Diário...
Hora: Hum, da última vez que eu olhei eram dez e pouco...
Sabe, às vezes quando paro e reflito sobre coisas banais, como por exemplo, a minha vida, me pergunto o que mais o destino guarda para mim. Levando em consideração tudo pelo que já passei até agora. Sinceramente, penso que não há como piorar. Pois ele está novamente pondo-me à prova, esse destino, esse jogo de "certo" e "errado", no qual eu tive a infelicidade de sempre trilhar pelo "errado", e do qual eu queria fugir, me abstrair, me desligar de todo esse mundo que me rodeia. Quero ter que acordar nas manhãs frias desse inverno que se aproxima aos poucos, sair calmamente pela minha porta, sem ter medo de encontrar aqueles malditos olhos verdes a me espionar, quero poder chegar em casa, sem ter que pensar que ele está logo ali, atrás daquela muralha de madeira, se escondendo, assim como eu.
Não preciso mencionar mais uma vez que hoje novamente nós brigamos, certo? Tenho certeza que isso já tornou-lhe completamente comum. Fazem apenas três semanas que nos descobrimos vizinhos, mas parece que já fazem eras. Sempre a mesma coisa, a cada em encontro, é sempre a mesma coisa. Era isso que estava faltando, as brigas, foi a única coisa que resistiu ao tempo. E eu dou graças sinceras que tenha sido apenas isso. Bem sabes o quão confusa eu me encontrava ao travar um guerra entre minhas vontades e meu orgulho, sabes também que por muitos dias permaneci nessa angustia interna, até tudo tornar-se claro. Não era para ser assim. Não era para dar certo, e disso eu já tenho certeza, até me convenci e aceitei. Nem foram necessários os meus esforços para manter Potter longe de mim, eles já acontecem naturalmente. Totalmente opostos. Totalmente diferentes. Sem paciência eu cansei de explicar, de gritar, maldizer e até xingar, e ele sempre indiferente aos meus protestos, continua a afirmar que sentiu saudades, que se arrepende. Besteira, não sou dessas de cair fácil nos truques da vida. Fui tola certas vezes, mas essa época morreu, morreu com aquela Allanis, e ponto.
Flash Back
Sentiu-se confortável e aquecida sobre pilhas de cobertores. Sabia que já tinha amanhecido antes mesmo de abrir os olhos, podia ouvir ao longe o som dos pássaros brincando perto de sua janela. Por um instante desejou não ter acordado, gostaria de ainda estar perdida no mundo dos sonhos, onde não podia controlar seu subconsciente e ele corria solto, fazendo ela ver coisas que provavelmente depois se sentiria culpada por ter desejado, mesmo que inconscientemente. Ainda demorou certo tempo para se levantar, a cama quente parecia mil vezes mais tentadora do que o frio fora dela, mas sabia que não poderia voltar a dormir, não agora que já estava acordada. Então afastando os cobertores, sentiu a pele arrepiar-se entrando em contato com o ar frio do apartamento, vestiu seu roupão verde-musgo e ainda tonta de sono se dirigiu lentamente para o banheiro. Demorou um pouco até a vista turva conseguir focalizar seu reflexo no espelho. Seus cabelos cacheados estavam mais amassados do que o costume, e mais armados também, mas o que assustou Allanis foram seus olhos, estavam cansados e mesmo depois de uma noite de sono bem dormida, pareciam igualmente vermelhos e com as mesmas olheiras como se a garota nem tivesse dormido. Sabia que fora resultado de mais uma noite acordada até altas horas, na frente do computador, terminando trabalhos e mais trabalhos da faculdade. Mas pelo menos uma coisa lhe confortava, estava no penúltimo ano do curso de Jornalismo, no ano seguinte nessa mesma época já estaria livre de todos esses trabalhos que levavam embora as suas poucas horas livres.
Olhou tentada para o chuveiro, mas a preguiça e o conforto do pijama quente a impediram de tomar seu banho, decidiu que o tomaria depois do café quando já estivesse novamente gelada. Terminou de escovar os dentes, e se arrastou até a cozinha, refletiu sobre o que tomaria nas primeiras horas do seu dia, optou pela sua bebida favorita: café. Colocou a água para ferver, e enquanto esperava de braços cruzados até que estivesse pronta, olhou distraída pela a janela na frente do fogão. Seus olhos foram momentaneamente cegados quando entraram em contato com a claridade, mas assim que se acostumou, olhou para os céus azul claros, com poucas nuvens que pareciam totalmente indiferentes ao imenso frio que fazia. Sabia que era questão de tempo, até eles se fecharem e começarem a nevar grossos flocos de neve. Seu olhar se demorou um pouco mais num ponto branco que se deslocava com graciosidade pelos céus. Que tipo de ave era aquela? A ave passou voando pela a janela de Allanis e fez a curva nas dobras do prédio indo em direção a parte de trás do edifício. Quando a ave passou perto de sua janela, Allanis pode constatar que se tratava de uma coruja, branca como a neve. Allanis ainda se perguntou o que uma coruja fazia ali, naquela hora da manhã.
Cansada de esperar pela água que demorava a aquecer, dirigiu-se para a porta. Tinha em mente pegar o jornal matinal que todos os dias era deixado a soleira de sua porta. Gostava de estar bem informada, mas ultimamente pegava-os só por costume, fazia tempo que não parava para realmente lê-los. Destrancou a porta calmamente, mas quando abriu-a tomou um susto que fez seu coração ir parar na garganta.
Ali, a menos de dois metros dela, parado na batente de sua própria porta estava Harry, em situação parecida com a dela, recém saído do sono. Os cabelos negros do rapaz estavam – se possível – mais bagunçados e despenteados do que de costume, ostentava um olhar cansado sobre os olhos verdes, o mesmo olhar cansado que o dela. Vestia um moletom vermelho com escritos em dourado, onde lia-se "Apoie Harry Potter", usava meias brancas desparelhadas dentro do um chinelo azul displicente. Mas o que mais chamou a atenção da Allanis foi constatar que o rapaz não trajava pijamas, e sim usava uma cueca samba-canção, sobre o moletom com estampa de bolinhas douradas com... asas?
Harry pareceu extremamente envergonhado ao perceber que Allanis o olhava. Tentou parecer indiferente ao olhar analisador e crítico da garota.
- Bom dia... – Murmurou ainda sem olha-la nos olhos.
Allanis sorriu maliciosamente se encostou na batente da porta. Era divertido vê-lo sem jeito. Vê-lo tentando parecer forte, enquanto ela sabia exatamente o quão inseguro ele estava. Ignorou o "Bom dia" e demorou seu olhar no moletom do rapaz.
- Marketing pessoal Potter? – Perguntou sarcástica com o olhar nos escritos "Apoie Harry Potter".
Harry olhou para o próprio moletom como se acabasse de se dar conta do que estava vestindo, corou furiosamente e no instante seguinte retirou o mais rápido que pode o moletom e jogou-o longe, em algum lugar dentro do próprio apartamento. O que no segundo seguinte pareceu-lhe totalmente insensato ao perceber o olhar demorado da garota em seu abdômen.
Foi a vez de Allanis corar, não esperava que suas palavras fossem acarretar nessa ação tão inesperada do rapaz, pegou-se perdida nas curvas que agora ficavam a mostra, e o vislumbre de um sonho que tivera certa vez ocorreu-lhe a mente. Culpou-se mortalmente por isso.
- Ahn... ahn... eu tenho que... – começou tentando desviar o olhar do abdômen do rapaz, mas logo constatou que simplesmente não conseguia. Foi livrada de achar qualquer desculpa, quando a chaleira esquecida no seu fogão começou a chiar. Fechou a porta bruscamente, abandonando Harry ainda parado a porta, para cuidar da chaleira. Enquanto derramava o líquido fumegante numa xícara, sorriu inconscientemente com a cena que a acabara de acontecer.
(cut)
Allanis estava sentada em seu sofá lendo distraidamente um livro ("Como ser feliz sozinha"), quando a campainha tocou. Praguejou antes de se levantar, estava sentada confortavelmente sobre as cobertas e sair para atender a porta, por exemplo, parecia um gasto de energia totalmente desnecessário. Abriu a porta e pela segunda vez naquele dia tomou um susto ao se deparar com o rosto de Harry à encara-la.
- Oi...- Disse o rapaz coçando a nuca timidamente, a outra mão estava afundada nos bolsos da calça. Usava uma blusa de lã, com gola alta num tom azul-marinho e jeans envelhecidas.
- Oi...- respondeu Allanis indiferente.
- Escute Allanis, tem um minuto? Será que dá para a gente conversar?- Perguntou Harry inseguro.
- Não! – Disse Allanis seca, fechando a porta na cara de Harry, mas não conseguiu finalizar a ação porque Harry colocou o pé no caminho da porta.- Dá licença???
- Não... – Foi a vez de Harry ser rude – A dois anos atrás você falou que a gente precisava conversar, e até hoje a gente ainda não teve aquela conversa.
Allanis olhou Harry sem entender. O rapaz ostentava uma determinação no olhar que fez a garota tremer.
- Você só pode estar brincando... – Disse ela impaciente - Você quer conversar sobre uma coisa que aconteceu a tanto tempo, aqui? Agora?
- É...- Disse Harry decidido – Agora sim, mas não aqui. Tem um café aqui perto, nós poderíamos ir lá se você quiser.
Allanis estudou a proposta do rapaz, ela concordava que estava mais do que na hora de conversarem, estava cansada de brigar. Mas ainda tinha um pouco do seu orgulho relutando em aceitar.
- Se eu disser "não" você não desistir né? – Perguntou , mesmo já tendo consciência da resposta.
- Não... só saio hoje daqui depois que a gente conversar – Disse Harry com firmeza.
Allanis suspirou e olhou o rapaz irritada, mas abriu passagem para ele entrar em seu apartamento enquanto virava as costas em direção ao seu quarto. – Tá, eu vou então, só espera eu trocar de roupa, porque se eu sair de preto de novo, vão achar que eu tô de luto.
Harry consentiu, enquanto Allanis se trancava no quarto aproveitou para dar uma olhada pelo apartamento. Não era feio, não , nem de longe, mas faltava-lhe claridade, ou talvez a palavra certa seria "vida". Os móveis em tom escuro deixavam o lugar com um ar deprimente, não havia fotos sobre as estantes e no sofá vermelho - a única coisa colorida no cômodo - diante da televisão Harry identificou um livro, aproximou-se e começou a folhea-lo. Parecia ser um tipo de livro de auto ajuda, mas era mais o oposto, também com um título daqueles... Harry estava tão absorto em seus pensamentos que nem notou quando a garota retornou, 15 min depois, completamente vestida de cores que Harry nunca imaginou que ela conhecesse. Vestia uma camisa vermelho cereja por baixo de uma blusa de fio roxo, com calças pretas e uma jaqueta preta combinado. Os cabelos da garota estavam soltos displicentemente sobre os ombros os cachos bem formados faziam voltas e recaiam também sobre seu rosto. Allanis, Harry pode perceber, não gostava de maquiagem, usa apenas um lápis preto contornando os olhos. Harry agradeceu mentalmente por isso, não gostava de garotas muito maquiadas.
Allanis percebendo o olhar demorado no garoto perguntou – Tá ruim assim?
- Não... – Disse ele assustado com a interpretação errada de Allanis sobre o seu olhar – Não, você tá realmente linda.
Allanis soltou um muxoxo – Eu não gosto de usar cores, prefiro mil vezes o preto.
- Preto também lhe cai bem, mas te deixa com ar doentio...- E percebendo a expressão irritado no rosto da garota complementou – Mas combina com você, o preto. Combina mesmo... vamos?
- Vamos, mas eu espero que não demore muito, ainda tenho um trabalho para terminar... – Disse ela irritada abrindo a porta e esperando Harry passar por ela para finalmente tranca-la.
O café de fato, não era longe, e o ambiente era bem agradável, Allanis só não gostou da mesa que Harry escolhera para se sentarem. Era uma daquelas mesas pequenas feita para casais, mas mesmo assim se sentou, não queria se demorar muito ali.
- Você vai querer alguma coisa? – Perguntou Harry olhando o cardápio.
- Não... Será que dá para gente ser breves, por favor? – Pediu ela impaciente.
- Hum, eu vou querer um capuccino médio, com chantilly por favor – Disse Harry ao garçom, virou-se para Allanis – Por que tanta pressa? Minha presença te incomoda?
- Bingo. – Disse Allanis sem emoção.
- Mas afinal Allanis, o que eu te fiz? – Perguntou Harry num tom meio desesperado.
Allanis riu da pergunta por dois motivos. O primeiro e mais obvio, era porque ele tinha que ser muito cara de pau de tratá-la mal e dois anos depois perguntar o que havia de errado. E o segundo, era porque ele lembrava incrivelmente ela mesma, na mesma época, tentando entender o que acontecia para Harry simplesmente odiá-la.
- Ai Potter, às vezes você se supera... – Disse ela se encostando no encosto da cadeira, e cruzando os braços. – Eu preciso mesmo responder? Não... melhor deixar você pensar um pouco no jeito como me tratou quando a gente se encontrava. Lembra? Você lembra o que você me disse na última noite que nos falamos? – Harry olhou-a pasmo – Pois eu me lembro. Você disse que só me aturava porque era seu último dia lá, que você não me suportava, não conseguia nem olhar na minha cara, e pediu o favor de eu sumir da sua vida. Pois bem... estou cumprindo. Só que agora o jogo se inverteu... sou eu que não suporto olhar na sua cara, não aturo a sua presença, me irrita te ver falar. Me irrita tudo em você...
Harry piscou uma, duas vezes. Aquelas palavras machucaram-no profundamente, mas ele sabia que a garota tinha mais do que razões para fazer isso. – Olha Allanis, eu sei que eu fui meio estúpido com você – Harry percebeu mais uma vez o olhar irritado da garota – Na verdade fui um idiota, grosso, rude, que não merecia nem que você olhasse na minha direção. – Allanis sorriu – mas eu to arrependido tá? Eu demorei, mas quando eu percebi o quão imbecil eu tinha sido com você , eu queria me matar. Passei esses últimos dois anos me arrependendo, porque afinal você não tinha nada a ver com a minha inimizade com aquela vizinhança.
- E você demorou quanto tempo para se tocar que eu realmente gostaVA de você – Perguntou Allanis dando ênfase ao verbo no passado.
- Algum tempo... – Respondeu Harry sorrindo meio angustiado. – E você não imagina como eu fiquei feliz em te ver viva.
- Ué, por que Potter? Você não me magoou tanto assim – Disse Allanis distraída.
- Por causa do ataque que teve na sua casa. – Harry só percebeu o tamanho do erro que tinha cometido quando Allanis desviou o olhar do tampo da mesa e se fixou nele.
- Como você soube? – Perguntou ela, uma sombra de tristeza na voz.
- Oras... s-saiu em todos o jornais não é mesmo? – Disse Harry tentando consertar a situação – Mostrava você como única sobrevivente, que ficou um tempo desaparecida.
Allanis voltou a fixar o tampo da mesa, pensar em sua família ainda doía. Quando voltou a falar sua voz estava embargada. – Eu perdi todos eles naquele dia, e tive que aprender a viver sozinha, nunca conheci meus outros parentes e nunca tive amigos para procurar...
Harry sentiu uma súbita vontade de abraçar Allanis, não queria ver a garota sofrendo, queria poder impedir que ela sofresse mais, queria dizer a ela o quanto ele sentiu a falta da garota, como percebeu que realmente gostava dela, o quão mal se sentiu quando achou que ela estivesse morta... Lentamente aproximou sua mão das de Allanis mas antes que pudesse tocá-las Allanis se levantou bruscamente, limpando os olhos com as mãos. - Bom, então estamos resolvidos, finalmente amigos?
Harry olhou desanimado para a garota, não era isso o que ele queria, mas sentiu que o fato de não estarem mais brigando já era um bom começo, o máximo que ele iria conseguir naquela noite.- É... amigos... você quer ir já?
- Bem, já terminamos a nossa conversa certo? Ou você tinha outra coisa para me dizer? – Perguntou a garota voltando a encarar Harry.
- Não, não tinha mais nada para te dizer, não... – Disse Harry se levantando e deixando sobre a mesa alguns trocados pelo capuccino.
Naquela noite, quando Allanis foi deixada a porta por Harry pensou que fora uma atitude bem legal da parte do garoto, leva-la a um café para fazer as pazes. E que afinal ele não era o idiota sem calibre que ela pensara que ele fosse. Mas tratou de afastar de sua cabeça esses pensamentos que estavam rumando para águas perigosas. O que será que o rapaz ainda lhe escondia? Será que um dia saberia?
Fim do Flash Back
Mas... se tudo lhe parece tão claro, por que será que continuam a arder? Por que as malditas feridas insistem em não cicatrizar? Esta posto o fim afinal. Separados. Diferentes. Distantes. Mas mesmo assim elas doem... e pulsam num novo e entorpecente rítimo que eu tento entender, não pode ser amor, pode? Será minha alma reclamando a indiferença do meu ser, diante do que o destino me reservou? Será que ela não se conforma com o "Finalmente Separados"? Não sei dizer... e novamente a minha vida torna-se confusa e sem sentido. Será que a cura para minhas feridas está justamente nos braços de quem as causou? Não... novamente não... pegamo-me surpresa ao sentir meu coração batendo acelerado diante dessa nova cura chamada "Esperança".
Boa noite...
Allanis Ryan
(... continua)
N/A: OMG, T-E-M pessoas que ainda lêem isso XDDDDDDDD ashahsiuahsuauhiuhaushaus
OK, desculpem-me a demora para postar os capítulos, mas como essa fic foi escrita há dois anos atrás, eu tenho que betar ela algumas vezes antes de postar no FF ok? Espero que estejam gostando... em breve mais capítulos. :D
