EPÍLOGO

Olhei ao redor, tentando identificar algum conhecido. Havia chegado atrasada, portanto a plataforma já estava cheia. O fato não me surpreendia, já que havia sido particularmente impossível arrancar Petúnia da cama naquela manhã.

Desde que ficara noiva, ela passara a se considerar uma pessoa muito especial, quase como uma divindade que havia descido à Terra, e afirmava que era nosso dever, como sua família, tratá-la com todo o respeito que uma futura senhora deveria receber. Isso incluía levar café na cama, deixar que ela empesteasse a sala com cheiro de laquê de cabelo e ceder generosas porções do meu sorvete (o que, aliás, não aconteceu).

Mamãe havia decidido converter minha última viagem a Hogwarts num evento especial, de modo que nós nos enfiamos no carro e partimos para a estação com lencinhos na mão e conversas saudosistas.

Deixar Alex e Olívia para trás havia sido mais difícil que nos anos anteriores, principalmente porque Alex agora sabia sobre o mundo da magia. Tão logo assimilou a notícia, ele passou a fazer milhares de perguntas. Mal pôde acreditar quando James e Sirius o apresentaram às vassouras. Ficou muito deprimido quando descobriu que um trouxa não poderia andar em uma, exceto se acompanhado de um bruxo. Durante horas insistiu para que Cassandra ficasse na direção enquanto ele tentava aprender Quadribol (rúgbi agora parecia muito desinteressante, sob seu ponto de vista).

Quando me deixou, uma semana antes do fim das férias, Cassie ainda não havia podido decidir o que fazer sobre sua família. Uma vez que havia apresentado a Alex o mundo mágico, parecia bastante plausível o fato de que pretendia levar a sério seu relacionamento. Não que seus pais houvessem sido informados a respeito. Eu estava esperando algum drama familiar mais a frente.

Usando um feitiço para fazer minha mala levitar (por que arrastá-la, quando eu podia encantá-la, não é mesmo? As vantagens de ser uma bruxa maior de idade!), adentrei o trem, sem esconder certo nervosismo.

Não podia deixar de pensar no escândalo que seria descer em Hogwarts ao lado de meu novo namorado.

Na noite anterior, havia bolado uma estratégia que, supunha, talvez fosse bastante eficaz para manobrar todo o estardalhaço inevitável a meu favor. Tudo o que precisava fazer era colocar o plano em prática.

"Ei, linda." Ouvi uma voz às minhas costas, conforme cruzava o corredor na direção do final do trem, onde eu, Cassie, Alice e Andrei (meus outros dois escudeiros) costumávamos nos sentar.

Ergui a cabeça, espiando por cima do ombro, e não pude conter um sorriso quando vislumbrei JP, usando calças pretas, sapatos sociais, uma camisa azul clara e com o cabelo transformado no habitual ninho de passarinho com que eu estava acostumada.

Como Cassie, ele e Sirius haviam partido para a Mansão Potter a fim de passar os últimos dias de férias na companhia de seus pais. Desde então vínhamos nos correspondendo por cartas. Muitas cartas.

Papai ainda não se sentia confortável com a possibilidade de ver James aparatando a todo momento na minha sala de estar, de modo que pediu para que suas visitas fossem marcadas com alguma antecedência. Depois que, querendo me dar boa noite pessoalmente, JP se materializou magicamente na frente da nossa televisão, no primeiro dia após sua partida, e quase matou o sogro com um ataque cardíaco, regras foram estabelecidas.

"Oi." Aproximei-me, embora estivesse consciente da plateia, ficando na ponta dos pés para que pudesse beijá-lo (ouvi um ofego coletivo dos ocupantes da cabine ao nosso lado). "Onde você está acomodado?"

"Mais para frente." Ele murmurou, com um pequeno sorriso, rodeando minha cintura com os braços e me puxando mais para perto. Sua língua deslizou sobre meu lábio inferior, fazendo-me suspirar, antes que seus dentes o abocanhassem com uma suave mordida. "Você vai se juntar a nós?"

"Sua cabine é um pouco pequena para todos nós." Disse, ajeitando seu cabelo. Estava bagunçado demais. "Alice e Andrei devem estar me esperando. Você viu Cassandra?"

"Cassandra e Alice já estão sentadas com a gente. Eu as raptei tão logo as vi, para obrigar você a aceitar a minha oferta." JP piscou, brincando com o pingente do colar que eu levava no pescoço. Naquela manhã, havia escolhido uma camiseta branca, calças jeans e sapatilhas, dando um destaque todo especial à joia que havia ganhado de aniversário. "Andrei está com os rapazes da Corvinal. Ele concordou em ceder você para nossa última viagem a Hogwarts, desde que eu obrigasse Sirius a lhe dar um beijo. Sabe o quê? Pads me deve." Abriu um sorriso torto.

Gargalhei, sacudindo a cabeça em negativa. Sirius provavelmente preferiria morrer a comprometer sua fama de garanhão.

Andrei, Corvinal que eu havia conhecido durante um trabalho de Feitiços em conjunto, era seu fiel seguidor desde que ele começara a ostentar a aparência de um deus grego, mas, obviamente, sua paixão nunca fora correspondida. E provavelmente nunca seria, dado o fato de que, além de heterossexual, Sirius parecia estar interessado em Serena Beckendorf – algo que eu totalmente me mostrava disposta a pesquisar, a propósito.

"Acho que não me resta nada senão concordar." Afirmei, divertida. "Mostre-me o caminho."

Ignorando o olhar estarrecido dos alunos que passavam por nós e encaravam nossas mãos unidas como algum sinal do apocalipse, tomamos rumo para sua cabine. Todos já estavam lá, incluindo Alice, que quicou na minha direção tão logo me viu, os grandes olhos azuis abertos como pratos, a boca ligeiramente entreaberta.

"O quê? Então é verdade?" Guinchou, a voz aguda fazendo meus ouvidos reclamarem, antes de me abraçar. "Você está mesmo com James, Lily? Eu achei que ele tinha finalmente enfeitiçado você com uma Poção do Amor ou algo assim."

"Eu usei apenas meu charme natural, Alice." James piscou, passando a mão pelo cabelo, muito prepotente, assim que ela me soltou. "Como eu costumo dizer aos quatro ventos, nenhuma mulher resiste aos meus encantos."

Rolei os olhos, cumprimentando Cassie, que estava com a boca cheia de chocolate, Peter, Sirius e Remus com um curto sorriso antes de, com um gesto de varinha, depositar meu malão no compartimento adequado.

"Não me faça repensar minha decisão, Potter." Avisei, uma sobrancelha arqueada.

"Eu preciso saber tudo." Alice empurrou Peter para o lado, acomodando-se entre Sirius e Remus, deixando o espaço livre à sua frente vago para nós, de modo que nos acomodamos. Seu rosto ligeiramente redondo estava expectante de curiosidade. Ela provavelmente poderia explodir se ninguém a inteirasse dos fatos dentro dos próximos, sei lá, dez minutos.

Dado que eu não parecia muito interessada em compartilhar nossa história, já que era fato sabido que eu não era uma pessoa muito romântica, Sirius e JP tomaram a dianteira, aumentando um pouco os fatos, obviamente, e pincelando humor por todos os lados.

Tão logo o trem começou a andar e eu e Remus fomos chamados para cumprir nossas obrigações como monitores (agora eu era Monitora-Chefe e tinha muito mais autoridade do que antes), deixamos a cabine. Havia cochichos por todos os lados, principalmente destinados a mim, e eu tive que conter uma ou duas imprecações quando percebi que a notícia de que eu estava namorando James Potter havia percorrido o trem como uma bomba. Em menos de meia hora, toda e qualquer pessoa parecia ter sido informada do meu novo status de relacionamento.

Pude ver que os demais monitores estavam roendo as unhas de curiosidade para me indagar a respeito, mas, como vesti minha carapaça de irritação, nenhum deles teve coragem, temendo ser incinerado por um movimento de varinha.

Quando voltamos, porém, e Alice já havia sido informada sobre tudo, foi que as visitas particulares começaram e eu resolvi colocar meu plano em prática.

Tendo Remus se prontificado a fazer a primeira patrulha, eu recém me acomodava outra vez ao lado de JP, encolhendo-me dentro do seu abraço e roubando um dos seus feijõezinhos-de-todos-os-sabores, com Sirius e Cassie jogando uma escandalosa partida de Snap Explosivo, quando a porta da cabine se abriu e todos nós ouvimos um exagerado e afetado "Ahh", que exalava descrença e um pouco de inveja.

"Lily..." Voltei o rosto na direção da recém-chegada, aconchegada em James, para visualizar Louise Brown, aluna do sexto ano da Grifinória, uma das muitas ex-namoradas de Sirius, que, pálida e incrédula, tinha os olhos claros fixos em nós como se houvéssemos acabado de morrer e deixar nossos corpos em forma de fantasmas. "Você e James..." Começou a falar, mas foi incapaz de terminar a frase.

Coloquei uma expressão em branco.

"Sim." Disse, o mais séria que pude, embora, internamente, não pudesse controlar uma onda de diversão. "Eu achei que seria melhor assumir a relação agora que eu, sabe... Acho que estou grávida e tudo isso." Embora muito espontânea, a confissão fez com que Peter, que mastigava um feijãozinho-de-todos-os-sabores, engasgasse, precisando ser socorrido por Cassie.

Como os demais, que pararam tudo o que estavam fazendo para me encarar, o semblante de Louise passou de surpreso para chocado.

"E-eu... Preciso ir." Um instante depois, assim que teve tempo o bastante para assimilar o que aquilo significava, ela deu as costas e saiu, batendo a porta da cabine atrás de si, mal podendo segurar a vontade de começar a espalhar a novidade ali mesmo.

Ignorei o semblante surpreso de Cassie, que parecia demonstrar certa dúvida sobre a veracidade daquela informação - o que me ofendeu, porque, quando, porra, na loucura que eram nossas férias, eu havia tido a chance para transar? Alex parecia quase meu irmão siamês.

"Vá. Polinize a fofoca, abelhinha." Murmurei, com monotonia.

Sirius, que havia baixado suas cartas para me encarar, abriu um sorriso insano.

"Grávida, Lilykins? Sério?" Arqueou uma sobrancelha.

"Veja bem, Sirius, querido, até chegarmos a Hogwarts haverá tantas fofocas bizarras e contraditórias sobre nós que o simples fato de eu e James estarmos juntos vai parecer algo sem graça e profundamente tedioso." Pisquei. "Confie na mente da Monitora-Chefe."

Ajeitando os óculos sobre o rosto, James soltou uma súbita gargalhada.

"Depois era eu quem era comparado a uma acromântula diabólica." Lembrou, sarcástico.

Amber Whitehouse, uma quintanista da Corvinal que saíra com JP durante quase um mês durante o início do nosso sexto ano, se eu não estava enganada, foi a segunda aparecer, com a desculpa de que pretendia apenas cumprimentar seus amigos de longa data, muito arrumada e usando um vestido de grife que faria qualquer homem se arrastar aos seus pés.

Ela era maravilhosa, morena, alta e de olhos verdes e corpo ligeiramente bronzeado, pertencente à nata da sociedade bruxa, e tinha tudo para ser a mulher ideal para qualquer herdeiro de uma família importante, não fosse o fato de que era chata. Terrivelmente chata. Tão chata que nem mesmo Sirius, um cara que normalmente conseguia aguentar qualquer garota, desde que ela fosse bonita, era capaz de suportá-la. Na verdade, costumava fugir dela.

"Então, James, você e Lily, hein." Ela sorriu, jogando o cabelo comprido e ondulado por cima do ombro, ansiosa por notícias frescas e vindas direto da fonte.

Sua voz aguda e irritante fez Alice, que até então estivera cochilando, quase deitada por cima de Cassie, franzir as sobrancelhas durante o sono.

"Lily finalmente percebeu que eu podia ser um pouco mais interessante que a Lula Gigante." James a presenteou com um pequeno sorriso, fazendo-a corar.

Aquela reação me irritou. Era patético que Amber ainda rastejasse atrás de JP, mesmo depois de todo aquele tempo.

"Bem, mais ou menos." Respondi, séria, tomando as rédeas da situação. "Ele sabe que não sou o tipo de garota que se compromete, mas insiste que temos um futuro juntos." Sorri, falsa. "Dada sua larga experiência, você deve concordar comigo. É difícil ser namorada de alguém, não é mesmo? Principalmente depois de toda a ação que eu, James e Sirius tivemos nas férias. Ficar só com um deles não parece desperdício de diversão?"

Enquanto Cassandra soltava um gritinho, chocada com a minha audácia, Sirius começou a rir, incrédulo, ao meu lado, piscando para Amber, a fim de dar mais veracidade à nossa história falsa.

"Minha irmã bateu a porta na minha cara." Continuei, sincera. "Disse que eu sequer precisava me preocupada em escrever. Depois de, sabe, ter saído com esses... Bem, ela usou a palavra degenerados, mas eu acho que é um pouco pesada."

Quando Lucy Abernathy chegou, quinze minutos depois, eu já estava muito menos paciente, embora certa da eficácia do meu plano. Ajeitando o cabelo castanho claro e abrindo um largo sorriso para Sirius, ela se virou na nossa direção, ignorando o fato de que eu havia enfiado a cara num livro e já não parecia mais disposta ao diálogo.

"Lily, eu não sabia que você e James estavam juntos."

Aparentemente, o fato de que eu estava com JP havia dado o direito de que todos me tratassem de modo muito íntimo, como se as fofocas contraditórias que ouviam sobre mim fizessem com que me conhecessem como ninguém.

Geralmente, o processo era o mesmo com os Marotos. Exceto em se tratando daqueles que os desprezavam, como eu, ou daqueles que eram obrigados pelas imposições sociais a demonstrar certa distância, como os professores, todos costumavam chamá-los pelo primeiro nome, não se preocupando sequer em pedir autorização.

"Há anos, na realidade." Rebati, asperamente, sem erguer os olhos do livro. "Desde o quinto ano, mais ou menos. Nós só resolvemos manter tudo em segredo para manter acesa a chama da relação, sabe? Namorar escondido é muito mais divertido."

Qualquer um que ligasse os pontos saberia que eu e JP passávamos a quilômetros de distância um do outro durante nosso quinto ano, ainda mais se formos considerar o fato de que eu ainda era muito apegada a Severus. Mas, bem, as pessoas veem o que elas querem ver.

"Oh, sério?"

"Yep." Virei uma página do livro, impassível. Sequer me dignei a olhá-la. "Vê como fingimos bem? Vocês nunca desconfiaram."

Abernathy vacilou, parecendo relembrar todas as discussões públicas que tivemos, e voltou os olhos para James, que havia entrado no Snap Explosivo desde que Cassie e Alice haviam partido, preferindo inteirar Andrei pessoalmente das novidades. Andrei deveria estar enlouquecendo com a quantidade de notícias incoerentes que vinha recebendo.

Provavelmente alguém teria escrito uma biografia não autorizada sobre a trágica história de amor de James Potter e Lily Evans antes que chegássemos ao castelo.

"Mas James esteve com todas essas garotas e..." Ela continuou, a voz um pouco mais baixa, pensativa.

"Nós estávamos num relacionamento aberto." Afirmou JP, com um sorriso torto, preferindo dar seu próprio toque pessoal à nossa mentira. "Lily era do tipo que tinha medo de relacionamento. Como pretendemos nos casar no próximo verão, achamos que seria adequado assumir publicamente nossa ligação."

Abernathy aquiesceu, muito séria.

"Por causa do bebê." Disse, com convicção.

"Ah, sim, o bebê." Eu ergui a cabeça, fitando James. Ele havia se posicionado no lugar vago de Cassandra, à minha frente, de modo que pudesse ficar cara a cara com Sirius para continuar a jogar. "Eu gosto de Harry." Afirmei.

Na realidade, Harry sempre havia sido meu nome preferido, mesmo quando criança. Todos os meus filhos de mentirinha se chamavam Harry.

Mamãe achava isso bonitinho, embora papai pensasse que era um pouco doentio. Costumava dizer que eu não devia sequer pensar em ter bebês antes de deixar de ser um bebê - o que, de acordo os cálculos dele, aconteceria quando eu fizesse 35 anos, precisamente.

"E como você se sente sobre isso, Sirius?" Abernathy fitou Sirius, que mastigava um dos sapos de chocolate que havia roubado de Peter à força.

"Eu?" Ele pareceu surpreso por ter sido chamado à conversa, dado que ninguém, nem mesmo suas fãs, pareciam muito interessadas em saber a seu respeito desde que todas as fofocas sobre James e eu começaram a circular. "Estou lidando..." Coçou a cabeça, uma expressão forçosamente triste. "Eu vou ser o padrinho."

Quando chegamos a Hogwarts e finalmente descemos na estação, todas as cabeças estavam voltadas para nós.

"Acho que criamos um monstro." Sussurrou JP ao pé do meu ouvido, contendo uma risada quando passamos por um grupo de quartanistas da Grifinória que nos encarava com olhares muito chocados.

"Prontos para colher o fruto do seu árduo trabalho?" Aproximando-se com passos rápidos, deixando Remus e Peter para trás, Sirius passou um braço pelo meu ombro, piscando para Amber, que nos encarava a alguns metros de distância, uma expressão de despeito, como se o fato de eu estar sendo ladeada pelos Marotos fosse algum tipo de sacrilégio.

Eu sorri, porque nem em meus sonhos mais delirantes estava esperando por uma entrada triunfal como aquela.

O sétimo ano seria um longo ano, pensei.

"Como nunca estive." Garanti, apertando a mão de JP contra a minha, e fiquei na ponta dos pés para que pudesse depositar um curto beijo sobre sua bochecha.


N/A: Agora sim, digo com propriedade e certeza que chegamos ao final de Como uma Ninfa da Primavera! :) Agradeço imensamente aos comentários e ao carinho. Dei muitas risadas com alguns reviews e, posso dizer, fiz alguns amigos! Foi uma ótima experiência! Não pude estender tanto quanto queria, por medo de acabar abandonando o projeto por falta de tempo, mas estou certa de que o trabalho ficou digno de representar dois dos meus personagens preferidos da saga.

Neste momento, não tenho planos quanto a projetos futuros. As festas de fim de ano estão chegando e todo mundo sabe a correria que envolve tudo isso. De qualquer maneira, provavelmente nos vemos ano que vem! Gostei tanto de escrever sobre James, Lily e Sirius que, definitivamente, pretendo produzir mais alguma coisa sobre eles, talvez num UA.

Desejo a todos um ótimo Natal e um Ano Novo ainda mais incrível!