CAPÍTULO SETE: UM MISTÉRIO MUITO MISTERIOSO

Convencer mamãe a me deixar ir para Londres não foi tão difícil quanto imaginei que seria a princípio. Isso porque Black e James, meus acompanhantes oficiais, haviam feito o curso para aparatar, podiam realizar magia fora da escola e pareciam suficientemente fortes para me proteger do que quer que fosse.

Assim que ela soube que eles me escoltariam até o Beco Diagonal, onde eu me encontraria com Cassandra, com quem passaria a noite, aceitou quase prontamente a proposta, embora um pouco triste porque não poderia desvendar mais mistérios da magia naquele verão.

Para desgosto de Petúnia, ela costumava me acompanhar durante a compra dos materiais, geralmente muito mais empolgada do que eu. Adorava ver a magia acontecendo, mas estava disposta a se abster daquele privilégio para "dar uma chance ao amor adolescente" (palavras suas, deixe-me acrescentar) - o que, a propósito, soa totalmente desagradável e desconcertante. Foi reconfortante saber que estávamos sozinhas na sala de jantar enquanto retirávamos os pratos na noite passada.

Dada a situação, não era surpresa que eu tivesse acordado ansiosíssima naquela manhã. E cedo. Muito cedo.

Papai e mamãe sequer haviam saído para o trabalho ainda. Era uma superação para mim mesma conseguir despertar sem que alguém fosse obrigado a me derrubar da cama antes das nove da manhã.

"Ora, o que minha princesinha vermelha está fazendo fora da cama tão cedo?" Papai indagou, divertido, erguendo a cabeça do jornal quando me viu entrar na cozinha, ainda de pijamas e descabelada, mas surpreendentemente bem disposta.

"Boa pergunta." Reiterei, com um sorriso meio torto, puxando a cadeira ao seu lado para me sentar.

"Eu não vou responder essa, mas eu sei a resposta." Disse mamãe, irônica, por detrás do balcão, enquanto derrubava algumas panquecas numa travessa. Virou-se, piscando o olho para mim, cheia de uma malícia que eu não estava habituada a ver.

Bufei, um pouco constrangida, e balancei a cabeça para papai, que me fitava, confuso.

"Eu vou ao Beco Diagonal hoje." Falei, em tom explicativo, querendo desviar a atenção daquela indireta, o que a princípio pareceu ter sido o suficiente. Papai não se sentia tão confortável quanto mamãe com relação à mágica, mas gostava muito de itens encantados. Dizia que eles eram um facilitador para a vida mundana.

"Se você encontrar outro objeto divertido, pode trazer para mim." Ele falou, com um sorriso, batendo no bolso da calça para sinalizar que tinha meu presente, um relógio mágico, consigo.

"Existem milhares de objetos divertidos, mas acho que Petúnia não iria gostar de saber que eles existem." Apontei, um pouco áspera, derrubando suco de laranja num copo e bebericando um gole. A aversão à magia de Petty Monstro havia se tornado um pouco massiva e exaustiva após sete anos de puro preconceito.

Mamãe fez um gesto de indiferença com a mão, tirando o avental, pegando a travessa e se sentando à mesa com nós.

"Deixe sua irmã em paz." Falou, pousando a travessa no centro da mesa e espetando uma panqueca com o garfo, de modo a levá-la para seu prato. "Petúnia é tradicional. Não gosta de nada que possa ser minimamente diferente. Sua vida já está milimetricamente calculada. Ela colocou na cabeça que tudo tem de ser de determinada maneira e fará o possível para não se desviar do seu curso."

Papai suspirou, esfregando a ponte do nariz e abandonando o jornal ao lado da sua xícara de café.

"A verdade é que Petúnia me preocupa um pouco. Ela pode ser mais velha, mas eu acho que você vai precisar ser a madura da relação, Lily." Avisou. "Família é importante. Família é força. Eu e Margot não estaremos aqui para sempre. Quando nós nos formos, você terá que manter Petúnia sob controle. Aquele garoto, Vernon, ele pode ser muito persuasivo."

Soltei um ruído com a boca, revirando os olhos. Detestava aquelas conversas. Eram fúnebres, desagradáveis e geralmente me davam dor de estômago.

"Precisamos falar sobre Vernon Baleia no café da manhã? Você quer tirar todo meu apetite?" Reclamei, pegando uma fatia de bacon.

Mamãe não resistiu à ideia de dar um meio sorriso cheio de diversão, mas logo fingiu estar séria:

"Não fale assim do seu cunhado, mocinha."

Nós terminamos nosso café da manhã conversando sobre banalidades, como do meu último ano na escola, dos planos de Petúnia para tirar a carteira de motorista e do meu novo e brilhante broche de Monitora-Chefe.

A verdade é que, ao invés do júbilo que precedia aquele tipo de notícia, eu havia sentido um misto de alegria e depressão após receber a carta de Dumbledore, porque ser Monitora-Chefe implicava ser duas vezes mais responsável do que era quando monitora e ser monitora por si só já era muito trabalhoso.

Apesar disso, papai ficou muito orgulhoso, dizendo que o que movia o homem era o trabalho duro, e eu não podia negar que seria ótimo ter tal honraria no meu currículo, então acabei por aceitar que aquela talvez fosse uma boa ideia afinal.

Quando fiquei sozinha outra vez, perto das 8h30min, lavei a louça do café da manhã e subi para o quarto. Tomei uma ducha reconfortante, lavei os cabelos e os hidratei, porque a piscina costumava destruí-los. Depois do banho, aproveitei o silêncio da casa para adiantar algumas tarefas. Não pude trabalhar muito. Logo Petúnia acordou, cheia de uma energia incomum, e ligou o LP no andar inferior, ouvindo ABBA.

Desci as escadas e a encontrei dançando sozinha na sala de estar.

Controlei a risada, pigarreando para chamar sua atenção, e o rosto afogueado dela se virou na minha direção quase imediatamente, as bochechas corando diante da vergonha de ter sido pega no flagra. Talvez pensasse que eu estivesse dormindo ou algo assim.

"Ah, filhote de macaco vermelho." Disse, em tom de desprezo. "O que você quer?"

"Nada." Encolhi os ombros, com um sorriso divertido. "Só vim verificar o motivo da comoção. Aconteceu algo que eu deva saber?"

"Não, nada que você deva saber, anormal." Ela rebateu, revirando os olhos, e arrumou os cabelos loiros, que estavam bagunçados. Eu soltei um ruído de indiferença, preparando-me para passar por ela e seguir na direção da porta da frente, mas aparentemente Petúnia estava excitada demais para simplesmente não compartilhar o motivo da sua felicidade. "É só que ontem no telefone... Marge me disse que Vernon está se preparando para fazer o pedido."

Supus que Marge fosse a irmã de Vernon. Era impossível que ela tivesse acesso àquele tipo de informação se não fosse uma fonte privilegiada.

Mesmo assim, fiquei em dúvida se devia parabenizá-la ou reconfortá-la. Não encontrava motivos para felicidade diante da perspectiva de dividir a cama com alguém que naturalmente ocuparia mais da metade dela, mas estava certa de que Petúnia não tinha interesse em ouvir minhas reflexões.

Como diz mamãe, quando ela enfiava algo na cabeça, era definitivo.

Quando terminara com Eric Gostoso, decepcionada porque ele nunca tinha dinheiro o bastante para levá-la aos lugares chiques que os namorados de Paige tinham o costume de levá-la, jurou para si mesma que encontraria alguém que pudesse fazê-lo. E Vernon podia. Ele era tão absolutamente apaixonado por Petúnia que provavelmente deixava que ela gastasse metade do salário que recebia na sua empresa de porcas.

Se ela soubesse que Paige era completamente apaixonada por Eric Gostoso, talvez tivesse mudado de ideia com relação a deixá-lo.

"Uau, parabéns, caveira amaldiçoada." Eu falei, com o máximo de sinceridade que podia. "Mas você está certa de que é uma boa ideia se casar sendo tão nova? Quero dizer, você só tem 18 anos. Deveria seguir o conselho de papai e tentar alguma faculdade."

Petúnia tirava notas boas no colégio, mas nunca teve muito interesse em competir por vagas nas grandes universidades. Dizia que era muito trabalhoso e que não via objetivo em estudar tanto se não pretendia trabalhar para viver.

É claro, ela teve alguns empregos temporários desde que se formou. Trabalhou numa loja de roupas, pelo que mamãe me contou, que foi onde conheceu Eric Gostoso, como secretária numa pequena firma de contabilidade e como telefonista de uma empresa de televisão. Sempre se demitia quando chegava o verão, apesar disso. Já que, segundo ela, o verão era para aproveitar a vida. Preferencialmente bem bronzeada.

"Eu já disse que não preciso de faculdade, aberração." Frisou, revirando os olhos. "Vernon vai fazer todo o trabalho duro por mim. Agora vê se vaza, vai, xô. Estou no meio de uma comemoração particular."

Contive o sorriso e segui para a rua. Pretendia falar com Olívia tão logo pudesse, mas mudei de ideia quando vi a Sra. Dowson passeando com o pequeno James.

"Sra. Dowson!" Chamei, sacudindo o braço, enquanto corria na sua direção.

Ela parou de empurrar o carrinho, erguendo a cabeça para mim, e sorriu um sorriso brilhante, tirando os cabelos loiros da frente do rosto.

Os Dowson haviam se mudado para uma casa na próxima rua há cerca de três anos, quando ainda pensavam em engravidar. Aparentemente, tiveram mais dificuldades do que pensaram a princípio, tendo procurado até por ajuda de especialistas, e James nasceu por volta de apenas seis meses.

"Lily, querida." Ela disse, inclinando o rosto para depositar um beijo na minha bochecha. Como seu marido, era uma mulher alta. Costumava trabalhar como modelo fotográfica antes de se casar com um advogado menor de um importante escritório de advocacia da cidade, o que fez sua vida ficar muito mais entediante do que deveria ser quando ainda trabalhava e ia a festas em Londres e nas grandes capitais do mundo. "Como você está?"

"Estou ótima." Respondi, com um sorriso, voltando-me para o pequeno James, que brincava com um chocalho. "Oi, James. Você está lindo!"

Ele tinha os mesmos cabelos loiros e finos da Sra. Dowson, um rostinho corado e rechonchudo e um enorme par de olhos castanhos. Sorriu um sorriso sem dentes para mim, soltando um ruído ininteligível que fez a Sra. Dowson rir e suspirar, apaixonada.

"Ele começou a balbuciar há alguns dias. Acho que está querendo conversar com você." Disse, suavemente, e se abaixou para limpar sua boquinha com uma fralda. "Você quer pegá-lo, Lily?" Fitou-me de soslaio, sorrindo.

Olhei-a, cheia de expectativa.

"Eu posso?"

Sra. Dowson riu e anuiu, tirando James do carrinho. Ele gritou, os braços esticados, e derrubou o chocalho, que eu prontamente juntei, esfregando-o na roupa para limpá-lo da sujeira. James estava gargalhando de uma careta da Sra. Dowson quando o peguei.

Ele se encaixava direitinho nos meus braços, como se fosse feito para estar ali. Merda, eu adorava bebês.

"Nossa, como você está cheiroso." Falei para ele, sacudindo-o, embora ele repentinamente parecesse muito mais interessado em levar meu cabelo à boca do que em me ouvir. Eu ri. "Alguém aqui gosta de coisas coloridas."

"Como o pai, ele adora cabelos compridos." Explicou a Sra. Dowson, divertida, adiantando-se para liberar os fios vermelhos dos dedos de James. "Bebê, se você for mau com Lily, ela não vai mais querer brincar com você." Beliscou seu nariz, fazendo-o rir.

Nós conversamos por alguns minutos enquanto eu balançava James de um lado para o outro, os olhos fixos nele. Brinquei com sua mãozinha, embora ele estivesse se divertindo muito mais explorando meu brinco em formato de morango ou as pequenas sardas em volta do meu nariz do que comigo.

"Ruiva, oi." Ouvimos uma voz atrás de nós e nos viramos para ver Black que, junto de Remus, aproximava-se, carregado de sacolas.

"Oi." Respondi, suavemente. "Esses são Sirius Black e Remus Lupin, Sra. Dowson. Estão hospedados na casa da Srta. Green, logo ao lado da minha." Expliquei, segurando os dedos de James para obrigá-lo a soltar meu cabelo outra vez.

"Olá, garotos." A Sra. Dowson sorriu seu melhor sorriso, aquele que costumava deixar os homens aos seus pés e que havia lhe concedido muitas capas de revista antigamente. Não foi surpresa ver os rapazes repentinamente sem reação. Ela era uma mulher linda, na casa dos trinta anos, e tinha todos os atrativos do mundo para chamar a atenção do sexo oposto. Ainda mais vestindo aquele vestido leve de verão. "Estão gostando da vizinhança?"

"Sim, é ótima." Respondeu Remus, recuperando o fôlego após um curto silêncio. Sorriu, os olhos fixos em meu pequeno pacote. "Hey, quem é esse lindo bebê?"

James pareceu ter sido atraído pelo ruído e desistiu de tentar puxar meu cabelo.

"Este é James." Apresentei. Ele se mexeu, como se já associasse aquele nome como seu, e soltou um ruído de reconhecimento. "Não é o garoto mais lindo do universo?" Perguntei, meio babona, enquanto ele se remexia e subitamente tentava agarrar o pacote brilhante de salgadinho que despontava na sacola de papelão de Remus.

Sirius soltou uma risada que mais parecia um latido e se aproximou um passo, ficando cara a cara com o bebê.

"Prongs não vai gostar de saber que está sendo passado para trás por um xará." Comentou, divertido, o que me fez revirar os olhos. "Desde pequeno já de olho no que é bom, hein, campeão?" Falou, usando o indicador para cutucar a mãozinha de James, que voltou os olhos curiosos para ele e sorriu.

"Esse é o Sirius que nós conhecemos e amamos, hein?" Disse para James, irônica, com um meio sorriso. "Nunca perde uma chance de flertar."

Sirius me encarou, surpreso, e pôs uma expressão irônica na face.

"É pecado ser gentil?" Piscou.

Se eu não estivesse habituada às suas constantes tentativas de bajular o sexo feminino com elogios, provavelmente me sentiria um pouco mais comovida. Mas a verdade é que ele gostava de ter as mulheres aos seus pés, mesmo que não fossem as mais bonitas que seus olhos pudessem encontrar, apenas pelo simples prazer de forçá-las à rendição.

"Oras, aceite o elogio, querida." Sugeriu a Sra. Dowson, divertida. "Infelizmente, não são todos os rapazes que sabem agir como cavalheiros." Sorriu para Sirius com aprovação. Mal sabia ela o tipo de larápio traiçoeiro que ele era. "Lembro que, na sua idade, o máximo que eu conseguia de um garoto era uma comparação idiota com comida." Ela confessou, pensativa. "Coisas como sonho, pão, filé. De todas elas, filé era a pior. Alguém ainda diz isso hoje em dia? Deveria ser um crime."

"Acredite se puder, elas ainda fazem sucesso." Remus respondeu, rindo.

Sra. Dowson fez uma careta. Naquele momento, James sacudiu os braços, ansioso, e os estendeu na direção da mãe, esperando para ser agarrado.

"Bem, hora de ir." Ela disse, pegando-o. "Vem com a mamãe, bebê. Nós ainda temos um passeio para dar." Ajeitou-o no carrinho, entregando-lhe o chocalho abandonado e ajeitando seu cabelo dourado. "Foi um prazer conversar com vocês, queridos. Até qualquer hora. Nos vemos depois, Lily. Apareça para tomar um chá conosco quando puder."

Nós todos nos despedimos. Precisei me controlar para não fazer beicinho quando James se foi.

"Uau." Fez Sirius, de modo surpreendido, esfregando o queixo, os olhos ainda fixos no balanço do quadril da Sra. Dowson. "Este bairro tem a maior concentração de mulheres bonitas por metro quadrado que eu já vi. Se eu soubesse que você dividia suas férias de verão com esse tipo de beldade, teria aparecido muito mais cedo, Lilykins."

"Beldade casada. Bem casada." Apontei, em tom de obviedade. "Achei que você tivesse o suficiente de diversão com Lauren." Arqueei uma sobrancelha.

"Lauren vai viajar com algumas amigas." Ele encolheu os ombros, sem aparentar estar muito chateado. "Eu bem que tentei convencê-la a ficar por mais alguns dias, mas ela se negou a cancelar. Disse que não trocaria uma semana com vários caras lindos por apenas um cara lindo. O que posso fazer? Não dá pra competir com esse nível de sinceridade."

Tentei controlar a risada, mas acabei soltando uma sonora gargalhada mesmo assim. Poucas pessoas no mundo eram páreo para a cara de pau de Lauren.

Era incrível que seu pai ainda pensasse nela como uma dama pura e educada que estava esperando pelo cara certo para um relacionamento sério. Acho que alguns pais têm dificuldade de reconhecer a verdadeira natureza diabólica de seus filhos.

"Por incrível que pareça, desde que seu pai começou a lhe arranjar encontros com seus estagiários, Lauren o convenceu de que pretende se casar virgem e que não pode lidar com a tentação de sair com alguém que não acredite ser especial." Confessei, rindo e sacudindo a cabeça.

Sirius soltou uma gargalhada que mais parecia um trovão num dia de chuva.

"As habilidades de persuasão de Lauren devem ser admiráveis." Comentou Remus, divertido. Trocou o peso do corpo de uma perna para outra, sacudindo as sacolas de papel que segurava. "Lily, se você não se importa, vou entrar. Acho que estou carregando uns quatro litros de leite aqui."

"Claro, vão em frente." Sinalizei, com indiferença. "Eu vou para a casa de Olívia. Até logo."

Abanei a mão em sinal de despedida e recomecei a andar. Sabia que precisaria pedir desculpas a Olívia, portanto comecei desde já a ensaiar minhas palavras. Ela gostava de declarações exageradas. Seria fácil ganhá-la com um "arrependimento mortal", "sofrimento terrível" ou algo assim.

Para minha sorte, já que uma entrada sem ser anunciada seria mais eficaz, sequer precisei tocar a campainha quando cheguei à residência dos Strauss. A Sra. Strauss estava no jardim, cuidando de suas margaridas premiadas, e levantou a cabeça e sorriu para mim ao me reconhecer.

"Olívia está no quarto." Piscou, provavelmente já ciente da nossa discussão.

Subi as escadas e bati na porta verde neon apenas por desencargo de consciência, já que tocava Pink Floyd tão alto que mal dava para ouvir meus próprios pensamentos mesmo do corredor. Esperei alguns segundos antes de girar a maçaneta e empurrar a porta.

Olívia estava parada em frente à sua cama, os braços cruzados, com aparentemente todo o roupeiro espalhado sobre o colchão. O típico drama vivido por uma mulher que não sabia o que vestir.

"Ei." Chamei em voz suficientemente alta para ser ouvida, de modo amigável. Ela voltou a cabeça na minha direção. "Posso entrar?"

Ela sacudiu a cabeça, fazendo sinal para que eu me aproximasse. Parei ao seu lado, colocando as mãos na cintura. Olívia era magra e alta e não era difícil encontrar uma roupa que caísse bem nela. Mesmo assim, era surpreendente que sempre enfrentássemos aquela situação diante de seus primeiros encontros.

"Não tenho nada para vestir." Ela se esforçou para gritar por cima do som. Suspirou, frustrada, seguindo até o LP e erguendo a agulha. O cômodo ficou repentinamente em silêncio. "Não tenho nada para vestir. E mamãe não quer me levar ao shopping para comprar alguma coisa nova."

Aparentemente, todo o drama que havíamos compartilhado no meio da rua no dia anterior havia sido esquecido. O que não era muito surpreendente. Ambas tínhamos por hábito ter algumas discussões loucas por motivos fúteis e, passadas algumas horas, fingir que nada aconteceu.

Eu me pus a ajudá-la a lidar com a situação, mais do que disposta a deixar tudo para trás de modo definitivo. Nada melhor do que passar o dia sem precisar me humilhar por perdão.

No fim da manhã, ajudei a Sra. Strauss a fazer o almoço enquanto Olívia tomava um relaxante e hidratante banho de banheira, preparando-se para a longa tarde de preparativos que se seguiria (secar e escovar o cabelo, depilar todas as partes possíveis do corpo, pintar as unhas das mãos e dos pés, etc.), e nós três almoçamos perto das 13h.

Coloquei toda a louça na lavadora antes de sair.

"Boa sorte hoje à noite." Disse, apertando a mão de Olívia e logo lhe entregando o secador.

"Obrigada." Ela piscou, fitando-me pelo espelho. "Quanto a você... Tome cuidado. Esses bares em Londres podem ser mal frequentados. Não saia de perto de Alex. Não beba nada que um desconhecido oferecer. Não vá ao banheiro sozinha. E não vista saias ou vestidos."

"Sim, capitão." Zombei, batendo continência.

Olívia expirou profusamente, revirando os olhos.

"Estou falando sério, Lils." Reclamou, fazendo beiço, e colocou o secador na tomada que havia ao lado da sua penteadeira. "Esses lugares podem sair de controle. Não quero que você se machuque ou algo assim. Cuidado nunca é demais. Divirta-se, mas seja vigilante."

"Eu vou estar com Alex, JP e Sirius." Encolhi os ombros, como se isso explicasse tudo. E, de fato, explicava. Afinal, Alex era um poço de ciúme. Ser superprotetor estava na sua genética.

Além disso, no decorrer da manhã havia contado para Olívia sobre nossa ida à sorveteria e o desagradável encontro com Scott, que, por sinal, também havia passado ali no dia anterior para se desculpar, de modo que ela já estava a par do jeito protecionista que James havia reagido com relação a mim.

Sobre Sirius, bem, Sirius por si só já era uma força da natureza muito difícil de conter e, em momentos de necessidade, era bom tê-lo como aliado. Quero dizer, ele cobre as costas de James. E James meio que cobre as minhas. Então, independente de quão complicada seja a situação, eu estarei segura.

"Cara, você tem sorte de ter achado JP." Olívia suspirou, um pouco nostálgica. "Onde se escondem os outros rapazes como ele?"

"Esse é um mistério muito misterioso." Disse, em tom sabe-tudo, o que a fez bufar e rir.

Segui para casa, apressada porque estava atrasada. Podia ouvir risos agudos vindos da piscina e cabeleiras platinadas e brilhantes desfilando para lá e para cá. Tocava Bee Gees.

Colocando a cabeça para dentro da sala, visualizei a cozinha, que ficava contígua ao cômodo e separada por um largo marco. O liquidificador estava sobre a mesa, junto de uma garrafa de vodka. Alguém andou fazendo coquetéis de frutas.

Decidi não interromper. Petúnia achava minha presença vergonhosa e eu achava as amigas dela ridiculamente insuportáveis, de modo que eu fazia um favor a nós mesmas enquanto mantivesse uma distância segura.

Subi as escadas tentando não chamar atenção. Mal tive tempo de arrumar a mochila e trocar de roupa antes que a campainha soasse. Voei pelo corredor, ainda tentando ajeitar o cabelo, para impedir que Paige, Bettie ou Lucy, as presenças-constantes da vida de Petty Monstro, abrissem a porta. Não queria perder tempo tentando separá-las de Sirius.

Dei sorte. Naquele momento, Lucy se aproximava, dançando dentro do seu minúsculo biquíni de oncinha, os cabelos compridos recentemente pintados de loiro, um copo de uísque na mão.

"Deixa, deixa, é pra mim!" Gritei, já com a mão na maçaneta. Abri a porta de supetão, empurrando Sirius e James para fora da soleira, e bati a porta atrás de mim antes que ela tivesse tempo de sequer pensar em me dar uma resposta.

"Mas que porra...?" Começou Sirius, os olhos abertos como pratos, vendo-me respirar fundo e apoiar as mãos sobre os joelhos numa tentativa de recuperar o fôlego.

"Ufa. Foi quase." Disse, um segundo depois, empurrando os cabelos para trás, de modo a tirá-los da frente dos olhos. A trança que começara a fazer segundos antes de deixar o quarto como um furacão havia se destruído por completo. "Se as amigas de Petúnia vissem você, não sairíamos daqui nunca." Reclamei, em tom acusatório. "É um pouco chato isso. Você podia ser um pouquinho mais feio."

Confuso, ele se virou para James, que tinha um meio sorriso no rosto.

"Isso foi um elogio?" Indagou, as sobrancelhas negras apertadas.

Petúnia abriu a porta antes que eu tivesse tempo de responder. Ela trazia o cabelo loiro preso num coque, vestia um maiô verde, a pele brilhante pelo óleo do bronzeador, e estava descalça.

"Posso saber onde você está indo, cabeça de fósforo?" Perguntou, deslizando os olhos por Sirius e James, quase como se nem pudesse vê-los. "Com esses degenerados?" Completou, sem esconder o desprezo, uma vez que sabia que ambos eram alunos de Hogwarts. "Mamãe por acaso sabe que você está praticando sexo a três?"

Encarei-a por um segundo, chocada. Para minha sorte, a risada disfarçada de tosse de Sirius logo me tirou daquele torpor.

Nunca era bom ficar sem palavras perto de gente como Petúnia. Ela podia farejar a fraqueza.

"Oras." Joguei o cabelo por cima do ombro, negando-me a parecer mortificada, embora não houvesse como disfarçar o rubor. "Pelo menos Sirius e James são bonitos. Não posso dizer o mesmo de nosso querido Vernie, não é mesmo, boneco de vodu? Quem sabe quando ele perder os 100 kg que ele precisa. Vamos ser otimistas."

Petúnia colocou os olhos em branco, já que ela, mais do que ninguém, deveria estar consciente do excesso de peso de seu namorado. Ele era a piada da rua.

"Não o chame de Vernie, idiota. Se eu estivesse procurando por um modelo, teria ficado com Eric. Pelo menos Vernon é normal. Diferente dos seus namorados." Disse, encolhendo os ombros, a voz neutra. "Não precisa se preocupar em mandar notícias." E bateu a porta na minha cara, contendo um meio sorrisinho cretino.

Como a boa rainha do drama que era, ela adorava cenas dramáticas.

"Deus, que piranha." Resmunguei, bufando, exasperada.

"O que exatamente ela quer dizer com normal?" James perguntou, curioso, provincialmente ignorando o fato de que havia sido declarado como meu namorado.

"Ah," mordi o lábio inferior, sem esconder certo desconforto. Não era nada agradável compartilhar com os demais o que minha irmã verdadeiramente pensava sobre o mundo da magia. "Petúnia não gosta de bruxos." Falei, preferindo não entrar em detalhes. "Logo, ela não gosta de mim. Ou de vocês, é claro. Podemos ir?" Indaguei, ansiosa, mudando de assunto.

James encarou a porta fechada atrás de nós.

"Bem, nós estávamos pretendendo aparatar da sua sala de estar, mas devido às circunstâncias..." Franziu o cenho, passando a mão pelo cabelo, e deslizou os olhos na direção da residência dos Green. "Acho que podemos fazer isso na casa de Peter."

Concordei com um ruído. Tudo o que menos precisava era de outra batalha verbal com aquela caveira amaldiçoada que o destino me fizera chamar de irmã.

"Então," começou Sirius, assim que iniciamos a curta caminhada que nos levaria até a casa da Srta. Green. "quanta diversão exatamente estou perdendo?" Apontou com o queixo para minha casa, parecendo um pouco melancólico ao perder aquela oportunidade. Certamente a visão de Petúnia em roupas de banho havia feito com que ele pensasse duas vezes no que estava rolando na piscina.

"Eu não sei se os prós superam os contras." Confessei, pensativa. "Todas são loiras, bronzeadas e cheias de estilo, mas você não iria querer as amigas de Petúnia grudadas nos seus calcanhares, acredite em mim. Uma vez que elas anotam sua placa, você nunca mais fica livre."

"Anotar minha placa?" Ele questionou, sem entender a referência à cultura trouxa.

Era um pouco surpreendente que eles estivessem conseguindo se entrosar tão bem com adolescentes trouxas, considerando a quantidade de gírias que Alex e Olívia usavam. Exceto por uma ou duas situações em que suas reações geraram estranheza, como quando admitiram não saber o que era maconha, por exemplo, James e Sirius estavam agindo com uma incrível naturalidade.

Era provável que tivessem combinado de ignorar e fingir entender o que na realidade não entendiam, apenas para evitar comentários.

"Elas são perseguidoras, Sirius." Expliquei, com a voz monótona. "Elas caçam você. Elas usam você. Elas perseguem você quando você não quer mais. Elas infernizam você quando percebem que não tem volta. Destroem todos seus possíveis futuros relacionamentos. Aquelas garotas são uma máfia."

"Eu gosto de correr um pouco de perigo." Ele encolheu os ombros, divertido.

Subimos os degraus que levavam à varanda da Srta. Green. James abriu a porta sem sequer precisar bater. É claro, depois de sete anos de amizade, acho que eles já se davam ao direito de agir com um pouco mais de naturalidade na casa alheia.

"Não dá pra discutir com o Pads aqui." Falou JP, fitando-me por cima do ombro com um sorriso. "Você perdeu a atenção dele quando disse que todas eram loiras, bronzeadas e cheias de estilo."

"Meu Deus, Black, você tem a profundidade sentimental de uma colher de chá. Pobrezinho. Deve ser triste ser tão simples." Caçoei, dando um tapinha de condolência em seu ombro. Parei no hall, junto dos dois, os ouvidos atentos a ruídos. Aparentemente estávamos sozinhos. "E vocês, homens, ainda têm a coragem de dizer que somos fúteis. Que insulto."

Sirius me encarou, arqueando uma das sobrancelhas, claramente irônico.

"Será que eu preciso citar o fato de que você acabou de zombar da sua irmã por que ela está se relacionando com um gordo?" Reiterou, soltando uma risada sacana. "Obrigado por dizer que eu e James somos bonitos, aliás. Eu sempre soube que você tinha uma quedinha por nós." Passou o braço sobre meu ombro enquanto James, imperturbável com nossa conversa, seguia até a cozinha para confirmar a ausência da Srta. Green.

Corei, dando uma cotovelada em suas costelas. Ele se curvou, com um sorriso, e tomou uma curta distância.

"Ai, baixinha!"

"Você não conhece Vernon. E definitivamente não conhece Petúnia, senão usaria todas as armas disponíveis." Rebati, torcendo os lábios. Tentei manter a expressão mais neutra possível. "O que posso dizer? Sou uma garota astuta." Fui em busca de James, o queixo erguido, disposta a não me deixar abalar.

Ele estava na cozinha, dando uma mordida numa maçã que recém tirara do cesto de frutas.

"Você pode não me obrigar a socializar com seu amigo ali? Ele é espertinho demais." Pedi, meio ranzinza.

Arqueando uma sobrancelha, como se já estivesse familiarizado com aquela reação, James sorriu.

"Vem aqui." Chamou, estendendo a mão. Segui na sua direção. Havia aprendido a não temê-lo. Tudo o que restava do antigo receio e inevitável aborrecimento eram as malditas borboletas no meu estômago. "Eu protejo você."

Escorei-me contra o balcão, ao seu lado, apesar do peso da mochila.

"Você pode apenas mandá-lo calar a boca. Não penso que ele vai me morder ou algo assim." Disse, sarcástica, embora ele tenha dado uma risada curta e rouca que parecia demonstrar que pensava o contrário. Não contestei, pois sabia que os dois estavam sempre cheios de piadas internas que não diziam respeito a ninguém. "Onde estão Pettigrew e sua mãe?"

"Aparataram para Londres. A Srta. Green vai tentar tirar a carteira de motorista. Seria muito estranho se ninguém nunca a visse sair de casa." Ele encolheu os ombros, passando a mão pelo cabelo, um hábito que eu particularmente considerava muito irritante, e deu mais uma mordida na maçã.

Concordei com um murmúrio, cruzando os braços. A Srta. Green demoraria milênios para tirar a carteira de motorista, considerando que algum dia fosse capaz de aprender. Ligar manualmente o forno já havia sido uma vitória, que dirá engatar uma marcha. Ela celebraria uma festa.

Um instante depois, Sirius colocou a cabeça para dentro da cozinha, chamando nossa atenção.

"Ei, nós vamos ou o quê?" Questionou, o cenho franzido. "Não estou particularmente ansioso para comprar o material escolar, mas a Nimbus 1500 está na pré-venda e eu realmente quero dar uma boa olhada naquela belezinha."

"Yeah." James terminou de mastigar e engoliu antes de falar. Gesticulou com a mão livre. "Vá na frente. Eu e Lily encontramos você no Caldeirão Furado em um minuto."

"Está bem, mas nada de agarração depois que eu sair, crianças." Disse Sirius, sacudindo o dedo, com o sorriso torto que era sua marca registrada.

Para minha sorte (e para a dele também, já que eu facilmente podia arremessar todas as frutas da cesta de frutas em sua cabeça), ele logo desapareceu num estalo.

Rolei os olhos, entediada. Não era como se eu me sentisse exatamente incomodada. Seus comentários inapropriados eram muito comuns. Sirius parecia ter o desenvolvimento mental de uma criança de 5 anos quando se tratava de convivência social. Suas piadas sempre seriam as piadas que meninos e meninas ainda usavam na pré-escola.

"Idiota." Resmunguei para o nada.

James sorriu, mas não respondeu, já que o comportamento exagerado e superdramático de Sirius não deveria ser uma surpresa àquela altura do campeonato. Ainda segurando a maçã, apenas estendeu a mão disponível para mim, a palma para cima.

"Pronta?" Indagou assim que nossas mãos se encontraram, espalhando arrepios ao longo do meu corpo.

Incapaz de falar, porque de repente meus estúpidos pelos estavam arrepiados e parecia haver um buraco negro em meu estômago, apenas anuí, apertando os lábios diante da prévia sensação desagradável que sabia que teria ao aparatar. Os pais de Cassandra já haviam me dado algumas caronas nos últimos anos.

Sempre era tão ruim quanto a primeira vez, de modo que fechei os olhos.

Houve um puxão que partiu do centro do meu umbigo e que quase me fez ter vontade de vomitar e, rodopiando, rodopiando no meio do nada, de repente estávamos no Caldeirão Furado, cheio de bruxos com capas negras e esvoaçantes ao nosso redor. Meu habitat natural.

"Odeio aparatar." Gemi, apoiando-me em James por um momento. "Você não fica todo suado e esquisito e com os joelhos tremendo?"

"No começo." Ele admitiu, fechando os dedos ao redor do meu cotovelo. "Acho que aparatar baixa nossa pressão." Confessou. "Aqui, dê uma mordida. Vai ajudar a aumentar a taxa de glicose e a sensação vai desaparecer." Estendeu a maçã para mim.

Aceitei, respirando fundo, endireitando-me e dando uma mordida.

Nunca havia pensado naquilo. Os sintomas consequentes da aparatação eram, de fato, muito semelhantes a uma queda de pressão. Bem, ninguém podia dizer que não fazia sentido. Desmaterializar-se de um lugar para se materializar em outro devia ser uma experiência totalmente traumatizante para qualquer corpo.

A sensação doce da maçã em minha língua imediatamente amainou o mal-estar.

James usou a ponta do dedo para tirar uma mecha vermelho da frente dos meus olhos, colocando-o atrás da orelha.

"Como está se sentindo?"

"Melhor." Falei, sacudindo a cabeça. Deixei sua mão brincar com meu cabelo. James parecia ter certa fixação por ele. Às vezes, durante as aulas, eu o pegava encarando meu cabelo com um tipo de reverência doido. "Reivindiquei sua maçã." Avisei, sacudindo-a e dando outra mordida. Olhei ao redor. O Caldeirão Furado estava anormalmente cheio para uma simples tarde de verão. "Onde está Sirius?"

"No balcão." Ele disse, após uma curta análise no local.

Como era de se esperar de um conquistador: Sirius estava flertando com uma garota. Eu sabia que era um flerte apenas pela maneira como ela mordia o lábio e parecia não reparar quando ele se inclinava cada vez mais na sua direção, ao ponto de invadir seu espaço pessoal.

Enquanto estava distraída considerando a possibilidade de que melhor amigo tivesse alguma espécie de distúrbio, James estendeu o braço e segurou a alça superior da minha mochila. Com todas as coisas que havia empurrado para dentro dela, como sapatos adequados, maquiagem e mudas de roupa (também havia selecionado dois livros, em caso de tédio), ela estava muito mais pesada do que eu gostaria de admitir.

JP fez uma careta ao constatar o fato.

"Você por acaso está carregando uma pessoa morta aí dentro?"

"Quase." Respondi, com um suspiro, tirando a mochila e a deixando cair no chão. Não havia nada especialmente frágil dentro dela, portanto não me preocupei em ser muito cuidadosa. "Faça um feitiço para reduzir. Não ouse perdê-la, Potter."

"Pode não parecer, mas eu sei ser responsável, Lily querida." Ele reclamou, torcendo o nariz e tirando a varinha do bolso.

"Isso ainda está sob análise." Zombei, massageando o ombro para aliviar a tensão provocada pelo excesso de peso.

Ele lançou um olhar cáustico na minha direção enquanto pronunciava o feitiço para encolher e guardava o pequeno pacote no bolso.

Embora os rapazes tivessem detestado, nós passamos o resto da tarde envolvidos nas compras, uma vez que algumas lojas já demonstravam ter bastante movimento. Por sorte, conseguimos liquidar os itens da lista de materiais antes de ir para a loja de vassouras, o que Sirius, muito a contragosto, dizia ter preferido fazer primeiro.

Eu sabia que uma vez que soltasse dois garotos dentro de um lugar recheado de artigos de Quadribol seria muito difícil reavê-los e, o que não era uma surpresa, meus cálculos foram muito precisos. JP e Sirius passaram cerca de meia hora discutindo as vantagens ergonômicas da nova Nimbus e seu debate foi tão acalorado que o vendedor precisou se aproximar e solicitar que ambos falassem mais baixo.

Fui capaz de arrastá-los para a sorveteria após uma hora e meia – apenas porque ameacei afastá-los dos jogos tão logo as aulas começassem.

Para minha surpresa e desconforto, encontramos alguns conhecidos pelo caminho. Se algum deles se mostrou surpreso por me ver junto de James, porém, não o demonstrou.

É claro, nós tínhamos nossa cota de fama, já que gritávamos pelos corredores e brigávamos mediante plateia durante anos, mas os escândalos das gêmeas Greengrass, as esmagadoras vitórias da Grifinória no quadribol, as festas do Clube do Slug, as terríveis aulas de Herbologia com Madame Silver e os términos dramáticos e relacionamentos paralelos de Sirius Black costumavam fazer muito mais sucesso do que nós. Quem é que se interessaria em dois desafetos quando notícias quentes sobre um ménage à trois ainda estavam frescas na mente de muitos?

Saber que eu havia podido andar ao lado do meu antigo e maior inimigo sem chamar particularmente a atenção de alguém me tranquilizou. Embora alguns pensassem o contrário, considerando meu temperamento estressado e explosivo durante o período de aulas, eu não era alguém que gostasse de ser o centro das atenções.

"Fiquem aí se divertindo, crianças, que o papai aqui vai partir para a caça." Avisou Sirius de repente, enquanto eu e James fazíamos um campeonato informal para descobrir quem decorava melhor seu próprio sorvete.

Observei-o seguir na direção de uma atraente mulher que recém adentrara na Florean Fortescue, várias sacolas da Madame Malkin nos braços.

"Ele sempre deixa você de lado para ir atrás de um rabo de saia?" Perguntei, curiosa, enquanto rumávamos para o caixa.

"Às vezes." Admitiu James, tirando algumas moedas do bolso. Ele parecia muito mais confortável ao manejar nosso dinheiro. "Ele esteve um pouco tenso desde o começo do verão. Conquistar é seu hobby, portanto apenas o deixe relaxar um pouco." Pagou ao jovem Florean, que sorriu, agradeceu e piscou para mim.

A sorveteria havia aberto há cerca de dois ou três anos, quando Florean comprou uma antiga loja de itens para poções. Não é necessário dizer que o local ficou popular quase imediatamente. Afinal, uma sorveteria mágica era tudo o que faltava num local mágico como o Beco Diagonal.

Como o bom monitor que era, ele havia sido meu tutor de Transfiguração durante os primeiros anos, de modo que já nos conhecíamos. A pobre Lily aqui teve muitas aulas extras para descobrir como transfigurar um rato numa régua.

"Bem..." Comecei, ao tempo em que ocupávamos uma mesa. Levei um canudinho de biscoito à boca após afundá-lo na calda de morango. "Você por acaso pretende pagar todas minhas dívidas daqui adiante?"

Até então James havia pagado pela cerveja amanteigada que bebi mais cedo, pela tinta vermelha especial da loja de materiais e pelo sorvete. Antes que eu conseguisse puxar meu saco de moedas do bolso, ele já havia oferecido minha parte para os vendedores.

Eu sabia que ele tinha dinheiro, porque esse não era exatamente um mistério para ninguém, mas, diferente de Petúnia, não gostava de ficar abusando da boa vontade de ninguém.

"Você sabe que eu já sei que você é, tipo, podre de rico, não sabe?" Avisei, uma sobrancelha arqueada.

"É mesmo?" Ele levou uma colherada do seu sorvete à boca, indiferente. Como acontecia com Cassandra, economizar não era uma necessidade para pessoas como JP e Sirius, de modo que eles geralmente demonstravam óbvia impassibilidade com relação a gastos supérfluos, como se eles sequer fossem relevantes no balanço geral da situação. Deus, deveria ser fácil ser rico. "Como você sabe?"

"Sirius, Cassandra, metade dos alunos da Grifinória fala sobre isso." Encolhi os ombros, gesticulando com algum enfado. Às vezes, mesmo quando eu tentava com afinco evitar a fofoca, alguém dava um jeito de trazê-la para mim. "Você não é um cara muito apegado ao dinheiro."

"Dinheiro é muito irrelevante." Respondeu James após um instante, sem voltar os olhos na minha direção. Remexeu distraidamente na sua cobertura de chocolate. "Você não consegue comprar o que realmente interessa, então..." E lá estava, a dureza incomum em sua expressão, como se para esconder algo realmente doloroso.

Aquele não era o local ou o momento adequado para falar sobre o que quer que estivesse tirando seu sono à noite, por isso bufei, atraindo sua atenção, disposta a deixar para lá.

"Você não acha que cobertura de chocolate, sorvete de chocolate e canudinhos de chocolate são um pouco de exagero?" Indaguei, curvando o corpo para ver sua travessa mais de perto. Já havia dado para sacar que ele era um tipo de chocólatra. "É sério, isso deve ser tipo... Eca. Como você não tem cáries?" Forcei uma careta.

"Seu sorvete está maior do que o meu." Ele apontou com a colher, irônico, deixando-se envolver sem resistência.

"É, mas eu tenho anos de prática." Rebati, na defensiva. Franzi o cenho. A maioria das pessoas simplesmente não entendia minha necessidade patológica por sorvete. Mamãe costumava pensar que era bobagem, só um vício bobo e que passaria com o tempo, mas a verdade é que eu tinha um sério problema com doces. "Além disso, meu dentista disse que meus dentes têm uma proteção natural contra cáries, o que significa que posso comer todos os doces do mundo. Sem culpa na consciência."

Com um sorriso torto no rosto, James abandonou sua colher e se escorou contra o encosto da cadeira, cruzando os braços.

"Você realmente gosta de doces." Comentou, divertido. "Eu nunca imaginaria que você gostava tanto de doces."

Dei mais uma mordida no meu canudinho, distraída.

Durante a infância, eu havia sido o terror dos meus pais. Costumava me esconder debaixo da mesa com o açucareiro, comia geleia direto do pote, colocava tanto xarope na minha panqueca que mais parecia uma sopa do que qualquer outra coisa.

Petúnia costumava dizer que minha obsessão por doces servia para adoçar minha personalidade amarga, embora sua declaração fosse muito irônica, considerando a personalidade amarga dela.

"Quando posso, como primeiro a sobremesa e depois o jantar." Confessei. "Sabe, você nunca pode ter certeza de que não vai acontecer um terremoto ou uma enchente ou algo que vai te impedir de comer a sobremesa. Sobremesa é sagrada."

Sacudindo a cabeça, James riu pra valer durante alguns segundos.

"Como você faz para sustentar seu vício em Hogwarts?" Questionou, com um sorriso torto tão logo pôde controlar a gargalhada.

Para meu desgosto, em Hogwarts a sobremesa aparecia apenas após o jantar ter sido retirado. O fato costumava me deixar muito aborrecida. Pensei que a escola seria um meio de me libertar das regras impostas por mamãe para as refeições. Ledo engano.

"Eu vou à cozinha nos intervalos das aulas." Revelei, em tom conspiratório. "Florean me ensinou o caminho." Apontei para Florean, que estava conversando com um senhor no balcão. "Ele costumava me dar aulas de reforço no segundo e terceiro ano, antes de se formar. Como você pode imaginar, Florean também é um aficionado em doces."

"Você fazia reforço em quê?" Indagou James, voltando a comer seu sorvete, que já começava a derreter.

"Transfiguração." Revirei os olhos. "Eu sempre fui ruim em Transfiguração. Você sabe, viu o quão ruim eu era quando me ajudou com o dever. Eu só acho que não faz o menor sentido. Sabe, transformar uma coisa em outra. Não, pior que isso: transformar uma coisa num animal! Como isso é possível? É sério, como um objeto inanimado se transforma numa coruja e ganha vida? É completamente ilógico."

Ele encolheu os ombros, a boca cheia.

"Também acho ilógicos os carros, a televisão e a energia elétrica." Disse, agarrando um guardanapo para que pudesse limpar o canto dos lábios. "Você não precisa procurar por explicações para tudo." Encolheu os ombros, demonstrando certa indiferença.

"Eu posso explicar sobre os carros, a televisão e a energia elétrica." Resmunguei, fitando-o por cima da minha colher. Após sete anos no mundo da magia, não havia conseguido entender como os conceitos trouxas pareciam ser tão difíceis para os bruxos. Quero dizer, tudo fazia muito sentido. Os sistemas eram complexos, mas o resultado era fácil de compreender.

Costumava pensar na magia e na tecnologia como fé e ciência, respectivamente. Com a ciência, tudo é milimetricamente calculado e pesado e as engrenagens são feitas para se encaixar de modo que o cortejo funcione de modo integrado e eficiente. Para a fé, por outro lado, não são necessárias demasiadas explicações. Ou você acredita ou você não acredita. E a magia tinha muito disso. Mesmo que McGonagall passasse semanas tentando nos esclarecer como um simples movimento de varinha podia criar vida, eu nunca entenderia realmente.

Eu acreditava, mas não entendia. Porque existem certas coisas da vida que não foram feitas para serem compreendidas, só para serem apreciadas.

"E eu posso explicar sobre a Transfiguração, ora essa." Respondeu JP, inconsciente dos meus profundos pensamentos a respeito das diferenças de vida entre trouxas e bruxos.

Nós nos entreolhamos por um minuto, em silêncio, um pouco surpresos por nossas próprias declarações e sobre o que elas possivelmente significavam.

"O que isso quer dizer? Você quer estudar junto ou algo assim?" Perguntei, curvei ligeiramente a cabeça para o lado, confusa.

"Se você quiser." Ele disse após um instante, um pouco hesitante.

Comi mais um punhado de sorvete, pensativa.

Sabia que, por algum motivo provavelmente idiota, James fazia Estudos dos Trouxas desde o quinto ou sexto ano. Como era uma eletiva, porém, deveria ser muito mais simples obter um Ótimo nela do que em Transfiguração, de modo que era um acordo mais atraente para mim do que para ele.

Cassie costumava me auxiliar no que era realmente importante. Na maior parte do tempo, porém, eu me virava com minha própria tragédia, exercitando no quarto ou em salas vazias, tentando seguir instruções de livros-texto.

Surpreendentemente, James era bom para ensinar. Fazia com que as coisas difíceis parecessem bastante simples. Nem mesmo Florean havia tido toda aquela fluidez e facilidade. Mas eu podia ser um pouco difícil de manejar quando mal humorada e James, bem, ele ainda não havia me pegado num dia de fúria. Não para explicar conteúdo.

"Não, eu acho melhor não." Falei por fim.

"O quê? Por quê?" Ele piscou, surpreso, e apertou as sobrancelhas. "Você me viu explicar. Eu sei a matéria."

"Não é isso." Respondi, sacudindo a mão. "Hogwarts me deixa cansada, James. Você e seus amigos me deixam cansada. Depois de todos esses anos, você deve saber melhor do que ninguém que eu não sou uma pessoa feliz quando cansada ou com sono. Eu fico impaciente e... Bem, rabugenta." Encolhi os ombros, um pouco envergonhada. "Não vai funcionar."

Ele me encarou, os lábios crispados, pensativo.

"Eu posso manejar você." Garantiu, com tranquilidade, tirando os óculos para que pudesse limpá-los na barra da camiseta.

Franzi o cenho, observando-o. "Manejar", repeti mentalmente. Eis um verbo que ninguém nunca, em hipótese alguma, usou para se referir a mim. Como se eu fosse um veículo difícil de ser dirigido. Ou uma faca com fio muito afiado.

"Como assim?"

"Nós podemos estudar nas cozinhas." Ele explicou, abrindo um meio sorriso torto, e passou a mão pelo cabelo após recolocar os óculos sobre a ponte do nariz. "Pela minha experiência recente, posso dizer que tenho certeza de que uma travessa de sorvete vai mudar seu humor rapidinho."

Não pude evitar a risada, afinal, embora excêntrica, aquela era, sem sombra de dúvidas, a solução ideal para meus problemas de personalidade. No que me concernia, ninguém seria capaz de se manter aborrecido enquanto comia doces. Os doces serviam para alegrar a vida, oras!

"Está bem." Disse, com um largo sorriso. "Você me pegou na parte do sorvete. Subestimei sua capacidade de persuasão, JP. Sou sua."

Afinal, quem estava na chuva era para se molhar.


N/A: People, peço desculpas por adiar o capítulo principal, mas logo percebi que não ia ter espaço pra trabalhar tudo o que queria num capítulo só, de modo que tive de dividi-los. Acho que precisava dar a Lily e JP mais tempo para interagir entre si. Não quis apressar as coisas. Mas, sim, agora sim, posso dizer com toda a certeza que o próximo capítulo se chama Como uma Ninfa da Primavera e que vamos conhecer a Mansão Potter e seus mistérios :D

Não sou uma pessoa que particularmente curte doces, mas achei divertido fazer da Lily uma viciada. Parece um contraponto com a personalidade toda certinha que estamos acostumados. Além disso, resolvi fazer da sorveteria meio que o lugar especial do casal 20 (quem é que não gosta de um buffet de sorvete, né?).

Eu já tenho o capítulo oito quase pronto, então acho que não vai demorar muito até a próxima postagem :)

Não encano muito com coisas de review, porque escrevo para minha própria diversão, mas acho legal ter um feedback, já que estamos compartilhando uma experiência aqui. Acho estranho p fatp de que a fanfic tem lá por volta de 1000 visualizações e apenas 29 comentários. Dá mais ou menos pra entender porque autores abandonam as coisas, afinal, o público é o grande motivador nesses casos. Não vou fazer ameaças por postagem, porque já passei dessa idade de precisar implorar por alguma coisa, mas gostaria que vcs fossem mais presentes, já que eu não sou a única que se diverte por aqui.

Obrigada às pessoas que comentaram! Vocês realmente sabem como fazer alguém se sentir especial!

Nos vemos logo! ;]