CAPÍTULO BÔNUS
COISAS PREDESTINADAS, SEGUNDO SIRIUS BLACK
Ignorando a confusão que acontecia à minha frente (aparentemente, Scott, vomitando seu intestino na lixeira perto da porta, estava sendo amparado por uma muito-mais-bonita-que-ele Mia, usando um vestido lilás e sandálias trançadas), voltei os olhos para Laurie, ao meu lado.
Laurie era, definitivamente, a garota mais parecida comigo que já havia tido a oportunidade de conhecer. Mais de 90% das garotas de Hogwarts estava mais interessada em relacionamentos estáveis do que no prazer. Boa parte delas chorava como um bebê quando era dispensada, o que sempre me fazia respirar fundo e praguejar. Afinal, não era como se elas não houvessem sido avisadas do fato de que eu não queria nada sério. Porra, minha fama me precedia!
Independente da idade, as mulheres infelizmente sempre têm a desagradável tendência de acreditar que serão aquelas que irão transformar um cafajeste inveterado num homem direito. Chega a ser um pouco engraçado, dada toda a ironia do fato. Se eu quisesse ser convertido, bastava ir à igreja.
"Eles são duas coisinhas fofas, não são?" Lauren se inclinou para sussurrar no meu ouvido, rindo, os olhos fixos em Prongs e Lily, que ensaiavam passos de dança na pista improvisada da casa de Alex.
Ignorando o fato de que James afirmava não gostar de dançar, Lily o coagira a aceitar seu convite, usando a desculpa de que aquele era seu aniversário e que tudo que acontecia no dia do seu aniversário estava sob seu absoluto controle. Apesar de aquela não ser uma verdade concreta, não deixava de ser um pouco verdade, de qualquer maneira. Pelo menos no que se referia a Prongs. Ele era um perfeito boneco em suas mãos, disposto a fazer de tudo para conseguir um agrado na cabeça (de cima).
O toca-discos estava a toda altura, já que os vizinhos de Alex estavam viajando. Elvis Presley cantava Devil in Disguise, cuja letra parecia combinar muito com a personalidade da ruiva, aliás.
Diferente de mim, Lily já estava um pouco tonta, porque Louis, que havia vindo de Londres apenas para seu aniversário, havia feito todo mundo beber três doses de tequila antes de os demais convidados chegarem. Nós secamos uma garrafa mais rápido do que pudemos piscar, fazendo Leonard reclamar, já que estávamos com um baixo estoque de bebidas, uma vez que a Sra. Evans escondera os uísques do Sr. Evans e o pai de Olívia a proibira de tocar em qualquer coisa que valesse mais que quinze libras em seu armário.
Considerando que festas eram meu nome do meio, eu e James estávamos mais do que acostumados a lidar com os efeitos da bebida. Orgulhosamente admito que já são necessárias cinco doses de firewhiskey para que eu comece ver as coisas um pouco nubladas. Menos que isso apenas faz meus pés ficarem ligeiramente dormentes. Não chega nem perto de me fazer abraçar a lixeira, como Scott, o fracote beijoqueiro que havia tentado agarrar metade da população feminina na última festa e que agora surpreendentemente havia sido capaz de conquistar a super deliciosa Mia com um ato de bravura inesperado.
"Um pouco repugnante toda essa paixão, se você quer saber." Resmunguei, com certo desdém. Conhecendo o humor áspero e mal-humorado de Lily como conhecia, jamais pudera imaginar que ela virasse um docinho quando apaixonada. Prongs realmente tinha feito mágica com aquela lá. "Eu preferia um pouco menos de chamego. Mas essa é uma opinião pessoal."
"Six, você só está com invejinha porque 1) não tem nenhuma boca para beijar e 2) seu melhor amigo está mais interessado em ficar com sua garota do que fazer campeonatos de peido e arroto embaixo do cobertor." Lauren citou, caindo na gargalhada.
Ela tinha trazido dois copos cheios de cerveja quando voltara da cozinha, dez minutos atrás, e mal havia bebido do seu, enquanto o meu já estava seco há décadas.
"Credo, mulher, que coisa primitiva." Não contive uma careta. "Campeonato de peido? Por favor, eu sou Sirius Black. Eu não peido."
Lauren riu outra vez, enganchando seu braço no meu. Aproveitei a oportunidade para agarrar sua bebida.
O refil na cozinha era liberado, já que Sebastian, o idiota engomadinho que Olívia havia trazido para a festa, havia conseguido trazer um tonel de cerveja (aparentemente, seu pai era bastante liberal com relação a alcóolicos), mas eu definitivamente não queria levantar daquele sofá. Estava com medo de acidentalmente ser atingido por uma flecha do Cupido, que andava viajando demais por aquela vizinhança ultimamente.
Se até a insuportável Petúnia havia conseguido a façanha de ficar noiva, era um sinal de que eu deveria me cuidar.
"Para melhorar seu humor, eu sugeriria investir em Belle." Lauren apontou para a irmã, que estava sentada no colo de Raphael, um dos vizinhos da próxima rua, rindo de uma piada. Leonard estava muito ocupado fumando com o irmão e Danna, sua cunhada, no pátio traseiro. "Mas eu acho que ela e Leo estão em alguma espécie de relacionamento. O que é bom, eu acho. Papai vai ficar feliz. Apesar de tudo, não gosto da tendência que a Belle tem de pegar homens mais velhos. Pode ser perigoso."
Aquiesci, pouco interessado. Gostava tanto de discutir sobre relacionamentos alheios quanto de pintar minhas unhas de rosa. Obrigado, mas não, obrigado.
Além disso, depois de ter ido para cama com Lauren, Isabelle parecia pouco interessante. Era muito parecida com a irmã, mas, além de mais nova, era um pouco mais baixa e menos curvilínea e, sinceramente, eu duvidava que tivesse o mesmo desprendimento de Lauren com relação a sexo casual.
Lauren era incrível. Uma das melhores fodas que tive ao longo desses anos. A experiência fazia diferença, afinal.
"Feliz por quê? Por que ela parou de investir em todo cara maior de 25 anos que vê pela frente? Duvido que Leonard seja tão inteligente quanto todos vocês costumam falar." Disse, pensando no moreno. Ele passava a maior parte do tempo chapado, o que exigia um bocado de determinação. Mesmo eu me cansava de beber, às vezes. "Na maior parte do tempo, ele parece ter o coeficiente de um roedor."
"O quê? Leonard é um crânio." Lauren sacudiu a cabeça. "Você deveria ver suas notas da faculdade. Ele vai ser um advogado brilhante, se não resolver fumar todas as folhas do seu escritório." Ela riu. "Duvido que eu seja assim tão eficaz. Meu negócio é mais farrear e me divertir."
"E o cara de Oxford?"
"Edward." Ela corrigiu, fazendo-me revirar os olhos. Edward tinha mesmo cara de nome que pertencia ao mesmo tipo de idiota engomadinho com quem Olívia estava atualmente saindo. "Nós combinamos de nos encontrar na semana que vem. Vai ser nosso primeiro encontro oficial. Não quero foder as coisas. Estou um pouco nervosa. Nunca tive um encontro que não objetivasse terminar em sexo. Você sabe, sempre vi todo o flerte como um meio para um fim. Falem as outras garotas o que quiserem, eu gosto de sexo."
Anuí, mordiscando um salgadinho.
Peter havia abandonado sua tigela ali antes de ser tirado para dançar por Leona, a garota gordinha e de rosto gentil que chegara junto de Raphael, Mia e Scott, cerca de duas horas atrás. Não é necessário dizer que ele era uma absoluta negação na pista de dança, tanto nas lentas quanto nas rápidas.
"Você vai se sair bem." Garanti. "Não tem homem que resista a você. Além disso, o cara seria um absoluto idiota se a dispensasse só porque você falou algumas merdas."
Lauren tagarelou, apaixonada, durante mais alguns tediosos minutos até que Isabelle a chamou, oportunamente me livrando da necessidade de fingir escutar.
Eu fiquei sozinho por um curto momento antes que Lily se jogasse no sofá ao meu lado, o rosto afogueado e o cabelo solto. Para a loucura de Prongs, ela havia escolhido um vestido preto, relativamente curto, com um decote traseiro que deixava suas costas à mostra. Ela tinha uma pele branca muito sensual, do tipo que fazia a gente querer lamber por inteiro.
"Qual o problema, Black?" Ela se virou para mim, um sorriso mole ligeiramente bêbado nos lábios.
"O problema é que não tem mulher solteira nesta festa, ruiva." Apontei, em tom de obviedade, não objetando quando ela roubou alguns salgadinhos. James teria um puta trabalho para colocá-la em cima de uma vassoura e fazê-la passar pela janela do próprio quarto naquela noite. "Como você deve saber, minha diversão depende de sexo e bebida. Estou me sentindo num encontro de casais aqui."
"Você tem a mim, oras." Lily soltou um risinho, endireitando-se no sofá. Lutou para desembaraçar o cabelo do pingente do colar que havia ganhado de aniversário. O tom da pedra combinava perfeitamente com seus olhos. Ponto para a mamãe. Não importa o quanto diga o contrário, não existe um ser do sexo feminino que resista a uma joia bem desenhada. "Do que você precisa? Companhia para dançar? Sexo é supervalorizado, sabia? Vem."
Ela se levantou, agarrando minha mão. Permiti que ela me levantasse, já que não teria força para fazê-lo sozinha, e me deixei ser arrastado para o meio da sala de estar.
"Lily..." Comecei, enquanto Elvis provincialmente principiava outra canção.
"A little less conversation, a little more action, please." Ela gritou, rindo e cantando o verso da música que começava.
Fui obrigado a rolar os olhos. Não podia deixar de rir da sua horrível tentativa de dançar. Como um Black, eu havia tido aulas de dança desde a mais tenra infância, algo que particularmente detestava, mas que acabava por ser útil durante os bailes da escola. As garotas se derretiam por um cara que sabia dançar.
Eu a acompanhei durante duas músicas, ensinando-lhe algumas coisas básicas. Pertencendo à aristocracia, Prongs também tivera ótimos professores, porém não parecia ter a autoridade necessária para obrigar sua namorada bêbada a prestar atenção. Lily era como massinha de modelar em minhas mãos, deixando-se levar, e sorriu e acenou, sério, ela sorriu e acenou quando James voltou da cozinha, dois copos de cerveja em mãos, o rosto tão vermelho quanto o dela. Fazia um fodido calor naquela noite.
A certo tempo, Alex tomou meu lugar, de modo que pude seguir para junto de Prongs, que me passou um copo de cerveja.
"Sério, você envenenou essa garota ou o quê?" Ergui uma sobrancelha, observando Lily cair na gargalhada ao ouvir uma piada idiota sobre passarinhos. "Ela definitivamente não é a mesma pessoa que conhecemos."
"E não é?" James abriu um largo sorriso, ajeitando os óculos sobre a ponte do nariz. "Eu nunca pensei que Lily pudesse ser dessa maneira. Eu gostava dela antes, mas agora... É como se ela tivesse me deixado ver uma faceta sua que quase ninguém conhece. Eu me sinto especial para caralho, sabia? Dizer que eu estou feliz nem faz jus a toda essa loucura. Tá mais pra, tipo, sentir meu peito explodir ou qualquer clichê assim."
"Extremamente clichê, sim." Concordei, tomando alguns goles da minha bebida. "Mas você é um clichê em forma de gente, Prongs. Vamos lá, a ruiva teria de ser uma espécie de louca para não dar uma chance para você. Seus joelhos já devem estar calejados de tanto que você se rastejou ao longo desses anos."
Ainda sorrindo, divertido, James sacudiu a cabeça.
"Não. Antes de saber que Wormtail havia se mudado para perto dela, eu começava a perder as esperanças." Admitiu. "Existe um limite para o que você pode fazer para conquistar uma garota. Provavelmente nunca teríamos ficado juntos se não fosse pelo divórcio dos pais de Peter."
"Talvez devamos brindar à sua tragédia familiar?" Sugeri, zombador, erguendo meu copo já pela metade.
"Cala a boca." Ele riu, procurando por Peter com os olhos. Aparentemente, ele e Leona estavam muito envolvidos numa competição para descobrir quem devorava os petiscos da mesa do canto primeiro. Estavam empatados, eu acho. "Pobre Wormtail. Isso realmente o abalou. Você percebeu como ele estava quieto neste verão?"
"Ele não gosta muito da sua nova namorada." Apontei, em tom de obviedade.
Peter tinha tanto medo da Monitora Malvada, como secretamente havíamos apelidado Lily, quanto da Lula Gigante. Não que todo aquele pavor fosse sem motivo. Um cara precisava ter muitos colhões para encarar o olhar de fúria e decepção de Lily Evans sem ter pelo menos um pouco de vontade de borrar as calças.
E, bem, verdade seja dita: Wormtail não era um Grifinório muito corajoso.
"Ele vai se acostumar com ela." Garantiu James. "Lily tem andado bem boazinha."
"Presumo que esse seja o efeito James. Parabéns, parceiro." Ergui meu copo outra vez. "Ao homem que conseguiu domar a fera! Saúde!" Não esperei que ele me acompanhasse, já que zombar da sua musa inspiradora era algo definitivamente fora dos limites, e, brindando sozinho, logo esvaziei meu copo.
Prongs me encarou, os olhos sagazes, por um longo instante, enquanto Olívia interrompia Elvis para colocar um LP de Pink Floyd.
Aparentemente, não havia nenhuma banda trouxa que não fosse fodidamente fantástica. Led Zeppelin e AC/DC superavam quase todas as bandas bruxas da atualidade. Ninguém fazia um rock de qualidade como um trouxa. Eu devia respeitá-los por isso.
Era muito provável Jimi Hendrix com uma guitarra pudesse impedir guerras.
"E quando você vai tentar conquistar a Sereninha?" Indagou James, estragando meu humor.
"Que tal nunca?" Resmunguei, preferindo ver Olívia e Sebastian, loiro, vestindo uma camisa polo cafona, com sapatos sociais e um sorriso falso no rosto, dançarem como se não houvesse amanhã.
A pedido de Lily, eu e Alex havíamos tido uma séria conversinha com o elemento quando ele chegara à festa, a fim de garantir que suas intenções não envolvessem foder Ollie e deixá-la juntando os pedaços sozinha depois, e, deixe-me acrescentar, ele parecera mais falso que um nuque de latão.
Havia um limite para o quanto poderíamos usar nossa influência, considerando que provavelmente nunca mais o veríamos.
Só esperava que Olívia pudesse segurar suas calcinhas no lugar durante tempo o bastante para descobrir que ele não passava de um cafajeste. Embora, segundo o que eu havia sido informado, sua tendência a escolher sempre o cara mais decepcionante da volta fosse lendária. Todos éramos criaturas de padrões, afinal.
"Cara, nós vamos nos formar este ano." Lembrou Prongs, me cutucando com o indicador. "Você já parou para pensar que, se não chamá-la para sair, nunca mais vai ver sua belezinha?"
Pensar em não ver Serena outra vez era um golpe duro, mas não mudava o fato de que eu não a queria por perto. Seria melhor se ela simplesmente me odiasse, algo que eu me esforçava muito para acontecer. Os Black não tinham histórias de amor que terminavam com finais felizes e eu não queria destruí-la com meus erros. Não era como se eu fosse um exemplo de pessoa ajuizada. Além disso, Serena era um bebê, tendo recém completado 15 anos, pequena como uma boneca, e parecia até um pecado profaná-la.
James nunca entenderia aquele sentimento. Ele havia crescido num lar amoroso e perfeitamente funcional. Eu, ao contrário, estava acostumado à tragédia. Com meus pais, nunca houvera amor, apenas imposições sociais. Eu sempre devia fazer algo simplesmente porque era "o que se esperava de mim". Até eu me rebelar e abandonar a família, todo o meu futuro estava escrito com tinta permanente e envolvia um casamento por obrigação, filhos por obrigação e trabalho por obrigação.
Eu via Serena como a única coisa que era minha, apenas minha, e que ninguém poderia tirar. Ela era como uma espécie de tábua de salvação, algo que estava ali apenas para me manter são em meio a toda aquela loucura. Não como algo para ser usado e descartado quando passasse a vontade. Era para isso que eu saía com todas aquelas outras garotas.
"Desencana." Pedi, sério. "Não vai rolar."
"Pads..." James começou, no tom professoral que costumava adotar quando ia falar sobre algo importante e que sabia que ia me incomodar.
Para minha sorte, ele foi interrompido por Lily, que, embora com alguma dificuldade, havia subido no sofá com a ajuda de Alex e que agora chamava a atenção de todos batendo palmas.
"É hora de cantar parabéns para mim!" Ela gritou, cambaleando para o lado e sendo rapidamente amparada pelo loiro ao seu lado. Sorriu quando visualizou Cassie, que, sentada ao pé da escada, tinha o cabelo bagunçado e a maquiagem borrada. Alex havia tido tempo para fazer um estrago nela antes de vir atender sua melhor amiga. "Traz o meu bolo, Cassie, bombom! E é bom que ele tenha exatamente dezessete velinhas ou alguém aqui vai pagar por isso!"
"Você ouviu sua garota, Prongs." Apontei com o queixo. "Está na hora de cantar Parabéns." Avisei, pousando uma das mãos sobre suas costas a fim de empurrá-lo para frente.
James ainda me fitou por cima do ombro antes de se adiantar na direção da aniversariante, que sorriu na sua direção.
Eu os encarei, precisando abrir um sorriso. Apesar de toda a merda que acontecia no mundo, existiam coisas que simplesmente eram para acontecer, pensei. Esses dois eram uma delas.
N/A: Tá acabando. Buá :'(
Só mais um pela frente, galeris. Força na peruca!
