CAPÍTULO DOZE: O MÍOPE DEGENERADO

Escolhi um vestido de alças na cor verde e as mesmas sapatilhas douradas da festa de Lauren para o jantar. Não queria dar a impressão de que tivesse me esforçado demais para festejar o enterro social de Petúnia, mas, considerando o fato de que James iria me acompanhar oficialmente pela primeira vez, também não podia parecer ter saído debaixo das cobertas naquele instante.

Fiz uma maquiagem leve, prendendo o cabelo num coque frouxo, e coloquei meus brincos de morangos. Enquanto tentava prender os fios fugidios com um grampo, refleti sobre minha decisão. Convidar JP implicava assumir publicamente que estávamos, de um jeito ou de outro, juntos. Embora temesse o momento em que isso se voltaria contra mim, principalmente em Hogwarts, após todos aqueles anos de discussões pelos corredores, não me sentia particularmente preocupada com a perspectiva de namorá-lo.

A verdade é que eu, bem, eu meio que gostava de James. Adorava seu perfume e o toque das suas mãos e não sabia se quereria ficar sem eles depois que o verão acabasse. Fazer valer nosso acordo, de trégua durante as férias, já não era uma boa ideia. Talvez nós realmente pudéssemos dar certo juntos.

Quando mamãe chegou, um pouco depois que Petúnia, como de hábito, trancou-se no banheiro para se preparar com todo o exagero de uma estrela da Broadway decadente, fui para seu quarto com a desculpa de que iria ajudá-la a escolher o que vestir.

Ela ainda devia estar processando o fato de que sua filha de dezenove anos iria se casar, porque parecia muito calada enquanto observava o closet, os braços cruzados, uma expressão sorumbática.

Sentada na ponta da cama, temi ter escolhido um mau momento para apresentar JP, mas resolvi arriscar:

"Mãe, podemos conversar sobre uma coisa?" Indaguei, mastigando o lábio inferior, um pouco nervosa.

"Claro, querida." Ela se virou para mim com um sorriso. Esfregou o rosto, suspirando. "Sinto por parecer tão perdida. Sabia que as coisas com Vernon estavam sérias, mas não sabia que estávamos seguindo rumo a um casamento. Os pais sempre se preparam para o fato de que seus filhos um dia vão partir, porém nunca estão verdadeiramente prontos quando a hora chega, entende?"

Concordei, porque não sabia o que dizer para animá-la. Conhecendo Petúnia como conhecia, o noivado duraria apenas tempo o suficiente para que ela tivesse seu casamento dos sonhos. Tão logo pudesse, ela se mudaria para sua nova casa, onde quer que fosse, e nem mesmo olharia para trás. Era assim que Petúnia era.

"Bem, você ainda tem a mim." Pisquei.

Mamãe riu, sacudindo a cabeça, e se aproximou. Abraçou-me, depositando um curto beijo sobre minha testa.

"Ainda bem." Sentou-se ao meu lado. "Vamos lá, sobre o que você quer falar? É sobre James, não é? Não sei por que, mas sempre imaginei que essa seria a expressão que você usaria quando precisasse falar comigo sobre um garoto."

"Você está certa. Realmente é sobre um garoto." Concordei, logo franzindo o cenho. "Como sabe que é sobre James?"

"Por um momento fiquei em dúvida entre Alex e James." Rolei os olhos ao ouvir o nome de Alex. Após todos aqueles anos, mamãe ainda tinha a falsa impressão de que acordaríamos um dia e descobriríamos sentir uma paixão arrebatadora um pelo outro, mais ou menos como Catherine e Heatcliff, de O Morro dos Ventos Uivantes. O que, deixe-me acrescentar, nunca aconteceria. Nem nos meus sonhos mais delirantes. "Mas, como futuro namorado, eu gosto mais de James, então resolvi ser positiva a respeito."

Sua declaração era ridícula. Como ela poderia ter tanto apreço por alguém que mal conhecia? Não era como se James houvesse sido o perfeito gentleman durante todos aqueles anos. Como mamãe bem sabia, ele havia dado motivos o bastante para que eu o detestasse.

Suspirei, disposta a rebater aquela afirmação, mas desistindo no processo. Àquela altura do campeonato, considerando que estávamos juntos, não havia porque trabalhar o fato de que mamãe era completamente ilógica ao gostar, embora sem nenhuma razão aparente, do meu antigo desafeto. Tanto melhor para ele.

"Sim, é JP." Aquiesci, remexendo-se na cama, incomodada. "Nós estamos meio que... saindo. Eu o convidei para vir ao jantar de Petúnia e Valter conosco."

Mamãe piscou, sem esconder a surpresa.

"Oh." Disse, inclinando o corpo ligeiramente para trás. "Isso é... repentino. Você está certa de que quer fazer isso? Apresentá-lo para seu pai vai tornar tudo oficial, Lils. É um grande passo. Não estou criticando sua escolha. Acho que você é grandinha o suficiente para tomar essas decisões por si só. Apenas quero saber se você considerou o que isso significava."

"Vou ser sincera." Comecei, esfregando a nuca, nervosa. "Foi um convite um pouco espontâneo. Mesmo assim, não estou arrependida. Antigamente eu nem mesmo consideraria a ideia de manter uma conversa amigável com ele, mas James mudou, mamãe. Gosto desse James. Faz com que eu me sinta... Bem, com que eu sinta coisas que nunca senti antes. Por nenhum garoto. Eu seria muito estúpida se deixasse esses sentimentos passarem sem nem mesmo tentar dar uma chance a eles."

Com um sorriso suave, mamãe concordou. Rompeu a distância entre nós, segurando uma das minhas mãos, acariciando-a com o dedão em movimentos circulares.

"É claro, docinho. Você e seu pai, sempre tão coerentes." Brincou, a voz afetuosa. "Embora nem sempre seja bom, na maior parte do tempo gosto da maneira como vocês sempre racionalizam sobre tudo. Vejo que você já pesou tudo o que há entre vocês. Os prós e os contras. E, se você está esperando pela minha aprovação, é claro que você a tem. Como poderia ser diferente?"

Nós nos abraçamos, rindo, e logo nos ocupamos em escolher a roupa que ela usaria naquela noite, ainda conversando sobre James. O tempo passou rápido.

Papai, que, como sempre, arrumara-se em cerca de dez minutos, já estava nos esperando na sala, assistindo ao noticiário, quando a campainha tocou. Embora eu o tivesse cumprimentado quando chegou e conversado rapidamente sobre seu trabalho, havia optado por dar a notícia sobre JP na hora que o mesmo chegasse. Não havia porque perturbá-lo antes do tempo.

Quando atendi a porta, a expressão nervosa de James me surpreendeu. Para alguém sempre tão despreocupado e acostumado a agir sob pressão, conhecer meu pai não deveria ser um grande negócio.

Ele usava calças pretas e uma camisa polo cinza com detalhes em preto que fazia com que parecesse muito distinto. O cabelo escuro, como de hábito, parecia mais bagunçado do que nunca, mas eu havia me conformado com o fato de que aquele talvez fosse seu charme.

"Você está bem?" Perguntei com um sorriso, em voz baixa, rompendo a distância entre nós para depositar um curto beijo sobre seus lábios.

"Yeah." Ele não me olhava nos olhos quando respondeu, ligeiramente hesitante, o que me fez rir. Passou a mão pelo cabelo, respirando fundo por um curto momento. "Vamos fazer isso." Disse de repente, com uma intensa convicção, sério.

Quanto mais rápido o fizéssemos, menos indolor seria, portanto o levei pela mão até a sala, onde papai estivera até então perfeitamente tranquilo em sua ignorância.

Seu rosto, porém, contorceu-se subitamente assim que ergueu os olhos da televisão e notou a proximidade entre nós. O corpo se enrijeceu sobre a poltrona como se tivesse tido cutucado por uma agulha, uma nuvem negra baixando sobre sua cabeça. Tudo muito rotineiro, já que ele apresentara reação semelhante diante de todos os namorados de Petúnia.

"Papai," comecei a dizer, sorrindo. "este é James Potter. Nós estudamos juntos."

"Err..." James tomou a palavra diante do silêncio sorumbático que se seguiu, ajeitando os óculos e dando um passo para frente, estendendo a mão para que pudesse cumprimentá-lo. "É um prazer conhecê-lo, Sr. Evans. Lily sempre disse coisas muito positivas a seu respeito."

Controlei uma gargalhada, porque, do tempo que havíamos tido para conversar, em nenhum momento falamos sobre minha família de modo geral. Mesmo assim, era engraçadinho que JP tentasse conquistar papai através de elogios. Não que fosse funcionar, é claro. Se papai fosse tão fácil de se convencer, Vernon, um bajulador nato, não teria tido nenhum trabalho para se tornar seu amigo.

"Sim, sim." Papai respondeu, secamente. Apertou a mão de James apenas por educação, pois sua expressão apologética dava a entender que aquela era sua última preocupação no momento. Fitou James da cabeça aos pés, sem nem mesmo se preocupar em levantar da poltrona, como mandaria a etiqueta. "Gostaria de dizer que não, mas infelizmente me lembro de você, garoto. Não é o pestinha intragável que costumava aborrecer minha princesa?"

Estava preparada para sair em defesa de James, tentando aliviar o pesado clima do ambiente, mas não houve nenhuma necessidade:

"Infelizmente meninos apaixonados não encontram outra maneira para extravasar seus sentimentos, senão através das provocações, Sr. Evans." Ele respondeu, de modo mais tranquilo, ensaiando um pequeno sorriso tenso. "Para sorte de todos nós, eu cresci e deixei de ser aquele idiota."

"Não para a minha sorte." Rebateu papai, asperamente, voltando os olhos para a televisão.

Sabia que, para ganhar aquela batalha, precisaria de paciência, portando, agarrando a mão de James, acomodei-me sobre o sofá livre, permitindo que ele se sentasse ao meu lado, e pisquei na sua direção para motivá-lo. Estávamos indo pelo caminho certo.

"Bem," principiei a falar, em tom propositalmente leve. "há algo que você queira perguntar a James, papai? Logo as férias vão acabar e eu achei que seria interessante se você tivesse tempo para conhecê-lo, não acha? Ignorá-lo não vai fazê-lo sumir."

Papai estreitou os olhos para mim, sentindo-se desafiado.

"Nem mesmo se eu tentar com afinco?" Perguntou, sarcástico.

James sorriu torto ao meu lado. Embora estivesse sendo o alvo de toda aquela hostilidade, não havia como não se divertir com papai. Ele podia ser tão teimoso quanto eu, o que era algo para se admirar, na verdade, e sempre tinha uma resposta afiada na ponta da língua. Não era à toa que, na maior parte das vezes, Vernon nem mesmo percebesse que estava sendo ridicularizado.

"Sinto muito, mas posso ser muito persistente, Sr. Evans." Apontou JP, passando a mão pelo cabelo. Seus movimentos pareciam mais fluídos, sinal de que estava começando a relaxar. É claro, não havia como papai odiá-lo mais do que odiava agora. Portanto, para que se preocupar, não é mesmo? "Demorei muito tempo para convencer Lily a sair comigo. Não existe nada no mundo que me faça desistir dela agora que a conquistei."

A despeito da declaração romântica que teria feito mamãe suspirar, papai apenas o encarou, sério e paradoxalmente indiferente.

"Sei." Disse. "Eu posso não ser um bruxo como você, meu jovem, mas prometo caçá-lo e matá-lo caso machuque meu bebê, entendeu? Gostaria de ter aprontado um questionário tão árduo e pesado que faria você chorar, mas ninguém me preparou para isso, de modo que vou guardar as perguntas para mais tarde. Até lá, não pense que já foi aceito por esta família. Não conheço você. Não gosto de você. E, definitivamente, caso ainda não tenha ficado claro, não quero você com a minha filha."

"É claro. Vou esperar pacientemente pela sua aprovação." Disse James, de modo agradável, mas que não escondia certa diversão, o que irritou papai.

Para nossa sorte, mamãe e Petúnia escolheram aquele momento para descer as escadas, preparadas para o jantar, e não nos restou outra opção senão deixar tudo para depois. Para alívio de James, o pior havia passado. Tudo que acontecesse no decorrer da noite era apenas um bônus.

"Argh. Ah, não, cabeça de fósforo." Resmungou Petúnia, com som de asco, enquanto nos acomodávamos no banco de trás do carro. Era a primeira vez que James andaria em um, portanto ele parecia muito interessado no processo. "Por que você tinha que trazer seu repugnante namorado justo hoje?"

"Dá um tempo, caveira amaldiçoada." Rebati, rolando os olhos. "Achei que esse anel gigante no seu dedo pelo menos ajudaria a aliviar sua hemorroida crônica."

Ela deu um soco no meu braço, provocando-me um ruído de dor. Em resposta, puxei seu cabelo loiro, bagunçando o perfeito penteado que deve ter demorado horas para ser aprontado.

"Parem agora mesmo." Mandou mamãe, as sobrancelhas franzidas, enquanto Petúnia fazia careta para mim, tentando remediar os estragos. "Era de se esperar que alguém que está noiva agisse com um pouco mais de maturidade, não acha, Petúnia?"

"Não. Se você quer saber, eu não acho, não." Respondeu Petúnia, petulante, cruzando os braços e mantendo o queixo erguido. Usava um vestido azul e liso muito bonito, desviando a atenção da sua magreza natural. Eu devia lhe conceder alguns pontos por bom gosto, a despeito do gênio intragável. Pelo menos ela sabia como se vestir bem. "Hoje era suposto ser o meu dia especial, mas, como sempre, este macaco vermelho está roubando as glórias apresentando o míope degenerado da sua escolinha de mágica."

James ergueu uma sobrancelha, surpreso pelo ataque, já que não estava familiarizado com a hostilidade natural do humor da minha irmã.

"Como se você realmente se importasse." Retruquei, seca. "Diferente do que você parece pensar, monstro do pântano, não estou levando JP para suscitar fúria no seu demônio interior. Você pode cegar quantas pessoas quiser com a pedra que chama de diamante. Nós vamos ficar fora do seu caminho."

"Por favor, crianças." Papai bufou enquanto ligava o carro e dava ré, deixando a garagem. "Não é como se eu aprovasse a presença do pequeno delinquente aqui atrás, mas não há necessidade de fazer nenhum escândalo, Petúnia, minha filha. Ao final da noite, o brinde ainda vai ser no seu nome, não vai?"

A declaração pareceu acalmar o ego ferido de Petúnia, que soltou um resmungo, mas não ergueu mais protestos.

"Você estão fazendo com que James se sinta muito bem-vindo." Apontei, cética.

"É melhor você ir se acostumando com toda essa harmonia, meu bem." Muito ocupada em retocar o batom vermelho no espelho do quebra-sol do carro, mamãe fitou James por sobre o ombro, presenteando-lhe com um sorriso falsamente animador. "Nós somos meio difíceis de se conviver."

Àquela altura, porém, James já havia quase se adaptado às variações de humor dos membros da família Evans. Com o temperamento taciturno de papai e a cólera incontrolável de Petúnia, não era como se algo mais pudesse surpreendê-lo.

"Esse é um sacrifício que faço com prazer, Sra. Evans." Ele garantiu, tentando tranquilizá-la. Sorriu para mim, rodeando meu ombro com o braço, a mão quente se fechando num aperto suave sobre minha pele. Encolhi-me no seu abraço, sorrindo de volta. Era muito bonitinho que ele sempre tivesse as palavras perfeitas na ponta da língua. Quase como se tivesse ensaiado em casa.

"Blergh." Soltou Petúnia do meu lado, com desprezo, fazendo-me revirar os olhos. Algumas coisas nunca mudavam.

O jantar tinha tudo para ser potencialmente desastroso, mas a companhia de James me distraiu da presença desagradável de Vernon, da sua irmã desprezível e de seus pais, que, deixe-me dizer, mostraram-se tão insuportáveis quanto os filhos que criaram.

Apesar de tudo, e contrariando todos os conceitos básicos de lógica, Petúnia parecia feliz ao lado do seu novo noivo e suposto amor para a vida inteira. Sentado ao seu lado como um escudeiro fiel, Vernon passou todo seu tempo livre a adorando, no sentido mais literal da palavra. Parecia nutrir por ela o tipo de amor que alguém deveria nutrir por um deus ou deusa. E isso era muito, muito estranho, mas, a seu modo, até que adorável. Deveria ter seu quê de charme ser comparada a uma divindade.

A maior parte da conversa foi voltada para o casamento: preparativos, datas, dinheiro. A tradição ditava que o pai da noiva deveria pagar pela cerimônia, porém, dados os gostos extravagantes de Petúnia, Vernon parecia disposto a comprometer 90% do seu salário para garantir que a futura esposa tivesse o que quisesse naquela data tão especial.

James falou pouco, porque mamãe, a única que parecia interessada em conversar com ele, entreteve-se com Petúnia na maior parte do tempo.

Quando o café chegou, depois da sobremesa, eu estava positivamente pronta para desaparecer dali. Segurei a mão de JP por debaixo da mesa, despertando-o do seu transe, e apontei com a cabeça para a porta da frente, que daria num jardim.

Nós nos esgueiramos para lá, afortunadamente sem que ninguém nos visse.

Já eram perto das 22h e os grilos estavam por toda a parte. Alguns vagalumes dançavam perto das árvores localizadas dali alguns metros. Havia uma brisa agradável, aliviando o calor sufocante do dia, e eu sentei no banco próximo à entrada para apreciá-la. Com sorte, não levaria mais que vinte minutos para que todos finalmente deixassem o restaurante.

"Ufa. Estou feliz que esse casamento vai acontecer durante as aulas." Confessei, espreguiçando-me como uma gata, controlando um bocejo. Não era que estivesse muito cansada, mas o tédio havia contribuído para elevar meu nível de sono.

"Mulheres podem se tornar muito aterrorizantes nesse período." James concordou, sentando-se ao meu lado. Coçou o queixo, pensativo. "Pensei que ficaríamos lá para sempre." Ele revelou enfim, em tom ligeiramente frustrado, e brincou com a gola da camisa.

Eu ri.

"Eu também." Disse, divertida, ajeitando-me no banco, inclinando o corpo ligeiramente para frente, as mãos espalmadas sobre o assento. Fitei-o. "Mas, sabe, estou feliz que você veio. Suponho que teria sido muito mais terrível passar por isso sozinha." Admiti, com um sorriso suave.

James me encarou, a expressão abrandando, e ergueu a mão para levar uma mexa do meu cabelo para trás da orelha.

"Eu faria qualquer coisa por você."

Fiquei séria por um instante. Há algum tempo, poderia ter duvidado da sua declaração exagerada e floreada. Agora, porém, sentia que isso seria impossível. James havia me dado provas o suficiente de que gostava de mim.

Havia tido um ou dois breves relacionamentos durante as aulas, mas nenhum deles suscitara em mim os mesmos sentimentos. Nem de perto foram tão surpreendentemente agradáveis quanto a experiência que eu estava tendo com James naquele momento. Se era porque ele era, afinal, o "cara certo" ou não, isso não importava. O x da questão era que, ao lado de James, tudo parecia magicamente correto.

Com os olhos repentinamente muito intensos e brilhantes, JP rompeu a distância que havia entre nós, aproximando-se o suficiente para que pudesse rodear minha cintura com um dos braços, puxando-me na sua direção, e erguer meu rosto com o indicador e o dedão, atraindo minha boca contra a sua. Nós nos beijamos por um par de minutos sob o luar antes que ouvíssemos um pigarro.

Corei, encarando papai e mamãe, que nos observavam da soleira da porta do restaurante.

"Sugiro que mantenha suas mãos para si mesmo se não quiser perdê-las, meu jovem." Mandou papai, em tom de voz imperativo, rompendo a distância entre nós a fim de me puxar pelo braço, não de modo rude, mas muito mandatório, obrigando-me a me colocar de pé. "Meu bebê não é uma dessas garotas quaisquer com quem você está acostumado a andar por aí."

"Papai!" Reclamei, o cenho franzido, aborrecida com seu excesso de proteção.

"Você está absolutamente certo, Sr. Evans." Ignorando meu protesto, James se levantou com humor renovado, ajeitando a camisa, um largo sorriso. Tinha um ar predatório totalmente novo em seu rosto quando me fitou por sob os cílios. "Quero que você saiba que tenho toda a intenção de me casar com sua filha, Sr. Evans. Até lá, farei o possível e o impossível para convencê-lo de que sou o homem certo para ela. Escreva minhas palavras."

Parecendo se divertir com o desenrolar da situação, mamãe soltou um risinho, a boca escondida atrás da mão. Papai, por outro lado, apenas o encarou, surpreso com sua confiança.

"Bem..." Ele coçou o queixo, repentinamente mudo. Logo se irritou pela falta de palavras e soltou meu braço, passando a marchar na direção do estacionamento. "Para o seu bem, vamos trabalhar com essa certeza, rapazinho." Falou por cima do ombro, seco.

Depois daquilo, a volta para casa foi muito mais tranquila. Petúnia voltaria com o noivo, de modo que tínhamos muito mais espaço no banco traseiro, e eu e James ficamos afastados, pois papai, embora tivesse desfeito a carranca, continuava a lançar olhares cautelosos pelo espelho retrovisor, como se quisesse nos pegar no flagra.

Ao chegarmos, não pudemos nos despedir adequadamente. Embora mamãe tivesse dialogado para que acontecesse o contrário, as luzes da frente foram ligadas e a porta permaneceu aberta, tirando qualquer privacidade, de modo que, com um sorriso cansado, eu me despedi de James com um beijo curto e uma promessa de que conversaríamos melhor no dia seguinte.

Mas a verdade é que o dia seguinte era domingo, dia do famigerado churrasco com Jean-Claude e François, e eu fui tirada da cama perto das nove para que pudesse arrumar o caos em que havia se convertido meu quarto, tomar um banho e colocar minha roupa mais bonita e comportada, porque papai e mamãe gostavam de passar a impressão de que haviam criado duas lindas princesas fugidas da realeza ao invés dos monstros devoradores de sorvete e mesada que éramos nós.

Petúnia passou bufando por mim no corredor, recém tendo saído do chuveiro, enrolada numa toalha, os cabelos úmidos.

"Isso é escravidão, fiquem vocês sabendo!" Gritou, furiosa, quando passou perto da balaustrada que dava visibilidade para o andar inferior – não, Petúnia não gostava de ser acordada. Ela quase literalmente se convertia num monstro. "Eu vou fazer os dois vestirem cor de cocô no meu casamento!"

Apesar do fato de que deveria supostamente odiá-la, não pude conter uma gargalhada diante daquela ameaça. Cor de cocô. Sério? Quantos anos ela tinha?

Embora tenhamos tido um começo de manhã bastante conturbado, quando nossas visitas chegaram, perto das onze, estávamos todos acomodados na sala de estar, com aperitivos prontos na geladeira, lindos, banhados e de dentes escovados, como se fôssemos uma legítima família de comercial.

Mamãe saiu correndo na direção da porta assim que a campainha tocou.

"Muito bem, garotas, finjam que se amam." Sussurrou por cima do ombro, apertando as sobrancelhas, já irritada com toda a discussão que havia tido para convencer Petúnia a confessar onde, em protesto, havia escondido sua bota de camurça. "Ninguém quer saber que eu criei dois aborígenes canibais!"

Petúnia fungou, encarando as unhas compridas recém pintadas de rosa-choque.

"Não dá pra pedir o impossível, queridinha." Disse, azeda, lançando um olhar duro na minha direção. Mais especificadamente na direção da minha camiseta com estampa psicodélica. Embora fosse moda, ela ainda pensava que coisas psicodélicas eram uma espécie de apologia à LSD. "Não com esse palito de fósforo se vestindo como um arco-íris retardado."

"Será que você pode parar de encher o saco por causa do meu guarda-roupas, sua piranha?" Resmunguei, atirando uma almofada na sua direção. "Eu não saio por aí reclamando sobre as vezes em que você quase me cegou com a quantidade de óleo de bronzear que passou no corpo, não é mesmo?"

Ela me encarou, fogo em seus olhos, preste a reiterar, mas papai interceptou qualquer movimento se jogando no espaço vazio entre nós.

"Nós podemos negociar seu silêncio." Ele disse, em voz baixa, enquanto mamãe recebia Jean-Claude e François com abraços e beijos. "Vinte libras para cada uma e duas promessas de Paz Mundial e amor entre irmãs enquanto durar este churrasco."

Eu e Petúnia nos entreolhamos, surpresas com o alto teor da oferta. Não era sempre que conseguíamos angariar uma graninha tão boa. Mamãe não acreditava em suborno. Ela acreditava em tabefe na orelha.

"O que podemos dizer? Você acabou de comprar duas pacifistas pelo preço de uma." Falei, com um largo sorriso, levantando-me de prontidão para receber os visitantes com meu melhor estado de humor.

Embora Jean-Claude e François fossem muito divertidos por si só, o almoço pareceu se arrastar dentre suas intermináveis (e algumas muito interessantes, é verdade) histórias e experiências. Aparentemente, não havia um único lugar em que eles não tivessem estado, inclusive países mais afastados, como Argentina e Peru.

"Estamos planejando um cruzeiro para a Austrália." Dizia François, degustando um gole do vinho caríssimo que papai até então havia guardado para uma ocasião especial. "Por que vocês não se programam para ir conosco, minha querida?" Indagou, fitando mamãe por cima da sua taça. "As garotas já estão crescidas. Saberão se virar. Além disso, vocês precisam de uma pausa para reabastecer as energias, se reconectar depois de tanto tempo. Estou certa de que o sexo vai melhorar muito."

Petúnia, que parecia desinteressadíssima girando a bebida dentro do seu copo, afogou-se diante daquela declaração, sujando os lábios exageradamente pintados de batom vermelho.

"Ora, François." Mamãe corou. Havia certos assuntos que ela detestava discutir em público, embora os novos tempos fossem muito mais liberais com relação à sexualidade. "Não fale sobre assuntos como esse na frente das crianças!" Pediu, com um sorriso constrangido, estendendo um guardanapo na direção de Petúnia.

"Não se acanhe, por favor, Margot." Jean-Claude tomou a dianteira. Ele usava calças boca de sino tão largas quanto as de François, o cabelo loiro penteado para trás, e possuía um estilo despojado e casual, o total oposto de papai, que se vestia como um engomado engravatadinho. "Petúnia já está noiva e Lily é grandinha o suficiente para saber sobre certas coisas." Piscou na minha direção, divertido. "Estou certo de que ela já deve ter tido um namoradinho ou dois com quem compartilhar algumas experiências!"

"Jean-Claude!" Papai o encarou por cima do ombro, tendo até então estado muito ocupado cuidando da grelha, uma expressão dura na face. "Se dependesse de mim essas duas não sairiam de casa até que estivessem velhas e enrugadas!"

Naquele momento, enquanto François rebatia que "sexo era natural e fazia parte da vida de todos", o telefone tocou e eu e Petúnia disputamos com dolorosas cotoveladas para ver quem seria a afortunada pessoa a atendê-lo. Para minha sorte, fui mais rápida.

"Alô." Disse, ligeiramente ofegante, torcendo para que fosse uma ligação de propaganda que durasse horas.

"Heyyy, Lils!" Gritou Isabelle, a voz um pouco rouca e trêmula, sinal de que andara bebendo. Ela e Leonard deviam estar fazendo competição para descobrir quem conseguia ficar bêbado ou chapado por mais tempo durante o verão. "Nós estamos querendo saber por que você ainda não deu as caras em minha estimada residência. Ollie disse que está rolando uma treta com uns franceses por aí."

Podia ouvir vozes e gritos ao fundo, incluindo os de Alex.

"Quem está querendo saber?" Perguntei, arqueando uma sobrancelha, curiosa. Detestaria saber que estava perdendo alguma espécie de comemoração maluca ou que estivesse acontecendo outro escândalo e eu estivesse presa dentro de casa, precisando ouvir os comentários de Jean-Claude e François a respeito da vida sexual dos meus pais.

Quer dizer, eu gostava de Jean-Claude e François de modo geral, mas aquelas eram coisas que eu não me importaria de ficar sem ouvir. Obrigada.

"Aguenta aí, bombom." Falou Belle, rindo. Separou o bocal da boca, pois o som ficou repentinamente abafado. "Ei, garotos. Lily quer dar um oi!"

"Liloooca!" Gritou Alex um instante depois, logo caindo na gargalhada. Tive que afastar o telefone do ouvido para evitar ter um tímpano perfurado. "JP queria ter o prazer de ouvir o som da sua voz, mas eu disse que amigos de infância têm prioridade sobre namorados recentes. Desculpa aí, cara. Olha só, meu docinho de coco caramelizado..." Continuou a falar, sendo interrompido por um "eca, viking! Sério?", que provavelmente veio de Olívia. "Cala a boca, garota. Eu estou num papo sério aqui."

Eu funguei, controlando uma gargalhada. Petúnia se sentiria muito traída se soubesse que eu estava tendo diversão e ela não e provavelmente incentivaria mamãe a me mandar desligar o telefone, por isso tentei manter uma expressão poker face, arqueando as sobrancelhas em sinal de desafio na sua direção, do tipo "e agora, vadia? E agora?"

Mestre na arte de lançar dardos imaginários pelos globos oculares, ela, que estava sentada numa das cadeiras da cozinha, um drinque não-alcóolico de morango na mão, o canudinho na boca, com seu habitual semblante azedo, continuava a me encarar, interiormente frustrada porque não havia tido a oportunidade de interceptar minha ligação, telefonar para algum dos desafetos desagradáveis que costumava chamar de amigas e fingir que seria deselegante desligar, uma vez que alguém havia se dado ao trabalho de telefonar em primeiro lugar (sim, anos de convivência me ensinaram todas as técnicas ardilosas empregadas por aquela que, segundo mamãe, deveria ser minha "melhor amiga").

"O negócio está esquisitíssimo." Confessei enquanto tinha tempo. "O almoço ainda vai demorar um pouco pra sair. Não sei até que horas vou precisar ficar presente. O que vocês estão fazendo por aí?"

"Nada demais." Alex disse. "Olívia queria tentar a milésima revanche no pôquer contra Sirius, mas todos nós chegamos à conclusão de que não precisamos de mais nenhum surto psicótico. Você ouviu isso, Olívia?" Sempre uma meiguice de pessoa, Olívia deve tê-lo chutado, porque ele logo gemeu e xingou. "Estamos nos preparando para jogar Assassino. Você tem certeza de que não pode dar uma escapadinha? Uma festa não é uma festa sem você."

Aquele era o jogo preferido de Alex e eu sabia como ele se sentia sobre ele. Embora fosse naturalmente bom, com seu fôlego e corpo atlético, algumas vezes eu e Olívia o havíamos deixado ganhar, apenas para amaciar seu ego.

"Não, viking. Mas boa sorte para você." Sorri. "Você pode colocar JP na linha?"

"Claro, claro. Sei reconhecer quando estou perdendo minha influencia." Alex suspirou, a voz ligeiramente arrastada. "Ô, Jamie, sua princesa dos contos de fada está solicitando resgate."

Um instante depois e alguns ruídos ininteligíveis depois (estou certa de que ouvi Leonard gritar alguma coisa sobre ficar pelado), James atendeu, a voz levemente ofegante e um pouco cautelosa, porque, mesmo com contato frequente, alguns objetos trouxas ainda deixavam os garotos de cabelos em pé.

"Ei." Eu disse, suavemente, enroscando o dedo no fio do telefone. "Só checando pra saber se minha linda família não colocou você pra correr."

Ele riu aquela risada suave e agradável que fazia os pelos do meu braço se arrepiarem.

"Você está brincando?" Rebateu, gracejando. "Petúnia precisaria fazer coisas muito piores do que me chamar de míope degenerado para obter algum sucesso. Pra falar a verdade, até começo a pensar que os insultos dela são um pouco divertidos."

Naquele momento, mamãe me chamou, avisando que o almoço estava pronto, e eu suspirei, não apenas porque voltar para o jardim seria terrivelmente tedioso, como porque idiotamente não queria desligar ainda.

Resultava num choque para mim mesma, mas logo concluí que talvez estivesse com uma espécie de saudade – o que era muito bobo, considerando que havia visto JP na noite anterior.

"Preciso desligar." Falei, o cenho franzido. "Eu vou tentar fugir tão logo possa, mas vou receber vinte libras por bom comportamento, então isso pode demorar um pouco." Apertei os olhos, irritada, na direção de Petúnia, que estava fazendo sinais obscenos na minha direção, aproveitando que ninguém estava vendo. "De qualquer maneira, encontro você tão logo puder."

"Vou esperar por você, linda." Garantiu James, a voz reproduzindo um sorriso.

A verdade é que só fui ver James outra vez no começo da noite. O churrasco se arrastou durante a tarde e eu e Petúnia só conseguimos ser liberadas perto das 15h, depois da sobremesa, do cafezinho e de várias promessas de repetir aquela experiência mais vezes no futuro.

Quando enfim pude me arrastar escadaria acima, Ishtar, a coruja parda de Cassie, estava parada sobre o umbral da minha janela, com uma curta mensagem que avisava da sua chegada via chave de portal às 16h (como acontecia há cerca de seis anos, o pai de Cassie, que trabalhava numa posição de prestígio no departamento de Execução das Leis de Magia, sempre preparava uma chave de portal para transportá-la em segurança até meu humilde quarto – devo compartilhar que, embora sendo um sangue-puro de família muito tradicional, o Sr. Willer pensava que trouxas eram coisinhas divertidíssimas e muito curiosas).

Mal tive tempo de dar um jeito no absoluto caos em que havia se convertido meu quarto (obrigação que havia adiado durante a manhã) antes que a loira magicamente aparecesse, trazendo consigo uma gigantesca mala cheia de roupas que sequer teria tempo de usar, já que passava mais da metade do tempo de biquíni.

"Lily!" Gritou, excitada, pulando no meu pescoço, de modo que desabamos sobre a cama atrás de nós.

"Ai." Gemi, sem fôlego e ligeiramente dolorida depois de bater o cotovelo sobre o abajur e derrubá-lo no chão. "Você realmente precisava fazer isso?" Resmunguei, tentando tirar tanto os cabelos dela quanto os meus da frente do rosto, provocando uma extravagante gargalhada em Cassie.

"Desculpa." Ela falou, rolando para o lado, ainda sorridente. "Senti tanto sua falta depois de ter sido obrigada a aturar Daisy durante quase um mês."

Daisy pertencia à ramificação francesa da sua família, prima por parte de mãe, e estudava em Beauxbatons. Ela e Cassandra se davam bem na maior parte do tempo, ou seja, quando existiam milhares de quilômetros entre elas. Ao precisarem conviver durante as férias de verão, porém, tudo virava motivo para brigar. Chegava a ser até um pouco cansativo.

A porta do quarto se abriu antes que eu tivesse tempo para responder.

"Mamãe mandou você parar de quebrar a casa, sua anormal." Petúnia colocou a cabeça para dentro através do fino vão, adotando uma expressão apologética tão logo reconheceu Cassie ao meu lado. Costumava suportá-la, pois sempre era subornada com maquiagens e sapatos franceses. Cassie gostava de agradá-la para ganhar sua aprovação e Petúnia, é claro, não perdia a chance de obter alguns presentes. "Ah, é você, garota. Vamos parar com esse romance lésbico, ok? Se eu não posso ter sexo debaixo deste teto, vocês também não." E bateu a porta atrás de si.

Cassie teve uma crise de riso. Petúnia sempre insinuava que tínhamos uma espécie de relacionamento secreto proibido. Quando fizemos quatorze anos, mamãe ficou realmente preocupada com a perspectiva de que dividíssemos o quarto, mas concluiu por si só que minha suposta paixão platônica por Alex era muito mais preocupante do que meu suposto interesse em Cassandra.

"Fala sério. Ela ainda não superou isso?" Indagou a loira, sentando-se. Usava uma saia pregada na cor azul-escuro e uma camisa de mangas curtas branca e bem justa. "Achei que beijar Alex na sua frente faria com que ela fosse forçada a atualizar seus insultos."

"Petúnia é criativa, mas preguiçosa." Encolhi os ombros, levantando-me. Ajeitei o abajur, que, por sorte, não havia se despedaçado. "Estava começando a pensar que você não viria."

"Meu Deus, bombom, que blusa horrorosa é essa?" Questionou Cassie tão logo notou minhas vestimentas, apertando os olhos para a excêntrica estampa da minha camiseta. A verdade é que eu também acreditava que ela era igualmente horrível, mas a usava principalmente para aborrecer Petúnia. "Você está tentando fazer a moda se suicidar?"

"Você sabe que dedico metade do meu roupeiro para afrontar os costumes arcaicos de Petty Monstro." Expliquei, seguindo até o armário. Tirei a blusa, substituindo-a por uma de alças na cor preta. "Não é fácil me vestir assim, mas eu levo a sério meu trabalho." Fitei-a por sobre o ombro com um sorriso torto.

Cassie riu outra vez, jogando as pernas para fora da cama e se colocando de pé.

"Vou descer e dar um olá para os seus pais." Avisou, seguindo para a porta. "Depois disso você pode nos preparar uns sanduíches. Estou faminta e tenho milhões de novidades para contar. A começar pelo fato de que descobri que a perfeita Daisy estava dormindo com um garçom italiano durante todo o tempo em que a família acreditava que ela se guardava para o casamento com o engomadinho insuportável do Greengrass."

Nós conversamos durante cerca de duas horas, as cabeças bem juntas, montadas nos bancos altos em frente ao balcão americano da cozinha.

Eu a inteirei da chegada dos Marotos e de todas as coisas que haviam acontecido até então, mas só tive coragem de informá-la sobre meu novo relacionamento quando já começava a escurecer.

"Eu e Potter..." De repente parecia estranho voltar a chamá-lo pelo sobrenome, considerei. "Bem, eu e James meio que estamos saindo."

Ela ficou calada por um instante, apertando as sobrancelhas, levando mais uma colherada de sorvete à boca (Cassandra era alta e curvilínea e podia comer como um gorila), como se estivesse processando a informação.

"Vocês estão meio que saindo como... Indo comprar pão juntos?" Perguntou, curiosa, torcendo os lábios.

"Não, idiota." Revirei os olhos. "Estamos saindo de modo romântico. Você sabe, abraços, flertes, beijos. Essas coisas." Percebi que estava ligeiramente corada, o que me deixou com raiva. Não costumava me sentir envergonhada por coisas como aquela, contudo admitir que estava beijando o cara que jurava não suportar parecia algo bastante embaraçoso, considerando a situação como um todo.

Não é que eu me importasse com a opinião dos demais alunos de Hogwarts sobre nós, mas também não era como se eu não me importasse. Se, por algum motivo, alguém além do meu círculo de amizade descobrisse sobre nós, duvido que fosse capaz de entender toda a história que resultara naquele desfecho. Eu seria para sempre estigmatizada como mais uma garota que cedeu.

A consciência de que, em algum nível, aquilo de algum modo me abalava logo me perturbou. Não conhecia aquela minha própria faceta supérflua.

"Cala a boca." Disse Cassie de repente, de modo pausado, baixando a colher, inconsciente das minhas atuais preocupações. "Você e o Potter-Perdedor-Para-a-Lula-Gigante?" Repetiu, caindo na gargalhada. "Ai, não, Lily. Fala sério agora, vai. Você trepou com Black, é isso? Esse é o segredo que você está tentando encobrir com uma mentira sem pé nem cabeça? Porque eu totalmente entendo, amiga."

Encarei-a, incrédula.

Na frente da família, Cassandra Willer era uma dama da aristocracia cheia de palavras e trejeitos educados. Por detrás das portas fechadas, porém, era capaz de falar tantos palavrões quanto um caminhoneiro e, é claro, não possuía nenhum tipo de filtro entre o que era socialmente aceitável e o que simplesmente não devia ser pronunciado em voz alta.

Sua capacidade para lidar com sexo daquela maneira sempre me surpreendia. Não é como se ela tivesse muitas aventuras amorosas, mas sempre se mostrava aberta a conversas francas, o que lhe rendia muitas horas ouvindo as peripécias sexuais de Lauren, que adorava compartilhar sua sabedoria. Eu, por outro lado, era mais uma evitadora.

"Fica quieta, sua demente." Sibilei, olhando ao redor para ter certeza de que não estávamos sendo ouvidas. Se mamãe mesmo cogitasse a hipótese de sexo com quem quer que fosse, podia apostar que nunca mais sairia de casa sem ouvir um sermão sobre a importância que o coito devia ter num relacionamento estável – e exclusivamente num relacionamento estável. "Estou falando sério. Não me faça repetir. Eu e JP, isso está acontecendo, ok? Não aja como uma louca." Mandei, em tom incisivo.

Cassandra ficou calada por um instante outra vez, observando-me, talvez procurando por alguma certeza ou mesmo uma demonstração de que aquela era apenas uma peça, mas, ao fim e ao cabo, minha expressão furiosa, minhas bochechas vermelhas e minhas sobrancelhas arqueadas devem tê-la convencido.

"Ceeerto." Falou enfim, de modo ligeiramente pausado. Permaneceu imóvel por um segundo, a atenção fixa na parede. "Não. Não me convenceu. Acho que eu preciso comprovar com o supracitado." Antes que eu pudesse detê-la, ela pulou do banco para o chão e saiu correndo na direção do hall de entrada, descalça.

"Cassie!" Gritei, ciente do seu objetivo, e corri para segui-la, talvez desacordá-la e trancá-la no armário de casacos, mas não consegui impedi-la de abandonar a casa.

Para meu eterno terror, como se ansioso para presenciar aquele desastre, o destino se adiantou e fez JP, Sirius e Peter despontarem na rua, os rostos suados e as expressões risonhas, contando piadas entre si, provavelmente recém-chegados da casa de Isabelle.

Voltando os olhos na nossa direção, provavelmente atraído pelo ímã invisível que parecia inevitavelmente nos ligar um ao outro, James foi o primeiro a me notar, abrindo o sorriso torto de covinhas que parecia ter sido feito especialmente para mim.

Isso foi o suficiente para convencer Cassie, que havia parado de chofre ao perceber os garotos, a tempo para que eu pudesse alcançá-la.

Ela entreabriu a boca, chocada, por um instante deslizando os olhos da minha pessoa até a de James, juntando os pontos e enfim assimilando a verdade. Não é necessário dizer que um instante depois sua expressão de surpresa foi substituída por um sorrisinho sarcástico.

"Ah, pelo Sinistro! Eu. Não. Acredito." Soltou. "O Potter Perdedor finalmente marcou um ponto! Essa vai entrar pra história!" Declarou, caindo na gargalhada.

"Ei." James franziu as sobrancelhas na sua direção, incomodado com sua escolha de palavras, mas Sirius e Peter não fizeram nada além de acompanhar Cassie, como se aquela de repente fosse uma piada engraçada demais para ser ignorada.

A verdade é que, afora alguns risinhos escarninhos, nenhum deles ainda havia tomado qualquer iniciativa para zombar da nossa relação, provavelmente por respeito a James. Se, porém, a própria Cassandra, que deveria ser minha aliada e braço direito, não havia resistido à ironia da situação, possivelmente eles pensassem que isso lhes dava carta branca para externar todas as piadinhas que haviam guardado para si próprios durante aqueles dias.

"Calem a boca." Vociferei, furiosa e muito embaraçada, porque o barulho do seu riso ecoou pelo repentino silêncio da rua. "É por isso que eu não conto as coisas para você, Cassandra." Grunhi, fulminando-a com os olhos. "Sério, isso era mesmo necessário?"

"Eu... Lilykins, eu sinto..." Cassandra tomou algum fôlego, limpando as lágrimas dos olhos, mas logo se rendeu a uma nova crise de riso, dobrando-se ao meio. "Não, para. Não sinto, não!"

Cruzei os braços, batendo o pé no chão e rangendo os dentes, planejando diferentes maneiras de matá-la.

"Vamos lá, parem de rir." As palavras de James foram para Sirius e Peter e soaram como uma ordem suave, mas que não devia ser contestada. Ele cruzou a distância que havia entre nós, rodeando meu ombro com um dos braços, esfregando minha pele desnuda em movimentos circulatórios que me forçaram a relaxar. "Eu detestaria perder a garota por que vocês agiram como idiotas."

"Você não pode negar que isso tem seu quê de ironia, Prongs." Disse Sirius, tão logo pôde retomar o fôlego. "Aliás, eu também cairia na gargalhada se alguém me dissesse hoje que você e a Liloca estão saindo. Quer dizer, tem como algo soar mais louco que isso? Todo mundo sabia que você era afim dela, mas ninguém nunca chegou a considerar o fato de que algum dia fosse ser correspondido."

James apertou os olhos, fitando-o com certa aspereza.

"Uau, obrigado. Agora você fez com que eu me sentisse muito motivado." Zombou, sem esconder o sarcasmo.

"Sinto por ferir seus sentimentos, ruiva." Cassie disse, ainda tentando controlar súbitos surtos de risadinhas. Levou a mão aos lábios. "É só que... É engraçado, vocês não podem negar. É malditamente engraçado!" Começou a gargalhar outra vez. "Potter e Evans terminam o ano como inimigos jurados de morte e começam o ano trocando cartas de amor. Você pode imaginar como as pessoas irão reagir?"

Franzi as sobrancelhas, ainda irritada, mas precisei reconhecer a ironia da situação. E não pude conter um pequeno sorriso diante da imagem mental que começava a criar.

Talvez eu estivesse vendo a situação com os olhos errados, considerei, começando a relaxar. Talvez eu não devesse procurar na reação das pessoas motivos para me aborrecer. Eu podia muito bem começar a me divertir. Se eu conseguisse que a pessoa recebesse a notícia enquanto bebia alguma coisa, poderia fazê-la cuspir. Eu sempre quis ver uma cena como essa na vida real.


N/A: JP é pura ~sedução~, minha gente. Como resistir a tamanha gostosura? Ai, ai... *suspiros*

Obrigada pelos fantásticos comentários. Espero que todos continuem acompanhando. Estamos nos dirigindo para o derradeiro final. Mais dois capítulos pela frente, galerê. E possivelmente um epílogo. Gosto da palavra :B

Beijos purpurinados da Motoko.