Diário...
Hora: Sinceramente, não importa certo?
Diário, por favor não permita que esses escorpiões malditos subam novamente pelas minhas costas, trazendo como veneno o amor que eu lutei tanto para esquecer. Eu queria esquecer, me forcei a esquecer, fingi esquecer. Não permita que eles injetem novamente em minhas veias, aquele sentimento maldito que levou noites e mais noites de sonhos, quando eu ainda era tocada pela luz da vida. Quando eu achava que havia esperança, quando eu era tola em acreditar que poderia ser feliz, ao lado do garoto que eu amava, quando eu me deixava ser levada por sentimentos sem nexos, que comandavam as minhas ações, restando para mim apenas arcar com suas conseqüências. Não deixe, não permita que mais uma vez eu caia em desgraças e deixe meu coração falar mais alto que minha razão, que o meu senso de certo e errado fraqueje novamente.
Eu que ansiei durante noites sem fim que meu coração anestesiado, o qual eu julgava frio e sem vida, voltasse novamente a pulsar, e eu pudesse sentir novamente sentimentos. Qualquer sentimento que fosse, menos esse que agora assola minha mente e corpo, e justo pela pessoa a qual eu futilmente matei em meus pensamentos e lembranças. Tal como um verme que se instalou em meu coração, trazendo consigo não só o meu antigo amor, mas também todos os medos e incertezas que o acompanhavam. Eu queria voltar a amar, queria sentir novamente esse sentimento, essa adrenalina correndo pelas minhas veias, fazendo com que cada parte morta voltasse a vida, como uma chuva no deserto após um longo período de estiagem. Mas você bem sabe, Diário, como essa luta comigo mesma na qual eu sempre perdia, era mortal. Por muito tempo, perdi a capacidade de amar alguém, de me apaixonar, de me entregar novamente à aquilo que os românticos chamam de amor platônico. Ou até mesmo amor de esquina. Você bem sabe como tem sido difícil para mim estar sozinha por tanto tempo. Tudo culpa daquele garoto amaldiçoado, que me jogou nas minhas trevas mais horrendas, me deixando a mercê dos meus piores pesadelos. Após essa queda, minha vida foi um sucessão de desgraças, até que eu me achei novamente comigo mesma e compreendi que só eu poderia me tirar das trevas onde fui jogada. Me recuperei, mostrei que sou forte, sobrevivi. Então por quê? Tente me explicar por que , a vida tinha que ser mais uma vez perversa comigo e me colocar novamente à prova?!
(Flash Back)
Fazia frio no centro de Londres, as ruas estavam apinhadas de gente que mesmo pegas de surpresa pelo frio ainda aproveitavam os últimos raios de sol para fazerem suas compras. Allanis desviava delas sem se importar com os movimentos que fervilhavam ao seu redor, sem se importar com as grosserias que às vezes uma ou outra pessoas lhe lançavam por terem se esbarrado. Não precisava de todo aquele movimento ao seu redor. Via-o todos os dias através das janelas de seu apartamento para ligar para toda aquela agitação. Na verdade, gostaria de estar bem distante de tudo isso, na calmaria e plenitude de seu quarto, sobre cobertas que lhe protegessem do frio. Mas sabia que tinha muito o que fazer antes de seu descanso. Havia trabalhos a serem entregues, os quais os prazos ela não poderia se dar ao luxo de perder. Valiam mais do que notas, valiam sua estadia na faculdade. Por isso carregava nos braços pastas e mais pastas de arquivos que não couberam em sua mala, já atarrancada de grossos livros. Seus pensamentos estavam longe, estavam na quietude de seu apartamento, no seu jantar solitário que ainda estava por fazer.
Estava tão perdida em seus pensamentos, e tão acostumadas a esbarrar em pessoas alheias que levou um susto quando bateu de frente com alguém que provavelmente estava tão perdido em pensamentos quanto ela. Ambos os corpos se chocaram com tanta violência que as pastas nas mãos de Allanis voaram de suas mãos, cobrindo de papéis o chão a sua frente.
- Ah seu idiota! Olhe por onde anda!!! - Disse Allanis se abaixando para juntar os papéis que haviam caído de sua pasta, ainda sem olhar para o rosto do rapaz com quem acabara de colidir.
- Eu não tenho culpa se você é uma distraída mal humorada! - Reclamou Harry endireitando os óculos que foram tirados de seu lugar por causa da colisão.
O coração de Allanis parou... ela reconhecia aquela voz. A reconheceria em qualquer lugar, mesmo estando um pouco mais matura do que da última vez que ela ouvira. Aquela voz nunca saíra de seus pensamentos, assim como o garoto a quem ela pertencia. Mas não poderia ser, simplesmente não poderia. O que ele estaria fazendo ali? Por que justo ele? Não teve coragem de levantar o olhar para o rapaz, tinha certeza que só ela o havia reconhecido, Harry ainda não fazia a menor idéia da garota com quem acabara de colidir. Então ainda havia um chance, havia uma chance dela escapar sem ser reconhecida. Sem ter que sentir no sangue novamente aquela vergonha e humilhação por ter sido tão desprezada. Havia uma chance.
- Bem de qualquer forma, me desculpe. Deixe-me ajuda-la. – Ofereceu-se Harry se ajoelhando ao lado de Allanis para ajuda-la a juntar os papeis.
Por sorte, ou azar Allanis já havia juntado a maioria deles, resolveu deixar os que estavam faltando, ali mesmo no chão. Depois faria cópias dos documentos se realmente precisasse deles. Não valia a pena.
- Não precisa. – Apresou-se a garota a responder, levantando-se no segundo seguinte e sem sequer lançar um olhar para Harry, deu as costas e saiu apressada pela rua.
Harry terminou de juntar os papéis que ainda estavam no chão e observou a garota desaparecer aos poucos pela rua movimentada. Ela lhe lembrava alguém, alguém que ele percebera tarde de mais o quanto amava. Alguém que ele perdera antes mesmo de tê-la. Mas não... não poderia ser possível. Não, ele passara tempo demais tentando se convencer, tentando aceitar de que "ela" havia morrido. Mas aqueles cabelos cacheados, aquele perfume, aquele jeito hostil de tratar as pessoas, não, aquelas não eram características comuns a qualquer pessoa. Só "ela" as possuía. Mas não, não poderia ser, poderia? Decidiu arriscar-se, com os papéis ainda presos a mão saiu disparado pela rua, tentando adivinhar o caminho que a garota tomara.
(cut)
Allanis andava apressada pelas ruas, queria mais do que nunca chegar em casa, se sentir novamente dentro do seu mundo, onde só havia ela e o vazio a sua volta, onde ela se sentia protegida e poderia pensar. Por que ele tinha que aparecer? Por isso tinha que acontecer justo agora? Ao menos foi apenas contato rápido, meias palavras trocadas no dia a dia, nada fora do cotidiano, nada que indicasse toda a história vivida por aquelas duas pessoas. Mas Allanis sabia, sabia que apenas esse breve contato iria tirar suas próximas noites de sono, por até certo tempo, até ela finalmente se esquecer novamente e ser engolfada pela rotina.
Na pressa em chegar em casa logo, acabou derrubando no chão as chaves do apartamento, ainda a frente dos portões do prédio onde morava.
- Droga. – Murmurou, se abaixando para pegar as chaves, mas parou no meio da ação ao reparar um par de pés ao seu lado.
- Você esqueceu isso. – Disse Harry entregando os papéis para Allanis que aos poucos voltava a posição normal, o molho de chaves esquecido no chão.
Se encararam por um tempo, como se desafiassem-se a pronunciar qualquer palavra comprometedora que entregassem quem eram. Os olhos de Harry brilhavam ao ver aquele rosto novamente, mesmo com o passar dos anos, ele continuava o mesmo, com um pouco mas de maturidade em cada expressão mais ainda sim, o mesmo. Os olhos de Allanis é que estavam diferentes, estavam frios e sem vida, parecia que a garota que ele havia conhecido realmente morrera naquela tarde, os olhos da mulher não apresentavam nenhuma ligação com os da garota que ele deixara para trás. Perderam o brilho, os olhos cor de mel haviam perdido o brilho, e mesmo tendo uma transparência característica de sua cor, mostravam uma sombra por trás da íris, uma sombra que nascia em sua pupila e se alastrava em cada olhar, Harry se sentiu invadido por aquelas sombras mórbidas. Allanis parecia morta por dentro.
Allanis encarou com o mesmo olhar surpreso o rapaz a sua frente, o mesmo rapaz que vez ou outra tornava a assombrar seu sono. Harry estava mudado, estava mais encorpado, onde antes havia um garoto magricela, agora se via um rapaz em seus 20 anos. Adquiriu músculos, não ostentava mais a magrezela da adolescência. Suas feições também haviam amadurecido, assim como sua voz, mas os cabelos negros continuavam despenteados, os olhos por trás das lentes dos óculos, ainda eram de um verde intenso, cheio de vida, brilhavam de uma maneira enigmática para Allanis, um brilho diferente, de surpresa, excitação, alegria. Um brilho que o não existia na época que Allanis o vira pela última vez. Qual seria a fonte de todo esse brilho? Seria... ela? Não.. não... nunca...
Allanis tremia, tremia e temia por cada gesto que pudesse fazer, pelo fato de Harry estar a sua frente com um brilho tão intenso no olhar, por não trocarem palavras. Por estarem apenas se medindo. Nunca fora assim, todos os encontros envolvendo os dois eram sempre povoados de gritos enfurecidos, brigas. Essa calmaria, esse silêncio, essa paz, era mais do que constrangedora, era esmagadora, era cruel, torturante...
- Você... você me seguiu até aqui? – Perguntou Allanis nervosa, tentando disfarçar o choque do encontro com Harry.
Harry não respondeu imediatamente, demorou seu olhar um pouco mais na garota, depois virou-se para o molho de chaves ainda caído no chão e então finalmente para o edifício a sua frente.
- Não... – respondeu depois de certo tempo – Eu te perdi na rua... Eu moro aqui, acabei de me mudar.
Allanis parecia ter sido esbofeteada, ficou momentaneamente desnorteada. Harry? Morando no mesmo prédio que ela? Não... Não poderia ser... não...
- No 402? – Perguntou com a voz meio falha. O dela era o 401, iriam ser vizinhos de porta, frente a frente, se o rapaz confirmasse. Nem em seus piores pesadelos pode imaginar uma tortura pior.
- Sim...- Respondeu o Harry simplesmente. – Por que? Você mora aqui também?
Allanis suspirou, mas antes que pudesse responder Harry quebrou a barreira de sua indecisão.
- Você... você é Allanis Ryan não é? – Perguntou temeroso, tinha medo de estar enganado. Da garota ser só alguém parecido.
- Sim... – Disse Allanis se curvando diante da razão, não havia mais como escapar, ele já a descobrira, não havia mais porque se esconder, porque mentir. – Escute...
Mas antes que pudesse falar tudo que ficara preso em sua garganta por noites e noites, por anos e anos, Harry fez uma coisa que nunca fizera antes, uma coisa que pegou Allanis de surpresa, se aproximou da mulher e a abraçou, sentiu o calor dela perto do seu, sentiu seu perfume invadindo seus pulmões, sentiu-a perto. Ela estava ali, estava viva e bem. Estava perto dele novamente, a vida lhe dera outra chance, outra oportunidade de corrigir seus erros.
Allanis se assustou ao se ver envolta pelos braços do rapaz, ele tremia, tremia tanto quanto ela, também estivera ansioso, mas o que estava acontecendo? Por um momento deliciou-se com o contato com a pele de Harry, sentido a respiração do garoto em seu pescoço, sentiu-se envolta em vida. Mas sombras sussurravam em seus ouvidos dizendo-lhes coisas, fazendo a garota se lembrar de como ele a havia tratado, a desprezado. Lembrou-se da voz de Harry gritando para que a garota sumisse de sua vida para sempre. Essas lembranças fizeram Allanis acordar de seu estupor momentâneo, estava machucada ainda, a ferida estava aberta ainda, e sangrava. Sentiu novamente as dores daqueles dias. Essas dores estavam cravadas muito fundo dentro de si mesma, e só a presença de Harry foi necessária para fazê-las acordarem.
Com um movimento violento empurrou Harry para longe de si mesma, para longe do contato de suas peles, para longe das feridas, recuperou sua antiga força e frieza. Harry não entendeu as atitudes da mulher, num instante estavam ali, juntos, e no segundo seguinte parecia que tudo nele a enojava. Allanis pegou as chaves no chão e abriu o portão do prédio com violência, deixou que o portão se fechasse atrás de si sem se importar se no caminho ele entrasse em contato com qualquer parte do corpo de Harry, muito pelo contrário, queria machuca-lo, queria fazê-lo sentir um pouco da dor, que durante tanto tempo ela carregara dentro de si, a dor de ser rejeitado pela pessoa amada, a dor do abandono. Cruzou o hall de entrada do prédio ainda sem olhar para trás. Nas escadas sentiu uma mão se fechando ao redor de sue pulso se virou e seus olhos se fixaram na expressão, um misto de preocupação e incompreensão, que agora se projetava no rosto de Harry.
- Allanis, por que você está fazendo isso? – Perguntou o garoto preocupado – O que aconteceu?
- Me deixa em paz, Potter. – Disse ela puxando o seu braço, queria evitar o contato com aquele rapaz. As feridas só ardiam mais quando estavam próximos - Eu estou com fome, com frio, tenho um monte de trabalhos a fazer, e você só vez eu me atrasar mais!
Se virou e continuou a subir os degraus, Harry se adiantou e parou na frente de Allanis bloqueando o caminho. – Você... você não está feliz por nos vermos? Depois de tantos anos? – olhou-a preocupado. Aonde aquela garota doce à quem apreendera a amar havia se perdido? Quem havia tornado-a tão fria? Seria e ele o culpado? Não... não poderia viver com mais essa culpa.
- Não. – respondeu a garota fria sem se alterar. Estava sentindo um prazer insano em torturá-lo daquela maneira, gostaria de poder ler seus pensamentos. Saber como o intocável Potter estava reagindo a rejeição. E afinal, do que ele estava brincando?
- N-não? – repetiu Harry ainda não acreditando no que acabara de ouvir.
- Não! N-Ã-O!!! Será que é tão difícil de entender? – Disse Allanis secamente, desviando de um Harry atordoado e continuando a subir as escadas.
Só tornou a ouvir a voz do garoto quando estava a porta de seu apartamento, a chave na fechadura
- Espera! - Harry apareceu ofegante pela porta que dava acesso as escadas.
- O que foi? – Perguntou Allanis num tom de indiferença.
- Por que você está me tratando assim!? – Perguntou Harry se aproximando de Allanis.
Allanis sorriu sarcasticamente enquanto entrava em seu apartamento. – Não estou fazendo nada de mais Potter. Apenas cumprindo o favor que você me pediu, estou sumindo da sua vida! - e bateu a porta bruscamente, na cara de Harry, deixando-o completamente atordoado.
(Fim do Flash Back)
Entende o que eu quero dizer não é? Eu fiz certo não fiz? Sei que fiz, mas então... por que sinto-me tão culpada? Por que mesmo agora a minha vontade é invadir o apartamento da frente, implorando desculpas e pedindo para que ele me abrace novamente? Não, não posso estar apaixonada novamente, não pela mesma pessoa. Não, não estou e ponto final. Se o destino quis que nos encontrássemos novamente, ótimo, pior para o Potter. Não vou mais gastar minhas noites de sono com isso. Vou me obrigar a desgostar. As partes do meu interior que eu julgava mortas agora pulsam e ardem, ardem de dor, dor esquecida pelo tempo. Ardem de amor, amor esquecido pelo tempo. Não vou mostrar-me fraca novamente. Não, dessa vez não. Sufocarei qualquer sentimento que traga de volta aquela Allanis que deveria estar morta e enterrada, qualquer sentimento que tenha relação com a minha antiga vida. Sufocarei Potter, dentro ou fora de mim.
Allanis Ryan
N/A: alguem ainda lê isso? o-O
Bom,, de qualquer forma, mais dois capitulos aí v.
