CAPÍTULO ONZE: A NOIVA MONSTRO EM FÚRIA

Quando voltei para casa, perto das 22h, a notícia quente era que Petúnia havia sido pedida em casamento.

Antes de chegar, estava preocupada por voltar tão tarde e me preparava para receber o velho sermão sobre responsabilidade e consideração, mas a bem verdade é que mamãe sequer prestou atenção na hora em que pus os pés na sala de estar, porque estava chocada demais com a pedra gigante e reluzente que o dedo de Petúnia mal podia carregar.

Como não podia deixar de ser, a caveira amaldiçoada exibia a mão para análise, o queixo empinado, demonstrando toda a glória da sua silhueta magra e perfeitamente decorada com um caro vestido da moda, provavelmente presente do seu elefante escravo, que é como Olívia costumava se referir a Valter. A constante necessidade que Vernon Baleia sentia de mimar Petúnia era incrível. Era como se seus impulsos fossem feitos para isso.

"Você viu isso, Lily?" Mamãe se virou para mim, a boca frouxa, os olhos arregalados. Agarrou os dedos de Petty Monstro, estendendo-os na minha direção, como se eu fosse incapaz de enxergar o brilho daquele diamante reluzente dali. Diabos, talvez fosse possível vê-lo da esquina. "Petúnia está noiva!"

"Uau." Larguei a mochila no chão, já vestindo minhas roupas normais, e me aproximei, mais por educação que por interesse. Não é como se todos nós não imaginássemos que isso eventualmente iria acontecer. "Parabéns, caveira amaldiçoada. É um anel lindo."

"Não é?" Petúnia concordou com um sorriso orgulhoso, anuindo. "O corte da pedra não é exatamente o que eu teria escolhido, mas o tamanho está adequado. Paige, Bettie e Lucy vão ficar loucas."

Adequado, pensei, encarando-a, um pouco surpresa. Ela tinha uma pedra quase do tamanho de um olho e considerava a aliança apenas adequada. O que aquela mulher estava esperando, por Merlin? Se aquele anel fosse um pouco maior, poderíamos jogar tênis com ele.

"Ou cegas." Completou mamãe, soltando sua mão da dela, por que de repente um farol brilhou lá fora, nos avisando da chegada de papai, e refletiu no diamante, fazendo-o reluzir como luzes natalinas. "Você não devia se preocupar tanto com o que suas amigas vão pensar sobre isso e sim com seu pai, porque é seu pai quem vai ficar louco quando descobrir. Você não acha que é um pouco nova demais para casar, querida? Não estávamos esperando por um pedido senão dentro de dois ou três anos."

"O tempo urge, mamãe." Petúnia jogou o cabelo loiro sobre o ombro. "É triste admitir, mas sei que não vou manter meu lindo corpinho para sempre. É melhor agarrar o touro pelo chifre enquanto posso. Além do mais, casar hoje ou daqui a três anos não faz nenhuma diferença se pretendo estar com o mesmo homem até então."

Pisquei, incrédula.

"Você não acha que está um pouco nova demais para se preocupar com velhice?" Zombei, suspirando e seguindo para minha mochila outra vez. Apesar do cochilo da tarde, ainda estava cansada. Uma boa noite de sono estava no topo da minha lista de prioridades no momento. Que Petúnia lidasse sozinha com o mau humor de papai.

"Bem, você sabe como é a genética, macaco degenerado. Se com essa idade você já tem todos esses pés de galinha, acredito que devo me preparar para começar a tê-los logo." Ela respondeu, diversão brilhando em seus olhos, sem esconder o veneno proposital.

Lancei um olhar beligerante, de quem não se permitiu afetar pela crítica (após todos esses anos, a ofensa devia ser muito baixa para ser capaz de me perturbar), por cima do ombro enquanto começava a subir as escadas que levavam para o segundo andar.

Podia ouvir papai assoviando enquanto colocava a chave na fechadura. Pobre homem. Mal sabia o que o esperava.

"Eu vou para a cama. Boa noite." Disse, sacudindo a mão, em tom de despedida, secretamente feliz porque a surpreendente notícia do noivado de Petúnia havia eclipsado qualquer sermão que eu pudesse vir a receber por ter chegado depois do horário de recolher.

"Nós iremos ter uma conversinha sobre pontualidade, Lily." Mamãe falou, sem se virar, como se lendo meus pensamentos.

Suspirei, os ombros caídos. Nem tudo podia ser perfeito.

Troquei de roupa, vestindo o pijama, e ri quando papai deu um grito no andar de baixo, cerca de dois ou três minutos depois, após ter tido tempo o suficiente para ser inteirado das excitantes novidades. Dali, pude ouvi-lo defender sua tese e, pelo seu tom mal-humorado, o discurso não seguia na linha de um "Parabéns, filhinha".

Para minha sorte, o som chegava abafado até meu quarto, cuja porta estava fechada, então não tive dificuldades para rastejar até a cama e pregar os olhos. Dormi em instantes.

Acordei no outro dia perto das 10h em meio a um silêncio sorumbático. Pisquei, momentaneamente desorientada, arqueando o corpo sobre o peso dos cotovelos e olhando ao redor. Tudo o que podia ouvir era o barulho dos pássaros cantando na árvore em frente à minha janela fechada.

Bocejando, levantei e desci as escadas, seguindo para a cozinha, surpresa pelo fato de que, contrariando toda a rotina, Olívia e Alex ainda não houvessem tocado a campainha.

Como de praxe, mamãe havia deixado café passado, de modo que fui com avidez por uma xícara. Estava morno, quase frio, mas decidi não esquentar. Estava com preguiça demais para isso. Enquanto seguia para a mesa, a fim de devorar alguns bolinhos, percebi uma nota colada contra o pote de geleia.

"Jantar com os Dursley hoje à noite. Comemoração do noivado de Petúnia." Dizia o aviso, escrito na rebuscada letra de mamãe.

Bufei, com a boca cheia, porque a última coisa que tinha vontade de fazer era ir a um jantar com os Dursley. Sabia, contudo, que aquela seria uma batalha perdida. Nunca me deixariam perder um evento daquela magnitude, não depois de todo o papo sobre família e união que rolara debaixo daquele teto.

Além disso, eu sempre subestimava a inteligência de mamãe, o que era algo muito, muito estúpido de se fazer. Ela poderia ter deixado o aviso em vários lugares diferentes, que talvez me dessem uma errônea chance de afirmar não tê-lo visto, mas o pote de geleia era sacanagem. Eu nunca tomava um desjejum sem geleia. E ela sabia disso.

Ainda estava mastigando meu café da manhã quando a campainha tocou.

Rolei os olhos enquanto seguia para a porta.

"Vocês estão atrasados." Avisei, a voz arrastada, ainda segurando uma xícara. Eu levava o cabelo preso num coque frouxo e estava descalça, vestindo apenas um short e uma camiseta de alças preta e desgastada do Ramones. Esperava que, como todos os dias, os recém-chegados fossem apenas meus dois fiéis escudeiros, mas havia uma verdadeira comitiva logo à frente. "Porra, alguém invocou o Concílio de Trento?"

James sorriu, em tom de quem pede desculpas, e encolheu os ombros. Ele estava ladeado por Alex e Olívia, além de Sirius, que, a despeito de todo passado negro que alimentávamos até aquele verão, já parecia muito à vontade com a ideia de passar a manhã na casa de Lily Evans, a monitora mais terrível que Hogwarts já viu (autointitulada, obrigada).

"Bom dia." Disse JP, coçando a nuca, como se reconhecendo que, sim, uma visita àquela hora da manhã soava um pouco como perseguição. Mesmo se o casal em questão fosse vizinho um do outro. "Antes que você possa me culpar por qualquer coisa, só quero deixar claro que fui convocado. A verdadeira responsável pela invasão foi Olívia."

Olívia passou por mim, sentindo-se em casa, como sempre. Usava um vestido de verão rosa-choque por cima do biquíni e trazia os óculos de sol postos.

"Eu trouxe os caras porque precisamos começar a pensar na sua festa de aniversário, Lils." Explicou, por cima do ombro, enquanto seguia até a cozinha, onde abriu a porta de vidro que dava para a área da piscina. "E, se a fama de Sirius e Jamie for verdade, eles realmente sabem como dar uma festa. É bom ter consultoria especializada."

"Vê, Lilykins? Ollie reconhece o valor de um homem como eu." Sirius piscou, passando a mão pelo cabelo, algo que, eu havia começado a perceber, ele tinha por hábito fazer sempre que decidia gastar um tempo elogiando suas próprias habilidades.

Ergui as sobrancelhas, cética, dando passagem para todo mundo.

"Belle e Leonard vão aparecer mais tarde." Avisou Alex, roubando a metade que ainda restava do meu bolo inglês, cuja devorou numa mordida, sem sequer me dar uma chance de oferecer resistência. "A empregada tirou o dia de folga. Você está pensando em fazer o que para o almoço?"

"Eu vou te dizer o que eu não estou pensando em fazer para o almoço." Falei, fechando a porta e caminhando do hall para a sala, vendo os rapazes se jogarem no sofá. "Eu não estou pensando em cozinhar para todos vocês."

Alex pareceu desanimado por um instante enquanto revirava as almofadas do sofá atrás do controle da televisão. Estava passando Breakfeast at Tiffany's, o que chamou minha atenção por um instante. Na tela, desenrolava-se a cena em que Holly confessava a Paul que estava de mudança para o Brasil.

"Mas você tem café?" Ele perguntou, levantando num pulo e tomando o rumo da cozinha.

"Quando não tem café?" Rebati, seguindo-o, disposta a salvar mais uma xícara de café antes que toda a comida da cozinha fosse devorada. Olívia, do lado de fora, já estava abrindo a espreguiçadeira, pronta para mais um dia de bronzeado, uma expressão concentrada. "Você não tem comida na própria casa, viking?" Voltei a atenção para Alex, vendo-o abrir a geladeira para encher um copo de leite.

"Tenho, mas é muito mais divertido comer com você." Ele confessou, agarrando outro bolinho em cima da mesa, e esbarrou a mão no recado deixado por mamãe. Levou-o à altura dos olhos no mesmo instante, curioso. "O que é isso? Petty Monstro vai casar?" Perguntou, ao que eu concordei com um suspiro. "Ei, Olívia, saca essa: a criatura do demônio vai juntar os trapinhos com o Vernon Baleia!"

Olívia arqueou as sobrancelhas por detrás dos óculos de sol, voltando para a cozinha com passos rápidos.

"O quê?" Gritou, surpresa. Não podia culpá-la. Nós meio que esperávamos que um dia Petúnia acordasse e chegasse por si só à conclusão de que Vernon Dursley era o tipo de homem com quem transar estava fora de questão. Ela voou na direção de Alex, arrancando a nota da sua mão para que pudesse lê-la com os próprios olhos. "Deixa eu ver isso. Não pode ser verdade."

"Mas é. Vai ter um jantar de confraternização entre as famílias hoje à noite." Disse, bebericando um gole do meu café, escorando o quadril contra o balcão americano de granito, desanimada. "Eu não sabia que, além de aturar Vernon Baleia, também seria obrigada a conviver com a família de Vernon Baleia. Isso não estava no meu contrato de irmã. Alguém pode ler as letras miúdas para mim?"

"Você está tão ferrada." Disse Alex, a boca cheia, voltando para a sala. "Petúnia vai ser a noiva monstro em fúria." Usou um tom mais alto para que pudesse ouvi-lo.

Olívia me deu um curto abraço lateral de condolências.

"Vai ser péssimo, Lils." Concordou, curvando o corpo para deixar a nota sobre a mesa outra vez, aproveitando para pegar um biscoito amanteigado. "Você não vai ser a madrinha ou algo assim, presumo."

"Obviamente que não." Respondi, encolhendo os ombros. Petúnia não me escolheria para ser sua madrinha nem em um milhão de anos. Não apenas porque eu era uma bruxa, algo que ela desprezava, mas porque nossa natural animosidade entre irmãs tornaria impossível a convivência que os preparativos de um casamento exigiam. "Com sorte estarei em período de aulas na data do casamento." Na realidade, torcia para que estivesse. Seria a desculpa perfeita.

Voltei para a sala, atirando-me numa das poltronas com um grande suspiro, a xícara de café ainda na mão. Olívia me seguiu, parando no umbral do marco que dividia ambos os cômodos, onde se escorou, cruzando os braços.

"Qual é o grande problema?" Indagou Sirius, curioso. Ele havia se esparramado no sofá em frente à televisão, os pés sobre a mesa de centro, uma postura relaxada. "Sua irmã vai se casar. E daí?"

"Você não conhece o monstro do pântano." Alex sacudiu a cabeça, inclinando o corpo para pegar o copo de leite gelado que havia abandonado sobre a mesa de centro, tomando um largo gole. "A garota é neurótica por perfeição. Petúnia é do tipo que não admite nada menos que o melhor. É por isso que ela deixou Eric, afinal. Porque ele não "atingia os padrões"." Ele simulou aspas, revirando os olhos, antes de voltar a se jogar contra o encosto da poltrona.

Engoli outro suspiro ao me lembrar de Eric. Eric Gostoso era tão lindo que nublava meus pensamentos mais coerentes. Eu agia como uma neandertal ao seu lado, quase incapaz de pronunciar uma sentença que fizesse sentido. Petúnia, por outro lado, parecia achá-lo apenas um cara comunzinho.

"Bem," James voltou a atenção para mim, uma expressão suave. "eu posso imaginar uma ou duas coisas que você e sua irmã tenham em comum, Lily."

"Isso tão não foi um elogio, Jamie." Disse Olívia, dando uma larga gargalhada.

Controlei uma careta, porque aquela nada mais era que a verdade. Petúnia poderia ter seus padrões e objetivos ligeiramente deturpados por seus próprios desejos, mas era tão crítica quanto eu, que acreditava sempre optar pelo bem geral. Era um dos defeitos que tínhamos em comum. Mamãe costumava dizer que éramos muito críticas e exigentes com as pessoas ao nosso redor.

"De qualquer jeito," falei, optando por ignorar o comentário. "acho que essa vai ser apenas a primeira de muitas refeições que vou ser obrigada a compartilhar com os Dursley até que o casamento realmente aconteça. Ei, onde estão as duas outras extensões do seu corpo?" Indaguei, ligeiramente curiosa, para James. "Não que eu particularmente adore a companhia de Peter, mas eu meio que estou acostumada a vê-lo orbitando ao seu redor."

"Remus foi passar alguns dias em casa." Sirius tomou a palavra, lembrando-me que a lua cheia estava próxima, e cruzou os braços atrás da cabeça. "E Peter está responsável pela limpeza da cozinha nesta manhã. Ele vai aparecer logo que terminar. Qual o seu problema com Peter, aliás? Ele pode ser um pouco tedioso, mas é bastante engraçado se você lhe der a oportunidade."

Dei de ombros, tomando o resto do meu café.

"Ele nunca foi muito falante ao meu lado."

"Ele tem medo de garotas." Explicou Alex, franco, em tom de quem sabe tudo. "Como alguém poderia culpá-lo? Se eu tivesse sua aparência e só andasse com garotas lindas como você e Cassie, Lils, eu também teria meus próprios problemas de autoestima." Piscou na minha direção, embora não parecesse muito galanteador.

Sorri, mais por força de hábito do que por outra coisa, dobrando os joelhos e colocando os pés sobre o assento da poltrona.

"Por falar nisso, quando Cassie chega?" Indagou Olívia, curiosa, prendendo o cabelo negro num coque. "Ela normalmente já estaria aqui há essa hora."

"Na segunda." Falei, enrolando no dedo uma mecha do cabelo vermelho que despencara do meu coque. Sentia saudades de Cassandra. E apostava que Cassandra sentia muito mais saudades de Alex do que de mim, visto que eles tinham um relacionamento bumerangue desde que haviam se conhecido. "Ela ainda está na França. Disse que ia ficar para o aniversário de uma prima ou algo assim."

"A cooperação criativa da Miss Bundinha faz falta." Comentou Alex, fungando, a face em branco, embora eu imaginasse que era outra parte da Miss Bundinha que fazia falta para ele.

Sirius riu, por que, afinal, como não rir daquele título?, enquanto James o encarava com uma careta estranha. Na escola, Cassandra era uma mandona. Era linda, claro, mas não admitia receber tratamento menor do que se julgava merecedora de receber e, bem, não fazia o tipo que aceitava apelidos baseados em estereótipos físicos.

Na realidade, eu imaginava que ela sequer teria participado da competição se: a) não estivesse bêbada e b) Alex não fosse um dos juízes. Naquele ano em específico, ela recém havia descoberto sua paixão platônica pelo viking e estava querendo provar que os flertes que trocavam podiam ser mais do que isso.

O que eu posso dizer? Não havia sido muito difícil convencê-lo. Ela optara por um vestido curto e azul que combinava com seus olhos e o provocara com sorrisos insinuantes, jogadas de cabelo e toques propositais até que ele houvesse desistido de oferecer resistência. No fim da noite, Olívia precisou separá-los com água gelada, porque pareciam estar surdos para o mundo e estava na hora de que cada macaco voltasse para seu galho.

Desde então, Alex e Cassandra ficavam juntos no verão, ambos escandalosamente loiros, lindos e maravilhosos, provocando inveja no universo ao redor.

"Miss Bundinha?" Perguntou James, confuso.

"Nós fizemos um torneio no penúltimo aniversário de Lily." Explicou Alex. "Foi ideia da Lauren, na realidade. Cassie ganhou, é claro. Como não poderia? Sua bunda é quase uma das Sete Maravilhas do Mundo." Confessou, em tom ligeiramente apaixonado, o que provocou um acesso de risos em Sirius.

"Você não podia estar mais certo, cara." Ele concordou, sacudindo a cabeça. "Ela ganhou todas as votações secretas de Provável Foda Perfeita do colégio nos últimos anos. Mal posso esperar para vê-la de biquíni."

A Provável Foda Perfeita era uma lista que continha várias garotas que, por conhecimento comum, não haviam transado com nenhum cara de Hogwarts, mas que muitos estavam curiosos sobre. Embora devesse ser algo, como disse Sirius, "secreto", tornara-se de conhecimento da maioria da ala feminina quando Maureen McMillis, da Corvinal, encontrou a lista dentro do malão do seu ex-namorado, Fabian Prewett. O que explicava o título de "ex-namorado".

Fiquei possessa ao descobrir que meu nome constava no rol de alunas listadas (de acordo com Cassandra, meu nome constava na lista exatamente porque todos tinham essa imagem de que eu era uma "falsa santinha", ou seja, uma pervertida que se escondia atrás de uma imagem séria). A própria Cassandra, por outro lado, lidou estranhamente bem com a situação. Até ficou envaidecida. Ela era muito narcisista. Adorava saber que havia uma legião de homens esperando pelo desenrolar da sua vida sexual.

"Ai, homens." Revirei os olhos, impassível, deixando minha xícara de café sobre a mesa de centro e me levantando. "Eu preciso escovar os dentes, trocar de roupa e tudo isso. Vocês podem continuar declamando seu amor pelo traseiro de Cassandra sem mim."

Segui para as escadas, sacudindo a mão numa curta despedida, sendo imediatamente seguida por Olívia, que de repente parecia muito ansiosa por um tête-à-tête entre amigas.

"Eu vou com você." Avisou, mordiscando o lábio enquanto começávamos a subir as escadas. "Preciso te contar os detalhes sobre o encontro com Sebastian." Explicou, a voz baixa, perto do meu ouvido, sem conter a excitação.

Revirei os olhos outra vez. Não estava nada ansiosa para saber sobre o encontro de Olívia com Sebastian. Podia meio que imaginar o andar da carruagem: tudo muito agradável e perfeito, até que Sebastian mostrasse suas verdadeiras intenções.

Não é que todos os rapazes do mundo fossem daquele tipo, é só que Olívia tinha a boa sina de se interessar apenas pelos cafajestes.

Se ela fosse mais como Lauren, que não se apegava a ninguém, isso não seria um problema. Mas Olívia era muito sentimental. Dois encontros eram o bastante para que começasse a pensar no casamento vindouro. É claro que, desse jeito, seus relacionamentos estavam fadados ao fracasso. Nenhum cara gostava de lidar com aquela pressão.

"Poupe-me dos detalhes açucarados." Pedi, entrando no quarto e fechando a porta atrás de nós. Segui para o armário, onde peguei um biquíni e um short jeans. "Você pretende vê-lo outra vez?"

"O que você acha? É claro que sim!" Garantiu Olívia, com um grande sorriso, sentando-se na cama desarrumada, apoiando as palmas da mão sobre o colchão e inclinando levemente o corpo para trás. "Foi incrível. Saímos para jantar e pegamos um cinema. Ele me largou na porta de casa com direito a um beijo de despedida." Suspirou, apaixonada.

Pelo reflexo do espelho, vi que ela brincava com o babado da colcha, uma expressão boba.

"Eu sei que nós havíamos combinado que eu não faria isso, mas..." Ela começou outra vez, enquanto eu trocava de roupa. Ergueu o rosto para mim, levantando os óculos escuros, posicionando-os sobre o topo da cabeça, sem esconder seu sentimento de culpa. "Eu meio que... Bem, eu o convidei para o seu aniversário."

Parei de amarrar o laço do biquíni para encará-la, irritada.

"Olívia!" Grunhi, balançando a cabeça, exasperada. "Por que você sempre faz isso? Se chegamos juntas à conclusão de que ainda era cedo para introduzir Sebastian para o pessoal, era porque tínhamos um ponto, certo? Você por acaso é incapaz de pensar racionalmente quando está com o sexo oposto?"

Olívia se encolheu como uma criança sendo pega no flagra num momento de travessura, mas não parecia muito chateada, porque provavelmente deveria estar esperando por uma reação daquele tipo. No período das férias, eu costumava ser seu guru do amor. Mal podia imaginar como ela se virava no resto do tempo.

"Eu sei, está bem?" Ela sacudiu os braços, tentando amenizar minha impaciência. "Só que, no momento, pareceu a escolha certa a se fazer. Sebastian parece ser o cara certo."

Soltei um resmungo, desistindo de resistir, e voltei à tarefa de vestir minha roupa de banho. Uma vez que o convite havia sido feito, não restava nada além de tentar lidar com as consequências. A única vantagem sobre aquela inconsequência é que eu saberia o tipo de cara que era Sebastian no momento em que pusesse os olhos sobre ele. Tinha esse tipo de faro.

Nós descemos cerca de cinco minutos depois, após eu ter lavado o rosto e feito a higiene pessoal, em meio a um silêncio emburrado.

Os rapazes pareciam estar realmente se divertindo com uma reprise de Saturday Night Live, a julgar pelo barulho ruidoso das suas gargalhadas. JP e Sirius ainda tinham esse adorável encantamento pela televisão, quase como se fosse um brinquedo novo.

Resolvendo deixar a questão sentimental de Olívia para lá, ocupei o lugar vago ao lado de James sem falar nada. Ele passou o braço ao redor dos meus ombros, puxando-me contra si, os olhos e a atenção ainda fixos no programa, e eu relaxei contra seu peito, disposta a dar algumas gargalhadas com Al Franken, o apresentador.

Após a chegada de Peter, que aconteceu perto do meio dia, nós todos saímos para almoçar. Fomos até a lanchonete mais próxima.

"O que você vai pedir, ruiva?" JP indagou ao pé do meu ouvido, o braço ainda ao redor dos meus ombros, enquanto nos espremíamos num daqueles bancos vermelhos contra a parede. Olívia estava ao meu lado, rindo da maneira como Sirius, que puxara uma cadeira para a lateral da mesa, flertava com a garçonete, e Alex e Peter estavam na nossa frente, os olhos fixos no cardápio. Escolher o prato perfeito era algo muito importante para aqueles dois.

"Hambúrguer e fritas, eu acho." Respondi, sorrindo quando ele baixou a cabeça para depositar um beijo na curva do meu pescoço, perto do laço do biquíni. Eu usava uma camiseta, mas havia preferido não tirar a roupa de banho, já que a piscina era provavelmente nosso próximo local de encontro.

"Batatas-fritas. A melhor invenção dos trouxas depois da televisão, dos carros e das Gummi Bears." Ele murmurou, divertido, a mão áspera brincando com a pele do meu ombro, espalhando arrepios ao longo da minha coluna.

Eu ri, virando levemente a cabeça para que pudesse fitá-lo.

"Você realmente gostou das Gummi Bears." Apontei, num gracejo. Sorri suavemente quando ele baixou a cabeça para pousar a boca sobre a minha num curto beijo. Inspirei profundamente, aspirando seu aroma natural, e precisei lutar contra a vontade de puxá-lo para mais perto.

"O que eu posso fazer? Elas têm seu charme."

"Eu não entendo porque você pode sair com James Pegador e eu não posso sair com Sebastian, Lils." Olívia despertou minha atenção, rindo.

James gemeu, erguendo a cabeça para fitá-la.

"Não limpa a sua barra tentando sujar a minha, Ollie." Disse, num tom que era mescla de pedido e ordem, embora tivesse uma expressão divertida. Ajeitou os óculos sobre a ponte do nariz com a mão livre, gracejando. "Não é isso que amigos fazem, sabe."

"Desculpa, Jamie. Eu só estou tentando entender a logística." Olívia encolheu os ombros, batendo as pestanas, com falsa inocência. Fitou-me, sem esconder o sarcasmo. "De acordo com a Sra. Evans, a Lilykins aqui passou anos dizendo que você era o maior cafajeste que o mundo já viu. O que, bem, sinto, mas não te faz nada diferente do que ela pensa sobre Sebastian. E os conselhos dela a respeito de Sebastian sempre são "aja com cautela". Devo supor que você é uma faça-o-que-eu-digo-não-faça-o-que-eu-faço, Lily Evans?"

Encarei-a com certo mau-humor, porque ela, mais do que ninguém, sabia que não devia forçar a barra sobre meu envolvimento com James, mas resolvi ser sincera.

"Estou dando a James um voto de confiança." Admiti, embora não quisesse colocar todas as cartas na mesa naquele momento. "Podemos não ter sido íntimos, mas convivo com James desde que tenho onze anos, Olívia. Já vi seu pior. Você, ao contrário, conhece Sebastian há uma semana. Você não pode mesmo acreditar que conhece uma pessoa se nem sequer sabe seu nome do meio."

Endireitando-se na cadeira, um pouco ofendida, Olívia estava disposta a retrucar, mas James interveio antes, uma sobrancelha arqueada:

"Você sabe meu nome do meio?" Perguntou, sem esconder a curiosidade.

"É claro que eu sei." Respondi, em tom de obviedade, gesticulando, com certa indiferença. "Charlus. Depois de todas as vezes em que seu nome apareceu na lista de alunos em detenção, você não acha que eu já saberia tudo sobre seu histórico escolar? Sua vida acadêmica e todos os arquivos que existem nela são um livro aberto para mim, JP."

Isso deve tê-lo verdadeiramente surpreendido, porque sua resposta foi o silêncio. Sirius, por outro lado, baixou seu cardápio para lançar um olhar surpreso na minha direção.

"Uau." Disse, impressionado, algo que não acontecia com frequência. Aparentemente, uma vez que impressionar era seu lema, eram raras as vezes em que se permitia ser pego desprevenido. "Eu não sabia que monitores tinham esse nível de acesso. Me pergunto o porquê de Moony nunca ter comentado sobre isso com a gente."

"Sério? Você se pergunta mesmo?" Rebati, impassível. "Eu posso imaginar uma ou duas razões."

Como não poderia deixar de ser, James riu diante da careta de Sirius. Quer dizer, se aqueles dois soubessem que tínhamos acesso ao histórico dos alunos de Hogwarts (limitado e justificado, é claro, mas o suficiente para descobrir que nota seus desafetos andam tirando nos N.O.M.s, por exemplo), transformariam as fichas acadêmicas em armas. Que Merlin ajudasse os que vergonhosamente escondiam seus embaraçosos nomes do meio e seus T's de Trasgo.

Depois do almoço, voltamos preguiçosamente para a beira da piscina.

Estávamos jogando pôquer debaixo do guarda-sol (Sirius, o cara mais sortudo do universo, e Olívia, a antiga rainha do pôquer, estavam tendo uma batalha acirrada na tentativa de provar sua supremacia), dando algum tempo para fazer a digestão, quando a campainha tocou. Isabelle e Leonard chegavam, trazendo uma garrafa de vodka lacrada consigo.

"Graças a Deus." Sussurrei, deixando-os passar. "Mais cinco minutos e tenho certeza de que Olívia pularia sobre a mesa para esganar Sirius."

"Aquela garota precisa começar a maneirar quando o assunto é pôquer." Comentou Leonard, uma sobrancelha erguida, passando por mim e seguindo direto para a área da piscina, onde, aparentemente, Alex havia feito um Straight Flush.

"Lauren telefonou ontem à noite. Você sabe, papai tem essa regra de que, não importa onde estejamos ou o que estejamos fazendo, sempre devemos ligar para contar sobre nosso dia." Belle, que usava um vestido jeans, ajeitou o cabeço macio, empurrando-o para trás dos ombros, adentrando o hall e esperando por mim. "Disse que estava tendo horrores de diversão. E que, adivinha?, conheceu um cara."

Rolei os olhos, pouco preocupada, porque, em se tratando de Lauren, isso era uma conduta ordinária.

"Genial." Falei, encolhendo os ombros. Ajeitei as alças do meu biquíni. "Por que isso não me surpreende?"

"Eu só queria saber se, bem, você acha que Sirius vai ficar chateado?" Ela baixou ligeiramente a voz, lançando um curto olhar por cima do ombro, para se certificar de que não estávamos sendo ouvidas. Apesar disso, com a gritaria que vinha lá dos fundos, ministrada por Olívia, que também deveria ser intitulada de rainha do drama, era impossível que alguém ouvisse sequer seus próprios pensamentos.

Lancei um olhar cético na sua direção. Não importando quanta diversão houvessem tido aqueles dois, a probabilidade de que Sirius Black fosse ficar abalado por ter sido preterido era ínfima. Principalmente se fôssemos levar em conta o fato de que ele tinha uma paixão secreta e que o nome dessa paixão secreta definitivamente não começava com L.

"Não se preocupe." Garanti, em tom conciliador. "Sirius e Lauren nunca foram do tipo que fazem promessas. Tenho certeza de que ele vai ficar bem."

Belle relaxou, concordando, e abriu um largo sorriso quando chegamos ao pátio traseiro, cumprimentando os rapazes, inclusive Peter, que corou, com um beijo na bochecha.

"Boa tarde, lindos." Piscou para Alex, deixando que Leonard, que se sentara na minha cadeira vazia ao lado de James, rodeasse sua cintura com um braço e a puxasse na sua direção. "Vejo que vocês estão lidando muito bem com os preparativos para o aniversário da Lils." Comentou, brincalhona.

"O que há para preparar, afinal?" Leonard arqueou a sobrancelha, curioso, vendo Olívia, um pouco irritada pela terceira derrota consecutiva, embaralhar as cartas, uma vez que era o dealer da rodada. "A coisa sempre meio que sai no improviso quando o assunto é o aniversário da Lils. E eu não quero soar chato, mas a gente sabe que no improviso acaba sendo mais malditamente divertido."

Olívia arqueou uma sobrancelha na sua direção, sem esconder certo sarcasmo.

"Ah, sim, porque você sempre organizou o aniversário da Liloca, Leo, e está por dentro de todos os detalhes." Rebateu, áspera, começando a entregar as cartas. A derrota costumava deixá-la muito rabugenta. "O que a gente sabe mesmo é que você é um arroz-de-festa que nunca move um músculo para ajudar."

Soltando a garrafa de vodka sobre a mesa, Belle franziu o cenho.

"Ai, que bicho mordeu você, Ollie?" Indagou, passando a mão pelo cabelo de Leonard, numa carícia suave. "Essa sua fixação por ganhar ainda vai te matar, viu? Não seja tão má com Leo-leo."

Uma vez que todos os assentos estavam ocupados e que Leonard tomara meu lugar à mesa, curvei-me, cruzando os braços e apoiando-os sobre o encosto alto da cadeira de James, de modo que pudesse ver sobre seu ombro. Como de hábito, o perfume natural do corpo masculino penetrou minhas narinas, fazendo meu estômago vibrar.

"Leo-leo?" Perguntei, divertida. Embora estivesse distraído com suas cartas, uma mão muito ruim, devo acrescentar, JP ergueu a mão para que pudesse acariciar meu braço naquele interim. "Por que esse apelido não me surpreende? Quando vocês vão assumir que estão juntos? Todo mundo já sabe, Belle. Só porque você não oficializou, não quer dizer que não está acontecendo."

"Ah, cara." Alex sacudiu a cabeça, bufando, antes que Isabelle, que encolheu os ombros, pudesse responder. "Ultimamente vocês estão melosos demais."

"Você só diz isso porque Cassie ainda não chegou." Reiterou Olívia, seca, sem olhá-lo. "Seu humor vai mudar rapidinho assim que a Miss Bundinha colocar os pés na residência Evans, pode apostar."

Ele apenas arqueou uma sobrancelha, com ar ligeiramente desafiador, mas não ofereceu resistência. Alex e Cassandra podiam ter um relacionamento de verão, é claro, mas era algo que vinha acontecendo há tempo o bastante para caracterizar um envolvimento sério. Não que qualquer deles estivesse preparado para admitir isso.

Embora fosse muito atrativa, Cassandra raramente se envolvia com outros rapazes durante o período letivo. Mesmo assim, negava-se a confessar sua paixão. Dizia que o calor mudava as pessoas e que "fazia com que tomasse más decisões", mas todo mundo sabe que esse é o tipo de desculpa ridícula que alguém inventa para convencer a si mesmo de algo que não é real.

"Quando ela chega?" Perguntou Sirius, curioso. "Eu realmente quero saber como Cassie vai reagir quando descobrir sobre você e Prongs, Lilykins." Piscou na minha direção, divertido. "Se a notícia não matá-la de choque, não sei o que mais poderia."

De certo modo, era engraçado como havíamos passado a nos tratar com tamanha intimidade com apenas um par de dias de convivência amigável. Mesmo após seis anos em Hogwarts, eu e Cassandra nunca havíamos nos tornado próximas o suficiente dos Marotos para que fôssemos carinhosamente apelidadas.

Tínhamos uma relação distante e indiferente, exceto pela constante insistência de James para comigo, e, sim, podia imaginar que Cassandra ficaria muito surpresa ao de repente ser chamada de Cassie por Sirius, a quem anteriormente se referia apenas como Black. Diferente do mundo bruxo, onde a convenção nos obrigava a ser expressamente formais, o mundo trouxa permitia que tivéssemos mais liberdade em modos de tratamento.

"Você é muito engraçadinho para o seu próprio bem, Sirius." Resmunguei, ouvindo a risada de James. "Mas, bem, para ser sincera, duvido que ela se importe muito. Cassandra sempre pensou que entrar para o grupo de vocês lhe concederia algumas vantagens."

"Que tipo de vantagens?" Perguntou JP, curioso. "Eu sei que temos certa influência e que, claro, damos as melhores festas, mas não vejo como ser nossa amiga poderia ser mais efetivo do que ter uma escudeira monitora."

A verdade é que Cassie era uma bruxa de sangue puro que estava acostumada a ser respeitada. Querendo ou não, os Marotos tinham fama o bastante para exercer certa autoridade sobre o corpo discente. Ela podia não ser Sonserina, mas adorava poder.

"Olhos no jogo, bastardos." Olívia deu um tapa com a mão espalmada sobre a mesa, chamando nossa atenção. "Ainda vou depenar Sirius. Esperem e verão."

"Eu ia falar pra você tentar sua sorte, Ollie, mas parece que ela está toda comigo." Zombou Sirius, soltando uma gargalhada alta.

Nós jogamos (e ocasionalmente bebemos alguns copos de vodka) até o final da tarde, quando dispensei todo mundo porque precisava tomar banho e me arrumar para o jantar no mais tardar. Normalmente não perderia tanto tempo com produções exageradas, ainda mais em se tratando de uma comemoração para celebrar o noivado de Petúnia com Vernon Dursley, mas precisava refazer a pintura das unhas e sabia que não haveria condições de fazê-lo com Alex e Sirius ao redor.

Enquanto os garotos combinavam de se reunir na casa de Alex para comer hambúrgueres e assistir a alguns filmes, prometi ligar para Olívia no fim da noite, a fim de contar os detalhes. Odiávamos Vernon, porém adorávamos compartilhar suas trapalhadas.

Acompanhei todos até a porta, o que foi um processo bastante lento, porque Isabelle, que provavelmente havia bebido o suficiente por metade de nós, estava trançando as pernas, agarrada no braço de Leo, soltando risadinhas e soluços e Alex, gesticulando exageradamente, deixe-me acrescentar, tentava explicar para Sirius as regras básicas do jogo de rúgbi, esporte que combina bastante com a personalidade naturalmente violenta deste último.

James ficou para trás, algo pelo qual agradeci. Queria ser capaz de me despedir apropriadamente.

"Por que parece que não tenho o bastante de você?" Ele rodeou minha cintura com os braços após parar na soleira da porta, puxando-me contra si. Tive tempo de soltar uma risadinha curta antes que sua boca baixasse sobre a minha, num beijo curto e úmido e muito, muito delicioso.

"Sou altamente viciante." Afirmei, sorrindo, deixando que uma das mãos dele subisse até meu rosto, empurrando o cabelo vermelho para trás.

"Oh, sim, você é." JP garantiu, sério, empurrando os óculos, que haviam despencado para a ponta do nariz, para cima outra vez. Uma mão brejeira subiu pela parte de dentro da minha blusa, espalmando-se sobre a base da minha coluna, e fez com que um arrepio cruzasse minha espinha. "O que pode ser muito perigoso."

"Achei que você gostasse de viver perigosamente." Apontei, passando os braços por seu pescoço, brincando com os cabelos da sua nuca.

As pálpebras de James baixaram-se suavemente por um instante, enquanto ele apreciava a carícia. Era muito fácil dobrar James, percebi logo. Tudo o que tinha que fazer era distrai-lo com um par de beijos e afagos. Eu o tinha à minha mercê sem nem mesmo precisar me esforçar.

"Eu sou um homem que gosta de correr certos riscos." Ele deu um meio sorriso torto antes de me beijar, a língua massageando meu lábio inferior por um curto instante antes de se aprofundar em minha boca. Apertou-me repentinamente contra si, sem se importar em ser rude, tirando meu fôlego.

Suspirei, nossas respirações se mesclando, permitindo que suas palmas ásperas percorressem toda a extensão das minhas costas e cintura, a fricção contra a minha pele fazendo tudo pinicar e arder como se estivesse em chamas.

Na minha contagem de tempo, creio que tenhamos nos beijado por séculos, mas duvido que houvessem se passado mais que alguns minutos.

Quando nos afastamos, ofegantes, os rostos afogueados, ainda mordiscando a boca um do outro, precisando, mas não querendo tomar distância, encarei James por um instante, inebriada pelo seu toque, seu cheiro, seu beijo, e, pela primeira vez, pensei "Por que não?".

"Venha para o jantar de comemoração de Petúnia comigo." Convidei, com um sorriso.

Ele pareceu ligeiramente confuso enquanto se afastava, soltando minha cintura, e piscou, tirando os óculos para que pudesse limpá-los na barra da camiseta. Eu sempre esbarrava neles com a ponta do meu nariz.

"Você tem certeza?" Perguntou, baixando a cabeça por um momento, fixando a atenção na tarefa que tinha em mãos. "Quero dizer, seu pai vai estar neste jantar, não vai?" Fitou-me novamente, parecendo, pela primeira vez em décadas, levemente temeroso.

"Oh, certamente." Sacudi a cabeça, divertida, e o ajudei a colocar os óculos no lugar. "E ele vai odiá-lo, obviamente, porque é isso que pais fazem: odeiam os namorados de suas filhas. Mas você terá de conhecê-lo em algum momento. Por que não fazê-lo hoje? A comparação com Vernon pode agir a seu favor. Afinal, nada pode ser pior que Vernon." Pisquei, numa tentativa de animá-lo.

JP sorriu, embora não parecesse estar tão certo da eficácia do meu plano.

"Eu devo trazer flores para sua mãe ou alguma coisa assim?" Perguntou, passando a mão pelo cabelo, revelando certo nervosismo. "Não quero estragar tudo com os seus pais, Lils."

Brinquei com a gola da sua camisa, divertindo-me com seu terror. Se soubesse que isso bastava para assustá-lo, teria utilizado a perspectiva como ameaça anos antes. Uma vez que ele alimentara sonhos românticos comigo durante certo tempo, não gostaria de ganhar o desafeto de seus futuros sogros.

"Apenas seja você mesmo." Instruí, tranquilamente. Pousei as mãos sobre seus ombros, puxando-o para mim para que pudesse beijá-lo. "Nós iremos sair às 20h, mas você pode chegar um pouco mais cedo para ser oficialmente apresentado. Papai vai querer ter algum tempo para interrogá-lo. Não se preocupe, pois ele não utilizará nenhuma técnica de tortura." Pisquei novamente, tomando distância para que pudesse fechar a porta, evitando rir da maneira como o rosto masculino se contorceu.

Pobre Jamie. Teria um terrível par de horas expectantes pela frente.


N/A: E aqui estamos nós, vendo Lily pouco a pouco começar a considerar seu relacionamento com JP como algo mais sério do que apenas um rolo de verão. Gosto da maneira como ela vai levando as coisas de leve, sem pirar o cabeção. No próximo capítulo teremos o primeiro embate entre Sr. Evans e James Potter. Vai ser épico :D

Não tenho tido muito tempo para escrever, o que justifica a demora das postagens. Além disso, moro no Rio Grande do Sul e ultimamente anda fazendo um frio chato pacas por aqui, de modo que digitar se torna uma coisa muito triste quando a gente sente nossos dedos virados em picolés, mas vou tentar acelerar o processo agora que estamos na reta final. Mais três capítulos pela frente, galera! Segurem seus forninhos!

Deixem seus comentários. Abração!