauss, as sobrancelhas franzidas. "Não vá criando muitas esperanças sobre ser deixada sozinha com este mau elemento, mocinha." Avisou, deixando a sala de jantar outra vez.
"Acho que todos os homens são lobos vestidos em pele de cordeiro." Comentei, um pouco pensativa, enquanto Olívia soltava um ruído de irritação e mexia seu leite com mel, a colher batendo tão forte nas bordas da xícara que fez meus ouvidos doerem.
Ela deu outra mordida no pão. Eu beberiquei meu café amargo.
"Como mamãe fez questão de dizer, o nome dele é Sebastian." Recomeçou Olívia, já sem a animação inicial. "Ele é neto de uma das amigas da vovó. Como se não bastasse ser obrigada a almoçar naquele repulsivo restaurante de frutos do mar, eu também fui obrigada a tomar chá no seu clube de leitura ontem à tarde. Afortunadamente, Sebastian havia sido arrastado da mesma maneira que eu."
Anuí, sem prestar muita atenção. Não importasse o quanto as garotas que eu conhecia tentassem me convencer do contrário, romance não era muito a minha praia.
Eu lia novelas românticas, sim, e, na realidade, tinha horrores de diversão com as diversas palavras que uma autora poderia encontrar para designar um pênis ou uma vagina, como "falo quente" e "núcleo", respectivamente, e, bem, também gostava do desvelo da narração. Mas era só isso. Eu gostava de romance como entretenimento. Como leitura para diversão. Não como um manual sobre como viver a vida.
Deve ser por isso que tinha tanta ação no quesito emocional quanto um veado empalhado.
A história sobre como garota havia conhecido garoto não era tão atrativa quanto a história sobre como garota arranja um modo de ir para Londres para assistir o primeiro show do seu interesse romântico entrando clandestinamente num bar abarrotado de supostos adultos cheios de testosterona e possivelmente nenhum neurônio. Muito mais diversão.
"...e nós temos um encontro amanhã à noite." Finalizou Olívia, alguns minutos depois, após ter elencado com proeza todas as qualidades de Sebastian que havia podido concluir no seu primeiro encontro.
"Amanhã à noite?" Indaguei, finalmente voltando a atenção para ela. Franzi as sobrancelhas. "Estava tentando pensar numa maneira de que pudéssemos ir para Londres."
"Eu nunca perderia meu tempo indo para Londres para ver o show estúpido de Louis estúpido." Reiterou Olívia, em tom de obviedade. "Não me leve a mal, Lily, mas correríamos um risco muito grande por algo completamente inútil. Eu disse para você: Louis não vai abandonar Danna num futuro tão breve. É melhor você se conformar e deixar para lá."
"Eu sei, eu sei." Disse, largando a xícara sobre a mesa e erguendo as mãos num gesto de desistência. "Só que eu meio que sinto falta deles. Da Danna também. Eu mal vi Louis neste verão."
A verdade é que, pensando em Louis agora, eu já não sentia o mesmo furor que eu costumava sentir quando o via pessoalmente. Inexplicavelmente, Louis exercia algum magnetismo sobre mim, mas que só parecia ter efeito quando estávamos próximos. No resto do tempo, costumava só sentir saudades do seu humor rude e do jeito como jogava o cabelo.
Sim, talvez fosse só uma atração idiota, porque, maldito fosse, Louis era bonito. Mas era o mesmo tipo de atração que eu havia passado a sentir perto de JP: uma coisa quente, que me corrói por dentro, e que faz os dedos do meu pé se enrolarem. Exceto que o primeiro nunca me tocava propositalmente, porque não estava, nem nunca esteve, atraído por mim, enquanto James, por outro lado, estava cheio de segundas intenções e cada toque seu era como fogos de artifício explodindo no meu estúpido e rebelde estômago.
Merda, hormônios eram um inferno sangrento.
"Talvez você devesse pedir ajuda aos seus colegas de escola. Sirius parece um gênio do crime. Ele com certeza teria uma ideia útil." Sugeriu Olívia, não muito interessada. "Eu acho que você está correndo um risco desnecessário, mas, se você realmente faz questão, vá em frente. Só fique esperta. A Sra. Evans comeria seu fígado no jantar se soubesse que você fez algo assim. Sério."
"Sério, eu sei." Garanti, séria, mas logo disfarcei um meio sorriso.
Olívia estava certa com relação ao fato de que Black era um gênio do crime, mas eu não pensava em pedir ajuda a ele. Apesar disso, me lembrar dele e da sua trupe fez com que eu me lembrasse de Hogwarts e do fato de que eu tinha a desculpa perfeita em mãos. Metaforicamente. A desculpa perfeita, na realidade, ainda estava lacrada num envelope dentro da minha gaveta. A carta com os materiais para o sétimo ano da escola.
Tudo que eu precisava fazer era pedir para ir comprar meus materiais mais cedo naquele ano, dando a desculpa de que iria me encontrar com Cassandra.
Cassie só voltaria da França na próxima semana, a tempo para o meu aniversário, mas ninguém precisava saber disso. Mamãe conhecia Cassandra há sete anos e sabia que eu costumava passar alguns dias na sua casa no verão, então não seria uma surpresa se eu fosse para uma curta estada de uma ou duas noites.
Mesmo assim, aquilo implicava no fato de que estaria por minha própria conta e risco em Londres, porque não poderia pedir para Alex me encontrar no Caldeirão Furado, e isso era um pouco atemorizador.
No resto da manhã, Olívia e eu fizemos nossas unhas e escutamos música na sala de estar.
Ajudamos a Sra. Strauss a preparar o almoço e levamos a mesa dobrável para o pátio traseiro para que pudéssemos almoçar ao ar livre. Fofocamos sobre a vizinhança, como costumávamos fazer sempre, e sobre a avó de Olívia, Nerissa, como gostava de ser chamada, e dos hábitos cada vez mais estranhos que começara a sustentar após a morte do marido.
Como havia dito para Alex que faria, fomos para a sorveteria mais próxima atrás de sobremesa perto das 14h.
"Você acha que seria precipitado convidar Sebastian para o seu aniversário?" Indagou Olívia, na metade do caminho, roendo a unha do dedão.
"Seria." Respondi, impassível, tentando ajeitar alguns fios de cabelo rebeldes na trança. "Você não teve nem mesmo um primeiro encontro de verdade e já está pensando em levar Sebastian Sedução ao meu aniversário? Apresentar um cara para os amigos é uma coisa séria. Não seja afobada demais ou você vai espantá-lo."
Ela fez uma careta, porque sabia que eu estava certa, mas esperava ouvir uma resposta positiva apenas para realizar seu desejo.
Olívia meio que tinha esse probleminha de ser intensa demais quando estava interessada. Ela nunca estava disposta a fazer o relacionamento progredir de modo gradual. Queria ir direto para o fim da amarelinha. Normalmente eu e Alex costumávamos refreá-la nos seus curtos amores de verão, mas só Deus sabia do seu passado amoroso no período da escola. Poderia ser qualquer catástrofe e nós nunca teríamos acesso aos detalhes sórdidos.
Esse era o lado ruim de sermos amigos de verão: a vida deles não existia fora do verão.
"Não o chame de Sebastian Sedução." Nós tínhamos a mania de batizar os rapazes com um adjetivo que os definisse sumariamente, como Eric Gostoso. Eu havia tentado Louis Perfeição uma vez, mas o apelido nunca pegou. Aparentemente, eu era uma das poucas a se sentir atraída pelo seu estilo desleixado. "E vai ser uma festa. Não vejo problema em levá-lo para uma festa."
"Eu não sei. Quem sabe você está certa." Encolhi os ombros. "Se você não ficar grudada nele feito um parasita o tempo inteiro, com medo de que Lauren ou Isabelle tentem roubá-lo, talvez dê certo."
"Você sabe que Lauren não resiste a algo que tenha um pênis. E é difícil disputar a atenção de alguém com uma mulher que tem um corpo daqueles. Quero dizer, eu sou bonita, mas Lauren é estupidamente gostosa." Resmungou Olívia, meio azeda. "Bem, é, acho que é melhor guardá-lo só para mim durante os primeiros encontros. Se você tivesse alguém, o que é quase impossível, dada sua estúpida obsessão por Louis, nós poderíamos ter um encontro duplo ou algo assim."
Pensar naquilo me fez suspirar, porque eu sabia que teria de contar para Olívia, e posteriormente para Cassandra, sobre James e a noite passada. Quero dizer, eu havia lhe prometido um encontro no fim do verão! E nós meio que havíamos ficado cheios de toques quentes depois daquilo, mesmo estudando Transfiguração, a matéria mais corta-tesão do universo.
"Sobre isso, há algo que você precisa saber." Comecei, vacilante.
Não sabia ao certo como levar a conversa adiante, já que eu havia sido tão enfática com Olívia com relação a não suportar James Potter. Agora tinha um motivo totalmente diferente para não suportá-lo: não suportava o fato de que ele fazia meus joelhos tremerem tanto quanto uma corda bamba. Maldito fosse!
"Espere. Não me diga... Você descobriu que está afim do Leonard. Ah, meu Deus, eu sempre soube que isso aconteceria!" Olívia quase gritou, exasperada, e sacudiu os braços, o que atraiu a atenção de uma das vizinhas, que voltava da confeitaria com um pacote em mãos. "É o efeito 'ricocheteando no irmão gêmeo'."
Encarei-a com uma careta.
"Primeiro: Jesus, não, eu não estou afim do Leonard. Eu teria de ser muito idiota para estar afim do Leonard. Segundo: que estúpido efeito é esse? Isso sequer existe?" Balancei a cabeça em negativa, erguendo a mão para impedi-la de falar. "Não importa. O que eu queria dizer é que meio que surgiu um lance com James ontem."
Ela fechou a boca e ficou quieta por um longo instante, encarando-me.
"Achei que você odiasse o bastardo. Você mesma falou isso: eu odeio o bastardo." Apontou, confusa.
"Bem," eu corei, embaraçada com a verdade. Depois de seis anos torcendo para que James perdesse a língua ou algo assim, era um pouco vergonhoso admitir que poderia estar atraída por ele. Ou melhor, por uma versão nova e melhorada dele. "eu descobri que não odeio o bastardo. Eu sinto um pouco de... Bem, ele me deixa quente." Pigarreei, mexendo no cabelo, desconfortável.
Olívia pareceu refletir por um instante e logo começou a sorrir, traquinas.
"O que eu posso dizer?" Encolheu os ombros. "Ele tem tudo o que é necessário para deixar uma garota quente." Arqueou as sobrancelhas, bastante sugestiva, o que me fez encolher num meio abraço constrangido. "Era um pouco óbvio que ele estava totalmente na sua, do jeito que costuma te olhar, como se quisesse te devorar. Mas eu achei que vocês tivessem essa relação amor e ódio. Fico feliz que tenham deixado isso evoluir. Agora sim nós podemos fazer algo divertido."
"Não vou sair num encontro duplo." Avisei previamente, sacudindo a cabeça outra vez, o que fez Olívia fechar a cara. "Olívia, nós nem mesmo tivemos um primeiro encontro ainda. Não posso convidá-lo para fazer algo com outro casal. Vamos levar as coisas de modo leve e simples por enquanto."
Olívia revirou os olhos, parecendo absolutamente entediada.
"Levar as coisas de modo leve e simples implica basicamente tédio até a morte." Alfinetou, zombadora. "Mas tudo bem, acho que ele está suficientemente interessado para se submeter a essa terrível provação e perseverar."
Antes que eu pudesse retrucar, irritada com sua escolha de palavras, o objeto alvo do nosso diálogo dobrou a esquina, acompanhado de Remus, o que fez com que nos esbarrássemos.
James enrolou o braço na minha cintura para me impedir de cair para trás quando bati contra seu peito, enquanto Olívia, ao meu lado, cambaleou e teve o pulso segurado por Remus. Um segundo depois, nós duas nos aprumamos o melhor que pudemos, considerando o impacto e o fato de que fofocávamos deliberadamente na rua e de que eles poderiam ter (na realidade, era provável que tivessem) nos escutado.
"Você está bem, Lily?" James perguntou, com um meio sorriso, a mão quente ainda fechada sobre meu bíceps numa carícia suave.
Eu concordei, meio confusa, e tentei ajeitar o cabelo. A trança começava a se desfazer, uma vez que os fios secavam rápido e meu cabelo, embora tivesse seus momentos de rebeldia, era majoritariamente fino e liso, e algumas mechas haviam escapado, caindo sobre os meus olhos.
"Olívia?" Questionou Remus, gentilmente, soltando-a.
"Tudo certo por aqui. Obrigada, Remus." Disse Olívia, com um sorriso educado. Então se virou para James, os olhos chispando de malícia. Eu logo soube que algo muito ruim estava por vir. "Deus, homem, você não morre tão cedo. Estávamos falando sobre você." Confessou, rindo.
Encarei-a, controlando com muito esforço a vontade de estrangulá-la.
"E posso saber o quê?" James indagou, sem esconder a curiosidade, não resistindo ao fato de que eu dei um passo para trás para cortar o contato entre nós, num gesto de defesa quase inconsciente. Era difícil pensar claramente quando tinha as mãos dele sobre mim.
"Bem, como melhor amiga, é suposto que eu não possa comentar sobre assuntos como esse, mas deixe-me dizer, só por precaução, que envolve palavras como 'leve' e 'simples' e eu incluiria aí um 'estupidamente lento' por inferência." Avisou Olívia, sarcástica.
Lancei um olhar duro na sua direção.
Ao contrário do que eu pensei, e do que Olívia deve ter pensado também, James não reagiu exatamente mal àquela deliberação da verdade. Sua expressão ficou em branco por um segundo e logo um sorriso torto surgiu no seu rosto.
Eu, por outro lado, estava furiosa. Não queria dar nenhum poder a James fazendo-o saber o quanto me afetava. Agora, porém, com aquele ridículo e nada pertinente comentário, ele não só sabia que eu estava disposta a corresponder, como havia até mesmo imaginado um tipo de progressão para a relação. Deus, quão humilhante aquilo estava se revelando!
"Muito obrigada pela sua discrição absoluta, Olívia." Falei, por entre os dentes. "Já que estamos compartilhando segredos, acho que eu posso ter uma ou duas palavrinhas sobre você que podem interessar imensamente ao Sebastian Sedução."
Olívia empalideceu.
"Você não ousaria falar algo de ruim a meu respeito para o meu grande amor."
"Ele não é seu grande amor, idiota. Você só o viu uma vez." Resmunguei, seca. "Como você consegue se apaixonar mais rápido do que troca de roupas? Há cerca de três dias, você estava chorando porque Remus não estava interessado em você. Parabéns, aliás, Remus, você se livrou de Olívia. E hoje você já decidiu se casar com um cara com quem você dividiu um chá! Um chá!"
Olívia ia protestar, indignada, mas Remus tomou as rédeas da conversa, confuso, sinalizando com os braços para que parássemos de falar.
"Espera, você... você estava interessada em mim, Olívia?" Indagou, as sobrancelhas franzidas, voltando os olhos castanhos claros e meio dourados para a morena ao meu lado, como se só tivesse se inteirado do fato naquele minuto.
Eu e Olívia o encaramos como se ele fosse de outro planeta. Não era possível que ele não tivesse percebido o modo como Olívia sorria na sua direção, ignorando deliberadamente a presença de Sirius Black, que, preciso reconhecer, quase fazia frente a Eric Gostoso. Digo mais: ignorar deliberadamente a presença de Sirius Black era quase como uma demonstração de amor.
Quão desligado poderia ser um homem?
"É claro que eu estava interessada em você." Respondeu Olívia, em tom de obviedade incrédula. "Você não percebeu? Eu achei que você não estava interessado."
"Por que outro motivo ela ia balançar o cabelo e sorrir para você como se estivesse participando de uma propaganda de creme dental?" Perguntei, revirando os olhos. "Eu sei que seu apelido é Moony, mas, por favor, Remus, isso já é demais. Acho que subestimei sua capacidade de percepção. Pensei que vocês, homens, tivessem um apito interno avisando sobre garota dando mole."
"Moony aqui é um pouco distraído com relação ao sexo oposto." Disse James, tentando ajudar, e passou um dos braços pelas costas de Remus, que estava corado, dando tapas amigáveis, e porque não motivacionais?, no seu ombro. Voltou a atenção para Olívia, curioso. "Então, pelo que você estava falando, sua fila já andou."
"Não leve isso muito a sério. Olívia é capaz de se apaixonar por uma porta." Resmunguei, ainda meio azeda, o que fez Olívia me dar um tapa dolorido no braço. "Ei!" Encarei-a, brava.
"Eu é que digo 'ei', oras!" Ela rebateu, exaltada. "Só porque você é uma absoluta insensível, não quer dizer que eu precise ser da mesma maneira."
"Eu não sou insensível!" Reclamei. "Eu só não vejo a menor graça em toda essa interação melosa e risinhos e flores e pegar na mão e essa bobagem sem fim. A paixão é tediosa. Existem maneiras melhores de se gastar o tempo do que ouvindo um cara qualquer falar sobre um esporte idiota."
Ela lançou um olhar desdenhoso na minha direção.
"Olha quem falando sobre a paixão ser tediosa! Aquela que teve um abismo pelo vizinho durante quase uma década!" Mordi os lábios com força ao ouvir a menção sobre Louis. A pior coisa que havia feito na vida havia sido admitir sobre o fato de que meio que gostava de Louis. Parecia que esse assunto estava em todas as conversas, não importasse o quanto eu me esforçasse para deixar para lá, sempre pronto para puxar meu tapete. "E eu não saio só com esportistas, tá bom?"
"Ah, Olívia! Não vamos começar com isso de novo!" Vociferei, corada. "E, sim, você só sai com esportistas. De preferência com aqueles que te tratam muito mal. Como esse Sebastian. Tenho certeza de que ele só está querendo arriar suas calcinhas, mas você é tão facilmente manipulável que nem percebe que ele é um imbecil."
Ela me encarou, com uma cara feia, e eu correspondi da mesma maneira.
"É isso que você pensa de mim, Lily Evans? Que eu sou uma idiota sentimentaloide?"
A tensão estava espalhada ao nosso redor como um halo brilhante e James e Remus aparentemente perceberam que estavam no meio de algo potencialmente explosivo, porque tomaram a dianteira e tentaram acalmar a situação antes que eu desse a resposta final:
"Garotas..." Começou o segundo, num tom apaziguador.
"Eu não acho que você é uma idiota, mas sentimentaloide, sim, você é sentimentaloide, Olívia Strauss." Respondi, sarcástica, optando por ignorar Remus.
Ela permaneceu imóvel, com os olhos fixos em mim, a boca escancarada de choque, e logo sua expressão se transfigurou em algo cheio de raiva outra vez.
"Se é isso que você acha, então..." Empinou o queixo, dando as costas, e se afastou com pisadas pesadas.
Eu fiquei vendo-a partir, irritada porque estávamos tendo aquele tipo de discussão novamente. Não costumávamos brigar, mas sempre que o fazíamos era por causa de garotos. Garotos: a maior preocupação feminina desde o surgimento da raça humana.
Agora eu positivamente estava sem melhor amiga e sem dinheiro para o sorvete. Afinal, a contribuição financeira havia sido um presente da Sra. Strauss, que queria limpar a casa, porém não encontrara um jeito educado de nos despachar dali. Adorava situações em que os pais achavam que nos dar dinheiro resolveria seus problemas.
"Isso é culpa sua." Acusei, virando-me para James, e cruzei os braços.
"Minha culpa?" Ele arregalou os olhos, surpreso. "Se eu e Remos tentamos..."
"Você anda se esgueirando por aí, no meu território por direito, porque, veja bem, eu moro aqui, querendo descobrir segredinhos a meu respeito." Interrompi, com um gesto de mão. "Agora eu tenho um realmente sério problema por aqui e eu quero saber quem vai resolvê-lo."
James e Remus se entreolharam, encolhendo os ombros, meio que sem saber o que fazer.
"Lily, eu juro, nós estávamos só voltando da padaria. Não havia nenhuma outra intenção por detrás disso. Esbarrar em vocês foi um acidente." Garantiu Remus, os olhos apertados, nervoso. Eu respondi com um apertar de lábios aborrecido que definitivamente não deve ter parecido muito promissor, porque ele se apressou em continuar. "Mas, se você quiser, eu ou James podemos tentar falar com Olívia e..."
"Não, por que diabos você falaria com Olívia?" Indaguei, incrédula. "Não é esse meu problema. Eu e Olívia sempre brigamos por causa de garotos. Mais tarde eu passo na casa dela e pronto. Eu estou falando do sorvete. Nós estávamos indo para a sorveteria. E com Olívia se foi o dinheiro do sorvete. Vocês podem ir abrindo suas carteiras, porque vocês me devem sorvete. Vamos."
Comecei a andar, tentando ao máximo ignorar o fato de que James tinha informações sigilosas sobre si próprio e sobre como eu me sentia a respeito daquilo que estávamos compartilhando.
Se eu agisse com suficiente normalidade, talvez pudesse convencê-lo de que não havia nada demais no que tinha ouvido. Quero dizer, meus reflexos e pensamentos podiam ficar lentos perto dele, mas, estando distante, eu sabia que devia agir com cuidado. Não queria um James Potter apaixonado e insuportável grudado no meu pé outra vez, mas eu gostava desse novo James e tinha medo de que tanto conhecimento sobre mim e sobre meus sentimentos pudesse trazer à tona o pior da sua personalidade.
Era bom agir com a cabeça enquanto ainda tinha ela no lugar.
"Bem, nós acabamos de comer waffles." James deslizou a mão pelo cabelo, um pouco sem graça, seguindo ao meu lado. Vestia calças jeans e uma camiseta vermelha lisa. Era incrível como o jeans parecia cair bem nele.
"Eu não convidei vocês para comerem comigo. Eu disse que vocês vão pagar. É só." Reiterei, fitando-o pelo canto do olho. "Por que vocês estavam comendo waffles às duas da tarde, pra começo de conversa? É o tipo de comida que a gente come no café da manhã, não no almoço."
"A Srta. Green teve um problema com o fogão." Explicou Remus, divertido.
Anuí, contendo um sorriso. A Srta. Green parecia tão atrapalhada quanto o filho, exceto que muito mais amável e carismática. Era fácil gostar dela, o que eu já não posso dizer de Pettigrew. Ele parece ter uma personalidade maleável, que se adéqua à daquele que está próximo. Isso era capaz de revelar bastante sobre seu caráter.
Desmanchei a trança, disposta a refazê-la outra vez, quando vi alguém cruzando a rua na nossa direção. Torci os lábios, desgostosa. Scott.
Eu tenho minhas dúvidas de que Scott sóbrio seja melhor do que Scott bêbado. Pelo menos bêbado ele não era tão aborrecedor.
James se aproximou um passo e levou o rosto perto do meu ouvido.
"Ruiva, aquele não é o cara de quem vocês estavam falando ontem?" Indagou, rouco, embora sem esconder o tom de desagrado.
"Scott." Anuí, desconfortável.
Scott morava a quase quatro quarteirões dali, o mesmo para Mia, o objeto da sua devoção. Nós havíamos feito a pré-escola juntos, mas só costumávamos nos encontrar em eventos sociais, como a festa de Lauren e Isabelle. Se ele estava por ali era sinal de que procurava por alguém. Que parecia ser eu, já que se aproximava com passadas rápidas.
Naquela tarde, tinha arrumado o cabelo loiro escuro com gel, o que o livrava daquela constante impressão de ter levado um choque, e usava calças com estampa do exército e uma camiseta do Ramones. Não era o cara mais desagradável do mundo, tanto visualmente quanto sentimentalmente, mas parecia carecer de amor próprio. Estava apaixonado por Mia desde que eu me lembrava. Mia, por outro lado, parecia interessada em ficar com qualquer outro que não Scott. Não que eu a culpasse. Era pressão demais namorar com alguém que a venerava.
Scott deve ter se sentido acuado pela presença de James e Remus, porque parou cerca de um metro à nossa frente, coçando a nuca.
"Oi, Lily." Falou, arriscando um sorriso. "Eu só queria me desculpar pelo dia da festa."
A verdade é que eu tinha um pouco de pena de Scott. Se fosse qualquer outro rapaz, eu provavelmente teria amaldiçoado até sua décima geração e teria lançado Alex em cima dele, porque Alex não precisa de muitas desculpas para começar uma briga. Mas Scott, pobre Scott, estava completamente obcecado, e eu não era seu alvo, de modo que podia facilmente perdoá-lo pelo deslize. Quero dizer, ele tinha tanto a mais com que se preocupar, tentando convencer Mia de que era o cara certo!
"Claro." Respondi, de modo agradável. "Desde que você não torne isso um hábito."
Ele sorriu outra vez, mais confiante, preste a concordar, mas James, que estava ao meu lado como um cão de guarda, deu um passo à frente, o rosto impassível, toda sua altura o tornando ainda mais ameaçador se comparado aos 1,75 m de Scott.
"Aproxime-se dela outra vez e você vai descobrir qual é a sensação de engolir os próprios dentes, Scott." Avisou, o que fez Scott recuar e empalidecer.
"Tudo bem, Scott, JP só está brincando." Tomei as rédeas de situação, porque vi que uma bomba poderia explodir a qualquer minuto. Pousei a mão sobre o braço de James, obrigando-o a recuar. Scott era um nerd. Nunca deveria ter brigado nem com um ursinho de pelúcia, que dirá com um cara de verdade. "Olívia está em casa, se você quiser se desculpar com ela também. E Lauren..." Olhei para Remus, indagadora.
Ele sacudiu a cabeça em negativa.
"Sirius ainda está com Lauren." Advertiu, o que foi o suficiente. Black conseguia ser duas vezes mais selvagem do que James fora do sério - sem nem mesmo se esforçar muito. Suponho que tenha algo que ver com o gene da loucura que dizem perseguir sua família.
"Não vá até a casa de Lauren hoje. Ou você realmente, realmente vai engolir os próprios dentes." Falei para Scott, séria.
Ele anuiu, pálido, agradeceu e deu meia volta, sumindo na primeira esquina que encontrou.
Voltei-me para James, as sobrancelhas arqueadas, e o soltei. Pela sua expressão relaxada, já podia dizer de antemão que não se sentia nada, nada culpado.
"Você não tem vergonha de ameaçar um cara com metade do seu tamanho?" Perguntei, cruzando os braços. Não que eu estivesse muito aborrecida, já que era bom que alguém desse um jeito no temperamento bêbado libertino de Scottie, mas James tampouco precisava ser tão duro. "Scott é tão inofensivo quanto um filhotinho de cachorro, James."
Remus deu um meio sorriso torto ao seu lado, de alguém que tem uma piada interna, e apenas encolheu os ombros quando o fitei, interrogativa.
"Ele tentou beijar você sem permissão, Lily. Eu nunca tentei fazer isso." Frisou James, em tom de obviedade, o rosto se contorcendo numa careta. "Só queria garantir que ele não fosse tomando essas liberdades outra vez."
"Eu acho que ele não vai tomar voltar a tomar liberdades. Jamais." Disse, fitando o caminho por onde Scott se foi. Resolvi deixar pra lá. Se não havia conseguido mudar o jeito explosivo de James com todas as detenções que lhe dei nos anos em que fui monitora, não seria agora que o faria. "Então, de volta aos planos originais. Sorveteria." Apontei, recomeçando a andar.
"É sério?" Questionou Remus, um pouco surpreso, seguindo do meu lado direito. "Você não vai discutir com James ou algo assim? Você nunca perderia uma chance como essa, Lily."
Recomecei a fazer minha trança, distraída.
Estava calor, fazia sol e era o dia perfeito para a piscina. Ao invés disso, havia sido expulsa de casa, discutido com minha melhor amiga sobre seu potencial desapontador futuro namorado e tinha feito planos de comer sorvete com meu anterior desafeto. Quero dizer, diante daquela situação tão estapafúrdia, tudo o que viesse era lucro.
"Férias, Remus, férias." Disse, desinteressada. "Não vou ser sua babá. É tão estressante conviver com vocês em Hogwarts. Sinto como se minha cabeça fosse explodir na metade do tempo. Não vamos tornar minhas férias num inferno cabalístico, né?"
Ele ficou quieto por um momento, provavelmente sem saber o que dizer. Eu não exatamente o culpava.
As obrigações ao longo do ano letivo sempre me transformavam numa versão tão exaustiva de mim mesma. Era como se eu estivesse sempre vivendo sobre a sombra constante de uma desgraça, não fosse a situação no mundo mágico, que se deteriorava a cada minuto, então com relação aos garotos do sétimo ano, que pregavam peças a torto e a direito nos mais novos, além de duelar rotineiramente entre si.
Eu não me arrependia de ser monitora. Era ótimo para o currículo (e estava muito preocupada com meu currículo, uma vez que era nascida trouxa, e o mundo era muito mais difícil para os nascidos trouxas). Mas as férias eram meu momento de retiro absoluto. Era o momento de deixar tudo para trás, todas as preocupações, todas as fontes de estresse. Era o momento de recarregar as baterias para o que estava por vir.
Fitei-o de canto de olho. Remus estava bastante pálido, o que provavelmente se devia à proximidade da lua cheia, que seria dali a dois ou três dias.
"Você está bem? Parece um pouco doente." Comentei, jogando a trança para trás do ombro.
"Estou bem." Ele sacudiu a cabeça, um pouco sem graça. Sempre ficava sem graça quando precisava inventar uma desculpa para justificar sua condição. "Acho que estou ficando gripado. Vou para casa hoje à noite. Ficar aqui é duas vezes mais exaustivo do que ficar em casa. A Srta. Green ainda está tentando se adaptar ao mundo trouxa."
"Ela vai conseguir. Eventualmente." Balancei a mão em sinal de indiferença. Dobramos a rua, de modo que eu pude avistar a sorveteria. "Vocês já viram a televisão?"
"Televisão é genial." Comentou James, excitado, do outro lado. Ele ajeitou os óculos sobre a ponte do nariz, voltando os olhos meio esverdeados para mim, cheio de animação. "A Srta. Green comprou uma. Passamos metade da manhã tentando instalá-la. O sinal ainda não está bom."
Sorri. Os bruxos sempre tinham aquela reação quando se deparavam com a televisão. Cassie passara horas e horas me indagando como os trouxas faziam para prender aquelas pequenas pessoas dentro de uma simples caixinha.
Mesmo assim, James não tinha o perfil de alguém que suportasse ficar muito tempo parado.
"Bem," comecei, pensando na minha ida para Londres. "será que eu posso ficar na casa de um de vocês amanhã à noite?"
Houve um curto silêncio chocado entre eles, que foi quebrado quando James se adiantou para abrir a porta da sorveteria, deixando-me passar primeiro. Um sino tocou, como sempre acontecia, avisando Sean, que lia o jornal, uma caneta presa atrás da orelha, da nossa chegada.
"Hm, você pode ficar na... na casa de James, eu acho. A minha está uma bagunça." Remus encolheu os ombros outra vez, constrangido. Eu sabia que a condição financeira dos Lupin não era boa, uma vez que ele sempre levava uniformes remendados, então resolvi não contestar.
Voltei os olhos para James enquanto seguia para o balcão de sorvetes e agarrava um dos recipientes para começar a me servir.
"Você realmente quer ficar na minha casa?" Ele indagou, surpreso, seguindo-me.
Remus se sentou numa das mesas livres, fazendo sinal de que nos esperaria por ali.
"Amanhã tem um negócio..." Hesitei, indecisa entre o sabor de morango e o de flocos, portanto peguei os dois. "Tem um negócio que eu quero ir em Londres. Mamãe nunca me deixaria ir. Eu vou comprar os materiais à tarde e ficar com Cassandra de noite." Simulei aspas com os dedos ao citar Cassandra. "Cassie ainda está na França e só volta na semana que vem. E eu não quero ficar com os amigos de Louis."
"O que você vai fazer em Londres?" Questionou James, escolhendo praticamente os primeiros sabores que eu, ademais de creme e chocolate.
"Louis tem um show. Ele conseguiu a abertura de uma banda americana ou algo assim." Respondi, distraída, derrubando granulado colorido em cima do meu sorvete. Coloquei balas de goma e cobertura de morango. "Vai ser no Black Label Pub. Danna consegue nos colocar lá dentro pela entrada de funcionários. Você pode ir, se quiser. Não é um encontro, portanto não vá criando ideias. Oi, Sean. Tudo bem?" Sorri brilhantemente para Sean quando nos aproximamos da balança. Depositei meu pote sobre ela.
Sean correspondeu com um sorriso educado, já que eu costumava aparecer uma ou duas vezes por semana durante o verão.
"Você está muito bem, Lily. Essa definitivamente é sua cor." Comentou, com os olhos fixos no caixa. Ele sempre fazia elogios aleatórios para as mulheres, tentando ganhar sua simpatia. Bem, o que eu posso dizer? Fossem verdadeiros ou não, eles funcionavam. "Cinco libras, crianças."
"Espere." James largou seu pote sobre o balcão, enfiando a mão no bolso, e tirou de lá várias notas amassadas. Ofereceu-lhe uma nota de dez libras. "Pelo meu e pelo dela." Disse, colocando seu pote sobre a balança.
Eu contei o troco, porque tinha certeza de que ele ainda não sabia lidar adequadamente com o dinheiro trouxa, e o devolvi quando fomos nos sentar ao lado de Remus.
"Como você pode permitir que ele te chame de Lily quando eu, que convivi seis anos com você, nunca tive oficialmente esse privilégio?" Indagou James, um pouco ultrajado.
"Ele me conhece desde que eu nasci, James." Respondi, sem encará-lo, revirando os olhos. Levei a primeira colherada de sorvete à boca. Deus, eu amava sorvete. Lambi os lábios, satisfeita, fitando-o. "Então, você está dentro?"
Ele pareceu refletir por um segundo, hesitando, embora eu não soubesse exatamente o porquê. Ao fim e ao cabo acabou por concordar, esfregando a nuca.
"Sim, eu estou." Anuiu, e Remus nos encarou, curioso, à espera de uma explicação. Não que eu pudesse culpá-lo pela indiscrição. Lily Evans e James Potter não tinham por hábito combinar programas como se não fosse nada demais. "Lily quer ir a um show em Londres amanhã à noite, Moony. Eu estou certo de que Sirius vai nos acompanhar. Ele só declinou o convite de Alex porque eu disse que não estava interessado, em primeiro lugar."
Encolhi os ombros, um pouco desagradada. Comi mais um teco do meu sorvete.
Black parecia menos intragável quando tinha alguém com quem fornicar nas proximidades, portanto não estava sendo a completa dor no traseiro que costumava ser. O rancor indiscriminado que ele parecia sentir por mim havia amainado de modo considerável desde a festa de Lauren e Isabelle. Eu só podia imaginar que era porque havia dado algum tipo de abertura a James e que isso o havia satisfeito.
"Black é uma condição de procedibilidade em se tratando de você." Comentei, um pouco distraída. "Vocês tomam banho juntos ou algo assim?"
"Só uma vez." Ele admitiu, com um sorriso torto. Fitei-o, surpresa. Não era o tipo de coisa que as pessoas saíam confessando a torto e a direito. "Ele havia bebido demais." James encolheu os ombros. "Remus não tinha força o suficiente para segurá-lo. Amigos também servem para fazer seu serviço sujo."
"Yep." Concordei, lembrando-me, divertida, de Olívia. Voltei-me para Remus outra vez. "Você realmente não tinha percebido Olívia? Quero dizer, é difícil não perceber Olívia."
Remus apoiou as costas contra o encosto da cadeira, suspirando, e passou a mão pelo cabelo castanho claro.
"Eu não sei." Confessou. "Acho que devo ter deixado os sinais passarem. Costumo fazer isso com bastante frequência em se tratando de garotas." Disse, com certa amargura.
Sacudi a cabeça.
"Não tem problema." Dei um tapinha gentil sobre seu ombro numa tentativa de animá-lo. "Sebastian é só uma das mil fases de Olívia. Muito em breve ela vai enjoar dele, por qualquer motivo que seja. Ou ele vai enjoar dela. Olívia nunca foi uma garota que levasse seus relacionamentos adiante. Quem sabe você não tem outra chance até o final do verão?"
Ele esfregou o queixo, claramente hesitante.
"É, eu não sei. Não pretendo ficar aqui até o final do verão. Mamãe quer que eu passe alguns dias em casa." Disse, lançando um olhar de soslaio para James, ao meu lado, que baixou os olhos e crispou os lábios, permanecendo calado e sério.
Agora estava claro que o que quer que estivesse acontecendo em sua vida tinha a ver com a Sra. Potter. Era a segunda vez que eu via sua expressão mudar daquela maneira ao ouvir uma referência a mães de modo geral. Meu sexto sentido dizia que, o que quer que fosse, não tinha estava relacionado com a guerra ou James estaria muito mais paranoico. Então só podia significar algum tipo de doença.
Concordei com Remus, soltando um murmúrio. Estiquei o pescoço para visualizar o sorvete quase intocado de James.
"Por Merlin, James, seu sorvete é triste." Falei, em tom de crítica, numa tentativa de capturar sua atenção. "Onde estão os granulados, as balas de goma, a cobertura? As coisas que vão em cima do sorvete são quase tão importantes quanto o sorvete em si. Eu esperava mais criatividade de um atleta."
"Eu sou criativo para jogadas, não para decoração, ruiva." Ele disse, com um meio sorriso torto, e curvou o corpo na minha direção, arrancando a colher da minha mão. "Deixa eu pegar uma dessas suas balas."
"Ultraje!" Reclamei, com uma careta, vendo-o se servir de uma bala de goma e de um punhado de sorvete de flocos coberto por calda de morango. Puxei o talher de volta assim que os lábios dele se fecharam em torno do mesmo. "Ninguém coloca a mão no meu sorvete, Potter."
"Hmm, você tem que experimentar isso, Moony." James me ignorou, ajeitando os óculos, e, ainda mastigando, virou-se para Remus, que sorria para nós. "Lily me apresentou a essas tais de Gummi Bears ontem à noite. Conseguem ser dez vezes melhores que os Feijõezinhos de Todos os Sabores. E ainda tem a vantagem de que você nunca vai comer um com gosto de cera de ouvido por acidente."
"Não são Gummi Bears." Apontei, uma sobrancelha arqueada. "Elas parecem ter formato de urso para você?" Mostrei meu pote outra vez. "São simples balas de goma."
Ele encarou minha obra de arte, pensativo.
"Você fez com que eu me arrependesse por não ter pegado nada além de sorvete." Comentou, melancólico. "Vou fazer melhor da próxima vez." Garantiu, fitando Remus, repentinamente muito sério. Sério demais para ser verdade. "Os Gummi Bears vem de um planeta chamado Dunwyn." Deu um sorriso torto.
"As balas são de outro planeta?" Remus indagou, divertido.
"Não." Interrompi, sacudindo a cabeça. "Logo se vê que JP tem um péssimo poder de síntese. Os Ursinhos Gummi, um programa infantil, vivem numa era medieval, num lugar chamado Dunwyn. As Gummi Bears, por outro lado, são as balas de goma que deram origem ao desenho animado. Eu dei algumas Gummi Bears para James. Acho que ele está apaixonado." Fitei-o, zombadora, levando mais um pouco de sorvete de morango com granulado à boca.
Os olhos castanhos dele ficaram fixos nos meus lábios e na minha colher por um momento.
"É claro que sim. Maldição, são ursinhos falantes!" Ele exclamou então, sacudindo os braços, o que me fez rir.
Minha reação deve ter sido reconfortante o suficiente, porque ele pareceu relaxar, atirando-se contra o encosto da cadeira de metal, e se pôs a comer seu próprio sorvete, já totalmente esquecido da conversa de um minuto atrás.
Essa foi a primeira vez que tomamos sorvete.
N/A: Ahááá, quem diria que Lily iria se permitir ir à casa de JP, hein? O que será que vai acontecer por lá? Mistéééérios :B Brincadeira! Vamos descobrir no próximo capítulo ;)
Vocês se lembram dos Ursinhos Gummi? Eu via o desenho deles quando era criança, hahahah. Tem certa falha no tempo, já que os Ursinhos Gummi é do começo da década de 80, mas eu já havia utilizado a referência, de modo que decidi deixar assim mesmo. Mas a Blue Öyster Cult, banda para a qual Louis vai abrir, existe mesmo e lançou o primeiro álbum em 1972! O primeiro hit deles foi lançado em 1976 e, considerando que a história se passa em 1977, a banda acabou de estourar.
Bi, Nicky, obrigada pelos comentários! Espero que vocês continuem acompanhando :) Prometo não torturá-las muito com a perspectiva do primeiro beijo do casal. Vai vir looogo.
Pessoal, continuem acompanhando e deixem seus comentários! Nos vemos no capítulo sete, que vai se chamar Como Uma Ninfa da Primavera. Preparem seus corações!
