Diário...
Hora: Não quero saber e também não me interessa, basta saber que é madrugada.
Por que quando tudo parece perfeito, tem sempre alguma coisa que estraga? Por que tem sempre alguém que estraga? Quase um ano se passou e eu e Harry ficamos muito mais amigos do que jamais pude imaginar que seriamos. Muito mais do que eu sempre desejei, ou sequer sonhei. Ele é a única pessoa com quem eu posso contar, ou poderia... Agora não sei dizer. Porém para mim ele ainda é um caixa de supressas, um cofre, cheio de segredos... Ele se esconde demais, ele me esconde coisas demais...
Nunca voltamos ao assunto daquela tarde que nos beijamos, melhor assim. Acredito que isso só traria problemas. Desculpe, MAIS problemas. É... adivinha, nós brigamos de novo. Juro que morro tentando entender os homens. Tentando entender porque eles nos prometem coisas que não vão cumprir, fazem com que criemos expectativas, alimentam nossas esperanças, para depois quebrá-las como vidro. Apenas outro castelo de areia destruído pelas ondas do mar. É exatamente assim. É sempre assim. Eles estão lá, sempre tão seguros de si. Nunca sabem como realmente nos sentimos. Nunca sabem o quanto eles representam para nós. E sempre que tentamos demonstrar o que sentimos. Sempre acabamos nos magoando... de alguma forma, de algum jeito.
Sinto-me quebrada por dentro. Completamente quebrada. Em pedacinhos pequenos. Daqueles difíceis de juntar. Confesso-lhe então, não havia só amizade. Confesso-lhe, havia amor. E mais uma vez eu fui envolta pelas asas desse maldito anjo negro. Confesso-lhe, mais uma vez fui fraca e pré-julguei minha amizade com Harry. Confesso-lhe, achei que ele também sentia mais do que só amizade. E mais uma vez eu caí nos abismos profundos da minha desilusão. Confesso-lhe! Confesso-lhe! Confesso-lhe! Mais uma vez a carne foi conivente e mente inconseqüente, e mais um vez entreguei meu coração aos demônios. Mais uma vez eu julgava-me pronta para dizer a ele tudo que sentia, para tentar mais uma vez respirar. Caí. Afundei. Naufraguei. Tudo pela esperança, tudo, e mais um pouco, por mais uma chance de tentar...
Flash Back
A garota andava impaciente em seu apartamento, ás vezes parando diante do espelho, encarava seu reflexo por alguns minutos e recomeçava a andar. Estava nisso havia horas. Parou pela décima vez na frente do espelho, encarando novamente seus olhos cor de mel.
- Ok Allanis. Eu sei que você consegue fazer isso. É só ir até lá e convidá-lo. Não tem porque ele não aceitar. Ele é seu amigo. Não vai te deixar na mão. – Disse para seu reflexo, sua respiração condensando na superfície fria do vidro - Ahhhhhhh!!!! Isso não está funcionando! – Gritou dando as costas para o espelho e recomeçando a andar. – Quer saber? Chega de angústia, vou falar com ele agora!
Saiu decidida pela porta do apartamento, mas parou meio indecisa diante da porta do número 402. Hesitou um minuto com a mão a meio caminho de bater na madeira branca diante de si, até que tomou coragem, respirou e bateu duas vezes. Pode ouvir uma risada abafada vinda de dentro do apartamento, um farfalhar de asas de alguma ave, um pio de coruja, até que porta se abriu e Harry apareceu sorridente na porta segurando um papel amarelado em uma das mãos.
- Oi Allanis! – Disse o garoto feliz – Tudo bem? Tá precisando de alguma coisa? Quer entrar?
- Ahn... Não Harry, obrigado. – Lançou um olhar nervoso para o papel na mão do rapaz – Vejo que recebeu uma carta. Boas notícias?
- Ah isso? – Disse Harry mostrando a carta que fora escrita numa caligrafia muito corrida – É, meus melhores amigos estão namorando! Não é maravilhoso?
Com o peito muito mais leve Allanis voltou a falar – Ah sim! Maravilhoso Harry! – Respirou mais uma vez, estava ficando novamente nervosa - Escute eu queria conversar uma coisa com você...
O sorriso no rosto do rapaz se apagou instantaneamente. – O que aconteceu? É sério? Entra...
Allanis aceitou, e entrou no apartamento. Lembrou da impressão que deve da primeira vez que entrou ali. Era exatamente como imagina ser o apartamento de um rapaz solteiro. Roupas jogadas pelos cantos – algumas bem esquisitas, livros e mais livros os quais as capas ela nunca parava para olhar. A sala igual a sua era mobiliada com um sofá-cama preto, espaçoso ao lado da janela , com duas poltronas laterais, ambas em cor branca. Foi a parte da casa de Harry que ela mais havia gostado. Visitara algumas vezes a cozinha, principalmente porque teve que ensinar algumas receitas para o rapaz que só estava se alimentando a base de comida congelada. Nunca entrara no banheiro, simplesmente era um local pessoal demais para se estar. E apenas uma vez no quarto, no dia do aniversário do rapaz. Para fazer-lhe uma surpresa compara-lhe um bolo simples e um cachecol que ela mesma fizera, usara a cópia da casa que Harry lhe dera e entrara para acordá-lo.
- Quer sentar? – Perguntou Harry aflito, enquanto tirava um cobertor de cima do sofá. Vários livros que estavam sobre o cobertor caíram no chão. – Bem eu ia pedir desculpa pela bagunça, mas você já está acostumada, então...
Allanis sorriu – Você não toma jeito mesmo né Harry?
- Hey! Eu moro sozinho, dá licença de eu fazer as minhas bagunças em paz? – Disse o garoto voltando a sorrir. Mas ao perceber que a garota tornara a ficar séria, seu sorriso se afrouxou – Então o que aconteceu?
- Ahn... Harry... Sabe, eu queria saber se... bem... se você vai estar ocupado Sexta que vem... – Disse a garota corando.
Harry olhou-a sem entender. Ou ele entendera errado ou ela estava querendo chama-lo para um encontro?
- Não... acho que não. Por que? – perguntou intrigado.
- É que bem.... vai ser a formatura do meu curso de Jornalismo sabe. E bem, eu não tenho ninguém para levar. E queria saber se você não quer ir lá, só dar uma passada, depois a gente podia sair para comer uma pizza quem sabe... Eu só pensei que... bem... – Allanis falava muito rápido e de cabeça baixa, como se quisesse colocar tudo para fora de uma vez. E depois lentamente voltou a olhar o rapaz – Você... você quer?
Harry sorriu e abraçou-a – Claro que eu quero. Eu vou sim, é só me dizer a hora e o lugar que eu vou estar pontualmente lá. Prometo.
Allanis sorriu ainda abraçada ao rapaz. Afinal, não fora tão difícil quanto ela pensava.
[Cut]
- Harry, anda logo! Eu não posso me atrasar! Eu tinha que estar lá a mais de meia hora atrás!!! – Disse Allanis impaciente vendo o garoto jogado no sofá, lendo um livro – Você não vai se arrumar não? Se você não queria ir me avisasse, que eu nem teria reservado o convite para você!
- Allanis, quer relaxar? Se você está atrasada, vai indo na frente... Os convidados tem que ir depois não tem? – Disse Harry distraído, sem desviar sua atenção do livro.
- Tem...- Disse Allanis, parecendo desapontada com o pouco caso do rapaz. Desde que ela entrara no apartamento para chamá-lo ele não havia lhe lançado sequer um olhar, nem reparara que a garota usava um belo vestido preto, longe de ser bem comportado. Os cabelos cacheados foram presos em coque frouxo no alto da nuca e algumas mechas caíam delicadamente em seu rosto. E muito menos que ela estava um pouco mais produzida do que de costume, ainda sim sem exageros, só por causa dele.
- Então! – Disse Harry ainda sem tirar os olhos do livro – Vai indo que a gente se encontra lá...
Allanis bufou – Ótimo!!! – e bateu a porta violentamente quando saiu do apartamento do rapaz.
Harry finalmente desviou a atenção do livro sobre a História da Magia Negra que Hermione havia lhe dado de presente, fixando o olhar onde Allanis estivera minutos antes. Murmurando um "Mulheres... por que tem que ser tão apressadas...?" e suspirando, rumou para o banheiro para tomar seu banho.
Embaixo da água quente, ele começou a refletir na reviravolta que sua vida havia dado. A saída da casa dos Durleys, o reencontro com Allanis, as brigas, mais brigas, e de novo brigas, e em como finalmente haviam se tornado amigos... somente amigos... apenas amigos...
Suspirou colocando a cabeça novamente em baixo da ducha. Por que apenas amigos? Por que nesse mesmo instante ele não estava usando uma aliança prata na mão direita e ela não estava vivendo no mesmo apartamento que ele? A resposta era simples e Harry sabia disso. A culpa era dele, era sempre dele. Ele era culpado por ter demorado tempo de mais para identificar seus sentimentos, e mesmo agora não tinha sequer coragem de demostrá-los com medo da rejeição. Rejeição. Era difícil assumir isso, até para si mesmo, mas agora ele sabia exatamente como Allanis se sentiu quando se declarou, e imaginou que o sentimento que agora tomava seu pensamentos em tardes ociosas, aquele pânico, medo e insegurança, não deveria ser muito diferente do que a garota sentira.
Como fora burro! E quantas vezes ainda iria se culpar por isso? Quantas fossem necessárias... até nunca mais cometer esse erro. Sempre o mesmo erro de esperar tempo demais, de reconhecer tarde demais, quando tudo não tinha mais volta, e ele estava condenado a conviver com as conseqüências de seus erros, de sua demora para perceber as coisas como elas são. Suspirou mais um vez. Ao menos restava de consolo a amizade que mantinha com a garota, e o amor que alimentava, escondido, dentro do que julgava ser, o lugar mais seguro: As profundezas de seu coração.
Fechou o registro do chuveiro e se enrolou na toalha, pisando no azulejo frio do banheiro coberto por vapor. Mas até quando iria agüentar permanecer em silêncio? Quando tudo isso viria a tona? Será que ele esperaria até ela estar namorando com alguém ou ir embora, para dizer-lhe o quanto a amava? Será que ele imploraria de joelhos para que ela ficasse? Ficasse com ele? Não sabia dizer, e sinceramente não gostava de ficar pensando nisso. Sempre que fazia isso seu estômago afundava alguns centímetros.
Entrou no quarto ainda enrolado na toalha, olhou no relógio. Eram 7:40, ainda tinha 20 minutos para terminar de se arrumar e chegar até o local do evento, que não era muito longe dali. Escancarou as portas do armário, procurando algo interessante para vestir, não escolheu demais, optou pelo clássico terno preto, calça preta e camisa branca.
Quando já estava praticamente pronto, começou uma verdadeira caçada pelo seu apartamento atrás das meias e dos sapatos que queria usar. Fez uma nota mental de que na próxima vez que Allanis dissesse "Arrume seu apartamento" ele daria mais ouvidos à garota. Quando finalmente conseguiu achar seus sapatos (em baixo da pilha de roupas sujas ao lado da porta do banheiro), já eram 8 horas, tudo bem , agora ele estava um pouco atrasado e ligeiramente desesperado por causa do horário. Correu até o banheiro novamente e deu uma olhada no espelho, pensando que o que cabelo não estava lá essas coisas, apenas como sempre fora, resolveu não ligar. Colocou a varinha no bolso interno do terno, continuava um bruxo precavido, sete anos em Hogwarts, e mais de 10 tentativas de assassinato o haviam deixado mais do que preparado. Quando terminou de passar o perfume e estava quase na porta, Edwiges entrou voando pela janela e começou a fazer um estardalhaço na cabeça do rapaz. Harry demorou bem uns 15 minutos para acalmar a coruja e conseguir retirar a carta que ela carregava, sem tempo para lê-la jogou em cima da mesa de cartas e saiu irritado, ainda tirando as penas de Edwiges dos ombros e cabelos.
[cut]
Allanis estava angustiada à porta do auditório. Batia os pés impaciente e olhava a cada segundo no relógio.
- Allanis, temos que fechar os portões, a formatura já está atrasada quinze minutos... – Disse uma mulher com uma prancheta na mão.
- Espera mais um pouco Bel, ele disse que não demorar, falou que viria – Disse ela abrindo a porta mais uma vez e olhando a rua deserta.
- Não dá All, a gente já se atrasou demais. Sinto muito, mas seu amigo pode entrar depois... – Disse a mulher dando as costas para Allanis - É melhor você ir se sentar, a cerimonia já vai começar.
Allanis suspirou, mas acabou concordando e se dirigindo ao seu lugar em meio aos outros formandos.
[cut]
Harry desceu correndo as escadas até o hall de entrada do prédio, passou voando baixo pelas duas portas que o separaram da rua. Quando o vento gélido entrou em contato com sua pele, e ele pode ver a rua escura e deserta, começou um conflito entre seu lado trouxa e seu lado bruxo. A praticidade do seu lado bruxo gritava para que ele poupasse tempo e aparatasse, sem mais demoras. Mas seu lado trouxa falava com voz cautelosa e murmurava que ele não deveria fazer isso, levando em consideração que ele aparataria em lugar desconhecido, repleto de trouxas, o que lhe custaria não somente quebrar a Lei Internacional do Sigilo, mas também contar para Allanis o que realmente era, ao simplesmente aparecer no meio da platéia lotada. Achando que estava perdendo tempo demais, optou pelo velho tradicional modo trouxa de se chegar à algum lugar: resolveu ir de taxi.
O problema era bem simples, não havia nenhum taxi por perto, isso significava que ele teria que sair atrás de um, ou obviamente ligar para pedir um. Correu até o telefone público mais próximo, começou a folhear desesperado, as páginas amareladas da lista que havia logo em baixo do aparelho, até chegar onde queria, não escolheu demais, enfiou com pressa as moedas no aparelho e discou os números.
- Alôu? – Falou a voz enjoada de um mulher do outro lado.
- Oi, eu queria pedir um taxi!!! – Disse Harry desesperado.
- É o que todos querem quando ligam para cá querido – Respondeu a mulher sarcástica - Para onde devo manda-lo?
- Green Tower Garden, 529, Centro de Londres! – Disse ele com urgência.
- Tudo bem querido, ele estará aí dentro de 10 minutos. - Respondeu a mulher com uma voz entediada, e desligando logo em seguida.
Harry chutou a cabine, xingando a mulher de todos os nomes que conseguia lembrar. Ele NÃO tinha 10 minutos para perder esperando, estava mais do que meia hora atrasado agora, e ficar esperando sentado era, para Harry naquele momento, a pior das torturas.
Dez minutos vieram e se foram, e Harry estava andando de um lado ao outro da rua, quando 20 minutos se passaram ele já estava praguejando. Trinta minutos e nada, ele havia se sentado cansado no meio fio, pensando numa boa desculpa para dar a garota. Finalmente após 40 minutos o taxi finalmente chegou, quando ele já estava cogitando novamente a possibilidade de aparatar, e se perguntando se valia pena pagar umas multas por esse ato inconseqüente. Se aproximou do motorista se perguntando se o matava por demorar tanto, ou o beijava por ter finalmente chego. Optou por apenas entrar no taxi em silêncio.
- Desculpe a demora, me perdi. – Desculpou-se o motorista muito jovem, com a voz insegura – Sou novo aqui sabe, ainda não conheço as ruas direito...
Harry continuou calado, se abrisse a boca para responder provavelmente iria falar o que não devia.
- Para onde? – Perguntou o homem se virando para encarar Harry.
- Northshire, Teatro da Reitoria...- Respondeu ele cansado e apoiando a cabeça no banco, podia ver o céu através do vidro traseiro. O vidro começava a ser respigado de pingos grossos de chuva. Ironia ou não, aquilo pareceu a Harry naquele momento um mau presságio.
[cut]
Allanis estava sentada aflita em sua cadeira, olhava a cada segundo para a platéia procurando Harry. Onde ele havia se metido? Já haviam se passado mais de uma hora e meia e o rapaz ainda não dera sinal. Se perguntou mais de uma vez se ele havia desistido, e por que fizera isso. "Ele prometeu... prometeu que estaria aqui", pensou infeliz, abaixando a cabeça e segurando as lágrimas, "Daqui a pouco vão começar a chamar os nomes para entregar os diplomas, se ele não iria vir... por que mentir? Por que me enganar?"
[cut]
- Escuta, será que não dá para gente ir mais rápido? Eu to atrasado para um compromisso... – Disse Harry impaciente.
- Eu adoraria ir mais rápido, mas você sabe como fica o centro de Londres em dias de chuva. Completamente congestionado. Congestionamento pelos próximos cinco quilômetros até o coração da cidade. – Disse o motorista tentando parecer experiente.
- Congestionamento pelos próximos cinco quilômetros? – Repetiu Harry tentando entender a informação que acabara de receber. – Quanto tempo até a gente chegar lá?
- Ih... vai demorar umas duas horas se a gente estiver com sorte... – Disse o motorista se apoiando na janela e ligando o rádio, como quem diz "É a vida..."
- Duas horas?!? DUAS HORAS?! Eu NÃO tenho duas horas! – Disse Harry impaciente, olhou pela janela, caia o céu lá fora em forma de chuva. Pensou por um instante, até que inesperadamente abriu a porta do carro e saiu andando pela rua encharcada.
- Ei! – Gritou o motorista – Você está louco!? Faltam três quilômetros! TRÊS QUILÔMETROS NA CHUVA!!!
Harry ignorou e continuou a caminhar apressado pela rua, sentindo as gotas de chuva escorrerem por todo o corpo.
[cut]
- Ryan, Allanis! – Chamou a voz grave de um professor, que sorria radiante, aguardando que a ex-aluna viesse pegar seu diploma.
- Allanis, é sua vez, estão te chamando. – Avisou a colega ao lado da garota, como Allanis não respondeu, a garota cutucou-a no ombro. – Allanis, sua vez!!!
Allanis que estava em transe se perguntando aonde Harry estava, olhou para a garota ao seu lado como se acabasse de se dar conta de que ela estava ali.- Ahn? Quê?
- O diploma Allanis, vai pegar o diploma! – Repetiu a colega com urgência.
- Ah tá... – Murmurou Allanis, se levantando logo em seguida, esboçando um sorriso e se dirigindo ao professor que ainda a aguardava sorridente.
- Parabéns Ryan, digna de orgulho! – Disse o professor enquanto apertava a mão da garota – a melhor da classe, ouso dizer. Não poderiam ter dado essa bolsa para outra pessoa! Estou muito orgulhoso de você!
Allanis sorriu, tentando parecer lisonjeada – Obrigado professor... – Olhou de volta a platéia, centenas de mãos a aplaudindo, menos um par, o único com quem ela realmente se importava. Centenas de rostos sorrindo para a garota, mas o único que ela desejava que estivesse ali, olhando para ela, vendo o quanto ela conseguira sozinha, provavelmente estava em casa, embaixo nas cobertas, fazendo qualquer coisa mais importante do que estar ao seu lado nesse momento tão importante.
[cut]
Uma hora e meia depois de ter saído do taxi e decido continuar sozinho o caminho até o teatro, Harry finalmente chegou ao local. Estava entre outras coisas, molhado, sujo, rasgado, cansado, havia sido quase atropelado e para piorar de vez ainda tentaram assaltá-lo. Chegou a frente do teatro para encontrá-lo completamente escuro, mais ainda haviam pessoas saindo pelas portas da frente, elas passavam por um vulto escuro sentado na escada, ao lado dos corrimões.
- Você não vem para o coquetel Allanis? – Perguntou a mulher da frente.
A garota fez que não.
- Bom, então tá. Tchau Allanis, bom fim de noite para você. E mais uma vez, parabéns!
- É All, parabéns! A gente se encontra por aí! – Falou o homem que saiu logo atrás da mulher.
- Tchau All! – Disse o segundo homem.
Quando todos entraram num carro e sumiram pela rua, Harry se aproximou da garota. Ela estava sentada displicentemente segurando as sandálias pretas numa mão e o diploma em outra, encostada no corrimão. Mesmo ali, sentada daquela forma, os cachos caindo sobre o rosto, com um coque quase desfeito, ela ainda parecia simplesmente maravilhosa.
- Oi All... – Disse Harry cautelosamente.
A garota não respondeu, levantou-se calmamente, segurou as sandálias e o diploma na mesma mão e com a mão livre soltou o resto do cabelo, sacudindo-o logo em seguida e sem dizer uma palavra a Harry, passou reto pelo rapaz indo em direção a rua. Harry sentindo o súbito movimento da garota segurou-a pelo braço que segurava o diploma e as sandálias.
- Allanis, sinto muito... Você não imagina o que me aconte...- Murmurou o rapaz, começando a tentar se explicar.
- Me solta. – Disse a garota, Harry ouviu sua voz fria e seca como a muito tempo não a ouvira.
- Não, você tem que me escutar – Respondeu finalmente.
- Estou cansada de sempre te escutar Potter. Cansada das mesma desculpas sempre, de sempre ter que ouvir você se explicar. ME SOLTA! – Disse Allanis se virando para encarar Harry.
- Você... você não sabe pelo o que eu passei para chegar até aqui! – Disse ele tentando compreender a situação.
- NÃO! Não sei e sinceramente não me interessa mais! – Disse a garota enfurecida, a mão de Harry ainda apertando seu braço. – Eu te pedi uma coisa simples, pedi que você estivesse presente no momento mais importante da minha vida! Mas acho que isso era pedir demais para o egoísta Potter! Juro que nunca pensei que iria dizer isso, mas amaldiçôo o dia em que te conheci Potter, o maldito dia em que nos conhecemos, o dia em que nos encontramos, e mais do que todos, o dia em que nos tornamos amigos!!!
- Não fale uma coisa dessas! – Disse Harry segurando o braço da garota com mais força, ela pareceu não se importar – Não fale do que você não sabe! Se você sentar e me ouvir...
- Já disse que eu não quero saber!!!! – Explodiu a garota.
- Você vai me escutar!- insistiu Harry, o braço da garota estava ficando esbranquiçado, inconscientemente estava descontando toda sua raiva pelo dia frustado em cima da garota - Vai ter que ouvir o que tenho a dizer!
Allanis riu sarcástica, ainda sem reclamar do braço semi-amortecido – Obrigue-me.
Harry ficou sem reação. Allanis alargou o sorriso.
- Eu estou me perguntando como consegui ser amiga de algo tão baixo como você Potter, e ainda mais, como consegui um dia amar um verme do seu calibre que para ser ouvido tem que recorrer a força física. – Disse a garota lançando um olhar ao próprio braço. – Foi sem dúvida o meu pior erro, mas ainda está em tempo de conserta-lo... Ah sim... sempre há. Devia ter dado atenção aos meus próprios avisos e te sufocado, te excluído da minha vida. Mas antes tarde do que nunca não é Potter? A partir de agora de volta aos velhos tempos, ignore a minha existência que eu ignoro a sua. Coexistindo em perfeita harmonia, e eu vou pedir uma última vez: ME SOLTA!!!
As palavras da garota entraram como facas, mas ao invés de se sentir infeliz, toda a raiva de Harry encontrou sua única saída: Allanis – Não... – Disse com o mesmo sorriso sarcástico.
Allanis usou de sua outra mão livre para desferir o golpe que atingiu Harry no lado direito do rosto. Com o impacto sua mão acabou afrouxando e Allanis conseguiu se soltar, e sem sequer olhar para trás, saiu apressada pela rua, virando na esquina seguinte.
Harry ainda permaneceu alguns instantes tentando relacionar o que acabara de acontecer, até que subitamente desaparatou e aparatou em seu próprio apartamento, sentindo-se completamente acabado, se jogou no sofá sem conseguir dormir, sua cabeça fervilhava em pensamentos, nem se quer se dera ao trabalho de acender as luzes do apartamento.
Quase uma hora depois ele ouviu movimento no corredor, um barulho de algo sendo depositado na frente de sua porta, e uma outra batendo. Levantou-se moribundo e se encaminhou para a porta, abrindo-a reconheceu o molho das cópias das chaves de seu apartamento que ele havia dado para Allanis, depositados na frente de sua porta. Abaixou, pegou as chaves frias entre os dedos, e tomado por uma raiva que ele não conseguia explicar, chutou a porta do apartamento da garota, sem esperar resposta. Chutou mais de uma vez, chutou sem se importar com o barulho, descontava naquele pedaço de madeira toda sua raiva. Quando a porta ameaçou ceder ele voltou ao seu apartamento, e ao fechar a porta reconheceu a carta que Edwiges lhe trouxera antes dele sair. Jogando o molho de chaves em cima da mesma mesa, pegou a carta e começou a lê-la. Era um convite de Ron e Hermione convidando-o para passar uns tempos juntos, relembrar os velhos tempos e todas aquelas histórias.
Ainda estava indeciso sobre o convite quando passou pelo espelho do corredor e viu a marca vermelha no lado direto de seu rosto. Sorriu rabugento para o próprio reflexo. Sair dali era o que ele mais queria naquele momento, e antes de entrar para outro banho, rabiscou uma resposta aos amigos confirmando sua presença.
Fim da Flash Back
Sinto-me suja enquanto escrevo-lhe estas palavras, suja por minhas atitudes, suja pela raiva que ainda sinto dele, suja por ser quem sou. Estas palavras também são sujas, são vis e em breve servirão apenas para disseminar o mal, apenas como eu. Mas mereço os parabéns novamente, é claro, só sendo quem sou consigo transformar angustia em força, preocupação em sarcasmo, desilusão e decepção em raiva e fúria. Ah ele mereceu, mereceu o golpe que lhe desferi, mereceu pois eu não sabia como colocar para fora o misto de sentimentos que sentia.
Mas, se lhe disser que mesmo agora eu não me sinto culpada, estaria mentindo para mim mesma, se lhe disser que isso também não me atingiu, que aquele golpe também não arde em minhas faces, então estou mentindo, e mentindo descaradamente. Como eu queria, às vezes gostaria que meu coração fosse transparente me poupando o trabalho de dizer a ele que tudo o que eu mais queria era tê-lo ao meu lado, e acredito que seja por isso que sangro tanto, hoje eu só queria dizer a ele o quanto ainda o amava.
Às vezes me surpreende a alma, os danos que um coração machucado pode fazer, como consegue variar entre céu e inferno e tentar manter-se sempre intacto, fingindo perfeição. Eu não sou perfeita... eu também erro... eu estou machucada, e ninguém se importa... eu estou esquecida no escuro e ninguém se importa, ninguém se importa, ninguém se importa...
Allanis Ryan
(continua...)
