CAPÍTULO DEZ: O CÓDIGO DOS BROS
Acordei com um sussurro ao pé do ouvido.
"Senhorita Lily, senhorita Lily. Senhorita Lily, hora de acordar." A voz de Leda soava asmática e pegajosa contra minha pele, quase como um chamado do além, e isso que me fez dar um pulo no lugar, erguendo-me da cama de supetão, pronta para me defender contra os alienígenas ou a entidade paranormal que estivesse perturbando meu sono.
Assustada com minha reação, por sua vez, Leda gritou tão alto que fez os vidros da janela tremerem, jogando-se no chão com as mãos sobre a cabeça (uma reação típica de elfos domésticos diante de qualquer tratamento agressivo. Eles pareciam biologicamente programados para entrarem em estado de defesa).
"Mas o que diabos...?" A porta se abriu antes que eu tivesse tempo para reagir. Voltei o rosto naquela direção, ainda segurando o travesseiro como se fosse uma arma, confusa.
Sirius e James estavam parados ali, as expressões chocadas, enquanto Leda começava a chorar.
"Por que Leda gritou?" JP arqueou a sobrancelha, deslizando os olhos de mim para a elfa.
Naquela manhã, ele usava calças e uma camisa polo, apesar do aparente calor, e seu cabelo ainda estava úmido, o que significava que deveria ter saído do banho há pouco. Black, por outro lado, trazia apenas a parte de baixo de um pijama e parecia muito confortável em exibir o tórax dourado do sol para quem quer que quisesse (ou pudesse) ver.
"Ela me assustou como o inferno." Confessei, desfazendo minha posição ofensiva. Tentei ajeitar o cabelo, ainda de pé sobre o colchão. Usava apenas uma camiseta, de modo que minha calcinha branca de algodão estava claramente visível. "Pessoas sussurrando ao pé do meu ouvido definitivamente não é minha concepção de bom despertar." Deixe-me cair sobre a cama outra vez, num suspiro exasperado. Rolei para a beirada, na direção onde Leda estava jogada, ainda protegendo a si mesma. "Ah, Leda, vamos lá. Sinto muito, pare de chorar."
Ainda soluçando, Leda fungou e sacudiu a cabeça, numa trêmula concordância.
"Bonita calcinha, ruiva. Até fez valer a pena levantar da cama." Zombou Sirius, que havia se escorado na porta, com os braços cruzados e um sorriso torto no rosto, pelo que percebi ao lançar uma dura mirada sobre o ombro.
"Conforto acima de tudo, queridinho." Rebati, asperamente, cobrindo-me com o lençol. Cassie sempre dizia que eu vestia calcinhas de vovó, mas sempre preferi peças de algodão a outros modelos mais arrojados. Por que ser criativa com a roupa de baixo? Não era como se eu pretendesse mostrar pra outro senão meu médico. "Vocês não tem um Código dos Bros* que diz "Não olharás para a calcinha da garota do seu bro", por acaso?" Funguei, um pouco ofendida pela intrusão.
Enquanto se entreolhavam, Sirius e James pareceram surpresos por um segundo.
"Bem, sim, mas eu achei que não se aplicava a você." O primeiro encolheu os ombros, aparentando se sentir um pouco culpado, o que era o máximo que alguém um dia havia sido capaz de tirar daquele cara. Um pouco culpado.
Em silêncio, Leda ainda chorava abundantemente quando eu me endireitei, a sobrancelha arqueada.
"O que exatamente isso quer dizer?" Perguntei, ofendida. Minha reação possivelmente o fez recuar, o que não era surpreendente. Deixe-me dizer: uma Lily descabelada pode ser duas vezes mais intimidadora do que uma Lily perfeitamente penteada e perfumada. "Eu não me encaixo no seu perfil, Sirius Black?" Vociferei, lançando um olhar mortal na sua direção.
O cenho franzido, Sirius torceu os lábios, incerto sobre como proceder.
"Uma ajudinha aqui, cara." Pediu, voltando-se para James, que escondia um sorriso.
"Não é isso, Lily." JP tomou a palavra, divertido. "É só que nós não sabíamos se podíamos colocar você na categoria de "minha garota". Você costuma ser muito sensível sobre essa coisa de relacionamento, então achei melhor não tomar nenhuma decisão precipitada."
Como quase sempre acontecia, ele estava certo.
Havia sido muito enfática ao longo daqueles dias, afirmando uma e outra vez (com medo de ser ignorada) que não estávamos namorando. Mesmo assim, enquanto estivéssemos apenas descobrindo como funcionava a química entre nós, éramos exclusivos, o que significava que os melhores amigos de JP deveriam me tratar com o respeito que dignariam para uma namorada oficial.
De qualquer maneira, saber que JP estava preocupado em seguir meus desejos me fez baixar a guarda. Cassandra costumava dizer que garotos nunca se davam ao trabalho de prestar atenção aos anseios e sonhos das mulheres. Em se tratando de James Potter, porém, a situação parecia ser exatamente o contrário. Aparentemente havia poucas facetas minhas que ele ainda não conhecia. Isso era intimidador e excitante na mesma medida.
"Oh." Disse, surpresa, som que se perdeu em meio ao ruído dos soluços de Leda. Voltei-me na sua direção outra vez, as sobrancelhas apertadas. "Leda, por Merlin, pare de chorar!" Ordenei, impaciente, empregando a mesma voz de comando que costumava utilizar com primeiranistas travessos.
Como sempre acontecia, a ordem surtiu efeito imediato.
Leda enfim se levantou do chão, controlando as lágrimas, e amassou a barra do vestido esfarrapado, o queixo tremendo, à espera da próxima instrução.
"Muito bem." Elogiei, séria. "Você já me acordou. Obrigada. Agora vá." Gesticulei com a mão, sem esconder certo enfado.
Ela sacudiu a cabeça, não se atrevendo a falar, e desapareceu num estalo.
"Pelos testrálios... Lembrem-me de nunca ter um elfo doméstico. Eles dão mais trabalho do que crianças temperamentais." Suspirei, esfregando o rosto, um pouco exasperada, já plenamente desperta.
O despertar súbito e a subsequente cena haviam destruído por completo quaisquer resquícios de sonolência. Agora eu me sentia como se estivesse ligada em mil volts - creio que posso dizer o mesmo dos meus cabelos, deixe-me acrescentar.
"Acho que você vai ter que aprender a lavar a louça, Prongs." Com uma risada divertida, Sirius deu um tapinha amigável sobre o ombro de James antes de piscar para mim e virar as costas, entrando no quarto do outro lado do corredor e batendo a porta atrás de si.
Em silêncio, James sorriu, parecendo se divertir com a ideia, mas lançou um olhar de desculpas na minha direção, provavelmente acostumado a lidar com minhas reações inflamáveis.
"Pads é sempre um pouco intrusivo, você sabe." Encolheu os ombros, passando a mão pelo cabelo.
Suas palavras pareceriam muito mais naturais, não fosse a maneira preguiçosa como fitava minhas pernas parcialmente cobertas pelo lençol, quase como se quisesse cruzar a distância que havia entre nós e descobri-las com suas próprias mãos.
A expressão em seu rosto e o sentimento em seus olhos enfim me tornou ciente para o fato de que usava apenas uma blusa e uma roupa de baixo em sua presença. Também me fez perceber como isso era inadequado, dado o nível do nosso relacionamento.
"Tá certo." Anuí, desinteressada. "Cai fora, James."
"O quê?" Pego de surpresa pela notícia, ele franziu o cenho.
"Eu disse pra cair fora do meu quarto." Gesticulei, impassível, apontando na direção da porta. Ficar sozinha num quarto com James, considerando como nossas mãos pareciam ganhar vida própria, era uma péssima ideia. Minha mãe nunca mais me deixaria sair de casa se soubesse. "Preciso me arrumar. Acho que foi para isso que Leda me acordou, não é?"
Abrindo o delicioso sorriso torto que parecia ser sua marca registrada, ele aquiesceu.
"Vou esperar por você na sala de jantar. A mesa do café da manhã está posta." Avisou enquanto seguia para a saída. Lançou um último sorriso arrasador na minha direção antes de deixar o quarto, fechando silenciosamente a porta atrás de si.
Demorei cerca de vinte minutos para fazer a higiene matinal e trocar de roupa. Para minha sorte, meu cabelo havia acordado num raro humor colaborativo, de modo que bastaram algumas escovadas para que fosse capaz de assentá-lo de modo agradável. Como costumava fazer, fiz uma trança, prendendo-a com um laço de fita.
Optei por um leve e casual vestido de verão na cor verde. Havia trazido roupas mais confortáveis, mas parecia inadequado utilizá-las na presença dos Potter, que aparentemente eram a personificação da riqueza.
Desci as escadas e tomei rumo da sala de jantar, um dos poucos caminhos que lembrava dentro daquela gigantesca residência.
"...é completamente obcecado por Serena." Dizia James, enfático. "Ele a persegue desde o quarto ano. Só tem vergonha de admitir que está apaixonado. Ninguém pode exatamente culpá-lo, pode? Depois de todo aquele papo de ser inconquistável."
"Serena Beckendorf?" Indagou Sr. Potter, curioso. "Eu... Lily, bom dia." Cumprimentou-me assim que pus o primeiro pé dentro do amplo cômodo.
A Sra. Potter não estava presente. Em compensação, Sr. Potter, parecendo ainda mais majestoso que na noite anterior, estava sentado na cabeceira da mesa, a xícara de café na mão. O cansaço da sua expressão havia desaparecido quase que completamente apesar das poucas horas de sono.
"Bom dia." Cumprimentei, um pouco tímida.
"Sente-se conosco." Ele apontou para a cadeira vaga ao lado de James, que eu tomei com certo prazer. Parecia muito mais seguro ficar ao lado dele, já que era o único com quem tinha alguma intimidade. "Você fica muito bem de verde. Combina com os seus olhos." Elogiou, com o sorriso charmoso que eu rapidamente estava aprendendo ser sua marca registrada.
Corei, muito embora tivesse tentado me controlar. Parecia muito difícil resistir ao magnetismo avassalador que parecia ser nato da sua personalidade.
"Obrigada." Agradeci, tanto para ele quanto para James, que enchia meu copo de suco de laranja. Eu raramente bebia café. Apesar de adorar uma boa dose de whisky de fogo, Cassandra tinha toda essa filosofia de que cafeína destruía nosso sistema e sempre estapeava minha mão quando eu chegava perto de qualquer bule que contivesse algo além de chá.
Aos poucos acabei me acostumando a evitar aquela bebida. Agora, depois de um longo período de privação, qualquer coisa com cafeína tinha o hábito de me deixar muito elétrica, quase como uma criança hiperativa que comeu chocolate demais.
"Você sabia que verde é a cor preferida de James?" O Sr. Potter indagou, de modo divertido.
"Pai." Sem esconder certo incômodo, James revirou os olhos.
"Não, eu não sabia." Confessei, tentando me manter impassível. Agarrei uma fatia de pão, disposta a comê-la com toda a elegância que minha criação plebeia me conferiu. "Sinto ser indiscreta, mas posso saber o que vocês estavam falando sobre Serena Beckendorf? Nunca imaginei que ela fizesse o tipo de Sirius."
Pra falar a verdade, nunca tinha prestado particular atenção em Serena Beckendorf.
Havia vigiado algumas das suas detenções no ano passado. A garota era uma larápia: apesar de ser da Corvinal, não economizava esforços para faltar em aulas que não lhe apeteciam. Ademais, pelos comentários de McGonagall, era uma das poucas que conseguiam me superar em Transfiguração. Pra pior.
Estava indo para o quinto ano, se meus cálculos estivessem certos. Era pequena, com rosto em formato de coração, uns olhos cinzentos fantásticos, devo admitir, e conseguia me fazer rir como ninguém com seu dramatismo exagerado, uma personalidade diferente de quaisquer dos seus colegas de casa, geralmente muito mais intelectuais.
Apesar de ser bonita como uma boneca de porcelana, não parecia se encaixar com Sirius. Ele demonstrava preferir garotas voluptuosas e seguras de si, como Lauren.
"Ao contrário. Sereninha é seu pecado capital." Revelou James, com um pequeno sorriso zombador. "E seu segredo mais nefasto."
"Sereninha?" Pisquei, confusa, mas não enciumada. Ele parecia falar dela como fala de uma irmã mais nova, o que era doce, de certa forma. Porém esquisito, considerando que nunca os havia visto próximos. "Desculpa, eu só acho isso estranho. Eu nunca vi vocês a menos de dois metros da Beckendorf."
"É porque raramente estamos a menos de dois metros da Beckendorf." Ele admitiu, coçando o queixo. "Padfoot a persegue em segredo. Quando os corredores estão vazios, depois do horário de recolher, essas coisas. Não quer atrair atenção para Serena. Já é bastante difícil manter os caras longe dela. Se todos soubessem que ele está interessado, mas que não é correspondido, metade do castelo cairia matando, tentando descobrir o motivo da comoção."
Anuí, sem esconder o assombro.
Até aquela manhã, apostaria cem galeões que Sirius Black jamais se interessara romanticamente por uma garota. Agora, ele tinha todo um passado secreto e um fora nas costas. Era preciso admitir a força da personalidade de Serena. Sirius era lindo e resistir à sua pressão deveria ser muito difícil, uma vez que ele estivesse empenhado na conquista.
"Eu trabalho com Beckendorf." Declarou o Sr. Potter, desviando o assunto, distraído com a tarefa de espalhar geleia na sua fatia de pão. "Miranda Beckendorf. Um bom Auror para cobrir suas costas. Ela é uma McKinnon, vocês sabem. A coragem provavelmente está no gene. Vocês estudavam com a herdeira da família, não estudavam? Marlene?"
"Marlene era artilheira do time. Se formou há dois anos." Explicou James, a boca cheia. Lambeu a ponta dos dedos, sujas do açúcar de confeiteiro que cobria sua rosquinha. "Realmente brilhante. Acho que teria ido para a Holyhead Harpies se não estivéssemos em guerra. Eu sei que ela foi convidada pessoalmente por Giselia Jones, a antiga capitã."
"E toda aquela tradição com a letra G?"* Indagou o Sr. Potter, curioso.
"O nome do meio da Marlene é Gabrielle."
Durante os próximos minutos, o tema da conversa continuou a girar em torno de Quadribol, uma das poucas coisas que pareciam permanecer inabaladas mesmo com a guerra que acontecia no mundo mágico. Aparentemente, o Ministério estava muito interessado em fazer com que tudo continuasse assim, já que, como em Roma, era necessário implementar uma política de pão e circo para desviar o foco do povo das desgraças que aconteciam ao seu redor.
Tentando esconder o tédio mortal, estava revirando o suco de laranja em meu copo de vidro, esperando pelo momento adequado para deixar a mesa, quando James subitamente se calou, interrompendo-se numa muito séria defesa de tese sobre a majestade do Puddlemere United, que estava tendo sérios problemas para se manter no campeonato daquele ano.
"Desculpa, ruiva." Pediu, voltando os olhos esverdeados para mim, aparentando estar um pouco envergonhado.
"O quê? Sobre o quê?" Indaguei, franzindo as sobrancelhas. Observei o ambiente, esperando ver alguma coisa voando ou explodindo, o que acontecia ao seu redor com frequência em Hogwarts, mas aparentemente estávamos a salvo. Daquela vez.
"Eu me lembro da sua conversa com Olívia." Ele apontou, arrumando os óculos sobre a ponte do nariz. Não estava muito preocupado com a plateia, o que era mais do que eu podia exigir dele, considerando sua antiga necessidade patológica por atenção. Sr. Potter, por sua vez, nos observava com um olhar curioso, quase como se estivesse acompanhando um romance de folhetim. "Você odeia ouvir os caras falarem sobre esportes."
Perceber que James se recordava da discussão que eu havia tido com Olívia foi um choque. Não era uma surpresa saber que JP era bastante observador por si só, mas aquele nível de memorização era uma surpresa até para mim. Eu própria mal me lembrava daquela conversa, embora tivéssemos brigado.
Mordisquei o lábio por um momento, abrindo um pequeno sorriso.
"Tudo bem." Dei um tapinha sobre sua mão, aproveitando a chance para fugir. "Eu vou voltar para o quarto. Fazer a higiene e tudo isso. Quando você estiver pronto para ir, apenas me chame, está bem?" Levantei, jogando o guardanapo sobre a mesa. "Pessoalmente. Não mande Leda." Pedi, ainda incomodada com a explosão daquela manhã.
"Eu vejo você em cinco minutos." Ele garantiu, com um sorriso suave.
Quando cheguei ao quarto, precisei resistir bravamente à tentação de tirar um longo cochilo. Como era de se esperar, considerando a quantidade indeterminada de elfos domésticos que se esgueiravam pela casa, a cama já estava arrumada, com os lençóis esticados e os travesseiros afofados, e parecia tão atrativa que foi duro resistir à tentação de me render ao sono.
A despeito do despertar violento, minha adrenalina havia começado a baixar nos momentos de tranquilidade, fazendo-me perceber que havia dormido muito pouco. Agora, era como se tivesse pequenas pedras de areia em meus olhos. Não estava certa de como havia conseguido conter gigantescos bocejos durante o desjejum.
Como prometido, porém, JP bateu na porta enquanto eu ainda escovava os dentes, o que me fez conter um suspiro. Ele deveria ter um maravilhoso passeio em mente se pretendia me manter acordada durante todo o dia, considerando o horário que havíamos voltado na noite anterior.
Espreguiçava-me, com a esperança de afastar a sonolência que voltava, quando girei a maçaneta.
"Muito cansada?" Ele arqueou uma sobrancelha, um pouco divertido ao me ver esfregar os olhos, mas sem esconder certa decepção.
"Um pouco." Admiti, uma vez que seria inviável fingir. Joguei a trança para trás do ombro, pronta para me arriscar ao lado da tentação. Dei um passo para fora, agarrando sua mão num gesto natural. "Mas estou curiosa para saber o que você preparou para hoje. Faça sua mágica, JP."
A expressão no rosto de James era de uma criança que recebeu o presente de Natal adiantado.
"Vamos para os estábulos." Disse, puxando-me. Deslizamos com passos rápidos pelo corredor e quase voamos pelas escadas. "Tenho todo um cronograma preparado. Não podemos perder um minuto sequer. O tempo urge. Você tem um biquíni?" Fitou-me por sobre o ombro enquanto cruzávamos o hall de entrada.
Pisquei, confusa, cumprimentando Crunk, que acenou quando passamos, com a mão livre.
"Não." Falei após um instante. O sol ardente feriu meus olhos assim que pisamos na varanda. Ergui o braço para ter alguma sombra. A temperatura escaldante fez com que eu me arrependesse por não ter trazido roupa de banho, embora a princípio não estivesse esperando por nenhuma diversão na piscina. "Não estava exatamente me preparando para esse tipo de recepção. Para onde você disse que vamos?" Indaguei, curiosa, olhando ao redor.
"Estábulos." Repetiu James, paciente, embora sem parar de se mover.
Cruzamos o imenso jardim, seguindo na direção da parte traseira do terreno.
Logo pude visualizar um galpão. Um elfo nos esperava na porta, alisando o pelo de um magnífico cavalo negro. O tipo de cavalo que certamente pertenceria a um cavaleiro de armadura brilhante se nós ainda estivéssemos na época das justas.
Hesitei conforme nos aproximávamos. Nunca havia andado em nada que se locomovesse a base animal. Eu não era muito boa com transportes não-convencionais, vide minha falta de intimidade com vassouras e aparatação (para não dizer algo pior). Ambas faziam com que eu tivesse vontade de vomitar.
"Nós vamos andar nisso?" Indaguei, a boca torcida, antes que pudesse me controlar.
"Hector." Corrigiu James, franzindo o cenho por um instante. Pegou as rédeas com a mão livre. "Você pode ir, Pinn." Instruiu. "Eu e Lily vamos ficar com Hector durante a tarde. Diga para Crunk levar a cesta para o lago perto do meio dia."
Pinn sacudiu a cabeça em ansiosa concordância, fez uma curta reverência e desapareceu com sua escova num estalo.
Mordi o lábio, vendo Hector aproximar a cabeça da minha, como se estivesse curioso, e cutucar meu cabelo com o focinho molhado.
"Ele gosta de garotas." Explicou James, rindo diante da minha careta quase involuntária. Soltou a mão da minha para que pudesse enfiá-la no bolso, de onde tirou um cubo de açúcar. Hector foi rápido em abocanhá-lo, lambendo toda a extensão da sua palma. "Ganhei Hector quando fiz dez anos. Ele era só um potro."
"Você ganhou um cavalo quando fez dez anos?" Arqueei uma sobrancelha, incrédula. "Eu ganhei uma boneca. Qual o problema com os seus pais?"
Ele soltou uma risada alta, encolhendo os ombros, e limpou a mão na calça antes de se aproximar da sela, ajeitando as correias com a maestria de um profissional.
"Nós vamos até o lago. Não é longe daqui. Uns cinco ou dez minutos a cavalo." Esclareceu, o que me fez observar a vastidão do terreno à nossa frente. Atrás do galpão havia uma enorme área descampada. A cerca de um quilômetro dela começava um bosque que não parecia muito fechado. Era um pouco ofensivo que uma quantidade tão grande de terras pertencesse a apenas uma família. "Você vai gostar de lá."
Balancei a cabeça, anuindo, ainda um pouco insegura.
"É, mas... Será que eu posso ir andando?" Perguntei, arrastando o pé sobre a grama, envergonhada. Não estava confortável com a ideia de andar a cavalo, por mais fantástico e amigável que Hector parecesse, ainda mais quando me cutucava com o focinho, esperando receber carinho - que eu fiz, a propósito, porque fui incapaz de resistir à sua insistência. Ele era quente e macio e tinha um cheiro agradável, de sol e pelos. "Eu só... Eu nunca andei a cavalo antes." Admiti, mordendo o lábio.
James me fitou por um instante, seus olhos parecendo muito mais esverdeados sob o sol quente daquele começo de manhã.
"É muito longe para ir a pé." Afirmou, com suavidade. "Mas eu vou estar com você. Não se preocupe. É perfeitamente seguro." Garantiu com um sorriso tranquilizador, agarrando minha mão e puxando-me levemente na sua direção, de modo que eu estivesse parada em frente à sela. "Vamos lá. Você vai colocar o pé esquerdo no estribo, içar o corpo para cima e girar a perna direita por sobre o lombo de Hector, de modo que seja capaz de atingir o outro estribo."
"É bom que fique claro desde já que meu pai vai matar você se acontecer qualquer coisa comigo, James Potter." Ameacei, nervosa, preparando-me para enfiar o pé no estribo, como me havia sido instruído. Devo ter segurado a sela com tanta força que os nós dos meus dedos estariam brancos.
"Acredite, Lily, seu pai e eu temos o mesmo objetivo." Ele garantiu, segurando minha cintura com as mãos para me dar apoio. "Nada é mais importante do que manter você segura."
Funguei, descrente, mas pouco interessada em revidar, e comecei minha missão.
Foi uma subida desajeitada, porém eficaz. Antes que pudesse perceber, e com um suave impulso de James, estava sobre as costas de Hector, o que me fez congelar sobre a sela e agarrar o suporte com força. Sentir a respiração dele contra minhas pernas quase foi o bastante para que eu desejasse descer imediatamente.
"James..." Fitei-o, à procura de ajuda, e fui imediatamente atendida, como sempre parecia acontecer quando se tratava dele.
Antes que pudesse piscar outra vez, James estava sobre o cavalo, atrás de mim, e seus braços me rodearam enquanto agarrava as rédeas, trazendo conforto e segurança.
Respirei fundo, aspirando o perfume da colônia masculina. O aroma levemente familiar ajudou a criar uma conexão com o mundo ao redor, diminuindo o formigamento provocado pelo pânico.
"Pronta para começar o passeio?" Ele perguntou, a voz rouca soando suficientemente perto do meu ouvido para espalhar arrepios ao longo da minha espinha.
Sacudi a cabeça em negativa e soltei um gritinho quando Hector trocou o peso das pernas, impaciente, andando sem sair do lugar. Ele era um animal tão alto que fazia parecer que o chão se encontrava a vários metros de distância.
"Tudo bem, amor." Falou JP, de modo tranquilizador, rodeando minha cintura com um braço e trazendo-me para mais próximo de si. Seu queixo estava apoiado sobre meu ombro. "Você não vai cair. Confie em mim. Hector é um profissional."
Suspirei, ainda um pouco hesitante, mas disposta a me deixar levar, porque seria uma vergonha para uma grifinória se negar a experimentar algo por puro medo, e relaxei contra o tórax masculino.
"Está bem. Vamos lá."
Começamos num trote curto. Os primeiros passos foram meio estranhos e cheios de tensão, mas o aperto de James me mantinha perfeitamente imóvel, de modo que comecei gradualmente a baixar a guarda, até sentir que o percurso não apresentava quaisquer perigos.
Os dez minutos que deveríamos levar até o lago devem ter se transformado em vinte, porque parecia que estávamos andando a uma eternidade quando entramos no bosque e nos deparamos com esse fantástico, incrível lago.
Havia árvores ao redor e um tapete de grama que parecia muito macia.
Olhei ao redor, incrédula. Eu adorava o lago de Hogwarts, mas sequer se comparava em beleza a este. A água era azul-escura e era possível ver alguns peixes nadando próximos à superfície. Flores de indistintas espécies cresciam nas margens, assim como alguns cogumelos que certamente valeriam uma segunda olhada.
Parecia a perfeita imagem de um filme romântico, lugar onde que uma garota como eu adoraria poder desperdiçar algumas horas, lendo um livro sobre a sombra de uma árvore ou apenas ouvindo a brisa balançar as folhas e formar ondas quase invisíveis sobre a água cristalina.
"O que você acha?" Perguntou James, orgulhoso.
"Você já sabe o que eu acho, seu exibido." Respondi, um pouco rabugenta, torcendo o nariz. "É lindo."
Ele riu, apertando minha cintura suavemente, talvez num gesto de reconhecimento, antes de soltá-la e pular do cavalo num movimento rápido.
"Vem." Estendeu os braços para mim.
Vacilei diante da perspectiva de precisar descer (não a havia considerado até então), por isso deixei James me segurar quando saltei. Ele me prendeu em seus braços, erguendo-me do chão apenas o suficiente para que nossas bocas se encaixassem por um curto momento.
Suspirei contra seus lábios num gesto quase inconsciente, derretendo-me contra seu peito. Havia subestimado a capacidade que ele tinha de fazer com que eu me sentisse bem. Na realidade, todo meu corpo parecia reagir de modo incendiário quando estava ao seu lado e isso era paradoxalmente excitante e atemorizante.
James sorria quando nos afastamos, nossos narizes ainda se roçando.
"Você sabe quanto tempo esperei por isso?" Ele sussurrou, mordiscando meu lábio inferior. "Imaginei que você gostaria daqui, considerando que adora o lago de Hogwarts."
Concordei, rodeando seu pescoço com os braços.
"Você é muito mexeriqueiro." Rebati, a voz baixa, embora em tom leve, enquanto acariciava seu cabelo com uma das mãos. Embora tivesse a aparência de ter sido atingido por um raio durante uma tempestade, tinha uma textura macia. "Vive me perseguindo. Eu deveria denunciá-lo e não alimentar sua obsessão. Isso é um crime, sabia?" Soltei um risinho enquanto ele voltava a me beijar.
A proximidade fez com que eu fosse capaz de enxergar pequenas pinceladas de dourado em seus olhos que haviam passado despercebidas até então.
"Então me faça seu prisioneiro." Pediu James, rouco, a boca ainda grudada na minha, espalmando uma das mãos sobre minhas costas, de modo a tocar a pele desnuda.
Encarei-o, séria por um instante, sentindo meu coração bater desenfreado como se estivesse tocando uma sinfonia própria. Ninguém nunca havia sido capaz de despertar aquelas sensações em mim.
Qualquer coisa que pretendesse responder, porém, foi interrompida pelo movimento de Hector, que cutucou o bolso de James com o focinho, relinchando, e estilhaçou o momento romântico em milhões de fragmentos indistintos enquanto eu caía na gargalhada.
JP me soltou, com uma expressão contrariada, e voltou a enfiar a mão no bolso atrás de mais alguns cubos de açúcar.
"Você não pode interromper um momento importante, cara." Repreendeu, dando um tapinha sobre a crina de Hector enquanto o mesmo mastigava. Hector relinchou de prazer, sacudindo o rabo, e trotou no lugar, feliz, mas nem um pouco arrependido. "Tsc. Hector e Sirius são iguais, sabe? Ambos não conseguem se concentrar em mais nada se estão diante de algo que querem de verdade."
Contive um riso, porque Sirius certamente se sentiria muito ofendido com a comparação, mas não me atrevi a protestar.
Voltei os olhos para o lago, entendendo o porquê da conversa sobre biquíni. O calor fazia com que eu tivesse uma vontade louca de tirar a roupa e nadar.
"Nós podemos entrar?" Indaguei, aproximando-me da margem e me abaixando para tirar as sandálias. Estava sendo amparada pela sombra de uma enorme árvore plantada a apenas um par de metros da orla, o que ajudou para aliviar um pouco o calor.
"É claro." Ele concordou com um largo sorriso, que morreu quando viu que eu começava a abrir os botões do meu vestido. "Lily..." Hesitou, tenso.
Não estava usando meu conjunto de lingerie preferido, o azul-petróleo que comprei na minha última visita a Londres, mas o preto teria de servir. Não costumava vestir peças combinando também, porém acreditei que seria de bom tom levar conjuntos já que iria dormir fora. E bingo.
"Eu não tenho roupa de banho, mas tenho roupa de baixo." Disse, com um sorrisinho malicioso. O lingerie preto era de renda, contudo não muito revelador. Não representaria nenhum perigo. Ademais, James já havia me visto de biquíni e calcinha e sutiã, desde que não excessivamente sensuais, tinham o mesmo efeito prático: esconder de modo eficaz aquilo que deveria ser mantido em sigilo.
Estendi meu vestido sobre a grama e soltei o cabelo, embora sem desfazer a trança.
Subi numa pedra à margem do lago para que pudesse dar uma ponta. A água estava congelante num primeiro momento, mas meu corpo logo se habituou à temperatura e agradeceu.
Emergi, os peixes tendo se espalhado por todos os lados, assustados com minha invasão, e fitei James, que continuava de pé sobre a margem, uma expressão impossível de ler.
"Você não vai vir?" Perguntei, curiosa, sacudindo os braços e pernas para me manter na superfície.
"Vou. É só..." Ele parou, engolindo em seco, e lançou um olhar duro para meu colo exposto e meu rosto corado. "Você é a coisa mais linda do universo, Lily." Confessou, o cenho franzido. "Eu sempre imaginei como seria ter você, mas isso aqui, nós dois... Consegue ser tão melhor que meus sonhos anteriores pareceram apenas um devaneio qualquer."
Sorri, lutando contra o embaraço.
Sempre havia levado na esportiva os elogios que costumava receber. Achava James imaturo demais, arrogante demais para ser capaz de falar algo com a sinceridade brutal com que falava agora. Naquele momento, porém, podia sentir uma rudeza até incomum na sua confissão, como se ele quase nem pudesse lidar com a situação.
Durante todos aqueles anos, eu e James estivemos travando uma guerra interminável que parecia finalmente ter culminado no único resultado possível.
Gostava dele e, quanto mais o tempo passava, mais eu gostava. E essa era a mágica, porque era o momento certo, a hora certa para nós.
"Mas eles foram um devaneio qualquer." Disse, suavemente, deixando que meus olhos refletissem todas as declarações silenciosas que ainda era incapaz de fazer. "Venha para a água, James."
Nós nadamos e jogamos jogos estúpidos, como Marco Polo, durante quase toda a manhã e sentamos na grama sob o sol para secar depois do que pareceram eras.
Minha pele estava cheia de grama e terra. Mesmo assim, eu não podia me importar menos.
Os pássaros cantavam pelo bosque, numa melodia que parecia romper o silêncio entre nós quase com o mesmo impacto que uma sinfonia de Beethoven, e o vento balançava as folhas das árvores, fazendo com que algumas se desprendessem, voassem pelo ar e caíssem sobre nós.
"O que você pretende fazer depois que deixar Hogwarts?" Ele perguntou, virando-se de lado, apoiando o rosto sobre o braço, curioso. Seus óculos estavam com as lentes molhadas, porque ele não podia ficar sem eles mesmo dentro d'água.
"Eu ainda não decidi." Confessei, mordendo o lábio. "No começo estive pensando em me tornar uma Curandeira ou trabalhar na criação de feitiços, mas acho que o Ministério vai precisar de todos os aurores que puder formar, então estou muito tentada em seguir carreira nessa área. Posso fingir impassibilidade perto dos Sonserinos, mas tenho medo. Não por mim, mas pela minha família. Sei quão deturpados podem ser os objetivos dos Comensais da Morte. Quero ser capaz de proteger aqueles que amo. E você?"
"Auror. Como poderia ser diferente?" James apertou o cenho, aparentando certo cansaço. "Recebi uma proposta do Chudley Cannons, apesar disso. Eles gostariam que eu fizesse um teste após a formatura. Só que, considerando a tensão no mundo mágico, não vejo como poderia trabalhar em algo tão pouco importante ao invés de participar ativamente da guerra."
"Não é pouco importante." Contestei, brincando com a grama. "Não importa quão terrível esteja a situação, a diversão deve continuar a existir. Sem nenhuma válvula de escape ficaríamos loucos. Além disso, acho que você joga muito bem. Poderia ser muito bem sucedido como jogador profissional. Não é errado colocar seus desejos acima dos demais. Ainda mais quando se trata de escolher sua profissão. Fazer algo que de não gostamos durante toda a vida... Nossa, deve ser muito estafante."
Ele ficou em silêncio por um instante e deu um sorriso torto.
"Você é tão sábia." Disse. "Deveria ser proibido que garotas lindas fossem sábias. O que resta para as demais?"
Eu ri, sacudindo a cabeça.
"E você é bobo." Ergui uma sobrancelha. "Não acredito que já fui tão elogiada alguma vez na vida. Você vai ficar muito decepcionado quando começar a descobrir meus defeitos."
"Você nunca poderia me decepcionar." Ele rebateu, a voz rouca e intensa, os olhos cheios de calor fixos nos meus.
Dei um sorriso suave, preferindo não contestar, muito embora soubesse que suas palavras não eram completamente verdadeiras (infelizmente, sempre era possível decepcionar alguém), e estiquei a mão para empurrar com o dedo indicador seus óculos, que deslizavam pela ponte do seu nariz.
"Você sempre sabe a coisa certa a dizer." Murmurei. "Acho que é parte do seu charme."
"Sim, porque eu sou muito charmoso." Ele confirmou, rindo.
Ficamos cerca de meia hora embaixo do sol, conversando sobre o futuro, a guerra, a vida de modo geral. Permanecemos ali durante tempo o suficiente para nos secarmos antes que Crunk aparatasse ao nosso lado, trazendo o almoço.
Comemos entre risadas, mas tivemos que dividir a sobremesa com Hector, que parecia muito interessado nos alcaçuzes.
Lambia os dedos para livrá-los do açúcar quando James esticou levemente o tronco para frente e tocou no meu ombro.
"Devemos sair do sol. Você está começando a ficar vermelha." Apontou, uma ruga surgindo entre suas sobrancelhas.
"Oh, tudo bem. Acontece sempre." Disse, pouco preocupada. Levantando-me da toalha que havia sido estendida sobre a grama, segui até a pedra onde havia deixado o vestido, colocando-o. Minhas roupas íntimas já estavam secas e tinha certeza de que meu cabelo estava um desastre. "Esse foi um primeiro encontro muito incomum, você não acha?" Mordi o lábio enquanto fechava os botões.
Ele inclinou o corpo para o lado, rindo baixo, porque Hector estava empurrando-o com o focinho, querendo alguma diversão, e sorriu, focando a atenção em mim outra vez.
"Na realidade, penso que foi o melhor de todos." Confessou com sinceridade, sem se mover, deslizando a mão sobre o focinho de Hector. "Você quer voltar para a propriedade?"
"Não." Falei, olhando ao redor, e coloquei as mãos na cintura, soltando um suspiro. "Só me arrependo de não ter trazido um livro. Parece um lugar maravilhoso para ler." Tentei em vão controlar um bocejo. O fato de ter dormido pouco e de ter me exercitado na água fazia com que meu corpo estivesse mole e pesado.
"Para tirar um cochilo também." Garantiu James, levantando-se, e juntou a toalha, estendendo-a debaixo da sombra de uma frondosa árvore à beira do lago. "Você parece cansada. Por que não se deita por um minuto? A tarde está recém começando."
Por um momento pensei em negar, mas concluí que não tinha nenhum motivo para fazê-lo, então me juntei a ele com prazer.
Estendi-me sobre o tecido macio, espreguiçando-me como um gato, e me encolhi, virada de lado na sua direção, pousando as mãos debaixo do rosto.
Dormi pelo que pareceu ser uma eternidade, mas a verdade é que foi apenas durante um par de horas. Quando acordei, James estava jogado ao meu lado, já vestido então, um dos braços debaixo da cabeça, uma expressão relaxada, fitando as nuvens no céu.
Ainda um pouco sonolenta, apoiei o peso do corpo sobre os cotovelos, arqueando o corpo, e olhei ao redor. Hector estava pastando a poucos metros dali e uma brisa agradável movia a superfície da água, formando suaves ondas.
"Que horas são?" Indaguei, curiosa, esfregando os olhos.
James soltou um riso baixo e eu ouvi um farfalhar que denunciava sua movimentação. No instante seguinte, ele tinha segurado meus pulsos, impedindo-me de continuar a roçar as mãos sobre as pálpebras, e pousou um beijo estalado em meus lábios.
"Quase três." Informou, a boca perigosamente perto da minha. "Você faz uma expressão de bebê quando acorda."
Fiz uma careta. Por mais que adorasse bebês, não os via como a personificação da sensualidade, por exemplo.
"Obrigada?" Fiquei em dúvida.
Voltei a me deitar sobre a grama, preguiçosa, quando ele me soltou. James rolou para o meu lado, aproximando-se o suficiente para fazer com que nossos narizes se roçassem. Eu dei um meio sorriso de incentivo, incapaz de descobrir o que passava por seus pensamentos, e retribuí ao sentir seu beijo outra vez. Era fácil me acostumar àquele tipo de recepção.
A língua dele tocou meu lábio inferior numa carícia suave, procurando aceitação, e eu não demorei a lhe ceder passagem. Ergui os braços para que pudesse passá-los por seu pescoço, acariciando sua nuca com a ponta dos dedos. Em resposta, ele me atraiu para si com mais força, prendendo-me sob seu corpo, e por um instante minha respiração ficou suspensa, até que eu me acostumasse àquele peso sobressalente.
Em curtos instantes, estávamos tão envolvidos um com o outro que nem mesmo um terremoto poderia ter desviado nossa atenção.
Como sempre acontecia, um calor perigosamente doloroso começou a se espalhar por meu corpo, surgindo da ponta dos pés e subindo até a boca do meu estômago, fazendo-o borbulhar. Eu me contorci sob seu toque, sentindo as mãos ásperas percorrerem meus braços e depois descerem pela cintura coberta pelo vestido, ansiando por mais.
Embrenhando-me por debaixo do tecido da sua camisa, deslizei as palmas pelos ombros rijos e suavemente desci para suas costas, o máximo que a passagem da gola permitia, e ouvi seu grunhido de aprovação.
As coisas começaram a sair do controle quando uma das mãos de James pousou sobre meu joelho, subindo pela extensão da coxa, dedilhando toda a pele disponível. Poderia tê-lo parado então, mas não me sentia em condições de fazê-lo. Seu toque e seu beijo eram deliciosos demais e nublavam meus pensamentos mais responsáveis.
A boca masculina deslizou até meu pescoço, a língua úmida molhando minha pele, fazendo-me gemer.
"James..." Eu murmurei por entre um suspiro, arqueando o tronco para facilitar sua exploração, e não soube dizer se era uma súplica, um pedido, um cântico ou o quê.
Ele estava sobre mim, entre minhas pernas, as palmas experientes percorrendo minha pele nua, chegando até as laterais da calcinha, fazendo-me sentir como se estivesse na boca de um vulcão prestes a entrar em erupção.
Dobrei um dos joelhos para facilitar sua proximidade, sentindo os beijos dele deslizarem pelo meu colo, alcançando o vão dos seios, exposto pelo decote do vestido. Naquele momento, eu não me importava com nada além da perspectiva iminente de me livrar das roupas e do sutiã que repentinamente machucava meus mamilos sensíveis e não objetaria a ficar nua no meio da propriedade dos Potter, por mais inadequado e vulgar que fosse isso.
James, porém, não parecia ter o mesmo pensamento, porque de repente se interrompeu, rolando para o lado com um gemido, ofegante, caindo de costas sobre a toalha, o rosto virado para o céu.
Arqueei o tronco, apoiando o peso do corpo sobre os cotovelos, e o fitei, confusa e ligeiramente decepcionada, a boca e o rosto vermelhos, ansiosa por mais.
"Qual o problema?" Indaguei, olhando ao redor, desorientada.
"O problema? O problema?" James riu de modo um pouco asmático, passando a mão pelo cabelo, sem disfarçar o nervosismo. Não olhou para mim nenhuma vez. "Lily, amor, eu não trouxe você aqui pra isso. Eu... Eu não quero que você fique com essa imagem de mim. Não sou mais esse tipo de cara."
Uma brisa forte nos atingiu de repente, levando meus cabelos úmidos para trás, aliviando um pouco do calor e do suor que começava a brotar sobre minha pele quente. Aquela interferência externa me ajudou a processar a ordem dos acontecimentos. E o que eles significavam.
Mastiguei o lábio inferior, deixando-me cair outra vez sobre o chão, e rolei para o lado para que pudesse fitar James. Por um momento, não soube o que falar.
"Obrigada." Disse, por fim, sorrindo, o que atraiu sua atenção. Havia certo incômodo em seus olhos castanhos e sua expressão estava nebulosa, quase temerosa. "Por parar antes que fosse tarde demais. Eu... Você sempre me surpreende, James. De um jeito bom."
Pude ver a tensão se esvair do seu corpo conforme ele soltava uma longa respiração.
"Eu só..." JP levou a mão aos cabelos outra vez, segurando-os por um momento, e logo sacudiu a cabeça, arrumando os óculos sobre a ponte do nariz. "É muito difícil manter o controle perto de você. Todas as garotas com quem estive antes, elas não... Elas não me afetavam nem a metade do que você me afeta. Você é a personificação dos meus sonhos, Lily. Ter você entregue para mim é... Torna a tarefa de resistir muito difícil." Completou, em tom de confidência.
Sentei-me, começando a rir. Era impossível controlar. Sentia-me como uma princesa em um conto de fadas. Com o melhor príncipe de todos.
Se alguém algum dia me falasse que James podia ser aquele tipo de cara, eu apenas teria piscado, incrédula, e logo teria ficado ofendida por causa daquela blasfêmia. O rapaz que eu conhecia e fora obrigada a conviver durante todos aqueles anos nem mesmo chegava à sombra daquele que tinha agora à minha frente. E isso era estranho e bom, ao mesmo tempo.
"Você é tão bom com palavras quanto é com as mãos." Elogiei, aproximando-me para sapecar um curto beijo úmido sobre seus lábios, e sorri. "Agora nós devemos voltar. Devo estar em casa antes do escurecer ou vou me meter em problemas. Se minha mãe souber que estive sozinha com você, ou pior, que você me perverteu para ir a um show em Londres sem sua permissão, seus dias de genro querido estão acabados para sempre, Potter."
Ele riu, erguendo o braço para levar uma mecha do meu cabelo para trás da orelha.
"Eu já sou o genro querido?" Perguntou, divertido, como se até então não tivesse considerado a ideia. O que, convenhamos, era certamente irônico, porque mamãe não havia sido muito discreta com sua preferência. Não que ela houvesse tido uma longa conversa com JP, mas era de se imaginar que, se ela o odiasse pelo fato de que eu supostamente o odiava, não teria sido tão simpática quando o conheceu. "Uau, eu certamente não estava esperando que fosse tão fácil."
"O problema de estar no topo da pirâmide é que você não pode subir mais no conceito de alguém, só cair. É mais difícil manter a boa fama do que criar a boa fama. Fica esperto." Pisquei, sentando-me e me espreguiçando. Minha pele estava grudenta do suor e cheia de grama seca e areia e eu não podia imaginar nada que fosse mais gostoso que um banho e minha cama.
James se colocou de pé num pulo ágil, estendendo a mão para me ajudar a levantar.
"Não se preocupe. Sua mãe sabe que não sou nenhum santinho." Apontou, arqueando uma sobrancelha, divertido, fazendo referência à enorme quantidade de fofoca que eu havia feito a seu respeito ao longo daqueles anos.
Eu ri, porque aquilo nada mais era do que pura verdade, e deixei que ele me puxasse para cima, enrolando os braços ao meu redor tão logo estávamos frente a frente.
"É completamente diferente." Disse, num murmúrio suave, usando o indicador para empurrar seus óculos para cima, uma vez que, como sempre, os mesmos deslizavam pela ponte do nariz. "Uma coisa é você ser o garoto bonitinho e safado com quem sua filha tem uma relação não resolvida de amor e ódio. Outra coisa é você saber que o garoto bonitinho e safado a levou para passar uma tarde no bosque sem a vigilância de um adulto."
"Bonitinho e safado. Essa é a descrição que ela me dá?" Ele fez uma expressão pensativa, acariciando minhas costas, e o jeito como pronunciou as palavras me fez rir. Fazia parecer que ele considerava aquela uma ótima combinação de elogios. "Acho que estava esperando algo mais como acromântula diabólica ou algo assim. Afinal, não dizem que filho de peixe, peixinho é?"
"Vacile comigo e você vai ver se sua vida continua tão fácil." Zombei, afastando-me. "Hora de voltar pra vida real, campeão."
Nós deixamos a residência dos Potter após o jantar. A Sra. Potter se negou a nos deixar ir antes que tivéssemos uma verdadeira reunião de família. A expressão me perturbou, porque não gostava da maneira como ela se referia a mim e James, como se fôssemos algo inevitável de acontecer, mas, em respeito aos seus sentimentos, não demonstrei meu desconforto.
Era estranho pensar que, em certo nível, apesar de eu e JP não estarmos oficialmente envolvidos, eu tinha ou viria a ter ligação com uma família de bruxos. Toda sua cultura era diferente, desde a preferência por vinho durante as refeições à maneira como levavam sua rotina. Não que eu não gostasse de estar naquele mundo, afinal, era o meu mundo, porém era estranho pensar que não voltaria a ter a opção de recorrer à televisão ou ao rádio em momentos de descontração.
Durante o período de aulas, eu costumava ficar tão atribulada com as funções da monitoria, deveres de casa e aulas extras que não tinha muito tempo para me preocupar com coisas como lazer. Nas férias, entretanto, o processo era o completo oposto. O dia parecia ter o dobro de horas que tinha normalmente. Gostava disso. Gostava de me reunir com os amigos para fazer seções de cinema numa tarde chuvosa, gostava de sentar na beira da piscina para curtir o novo LP do Elvis, do Queen ou do Rolling Stones, gostava das particularidades da vida trouxa.
Seria difícil me adequar 100% a apenas um mundo durante todo o tempo.
Leda arrumou minha mochila antes que eu tivesse tempo para pensar nisso. Quando saí do banheiro no fim do dia, com o cabelo úmido e o corpo perfumado, meus pertences haviam sido perfeitamente guardados em seu local de origem.
Quando me aproximei da cama, sorrindo e sacudindo a cabeça, Leda, que estava distraída num processo frenético de corte e costura sentada sobre o tapete em frente à lareira, ergueu a cabeça, os olhos brilhantes, e sorriu.
"Senhorita Lily." Disse, eufórica, apesar de eu ter lhe pedido uma e outra vez para que não se ativesse àquelas formalidades. "Leda estava fazendo os últimos ajustes no vestido para o jantar."
Suspirei, ainda enrolada na toalha, e me sentei em frente ao banco da penteadeira para vê-la trabalhar. Pelo que podia perceber, ela tinha em mãos uma peça de algodão na cor verde musgo, um tom bastante agradável de se olhar. Nada que parecesse tão requintado quanto o vestido do dia anterior. Agradeci por isso. Ser mimada como uma princesa era algo gostoso, é verdade, mas fazia com que, de certo modo, eu me sentisse como uma farsa.
Era doce que a Sra. Potter estivesse tentando com tanto afinco me agradar, embora também um pouco intimidante da sua parte. Como havia dito de modo claro na noite anterior, porém, eu não era uma bruxa de família nobre. Nunca seria. E, ao contrário do que os Sonserinos costumavam pensar, estava bem com as coisas como elas eram.
"Você não deveria ter se dado ao trabalho." Sacudi a cabeça, mas não continuei a reclamar. Não queria ferir seus sentimentos. Pelo que havia percebido, Leda era muito sensível. "Estou indo embora amanhã. O que é suposto que deveria fazer com eles? Não posso levá-los para casa. Minha mãe faria perguntas que não sou capaz de responder."
Leda se levantou, desajeitada, as pontas dos dedos cheias de curativos, provavelmente em função do trabalho de costura, e se aproximou, estendendo o vestido para mim.
Estendi os braços para pegá-lo, surpresa ao perceber como ele era macio. Possuía meias mangas e um decote canoa que ficaria muito bem com um colar. Devia chegar até um pouco acima dos meus joelhos, o que me fez pensar que precisaria calçar alguns sapatos daquela vez.
"A senhorita poderia deixá-los aqui." Ela sugeriu, tímida. Arrastou um pé no chão. "Eu sei que a senhorita não está pensando em voltar. Mas... Bem, Leda pode enviá-los via coruja para a senhorita quando as aulas começarem."
Pesei suas palavras. Quando coloquei os pés naquela casa, não tinha nenhuma intenção de um dia retornar. Não por nenhum tipo de velho rancor ou algo do tipo. Gostava de JP então, só não achava que as coisas chegariam num nível em que alguém exigiria de mim uma visita. Mas, depois daquela tarde, retornar seria inevitável. A menos que tudo desse muito errado, estávamos entrando na vida do outro de um jeito que não admitia meias verdades.
Se algum dia oficializássemos aquele pseudorrelacionamento louco e muito confuso, a Sra. Potter seria a primeira a me pedir para que voltasse. E seria injusto dizer que não.
Suspirei outra vez, pensando em como as coisas podiam mudar sem que nos déssemos conta.
"Não há necessidade. Vamos mantê-los aqui para a próxima vez que eu vier." Disse por fim, sabendo que possivelmente estava gerando falsas expectativas, mas que seria inútil remar contra a maré. O que tivesse que ser, ia ser. Ao menos não iria decepcionar ninguém por falta de tentativas.
Leda soltou um gritinho extasiado, sorrindo e batendo palmas.
"Isso significa que Leda pode buscar a presilha de cabelo?" Ela indagou, excitada, dando um pulinho no lugar, referindo-se à joia da família, presente da própria Sra. Potter, catalisador de toda a crise do dia anterior.
Levante-me para que pudesse colocar o vestido. Segui para a cama, pegando o conjunto de lingerie que usaria naquela noite.
"Busque a presilha." Falei, derrotada, gesticulando com certa indiferença, tirando a toalha a fim de começar a me vestir.
Sabia que usar a presilha significaria algum tipo de rendição silenciosa. Depois de toda a tensão pela qual havíamos passado, estava disposta a lhes conceder aquela pequena vitória. Aquela família parecia estar esperando por mim quase como se estivesse esperando pela chegada da primavera.
Era excitante e aterrador saber que gerava tantas expectativas. Colocava um peso imenso sobre minhas costas. James parecia incapaz de enxergar meus defeitos. Seus elogios eram incríveis, é verdade, e faziam com que meus joelhos virassem gelatina, mas também faziam com que alimentasse certo medo de decepcioná-lo. Decepcioná-los, para falar a verdade. Até mesmo Sirius confabulava para concretizar o objetivo secreto daquela máfia.
Leda voltou antes que eu terminasse de passar o vestido pela cabeça e me ajudou a secar e pentear meus cabelos, prendendo-os num coque frouxo, usando a presilha para mantê-lo no lugar. O penteado acentuou os traços suaves do meu rosto, dando-me uma expressão mais altiva. Gostei do resultado.
Quando desci as escadas para o jantar, todos já estavam reunidos na sala de estar, incluindo o Sr. Potter.
"Lily, querida!" A Sra. Potter se levantou, elétrica e animada como sempre, sorrindo largamente na minha direção. "Você é o modelo ideal de qualquer estilista. Existe algo que não fique magistralmente perfeito em você? Venha aqui, deixe-me ver esse rostinho lindo. Em pensar que um dia já tive este corpinho."
Eu ri, porque ela parecia muito bem, apesar da idade avançada.
"Não seja modesta, meu bem. Você continua sendo a mulher mais linda em quem já pus os olhos." Disse o Sr. Potter, galanteador, piscando para a esposa. Ele estava sentado na poltrona ao lado dela, de frente para o sofá onde Sirius e James estavam acomodados, e vestia calças pretas e uma camisa branca que faziam com que parecesse muito distinto. O tipo de homem por quem toda garota se apaixonaria, mesmo que fosse bem mais velho que ela.
"Oh, Charlus." A Sra. Potter sacudiu a mão, divertida. Depois se virou para mim outra vez. "Esse homem é um bajulador." Confessou, em tom de confidência, passando o braço pelo meu. Seus olhos se fixaram na presilha por um momento e sua expressão se aliviou. "Vamos jantar."
E nós jantamos.
* Baseado no "The Bro Code" de How I Met Your Mother, série americana, criado por Barney Stinson. O livro foi lançado no Brasil e é demais, aliás.
* Quase todas as jogadoras apresentadas de Holyhead Harpies têm nomes ou sobrenomes que começam com a letra G.
N/A: MELHOR CAPÍTULO DE TODOS! É claro que teremos mais de Lily e James adiante, mas não consigo deixar de pensar que, caramba, este capítulozinho aqui atingiu TODAS as minhas expectativas. Consegui mostrar perfeitamente as diversas facetas de JP e provar pra Lily que as coisas realmente podem dar certo. QUEM PRECISA DE SIRIUS BLACK QUANDO TEM JAMES POTTER, GENTE?
Sobre a ideia da Serena Beckendorf, ela não vai aparecer na história, não. Só achei legal acrescentar à trama uma fraqueza do Sirius. Eu acho que ele é o tipo de cara que, quando realmente se apaixonasse por uma garota, talvez ficasse com o pé atrás, com medo de não ser bom o suficiente. Não legal ou bonito o suficiente, só não adequado. Eu sei que ele tem autoestima pra dar e vender, mas é diferente tu saber que é lindo e gostoso e tu saber que tu é perfeito pra uma pessoa. A gente sabe que o passado dele realmente o condena, com todas as garotas, o passado dramático com a família e as peças e considerei como isso podia afetar a relação dele com uma garota que estivesse completamente alheia à toda aquela rotina. Principalmente se ela fosse mais nova e inexperiente.
De qualquer modo, não sei se vai dar, já que a história é toda do ponto de vista da Lily, mas gostaria de tentar trabalhar um pouquinho disso.
Também sei que já falei horrores sobre a Cassie. Ela vai aparecer no capítulo doze. Como estou planejando 14 capítulos, vamos ver pouco dela, considerando como nos aprofundamos com Alex e Olívia, mas, ao longo da história, acho que já vimos o suficiente pra conhecê-la, mesmo que um pouquinho.
Nos vemos no próximo capítulo! Deixem seus comentários! Abração.
