CAPÍTULO TREZE: O FEIOSO DE OXFORD
Eu e Cassie ficamos acordadas até altas horas da madrugada, conversando sobre assuntos estúpidos que, pensando agora, não deveriam ocupar tanto do nosso tempo. Não raro fazíamos duelos entre os caras quentes e solteiros de Hogwarts e comparávamos suas qualidades ou ficávamos imaginando qual garota ganharia uma luta física contra Eliphadora Bulstrode, uma Sonserina com 1,75 cm de puro músculo. As discussões podiam ser realmente sérias, dependendo do assunto, e não raro apelávamos para consultores especializados, como gostávamos de chamar Alice Warren e Andrei Rachmanov, colegas de classe.
Assim, só fomos pregar os olhos quando estava perto do amanhecer e não foi nenhuma surpresa que tivéssemos acordado lá pelas 10h com a expressão de duas pessoas que haviam ressurgido dos mortos. Pentear o cabelo podia ser algo muito cansativo se você houvesse tido míseras 4 horas de sono.
Embora tivéssemos perdido o horário de ir para a cama, combinamos de acordar cedo para que Cassandra pudesse aproveitar o sol da manhã.
Colocamos nossos biquínis, ainda meio sonolentas, e descemos para a cozinha para preparar o desjejum. Mamãe, nossa salvadora, havia deixado panquecas prontas, de modo que tudo o que precisamos fazer foi servir uma poção e arrastar os pés para cima do sofá, onde comemos assistindo a uma reprise de As Panteras.
"Estou me sentindo tão filhadaputamente acabada." Murmurou Cassie ao meu lado, roendo um biscoito que achou no armário.
"A culpa é toda sua, na verdade." Disse, brincando com o xarope da minha panqueca. "Se você não tivesse insistido em continuar discutindo comigo sobre Gideon Prewett, estou certa de que poderíamos ter ido dormir muito mais cedo. Quem é que se importa com o fato de que ele consegue tirar um sutiã com uma só mão se ele ainda não aprendeu a manter uma conversa com uma garota sem encarar os peitos dela no processo?"
"Eu gosto de um cara safado às vezes." Cassie encolheu os ombros. Ela tinha prendido o cabelo num coque frouxo que mais parecia um ninho de passarinho e, ainda que tivesse lavado o rosto, não havia sido capaz de remover todo o rímel do dia anterior, de modo que ele ainda sujava um pouco a parte de baixo dos seus olhos.
"Você tem o viking." Rebati, revirando os olhos e fazendo uma careta. "E eu sei, embora não tenha pedido para saber, que ele é muito bem provido. Que Merlin me ajude a apagar tal memória."
Cassandra caiu na gargalhada. Ela vivia dizendo que eu era muito pudica.
A verdade é que eu talvez fosse um pouco pudica, sim. Não é que eu não quisesse experimentar todas aquelas coisas. Só não gostava de sair compartilhando a respeito delas. Tampouco gostava de ser obrigada a ouvir confissões sobre elas. Acho que a vida sexual de alguém devia ser algo mais privado do que as pessoas costumam fazer.
Além disso, eu tinha crescido com Alex e, mesmo que mamãe pensasse que não, eu o via como uma espécie de irmão mais velho. Não queria saber das suas habilidades com o sexo oposto, obrigada.
"Bem, você logo vai experimentar um bocado de ação quente." Cassie arqueou as sobrancelhas repetidas vezes, querendo insinuar JP, é claro. Na noite anterior, ela dava um jeito de fazê-lo se intrometer em todas as nossas conversas, mesmo aquelas que envolviam lição de casa. "Dizem as más línguas que James é muito experiente com as garotas."
Eu sabia por experiência própria quão deliciosamente persuasivo ele podia ser. Seu beijo mais parecia um buraco negro pronto para me devorar. E eu gostava de cada minuto daquela sensação.
O que não queria dizer que estivesse pronta para tirar as roupas. Afinal, sexo devia ser mais do que uma simples união de duas pessoas que mal se conheciam. Jamais daria tamanha liberdade a alguém com quem não me sentisse profundamente conectada. Podia parecer clichê, mas a verdade é que eu só achava que merecia muito mais do que uma foda rápida e um aperto de mãos.
"Desculpa, mas não estou pretendendo ter nenhuma espécie de ação quente no momento." Mordi os lábios, pensando nas minhas próprias palavras. "Não sou uma puta de esquina como você."
Cassie soltou um gritinho ultrajado, dando um tapa no meu braço, mas não conteve uma gargalhada. Ela sabia que eu raramente utilizava palavrões, por isso se divertia horrores quando eu falava um.
Antes que ela pudesse responder, porém, a campainha da porta tocou, fazendo-me abandonar os restos do café da manhã sobre a mesa de centro e me levantar. Provavelmente eram Alex ou Olívia, considerei, preguiçosa. Dado o horário em que o primeiro costumava vir, eu já pensava que eles demoravam muito para aparecer.
"Bom dia. Vocês..." Comecei a dizer enquanto girava a maçaneta e puxava a porta, liberando caminho. Apesar disso, as palavras morreram naturalmente em minha boca, que permaneceu escancarada, tão logo reconheci a identidade do recém-chegado.
"Olá, Lilyzinha."
Eric Gostoso estava parado na soleira da minha porta, dando aquele sorriso largo e de covinhas que fazia com que praticamente todas as mulheres do universo suspirassem (exceto Petúnia, porque Petúnia na realidade não é humana).
"E-e-eric." Disse, precisando me forçar a falar, embora não fosse capaz de conter o balbucio vacilante.
Eric sempre havia feito com que eu parecesse uma espécie de garota com um neurônio só. Geralmente, mesmo que me esforçasse muito para parecer natural, eu mal era capaz de lembrar meu próprio nome quando o tinha por perto.
Petúnia, como não poderia deixar de ser, adorava usar aquela fraqueza contra mim, colocando-me sentada ao seu lado durante os jantares para os quais ele era convidado, de modo que eu permanecia mais da metade da refeição envolta num silêncio sepulcral, que era rompido apenas pelos momentos de pânico quando eu virava o copo, derrubava os talheres ou mordia a parte interior da boca sem querer.
Como a própria alcunha já dizia, Eric Gostoso era lindo. E gostoso. Esplendorosamente loiro, com músculos nas medidas certas, 1,88 cm de altura, a pele deliciosamente morena, com uma barba rala cobrindo o queixo quadrado e que parecia fechar o cortejo com a maestria de uma obra de arte de Picasso. Seu cabelo parecia fios de ouro, do tipo que faria grande parte da população feminina babar.
Ele costumava ficar tão maravilhoso usando uma jaqueta de couro que uma vez mamãe até mesmo acotovelou sem querer o vaso que ficava sobre o aparador da porta, tamanho foi seu choque.
Sua reação era completamente compreensível, é claro, considerando que ninguém nunca estará devidamente pronto para abrir a porta para o Adônis sem ter sido previamente preparado para os efeitos que sua beleza devastadora poderiam causar. Chegava a ser pecado. Do tipo mais perturbador e delicioso, mas pecado.
"Lils, por que você está demorando..." Cassie surgiu ao meu lado e, como eu, interrompeu seu discurso no caminho. "Eric." Vocalizou, com o mesmo tom de reverência que eu.
"Ah, bom dia." Eric a presenteou com um largo sorriso que a fez agarrar meu braço com força, como se quisesse que eu a segurasse para que ela não pulasse sobre ele e o asfixiasse com seu amor. "Petúnia está?"
Embora Cassie sempre viesse me visitar nas férias de verão e, como Olívia, tivesse sido formalmente apresentada a Eric, eu logo soube que ele não se lembrava dela em absoluto, senão não teria hesitado em empregar seu nome.
Eric era o tipo de cara que não é muito inteligente, é verdade, mas que sabe exatamente tudo o que precisa fazer para conquistar uma mulher. Está perfeitamente consciente, por exemplo, do fato de que deve repetir seu nome várias e várias vezes durante uma conversa, de modo que ela esteja plenamente segura de que ele conhece sua identidade.
Petúnia detestava aquele hábito. Dizia que o tornava repetitivo e enfadonho. Eu, por outro lado, o considerava divino.
"Sim, é claro." Respondi enfim, depois de um curto segundo de silêncio, corando furiosamente. "Ela está lá em cima. Pode passar. Espere na sala." Tentei liberar caminho, mas tive que empurrar uma Cassie petrificada para o lado primeiro. "Nós vamos chamá-la."
Ele agradeceu com um sorriso enquanto tomava caminho para sala, percurso com que já estava familiarizado. Acomodou-se sobre uma das poltronas, o corpo bastante relaxado, estendendo a mão para agarrar o controle da televisão e mudar o canal.
Após tomar mais um momento para processar a situação, eu finalmente pude fechar a porta (e a boca). Logo depois, Cassie me arrastou escadas acima com uma fúria surpreendente, sussurrando freneticamente para si mesma que estava um desastre e que nem mesmo havia podido escovar os dentes.
Enquanto ela corria na direção do banheiro para tentar dar um jeito em sua aparência sonolenta, segui para o quarto de Petúnia, respirando fundo antes de bater na porta.
"Que que é?!" Ela perguntou, rabugenta, lá de dentro. "Tô ocupada. Cai fora, cabeção."
"Eric está aqui." Eu disse, mordendo o lábio. "Ele quer ver você, monstrenga."
Em resposta, houve apenas silêncio, o que me deixou na dúvida sobre o que fazer: repetir a informação ou descer para o térreo e informar a Eric Gostoso que Petúnia ainda estava dormindo? Detestaria ser o porta-voz das más notícias.
Para minha sorte, a porta se abriu antes que eu tivesse que tomar uma decisão.
Petúnia usava uma camisola de alças na cor verde e tinha prendido o cabelo num rabo de cavalo. Pelo cheiro de esmalte que vinha do seu quarto, podia apostar que estava envolvida no seu processo semanal de pintar as unhas, o que demorava horas, já que ela podia ser a pessoa mais indecisa do planeta quando se tratava de escolher uma cor.
"O que diabos ele quer aqui?" Ela indagou, bufando, e tirou uma mecha do cabelo do rosto usando a palma da mão, já que o esmalte ainda estava úmido em seus dedos.
Repentinamente mal-humorada, contive um resmungo de ultraje. Sempre havia me sentido particularmente chocada e incomodada com a maneira como ela o tratava. Com aquela aparência, Eric Gostoso havia nascido para ser venerado e apreciado, não maltratado como se fosse um pobre coitado ignóbil.
Com o tempo, porém, percebi que aquele era o motivo pelo qual ele se sentia tão atraído por Petúnia, afinal: porque Petúnia era capaz de mantê-lo sob rédeas curtas e nunca se mostrara estupidificada (mais ou menos como eu e Cassie) em sua presença. Na maioria das vezes ela até o chamava de "idiota".
"Tenho cara de quem sabe?" Resmunguei, apertando as sobrancelhas. "Se até hoje não descobri o que ele viu em você, não é agora que vou fazê-lo."
"Háhá." Ela me encarou com os olhos gélidos e uma expressão impassível. Era muito difícil aborrecê-la com minhas ironias. Era como se Petúnia já tivesse um receptor interno para elas. "Sai da frente, vai." Me empurrou para o lado, seguindo na direção das escadas. "Preciso me livrar dele rápido, porque Paige e Lucy vão aparecer em breve. Detesto babação de ovo em cima do meu ex."
Fiquei observando-a descer as escadas e, dando vazão à curiosidade, corri na direção das mesmas para tentar ouvir a conversa que se desenrolaria lá em baixo.
Quando éramos pequenas (e amigas), eu e Petúnia sempre nos sentávamos na metade superior do lance de escadas quando queríamos espreitar o que acontecia na sala sem sermos descobertas. Geralmente fazíamos isso quando papai e mamãe estavam assistindo a algum filme ou programa que não queriam que víssemos.
Não que eu me orgulhasse de espionar minha irmã, pensei, enquanto quietamente me acomodava e baixava a cabeça para poder enxergar por entre as frestas da proteção lateral da escada, mas eu realmente queria saber o que Eric Gostoso tinha vindo fazer ali.
"Oi, Petty." Ele se colocou de pé diante da sua chegada, um largo sorriso no rosto. "Você está linda."
Linda era um adjetivo muito forte para definir Petúnia, considerei, revirando os olhos. Ela tinha um nariz ligeiramente longo e era magra demais, no que me concernia. Além disso, seu excesso de bronzeado às vezes fazia com que parecesse uma travesti. Mesmo assim, seu cabelo a lá Farrah Fawcet em As Panteras despertava muita inveja, principalmente em Paige, que não tinha nenhum volume e precisava brigar com o cabeleireiro cada vez que resolvia adotar um novo corte.
"Você também está muito bem." Ela disse, impassível. "Jaqueta nova?"
"Ah, sim. A mulher do meu chefe me deu. Ela disse que eu fico muito bem com roupas de couro." Eric sorriu outra vez, encolhendo os ombros, parecendo acostumado com o fato de que ser mimado. "Senti saudades suas. Quis passar pra ver como você estava. Podemos sair pra tomar um sorvete. O que acha?"
"Tomar um sorvete?" Petúnia não escondeu uma careta, sentando-se na ponta do sofá. Cruzou as pernas, puxando a camisola para cobrir seu joelho. Mesmo assim, Eric acompanhou o movimento com uma expressão sedenta. "Quantos anos você tem, Eric?"
Ele franziu as sobrancelhas, incomodado.
"Você costumava gostar de sorvete, Petty."
"Isso foi antes." Ela gesticulou, enfadada. "Além disso, já faz um bom tempo que nós terminamos. Não esperava vê-lo de novo. Não me leve a mal, Eric, porque eu realmente gostava de passar o tempo com você, mas nós dois concordamos que você não podia me dar tudo o que eu queria. Ainda não pode. E eu estou noiva agora." Estendeu a mão, de modo a exibir seu exagerado e opressivo anel de noivado.
Eric empalideceu, sacudindo a cabeça, e inclinou o corpo para que pudesse pegar uma bolacha do pacote recém aberto por Cassie.
"Você só pode estar brincando, linda." Disse, dando uma mordida. "Eu pensei que seu relacionamento com aquele cara fosse algo passageiro. Só para me provocar ou algo assim."
"Bem, mas não é." Petúnia encolheu os ombros, indiferente. Logo se colocou de pé também, parecendo pouco disposta a levar a conversa adiante. "Sinto por fazer você perder seu tempo, mas acho que você deve ir agora. Preciso terminar de pintar as unhas." Seguiu na direção do hall e logo na direção da porta, abrindo-a.
Eric a seguiu com uma careta. A expressão em seu rosto deixava claro que ainda não acreditava que ela verdadeiramente fosse se casar com Vernon, algo pelo qual ninguém podia culpá-lo. Todos os dias eu acordava com o mesmo sentimento de incredulidade.
"Não faça isso. Não se case com ele." Pediu, o cenho apertado.
"Tarde demais, doçura." Ela disse, empurrando-o ligeiramente com a mão. "Talvez seja melhor se você apenas esquecer que eu existo, tudo bem?"
"Petúnia..." Ele se virou na sua direção, já na soleira da porta, pronto para discutir, mas Petúnia não lhe deu tempo, fechando a porta na sua cara.
Ela girou nos calcanhares, o semblante perfeitamente ilegível, como se não estivesse nem um pouco abalada, e, erguendo o rosto, me pegou no flagra.
"Como diabos você pode preferir Vernon a Eric?" Indaguei, a boca escancarada, sacudindo a cabeça, pouco preocupada em fingir que não estava bisbilhotando.
"O sexo nunca foi tão bom assim." Petúnia encolheu os ombros outra vez, indiferente, e começou a subir as escadas. "Se eu preciso ter dois perdedores inexperientes na minha cama, que eu pelo menos fique com aquele que me dá dinheiro. Eric é bonitinho, é claro, mas dá muito trabalho espantar as mulheres de cima dele. E pelo menos eu sei que Vernon sempre vai ser fiel. Como você vê, eu penso com a cabeça, não com a vagina, irmãzinha." Deu um tapa ligeiramente dolorido sobre minha cabeça enquanto passava por mim.
Suspirei, precisando admitir que não podia competir com aquele nível de sinceridade. A verdade é que Petúnia gostava de planejar as coisas e havia escolhido Vernon dentre uma série de pretendentes. Por algum motivo misterioso, os caras faziam fila para namorá-la.
Isso sempre me fazia pensar no que estava acontecendo com a minha vida, já que eu particularmente me considerava mais atraente.
Provavelmente não era questão de aparência, mas de personalidade. Petúnia era segura de si e sabia exatamente como tratar um homem a fim de fazê-lo se curvar e lamber seus sapatos. Eu, por outro lado, às vezes mal podia pensar com coerência. JP sem muito esforço levava minhas defesas abaixo.
Levantei, disposta a seguir para o quarto e me enrolar nos lençóis outra vez, mas, quando estava na porta, Cassie enfim saiu do banheiro, maquilada e perfeitamente penteada.
"Ele ainda está lá?" Indagou, ansiosa, mexendo na alça do vestido que havia escolhido.
Arqueei uma sobrancelha, mais reconfortada por saber que eu não era a única a sofrer dos efeitos da demência mental provocada pela presença de Eric Gostoso.
"Ele já foi há eras, sister." Anunciei, seca, adentrando no cômodo e me jogando na cama. "Petúnia o chutou como chuta um sapato velho." Confessei, com um suspiro.
"Que droga!" Grunhiu Cassie, soltando o cabelo, e se atirou na cama auxiliar, escondendo o rosto no travesseiro. "Não é que eu estivesse esperando que nós fôssemos namorar ou coisa assim, mas Eric é tão bonito de se olhar..." Admitiu, com um gemido. "Quer dizer, Alex é gostoso, forte e eu realmente gosto dele, só que Eric é o tipo de cara que você pode passar horas admirando sem se cansar. Eu realmente estava precisando disso."
"Compartilho o sentimento." Confessei. "Talvez nós devêssemos procurar Olívia, fazer uma Cuba Libre e sentar na varanda para falar sobre nossos sentimentos. Sempre funciona."
Falar sobre nossos sentimentos era a metáfora que usávamos para fofoca. Geralmente começávamos a conversa discutindo sobre algo que verdadeiramente nos incomodava, mas no final terminávamos o dia com comentários depreciativos sobre o QI de Bettie e Lucy, as amigas idiotas de Petúnia.
Consciente daquela verdade cruel, Cassandra aquiesceu, séria.
"Vamos nessa."
Cerca de meia hora depois, estávamos jogadas em espreguiçadeiras no pátio traseiro da casa de Olívia, virando freneticamente páginas de revistas de moda e discutindo sobre a nova tendência de jaquetas com franjas. Paige havia sido a primeira aparecer com uma delas e não é preciso falar que, embora ela acreditasse estar arrasando corações, seu modelito só me fazia pensar em pegar uma tesoura.
"Como estamos com os preparativos para o aniversário da Lily?" Cassie indagou para Olívia, mordiscando a tampa da caneta que usava para rabiscar os rostos das modelos com chifrinhos e dentes careados em azul. Ela adorava canetas. Comprou uma coleção delas quando viu uma pela primeira vez. Quase chorou quando eu disse que ela não seria bem vista se as utilizasse em Hogwarts. Para compensar, nas férias de verão passava o tempo inteiro rabiscando coisas, inclusive minha cara, quando eu pegava no sono. "Onde vamos fazer a festa este ano?"
Usualmente costumávamos nos revezar com relação à recepção, mas era muito mais fácil dar uma festa na casa de Alex, cuja mãe nunca estava em casa, ou de Isabelle e Lauren, que normalmente conseguiam tudo o que queriam do pai, do que na minha ou de Olívia, porque seriamos constantemente vigiados por adultos.
"Alex já ofereceu sua humilde residência." Informou Olívia, distraída, virando uma revista para que pudéssemos ver uma mulher usando um black power. "O que vocês acham? Será que eu ficaria bem com uma permanente?"
"Por favor, não." Cassandra pareceu horrorizada por um momento, o que me fez cair na gargalhada. "Você tem um cabelo maravilhoso, Ollie. Não cometa tal crime consigo mesma."
Antes de apresentá-las, sempre achei que Cassandra e Olívia não fossem se dar bem. A verdade é que elas eram parecidas, apesar da enormidade de dinheiro que as dividia, e eu tinha para mim que pessoas muito semelhantes tinham tudo para dar errado, mas as duas se entenderam como mágica tão logo trocaram um aperto de mão e dois beijinhos.
Olívia a princípio se sentiu ligeiramente enciumada da nossa relação, como se eu estivesse sendo roubada por Cassie. Assim que entendeu que eu havia trazido Cassie para somar em nossa relação, porém, tudo fluiu como a correnteza de um rio. A despeito do fato de que ela ainda não havia sido informada sobre nossa natureza mágica, nunca deixávamos Olívia de fora das fofocas da escola. Ela mesma tinha formado fortes opiniões sobre a tendência que Amos Diggory tinha de trocar de namorada a cada seis meses.
Por um lado, a sensação de saber que meu lado trouxa estava preservado era maravilhosa, porque aquele era um mundo para o qual eu podia correr quando sentia que a realidade estava muito pesada. Por outro, ter consciência de que uma das minhas melhores amigas jamais descobriria sobre uma grande faceta do meu dia a dia parecia bastante triste.
Não imaginava como Cassandra deveria se sentir, beijando a boca de um trouxa e precisando deixar seu passado mágico de fora daquele relacionamento.
"Cassie está certa, o que não acontece todo dia." Disse, desviando com uma curta risada da tampa da caneta que ela jogou na minha direção. "Nós sabemos que certos penteados andam em alta ultimamente, mas isso não quer dizer que eu preciso ir até o salão de beleza mais próximo e fazer um moicano."
"Você ficaria positivamente horrorosa." Comentou Cassandra. A verdadeira sinceridade em sua voz fez com que eu levantasse o dedo do meio na sua direção. "O quê? Você ficaria mesmo, ora essa."
"Queria tentar algo diferente para meu encontro com Sebastian." Confessou Olívia, suspirando. Jogou a revista sobre a pilha de outras revistas que estavam sobre uma mesa próxima a nós. "Ele vai vir para o aniversário da Lily e estou com medo de precisar competir com Lauren."
"Lauren não vai tentar roubar seu namorado." Garanti, sacudindo a cabeça. "Lauren nunca fez o tipo que trocava amigas por homens."
O que não queria dizer que os homens não trocassem as namoradas por Lauren, pensei, embora tivesse preferido não compartilhar meus pensamentos em voz alta. Olívia já se sentia insegura o suficiente com relação a Sebastian e não havia porque alimentar seus temores.
"Você podia, sei lá, não convidar Lauren, talvez?" Sugeriu Olívia, esperançosa.
"Não vai rolar, não." Neguei com um curto movimento. "Sinto muito, mas nunca trocaria Lauren por uma pessoa que não conheço, nem mesmo se for seu pretendente. Além disso, nós já havíamos discutido sobre isso. Você convidou Sebastian porque quis. Desde o começo eu falei que ainda achava ser muito cedo para apresentá-lo para seus amigos."
Eu podia não amar Lauren como amava Olívia, Cassandra e Alex, mas isso não queria dizer que achava tudo bem colocá-la de lado. Ter Lauren ao redor sempre era divertido, principalmente quando ela nos presenteava com uma das histórias bizarras que faziam parte do seu interminável estoque de novas experiências.
Além disso, excluir Lauren significava excluir Belle e, consequentemente, Leonard, já que ambos estavam possivelmente namorando.
"Você é tão má, Lily." Olívia me encarou com uma careta, mostrando a língua.
"Desculpa, mas eu sou mesmo." Encolhi os ombros, rindo.
"Seu namorado podia contrabandear algumas bebidas." Sugeriu Cassie, chamando nossa atenção. Ela se endireitou sobre a espreguiçadeira, brincando com a caneta. "Desde a penúltima festa, onde Leo passou mal com o absinto que Belle roubou do Sr. McKenzie, a Sra. Evans tem mantido uma marcação cerrada sobre nós. Aposto que vai verificar os armários do tio antes da gente sair, só pra garantir que não surrupiamos nada."
Na maior parte das vezes, mamãe entendia que o álcool era presença confirmada em uma festa de adolescentes. Ela não gostava, mas não se opunha, desde que eu demonstrasse ser responsável. Em troca, nunca voltei bêbada para casa. Quando ocasionalmente exagerava, ficava com Cassie ou escalava a árvore para a minha janela, onde conseguia passar despercebida até curar o pior da ressaca.
O fato de descobrir que Leo passou mal a deixou furiosa. Ela inclusive considerou me impedir de beber. E admito que uma proibição daquela estava em seu direito e fazia todo o sentido, considerando sua posição de autoridade, mas eu não seria hipócrita de fingir que a seguiria para sempre. Uma bebidinha sempre caía bem com o verão.
"Até que você é inteligente, Willer." Comentou Olívia, levando a mão ao queixo. "Vou ver o que ele pode fazer sobre isso. Também já encarreguei Belle de convidar o pessoal da rua de baixo. Acho que Mia e Scott confirmaram presença. Falando nisso, Lily, eu te contei que Mia finalmente aceitou que Scott a levasse para sair?"
"O quê?" Eu a encarei, chocada. "Quando isso aconteceu? Achei que Mia fosse virar homossexual antes de aceitar sair com Scott."
"Eu também não sei detalhes." Admitiu Olívia. "Eu me encontrei com Raphael e Leona ontem à noite, enquanto ia para a sorveteria com Alex. Eles estavam comentando qualquer coisa sobre Scott ter quebrado o nariz do último namorado de Mia. Aparentemente, ele foi grosseiro com ela ou coisa assim. O que o amor não faz com um nerd, não é mesmo? Tudo bem que Scott acabou com dois olhos roxos, mas levou a garota no final da história."
Raphael, Leona, Molly, Scott e Mia eram o Alex, Lily, Olívia, Isabelle, Lauren e Leonard da próxima rua. Nós todos nos conhecíamos, havíamos ido juntos para o maternal, mas não costumávamos mais sair, exceto para ir às festas um do outro. O que não queria dizer que não compartilhávamos fofocas quando nos esbarrávamos.
Era muito provável que eles já estivessem cientes de que eu estava saindo com JP, o novato, por exemplo, e de que Louis havia sido expulso de casa porque sua nova namorada era uma ladra. Isso era engraçado e ao mesmo tempo esquisito, porque era como se tivéssemos uma relação à distância, quando na verdade morávamos a poucos metros uns dos outros.
"Uau." Cassie arregalou os olhos. "Eu nunca imaginaria que aquele Scott se disporia a lutar por alguém. Ele me disse que tem medo de gatos. Sério, quem tem medo de gatos?"
"Não posso dizer que também não fui pega de surpresa." Admiti, arqueando as sobrancelhas. Pensei em como seria sua relação. Mia era muito segura de si e Scott não tinha a menor gota de autoestima. Aquele relacionamento tinha tudo para dar errado. "Isso vai ser engraçado de se ver."
"Nós podíamos fazer uma competição de casais." Sugeriu Cassandra então, dando um soquinho na palma da mão. "Eis uma coisa que nunca fizemos. Algo como uma gincana, mas com duplas formadas por membros do sexo oposto. Seria ótimo."
"Waaa, é muita pressão em cima do pobre Sebastian." Olívia quicou na cadeira, mordendo o lábio inferior, uma expressão ansiosa. "Vocês acham que ele toparia? Vocês acham?"
"Como eu vou saber? Eu nem sequer o conheço." Respondi, contendo um bocejo. "Somos nós quem deveríamos estar fazendo perguntas como essa."
Na meia hora seguinte, como se querendo provar que conhecia o suposto amor da sua vida melhor do que ninguém, Olívia elencou todas suas qualidades e história de vida para Cassandra, que fingia estar prestando atenção, mas na realidade parecia muito mais entretida em sua tarefa de desenhar pelos pubianos na foto de John Travolta, que posara vestido como Tony Manero, de Os Embalos de Sábado à Noite.
Fomos chamadas para almoçar logo depois, o que inconscientemente nos livrou daquele martírio, e nós comemos enquanto debatíamos sobre as mudanças dos Jackson 5, que recentemente haviam trocado seu nome para The Jacksons. A Sra. Strauss adorava a banda, principalmente Dancing Machine, música que ficou conhecida pela dança de robô de Michael, e ficou triste ao saber da saída de Jermaine, que ficou com a antiga gravadora e que foi o motivo para a troca do nome do grupo.
Michael era definitivamente o melhor cantor e, é claro, o melhor dançarino do grupo. Papai vivia dizendo que se tentasse imitá-lo provavelmente quebraria uma costela ou algo assim.
"Oh, baby, give me one more chance..." Eu cantarolei a letra de I Want You Back, piscando para a Sra. Strauss ao ajudá-la a tirar a louça da mesa.
Ela sorriu enquanto estendia generosas fatias de bolo de morango na nossa direção.
Comemos na sala, ainda discutindo sobre a festa, e, quando eu e Cassie resolvemos ir para a casa, no final da tarde, já havíamos cuidado de todos os detalhes que ainda faltavam. Com Sebastian se encarregando de nos trazer bebida, metade dos nossos problemas havia sido solucionada. Olívia iria a Londres com a mãe no dia seguinte e se encarregaria de comprar os balões e demais decorações.
Como sempre, Cassandra se incumbiria do bolo. Embora ela houvesse crescido numa casa recheada de elfos domésticos, adorava cozinhar. Dizia que era uma tarefa relaxante. Suas tortas eram memoráveis.
Aquele era possivelmente seu único dote, já que para todas as demais tarefas domésticas era um absoluto desastre. Uma vez havia tentado limpar uma sujeira da minha saia e acabou pulverizando metade do tecido com um feitiço mal executado. Tirando que, quando tentava fazer com que os objetos voltassem magicamente para seus lugares em nosso dormitório, tudo acabava enlouquecendo e terminávamos a noite juntando penas e pedaços de folhas rasgados pelo chão.
Alice, que dividia o dormitório conosco, chorou por horas quando descobriu que Cassie havia derrubado tinta sobre as cartas que ela havia recebido de Frank Longbotton, seu (muito gostoso) namorado, que recentemente havia entrado para a Academia de Aurores.
"Olívia está passando um pouco dos limites com Sebastian, não está?" Indagou Cassie, enrolando uma mecha do cabelo no dedo. "Sempre fico com medo quando ela começa a agir como uma fanática."
A tarde já se punha, com o sol se escondendo atrás das casas. Havia sido bom passar um dia com as garotas, fofocando e conversando sobre banalidades, embora uma parte minha, uma parte bem estúpida, aliás, não pudesse deixar de pensar no que James estaria fazendo.
"Nem me fale." Sacudi a cabeça, suspirando. "Sei que essa obsessão vai acabar em desastre." Afinal, quase todos os relacionamentos de Olívia terminavam em lágrimas.
Já perto da minha casa, encontramos com Lauren e Isabelle, que recém dobravam a rua, sambando sobre suas sandálias de plataforma mais altas do que seria medicamente aconselhado. Lado a lado, de braços dados e um ar de riso no rosto, suas semelhanças eram muito óbvias.
Sacudindo a mão livre com animação, foi Lauren quem nos viu primeiro. Ela adorava Cassie. Ou melhor, ela adorava a boca suja de Cassie. Nem Louis era capaz de falar tantos palavrões num curto espaço de tempo (nós cronometramos uma vez).
"Cassie, linda, você está aqui!" Ela se adiantou para abraçar a loira, a.k.a. sua confidente sobre sexo. Naquele dia, seu cabelo escuro estava preso num coque firme e ela usava uma calça jeans boca de sino e um top de camurça, expondo toda a barriga. Sra. Walter ficaria horrorizada com sua escolha de vestuário. "Estávamos indo procurar por vocês, garotas. Estamos pensando em fazer uma reuniãozinha lá em casa esta noite, algo só para os mais chegados. Preciso contar as últimas fofocas."
Concordei com um movimento de cabeça, trocando o peso da perna. Se Belle estava certa com relação às últimas informações que passara, Sirius era página virada na sua vida. Logo, ela deveria ter um novo companheiro de foda. Mal podia ver a cara de Black quando descobrisse. Mesmo que não gostasse dela, ele ficaria surpreso com a velocidade com que fora esquecido.
"Pode ser divertido." Aquiesci, fitando Cassandra, que concordou com um sorriso. "Nós precisamos apenas tomar uma ducha e trocar de roupa. Você já falou com Alex, JP e o resto dos rapazes?"
"Sim." Belle rolou os olhos. "Você acredita que Alex convenceu todos eles a jogarem rúgbi na pracinha hoje à tarde? Quando chegamos, estavam esparramados na grama, cheio de arranhões e sujos dos pés à cabeça. Posso imaginar que a tentativa tenha sido um desastre."
Cassandra entreabriu os lábios, surpresa. Ela adorava ver Alex se exercitar.
"Oh, teria trocado nossa tarde girl power por isso." Comentou, com um suspiro. "Você há de convir, Lauren, que ver um bando de garotos suados e sem camisa parece muito mais atrativo do que ouvir Olívia falar sobre seu novo amor para a vida toda." Piscou, o que fez a própria Lauren rir.
"Ollie tem um novo amor para a vida toda?" Perguntou Belle, surpresa. "Eu achei que ela ainda não houvesse superado Clive. Ela contou para você sobre Clive, Lils?"
"Não." Franzi as sobrancelhas, revirando aquele nome em minha memória. Possivelmente pertencia a algum garoto com quem ela tinha se relacionado durante o período escolar. Belle e Olívia podiam não estudar no mesmo lugar, mas costumavam conversar com frequência, já que metade do grupo deixava a cidade durante o período letivo. "O que deu errado?"
Belle encolheu os ombros, arrumando a infinidade de pulseiras que trazia no pulso.
Como Lauren, usava uma calça jeans boca de sino, com uma boca de sino ainda maior que a da irmã, mas optara por uma blusa de alcinha cheia de glitter prateado, de modo que todo aquele brilho quase poderia cegar alguém se batesse um raio de sol sobre o tecido.
"Acho que Clive trocou ela por outra." Disse. "Não sei muitos detalhes. Talvez você devesse perguntar para ela."
Concordei com a cabeça, embora soubesse que não o faria. Quando Olívia terminava com um rapaz, ela chorava durante semanas e logo o enterrava em algum lugar da sua mente, nunca mais citando seu nome de forma romântica outra vez. Como Remus, Clive era passado e não havia porque reviver aquilo outra vez.
"Bem, vão fazer o que tem que fazer e nós nos encontramos logo." Instruiu Lauren, sacudindo a mão.
Quase uma hora depois, nós batemos na porta da residência McKenzie. Havia um alto falatório lá dentro. Podíamos escutar a voz de Alex cantando (muito mal e porcamente) Fly to The Rainbow, do Scorpions, sinal de que os rapazes provavelmente já haviam chegado.
Foi ele quem abriu a porta, aliás, segurando uma fatia de pão.
"Ei." Seu olhar se fixou diretamente em Cassie, que mordeu o lábio, sem esconder a excitação. Alex e Cassandra podiam acreditar serem invulneráveis um ao outro, mas é verdade é que se derretiam como manteiga sob o sol sempre que estavam próximos. Era bonitinho de se ver, embora paradoxalmente irritante. "Senti sua falta."
"Eu também." Ela disse, as bochechas coradas. "Sinto por demorar tanto. Meus avós me obrigaram a ficar para o aniversário da minha prima."
Olhei de um para o outro, surpresa pela maneira como propositalmente havia sido ignorada. Com um suspiro, empurrei Alex para o lado, liberando a passagem, e adentrei a casa sem olhar para trás. Seria melhor lhes dar alguma privacidade.
Encontrei o pessoal reunido na cozinha. Lauren, para minha surpresa, estava fritando alguns hambúrgueres, algo inédito até então. Ela sempre passara a quilômetros luz de uma cozinha.
Inconsciente do que representava aquele milagre, Sirius, Peter e JP estavam sentados nos bancos altos em frente ao balcão de mármore, observando-a colocar em prática seus dotes culinários, enquanto Louis e Belle estavam encostados na parede, conversando (o que parece um modo educado de dizer: "devorando o rosto um do outro").
"Lily, você chegou!" Disse Lauren, cumprimentando-me com a escumadeira, o que fez com que todos os rostos se virassem na minha direção.
Segui para onde James estava, sem esconder certa ansiedade. Mesmo que a parte lógica de mim detestasse a consciência de que estava com saudade, a verdade é que eu estava com saudade e nada iria mudar isso, nem mesmo meu orgulho ferido. Talvez eu realmente estivesse me tornando uma molenga apaixonada. Merda.
"Olá." Cumprimentei, passando rapidamente os olhos por Sirius e Peter, que sorriram na minha direção, e me deixei ser abraçada por JP. Estar entre seus braços fez os pelos do meu braço se arrepiarem, como se estivéssemos fazendo algo muito mais excitante do que trocar um simples abraço. "Qual o motivo de Lauren estar cozinhando hoje à noite? Foi predito algum apocalipse para amanhã?" Indaguei para ninguém especial, deixando que a boca de James baixasse contra a minha por um curto segundo. Meus lábios explodiram em faíscas ao contato com os dele.
"Ela disse que precisava treinar." Sirius arqueou uma sobrancelha, fitando Lauren com um ar de riso. Com sua roupa de patricinha, ela definitivamente não combinava com um fogão.
"Treinar para quê?" Questionei, sentindo o nariz de JP deslizar pelo meu pescoço.
"Ela está apaixonada." Explicou James, plantando um beijo ao pé do meu ouvido, o que fez meu coração acelerar. Não objetei quando ele desceu do banco, envolvendo minha cintura com os braços, demonstrando muito mais intimidade do que eu gostaria. "Onde você esteve o resto do dia?" Indagou, baixinho, subindo uma mão pela base da minha coluna.
Mordi o lábio. Seu toque era quente e áspero na medida certa e quase me fazia suspirar.
"Eu estava com as garotas." Murmurei, preferindo não entrar em detalhes. Não queria ser o tipo que achava que tinha que explicar tudo o que acontecia em sua vida para sua suposta cara metade. Virei-me para Lauren, franzindo as sobrancelhas. Eu sabia que ela estava pegando um cara, mas não sabia que ela estava apaixonada. Aquela quase era uma palavra que não combinava com Lauren. "Que papo é esse de que você está apaixonada?"
Lauren vacilou, franzindo o cenho, e tirou dois hambúrgueres da frigideira, levando-os para uma travessa.
"Não é que eu esteja apaixonada." Corrigiu, incomodada. "É só que... Eu saí com um cara. E realmente gostei dele."
"Você está brincando." Ergui as sobrancelhas.
"Não, é verdade. Estou falando sério." Ela resmungou, incomodada por ser o centro das atenções, jogando o cabelo para trás do ombro. Voltou a atenção para mim, que tentava fugir do abraço de ferro de JP, curiosa. "Ele é de Oxford. Faz engenharia. Nós nos conhecemos num bar nas férias. Conversamos durante horas. E foi incrível. Só que ele é... Sabe, feio. E do tipo caseiro."
Continuei a encará-la, incrédula.
Havia uma espécie de homens predefinida com quem Lauren saía: bonitos e baladeiros. Dizia que não se envolvia com os mais parados porque não queria que eles se apaixonassem por sua personalidade irreverente. Linda como era, também nunca se fizera necessário que se relacionasse com alguém que não estivesse à sua altura no quesito aparência.
Era um choque que ela tivesse se permitido deixar os estigmas para lá. Quase fazia com que eu me sentisse melhor por ceder à deliciosa persuasão de James, a despeito do nosso passado turbulento e do que um possível relacionamento entre nós significaria para minha autoridade em Hogwarts.
Estávamos num verão de mudanças.
"Nossa." Eu disse, por falta de palavra melhor. "E vocês pretendem continuar saindo?"
"Yeah, eu acho." Ela hesitou, mordiscando o lábio. Desligou o fogão, abandonando o talher que segurava, e respirou fundo. "Eu dei meu número para ele. Eu nunca dou o meu número. Pra melhorar, o idiota ainda não me ligou. Sinto que vou vomitar com toda a expectativa. Estou realmente fodida."
Sirius riu, sacudindo a cabeça em negativa, e saltou do banco para que pudesse abraçá-la pelo ombro, numa tentativa de fazê-la relaxar.
"Vamos lá, Laurie, não fique tão preocupada." Falou, a voz bastante tranquila. "Ele não seria idiota de não telefonar. Qual é, quando no mundo ele conseguiria uma garota como você?"
"Talvez ele esteja com medo." Apontou Peter, desconfortável, brincando com um guardanapo. "Lauren é muito bonita. Ele pode ficar inseguro para entrar em contato outra vez. Talvez imagine que ela esteja fazendo alguma piada ou mesmo imagine que não a mereça. Você ficaria surpresa com a quantidade de vezes que as garotas populares enganam caras como nós."
Todos nós o encaramos, surpresos. Nenhum de nós parecia ter considerado aquela possibilidade.
Sirius, JP e Lauren eram muito bonitos e eu estaria mentindo se dissesse que me achava feia. Essa consciência nos garantia certa segurança. Não estávamos acostumados a ser ludibriados ou passados para trás. A verdade é que o mundo era um lugar mais fácil para as pessoas bonitas, assim como era um lugar mais fácil para os sangue puros na sociedade bruxa.
"Você pegou o telefone dele?" Perguntei, em dúvida.
"Sim, mas..." Lauren hesitou outra vez. Voltou-se para Sirius, como se ele fosse seu guru da mente masculina. "Será que eu devo telefonar? Nunca telefonei para um homem em toda a minha vida. Isso não me faria parecer desesperada?"
Sua incerteza me fez rir, porque a deixava um pouco engraçadinha. Era como se Rod Stewart tivesse uma crise de insegurança a respeito da própria voz.
"Acho que você deveria tentar." Garantiu JP, arrumando os óculos sobre a ponte do nariz, um ar sério. "Se você realmente gosta dele, eu digo. Você vai precisar deixar o orgulho de lado. Eu nunca teria convencido Lily a ficar comigo se tivesse desistido diante da primeira adversidade." Fitou-me com carinho, abrindo um pequeno sorriso torto.
Corei, desconfortável por ter a atenção de todos sobre mim.
"Parem de me olhar desse jeito, idiotas." Reclamei, empurrando James, que riu. Não seria hipócrita de dizer que não adorava quando ele falava coisas românticas. Mesmo assim, ainda me sentia terrivelmente embaraçada diante das suas demonstrações públicas de afeto, como se ele estivesse cometendo um pecado capital. "Use a sabedoria deste imbecil aqui." Disse para Lauren, apontando para JP, tentando tirar o foco do nosso relacionamento. "Você vai se arrepender se não se arriscar."
Ela aquiesceu, pensativa, mas aceitando nossa sugestão.
"Vamos deixar meu drama romântico para mais tarde. Comida primeiro, paixão depois." Disse, indicando os hambúrgueres recém fritos. "Vamos jantar!"
Levamos a comida e os pratos e talheres para a mesa da sala de jantar, acomodando-nos de modo desajeitado. Notando a movimentação, Alex e Cassie logo vieram nos encontrar, ambos muito corados e com os lábios inchados, o que denunciava que estiveram se beijando até então. Nenhum de nós fez comentários sobre seu clima de romance. Não é como se tivéssemos moral para piadas.
Leo, que vinha puxando Belle pela mão, acomodou-se na cabeceira da mesa, fazendo questão de se servir antes dos demais. Havia fumado antes de chegar à casa das McKenzie, de modo que estava faminto.
Jogamos mímica depois de comer, mas perto das 22h anunciei minha necessidade de ir para casa. Mamãe não gostava que eu saísse sem avisar, o que eu totalmente tinha feito, e não queria levar outro sermão sobre pontualidade e responsabilidade, obrigada. Não era bom abusar da sua boa vontade. Um castigo já havia sido o bastante.
JP se prontificou a me acompanhar, com Cassandra prometendo me encontrar mais tarde, e nós deixamos a casa de Lauren e Isabelle cerca de dez minutos depois.
"Sabe," comecei, um pouco timidamente, enquanto caminhávamos lado a lado, relutante, porém precisando admitir a verdade. "parte minha fica feliz por você ser um idiota tão persistente."
Não é que todos aqueles anos de torturante perseguição houvessem sido bons, mas se James tivesse desistido de me conquistar, nunca poderíamos vivenciar o que vivenciamos naquelas férias.
"É mesmo?" Ele se virou para me olhar, um sorriso traquinas no rosto, os olhos esverdeados brilhantes mesmo na parcial escuridão da noite. Agarrou minha mão, o que não havia feito até então, acariciando-a com seu polegar. "Fale mais sobre isso." Pediu, divertido.
"Cala a boca." Soquei seu braço, corada pelo seu tom sabe-tudo.
Minha reação o fez rir (James raramente era capaz de me constranger antigamente, mesmo com suas tentativas de sedução mais explícitas). Parando de andar, ele se voltou na minha direção e me puxou contra si, abraçando-me com força. Escapar do seu aperto seria impossível. Não que eu houvesse tentado.
"Você não é tão ruim, afinal." Murmurei, com um beicinho, intimidada perante a verdade.
"Oh, um elogio." Apontou JP, num gracejo. "Estamos fazendo progressos."
"James." Revirei os olhos. "Eu só... Eu gosto de você."
Aquela provavelmente havia sido a confissão mais sincera que havia feito para ele até então. Dizer que eu gostava de James era como dizer que ele havia vencido, afinal. Significava que eu estava jogando a toalha e desistindo de resistir. Dali adiante, qualquer desdobramento que houvesse em nosso relacionamento seria bem-vindo.
Já havia o apresentado para meu pai, de qualquer maneira, e não era como se ele fosse notícia nova. Desde que continuássemos daquela maneira, sem pressa, não havia porque privar a mim mesma de uma boa experiência. O velho James Potter já não existia e não era novidade que eu realmente gostava daquela nova pessoa a quem havia sido apresentada.
"Eu sei, linda, eu sei." E ali, sob o poste, com os braços enrolados ao meu redor e com seu delicioso perfume invadindo minhas narinas, ele me beijou.
N/A:Eu sei, gente, que tivemos pouco Jily neste capítulo, mas, como estamos chegando ao final, precisei usá-lo para começar a dar encerramentos dignos para nossos coadjuvantes. Gosto de pensar que criei um bom ecossistema para inserir a Lily, hahahahah, e cada parte precisa do seu desfecho, ora essa. Ainda vamos ver um pouco de Cassie e Alex no próximo capítulo, assim como finalmente vamos conhecer Sebastian, porém o foco vai estar mais em nosso casal principal.
Gosto de trabalhar com os amigos da Lily, porque Como uma Ninfa é mais do que um romance, é também a história de um verão que envolvia um grupo de pessoas. Costumo achar muito supérfluas fanfics em que vemos apenas os mocinhos. Gente, existe um mundo ao redor deles, ok? UHaehahue. Não quero fazer da Lily e do James aquele tipinho de amigo que TODO MUNDO tem, que começa a namorar e desaparece do mundo. O-D-E-I-O (mas já tive).
A ideia é terminar no capítulo quatorze, embora não esteja certa de que seja capaz de fazê-lo em uma só parte. Vou ver como vai ficar o andamento da história. By the way, ele vai se chamarQuando um Garoto Ama uma Garota e estão previstas algumas cenas que farão diabéticas correrem para sua injeção de insulina.
Obrigada a todos os que acompanharam e comentaram e espero ter recepção semelhante neste capítulo 13 :)
A propósito, aviso desde já que, embora muito triste, é improvável que o último capítulo venha antes do final do mês, pois estou envolvida num projeto até o começo do mês que vem e até lá estou com horários de vida social e hobbies reduzidos.
Super beijo da Motoko.
