CAPÍTULO QUATORZE: QUANDO UM GAROTO AMA UMA GAROTA
O DIA DO ANIVERSÁRIO DA LILY CHEGOU!
Sim, eu falo comigo mesma em terceira pessoa às vezes, quando estou empolgada. Não posso fazer nada se, no fundo, sou um clichê. Quem é que não gosta de saber que vai ser o centro das atenções dos pais durante as próximas horas? Qualquer pessoa com um irmão sabe como isso pode ser importante.
Cassie me acordou com um gritinho e muitos beijos. Ela ficava doce como açúcar quando Alex estava por perto, tão romântica e melosa que seria capaz de causar dor de estômago em qualquer mortal desavisado, e se transformava numa beijoqueira. Tudo era motivo para beijos, mesmo que seu excesso de liberdade fosse muito inadequado. Eu poderia tolerar alguns abraços, mas não era do tipo que apreciava demasiado contato físico. Exceto se ele viesse de James (pra que negar a verdade, não é mesmo?).
Empurrei Cassie, que havia pulado sobre meu colchão, de modo que ela rolou de volta para a cama auxiliar com um gemido.
"Que caralho, Cassie! Quer me matar de susto?" Resmunguei, sonolenta, sentando-me. Olhei ao redor. A janela já havia sido aberta e raios de sol adentravam o cômodo através das falhas da cobertura da copa da árvore. "Que horas são?"
"Oito horas!" Ela se colocou de pé, pulando sobre os lençóis. Seu cabelo loiro estava um absoluto pandemônio. "Êêê, parabéns, Lily! Agora você é oficialmente uma bruxa maior de idade!"
Estava pronta para dar uma resposta mal-humorada, irritada por ter sido acordada, quando assimilei o fato de que, sim, agora, pelas leis da magia, eu era maior de idade e não havia nada que me impedisse de usar feitiços para colocar a bagunça do meu quarto em ordem. Aleluia, irmãos!
"A comida está pronta?" Indaguei, esfregando os olhos, ansiosa pelo meu café da manhã especial.
"Sim!" Ansiosa, Cassie correu para sua mala a fim de trocar de roupa. Como eu, ela havia aprendido a apreciar os dotes culinários de mamãe e ficava ansiosa pelas ocasiões especiais em que tínhamos acesso às suas famosas panquecas de mirtilo. "Tio Henry bateu na porta agora há pouco. Ele nos mandou descer para que possamos comer todos juntos."
Concordei, bocejando, enquanto me colocava de pé com uma longa espreguiçada.
Papai e mamãe chegavam mais tarde em seus trabalhos sempre que meu aniversário (e o, blergh, de Petúnia) caía em um dia de semana, de modo que fizemos do desjejum em família uma tradição ao longo daqueles anos. Geralmente, antes que eu começasse a sair com Alex, Olívia e o resto do pessoal, nós também costumávamos jantar juntos em algum lugar especial. Comemorar com os amigos, porém, logo se mostrou ser muito mais atrativo, dado que eu só os via durante as férias de verão.
Descemos as escadas cerca de cinco minutos depois, muito empolgadas e ainda descabeladas.
Levantando-se de suas cadeiras, onde já estavam acomodados, papai e mamãe me receberam com um generoso abraço e algumas lágrimas, felicitando-me pela maioridade. Eles ainda consideravam estranho o fato de que, aos 17 anos, eu era considerada legalmente madura pelas leis da magia, mas acabaram por aceitar após concluir que não havia nada que pudessem fazer para mudá-lo.
Petúnia, que ocupava seu lugar habitual, não fez questão de me dirigir palavras amáveis, revirando os olhos na minha direção. Uma vez que provavelmente fora obrigada a estar ali, sequer havia se dado ao trabalho de tirar o creme de abacate do rosto, exibindo uma expressão forçosamente apologética.
"O que vocês pretendem fazer hoje à tarde, garotas?" Indagou papai, curioso, tão logo todos haviam se servido, engolindo um suspiro quando levou sua primeira garfada de panqueca à boca. "Margot, isso está absolutamente divino. Você se supera a cada ano, meu bem."
"O ingrediente secreto é muito amor." Ela piscou na minha direção, divertida, tomando um gole do seu café preto.
"Não temos nada programado para o dia." Admiti, levando uma porção de panqueca à boca. Como sempre, minhas papilas gustativas vibraram. Fitei Cassandra, que concordou. "Provavelmente vou me reunir com o pessoal para o almoço e fazer alguma coisa à tarde. A festa propriamente dita vai ser apenas à noite, na casa de Alex."
"Não se esqueça de que eu ainda preciso fazer o bolo." Lembrou Cassandra, ao meu lado, lambendo o indicador, que havia se sujado com a enorme quantidade de xarope existente em seu prato (às vezes eu costumava achar que ela e Alex poderiam devorar o vidro inteiro de xarope sem nem mesmo precisar de um acompanhamento). "Você já comprou todos os ingredientes, tia?" Virou-se para mamãe, que aquiesceu, a boca cheia.
"Os clássicos ingredientes do bolo misterioso da Lily." Concordou, rindo. "Deixei a nata e os morangos na geladeira. O resto está na dispensa. Lembrem-se de deixar um pouco para nós. Eu e seu pai pretendemos jantar fora hoje, Lily, já que você não está mais interessada em perder tempo com a gente, mas isso não quer dizer que vamos abrir mão da sobremesa."
Rolei os olhos, contendo um suspiro. Mamãe não seria mamãe se não aplicasse um pouco da sua famosa chantagem emocional.
Declaramos oficialmente terminado o desjejum pouco tempo depois, já que papai precisou partir, em função de uma importante reunião que teria na metade da manhã. Aproveitando a chance, Petúnia logo subiu para seu quarto, resmungando qualquer coisa sobre "ser obrigada a confraternizar com neandertais", de modo que eu e Cassie, por eliminação, ficamos responsáveis pela limpeza da cozinha.
Mal tivemos tempo de escovar os dentes e prender o cabelo antes que Olívia e Alex chegassem, fazendo festa.
"Feliz aniversário, Lily!" Excitada, Olívia pulou no meu pescoço. Seu grito ao pé do meu ouvido me deixou zonza. "Desculpa, mas vou precisar entregar o seu presente mais tarde. Mamãe se esqueceu de comprar papel para embrulhá-lo. Nós tivemos uma séria discussão sobre prioridades hoje pela manhã."
"Obrigada. E não se preocupe." Eu garanti, risonha, antes que Alex nos enrolasse num abraço de urso, puxando Cassandra para fechar a roda.
Nós três gritamos, esmagadas pela força dos seus braços, que quase nos impediam de respirar, mas começamos a rir quando ele se gabou do fato de estar apalpando três gostosas.
"Ora, por favor, não seja prepotente." Resmunguei, ainda divertida, assim que consegui empurrá-lo, e procurei arrumar o cabelo que, outra vez, havia se transformado num ninho de passarinhos. "Como se você pudesse com todas nós." Zombei, piscando na sua direção.
Minha declaração provocou uma curta gargalhada em Olívia, que aquiesceu, ainda risonha.
"Desculpa, mas ela tá mais do que certa, lindo. Foi-se o tempo em que você podia comprar nosso amor com um pirulito." Brincou, pousando a mão sobre o ombro de Alex, numa falsa tentativa de consolá-lo.
A expressão incrédula que se desenhou no rosto masculino foi impagável.
"O quê? Posso saber de onde surgiu toda essa pompa? Vocês duas não costumavam ser tão exigentes. Muito fui o noivo ideal quando brincávamos de casamento no parquinho." Ele lembrou, arqueando uma sobrancelha. Rodeou a cintura de Cassie a fim de puxá-la para si. "Mas não tem problema, pois a linda Cassie aqui sabe valorizar um homem como eu, másculo, inteligente e poderoso." Flexionou o bíceps com o braço livre.
Ainda rindo, fitei Cassie, esperando pela próxima piada, mas a loira se mostrou estranhamente embaraçada, como se tivesse sido pega desprevenida.
Pisquei, confusa com aquela reação, já que ela não costumava se deixar abalar pelas exageradas demonstrações de carinho vindas de Alex. Apesar disso, não tive tempo para tecer comentários, pois Olívia, como a boa farejadora de comida gostosa que era, voou na direção da cozinha, reconhecendo o cheiro das panquecas de mirtilo de mamãe. Alex não tardou a segui-la, uma vez que nunca tomava desjejum na própria casa.
Perto das 10h, usando uma saia e um top de camurça e com o cabelo solto cheio de laquê, Petúnia partiu, uma vez que "não queria ser infectada com a peste dos perdedores" e prometeu se manter longe até que a concentração de idiotas por metro quadrado em nossa residência estivesse "acima dos níveis aceitáveis pelo Ministério da Saúde".
Àquela altura, Cassie já estava na cozinha, ocupada com a preparação do bolo, com Alex tendo se prontificado a servir como cozinheiro auxiliar (sua desculpa formal para poder lamber as pás da batedeira, roubar morangos escondido e enfiar o dedo na cobertura). Estabanado para tarefas delicadas, ele geralmente mais atrapalhava do que servia para alguma coisa, mas nós gostávamos de mantê-lo por perto, caso precisássemos abrir uma compota de vidro lacrada por alguma cria de Satã.
Acomodada na espreguiçadeira do pátio, ouvindo o último LP de David Bowie, eu coloquei meus óculos escuros enquanto fingia ouvir o interminável falatório de Olívia, que consistia numa descrição detalhada da roupa que pretendia usar naquela noite.
Dado que eu não fazia o tipo de garota que gostava de conversar sobre moda, foi um alívio ouvir a campainha tocar.
Corri para a porta, disposta a recepcionar os recém-chegados, e, mesmo reconhecendo minha humilhante condição, não pude evitar abrir um largo sorriso quando vislumbrei JP. Ele estava, obviamente, acompanhado de Sirius e usava bermudas pretas e uma regata branca com estampa do Jimi Hendrix, expondo os braços e ombros musculosos que eu havia aprendido a apreciar ao longo daquelas férias. Deus salve a Rainha e Merlin salve o Quadribol.
"Ei. Bom dia, linda." Ele disse, com um sorriso torto, estendendo o braço na minha direção.
A malícia em seus olhos dava a entender que se mostrava perfeitamente consciente da nova, inesperada e muito visceral e incontrolável reação que causava em mim. E que, é claro, gostava muito do que via.
"Feliz aniversário, Lils." Preferindo ignorar todo o romance que se desenrolava à sua frente, Sirius passou por mim e pousou um curto tapinha sobre minha cabeça. "Eu já dei o seu presente, você sabe." Avisou, fitando-me por cima do ombro enquanto seguia pelo hall na direção da sala, as mãos nos bolsos da calça jeans.
Com a mão de James contra a minha, sentindo seu dedão áspero acariciar minha palma, voltei a cabeça na sua direção, curiosa.
"E que presente foi esse, se posso saber?" Franzi as sobrancelhas, tentando recordar de qualquer coisa que houvesse ganhado nos últimos dias, nem que fosse um copo d'água. Com a tendência à megalomania de Sirius, nenhuma hipótese poderia ser descartada.
"Ué, minha sagrada bênção e a mão de Prongs em casamento, é claro."
Rolei os olhos, ignorando sua risada, e voltei a atenção para JP, que enrolou o braço livre ao redor da minha cintura, puxando-me para si. Ele roçou seu nariz no meu durante um curto segundo antes de, enfim, aproximar nossas bocas, selando-as num beijo curto, úmido e muito delicioso.
As excitantes e apavorantes novas borboletas em meu estômago espalharam arrepios por todos os lados, transformando meus pobres joelhos em gelatinas.
"Feliz aniversário." James murmurou, rouco, assim que tomou uma pequena distância, usando a ponta da língua para massagear meu lábio inferior.
Suspirei, permitindo-me derreter contra ele, e passei os braços pelo seu pescoço. Pude sentir a rigidez dos músculos dos ombros sob as palmas das minhas mãos antes de deslizá-las para sua nuca, subindo os dedos por seu cabelo escuro.
Selei nossos lábios outra vez, com desejo, disposta a arrancar dele mais do que uma carícia fugidia. Sentindo minha necessidade, James não demorou a retribuir com a mesma paixão, a mão brejeira se embrenhando por debaixo do tecido da minha regata, espalhando calafrios ao longo da minha coluna.
"Sabe, eu acho que posso me acostumar com essa recepção." Ele garantiu, ligeiramente ofegante, logo que rompi o contato, pelo que pareceu ser milênios depois, e não controlou um gemido quando invadi a gola da sua camiseta a fim de dedilhar e arranhar suas omoplatas.
"Você sabe que não vou ser boazinha para sempre." Lembrei, fazendo menção ao meu lendário e arbitrário mau humor. Em Hogwarts, mesmo quando eu tentava superá-lo, ainda que temporariamente, algo vinha e levava minhas resoluções por terra. Geralmente um dos Marotos, é necessário acrescentar.
"Eu gosto de você malvadinha."
JP abriu um sorriso safado, o que me fez rir e manear a cabeça em negativa.
"Você é idiota demais para a própria saúde, James." Apontei, em tom de obviedade, embora sem esconder certa diversão.
Poucos garotos pareciam ser capazes de aturar meu difícil temperamento durante o período de aulas. Boa parte deles desistia após as primeiras tentativas, concluindo que eu não valia o esforço. Remus provavelmente só continuava sendo um bom amigo porque tinha a paciência de um santo (ou porque se sentia arrependido por saber eram os Marotos as principais causas das minhas enxaquecas).
Mesmo Cassie, após anos de experiência prática, às vezes se mostrava inapta para resistir àquela provação. Costumava me mandar tirar a varinha da bunda e parar de agir como uma "Senhora Vadia". Sim, ela costumava chamar minhas crises de fúria de "Senhora Vadia" e tinha o hábito de mandar a Senhora Vadia ir embora. Não é necessário acrescentar que não foram poucas as vezes em que os demais alunos nos olharam estranho no corredor.
"Eu já disse que gosto de viver perigosamente." Ele lembrou, uma sobrancelha arqueada, enquanto ajeitava os óculos sobre a ponte do nariz e tomava uma pequena distância, a fim de tirar uma caixinha vermelha do bolso, cuja estendeu na minha direção. "Seu presente de aniversário, ruiva. Garanto que é melhor do que todas as sugestões que Alex me deu."
Hesitei, com cara de dúvida, antes de aceitar o pacote, porque sabia da tendência dos Potter de dar presentes dispendiosos.
"James..." Comecei.
"Pode parar por aí. Não aceito devoluções." Ele garantiu, sacudindo a cabeça, e tomou a caixa da minha mão para que pudesse abri-la por si só.
Minha boca secou diante do colar que havia dentro dela. James o ergueu, expondo-o em toda sua glória, fazendo a corrente de ouro reluzir sob o reflexo do sol. Havia um pequeno e delicado pingente em forma de coração na cor verde. Eu apostava que a pedra usada nele era esmeralda.
"É..." Vacilei, sem encontrar palavras para elogiar a delicadeza do ourives que o confeccionara. Toquei o pingente com a ponta do dedo indicador, deslumbrada.
"É maravilhoso, eu sei." James aquiesceu, segurança em sua voz, e me puxou para fora para que pudesse passar a corrente pelo meu pescoço, fechando-a antes que eu pudesse protestar. Pareceu satisfeito com o resultado, dado sua expressão reflexiva. "Exatamente como a minha garota." Acrescentou um instante depois, erguendo os olhos para os meus, suavidade em sua voz.
Abri e fechei a boca uma vez, pensando na resposta perfeita, mas logo concluí que não havia nenhuma.
Subitamente séria, segurei sua camisa, puxando-o na minha direção, e fiquei na ponta dos pés, já que não havia mais o degrau do alpendre que nivelava nossas alturas, para que pudesse beijá-lo. Os sentimentos que eu não era capaz de colocar em palavras certamente seriam melhores expressos fisicamente.
Nós provavelmente teríamos permanecido ali durante anos se Alex não tivesse aparecido.
"Dá licença. Ô, casal, dá licença?" Chamou, gritando de modo proposital, a cabeça enfiada para fora da porta. "A Cassie tá chamando você, Lily. Lily, Lilucha, Liloca, Lilão, tá me ouvindo? Será que vou precisar pegar a água fria? Olha que eu não tenho medo de cara feia, hein."
Surpresos pela interrupção, nós nos separamos com um resmungo da parte de James.
Voltei a cabeça na direção de Alex, relutantemente me soltando dos braços de JP. Deslizei a língua pelos lábios ainda úmidos e arqueei uma sobrancelha.
"O que foi?" Indaguei, aborrecida. Não me sentia confortável com a possibilidade de ter plateia. Tampouco apreciava a perspectiva de ser incomodada.
"Não sei. Vai lá, por favor. Cassandra ficou meio esquisita de repente." Alex se mostrou sério por um instante, encolhendo os ombros e demonstrando sua confusão. Apontou com o queixo na direção da sala e logo da cozinha. "Vê se você descobre o que foi que eu fiz dessa vez. Não é possível que eu tenha sido capaz de pisar nos calos daquela garota com um dia de convívio. Seria um recorde."
Cocei a nuca, aquiescendo, ainda ligeiramente mole, e apertei a mão de JP numa curta despedida antes de adentrar a residência, disposta a decifrar o motivo para aquela circunspecção.
Atraída pelo ruído dos meus passos, ela ergueu rapidamente a cabeça da sua tarefa, que consistia em cortar os morangos, e forçou um meio sorriso em reconhecimento à minha presença.
A massa do bolo aparentemente já estava no forno, de modo que era hora de cuidar do recheio.
"Qual o problema, Cass?" Perguntei, de modo suave, apoiando-me no balcão ao seu lado. Cruzei os braços, ainda sentindo o rosto estranhamente quente, fitando-a por sob os cílios. "Conheço você. Sei que alguma coisa está te perturbando."
No pátio traseiro, logo adiante, Sirius e Olívia estavam ensaiando passos de dança em conjunto, ocupados demais para prestarem atenção em nós, portanto eu me aproximei mais de Cassie, que tinha o cenho franzido e o nariz sujo de farinha, sem medo de ser ouvida.
Subitamente hesitante, ela abriu a boca para falar, mas se interrompeu quando Alex e James apareceram, os lábios se fechando outra vez. Sua confusa reação me fez concluir que, sim, o que quer que tivesse acontecido tinha, de fato, a ver com o viking.
"Bom dia, Cassandra." Ajeitando os óculos sobre a ponte do nariz, JP a cumprimentou com um curto movimento, logo parecendo reconhecer a seriedade que havia entre nós. "Vamos esperar por vocês na piscina." Disse, puxando Alex, que resmungou, mal-humorado, consigo.
Houve um curto instante de silêncio entre nós, rompido apenas pelo ruído da faca contra a tábua, enquanto Cassandra pensava no que falar a seguir.
"Que droga." Suspirou, enfim, esfregando a testa com o dorso da mão. Atrás de nós e unido ao coro empolgado de Olívia, David Bowie começava a cantar Be My Wife. "Acho que realmente estou apaixonada por Alex, Lily." Confessou, apertando os lábios, nervosa. "Até agora eu tinha sido capaz de enganar a mim mesma, a fim de me convencer de que tudo não passava de um simples rolo de verão, mas vou me formar no próximo ano e não consigo imaginar minha vida sem ter Alex nela."
Encarei-a, surpresa, para rapidamente depois relaxar. Para mim, o fato de que ela estava apaixonada por Alex não era nenhuma novidade. Depois de todos aqueles anos de convívio, eu possivelmente talvez conhecesse Cassandra melhor do que qualquer outra pessoa do mundo.
"Alex também está apaixonado por você." Garanti, encarando minhas unhas, numa tentativa de consolá-la.
Alex tampouco havia exposto em palavras seus sentimentos, mas era óbvio que nutria algo mais do que uma simples atração passageira pela loira. Caso contrário, nunca teria se mantido fiel. Ele era suficientemente bonito para ter várias garotas aos seus pés, porém sequer tentara conquistar alguma delas durante nossa ida a Londres, por exemplo.
Ela mordeu o lábio inferior, abandonando a faca, e fechou os olhos por um instante.
"Você tem certeza?" Perguntou, baixinho.
"Eu tenho." Garanti, sabendo que sequer precisava consultar Alex para assegurá-la daquele fato.
Seu semblante demonstrou alívio por um momento, enquanto a tensão parecia deixar seus ombros, mas, quando Cassie voltou a abrir os olhos, todas as preocupações anteriores pareceram invadi-la com a força de um maremoto.
"Mas o que vou fazer agora, Lily?" Ela voltou a questionar, sacudindo a cabeça, aflita. Seu cabelo loiro estava preso num coque bagunçado. "Alex e eu... Nós dois não deveríamos passar de diversão. Sou uma sangue-puro. Você sabe que, como Daisy, meus avós esperam que eu arranje um bom casamento. Nunca aceitariam um trouxa na família."
Eu sabia, sim, como famílias de sangue-puro eram complicadas. Os Willer costumavam se mostrar muito liberais com relação a mestiços e bruxos filhos de trouxas, mas, ainda que simpáticos, era inegável o fato de que acreditavam se tratar de uma raça superior.
Obviamente, com a criação que recebiam e dado o fato de que não eram extremistas como os Malfoy, nunca haviam sido rudes, entretanto encaravam os trouxas mais como algo para ser estudado e analisado, como uma raça em cativeiro ou um animal num zoológico, do que para ser acolhido.
"Acho que tudo depende do que você pretende colocar como prioridade, Cassie." Encolhi os ombros, meditativa. "Não posso apontar qual é o caminho correto. Ao fim do dia, essa é uma escolha sua. Se você quer minha opinião sincera, acredito que você e Alex se completam. Sempre se completaram. É só ver a maneira como reagem um perto do outro. Não estou dizendo que vai durar para sempre, porque nada no mundo é eterno, porém não posso dizer que vai ser fácil achar algo assim outra vez."
Com o semblante sério, Cassie aquiesceu, pensativa, e estava pronta para rebater quando Sirius apareceu, rodeando meu ombro com o braço e interrompendo nossa conversa.
"Sinto atrapalhar o diálogo de vida ou morte, mas quero saber onde vamos almoçar." Disse, inclinando ligeiramente o corpo para que pudesse roubar um pedaço já cortado de morango. Cassandra foi rápida em estapear sua mão, fazendo-o reclamar, a boca já cheia. "É quase hora do almoço e eu estou começando a ficar faminto."
"Ei, o almoço vai ser lá em casa." Gritou Olívia da rua, recolocando as sandálias que havia jogado debaixo da mesa. "Presente da mamãe, Lily."
Sorri, agradecendo, e anuí.
Dado o fato de que todos se encontravam repentinamente distraídos, eu e Cassie não pudemos concluir o que começamos. Tomando a proximidade de Sirius como um sinal de que tudo havia retornado aos seus devidos lugares, Alex abandonou James, que tentava distraí-lo, e se ofereceu, com o humor renovado, para nos ajudar a terminar o bolo. Partimos para a casa de Olívia cerca de uma hora depois.
Após o almoço, nós nos esparramamos pela ampla sala de estar a fim de comer a sobremesa, que consistia numa grossa fatia de torta de chocolate, assistindo a uma reprise de Jennie é um Gênio, programa que JP e Sirius adoraram mais do que qualquer outra coisa, inclusive Os Três Patetas (eles passaram horas chamando Peter de Larry Fine após verem um dos curtas-metragens do grupo),provavelmente pelas implicações à bruxaria.
Para a surpresa de Alex e Olívia, que não estavam entendendo o motivo das gargalhadas, os dois tinham severas crises de riso cada vez que Jennie era convocada e executava uma magia. Saíram da residência dos Strauss simulando seu cumprimento de braços cruzados e aceno de cabeça cada vez que eram chamados.
"Por Merlin, vocês têm sérios problemas mentais." Bufou Cassie, empurrando Sirius quando ele enrolou o braço no seu pescoço e perguntou se ela gostaria de fazer algum desejo. Sussurrou, irritada, a fim de não ser ouvida, já que Alex e Olívia seguiam na nossa frente. "O programa não é assim tão engraçado. Olívia está achando que vocês comeram cogumelos alucinógenos."
"Seria ótimo experimentar alguns." Afirmou Sirius, voltando os olhos para mim. "Como fazemos para consegui-los?"
"Por que você está olhando para mim?" Arqueei uma sobrancelha. "Você sabe que são Leo e Lauren que fomentam o comércio de drogas por aqui."
"Mas você é nossa representante do mundo trouxa." Ele apontou, em tom de obviedade. "Além disso, eu realmente gostei do bolo de maconha. Posso entender porque Leonard é tão apaixonado por aquilo."
"O único problema dela é que derrete seus neurônios." Apontei, sarcástica.
"Tudo bem então. Não é como se Pads tivesse muitos." Zombou JP, ao meu lado, soltando uma curta risada quando Sirius lhe mostrou o dedo do meio, uma careta indignada no rosto.
Fizemos hora ao redor da piscina até perto das 15h, quando Olívia se ergueu, uma expressão decidida, avisando a todos que precisava começar a se arrumar. Eu rolei os olhos diante do seu tom dramático, mas não objetei, porque sabia que ela estava levando a tarefa de parecer magnífica muito a sério.
Conhecendo-a como a conhecia, sabia da sua predisposição para o desastre. Seus relacionamentos nunca davam certo, já que ela parecia ter um faro especial para rastrear cafajestes. Não estava certa de que Sebastian não fosse apenas mais nome que viria a compor a interminável lista de decepções que amargavam o humor de Ollie (ainda mais considerando o fato de que sua própria mãe parecera muito relutante diante da ideia de aceitá-lo). Minhas palavras nunca eram válidas naquilo, porém.
Nunca havia conseguido fazer Olívia romper um envolvimento não saudável. Ela geralmente terminava em pedaços, de qualquer jeito, e costumava se reerguer com uma rapidez surpreendente. Mesmo assim, não queria dizer que eu não quisesse privá-la de aborrecimentos desnecessários.
Era bom que Sebastian valesse a pena, disse para mim mesma, considerando a hipótese de usar James, Sirius e Alex para obrigarem o garoto a quebrar o padrão dos namorados de Olívia e simplesmente não ser uma absoluta decepção. Três rapazes fortes deviam ser o suficiente para forçar alguém a andar na linha. Pelo menos enquanto durasse o verão e nós estivéssemos presentes.
Uma vez que Cassie havia pegado no sono sobre a espreguiçadeira, encolhida debaixo do guarda-sol, Alex aproveitou a deixa para dizer que aquele seria um bom momento para que começássemos a cuidar da decoração e me convidou para abrir os trabalhos. Nunca fazíamos decorações muito elaboradas, porque, afinal, elas eram as coisas menos importantes das nossas festas, mas Olívia havia comprado bandeirinhas e chapeuzinhos com o único e exclusivo objetivo de me embaraçar e, é claro, ninguém queria perder a chance de se dar ao ridículo com um chapeuzinho de festa.
"Vamos pegar as sacolas na casa da Olívia, Lily." Disse Alex, puxando meu braço e me obrigando a levantar. "Preciso roubar a ruiva durante quinze minutos, Jamie. Desculpa, mas é assunto de máxima prioridade. Cuida do meu monstrinho dorminhoco aí. Voltamos logo."
"Claro, Alex." JP aquiesceu, com um pequeno sorriso, provavelmente lembrando, como eu, da preocupação que Alex demonstrara durante a manhã.
"Qual é o problema dessa gente hoje?" Indagou Sirius para ninguém em especial, as sobrancelhas franzidas, enquanto nos afastávamos. "Está todo mundo cheio de segredinhos ou o quê? Também quero ser informado das fofocas."
Deixamos a casa em silêncio, lado a lado, e foi só quando tinha certeza de que não havia ninguém por perto que Alex mostrou coragem o bastante para começar a falar:
"Tá bom. Me diz o que tá rolando." Pediu, sério, voltando os olhos claros na minha direção. "Cassie quer terminar. É isso, não é?" Passou a mão pelo cabelo, esfregando a nuca com força. "Eu nunca tive muitas esperanças de que ela realmente gostasse de um cara como eu. Não sou nenhum gênio."
"Não. Ela não quer terminar." Afirmei, embora não pudesse ter certeza absoluta das minhas palavras. Ainda não sabia que posição Cassandra iria tomar sobre seu dilema família x amor. Era algo complicado demais para ser decidido em poucas horas. "O que houve, afinal? Vocês pareciam estar muito felizes ontem à noite. É estranho perceber como tudo de repente foi por água abaixo, sem nenhuma explicação óbvia."
"Eu bem que gostaria de saber." Ele admitiu, esfregando o queixo. "O que quer que tenha sido, aconteceu esta manhã."
Suspirei, coçando a testa, porque não havia nada que eu pudesse fazer a respeito.
Não queria deixar Alex no escuro, mas também não podia inteirá-lo sobre a situação da família Willer. Aquele segredo não era meu para ser contado. Se Cassie quisesse, seria ela a pessoa a trazê-lo para o (fantástico e talvez um pouquinho assustador) mundo da magia.
"Talvez vocês devessem ter a conversa séria que estiveram adiando nos últimos anos." Sugeri. "Nós estamos a um passo da maioridade e as coisas vão ser diferentes quando nos formarmos. Você e Cassandra evitaram discutir sobre a seriedade do seu relacionamento, mas chega uma hora que é inevitável colocar as cartas na mesa. Vocês precisam alinhar seus objetivos e decidir se querem dar um passo adiante ou apenas deixar tudo como está. De qualquer jeito, é hora de tomar uma decisão."
Alex ficou calado por um longo tempo, pensativo e incomodado. Diferente do que faria em seu estado normal de humor, sequer riu da cara de Olívia, que usava uma máscara facial de pepino e tinha o cabelo todo enrolado com pequenos grampos, quando chegamos à residência Strauss para recolher os materiais para a decoração da festa.
Decidi não incomodá-lo, já que aquela era uma situação delicada. Provavelmente levaria algum tempo para que ele fosse capaz de absorver minhas colocações.
Passamos na minha casa antes de seguir para a de Alex, a fim de convocar Sirius e JP para o serviço.
Utilizaríamos a larga sala de estar e cozinha como salão de festa, de modo que recolhemos todos os quadros e pequenos objetos, enrolamos o tapete e empurramos a mesa de centro de vidro para o canto. Puxamos o toca-discos da biblioteca.
Enchemos balões, colocamos algumas guirlandas aqui e acolá e distribuímos copos e guardanapos por pontos estratégicos, além de posicionar duas lixeiras em cada lateral. Era mais fácil quando havia um local previamente preparado para os beberrões mais fracos expulsarem do estômago tudo que não puderam digerir.
A tarde acabava quando terminamos. Eu me joguei sobre o sofá, suada, o cabelo preso no topo da cabeça, enquanto via Alex e Sirius tentarem prender uma enorme faixa de Feliz Aniversário. Dado que nenhum dos dois era a criatura mais hábil do planeta, o processo estava se convertendo numa tortura. Parecia impossível nivelar ambas as pontas na mesma altura.
"Tudo bem?" JP tomou o lugar livre ao meu lado, rodeando meu ombro com os braços, e sorriu enquanto encurtava a distância entre nós a fim de me beijar.
Fechei os olhos diante daquele contato, apreciando o perfume masculino, e soltei um murmúrio de concordância, relaxando ao sentir sua mão subir para a minha nuca, acariciando-a com movimentos circulares.
"Sim. É só, você sabe, os problemas de relacionamento da Cassie e do Alex." Disse, a voz baixa, ouvindo Sirius reclamar que Alex parecia estar bêbado, já que era incapaz de amarrar o cordão num nó que ficasse firme o bastante. "Nunca contei a Alex e Olívia sobre o mundo mágico. Não sei como eles reagiriam diante dessa descoberta. Além disso, não sei se quero que algum dia eles saibam. O mundo trouxa é tão... descomplicado. Ninguém aqui me olha como se o fato de eu ter uma varinha na mão fosse alguma espécie deturpada de favor oferecido pelo Ministério da Magia."
O preconceito com relação à minha família já não me incomodava tanto quanto antigamente. Eu tinha desenvolvido suficiente sangue frio para não me permitir abalar com xingamentos. O que não queria dizer, porém, que a situação não ficasse cansativa, a certa altura da vida.
A verdade nua e crua era que viver no mundo mágico sem ter o sangue puro era uma constante batalha e eu parecia nunca parar de remar contra a maré.
Por mais que se esforçassem, James, Cassie ou Sirius nunca seriam capazes de entender meus sentimentos. Todos eles eram provenientes de famílias importantes e distintas, herdeiros de consideráveis fortunas, e as portas sempre se abriam para recebê-los. Eu, por outro lado, era considerada a Gata Borralheira, alguém que a maioria deles aceitava, mas que não considerava particularmente digno de atenção, exceto na hora de fazer seu trabalho sujo.
"Você é muito mais talentosa que metade dos estudantes daquele castelo, você sabe." JP disse, a voz macia, com um sorriso de canto.
"Eu sei." Aquiesci, sem falsa modéstia. Eu era, sim, muito talentosa, mas eu também estudava para receber todo o reconhecimento que recebia.
Estava sempre e constantemente envolvida numa interminável espiral de conhecimento. Nada nunca era o bastante. Quando aprendia algo, rapidamente concluía que, para ser respeitada, para ser aceita, para ser considerada adequada, eu precisava aprender a versão de um feitiço ainda mais complexo ou uma poção ainda mais potente.
Passei incontáveis horas tentando decorar os nomes de todos os personagens das principais guerras dos duendes e era capaz de citar todos os Ministros da Magia dos últimos cem anos. Mesmo não sendo particularmente necessário (para que me serviriam alguns daqueles conhecimentos, afinal?), aqueles eram esforços adicionais que eu fazia apenas para sentir que pertencia ao mundo da magia, que, mesmo tendo nascido numa comunidade trouxa, eu conhecia tanto da história quanto aqueles cujos familiares fizeram parte dela, que eu merecia estar lá tanto quanto um garoto ou uma garota nascido de pais bruxos.
Cansava, às vezes.
"O que não muda os fatos de que tudo sempre é uma guerra." Completei, circunspecta. Sacudi a cabeça. "Você não sabe o que é ser automaticamente considerada não apropriada o bastante, mesmo tendo notas muito melhores ou muito mais conhecimento. Por ser um sangue puro, você nunca foi julgado, pesado, medido, considerado inadequado, insuficiente, desnecessário. Às vezes eu fico me perguntando se toda minha vida vai ser assim. Se cada dia vai ser uma pequena batalha. Se eu sempre vou ter que provar que sou mais, para que alguém sequer possa me colocar no mesmo nível de pessoas como você."
James me olhou, subitamente sério, como se nunca tivesse observado a vida pelo lado de um nascido trouxa (e, sinceramente, não havia por que fazê-lo). A preocupação e a quentura dos seus olhos fizeram com que eu me sentisse acolhida. Ele era um dos poucos que jamais havia me menosprezado, nem sequer por um instante.
"Eu posso lutar por você." Garantiu. "Apenas diga a palavra e eu não vou descansar, nem por um minuto, até que tenhamos sido capazes de erradicar todo e qualquer preconceito."
Minha garganta apertou diante da sinceridade e da determinação existentes em suas palavras.
"Obrigada, mas existem batalhas que são maiores do que você e eu, JP." Murmurei, suavemente, apertando sua mão livre. Inclinei o corpo na sua direção, a fim de beijá-lo. Mordisquei seu lábio inferior, suspirando. O contato com sua boca se provava ser muito relaxante. "Ficar ao meu lado é o bastante."
Ele sorriu, parecendo disposto a retrucar. Foi oportunamente interrompido por Alex, que se jogou no assento livre ao meu lado com um grande e dramático suspiro.
"Tenho certeza de que a faixa não vai mais parecer estar torta quando todo mundo estiver bêbado." Disse para Sirius, a voz retumbante e divertida.
"Você não pode basear o sucesso da sua decoração no nível de bebedeira dos convidados." Zombou Black, fitando-o por cima do ombro, num último esforço para ajeitar a famigerada faixa. "Ahh, o que não faria um pouco de magia." Reclamou, com uma careta, frustrado.
Retornamos para casa cerca de quinze minutos depois, enquanto Alex subia para o andar superior a fim de tomar uma ducha. Ainda não havia escurecido, mas eu sabia que Cassie não era a pessoa mais veloz do mundo quando se tratava de decidir o que vestir, de modo que seria necessário brigar pelo chuveiro se eu quisesse fazer uma boa produção.
Me despedi de James com um sorriso, ouvindo sua promessa de que retornaria em breve, e invadi a sala de estar contendo um bocejo, aliviada porque, de modo geral, a tarde não havia sido tão quente quanto as demais. Uma brisa agradável movia as cortinas da sala, onde Cassie via televisão.
Com as pernas recolhidas para cima do sofá e comendo biscoitos, ela ergueu a cabeça para me receber assim que cheguei, uma expressão preocupada, o cabelo loiro totalmente bagunçado.
"Você não acha que esse está sendo um verão muito esquisito?" Ela perguntou assim que me sentei ao seu lado. A programação do canal costumava exibir repetições intermináveis de Saturday Night Live, algo bastante irritante, depois de certo tempo. "Algum dia você diria que Belle e Leonard ficariam juntos? Ou que você e James ficariam juntos? Que Lauren iria para a faculdade? Que sua irmã iria se casar?"
Aquiesci, pensativa.
"Acho que estamos crescendo." Encolhi os ombros, suspirando.
"Crescer é meio chato às vezes." Ela disse, melancólica, provavelmente tentando encontrar uma maneira de ter Alex em sua vida sem que isso provocasse uma guerra dentro da sua família.
Nós assistimos à televisão por mais meia hora antes que Cassie, com um humor muito soturno, finalmente arranjasse disposição para levantar e se arrastar escadas acima, a fim de que pudesse se arrumar. Interceptando-a na entrada do banheiro, decidi tomar banho primeiro, já que eu era muito mais rápida, e ela recém saía do chuveiro quando, mais tarde, os garotos reapareceram, junto das primeiras estrelas.
Tão logo abri a porta e se sentindo em casa, JP e Sirius passaram por mim como os reis do lugar, ambos vestindo calças jeans e camisetas de bandas e ostentando cabelos igualmente bagunçados. Tomaram rumo para a área da piscina, que havia se convertido em nosso refúgio ao longo dos últimos dias. Alex, que fechava o cortejo, estava disposto a segui-los quando parou de repente no meio da sala de estar, virando-se para me olhar com uma expressão muito decidida.
Diferente dos rapazes, ele estava de bermuda, chinelos e usava uma regata preta. Seu cabelo loiro ainda estava úmido.
"Acho que eu amo a Cassandra, Lily." Confessou, sério.
Encarei-o, surpresa. Sabia da profundidade dos seus sentimentos por Cassie. Só não sabia que ele próprio já havia sido capaz de perceber que a explosiva paixão que sentira no começo do seu relacionamento vai-e-vem havia se transformado em algo mais profundo que um romance passageiro.
"Oh, eu sei. Basta apenas ver a maneira como você age ao redor dela. Não é um mistério indecifrável, você sabe." Disse, abrindo um pequeno sorriso. "Você decidiu o que pretende fazer a respeito, apesar disso?"
"Colocar as cartas na mesa?" Ele vacilou, citando minhas palavras. Logo passou a mão pelo cabelo, esfregando a nuca, e demonstrou toda sua insegurança ao apertar os lábios. "Mas e se... Bem, e se tudo isso for um erro?" Indagou, dúvida em sua voz, enquanto erguia os olhos cheios de confusão na minha direção.
"E se não for?" Rebati, encolhendo os ombros.
Diferente do que Alex e Cassandra pareciam querer, eu não era capaz de prever o futuro. Não podia afirmar com certeza que tudo daria certo, que o caminho se abriria para eles, que os desafios da vida nunca seriam tão difíceis a ponto de serem insuperáveis. Eu podia apoiá-los e aconselhá-los, mas havia certas coisas que, por mais que eu quisesse que fosse o contrário, estavam longe da minha alçada.
Algumas batalhas simplesmente não eram minhas para lutar.
"E se ela não me amar o suficiente?" Ele continuou, voltando o rosto para a janela, pensativo, como se ainda estivesse assimilando o fato de que amava a garota espalhafatosa, um pouco exagerada e de humor volátil que era Cassandra, cujo hobby era escrever bilhetinhos na sala de aula e fofocar sobre os penteados das garotas, cujo doce preferido era chocolate, cujo cabelo eventualmente acordava num dia tão ruim que nem mesmo um feitiço era capaz de arrumar, cujo sorriso feliz podia fazer qualquer coração bater rápido, inclusive o meu.
"E se ela amar?" Seguirei seu braço, forçando-o a voltar a atenção para mim.
"E se tudo der errado, Lily?"
"E se tudo der certo, Alex?" Perguntei, com uma sobrancelha arqueada e um ar de desafio, apertando sua pele morna numa tentativa de confortá-lo. "Você está racionalizando demais sobre isso. A incerteza e o medo fazem parte da vida, viking. Nós temos medo de todas as grandes emoções, sejam elas boas ou ruins, porque sempre significam mudança. Você pode colocar seu medo de lado e fazer o que deve ser feito ou você pode ceder a ele e deixar que o seu destino molde você e não o contrário."
Houve silêncio por um instante, enquanto seu rosto sério e corado do verão parecia remoer minhas palavras.
"Você está certa. Como sempre, você está certa, Lilykins." Alex arriscou um pequeno e tenso sorriso na minha direção antes de suspirar, pousando a mão sobre o estômago. Parou por um momento, fitando-me outra vez, desnorteado. "Acho que vou vomitar. Minhas mãos estão tremendo. Minha cabeça dói. É esse o efeito do amor?" Gemeu. "Eu gostava mais quando as coisas eram simples."
Sacudindo a cabeça, divertida com seu desespero, não pude conter uma risada.
"Bem-vindo à montanha russa que é o amor." Admiti, sacudindo a cabeça. "Um comichão que começa na ponta dos dedos dos pés e vai subindo e se espalha por todo o seu corpo, mas principalmente no estômago, ao mínimo contato. Você cora quando pensa na pessoa. Você ri das coisas idiotas que ela diz. Pensar nela te faz feliz ao mesmo tempo em que dói. Porque ficar afastado dói. Porque amar dói."
Ele aquiesceu, demonstrando concordar com cada parte daquela descrição, e soltou o ar pesadamente pelas narinas.
"Como você sabe?" Questionou então, inseguro.
Assim como Cassie e Olívia, Alex, mais do que ninguém, sabia que eu não era dada a longos relacionamentos.
"Porque eu já me apaixonei, ora essa." Cruzei os braços, sorrindo. "Minha vida foi um revezamento de pequenos amores, fossem eles correspondidos ou não. Paixão geralmente é uma prévia do amor, você sabe."
Embora minha vida amorosa geralmente fosse pouco movimentada, dado meu temperamento explosivo durante a escola e o fato de que eu havia nutrido uma persistente, aborrecida e intensa paixonite por Louis durante anos, estava bem familiarizada com os vieses daquele sentimento.
Além disso, não era exatamente uma surpresa ou um segredo o fato de que JP preenchia meus sonhos românticos mais atuais. A Lily de dois anos atrás teria querido me matar, mas a verdade é que eu provavelmente estava mais enlouquecida por James do que jamais estivera por ninguém.
"Mas você nunca amou."
"Não, eu nunca amei." Confessei. A despeito do fato de que a juventude costumava tornar os adolescentes impulsivos, amor era uma coisa séria para mim. Uns poucos dias não eram o bastante para me fazer falar a palavra mágica. "Mas se eu amasse, bem..." Deixei a frase morrer no ar, com um ar de riso no rosto. "Uma garota tem o direito de saber quando um garoto a ama. Você tem que tentar."
Alex ainda hesitou por um segundo, mas minha tranquilidade e eloquência aparentemente foram o suficiente para convencê-lo, porque logo a expressão do seu rosto voltava a expressar a súbita segurança com que me interpelara alguns minutos antes.
"Sim. Presumo que sim." Disse. "Mas, em último caso, se tudo der errado..." Vacilou, de modo eu me adiantei e fiquei na ponta dos pés para abraçá-lo e plantar um beijo na ponta do seu nariz.
Dada sua altura, vê-lo tão inocentemente entregue e receoso diante da perspectiva de revelar seus verdadeiros sentimentos fazia com que eu tivesse vontade de abraçá-lo e escondê-lo debaixo do meu braço para sempre.
"Você ainda tem a mim. Hoje e para sempre, viking." Garanti, suavemente. "Se por algum motivo tudo der errado, o que eu duvido muito que aconteça, nós vamos curar o seu coração, está bem? Vamos remendá-lo e aquecê-lo e deixá-lo pronto para a próxima. Tudo vai ficar bem. Não seja tão maricas." Apertei sua bochecha, empregando um tom forçosamente maternal.
"Obrigado, Lilykins." Agradeceu Alex. Aproximou-se para que pudesse depositar um curto beijo em minha testa antes de se afastar. "Te devo uma."
"Você pode me pagar em sorvete." Sugeri, ideia que lhe provocou uma risada, alívio se espalhando pelo seu rosto. A tensão começou a se esvair, algo pelo qual eu agradeci. Não estava acostumada a ver tanto receio em alguém geralmente tão confiante quanto o viking. "Cassie já deve estar se arrumando. Ela está no quarto. Vá pegar sua garota, campeão." Pisquei.
Então Alex seguiu na direção das escadas, despediu-se com um aceno de cabeça, cheio de coragem, e subiu.
Observei-o partir, em silêncio. Cassie estava certa, pensei, refletindo sobre todas as mudanças que haviam acontecido naquele verão. Todos nós começaríamos o ano letivo como pessoas diferentes. O que quer que acontecesse lá em cima, o que quer que acontecesse entre James e eu, nada nunca seria o mesmo. Não que mudanças fossem ruins. Um pouco de agito podia cair bem na minha vida tediosa de monitora estressada da Grifinória.
Quando enfim juntei coragem para voltar para o pátio traseiro, onde os garotos ainda me esperavam, deparei-me com James e seu olhar intenso.
"Merlin!" Soltei um curto ofego, tendo sido pega de surpresa pela proximidade repentina (e demasiadamente silenciosa). "Qual o problema?" Indaguei, franzindo as sobrancelhas diante do seu semblante sisudo.
"Nós precisamos conversar." Disse.
Espiei por cima do seu ombro. Sirius estava bisbilhotando a pilha de LPs, tentando fingir que não prestava atenção em nós.
Confusa, voltei a atenção para James outra vez. Não podia me recordar de nenhum momento em que estivéssemos a sós e que houvesse aquela aura dura ao nosso redor, nem mesmo quando tocamos no doloroso assunto da doença da sua mãe.
Não importando quão difícil fosse o dia ou quão ruins estivessem as coisas, eu havia aprendido que tudo sempre era diversão ao lado de JP. Porque ele sempre dava um jeito de criá-la.
"Tudo bem." Concordei com a cabeça, piscando. "Sobre o que você quer falar?"
Com os lábios crispados e o cenho franzido, ele fechou os olhos por um momento, os cílios escuros perfeitamente visíveis por detrás do reflexo das lentes. Respirou fundo antes de dar um passo na minha direção, de modo que estivéssemos a apenas alguns palmos de distância.
"Eu amo você, Lily." Confessou.
Encarei-o, a boca entreaberta, chocada pela confissão repentina.
De todas as coisas que esperava ouvi-lo dizer, desde que tinha perdido o interesse em mim ou que tinha, sei lá, descoberto uma faceta sua que era apaixonada secretamente por Narcissa Malfoy, uma declaração daquela magnitude definitivamente era algo pelo qual eu não estava esperando.
"Eu..." Precisei me interromper, sacudindo a cabeça com força. "Eu... O quê? O que você disse?" Apertei os olhos.
"Quando eu estou ao seu lado, tudo o que quero é permanecer ao seu lado. Quando eu toco você, parece que minha pele pega fogo. Não consigo pensar em nada que me deixe tão feliz quanto deixar você feliz. Gasto metade do meu dia pensando em maneiras de tocá-la ou de sentir o seu perfume." Ele continuou, suavemente, o rosto deliciosamente corado do sol, usando uma das mãos para beliscar meu queixo.
Tentei reagir, mas me senti estranhamente entorpecida.
A voz rouca e decidida de James era quase hipnótica, fazendo os pelos do meu corpo se arrepiarem e mantendo meus batimentos cardíacos num nível cadenciado, embora uma parte minha estivesse enlouquecendo e arrancando os cabelos.
"Amo tudo em você." Ele continuou, provavelmente tomando meu silêncio como um sinal para seguir em frente. "Todas as coisas, desde as manias até as qualidades mais profusas. Eu amo o jeito como você brinca com uma mecha do cabelo quando está nervosa, eu amo o jeito como você é capaz de se doar pelos seus amigos. Eu aprendi a gostar de Olívia e Alex porque você gosta Olívia e Alex, em primeiro lugar. Até assisti aos seus filmes preferidos, só para sentir que tenho algo em comum com você."
Fitei-o, processando seu súbito interesse em 007 e O Poderoso Chefão.
"Você disse que uma garota tem o direito de saber quando um garoto a ama. E, bem, eu, eu amo, amo você." Concluiu JP, o rosto muito sério, passando a mão pelo cabelo e pela nuca, sem esconder um súbito nervosismo.
Pelo que pareceu ser uma longa, interminável e confusa década, nós ficamos calados, apenas nos encarando.
Conforme os segundos passavam, porém, eu vi seu maxilar enrijecer e seus olhos escurecerem diante do silêncio.
Estendi o braço e toquei sua mão quando percebi que estava começando a perdê-lo.
"James, eu... Eu estou apaixonada por você." Confessei, suavemente, impedindo-o de partir. "Mas não sei se amo você. Ainda é muito cedo." Sussurrei, de repente muito cônscia da profundidade dos sentimentos dele, se comparados aos meus. "Você acha que pode esperar? Nos dar algum tempo?"
Levou um eterno segundo até que sua expressão desanuviasse e a tensão, pouco a pouco, deixasse seus ombros. Ele abriu um pequeno sorriso torto, parecendo relaxar, e pousou uma das mãos sobre a lateral do meu rosto antes de me puxar na sua direção, de modo que nossas bocas logo se tornassem uma.
Com o coração martelando no peito, eu me apoiei contra ele, enfiando as mãos em seus cabelos, deslizando minha língua por entre seus dentes, querendo mordê-lo, sugá-lo, prendê-lo, subjugá-lo. Ansiosa por mais, rapidamente concluí que queria tudo de James. Tudo que pudesse roubar, que pudesse extrair, que pudesse ganhar. Nada nunca seria o suficiente. E eu estava surpreendentemente bem com isso.
Nossas respirações dançaram uma contra a outra quando tomamos uma curta distância, sem fôlego.
"Paixão é tudo o que eu preciso. Por agora." Ele murmurou, descendo as mãos ásperas pelo meu quadril, por debaixo da blusa. Como sempre acontecia, calor se espalhou pelo meu corpo como fogo em rastro de pólvora, deixando meu estômago preste a entrar em ebulição. "Mas eu quero que você saiba que eu amo você. Cada vez que eu olhar para você, estarei amando você. Quando beijar você, estarei amando você. Quando tocar você, estarei amando você. Você me tem, Lily. Todas as partes de mim."
Mordisquei o lábio inferior, incapaz de conter um largo sorriso. Com as mãos ainda em seus cabelos, fiquei nas pontas dos pés para que pudesse depositar um beijo úmido e quente sobre seus lábios.
"E eu quero você, James." Garanti, séria. "O que é, definitivamente, a coisa mais louca da minha vida, porque nunca, nem em meus sonhos mais delirantes, pensei que pudéssemos dar certo. Nós somos muito diferentes." Sacudi a cabeça em negativa.
"O que provavelmente é o que nos torna tão bons juntos." Ele apontou, com uma sobrancelha arqueada e um sorriso de canto.
"Provavelmente." Repeti, aquiescendo, precisando admitir que havia algum fundo de verdade no ditado de que os opostos se atraem.
Encarei-o por debaixo dos cílios. Adorava seu queixo quadrado, seus óculos cafonas e seu cabelo desarrumado - símbolos que o representavam e que sempre haviam feito me causado uma incontrolável e provavelmente nada saudável fúria. Agora, olhe para mim: o mais novo membro do fã clube de James Potter. Parecia muito irônico. Após anos de juras de morte, Lily Evans havia se tornado um gatinho manso nas mãos de seu maior desafeto.
Contra todas as probabilidades, eu tinha James. Eu queria James. E eu não estava disposta a deixá-lo ir.
"Vamos fazer isso. Eu e você, eu digo." Expliquei, decidida, mediante seu semblante confuso. A possibilidade de permitir que outra garota colocasse as mãos em tudo que eu estava colocando as mãos parecia inadmissível, para não dizer nauseante. Talvez JP estivesse certo e eu fosse um pouco territorial (veja bem, "territorial", não "ciumenta"), afinal. "Para além das férias de verão. Vamos ficar juntos. Oficialmente."
Seu sorriso ia aumentando conforme as palavras iam chegando até ele.
"Você tem certeza, linda?" Perguntou, passando a mão pelo cabelo. "Não quero que, ao final do dia, você diga que a encantei com meu esplendoroso charme e a obriguei a aceitar namorar comigo."
"Eu gosto de você. Talvez não do jeito que você gosta de mim. Ainda." Comecei, mordendo o lábio, pensativa, preferindo ignorar sua piada. "Mas cheguei à conclusão de que seria idiota da minha parte ignorar toda a química que há entre nós. Eu nunca pensei que isso seria possível, mas... Eu realmente gosto de você. Talvez todas as pessoas estejam certas, afinal." Dei um sorriso tímido na sua direção. "Talvez eu e você, você e eu sejamos feitos um para o outro."
A expressão de James se tornou surpreendentemente macia, como se aquela confissão tivesse levado todas suas defesas abaixo.
"É, talvez nós realmente sejamos feitos um para o outro." Ele respondeu, suavemente, antes de me beijar.
FIM
"Oh, por favor, minha mãe perneta seria mais rápida do que vocês." Resmungou Sirius, ao fundo, parecendo enojado. "Demorou sete anos. Sete anos. Dá pra, sei lá, construir um castelo nesse tempo. Se vocês demorarem esse tanto para se casar e ter filhos, vão ser os pais mais velhos do planeta."
"Cala a boca, Pads." Contendo um grunhido, James separou os lábios dos meus e ergueu a cabeça para que pudesse encarar por cima do ombro. "Você certamente sabe como estragar um momento perfeito."
"Desculpa, mas ninguém me pagou para que assistisse a tudo isso. Quase tive uma indigestão aqui." Continuou Sirius, em tom aborrecido. "Vocês deviam, pelo menos, me pagar uma indenização. As taxas de sobrevivência após uma overdose de glicose são baixas, sabia?"
"Desde quando você sabe alguma coisa sobre biologia?" Empurrei JP para o lado para que pudesse fitar seu melhor amigo, que, parado no pátio traseiro, tinha os braços cruzados e um sorriso canalha no rosto.
"Lily, meu bem, eu sei muita coisa de biologia. Você gostaria de ter uma aula prática?" Ele arqueou uma sobrancelha, ignorando o semblante repentinamente fechado de James, ao meu lado. "Se depender do nosso viril Prongs aí, você provavelmente só vai perder essa incômoda virgindade quando tiver trinta anos."
James apertou os dentes, ajeitando os óculos sobre o rosto.
"Você quer ser amaldiçoado, Padfoot?" Puxou a varinha do bolso. "Isso certamente pode ser arranjado." Sua expressão forçosamente séria mal escondia o brilho de diversão dos seus olhos, o que me fez suspirar. Parecia muito imaturo lutar pela minha honra ou algo assim, considerando o fato de que nem era de verdade.
"Ah, é mesmo, Prongsie? Você gostaria de provar sua hombridade num duelo de varinhas?" Tirou sua varinha do bolso traseiro, rindo do próprio trocadilho.
Não pude conter uma gargalhada ante sua piada. Mesmo sendo bruxa, ainda julgava muito estranho ouvir aquele tipo de frase. Ainda mais vinda de dois homens. Parecia inadequada, talvez um pouco maliciosa e, definitivamente, sempre me fazia apertar os lábios e abafar risinhos quando era dita por Dumbledore.
No instante seguinte, os garotos trocavam feitiços em minha sala de estar, fazendo os quadros se revirarem nas paredes.
Estava pronta para intervir, reclamando do perigo que uma batalha trazia para minha televisão, quando fomos interrompidos por uma bruta imprecação:
"Caralho."
Congelamos, erguendo a cabeça na direção das escadas. Nenhum de nós estava esperando por um retorno tão rápido de Alex, que subira para declarar seu amor à minha melhor, mais fiel, um pouco melindrosa melhor amiga, mas ali estava ele, a boca escancarada, encarando o local onde o Expelliarmus de Sirius havia encontrado o Protego de JP, com Cassie ao seu lado, perfeitamente arrumada e maquilada, o cabelo loiro e sedoso caindo sobre os ombros.
Pensei em toda a burocracia que envolveria apagar a memória de Alex e como eu não queria fazer nada disso, considerando quão importante ele era pra mim e o quanto feitiços de obliviar podiam ser perigosos, mas, para meu alívio, Cassandra tomou a palavra, um ar apologético no rosto:
"Ah, obrigada, Sirius, por dar uma demonstração do que eu estava explicando agora mesmo." Disse, os lábios apertados.
Alex voltou a cabeça para ela antes de encarar todos nós, um por um, sacudindo a cabeça, incrédulo.
"Merda. Merda. Merda. Ninguém prepara uma pessoa para ouvir sua garota falar que existem bruxos no planeta. Preciso de uma bebida." Anunciou, descendo os degraus de dois em dois. "Vamos começar essa festa, bruxinha Lily. Pelo menos agora eu entendo o porquê de vocês terem dado tanta gargalhada assistindo a Jennie é um Gênio. Bêbados nós somos iguais, não?"
"Espera, Alex." Cassie correu para segui-lo quando, tendo agarrado a minha mão, Alex escancarou a porta e passou a me puxar na direção da rua.
Apesar do choque, concluí que o viking estava assimilando a novidade bastante bem. Eu estava esperando algo mais para desmaios, gritinhos pouco viris e negação. Embora, caso ele parasse para pensar, facilmente concluiria que ser um bruxo podia, sim, ser algo muito divertido. Ele devia estar pensando nas vantagens que isso lhe concederia.
"Sim, mas nós temos bebidas melhores." Respondeu Sirius, guardando a varinha no bolso enquanto ele e James se punham a nos seguir, tendo fechado a porta da minha casa atrás de si. "Como firewhiskey. Lembre-me de contrabandear um pouco para você. Nada deixa um bom bruxo bêbado como uma dose exagerada de firewhiskey."
Encarei Alex, uma parte minha aliviada porque finalmente não havia mais nenhum segredo entre nós.
Infelizmente, era provável que Olívia nunca viesse a saber sobre minha magia.
"Bem-vindo ao clube, viking." Sorri, suavemente, apertando seu braço com minha mão livre.
"Obrigado. Eu acho." Ele me soltou para que pudesse se virar para Cassandra, que não escondia certo nervosismo, embora tentasse esconder tudo detrás de uma máscara pouco eficaz de indiferença. "Eu ainda não estou pronto para desistir de você, Cass. Só me dê algum tempo para assimilar tudo isso. Vamos falar sobre bruxos e bruxas amanhã. Nós temos uma festa para ir."
Sua afirmação a fez relaxar. Ela suspirou, aquiescendo, e, mordendo o lábio, saltou para o lado dele, abraçando seu braço como um gatinho.
Sorri para James quando ele rodeou meu ombro com seu braço.
"Ah, não." Gemeu Sirius, atrás de nós, em tom de enfado. "Não vamos começar com isso de novo. O que um cara precisa fazer para ter um momento másculo por aqui?"
N/A: O que posso dizer, além de pedir perdão pelo vacilo? Gente, sinto pela demora. Foram, sei lá, três meses! D: Mas foram três meses bem corridos, acreditem. Enfim, segue o último capítulo. Eu queria ter tido mais tempo para trabalhar algumas coisas, porém, contudo, entretanto não tenho tido muito tempo para me dedicar ao fantástico mundo das fanfics e não queria deixar vocês esperando mais do que já esperaram.
Ainda tenho preparado um pequeno capítulo bônus na visão do Sirius (coisa de 3 mil palavras), pra tentar dar um fechamento para detalhes que ficaram em aberto, e um epílogo. Ambos estão bem encaminhados. Preciso apenas revisar um par de coisinhas.
Sobre os sentimentos da Lily com relação ao James: acho que preciso acrescentar que não é de se surpreender que Lily ainda não ame nosso protagonista. Ela é uma pessoa desconfiada, difícil de se deixar levar, e, na realidade, ela até que está certa! A gente banaliza muito o amor. Qualquer namorado de duas semanas já está ouvindo um "eu te amo". Quando ela disser "eu te amo", fiquem certos de que será para valer :D (embora não nesta fanfic, claro, hahahaha).
Sobre o pós-créditos: não pude deixar de acrescentar esse pós-créditos. O Sirius simplesmente não ia deixar a cena romântica se alongar indefinidamente. Além disso, quis dar um pequeno encerramento para Alex e Cassandra. Provavelmente eles terão batalhas muito mais difíceis do que essa pela frente, mas ainda são muito novos para lidar com isso. Ninguém precisa pensar em se casar antes dos 21, no mínimo.
Obrigada pelo carinho! Ainda não respondi aos reviews, mas irei. Vejo vocês amanhã!
