CAPÍTULO OITO: COMO UMA NINFA DA PRIMAVERA
A casa de James era... Bem, pra começo de conversa, não era uma casa. Era uma mansão. Feita de pedra, com vitrais coloridos, ostentosa e magnífica, precedida por um jardim que parecia ter saído de um conto de fadas, cheio de flores bem cultivadas e árvores frondosas.
Eu precisei conter um ofego de surpresa ao aparatar na varanda. Foi como sair do mundo real para adentrar num mundo encantado.
Inconsciente da minha reação, Sirius, que, outra vez, viera antes que nós, já adentrara na residência, abrindo a porta como se estivesse em casa. James, por outro lado, permaneceu ao meu lado enquanto eu girava da magnificente porta dupla de mogno esculpido para visualizar os campos verdes e intermináveis que se abriam diante dos meus olhos.
Era um lindo, incrível fim de tarde. Elfos trabalhavam nas flores, que estavam banhadas pelo pôr do sol.
"Você mora aqui?" Indaguei, com um fio de voz, quase emudecida diante daquela beleza sem fim.
"Desde a última vez que eu verifiquei, sim." James sorria torto ao meu lado. "Você gosta?"
"Se eu gosto?" Rebati, quietamente e um pouco incrédula. Era impossível não se apaixonar pelo lugar. Emanava tranquilidade e harmonia, sentimentos que eu costumava ter apenas ao visitar os frondosos jardins de Hogwarts - que pareciam, sem sombra de dúvidas, muito menos incríveis que o jardim dos Potter, agora que eu podia compará-los. "É maravilhoso."
"Minha mãe tem muito orgulho desse lugar." Concordou James, maneando a cabeça. "Você gostaria de conhecer o resto da propriedade?"
Eu anuí, ligeiramente inquieta.
De repente a simplicidade da minha casa fez com que eu me sentisse um pouco oprimida. Sabia que James era rico, sim, mas não sabia quão rico ele era até aquela tarde. Era quase surpreendente que ele fosse capaz de deixar aquele paraíso para dividir um quarto com mais quatro garotos na casa da Srta. Green.
"Nós temos um estábulo e um lago e os fundos da residência margeiam uma pequena floresta." Ele falou, interrompendo meus pensamentos. "Nós podemos passear amanhã. É melhor visitar o lugar quando o sol ainda está alto. Você sabe cavalgar?"
"Não." Admiti, franzindo as sobrancelhas. "Eu nunca fui uma garota campestre."
Demonstrando se divertir com meu desabafo, James riu enquanto ajeitava os óculos sobre a ponte do nariz. Ele tinha uma risada gostosa e confortável de se ouvir.
"Você pode aprender. Não é muito difícil." Garantiu, com segurança. "Eu e Sirius costumamos apostar algumas corridas a cavalo dentro da floresta. Abrimos algumas trilhas nos últimos dois verões. Também podemos alimentar as carpas. Se você acha o jardim bonito, é porque ainda não viu o sol refletindo nas escamas das carpas."
Concordei, em silêncio. Como poderia negar uma proposta como aquela? Parecia que eu havia deixado a cidade e a vida real e enfadonha para imergir de cabeça num livro.
"O que vocês estão fazendo, parados aí na porta?" Ouvimos uma voz feminina que fez com que nos virássemos de pronto.
A Srta. Potter tinha os mesmos cabelos negros e os olhos castanho-esverdeados de James. Era pequena, frágil e delicada, mas tinha uma expressão cheia de força. Usava um vestido de verão na cor verde que combinava com seu tom de pele. Levava os cabelos presos num coque, enfeitados por uma presilha cheia de diamantes, e as mãos na cintura.
"Lily estava apreciando o jardim." Explicou James, com um sorriso, adiantando-se para abraçá-la. "Estava com saudades, mamãe." Disse baixinho, quase ao pé do seu ouvido, num tom que eu nunca havia ouvido antes.
Como não poderia deixar de ser, dada sua diferença de altura, a mulher se perdia dentro da imensidão dos seus braços.
"Oh, querido, eu também senti sua falta. Mas não fique tão sentimental, meu bem. Foram apenas alguns dias." Disse, com um risinho, ficando na ponta dos pés para dar um tapinha gentil sobre sua cabeça. Voltou o olhar para mim assim que se desvencilhou do filho. "E você deve ser Lily Evans. Linda como eu achei que fosse, deixe-me acrescentar."
Eu corei diante do elogio, mas sorri e me adiantei para abraçá-la.
"É um prazer conhecer você, Sra. Potter." Garanti. "Fico feliz em saber que faço jus à minha fama." Brinquei, enquanto nos afastávamos.
Definitivamente, não estava nada maravilhosa. Vestia roupas confortáveis, preparada para passar o dia no Beco Diagonal, e tinha o cabelo preso de qualquer jeito, fios escapando por todos os lados. Além disso, estava suada, corada e um pouco faminta. Tudo o que era suposto significar o oposto da beleza.
"E espirituosa." Comentou a Sra. Potter, rindo. Enganchou o braço no meu. "Docinho, acho que vamos nos dar muito bem." Começou a andar, seguindo na direção da entrada da residência, e fez questão de me puxar consigo. "Eu sabia que James não iria me decepcionar. Sempre afirmei a todos que colocava as esperanças nesse filho. Sirius está a anos-luz de ter alguma relação funcional com uma garota. Pobre menino."
A suntuosidade da parte interna da casa me chocou, portanto eu não dediquei atenção o suficiente para responder.
O hall era gigantesco. O chão era de mármore preto e reluzente. Havia um lustre de cristal oscilando sobre nossas cabeças, brilhando pelos reflexos do sol que adentravam pela janela. Um enorme vaso de flores recém-colhidas estava postado sobre um aparador de mogno, exalando um perfume incrível e que se espalhava pelo cômodo.
"Fique sabendo que eu estou ouvindo isso, mãe." Sirius enfiou a cabeça pelo enorme marco da porta que parecia dividir o hall de entrada da sala de estar.
"É bom mesmo que você ouça, rapazinho. Quem sabe assim não toma jeito?" Rebateu a Sra. Potter, pousando a mão sobre a minha, empinando o nariz. "Vamos, Lily, vamos arranjar o melhor quarto para você enquanto fofocamos. Penso que temos muitos segredos para trocar. James nunca quis me contar quantas detenções pegou ano passado."
"Mãe!" Grunhiu James, logo atrás de nós, de modo que eu lancei um curto olhar sobre o ombro na sua direção.
Ele estava um pouco corado, o que eu não costumava ver com frequência. Sua vergonha me fez rir. Não era todo dia que tinha a chance de me deparar com James embaraçado.
"Eu detestaria decepcioná-la, Sra. Potter, mas a verdade é que eu não sei." Menti, sorrindo de modo reconfortante na sua direção, tentando tranquilizá-lo, antes de voltar a atenção para a pequena mulher ao meu lado outra vez. "Eu aposto que foram algumas." Continuei, com um tom de voz leve, mas que definitivamente encerra o assunto.
A Sra. Potter me fitou, sem esconder a surpresa.
"Ah, vocês, adolescentes! Sempre protegendo as costas um do outro." Reclamou, sacudindo a cabeça enquanto começávamos a subir as escadas. "James me apontou na sua direção há dois ou três anos, quando fui buscá-lo na estação. E me deixe dizer que você cresceu um bocado, mocinha. Da última vez que eu a vi, você definitivamente não tinha este corpinho. Acho que um vestido de seda faria maravilhas com você. Vamos arranjar um."
"Err..." Hesitei, incomodada com sua exagerada recepção. Eu não imaginava que James era o tipo de admirador que secretamente me apresentava para próprios os parentes à distância. Ele sempre havia demonstrado ser demasiado seguro de si para se abalar com minhas negativas e mostrara uma capacidade impressionante de fingir que não se importava ao longo daqueles anos.
Mesmo que Cassie e um milhar de outras pessoas já tivessem afirmado uma e outra vez que seu interesse era genuíno, nunca dei particular atenção à confissão, porque não via em JP nada demais. E tampouco pensava que ele via em mim algo pelo qual realmente valesse a pena lutar a sério. Achava que eu estava mais para um hobby do que para interesse genuíno.
A reação da Sra. Potter, porém, fez com que eu percebesse pela primeira vez que talvez houvesse sido um erro vir até a casa dos Potter. Não queria dar a ninguém a falsa esperança de que estava apaixonada. Eu estava aprendendo a gostar de JP, é verdade, e mesmo pensava que ele tinha um sorriso lindo, mas daí a querer ser apresentada aos seus pais como uma namorada em potencial... Bem, isso nem havia passado pela minha cabeça.
"Não há necessidade. James trouxe minha mala." Eu me virei outra vez, procurando por James, mas ele havia ficado no pé da escada, uma expressão estranha em seu rosto, quase como se estivesse orgulhoso... de mim.
Encarei-o, balbuciando um mudo pedido de socorro, mas, para meu desgosto, fui completamente ignorada.
Ele sorriu, acenou e, assoviando, adentrou na sala de estar, onde estava Sirius, deixando-me à mercê da minha própria sorte.
Assim, absolutamente abandonada, segui junto da mãe do meu maior e mais antigo desafeto, deslizando pelos corredores do segundo andar, tentando não parecer chocada com as esculturas em mármore, com as armaduras reluzentes, o teto incrivelmente alto e os quadros que se mexiam sem parar dentro de suas molduras.
O segundo andar possuía tantos cômodos e corredores que era difícil não me perder. Nem me arrisquei a perguntar onde davam todas aquelas portas. Não fazia ideia de quantos quartos uma família rica poderia precisar para viver de modo confortável.
Após o que pareceu ser uma longa caminhada, enfim paramos em frente a uma das reluzentes portas de mogno.
"Vou deixar você aqui." Afirmou a Sra. Potter, dando tapinhas sobre minha mão. "O quarto de James é na última porta no corredor. O de Sirius fica na porta logo à frente à sua." Apontou. "Entre, tome um banho relaxante e se prepare para o jantar. Charlus não vai estar presente nesta noite, mas eu sempre faço questão de ter um jantar formal, com a família reunida. Leda vai cuidar de você. Leda!"
Com o barulho característico do aparatar dos elfos, atendendo ao chamado da sua mestra, Leda surgiu ao nosso lado um instante depois, quase me fazendo dar um pulo no lugar.
"No que Leda pode ajudar, Sra. Potter?" Se comparada aos elfos domésticos de Howgarts, a elfa era muito mirrada, quase como um brinquedo, e usava trapos azuis que pareciam estar se desmanchando, mas tinha os olhos mais dóceis do universo.
"Faça Lily ficar confortável." Instruiu a Sra. Potter, afastando-se um passo. "Eu vou descer e tomar um chá com os garotos. Você pode ajudá-la no banho e na hora de secar seu cabelo, Leda. Poppy vai trazer sua mala até aqui, Lily, minha querida. Não fique envergonhada de pedir alguma coisa. Qualquer coisa. Estamos aqui para agradá-la."
Uau, as coisas estavam começando a ficar intensas por aqui, pensei, apertando os lábios.
"Na realidade, Sra. Potter, eu..." Tentei interrompê-la a fim de avisar que não pretendia ficar por muito tempo, já que tínhamos planos para ir a Londres, mas, quase como se pudesse ler meus pensamentos (e não quisesse ouvi-los vocalizados), ela agarrou meu rosto, obrigando-me a me curvar, pousou um beijo de cada lado e saiu valsando pelo corredor.
"Estaremos esperando por você às 19h em ponto." Avisou por cima do ombro, com um largo sorriso.
Então restávamos apenas eu e Leda no corredor.
"Leda deve preparar seu banho, senhorita?" Perguntou ela, enrolando as mãos na bainha da roupa, sem esconder certo nervosismo.
Encolhi os ombros e acabei por concordar. Não era como se tivesse a oportunidade para negar qualquer coisa. Começava a aprender que a Sra. Potter poderia ser pequena, mas tinha uma personalidade forte como um furacão. Deveria ser difícil contê-la.
Girei a maçaneta e adentrei no cômodo. Contive o fôlego ao ver me deparar com a decoração. Mostrava-se tão malditamente surpreendente quanto todo o resto do lugar. Era incrível que uma casa pudesse ser tão ou mais magnífica que Hogwarts, mas, bem, ali estava a casa dos Potter, como prova viva de que o impossível acabara de se tornar realidade.
Leda passou por mim, seguindo direto para a porta lateral do cômodo, enquanto eu encarava o lugar, chocada.
Havia uma larga cama de dossel embaixo da gigantesca janela, um sofá e duas poltronas posicionados ao redor de uma lareira de pedra e um quadro lindo, fantástico, de uma garota colhendo flores no jardim e que acenou na minha direção tão logo se percebeu observada. Os móveis eram de madeira e a decoração tinha tons pastel e verdes suaves.
Segui até a janela. Dali tinha vista para o jardim. O sol se punha, aquecendo as flores com seus últimos raios de calor.
"Senhorita, o banho está pronto." Avisou Leda a certo tempo, forçando-me a despertar daquele torpor. "Leda deve ajudá-la a se banhar?"
"Não, Leda, obrigada." Agradeci, seguindo na sua direção e invadindo o banheiro. As paredes eram recobertas por azulejos brancos e esmaltados. Havia uma enorme banheira no canto do cômodo, com água fumegante e cheia de espuma, e uma pia de mármore com um longo espelho no lado contrário. "Você pode me chamar de Lily."
Leda soltou um ruído que mais parecia um lamento, obrigando-me a voltar os olhos na sua direção.
"Leda está muito honrada, senhorita Lily." Disse, limpando o nariz no vestido sujo e rasgado. "A senhorita Lily precisa de alguma coisa? Leda ficaria encantada em ajudar. O cabelo da senhorita Lily é tão vermelho e brilhante. Leda gostaria de ter um cabelo tão bonito."
Sorri, agarrando uma mecha do cabelo num gesto quase inconsciente. Apesar do trabalho que dava às vezes (e do fato de que eu nunca passava despercebida, mesmo quando queria), eu meio que tinha orgulho dele.
"Eu vou ficar bem sozinha." Garanti, começando a tirar a roupa. Estava abafado e u havia suado bastante durante a tarde, de modo que o extraordinário banho que havia sido especialmente preparado para mim começava a parecer atrativo demais para ser ignorado. Passei a camiseta pela cabeça. "Mas você pode ficar e me contar algumas histórias sobre James. Você viu James crescer?"
"Ah, sim. senhorita." Leda correu para juntar as roupas que eu deixei espalhadas pelo chão. Enfiou-as por uma portinhola que eu não havia visto até então, de modo que elas desapareceram num segundo. "Senhor James nasceu num dia chuvoso e cheio de trovões. Senhor Potter costuma dizer que é por isso que seu cabelo é desse jeito. Leda não entende o que isso quer dizer, mas..."
Não a deixei terminar, porque o som da minha risada abafou suas próximas palavras.
Imergi na água morna, suspirando ao senti-la tocar minha pele. Era ainda melhor do que um banho relaxante no banheiro dos monitores.
"Por favor, não pare. Continue falando." Pedi, com um curto sorriso, fechando os olhos por um minuto.
Na próxima meia hora, permaneci submersa na banheira, ouvindo Leda contar as mais diversas histórias sobre as travessuras de James. Ele era uma criança exatamente igual àquela que eu havia pensado: com energia demais para o bem dos próprios pais.
Quando fui lavar o cabelo, a elfa se adiantou para me ajudar, esfregando-o com um óleo de essências florais que cheirava maravilhosamente bem.
Saí do banho e vesti o roupão branco e felpudo que me foi oferecido. Enrolei o cabelo numa toalha. Sentia-me refrescada, mimada, descansada, hidratada em todas as partes do corpo. Foi quase como passar um dia inteiro num spa. A mãe de Alex invejaria minha mordomia.
Deslizei para o quarto, sendo seguida de perto por Leda, que acendeu os candelabros e o lustre central com um estalar de dedos.
"Leda vai ajudar você a pentear e secar seu cabelo vermelho, senhorita Lily." Dizia, caminhando apressada até a penteadeira, puxando a cadeira para que eu pudesse sentar. "Poppy trouxe algumas presilhas da Sra. Potter para que possamos fazer um lindo, lindo penteado. Essa combina com seu cabelo!" Ela exclamou, afobada, estendendo-me uma presilha com um enorme rubi incrustado.
Assim que percebi o tamanho da pedra preciosa que havia nela, soltei-a quase imediatamente, um pouco chocada. Aquela peça deveria valer mais do que minha casa. Como diabos alguém tinha coragem de andar com tanto dinheiro grudado na cabeça?
"Não é necessário, Leda." Garanti, de modo enfático. Tirei a toalha da cabeça, jogando-a sobre a cama. "Eu apenas gostaria que você fizesse um feitiço para secar."
"Oh." Leda não escondeu a decepção. Agarrou a escova, começando a me pentear antes que eu tivesse a chance de dizer que não havia necessidade. "A senhorita Lily não gosta de pedras vermelhas, é isso? Leda pode pedir a Poppy para que traga algumas presilhas de outras cores. A Sra. Potter mandou Leda fazer tudo o que a senhorita Lily quiser."
"Acredite, não é necessário." Repeti, baixando a guarda, inconscientemente relaxando diante daquela massagem. "Eu apenas acho que meu cabelo fica melhor solto. Você não concorda?" Indaguei, numa tentativa de despistá-la.
"O cabelo vermelho é lindo de qualquer jeito." Concordou Leda, sem esconder certa adoração, os olhos fixos nas mechas que tinha entre seus dedos.
Cantarolando uma canção que me era totalmente desconhecida, ela continuou a escovar por cerca de cinco ou dez minutos antes de dar o trabalho por terminado. Secou meu cabelo com um movimento de dedos. Antes que eu me desse conta, ele estava liso, macio, brilhante e perfumado como nunca antes estivera.
Enrolei-o no dedo, surpreendida com sua textura.
"Está lindo." Afirmei, entusiasmada. Voltei-me para Leda, segurando suas pequenas e calejadas mãos contra as minhas. "Obrigada, Leda. Você foi muito amável ao me ajudar durante todo esse tempo." Agradeci, com gentileza, o que fez com que ela começasse a lacrimejar outra vez.
"Leda está feliz por fazer a senhorita Lily feliz." Disse, sacudindo a cabeça de modo exageradamente enfático. Então se afastou, correndo na direção do armário e o abrindo de supetão. Minhas roupas haviam sido devidamente colocadas em cabides. Além disso, parecia haver outros dois ou três vestidos que não me pertenciam, mas que chamavam a atenção pela cor viva e pela aparência deslumbrante.
De onde haviam saído aqueles vestidos?
Leda fez com que um deles flutuasse na sua direção.
"Poppy ajeitou para você." Explicou, sorrindo. "Eram da Sra. Potter, de quando ela era jovem. Poppy pegou suas medidas de acordo com aquelas roupas logo ali e os reformou para que a senhorita Lily pudesse vesti-los. Poppy costura muito bem."
Ela estendeu o vestido para mim. Era amarelo, de seda, com um decote suave, de alças grossas, que ia até o chão. Possuía uma fita de cor pérola na cintura, seu único detalhe. O tipo de roupa que eu não usaria nunca, nem em um milhão de anos, não porque não tivesse dinheiro para comprar, o que, bem, eu não tinha, mas porque não fazia meu estilo.
Eu usava vestidos, sim, porém vestidos casuais e simples, que eram confortáveis para o dia a dia e compatíveis com minha personalidade. Lindos vestidos que pareciam ter saído direto de uma revista de moda nunca estiveram nos meus planos.
Comecei a sacudir a cabeça em negativa, assombrada demais para falar alguma coisa, mas a expressão ansiosa de Leda me fez pensar duas vezes. Não queria decepcioná-la. Ela parecia estar tendo tanta diversão enquanto me preparava para o jantar daquela noite.
Levantei-me, contendo um suspiro, e me livrei do roupão.
Vesti as peças íntimas antes de experimentar o vestido. Leda subiu na cadeira para amarrar a fita na minha cintura.
Quando eu me olhei no espelho, alguns minutos depois, precisei conter o fôlego diante daquela aparência estranha. Dizer que o vestido havia ficado lindo seria uma redundância, considerando que o vestido era lindo por si só. Eu havia ficado, sem falsa modéstia, absolutamente deslumbrante. O amarelo vivo e divertido parecia combinar à perfeição com meu corado natural.
Além disso, meu cabelo estava mais colaborativo do que nunca, macio e brilhoso, caindo como uma cascata sobre meus ombros.
Agora podia entender o que Petúnia queria dizer quando afirmava que tudo o que uma mulher precisava para ser maravilhosa era ter um pouco de dinheiro. Apenas uma hora de tratamento especial e uma peça de valor incomensurável fizeram mágica com minha aparência de garota suburbana.
"Por favor, por favor, senhorita Lily." Pediu Leda, os olhos implorativos. "Coloque a presilha."
Voltei-me para ela, franzindo as sobrancelhas.
"Você não acha que eu já estou formal o suficiente?"
"A senhorita Lily parece com uma ninfa da primavera." Admitiu Leda, ostentando um sorriso largo e orgulhoso. "A Sra. Potter ficará encantada. A Sra. Potter adora ninfas da primavera. São suas criaturas mitológicas preferidas. A Sra. Potter ama mitologia grega. Ainda assim, Leda acha que a senhorita Lily precisa da presilha."
Revirei os olhos, sacudindo a mão.
"Ah, bem, que seja." Voltei para a cadeira em frente à penteadeira, sentando-me. "Faça o que você quiser." Gesticulei, indiferente. Já estava mesmo com a aparência de alguém que estava indo para uma apresentação de ópera ou para o casamento de um rei. Uma joia não poderia fazer tanta diferença.
Cerca de dois minutos depois, Leda tinha prendido a presilha de rubi na lateral da minha cabeça, segurando apenas uma suave mecha do meu cabelo.
A pedra era duas vezes mais brilhante e de cor mais intensa que a cor natural dos meus cabelos e parecia ainda maior agora que havia sido colocada.
Eu estava me sentindo como uma princesa.
"Sapatos!" Gritou Leda, de repente, tirando-me daquele torpor. "A senhorita Lily não tem sapatos adequados." Gemeu, apontando com uma expressão de horror para os tênis que eu estava usando antes do banho e que aparentemente haviam sido lavados até brilhar. Eu juro, os elfos da família Potter são uma máfia. "Está tudo arruinado, arruinado!"
"Leda." Chamei-a, a voz suficientemente alta para ser ouvida sobre seus gritos. "Leda, eu não vou usar sapatos."
Ela parou, voltando a atenção para mim.
Não é que eu não quisesse usar sapatos, mas os sapatos de salto que havia trazido eram pretos e destruiriam por completo a harmonia da roupa. Além disso, o vestido era longo e cobria os dedos dos meus pés, de modo que eu quase passaria despercebida.
Se alguém percebesse, e eu tinha certeza de que James iria perceber, poderia dizer apenas que estava com algumas bolhas nos calcanhares, o que seria uma desculpa boa o suficiente.
Demorei alguns minutos para convencer Leda de que não havia nenhuma necessidade de se torturar por aquela aparente gafe. Na realidade, ainda fazia calor, um clima agradável para o fim de um dia particularmente quente, e a sensação do mármore contra meus dedos era refrescante.
Faltando pouco tempo para as 19h, nós deixamos o quarto.
Eu estava começando a me sentir faminta, mas o relaxamento provocado pelo banho e pela massagem de Leda ajudou a espalhar um torpor agradável por meu corpo, aliviando aquela sensação. Quase queria jantar e ir direto para a cama. De repente a ideia de ir a Londres para apreciar um show de rock parecia exigir demasiado empenho da minha parte.
Quando descemos as escadas que levavam ao hall e posteriormente à sala de estar, já podia ouvir a conversa de Sirius, James e da Sra. Potter.
"...tente não estragar tudo, Jamie." Dizia esta última, a voz enfática. "Todos nós sabemos quanto esforço foi empregado para trazer Lily até aqui."
"Você não precisa me dizer como conquistar uma garota, mamãe." Rebateu James, provavelmente contendo um pouco de irritação, considerando o tom alterado da sua voz.
Para o bem de nossa suposta amizade, decidi levar livre a situação de ser considerada a pretendente oficial de James Potter, porque não sabia até que ponto ele havia mudado e até que ponto durariam essas mudanças. Não queria quebrar nenhum coração desnecessariamente, mas tampouco estava me sentindo muito motivada a dar um passo adiante em um relacionamento no qual não acreditava ou não estava preparada.
Não importando o que a própria Sra. Potter achava, tudo ainda era novo demais entre nós. Me bajular com vestidos não iria funcionar, embora parte mim adorasse a perspectiva de receber aquele tratamento especial todos os dias.
"Na realidade, eu acho que ela precisa, sim." Cortou Sirius, com uma risada. "Admita que você foi uma absoluta decepção durante todos esses anos, Prongs. Por favor, mãe, ilumine-o com sua sabedoria."
"Pads..." James gemeu.
"Tudo o que você precisa fazer é não pressionar." Aconselhou a Sra. Potter. "Lily baixou a guarda para você, o que, pra ser sincera, eu achei que nunca aconteceria. Não é que eu não acredite em você, filho, é só que Lily sempre foi tão mais madura que você. Mas, bem, agora que você a tem, você só precisa esperar. E eventualmente o sinal vai vir."
Naquele momento, decidindo que era hora de interromper a conversa antes que eu escutasse algo que definitivamente não gostaria de ouvir, eu e Leda adentramos a sala, de modo que eu enfim pude visualizar a cena que até então apenas havia recriado na mente.
Sentada numa das confortáveis poltronas cor de creme, as pernas cruzadas, estava a Sra. Potter, segurando uma xícara de chá e levando um biscoitinho à boca, uma expressão estoica. Na poltrona contígua à dela, Sirius havia se jogado contra o encosto da mesma, com o cabelo bagunçado e o habitual sorriso sarcástico no rosto (como ele poderia não se divertir, afinal, quando JP estava recebendo conselhos da sua mãe?).
A vítima da vez, James estava de costas para mim, acomodado no sofá de três lugares que havia sido posicionado de frente para as poltronas e para a lareira de pedra. Uma perfeita cena doméstica.
Pigarreei, chamando sua atenção.
"Com licença." Disse, uma sobrancelha arqueada. "Estou interrompendo?" Perguntei, com um sorriso divertido.
"Puta que pariu." Grunhiu Sirius, ajeitando-se no lugar, arregalando os olhos como pratos na minha direção.
É claro, eu podia entender sua surpresa. Eu era vaidosa, sim, mas nunca havia me vestido daquela maneira. Naquela noite em especial, estava me sentindo como uma versão 100% melhorada de mim mesma. E isso que nem havia passado qualquer maquilagem.
"Sirius, o palavreado!" Repreendeu a Sra. Potter quase imediatamente, franzindo as sobrancelhas.
James foi o último a se virar na minha direção, virando metade do corpo e pousando a mão sobre o encosto do sofá. Choque perpassou pelo seu rosto por um momento, então seus olhos deslizaram por mim de cima a baixo, tão cheios de apreciação que quase podia senti-lo me tocar.
Corei, desconfortável, mediante sua análise.
Para minha sorte, a Sra. Potter veio em minha salvação, largando o pires e a xícara de chá sobre a mesa de centro e se levantando para me recepcionar.
"Oh, Lily, meu bem, você está linda!" Exclamou, quase saltitando de empolgação. Apertou meu rosto entre as mãos, obrigando-me a me curvar um pouco para que ela pudesse plantar dois beijos nas minhas bochechas. "O vestido ficou fantástico em você. Sabia que esse cabelo e essa pele seriam ideais para cores quentes."
"Na realidade foi tudo obra de Leda." Afirmei, sorrindo, e voltei os olhos para a pequena elfa ao meu lado, que estufou o peito, orgulhosa. "Ela me perseguiu até me fazer desistir de resistir. E quase chorou para me convencer a colocar a presilha. Que é linda, aliás, mas parece ser muito cara. Eu tenho medo de perdê-la ou quebrá-la ou qualquer coisa assim." Comecei a levar a mão até o cabelo, disposta a colocar a joia em mãos mais responsáveis outra vez, mas parei ao ouvir os ofegos de ultraje.
"Senhorita Lily, não!" Guinchou a elfa, horrorizada, como se eu estivesse a um passo de destruir seu trabalho de anos.
"Não se atreva, mocinha!" A Sra. Potter agarrou meu pulso, o que quase me fez dar um pulo no lugar. "Deixe a presilha exatamente onde está. Ela foi feita para você. Ela é sua."
Pisquei, hesitante.
"Não. Obrigada, mas eu definitivamente não posso aceitar, Sra. Potter." Sacudi a cabeça, tentando recuar.
"É só uma pequena pedra." Ela fez um gesto de indiferença, baixando minha mão e dando um passo para trás. Apertou os olhos, analisando-me de modo analítico. "Além disso, seu aniversário está chegando. Considere como um presente adiantado." Deu um sorriso angelical. "Você pode se retirar, Leda. Ajude Crunk a colocar a mesa." Disse para a elfa, que se curvou numa mesura desajeitada e desapareceu num estalo.
Como diabos a mãe de JP sabia quando era meu aniversário?, considerei, as sobrancelhas franzidas. Por um minuto me senti como se estivesse sendo investigada. Aquela pequena mulher definitivamente não podia ser subestimada.
"Minha mãe nunca iria permitir..." Voltei os olhos para James, à procura de ajuda.
Pela primeira vez, ele pareceu atender aos meus apelos, porque se levantou e veio na nossa direção.
"Ela está certa, mamãe." Disse, parando ao meu lado. "Uma presilha com um rubi é um presente um pouco exagerado. Embora fique linda em você, ruiva." Segurou uma mecha do meu cabelo, acariciando-a com o polegar e o indicador, como recentemente criara o hábito de fazer.
Àquela altura, eu já começava a pensar que meu cabelo exercia certo tipo de fascínio sobre os reles mortais.
Cassie costumava dizer que as pessoas agiam como corvos atraídos por objetos brilhantes quando se tratava dele. Era tão difícil ver ruivas naturais, afinal, e todos meio que se sentiam tentados a observá-las, talvez para se certificar de que eram reais.
"Obrigada." Respondi, um pouco desconfortável com aquela demonstração pública de intimidade, e pousei a mão sobre o ombro de James, obrigando-o a recuar.
"Bem, não seja por isso. Então ela fica aqui, mas continua sendo sua. Você pode usá-la quando vier nos visitar outra vez." Sugeriu a Sra. Potter, piscando, divertida, quase como se não tivesse percebido a instantânea ruptura que houve entre eu e James, a voz melódica atraindo toda a atenção para si outra vez.
Sem poder evitar, lancei um sorriso plástico na sua direção.
Mesmo se algum dia eu e James tivéssemos algum relacionamento, a probabilidade de que eu voltasse a ver sua família ainda era bastante remota, para não dizer inexistente. Sequer havíamos tido um primeiro encontro, nem mesmo sabíamos se as coisas dariam certo e as pessoas já pareciam pensar que estávamos predestinados a nos casar.
Aparentemente, mesmo depois de todos os conselhos que havia dado a JP sobre paciência, a Sra. Potter era o tipo de pessoa "faça o que eu digo, não faça o que eu faço." Ela certamente sabia fazer com que uma garota se sentisse pressionada, mesmo de modo inconsciente.
"É claro." Respondi, de modo amigável, porque minha parte racional sabia que ela estava apenas tentando ser gentil.
"Ah, não." Sirius se ergueu, lá atrás, interrompendo sua silenciosa vigília, e me lançou um olhar duro e cheio de astúcia, quase como se estivesse lendo meus mais íntimos pensamentos. "Eu reconheço uma mentira quando vejo uma. Você está escorregando, Lilykins."
A Sra. Potter e James me encararam, confusos, por um momento, e eu engoli em seco.
"Eu..." Hesitei, levando a mão à testa. Respirei fundo. Não queria ter de fazer aquilo. "JP, eu... Isso é demais para mim. Nós nem mesmo saímos uma vez e você e sua mãe estão cheios de expectativas para cima de mim. Sinto muito, Sra. Potter, você é maravilhosa, mas... Não dá certo assim. Vir até aqui foi um erro. Eu não estava esperando esse tipo de recepção. Eu só queria um lugar para passar a noite, e vocês estão tentando me transformar numa espécie de dama da alta sociedade bruxa, o que eu não sou, diga-se de passagem."
Fitei James, num silencioso pedido de desculpas, mas decidida. Gostava dele, sim, mas toda aquela aura de ansiedade ao nosso redor começava a se tornar um pouco sufocante. Deveria ter sabido desde o princípio que ele não levaria na esportiva minha vinda até sua casa. Fui ingênua, achando que já havíamos passado dessa fase, que poderíamos começar com a amizade antes de qualquer outra coisa.
O que havia em meus olhos deve ter dito tudo o que ele precisava saber sobre o rumo da situação, porque sua expressão antes agradável e serena gradualmente se transformou numa máscara de preocupação.
"Lily, apenas me dê uma chance para consertar isso." Começou a dizer, sacudindo a cabeça, os lábios crispados.
"Ah, meu bem, é minha culpa." A Sra. Potter se adiantou, agarrando as minhas mãos. "Eu só... Eu fiquei tão excitada com a sua chegada." Admitiu, dando um pequeno sorriso na minha direção, embora tivesse a testa enrugada de apreensão. "Jamie falou sobre você durante anos. Eu... Lily, minha querida, eu estou morrendo." Confessou, com surpreendente serenidade. "Eu só queria saber como seria... Você sabe, ter uma garotinha na nossa família."
"Você está o quê?" Indaguei após um instante de silêncio, séria, incapaz de absorver a informação.
Eu sei que a ouvi corretamente, mas optei por não aceitar a verdade. Era inaceitável que a linda e jovial mulher à minha frente estivesse morrendo. Ela parecia tão cheia de energia e bom humor, muito mais do que eu, aliás, anos mais jovem. A natureza deveria saber que era pecado tirar as coisas lindas da vida. Mesmo assim, ali estava ela, sempre pronta para nos dar uma rasteira.
Entendendo minha reação, uma vez que já devia ter racionalizado sobre isso mais de um milhão de vezes desde a descoberta, a Sra. Potter tinha os olhos castanho-esverdeados fixos em mim. Seus dedos apertaram suavemente os meus, quase como se estivesse me consolando.
"Eu tenho uma severa doença mágica." Explicou, brandamente.
"Não, não." Rompi o contato entre nós de súbito, recuando um passo. De repente tocar nela parecia um sacrilégio. "Você não pode estar morrendo."
"Bem, ruiva, acredite se quiser, ela não só pode, como está." Respondeu Sirius, com secura.
Eu o encarei por um instante, de repente sem querer fitar James ou a Sra. Potter e descobrir todos os sentimentos que estavam tentando esconder - ou que simplesmente não se importavam em mostrar. Os olhos de Sirius estavam cheios de amargura, dados os laços que passara a nutrir com a família Potter.
Embora soubesse da história da sua fuga e do fato de que havia sido cortado da árvore genealógica da família Black (não havia como não saber, uma vez que era uma informação sobre Sirius Black e as garotas pareciam adorá-las), não fazia ideia da intensidade dos seus sentimentos pelos pais de JP, apesar disso. Não até ver a maneira como ele se referia à Sra. Potter. Ninguém chama outra mulher de mãe a menos que a ame muito.
Recuei mais alguns passos, girei nos calcanhares e corri escadas acima.
Eu nunca havia fugido antes. Fugir não era meu lema. Eu era uma Grifinória, afinal, e encarava as adversidades sem vacilar. Mas a verdade é que aquela confissão me atingiu como um soco no estômago. A doença da Sra. Potter justificava todo o temperamento de James nos últimos dias. Saber da morte eminente da própria mãe havia mudado seu modo de ver o mundo. Havia mudado meu modo de ver o mundo.
Entrei no meu quarto, fechando a porta atrás de mim, e me escorei contra ela, escorregando até o chão.
Meu coração batia desenfreadamente contra meu peito. Respirei fundo enquanto tentava acalmá-lo. Abracei os joelhos, pousando o rosto sobre eles. Tentar refletir sobre a quantidade de sentimentos que me atingiam naquele momento parecia uma tarefa impossível.
Fiquei imóvel e ofegante pelo que pareceu ser uma eternidade, até ouvir batidas na porta.
"Lily." Chamou James. "Lily, deixe-me entrar. Vamos conversar." Pediu, mediante meu comprido silêncio.
Não queria ver James, embora houvesse uma parte egoísta de mim que o queria por perto, porque sabia que ele sempre encontrava um jeito de fazer com que eu me sentisse melhor. Naquele dia, porém, sabia que não era euquem deveria me sentir melhor, era ele. E, de alguma maneira, pensava que nada do que eu fizesse ou dissesse seria capaz de atenuar sua dor.
Deslizei para o lado, liberando o acesso à porta, e me encostei contra a parede.
"Entra." Falei, em voz baixa, sem erguer a cabeça.
A porta rangeu ao se abrir. Logo, podia ver os sapatos lustrados de James à minha frente. Ele soltou um suspiro, sentando-se ao meu lado, de modo que nossos corpos começaram a trocar calor, o que sempre acontecia quando estávamos juntos: era como se uma fogueira se acendesse em meu interior.
"Eu sinto muito." Ele disse, após uma pequena pausa. "Não queria estragar seu passeio. Não pensei que precisaríamos falar sobre isso."
"Você sente muito?" Rebati, sarcástica e um pouco incrédula, sem erguer a cabeça. Parecia ridículo que James estivesse me pedindo desculpas pelo fato de sua mãe estar morrendo. Aquelas eram minhas palavras por direito. "Há quanto tempo você sabe?"
James respirou fundo, pousando os braços esticados sobre os joelhos.
"Há algumas semanas." Respondeu. "Ela vinha se sentindo mal desde o final do ano. Tonturas, mal estar, sérias oscilações de magia. Meu pai sempre dizia que era estresse, que se devia a todos os comitês e clubes que mamãe participava. Que passaria se ela diminuísse a carga. Mas não passou. Nós chamamos um médico, mas ele não pôde nos ajudar. Fomos a vários especialistas depois disso, tentando descobrir a causa. A mágica em seu interior está destruindo seu corpo."
Fiquei calada. Sabia que existia uma série de doenças mágicas, mas jamais me informara o suficiente sobre elas. Conhecia apenas as Febres de Dragão, porque eram bastante populares. Nunca havia me deparado com nada mais específico, o que era bom, de certo modo, porque eu costumava ser uma pessoa muito saudável.
"Nós não sabemos ao certo se é um excesso de magia ou uma falência de magia. Existiram poucos casos como esse ao longo da história. O fato é que mamãe já não pode usar magia." Ele continuou, a voz monocórdia. "Porque é algo muito doloroso. E instável. Existem algumas poções revitalizantes que tentam remediar o estrago causado pela doença, mas não são definitivas. Têm efeito momentâneo. E eventualmente não terão mais efeito nenhum."
Ergui a cabeça para fitá-lo. Ele estava encarando um ponto imaginário na parede à nossa frente, os óculos deslizando pela ponta do nariz aquilino, uma expressão tão triste e perdida que fez meu coração doer.
"Oh, James." Foi tudo o que pude articular, esticando os braços e os enrolando ao seu redor. Pousei a cabeça sobre seu ombro. "Por que as coisas ruins sempre acontecem com as melhores pessoas?" Perguntei, embora para ninguém em especial, em tom queixoso.
Nós ficamos em silêncio pelo que pareceu ser uma eternidade, com apenas o ruído de nossas respirações podendo ser ouvido através do gigantesco cômodo.
Funguei a certa altura, sentindo as lágrimas invadirem meus olhos.
"Sinto muito." Disse, mordendo o lábio inferior. "Sua família está carregando um fardo horrivelmente pesado e eu agi como uma idiota, achando que você estava me pressionando. Se eu soubesse... Eu..." Sacudi a cabeça, deixando as palavras morrerem em minha garganta. Elas nem de perto eram o suficiente para expressar meu arrependimento.
"Lily." James girou o corpo na minha direção, obrigando-me a erguer a cabeça do seu ombro. Segurou meu queixo e virou meu rosto para que eu pudesse encará-lo, mesmo contra minha vontade. Deu um pequeno sorriso torto ao notar as lágrimas começando a escorrer por minhas bochechas. Limpou-as com os dedões. "Não chore, ruiva. Você não tinha como saber."
"Não é por isso. Quer dizer..." Pigarreei, porque de repente minha voz se tornou rouca e inaudível. "Não é só por isso. Eu estou triste. Por você. Por todos vocês. Creio que me ter nunca vai ser o suficiente para consolar você, James."
Ele me fitou, sério, sua expressão suavizando um pouco.
"Não, não vai." Concordou, puxando-me para seus braços. Não resisti. "Mas não é só por isso que eu quero você. Eu quero você porque você é você. Sei que vou sentir falta dela. Para sempre. Você preenche um buraco completamente diferente no meu coração. Você me ajuda a esquecer daquilo que dói, que machuca. Você aquece partes de mim que parecem ter congelado desde que descobri sobre ela."
Aninhei-me contra ele, tentando extrair conforto do seu toque tanto quanto tentava confortá-lo.
A verdade é que James fazia com que eu me sentisse fodidamente bem. Essa era a expressão. Desde que seus pedidos constantes para sair e suas tentativas intermináveis de chamar minha atenção haviam cessado, eu havia conhecido uma faceta totalmente diferente da sua personalidade. Uma faceta que eu gostava.
Antes, eu tinha medo de que suas supostas mudanças desaparecessem quando retornássemos para Hogwarts. Que ele voltasse a ser o adolescente aborrecido com quem eu havia crescido. Agora, parecia estúpido pensar que James se deixaria levar tão levianamente, considerando sua situação familiar. O quadribol, as festas, as travessuras nunca mais teriam o mesmo apelo, a mesma graça. Seria como se toda a diversão tivesse se perdido, mesmo que um pouco.
"Gosto de você, James." Confessei, com um pequeno sorriso, ainda um pouco lacrimosa. Ergui a cabeça para que pudesse fitá-lo. "Você definitivamente não é a acromântula diabólica que eu pensei que era."
"Que Snape fez você pensar que eu era." Ele corrigiu, sorrindo torto, um pouco da tristeza desaparecendo do seu rosto.
"Que você próprio me fez pensar que era." Rebati, após revirar os olhos, em tom sarcástico. Deixei James secar minhas bochechas outra vez, limpando os últimos vestígios das lágrimas, ainda tão próxima dele que um espectador desatento quase poderia se confundir. "Não seja tão presunçoso."
Ele encolheu os ombros, não muito preocupado, e me abraçou outra vez, enterrando o nariz nos meus cabelos.
"Você está muito cheirosa." Falou, a voz um pouco abafada. Seus dedos brincaram com minha pele em carícias circulares, fazendo com que borboletas eufóricas se espalhassem por meu estômago. Estar em seus braços era aconchegante e excitante quase na mesma medida e eu já não sabia se algum dia quereria deixar para trás aquele misto de sensações.
"Eu sei." Respondi, com um pequeno sorriso torto. "Leda espalhou essa coisa no meu cabelo na hora do banho. Essência de flores ou algo assim."
"Bem, vamos ter que nos certificar de que você tenha isso sempre." Ele anunciou, com certa seriedade, sua mão subindo para minha nuca, por entre meus cabelos, aplicando pressão nos pontos certos, provocando-me curtos suspiros. Àquela altura, os arrepios provocados por seus afagos chegavam aos dedos do meu pé. "Faz seu cabelo ficar ainda mais fantástico do que já é."
Soltei uma risada curta, mas que soou repentinamente alta dada a amplitude do cômodo.
"Oh, pobre Jamie." Murmurei, ficando sobre os joelhos para que pudesse rodear seu pescoço com os braços. Num movimento que parecia quase inconsciente, as palmas das mãos dele escorregaram direto para minha cintura, rodeando-a e me atraindo contra si. Fitei-o por sob os cílios. Nossos narizes estavam tão próximos que quase se encostavam. "Você é tão apaixonado pelo meu cabelo. É um caso sério. Talvez eu deva sair e dar a vocês alguma privacidade?"
"Não se atreva." Ele mandou, rouco, os olhos castanho-esverdeados brilhantes e fixos na minha boca. "Fique exatamente onde está. Assim, quietinha, para sempre."
Sorri, mordendo o lábio inferior, meio divertida.
"Assim?" Sussurrei, a voz sedosa, sem me mexer, deixando o rosto dele vir na minha direção.
"Sim."
Possivelmente com medo de que eu mudasse de ideia e recuasse, James cobriu a distância que havia entre nós de súbito, puxando-me contra seu peito, obrigando-me a me curvar ligeiramente para trás para facilitar o contato entre nós. Nossos lábios se encaixaram perfeitamente, como nunca antes havia acontecido com nenhum outro garoto.
Enrolei os dedos nos cabelos da sua nuca, puxando-os de leve, sentindo sua língua forçar passagem contra minha boca. Cedi, deixando-a brincar com a minha, e jogamos um jogo de gato e rato por algum tempo, até que ele apertou os dedos contra minha pele, obrigando-me a corresponder, impaciente, e a paixão explodiu entre nós como fogos de artifício.
Ele grunhiu quando mordisquei seu lábio.
Suas mãos vagaram por meu corpo, abraçando, apalpando, prendendo-me tão forte contra si que eu não poderia escapar mesmo se quisesse. Em resposta, apertei-me contra ele, ansiosa, querendo eliminar qualquer possibilidade de distância entre nós, sentindo-me prestes a entrar em chamas.
Uma eternidade pareceu se passar, mas, quando nos afastamos, ofegantes, possivelmente haviam se transcorrido apenas poucos minutos.
"Esse foi um fantástico primeiro beijo." Ele falou após um curto momento de silêncio, deslizando a língua pelos lábios, a boca molhada se delineando num meio sorriso.
"Obrigada." Respondi, num gracejo, o coração ainda martelando em meu peito, o que fez James rir baixo e voltar a pousar os lábios sobre os meus numa carícia tão leve e tenra que mal era notada. Suspirei, sentindo nossas respirações se mesclarem. O perfume natural masculino tocou minhas narinas, fazendo todo meu corpo vibrar outra vez. "Eu estou livre? Meus joelhos estão doendo."
Com as sobrancelhas ligeiramente apertadas, James me deu um último e úmido beijo antes de tomar uma pequena distância, aliviando a pressão ao meu redor.
"Por enquanto." Afirmou, com um sorriso torto. Levantou-se, ajeitando a roupa, e estendeu a mão para mim. "Vamos, deixe-me ver você. Devo ter amassado todo seu lindo vestido." Seu cenho se franziu quando eu aceitei sua ajuda para levantar, os dedos ainda apertados contra os dele, e tentei desfazer os amassados do tecido com a mão livre. Em vão.
"Tudo bem." Respondi, pouco preocupada. "Foi por uma boa causa."
Talvez um pouco surpreso pelo meu humor, ele riu, uma gargalhada espontânea que veio como uma tempestade que se dissipou em poucos minutos. Logo baixou o rosto para me beijar, mordiscando meu lábio inferior, e cuidadosamente ajeitou meu cabelo, arrumando a presilha que começava a se soltar.
"Posso perguntar por que você está descalça?"
"Ah, isso." Ergui a barra do vestido, expondo meus pés. Era uma sorte que houvesse removido o esmalte descascando. Seria realmente brilhante se a Sra. Potter me visse como a absoluta desleixada que costumo ser nas férias. Todo o encanto teria desaparecido num passe de mágica. Sem ironias. "Estilo?" Indaguei, em tom de dúvida.
James arqueou uma sobrancelha, não parecendo muito convencido.
"Você realmente quis encarnar uma ninfa da primavera." Comentou, sorrindo.
Eu pisquei, surpreendida pelo fato de ele fazer a mesma associação que Leda. Embora, pensando agora, pudesse admitir que a comparação fazia um pouco de sentido. A mitologia dizia que as ninfas eram belas, usavam vestidos de tecidos diáfanos e andavam descalças pelos jardins, fazendo flores desabrocharem e brincando com os pássaros.
No momento, eu preenchia o segundo e o terceiro requisito. E gostava de pensar que preenchia o primeiro também (afinal, autoestima é tudo). Infelizmente, faltava apenas a habilidade para manejar a primavera.
"Bem, Leda teve uma crise de nervos quando chegou à conclusão de que eu não tinha sapatos adequados." Expliquei, encolhendo os ombros, um pouco envaidecida com o fato de ter sido comparada a uma linda criatura mitológica por alguém que não demonstrasse o mesmo nível de adoração por humanos que os elfos costumavam demonstrar. "Então eu disse que não precisava de sapatos."
Ele sacudiu a cabeça, concordando.
"Você foi muito gentil com Leda." Disse, em tom de elogio. "Ela não costuma se apegar tão facilmente a desconhecidos."
"Ela foi muito gentil comigo." Corrigi. "De acordo com minha mãe, gentileza gera gentileza."
Sorrindo, James agarrou minha mão e me puxou contra si, enrolando os braços ao meu redor e tomando minha boca com o mesmo desespero de um homem que vê água no deserto.
Rendendo-me à sua vontade, minha cabeça se curvou para trás com a força do seu beijo, que, mesmo sendo sensualmente persuasivo, conseguia se mostrando paradoxalmente firme e cheio de segurança, lento o bastante para quase me fazer implorar.
Ofeguei ao senti-lo prender meu lábio inferior entre os dentes, meu coração batendo em meu peito como se estivesse fazendo dança rítmica.
Parecia que havia fogo sob minha pele. Meus olhos estavam a um passo de se revirar. Dentre todos os supostos motivos que haviam me dado para que aceitasse seu convite para sair, ninguém nunca havia me dito quão malditamente bem aquele garoto beijava. Eu teria me deixado facilmente perder naquele turbilhão, prendendo os dedos ao redor de seus bíceps e ficando na ponta dos pés para facilitar o acesso à minha boca, surpresa pela maneira como o toque de James me afetava, se o destino não tivesse outros planos para nós.
Um CRACK se fez ouvir logo ao lado, o ruído provocado pela aparatação de um elfo, e nós nos separamos como duas crianças pegas fazendo arte.
Um elfo nos fitava, os olhos azuis arregalados, vestindo o que parecia ser um terno esfarrapado e uma boina velha e com estampa do exército que só podia ter pertencido a um trouxa.
"Sr. Potter, a Sra. Potter mandou avisar que o jantar está pronto." Ele falou, tirando seu pequeno chapeuzinho e baixando a cabeça num sinal de deferência.
Cerca de um passo distante de mim, James puxou a gola da camisa, como se estivesse se sentindo um pouco sufocado, a boca ofegante.
Suas bochechas estavam coradas, o cabelo mais bagunçado que nunca. Mesmo assim, contra todo o sentido de lógica que algum dia já regera o universo, jamais parecera tão atraente, constatei ainda ligeiramente dopada por todas as sensações que experimentei. Ninguém nunca havia despertado aquele tipo de paixão em mim.
"Nós vamos num minuto, Crunk." Garantiu JP, a voz um pouco rouca.
Aquiescendo, sem erguer os olhos para mim, Crunk recolocou sua boina e desapareceu, deixando-nos a sós outra vez.
"Você está bem?" James perguntou, cuidadosamente, virando-se na minha direção. Franziu as sobrancelhas, retirando os óculos a fim de limpar as lentes na barra da camisa - eu devia ter esbarrado nelas com a ponta do meu nariz.
"Sim, foi apenas um susto." Concordei, mantendo-me imóvel, uma vez que de repente não sabia o que deveria fazer com meu próprio corpo.
Respirei fundo e ajeitei o vestido o melhor que pude, embora fosse impossível disfarçar os amassados sobre o tecido.
"Vamos descer." Disse, tomando a dianteira.
Como sempre acontecia, James pareceu ter lido meus pensamentos com perfeição.
"Lily..." Chamou, segurando minha mão, impedindo-me de continuar a fugir.
"Sinto muito, James, mas coisas não mudaram entre nós." Avisei, virando-me para fitá-lo, com uma repentina segurança nas palavras. "Eu gosto de você, mas não estou certa de que é com a mesma intensidade que você gosta de mim. Por favor, não crie esperanças errôneas que poderão destruir tudo entre nós."
Ele pareceu surpreso com minha sinceridade por um momento, mas acabou por abrir um sorriso lento e torto passados alguns segundos.
"Não se preocupe, ruiva. Eu vou tomar todos os cuidados necessários para que, em breve, você esteja tão apaixonada por mim que nunca mais quererá sair dos meus braços." Afirmou, aproximando o rosto apenas alguns centímetros para que pudesse mordiscar meu lábio inferior. "Tudo que você precisa fazer é dançar a dança."
Dançar a dança, repeti, mentalmente, experimentando o gosto daquela frase. Fazia algum sentido.
Sabia que havia muita expectativa sobre nós, não apenas da parte de JP, mas da parte da Sra. Potter, de Sirius, Remus, minha mãe, sem falar em todas as pessoas de Hogwarts que haviam especulado e fofocado a nosso respeito.
Uma boa parte do porquê de eu nunca ter aceitado sair com James envolvia, sim, sua personalidade. Eu simplesmente não o suportava e isso não era um exagero. Agora, porém, que podia racionalizar sem a bruma do desprezo cobrindo meus olhos, também estava ciente de que tampouco me sentia confortável com a perspectiva de que todos estavam esperando alguma coisa de nós, fosse um desfecho romântico ou um desfecho dramático, e isso podia ser terrível pra qualquer relacionamento.
Eu realmente não via JP dessa maneira. Começava a gostar dele, sim, e admitia que podia ser um bom amigo agora que se mostrava mais maduro, mas não estávamos na mesma página. Definitivamente não estávamos.
"Você é muito presunçoso!" Exclamei, num suspiro dramático, dando um passo para trás e puxando minha mão. As sobrancelhas de James se franziram em frustração quando rompi o contato entre nós. "Vamos ver até que ponto dura sua persistência, Jamie. Tente não parecer muito decepcionado quando se frustrar." Sorri meu sorriso mais doce enquanto dava as costas e seguia o caminho que nos levaria até a Sra. Potter, disposta a tentar parar de racionalizar sobre tudo.
N/A: ÊÊÊÊ, finalmente temos um beijo! E, nossa, posso dizer que foi difícil de escrever. Reli algumas milhares de vezes, tentando descobrir como podia melhorar, e até agora não estou exatamente certa se ficou como deveria. Além disso, tive uma preguiça horrorosa de fazer a revisão, o que também ajudou a aumentar a demora para a postagem.
Eu queria que a cena ficasse realmente doce, porque eu vejo esses dois dessa maneira. Particularmente gostei bastante do capítulo, embora não, não tenha achado que a cena do beijo atingiu todo seu potencial.
Para quem estava curioso sobre o mistério da Sra. Potter, aí está! A Rowling já disse que os pais de JP morreram de velhice, o que eu acho particularmente estranho. Quantos anos os pais dele tinham quando ele nasceu? 60? Mesmo naquela época, quando a expectativa de vida era mais baixa, não era comum uma pessoa morrer de velhice antes dos 80. Por outras causas, sim, mas morrer de velhice é um conceito meio esquisito e acho que a J.K. podia ter dado desculpas melhores para o fato de eles não estarem presentes. Enfim, fica essa alteração na cronologia dos Potter então.
Maria Emilia, acho que minha Lily acabou por te surpreender um pouco, não foi? :D Mas espero que tu continue acompanhando!
Obrigada pelo apoio e pelos reviews (eu ainda não respondi alguns, mas eu vou, não se preocupem)! Nos vemos no próximo capítulo!
