CAPÍTULO NOVE: QUERIDINHA

Bocejei, seguindo James e Sirius para fora da mansão.

O jantar havia sido farto e absolutamente delicioso. Como se isso por si só não fosse o suficiente, a Sra. Potter se provara ser uma companhia excelente, com quem conversar nunca se tornava cansativo, a despeito do drama que sua declaração anterior havia gerado.

Quando o relógio avisou serem 21h, tudo no que eu podia pensar era em terminar o delicioso café amargo que estava tomando e me enfiar debaixo dos fantásticos lençóis do meu quarto. Sirius, porém, parecia ansioso para seguir com os planos originais, de modo que me enxotou para fora do sofá e mandou que eu me trocasse assim que viu que meus olhos estavam começando a piscar em demasia. Maldito estraga-prazeres. Ele mal podia esperar para arranjar uma garota disposta a substituir Lauren.

"Nós podemos ficar." Garantiu James assim que parou ao meu lado, esticando o braço e levando uma mecha do meu cabelo para trás da orelha.

Já estava começando a se acostumar com seus toques propositais. Ele parecia sempre arranjar novos e variados motivos para se aproximar. Suas mãos estavam por todos os lugares: acariciando, apalpando, simplesmente sentindo a textura. Passei a senti-las quase como uma extensão do meu próprio corpo no jantar daquela noite.

Se algum dos telespectadores percebeu a intimidade, não deixou transparecer. Uma vez que era facilmente perceptível o fato de que não estava rechaçando os avanços de James, porém, presumi que a Sra. Potter e Sirius eram grandessíssimos dissimulados.

"Não, tudo bem. Alex deve estar nos esperando."

Sirius, que até então estivera nos ignorando, lançou uma olhada curta por sobre o ombro.

"Há quanto tempo você conhece Alex, a propósito?" Indagou, petulante. Pelo olhar de repreensão que JP lançou na sua direção, pude deduzir com facilidade que aquela era uma pergunta que ele provavelmente deve ter feito a si mesmo algumas vezes desde que ficou a par da nossa proximidade. Nem sempre é fácil assimilar o fato de que um garoto e uma garota podem, sim, ser amigos sem haver romance envolvido. "As coisas parecem um pouco intensas entre vocês."

"Há muito mais tempo que você conhece James." Respondi, uma sobrancelha arqueada, disposta a dificultar as coisas para o seu lado. "Mas suponho que as coisas entre dois caras que tomam banho juntos são muito mais intensas que minha relação com um amigo de infância." Zombei.

Sirius me encarou, chocado, por um segundo, antes de se virar para fitar James, um ar acusador.

"Você contou para ela?"

"Eu nunca achei que ela fosse usar isso contra nós." Ele confessou, encolhendo os ombros, com um pequeno ar de riso.

"Eu não acredito que você contou para ela, Prongs." Vociferou Sirius, inconformado. Cruzou os braços, o cenho tão franzido que dava um ar quase amedrontador ao seu rosto naturalmente sensual e rude. "Nós prometemos manter isso entre nós. Para sempre."

Soltei uma curta gargalhada, mordendo o lábio. De repente aquela parecia muito mais uma discussão entre dois amantes do que entre dois amigos.

"Não se preocupe, Sirius. Seu segredo está seguro comigo." Garanti, dando um tapinha amigável sobre seu ombro, numa falsa tentativa de reconfortá-lo. "O que não quer dizer que você está a salvo de alguns comentários vergonhosos. É para isso que cenas vergonhosas servem, afinal: para fazer com que seus amigos o torturem para sempre com as lembranças tórridas."

Ele me encarou, mal-humorado.

"Comente sobre isso perto de uma garota e você é uma ruiva morta." Ameaçou, apontando o dedo na minha direção.

Como não poderia deixar de ser, eu concordei com um movimento de cabeça, ainda sorrindo. Dado todo o passado que tínhamos, não podia negar que a perspectiva de arruinar sua reputação seria muito divertida, mas eu ainda não era má a esse ponto. Não por enquanto. Enquanto ele não pisasse nos meus calos, estaria perfeitamente seguro.

"Vejo vocês no pub." Sirius disse então, num resmungo, fazendo menção de que iria aparatar.

"Será que isso quer dizer que eu posso comentar sobre o assunto perto dos garotos?" Indaguei para JP, num falso tom inocente, enquanto Sirius desaparecia, não sem antes lançar um olhar cheio de raiva e rancor na minha direção.

James riu ao notar a expressão do melhor amigo, que era do tipo: teste sua sorte.

"Como você sabia que essa era sua lembrança mais vergonhosa?" Questionou, divertido. "O simples fato de que nós o tenhamos visto nu enquanto estava inconsciente fez com que perdesse o sono durante dias. Pads tem muito orgulho da sua masculinidade. Ele vê a si mesmo quase como um deus da fertilidade reencarnado. Se algo assim viesse à tona, iria destruí-lo."

"Sirius parece esse tipo de cara." Concordei com um curto movimento de cabeça. Ele não ligava para o que as pessoas diziam com relação à maior parte das coisas, mas sua fama com as mulheres era algo sagrado. "Mas não se preocupe, pois não pretendo compartilhar. Mais tarde, talvez, eu possa fazer algum tipo de chantagem. Ainda estou pensando sobre isso." Zombei, considerando as possibilidades. "Vamos?" Estendi-lhe a mão.

James a agarrou com a agilidade de um apanhador, os dedos brincando com os meus por um instante.

"E você ainda diz que eu sou diabólico." Comentou, divertido, enquanto desvanecíamos no ar.

Aparecemos num canto escuro de Londres, na parte de trás do Black Pub Label, onde Sirius já nos esperava, com os braços cruzados, rabugento. Uma garota que fumava perto da escada de incêndio e que surgiu, para nossa sorte, segundos depois de termos aparatado logo se mostrou muito interessada diante da perspectiva de devorá-lo.

Como de praxe, meu estômago embrulhou em consequência da aparatação e eu precisei me apoiar na parede, um pouco pálida, para readquirir o equilíbrio.

"Tudo bem?" Perguntou James, em tom cuidadoso, aproximando-se.

Respirei fundo enquanto me aprumava, ajeitando a manga da blusa, que insistia em deslizar pelo meu ombro.

"Yep." Apertando os lábios para conter a brutal onda de náusea, apenas me limitei a aquiescer, embora não estivesse completamente certa disso. Gesticulei com descaso. "É só o efeito de sempre. Algum dia isso vai embora?"

"É só ter paciência." Ele garantiu, com um aceno.

Donde estávamos, podíamos ouvir o barulho proveniente do pub. Havia um alto instrumental, com guitarras e baixo, mas imperavam as vozes femininas. Alex havia comentado sobre a apresentação de uma banda de garotas quando confirmei nossa presença na apresentação de Louis, o que me animou. Não existia nada que eu gostasse mais do que mulheres rockeiras.

"Como vamos entrar?" Sirius resolveu romper o silêncio entre nós, impaciente, olhando ao redor. Parados ali, os três em meio à parcial escuridão, certamente fazíamos valer da declaração de Petúnia. Qualquer um que nos visse chegaria à conclusão de que estávamos nos encaminhando para um ménage à trois.

"Eu achei que já havia respondido a essa pergunta." Revirei os olhos, encaminhando-me para a porta de ferro que havia a alguns metros de nós e que, embora agora estivesse fechada, dava passagem para o interior da construção velha e suja, mas muito popular. Bati com força, com medo de não ser ouvida. "Danna vai liberar nossa entrada."

Dali a instantes, fomos recepcionados por um homem alto e forte, usando calças pretas e uma camisa com as mangas dobradas. Tinha uma enorme cicatriz na testa, que geralmente deveria desviar toda a atenção do seu rosto. Parecia difícil ignorá-la. Embora possuísse um tamanho definitivamente intimidante, tinha os olhos caídos e um baseado na boca que fazia com que parecesse estar muito relaxado.

"Convidados da Danna?" Ele indagou, a voz grossa e um pouco pastosa, possivelmente por efeito da maconha.

"Sim." Confirmei, educada, porém seca, sentindo James e Sirius se aproximarem mais do que o necessário quando o homem deslizou os olhos sobre mim com uma expressão apreciativa. Detestava quando faziam isso. Era ultrajante ao extremo ser analisada como se fosse um pedaço de carne.

Ele soltou a fumaça por entre os lábios, cedendo-nos passagem.

"Ela está trabalhando no bar."

Nós entramos, sendo imediatamente recepcionados pelo som alto e pela gritaria. JP circundou meu braço com a mão, mantendo um aperto suave, mas firme, enquanto eu tomava a dianteira e seguia por entre a extraordinária multidão para perto do balcão do bar, que ficava do outro lado do amplo cômodo. Podia avistar a cabeça loira de Danna donde estava, visto que havia luzes diretamente direcionadas para o local.

De modo geral, o pub estava surpreendentemente escuro, mal iluminado e cheio de fumaça, em sua maioria proveniente dos cigarros acesos. Do centro do teto, algumas luzes piscavam de modo incessante. O som, que na rua parecia alto, ali dentro estava quase insuportável.

No palco, quatro mulheres guiavam o público com maestria. "The Kincaids", dizia a placa decorada atrás delas.

"Eu vou circular." Gritou Sirius, alto o suficiente para que pudéssemos ouvi-lo, abrindo um sorriso malicioso ao notar a morena perto da entrada dos banheiros que piscava na sua direção. "Caso queiram ir embora, não se preocupem em me chamar! Eu sempre encontro o caminho de casa."

"Chegue antes de a mamãe acordar." Avisou James, uma sobrancelha arqueada.

Sirius sacudiu a cabeça, abanando a mão em sinal de despedida, e se afastou sem olhar para trás, logo sumindo no meio de desconhecidos.

"Alex e Leonard já devem estar por aqui." Falei, atraindo a atenção de JP, e, puxando-o pela mão, temendo que nos separássemos, continuei a percorrer o caminho até o bar. Estava quente e abafado ali dentro, o que fez com que eu me arrependesse por seguir o conselho de Olívia e ter vindo de calça jeans. Uma saia cairia muito melhor com aquela temperatura.

Junto de outra bartender, Danna estava se esforçando para dar conta do enorme número de pedidos, mas se aproximou assim que nos reconheceu.

"Lily!" Disse, curvando-se sobre o balcão para que pudesse me dar um curto abraço. Estava fedendo a cigarro. Aquele quase parecia ser seu cheiro natural. "Que bom que vocês vieram! Os garotos conseguiram uma mesa no andar de cima." Apontou com o dedão, sorrindo. "Sobe lá. Vou tentar manter a mesa de vocês abastecida." Piscou.

Sorri. Embora aquilo parecesse surpreendente até mesmo para mim, gostava de Danna. Tudo com ela parecia ser muito simples. Quem dera eu fosse capaz de ver as coisas daquela maneira.

"Obrigada." Agradeci, puxando James.

Só conseguimos chegar ao segundo andar depois de passados alguns minutos. Havia gente demais na boate aquela noite. Um percurso simples parecia quase impossível de se fazer sem que se perdesse um tempo inimaginável. Podia apostar que o pub estava com lotação acima do normal - o que provavelmente deveria deixar Sirius bastante feliz, já que havia um número incontável de mulheres.

Isabelle nos achou antes que os achássemos. Ela sacudiu o braço, gritando meu nome, e atraiu nossa atenção. Estava sentada no colo de Leonard, que bebia uma cerveja. Eles haviam se acomodado numa das pequenas mesas do canto, próximas à barra de proteção, donde era possível ver tudo que se passava no andar inferior.

Belle usava um vestido azul colado e curto que quase parecia uma segunda pele. Tinha os cabelos castanhos e brilhantes perfeitamente alisados.

Desviando os olhos do show, Alex voltou a atenção na nossa direção um segundo depois.

"Tínhamos começado a pensar que vocês não viriam." Confessou, sorrindo. Cumprimentou James com um aperto de mão e um tapinha nas costas.

"Ainda está cedo." Apontei, arqueando a sobrancelha. "Louis não entra só às 23h30min?"

"Sim, mas nós viemos mais cedo. Ajudamos Louis e a banda a trazer todos os instrumentos. Você não faz ideia de toda a parafernalha com que eles andam para cima e para baixo. Eu até mesmo ajudei Danna e as outras garotas a posicionarem as mesas e as cadeiras antes de abrir o lugar." Confessou Alex, rindo. Logo deslizou os olhos por mim, pensativo. "Posso saber por que você está usando só meia blusa?"

Baixei os olhos para mim mesma. Deixava a barriga à mostra, o que parecia estar bastante na moda no momento, com uma gola larga que fazia com que a manga deslizasse pelo meu ombro. Havia uma suave transparência no preto, que, na luz direta, deixava levemente exposto meu sutiã de renda. Na penumbra do pub, porém, parecia apenas uma blusa preta.

A verdade é que, mesmo que gostasse de pensar que sim, eu não era normalmente ousada daquela maneira. Minhas roupas geralmente seguiam os tamanhos apontados como adequados pelos pais ciumentos. Mas pensava que, se escolhesse algo muito mais recatado, nunca teria passe livre para um local voltado para maiores. Além disso, eu estava indo para um show de rock. O mínimo que se espera de uma garota indo para um show de rock é de uma indumentária adequada.

"Na realidade, é uma blusa inteira." Resmunguei, cruzando os braços. "Papaizinho."

"James, onde está sua autoridade, cara?" Alex se voltou para JP, ignorando completamente minha resposta, em tom reclamatório. "Você não pode deixar Lilykins sair de casa vestindo um trapo desses. Imponha-se!"

Puxando uma cadeira para que pudesse se sentar, James riu, passando a mão pelo cabelo.

"Na realidade, eu acho que levaria um soco se ousasse reclamar." Confidenciou, com um meio sorriso torto, voltando os olhos cheios de diversão para mim. "Fica muito bem nela, de qualquer maneira. Preto deixa Lily deliciosa." Piscou, o que me fez soltar um suspiro de ultraje. Ele não costumava ser tão explícito.

Fiz menção de dar um tapa no seu braço, com o objetivo de puni-lo pela piada. Como se estivesse lendo meus pensamentos, porém, ele interceptou meu movimento, puxando meu corpo contra o seu e me prendeu entre suas pernas, de modo a me impedir de escapar. Enroscou os braços na minha cintura, um largo sorriso no rosto então, quase como um gato depois de devorar o canário.

"James!" Reclamei, bufando, após uma tentativa frustrada de me soltar.

Alex nos encarou, sério, por um longo momento, talvez tentando decifrar o que havia mudado entre nós.

"Se você diz." Falou, tomando um gole da sua cerveja. "Mas tome cuidado. Não é bom deixar uma garota sozinha por aqui." Voltou a atenção para Isabelle, que muito provavelmente sussurrava declarações tórridas no ouvido de Leonard, toda risonha. "Eu achei que teríamos problemas com a Belle. Tem uns motoqueiros de olho nela. Sirius não veio?"

"Sim. Ele provavelmente está se enroscando com alguma desconhecida neste momento." Eu disse, um pouco ofegante, ainda tentando me libertar daquele desconfortável aperto. James estava rindo, divertindo-se dos meus esforços frustrados, os dedos fazendo cócegas na minha cintura. Soltei uma gargalhada inconsciente, já que não pude me controlar, mas fiquei furiosa. "Para, para!" Encarei-o, estreitando os olhos.

Curvando ligeiramente a cabeça para o lado, pensativo, Alex se recostou contra o encosto da sua cadeira, cruzando os braços.

"Vocês deram uns amassos, foi?" Questionou, ligeiramente zombador.

"Não te interessa." Respondi, corando. Empurrei James com força, conseguindo tomar alguma distância, e ajeitei o cabelo, um pouco nervosa. "A curiosidade matou o gato, sabia?"

Naquele momento, antes que ele tivesse tempo de dar a resposta engraçadinha que provavelmente tinha em mente, The Kincaids começou a tocar um cover perfeito de I Love Rock'n'Roll, versão da Joan Jett, e Isabelle se aprumou na cadeira. The Runaways vinha fazendo muito sucesso ultimamente. As músicas delas eram boas demais. Eu adorava Cherry Bomb.

"Lily, nós temos que dançar essa, bombom!" Gritou, levantando-se. Pegou minha mão, puxando-me para seguir na direção da pista de dança.

"Você nunca esteve tão certa, Belle." Concordei.

Nós descemos as escadas, rindo, e desviamos de várias pessoas em nosso caminho. Quase tropecei com o salto alto, mas consegui me agarrar no braço de um gigante tatuado que me encarou com cara feia.

Dançamos algumas músicas, tentando criar passos de dança ligeiramente sincronizados (com a multidão ao nosso redor, não havia muito espaço para improviso). Quando a banda enfim encerrou o show, cerca de meia hora depois, eu e Isabelle já estávamos suadas e grudentas, dividindo a garrafa de cerveja de Sirius, que esbarrou em nós em certo momento, enroscado com uma loira de olhos cheios de sombra roxa.

"Preciso ir ao banheiro." Gritou Belle ao pé do meu ouvido, apontando para o caminho pouco iluminado que nos levaria até lá.

Eu acenei, seguindo-a.

Enquanto andávamos, olhei rapidamente para cima. James estava escorado na balaustrada de ferro, a atenção fixa em mim, o rosto um pouco sério. Sua expressão desanuviou quando se percebeu observado. Ele sorriu aquele sorriso torto e sensualmente persuasivo que fazia minha pele se arrepiar.

Fitando-o por sob os cílios, analítica, concluí que era quase ultrajante o jeito como ele parecia bonito com seu cabelo desajeitado, suas calças pretas e sua camiseta polo. Seu estilo ligeiramente social fazia com que destoasse por completo dos demais, que haviam optado por uma vibe mais punk rock ou casual.

Balancei a mão, chamando-o. Já que estávamos na chuva, por que não nos molhar?

Para minha decepção, James sacudiu a cabeça, divertido. "Eu não danço", ele disse, entoando perfeitamente as letras, de modo que pude ler seus lábios.

Suspirei, disposta a protestar (afinal, dançar não era o objetivo de ir a uma boate?), porém acabávamos de chegar na fila do banheiro feminino e Belle chamou minha atenção, enroscando o braço no meu e aproximando a boca do meu ouvido.

"O que você acha daquele pão logo ali?" Indagou, indicando com a cabeça um moreno parcialmente oculto pela escuridão, um cigarro preso no canto da boca. Ele vestia calças pretas rasgadas no joelho, uma camiseta do Led Zeppelin e coturnos com biqueira de metal. O tipo de homem que faria qualquer mulher que adora problema se derreter em suspiros.

"Achei que você estivesse com Leonard." Comentei, tomando o último gole da garrafa de cerveja que ainda tinha na mão.

"Nós não temos nada sério." Afirmou Isabelle, encolhendo os ombros, e jogou o cabelo para trás, abrindo seu melhor sorriso na direção do desconhecido, disposta a flertar com o perigo. "Além disso, ele já fumou tanta erva hoje que acho que seus miolos derreteram."

Uma garçonete deslizava pelo lugar, carregando a bandeja no alto da cabeça, e eu estiquei o corpo para depositar a garrafa vazia sobre ela.

"Acho que tudo bem você dar alguns amassos, mas não vá para um lugar vazio com ele." Aconselhei, limpando o suor da testa e prendendo os cabelos num coque frouxo. "Nós não o conhecemos e seria perigoso desaparecer assim." Ela sacudiu a cabeça, concordando, enquanto a fila à nossa frente andava. Nós a acompanhamos. "E não aceite nada que ele oferecer." Lembrei, porque havia sido mil vezes alertada por mamãe sobre o perigo de aceitar ofertas de desconhecidos.

"Tá certo, tá certo." Isabelle pareceu entediada por um momento. Lambeu os lábios e piscou, sedutora, quando percebeu que o moreno enfim focou sua atenção em nós. Ou melhor, no diminuto vestido que Belle usava naquela noite. "Você não se importa de ser deixada para trás?"

Franzi as sobrancelhas por um instante, porque havia sido ela quem me convidara para ir ao banheiro, mas encolhi os ombros.

"Vá em frente." Sinalizei, com indiferença.

Isabelle soltou seu braço do meu, arrumou o vestido, empinou os seios e foi rebolando na direção do desconhecido, tecendo sua trama fatal ao redor dele. Sequer preciso dizer que o dito cujo parecia bastante disposto a se deixar envolver.

Voltando a atenção para a fila à minha frente, cruzei os braços, esperando pela minha vez.

O apresentador anunciou a entrada da banda de Louis, ZaddStrike, dali a cinco minutos. Boa parte da multidão se aproximou do palco, já querendo pegar um bom lugar para o show do Blue Öyster Cult, a banda principal, que aconteceria em cerca de uma hora.

Isso liberou uma parte do acesso do pub na altura em que eu estava. O caminho que levava às escadas para o andar superior se encontrava parcialmente livre e eu esperava que estivesse assim até sair do banheiro. Não estava disposta a dançar sozinha. Não tinha a menor graça.

"Olá, princesa." Ouvi uma voz ao meu lado, o que me fez dar um salto no lugar e virar na sua direção.

Um homem loiro estava ao meu lado, tão perto que me forçou a recuar um passo. Parecia ter por volta dos vinte e cinco, vinte e seis anos, devido às marcas de expressão em sua testa, e era bastante atraente, de fato. Vestia uma jaqueta de couro, tinha uma argola de metal na orelha e olhos castanhos cheios de malícia.

"Você está sozinha?" Indagou, fixando os olhos na minha barriga exposta. "Precisa de um pouco de companhia?"

"Não, obrigada." Soltei, seca, e me virei para a fila outra vez. Agora havia apenas uma garota na minha frente.

"Ora, vamos lá." Ele falou, a voz mansa, com um sorriso de covinhas que parecia tudo menos inocente. "Sua amiga se ajeitou com Chris, meu amigo ali, e eu acho que seria mais do que justo se eu me ajeitasse com você também. Eu adoro ruivas, sabe." Passou o braço sobre meu ombro, puxando-me na sua direção.

Empurrei-o, corada e furiosa com aquela intimidade que definitivamente não havia lhe dado.

"Vê se não encosta em mim, idiota." Vociferei.

Aborrecido com a negativa, a expressão dele se anuviou. Estava pronto para dar um passo na minha direção, já muito menos amigável do que um minuto atrás, quando Sirius surgiu, em toda sua glória e altura, postando-se na minha frente.

"É melhor ficar longe da garota do meu amigo se não quiser morrer, imbecil." Ameaçou, arregaçando as mangas da camisa azul, expondo os músculos dos bíceps, resultado do exercício constante como membro do time de Hogwarts.

O loiro fungou, incomodado. Era alto, mas não tão alto quanto Sirius, e, embora fosse mais velho, Sirius parecia ameaçador por natureza, provavelmente herança da família Black. Ademais, ainda que seu suposto adversário não soubesse, possuía a força de um colosso, dado que estava acostumado a rebater balaços sem sequer piscar. Aquelas considerações fizeram com que o desconhecido pensasse melhor.

"Então diga para ele manter os olhos nela." Orientou, com secura, dando as costas e logo desaparecendo na multidão de pessoas que havia se juntado para esperar pelo começo do show da banda de Louis.

Sirius se virou para mim, demonstrando alguma preocupação.

"Tudo certo, ruiva?"

"Sim." Murmurei apenas, sem vontade de continuar a falar. Odiava homens machistas que achavam que as garotas tinham o dever de ficar com eles apenas porque estavam sozinhas. Nós merecíamos um tratamento melhor do que isso. Definitivamente. Se eu tivesse levado minha varinha, ficaria muito satisfeita em jogar um feitiço na sua direção. "Obrigada." Sorri para Sirius.

A porta do banheiro se abriu. Era minha vez.

"Vou esperar por você aqui. Só por segurança." Ele disse, sério, cruzando os braços e se escorando na parede ao lado, ignorando por completo a expressão apaixonada da moça atrás de mim. Acho que era a primeira vez que o via negar fogo. James devia ser realmente importante para ele.

Alguns minutos depois, deixei o banheiro, o rosto e as mãos úmidas, o cabelo bem preso num coque, e permiti que Sirius passasse o braço ao redor do meu ombro, sua presença parecendo reconfortante pela primeira vez desde que nos conhecemos, enquanto me guiava na direção do segundo andar. Já podia ver Alex de costas, gesticulando, espalhafatoso como sempre, mas não havia nenhum sinal de JP.

Ouvimos estouros atrás de nós, seguido de um fantástico solo de guitarra, e nos viramos na direção do palco quando já estávamos na metade da escada.

Louis estava tocando, usando toda uma indumentária de couro e com o rosto escondido por uma boina. Quase ajoelhado sobre o chão, os dedos dedilhando freneticamente pelas cordas da guitarra, estava muito próximo do grupo de fãs grudado no palco.

"Louis é realmente bom." Comentou Sirius, parecendo um pouco surpreso. "Eu achei que ele não tocasse nada."

"Eu também." Admiti, com um pequeno sorriso, continuando a caminhar. Estava começando a ficar cansada e os sapatos de salto alto machucavam meus pés.

Da nossa mesa do canto, James, que estava sentado com uma cerveja na mão, ouvindo, com um sorriso, Alex contar mais uma de suas intermináveis histórias, voltou a atenção para nós quase imediatamente após nossa chegada. Suas sobrancelhas se franziram ao notar nossa proximidade incomum.

"O que aconteceu?" Questionou, sério, interrompendo o falatório de viking com um pequeno gesto.

"Nada demais." Afirmei, encolhendo os ombros e preferindo deixar pra lá. Afastei-me de Sirius, indo até a mesa e pegando a garrafa de água mineral que havia sobre ela. Tomei os últimos goles, sem me preocupar em perguntar a quem pertencia. "Belle me trocou por um cara na fila do banheiro." Expliquei, procurando por Leonard. Ele não estava em nenhum lugar da mesa. "Onde está Leo?"

"Foi pra perto do palco quando anunciaram Louis e os caras." Explicou Alex, apontando com o queixo na direção da aglomeração diante da banda.

Sirius se jogou no lugar vazio de Leonard, passando a mão pelo cabelo negro. Ele também estava úmido de suor, cheirando a uma mescla de perfumes femininos, com batom no pescoço e na gola da camisa. Parecia ter tido uma noite e tanto até então.

"Lils foi abordada por um idiota." Explicou, coçando o queixo, e fez sinal para a garçonete, que veio deslizando na nossa direção, um sorriso apreciativo nos lábios. "É melhor você manter o olho nela, Prongs. Tem uma série de caras mal encarados por aí. A Belle, aliás, está com um nesse momento. Você acha que ela consegue manejá-lo, ruiva? ...Ei, boneca, me vê uma cerveja."

"Não sei." Eu falei apenas, coçando a nuca. Não estava acostumada a precisar de servir de babá. Isabelle deveria ser muito mais experiente do que eu na arte da sedução. Chris possivelmente não representaria nenhum problema. "Eu quero uma água com gás." Pedi à garçonete, que parecia ter se perdido em devaneios enquanto flertava com Sirius, sussurrando algo ao pé do seu ouvido. "Pra hoje." Completei, irônica, franzindo as sobrancelhas.

Irritada, ela se virou para mim com uma careta e deu as costas, afastando-se, quase como se não tivesse me escutado.

"Você viu isso? A vadia me ignorou." Vire-me para Alex, incrédula, enquanto Sirius soltava uma gargalhada.

"Desculpa, Lilykins, mas eu causo esse efeito nas mulheres." Afirmou, jogando o cabelo para trás, um sorriso largo e arrasador no rosto.

Embora nunca tivesse experimentado a sensação, eu sabia que aquilo costumava acontecer. Embora não fossem íntimos, Cassandra se dava muito bem com os Marotos e sempre reclamava do fato de que era tratada com rudeza pelas garotas quando estava perto de Sirius. Era quase como se elas a estivessem punindo por profanar o espaço sagrado entre Deus e os mortais.

"Deixa." James se levantou. "Eu vou até o bar. Acho que vai ser mais rápido." Disse, passando por mim e apertando suavemente minha mão. "Senta. Você parece cansada."

Concordei com um gesto curto, tomando seu lugar. Ele parecia sempre saber o que estava se passando na minha mente. Era incrível como me conhecia tão bem (talvez anos de stalker tivessem lhe dado uma ou duas vantagens, afinal). Cruzando as pernas, tirei uma das sandálias, massageando o pé.

Uma mulher morena passou por nós, dirigindo-se ao andar inferior, ajeitando o vestido de couro. Sirius virou a cabeça para olhá-la, uma expressão analítica.

"Acho que vou descer." Avisou, piscando na minha direção enquanto se levantava. "Podem ficar com a minha cerveja. Volto daqui a uma meia hora." Sacudiu o braço numa curta despedida enquanto apressava o passo para seguir sua presa. "Ou não volto!" Gritou, por cima do ombro, zombador.

Alex, que parecia estar apenas esperando pelo momento certo para agir, sentou-se na cadeira ao meu lado quando enfim estávamos a sós.

"Então," começou, em tom sugestivo. "você vai me contar o que está rolando entre você e o Jamie?"

Encarei-o, incrédula com sua cara de pau, e soltei uma gargalhada.

"Você está parecendo uma velha fofoqueira!" Caçoei, fazendo com que ele fechasse a cara, e assoprei para tirar da frente do meu rosto os fios de cabelo que escapavam do coque. "Já disse que não é da sua conta. Sugiro que você siga o exemplo de Sirius e vá arranjar algo com que se ocupar."

"Muito engraçadinha." Ele rezingou, cruzando os braços. "Eu só estou curioso. Achei que você havia dito algo como "um dia" e "talvez" quando lhe perguntei sobre o cara, e agora está toda cheia de beijinhos e abraços. O que quer ele tenha feito para mudar sua opinião, preciso saber. Posso aplicar a técnica também."

"Coisas aconteceram." Encolhi os ombros, sem entrar em detalhes. Puxei minha cadeira para perto da grade de proteção, de modo que pudesse visualizar o show lá embaixo. ZaddStrike parecia estar fazendo os fãs pegarem fogo. "Agora fica quieto. Nós já perdemos um bom pedaço do show do Louis."

Alex soltou um resmungo, mas não protestou. Afinal, Louis deveria ser a prioridade naquela noite.

Passaram-se duas músicas antes que eu voltasse a pensar em James. Era impossível que alguém demorasse tanto tempo apenas para conseguir uma garrafa d'água.

Inclinei o corpo para frente, tentando visualizar a movimentação lá em baixo. A pista estava lotada, mas a parte traseira do pub, que levava ao segundo andar, continuava parcialmente livre, exceto por alguns casais que se beijavam sob a meia luz. No bar, podia visualizar Danna rindo, encostada no balcão, um cigarro entre os dedos, conversando com uma das garçonetes.

Corri os olhos pelo local à procura de JP. Perto do banheiro, Sirius estava com as mãos debaixo do vestido da moça que passara por nós há cerca de meia hora. Não havia nenhum sinal de Isabelle.

"Ei, viking." Chamei, voltando-me para ele. "Vê se você encontra a Belle por aí. Eu não achei."

Alex desviou a atenção do show e voltou os olhos para baixo, percorrendo a multidão, um pouco preocupado. Não importa o quanto Isabelle gostasse de parecer independente, nós sempre manteríamos um olho eventual nela. Apenas por garantia.

Eu ia fazer o mesmo quando algo me chamou a atenção. Algo, não. Alguém.

James estava parado perto da pista, de costas, com uma loira enroscada em seu pescoço. Era por isso que não o havia reconhecido num primeiro momento.

A visão me fez ver em vermelho. Não conseguia acreditar que aquele canalha estúpido, idiota arrogante havia tido a coragem de se agarrar com uma vagabunda bem debaixo dos meus olhos. Depois de toda aquela maldita história de "Lily é especial" e "Lily preenche um vazio em mim". Fodido bastardo. Iria enchê-lo de socos.

Calcei a sandália, embora meu pé houvesse reclamado por ser submetido outra vez àquela tortura, e me levantei, rangendo os dentes. Marchei na direção do futuro falecido Potter sem nem mesmo avisar Alex, que me chamou, confuso. Explicações mais tarde. Bem mais tarde.

Quando cheguei ao térreo, a garota parecia estar argumentando, fazendo um maldito e repulsivo biquinho, esticando o pescoço para ser beijada. Ah, mas não ia mesmo, queridinha.

Empurrei-a com força. Ela soltou um grito agudo, cambaleando, confusa.

"O que você acha que está fazendo, sua piranha?" Vociferei, corada e furiosa. A moça me encarou, surpresa, e logo depois um pouco petulante, como se estivesse me desafiando a dar o primeiro passo. Desafio que eu aceitei, é claro. Não sou uma grifinória por acaso. "É melhor dar o fora antes que eu quebre os seus dentes." Ameacei, fechando o punho.

"Lily..." James chamou, em tom ligeiramente cuidadoso, parecendo se divertir.

"E você cala a sua boca, Potter." Virei-me na sua direção, com o dedo em riste, em claro tom de aviso. Eu não estava brincando, mas ele continuava sorrindo. Não por muito tempo. "Ainda vou chegar em você." Franzi o cenho, pensando em mil espécies de tortura diferentes.

"Eu não sabia que ele tinha namorada." Explicou a loira, empinando o nariz com dignidade. Ajeitou o vestido, cuja alça caíra com meu empurrão, e teve a audácia de me presentear com um sorriso falso. "Relaxa, gata. Eu vou cair fora. Não fico com caras comprometidos. Boa sorte pra você, lindinho, vai precisar." Fitou James, com ares de dúvida, e deu uma última olhada para mim antes de dar as costas e se afastar.

Quando ela finalmente havia desaparecido, voltei-me para James, colérica. O filho da puta parecia estar contendo uma fodida gargalhada.

"Olha aqui, Potter," comecei, praticamente mascando vidro. "se eu precisar espantar uma garota de cima de você outra vez, saiba que será a última, entendeu? Eu não compartilho. Se você não sabe dispensar uma vadia, não sou eu quem vai te ensinar." Dando as costas, tomei rumo na direção das escadas que levariam ao segundo andar.

Naquele momento, não queria vê-lo nem pintado de ouro. Diferente do que o próprio JP parecia pensar, não havia nada engraçado no fato de que havia uma mulher pendurada no seu pescoço. Era uma absoluta falta de consideração comigo. Meu comportamento não devia ser considerado algo bonitinho, do tipo "Lily ciumenta", e sim uma óbvia demonstração de que não estava disposta a ser desrespeitada.

Provavelmente prevendo que não devia continuar a me subestimar, a mão dele se fechou ao redor do meu pulso, impedindo-me de continuar, um instante depois, e me obrigando a voltar para fitá-lo outra vez.

"Ruiva, ela surgiu do nada." Ele disse, tentando ficar sério, embora ainda houvesse um pequeno sorriso torto no canto da sua boca. "Eu juro."

Rompi o contato entre nós com um puxão brusco, mal-humorada.

"Surgiu do nada o caralho." Rebati, azeda. "Eu vi vocês lá do segundo andar. Foi um senhor abraço, hein? Quando eu cheguei, ela ainda estava grudada em você como um parasita." Acusei, torcendo os lábios.

Tentei ajeitar meu cabelo, que havia se soltado do coque diante da fúria dos meus passos, mas não fui muito eficiente.

"Você pode estar achando engraçadinho, mas isso não é uma piada, James." Afirmei, batendo o pé. "É uma falta de respeito. Você vem todo cheio de palavrinhas lindas e logo mostra as garras, não é mesmo? Se é assim que você pretende levar a situação em Hogwarts, sinto muito, mas as coisas entre nós, o que quer que elas sejam, acabam aqui."

Enfim compreendendo que a situação não pedia risos, ele ficou sério.

"Eu não queria ser rude." Explicou, com certa indiferença, encolhendo os ombros. "Eu já estava me livrando dela. Você não pode me punir por coisas que ainda nem mesmo aconteceram. Eu não menti para você. Eu quero você, Lily."

Funguei, não muito disposta a colaborar, mas momentaneamente me permitindo convencer. Ainda não estava completamente certa de que deveria conceder tanta confiança a James, mas presumia que ele não seria estúpido a ponto de ficar com outra garota num lugar onde eu pudesse ver.

Em silêncio, resolvi retomar meu caminho para Alex. A noite estava começando a ficar exaustiva demais para o meu gosto.

"Então nós somos exclusivos." JP comentou, em tom leve, quase angelical, aparecendo repentinamente ao meu lado, acompanhando-me, os braços cruzados atrás do corpo.

Encarei-o de canto, irritada com aquela declaração, que mais parecia uma afirmação cheia de satisfação e certa prepotência. Aquele nem era o ponto central da discussão, para começar. Homens e seu sentimento de propriedade.

"Eu não sei você, mas não costumo beijar dois caras ao mesmo tempo." Resmunguei.

James segurou minha mão outra vez, puxando-me com força na sua direção. Eu ofeguei, surpresa pelo movimento brusco, e dei um encontrão contra seu peito. Seus braços imediatamente se enrolaram ao meu redor, sem me dar tempo para decifrar o que estava acontecendo.

Ele estava sorrindo, presunçoso, e ia baixar o rosto para me beijar quando, com uma careta, desviei o rosto.

"Sai. Não vou beijar você." Reclamei, desgostosa. "Você não fez por merecer."

"Não sabia que eu tinha que fazer algo para merecer um beijo." James disse, as sobrancelhas franzidas, os lábios muito próximos dos meus, embora eu tivesse curvado a cabeça para trás o máximo possível, tentando evitar o contato.

"Bem, então me deixe corrigir isso: você fez algo para não merecer nem um beijo nem meio beijo." Rebati, sarcástica, ainda tentando me livrar do seu agarre. Suas mãos se espalmaram pelas minhas costas, atingindo a base da coluna, e uma delas subiu por debaixo da blusa, preguiçosa, numa carícia circular. O movimento fez meu estômago borbulhar. "Mas se você quiser um soco, sim, um soco pode ser arranjado."

James soltou uma curta risada, sua expressão suavizando outra vez, e me fitou com os olhos castanhos divertidos.

"Eu não sabia que você era tão ciumenta." Comentou, com suavidade.

"Você não sabe tudo a meu respeito." Eu disse, apertando o cenho, um pouco desconfortável com a consciência de que, apesar disso, ele parecia conhecer o suficiente da minha personalidade para praticamente poder ler metade dos meus pensamentos.

"Mas eu vou descobrir." Prometeu James, com segurança, e, pegando-me desprevenida, colou a boca contra a minha.

Eu reclamei, indignada com seu despeito, mas ele conseguia ser muito persuasivo quando queria. Sua língua massageou meus lábios até que fui obrigada a lhe ceder passagem, incapaz de resistir àquela tortura. Ele tinha tudo friamente calculado.

A pressão ao meu redor afrouxou apenas um pouco, de modo que pude mover meus braços, e os removi do aperto, passando-os pelo pescoço de James. Enfiei os dedos por entre seus cabelos, segurando-os, e apertei meu corpo contra o dele, ansiosa por mais contato.

Ele soltou um murmúrio rouco de apreciação.

Outra vez, a pressão aumentou em meu interior, fazendo meu estômago girar como se estivesse dentro de um redemoinho, e tudo à minha volta pareceu desaparecer: a voz do vocalista do ZeddStrike, o cheiro de cigarro impregnado no ar, a vibração que o som causava sobre o chão.

A mão de James subiu pela lateral do meu corpo, apertando minhas costelas, até atingir a base do meu seio direito. O contato fez minha pele formigar, mas me trouxe à realidade outra vez.

Empurrei-o, cortando o contato entre nós, os lábios úmidos torcidos. James abriu os olhos, confuso e um pouco frustrado.

"Você não acha que está sendo mais atrevido do que deveria, Potter?" Indaguei, dando um tapa em seu braço, obrigando-o a recolhê-lo. "Você me beijou duas vezes e já está cheio de liberdades. Está muito enganado se pensa que as coisas vão ser fáceis assim, docinho."

Desviando o rosto do meu, ele bufou e passou a mão pelo cabelo num gesto maquinal.

"Sinto muito." Disse, embora não demonstrasse estar arrependido. "Foi... automático." Deslizou a língua os lábios, aparentando desconforto, e olhou ao redor. Ninguém parecia estar prestando atenção em nós. "Não vai acontecer de novo. A menos que você queira." Garantiu, abrindo um sorriso traquinas.

Lancei um olhar irônico na sua direção.

"Continue com o pensamento positivo." Sugeri, irônica. "Vamos esperar o show de Louis terminar e dar o fora. Estou cansada." Comecei a subir as escadas, ajeitando o cabelo, que James havia bagunçado durante o beijo.

Alex estava de pé, os braços apoiados sobre a balaustrada, os olhos fixos na direção do palco. Tinha uma cerveja na mão e uma fina camada de suor sobre a testa.

"Pode me dizer onde você estava?" Indagou, curioso, quando parei ao seu lado.

"Só resolvendo um negócio." Ainda aborrecida, encarei James de cara feia. Em resposta, ele sorriu de modo inocente, quase como se não soubesse do que eu estava falando. Cinismo era seu nome do meio, aparentemente. "Você achou Isabelle?"

Ele sacudiu a cabeça em concordância.

"Está com Leonard." Apontou com a garrafa para a multidão perto do palco. "Se você se esforçar, vai conseguir encontrar seu vestido azul reluzente."

"Acho que seu caso com o Sr. Perigoso não deu muito certo." Comentei, apaticamente, lambendo os lábios, que repentinamente estavam muito secos. Assim como minha garganta. Vendo a garrafa de cerveja de Alex, lembrei-me da minha água. Estava sedenta. "Ei, Potter, você ia descolar uma água pra mim ou o quê?" Virei-me para fitá-lo, uma sobrancelha erguida.

Ele esfregou o queixo, pensativo.

"Eu ia. Mas fui ao banheiro e depois apareceu aquela garota, então..."

Sacudi a mão, dizendo silenciosamente que ele podia parar por ali. Só o fato de pensar naquela moça atrevida já fazia com que eu tivesse vontade de descer as escadas e caçá-la por todo o pub, só para ter o prazer de transformá-la numa aranha ou rato ou algo tão desprezível quanto.

Para minha sorte, Danna apareceu cerca de quinze ou vinte minutos depois, trazendo algumas bebidas.

Eu e James chegamos em casa por volta das 2h da madrugada (Sirius resolvera ficar para aproveitar o resto da noite com uma loira baixinha de corpo mignon que parecia falar russo) e entramos na ponta dos pés. O local estava silencioso e parcialmente escuro, o que dava uma dimensão mais fantasmagórica à antes incrível mansão.

Agarrei a mão de James com rapidez, num gesto quase automático, quando a escada soltou um longo e tenebroso rangido, que mais parecia o gemido de uma alma amaldiçoada.

Ele voltou os olhos para mim, sorrindo.

"Medinho, ruiva?"

Mordi os lábios, franzindo o cenho. Nunca havia compartilhado com ninguém meu medo de filmes de terror. Eu os assistia, é claro, porque pareciam ser a atração preferida de Alex, mas me revirava na cama à noite só de pensar que na próxima vez que eu tomasse banho poderia haver um maníaco com uma faca me esperando do outro lado da cortina do chuveiro.

De todos os modos, James nunca havia visto filmes de terror, assim não saberia dizer sobre o que eu estava falando mesmo se tentasse. E eu não queria dividir aquela informação. Era um pouco ridículo que alguém acostumado a ver fantasmas tivesse medo de criaturas como Frankenstein.

"Eu me assustei, só isso." Murmurei, irritada, soltando-o, e continuei a subir as escadas com o máximo de altivez que meu orgulho ferido permitia.

Ele soltou uma risada baixa que significava claramente que não acreditava em mim, mas não protestou.

Nós seguimos em silêncio pelo gigantesco corredor e paramos na porta do meu quarto.

Estava girando a maçaneta para entrar quando James segurou meu braço, obrigando-me a virar para fitá-lo. Seu rosto estava parcialmente oculto pela escuridão, rompida apenas pelas velas que flutuavam nas laterais dos corredores.

"Você vai querer dar uma volta pela propriedade amanhã?" Indagou, suavemente, recordando-me da proposta que recebi tão logo pus os pés no terreno dos Potter.

Passar o dia inteiro ao lado de James parecia muito mais perigoso agora do que antes, quando aceitei a proposta, mas a verdade é que estava muito mais curiosa para explorar as belezas oferecidas pelo terreno do que intimidada pela possibilidade de compartilhar algumas horas solitárias ao seu lado.

Depois de sete anos, deveria ser capaz de manejar JP bastante bem.

"É claro." Anuí, meio distraída. "Peça para Leda me acordar." Instruí. Não era uma pessoa matutina. Despertadores sempre haviam sido meus inimigos. "Boa noite, JP." Desejei, com um pequeno sorriso, ficando na ponta dos pés para que pudesse beijá-lo.

Os olhos dele se fecharam ao movimento, que durou apenas um segundo.

"Sim. Eu mal posso acreditar, mas, sim, nós nos vemos amanhã." Ele falou enfim, soltando meu braço e segurando meu rosto por um curto momento antes de pousar os lábios sobre os meus outra vez, deslizando a língua por sobre eles até me obrigar a entreabri-los.

A faísca que se acendera em meu interior rapidamente se transformou em uma explosão.

Correspondi ao beijo, inclinando o corpo na sua direção, sentindo os braços masculinos se enrolarem ao meu redor, num aperto do qual seria difícil fugir, mesmo se eu quisesse. O movimento fez com que seu cheiro natural invadisse minhas narinas, levando a zero qualquer resistência. Era impossível combater o efeito que ele tinha sobre mim.

Enrolei os dedos em seus cabelos castanhos, puxando-os num gesto quase inconsciente enquanto nossas línguas brincavam uma com a outra.

Os dedos de James acariciaram a base da minha coluna, provocando arrepios por todos os lugares, o que me fez soltar um pequeno suspiro. Podia sentir os calos nas palmas das suas mãos, fruto do intenso treinamento sobre uma vassoura, mas, ao invés de me sentir incomodada pela aspereza, sentia-me excitada por ela. Provocava um efeito incompreensível sobre minha pele.

O fogo que se espalhava pelas minhas veias me fez pensar em porque diabos havia resistido por tanto tempo àquela tentação.

"James..." Procurei afastar meu rosto, o que exigiu um esforço quase sobre-humano. A boca dele deslizou pela minha bochecha, escorregando até a curva do pescoço, e eu gemi ao sentir a língua quente tocar minha jugular. "James, ouça..." Tentei outra vez, vacilante, embora meus dedos pinicassem para tocar alguma pele disponível.

"Merlin, você é tão... Deliciosa, Lily." Ele murmurou na base do meu ouvido, a voz rouca. Mordiscou minha orelha, as mãos tendo se fechado como garras nas laterais da minha cintura, puxando-me contra si. Quase podia sentir minha consciência indo embora. "Não consigo tirar as mãos de você."

Engoli em seco, porque tinha a mesma impressão.

"Eu..." Comecei a falar, ou, bem, a tentar falar, o que seria mais adequado, quando uma voz atrás de nós nos fez dar um pulo no lugar.

"Sugiro que você faça isso, filho."

James se virou de súbito, quase atingindo meu rosto com o cotovelo, e encarou o homem que estava postado na metade do corredor com uma expressão de constrangimento.

"Pai." Disse, em leve tom de deferência, ajeitando os óculos, que haviam despencado sobre a ponte do nariz.

Eu encarei Charlus Potter, corada e mordiscando o lábio inferior, tentando controlar a vontade de gritar e sair correndo. Ele era magnífico: alto, ombros largos, um queixo quadrado, semblante divertido, embora cansado, com cabelos escuros ligeiramente salpicados de fios brancos e bagunçados iguais aos do filho.

"Pelos lindos cabelos ruivos, presumo que você deva ser Lily Evans, a musa dos sonhos românticos do meu garoto." Ele tomou a palavra diante do nosso silêncio.

Pisquei, em dúvida se deveria deixar a vaidade suplantar o horror. James, notando meu choque, decidiu tomar a dianteira, abrindo um sorriso traquinas enquanto passava a mão pelo cabelo num gesto praticamente inconsciente.

"Sim, é ela." Afirmou, pousando os olhos sobre mim por um curto instante, como se ainda tentasse se convencer de que eu não era uma miragem.

"Sr. Potter." Principiei a dizer, um pouco gaguejante, tentando arrumar meu cabelo. Estava suada, cansada, possivelmente com a maquiagem borrada, tinha os lábios vermelhos dos beijos recebidos e as roupas tão amassadas que parecia ter saído da guerra. Que a terra me tragasse naquele instante. "É um prazer conhecer você. Eu... Sinto..." Vacilei, mastigando o lábio outra vez.

Sr. Potter sacudiu a mão, como se quisesse atenuar meu constrangimento.

"Não se preocupe, querida. Eu já fui jovem um dia, sabia?" Piscou, muito charmoso, o que, se possível, apenas fez com que eu ficasse mais embaraçada. "James, vá para o seu quarto. Deixe Lily descansar. Ela parece bastante desnorteada, a pobrezinha." Disse, provocando um riso baixo em JP.

Pobrezinha. Sr. Potter tinha me chamado de pobrezinha, como se eu fosse algum tipo de indigente faminta ou criança perdida.

"Você está certo." JP sacudiu a cabeça, voltando-se para mim. "Boa noite, ruiva." Segurou meu queixo com uma das mãos, depositando um beijo firme sobre meus lábios.

Deveria ter protestado pelo excesso de liberdade, mas parecia um pouco irrelevante logo após toda a ação que havíamos tido.

"Sim, bem, até amanhã. Boa noite, Sr. Potter." Murmurei, ainda meio confusa, sacudindo a mão numa despedida e adentrando no meu quarto antes que tivesse tempo de fazer ou dizer algo vergonhoso. Tinha a impressão de que meu cérebro havia tirado férias.

Num gesto muito cinematográfico, encostei-me contra a porta, respirando fundo.

Ainda pude ouvir as vozes dos dois enquanto se afastavam pelo corredor, conversando como velhos amigos.

"O que está fazendo em casa?" Indagou James, curioso. "Mamãe disse que você só chegava amanhã."

"Capturamos um grupo de Comensais da Morte. Recebi o dia de folga." Explicou Sr. Potter. Era mais difícil ouvi-los conforme tomavam distância. Provavelmente seguiam para o andar inferior, já que passaram pelos quartos. "Então, Lily Evans, hein. Devo parabenizá-lo?"

Pensei que seria difícil pregar os olhos depois de toda aquela emoção, mas a verdade é que dormi assim que encostei a cabeça no travesseiro macio.

Havia me virado no banheiro, tomando uma ducha rápida – que não suscitou nem metade do prazer proporcionado pelo magistral banho preparado por Leda, verdade seja dita. Lavei o cabelo, penteei e sequei o máximo possível, já que não poderia usar magia. Mesmo assim, sabia que estaria terrível na manhã seguinte, todo cheio de frizz.

Mas, bem, James deveria se acostumar com a realidade.


N/A: Peço desculpas pela demora! O capítulo ficou bastante grande e tanto escrever quanto revisar acabaram levando uma eternidade. Enfim, pelo menos temos bastante de Lily e James :) Eles estão aos poucos aprendendo a desenvolver o relacionamento. Não, Lily não vai surtar com a responsabilidade. Ela vai ir se adequando aos poucos.

A ideia é concluir a fanfic lá pelo capítulo 14. Já tenho a trama mais ou menos preparada.

Maria Emilia, obrigada por continuar acompanhando! Espero que tu siga conosco até o final ;)

No próximo capítulo temos o passeio de Lily e JP pela propriedade dos Potter e já aviso para as diabéticas se prepararem, porque vai ser muito amor!

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