- Que feitiçaria é essa? Você é uma mulher? – ele estava tão atônito com a revelação, que perguntava o óbvio. Mas ele nunca ouvira falar de algo semelhante em toda sua vida, por isso não se recriminava com o que acabara de dizer.

A jovem olhou languidamente para ele, depois para sua proteção que ele arrancara de sua cabeça. Agora sim conseguiu por tudo a perder. Tanto ela quanto sua companheira de viagem, seriam levadas como escravas para os nobres daquele reino. Mas uma ultima idéia ainda passou por sua cabeça. Não custava tentar.

- Eu perdi, e você tem todo direito de exigir seu prêmio. – seu sotaque era carregado, muito diferente da outra garota. – Deixe minha senhora partir, e faça o que quiser comigo apenas por essa noite.

- Então você não era muda. – murmurou hipnotizado pela voz dela - O que mais falta para saber sobre você?

- Nada que seja mais importante que você receber seu prêmio.

Começou a remover toda a roupa que usava, sob o olhar atento do homem a sua frente. Seus longos cabelos negros caiam como cascata envolta de seu ombro. Sua pele tão alva tinha pequenos sinais e tremia levemente. Seus olhos verdes como a folha mais nova de uma árvore, parecia expressar um certo pavor ao mesmo tempo em que tentavam expressar sua altivez. No fim de tudo, ela ergueu a cabeça, mostrando que estava pronta para o que viesse a seguir.

O homem de cabelos loiros olhou detidamente para aquele corpo perfeito, desejando-o para si naquele exato momento. Mas algo estava incomodando-o. Retirou sua capa, estendendo-a no chão, indicando para que ela deitasse ali. Assim a jovem o fez, com uma certa relutância. Depois de retirar o tecido de seu tórax, o homem rasgou um pedaço. Tomou o braço direito dela e enfaixou-o com cuidado para não machucá-la mais do que havia se machucado. Sentia-se um pouco culpado por fazer a ferida verter sangue devido ao esforço da batalha, todavia, nada podia fazer agora. Sabia que a cada gesto ela estava observando atenta. Terminado o curativo, fitou longamente aqueles olhos que pareciam querer hipinotizá-lo. Seria justo desejar desposar aquela mulher quando na verdade a batalha fora num certo ponto injusta?

- Obrigada. – disse ainda sem jeito com aquele olhar penetrante – amanha deixará eu e minha companheira partir sem causar nenhum empecilho?

- Diga-me seu nome.

- Meu nome não tem nenhuma importância diante dos fatos. Perdi o desafio, no entanto não posso permitir que minha senhora pague por meu erro.

- Vejo que sabe lutar. O que eu não entendo é o motivo de usar esse tipo de vestimenta e nem o porque de ter sido tão bem treinada nas artes da guerra. – ela nada respondeu irritando-o – Os homens de seu povo são sempre assim, tão covardes que precisam se esconder nas barras da saia das mulheres que lutam no lugar deles?

- Não. São exímios guerreiros. Apenas aconteceu de terem me escolhida para viver assim. Sou uma fiel serva de minha senhora, e tudo que me importa é seu bem estar.

- Poderia ter morrido. Essa ferida reduziu sua habilidade em combate. Acha mesmo que sua senhora merece seu sacrifício? Se este fosse o reinado de nossa senhora Ilka mãe de Birgitta, entregaria sua senhora. Nossas leis eram contra a servidão.

- Vocês vivem agora em outros tempos. – por que estava rebatendo aquelas acusações? O que fazia de sua vida não dizia respeito a ninguém. – Me dará sua palavra de que soltará minha senhora?

Sua pergunta soou mais tremula que antes. Seus lábios pareciam estar obtendo uma coloração azulada, e seu corpo tremia violentamente. Percebendo o que se passava com ela, o guerreiro a enrolava na sua manta.

- Você não está acostumada com o frio do meu país. Vou levá-la para que possa se aquecer perto a lareira.

- Por favor, não deixe que ninguém saiba que eu sou uma... – ela mesma se interrompeu diante de mais uma tremedeira violenta.

- Mulher?! Não sei porque é tão importante assim manter uma aparência do que não é, mas atenderei seu pedido.

Cobrindo o rosto e a cabeça dela com o seu disfarce, jogou suas roupas junto ao corpo dela cobrindo-o novamente. Pegou-a nos braços ficando surpreso com o peso que ela tinha. Era muito leve. Já esteve em batalhas e tivera que levar seu companheiro ferido. Comparando o peso dos dois, parecia que estava levando uma pluma. Abriu a porta que ela havia fechado para lutarem sem nenhuma interferência externa, e deu de cara com alguns soldados aguardando a alguns degraus abaixo. Eles deram passagem para seu senhor mesmo sem compreender o motivo dele estar levando o invasor em seus braços.

- Tragam lenha para meus aposentos.

- Mas meu senhor, estamos no verão!

O soldado que exclamou espantado sabia muito bem das preferências de seu senhor. No verão não fazia questão de usar muitas roupas, nem acender a lareira. Este recebeu um olhar repressor de quem não desejava escutar suas ordens serem contestadas, e rapidamente deu passagem para seu senhor para realizarem a tarefa que lhes foi ordenada.

Já acomodada na cama, a guerreira parecia observar o ambiente que parecia muito simples, porem, muito confortável. Em poucos minutos, a madeira já tinha sido colocadas ao lado da lareira, e o guerreiro pegava a tocha acendendo a lareira assim que os soldados partiram um tanto curiosos com aquele tratamento que estava dando ao invasor. Perceberam que o invasor ainda usava todo aquele pano que escondia sua face, e que estava deitado na cama de seu senhor. Isso para eles era deveras estranho. No entanto tudo o que tinham a fazer ali já tinha sido feito, e não cabia a eles perturbar seu senhor com perguntas. Pouco depois o guerreiro voltava à cama para ver se ela estava bem acomodada.

- Obrigada. Ainda estou sentindo frio, mas está bem melhor agora.

- Seus lábios não recobraram a coloração normal. – dizia olhando fixamente para eles sentindo uma enorme vontade de aquecê-los. Para espantar essa idéia, tocou em outro assunto – E seu braço, está doendo muito?

- Já me feri outras vezes, e nunca foi grande problema.

Não sabia porque, mas aquelas palavras surtiram um efeito estranho em seu ser. Tinha vontade de retirar dela todo aquele fardo que era ser uma guerreira sob um disfarce de homem. Só de imaginá-la em batalhas ferozes, jogada a sua própria sorte era algo que ele não desejava presenciar, pois se alguém a ferisse novamente sucumbiria a sua ira.

Como poderia pensar nesses tipos de idéia se aquela mulher a sua frente representava um grande mistério? Ela era uma estrangeira, guerreira, e defendia com unhas e dentes uma jovem mais suspeita ainda que ela. Aquele disfarce o intrigava, sobretudo ser tão excelente guerreira e escrava de uma dama que se mostrava conhecedora de seu povo. Nesses tempos difíceis as duas poderiam ser quem tanto esperava, ou pior ainda, pessoas contratadas para dar o golpe final contra a resistência à tirania da regente. Tantas coisas se passavam em sua mente, e nenhuma parecia ser tão clara quanto seu desejo de tomar para si aquele corpo que parecia enfeitiçá-lo a cada instante. Como se algo previsse aquelas dúvidas, e desejasse dissipá-las de vez, sentiu o toque suave em seu abdômen. Ela o encarava com os lábios entreabertos, como num pedido mudo para que se esquecesse dessas questões. Sentiu seu corpo se aproximar do dela, e no instante seguinte, estava beijando-a com paixão. Ela correspondia o beijo da mesma forma que ele, e passeava com a mão do braço enfaixado pelo abdômen, costas , ombros e subia para a nuca arrancando um leve suspiro de satisfação. Ele afastou-se um pouco, olhando dentro de seus olhos, e detendo a mão que descia perigosamente para seu baixo ventre.

- Não me provoque, guerreira sem nome. Não sou imune a seus encantos, e não desejo fazer sua ferida se abrir novamente por minha culpa.

Em pouco tempo, o clima entre os dois mudou drasticamente. Ela havia pego uma adaga curva em suas roupas no momento que ele se ocupava com a lareira, escondendo-a até hora certa, e agora ameaçava seu pescoço com ela:

- Agradeço a preocupação, mas não sou tão delicada a ponto de me tornar uma invalida. Você venceu a luta, e é seu direito reclamar seu premio. Apenas o que peço é que deixe minha senhora e eu partirmos assim que pagar por meu erro. Está de acordo?

- E se eu não aceitar suas exigências?

- Então vestirei minhas roupas e o desafiarei até que consiga te vencer ou morrer com o meu corpo cravado em sua espada.

Em um rápido movimento, ele tirou o punhal do seu pescoço, tendo a certeza que ela não pretendia matá-lo de forma tão traiçoeira. Se fosse o inverso, ela não gastaria palavras nem teria gastado tempo com ameaças, e sim já estaria ali, vertendo sangue pelo pescoço. A jovem era realmente muito honrada, devia admitir. Assim como também tinha uma beleza espetacular. Nunca nenhuma mulher lhe chamou tanta atenção quanto essa. Removendo cuidadosamente a adaga de sua mão, segurou sua nuca aproximando-se de seu rosto e se perdendo naqueles lábios gélidos. Sim, ele queria aquecer não só aqueles lábios como também aquele corpo que tremia sob o seu. Suas mãos calejadas pela pratica da guerra percorriam aquele corpo macio e sedoso, enquanto a guerreira tentava a todo custo tirar o que restou das vestimentas dele, que a ajudou separando-se um pouco de seus lábios, perguntando com voz rouca:

- Compreende que agora não há mais volta?

Sua resposta foi puxá-lo para junto de seu corpo exterminando aquela sensação de vazio que a consumiu em tão pouco tempo que ele esteve afastado de seu corpo. Correspondendo aquele pedido, percorreu o corpo dela com os lábios, beijando, dando leves mordicadas e indo de encontro a seus lábios novamente. Agora sentia seu corpo aquecer, e vendo que suas face ficar com uma tonalidade rosada. Sim, ela o desejava tanto quanto ele a desejava. Afastando o rosto só um pouco para se perder naqueles olhar que queimava em pura paixão, introduziu-se nela vagarosamente, querendo aproveitar cada momento. As barreiras dela aos poucos eram rompidas, enquanto que um leve gemido e uma forte pressão das mãos dela em seu braço comprovaram o que ele já tinha deduzido. Aquela jovem se tornara uma mulher por completo em seus braços. Voltando a beijá-la, aliviou aos poucos sua tensão. Ela já não o segurava com tanta força, e sim, tentava com sua inexperiência imitar seus movimentos. Sabia o que ela estava sentindo naquele momento, e não foi apenas pelo que ele presenciou em sua face. Estava sentindo o mesmo que ela. Foi paciente ao se segurar até que sentiu o corpo dela estremecer com os espasmos e aquele gemido inconfundível. Logo foi a vez dele de se juntar a ela no ápice da paixão. Beijou-a mais uma vez e rolou para o lado para deixá-la descansar um pouco.

- Permitirá que nós duas partamos amanha? – ela perguntava com a voz sonolenta.

- Queria que ficassem. Seria para a segurança de vocês duas, e porque sua companhia me agrada. Sei muito bem que tenho um compromisso que foi traçado por meus pais a muitos anos atrás, mesmo assim eu estaria disposto a esquecê-lo se ficasse comigo. Mas se for o que deseja, não posso obrigá-las a ficar. Não duvido que sua senhora seria a solução para os problemas que este reino tem enfrentado, no entanto, não estou tão certo de prosseguir com o que eu disse na morada de Czeslaw.

- Obrigada... – foi o único murmúrio sonolento que a jovem guerreira conseguiu proferir antes de adormecer.

Ela devia estar muito cansada, o guerreiro pensou. Não era pra menos. Cavalgou e travou combates duas vezes no mesmo dia. Cobriu-a com um longo cobertor de peles de urso, abraçando-a. Seus pensamentos vagavam sobre suas próprias palavras ditas a poucos instantes. Sim, desejava que nunca fossem embora, mas a jovem guerreira estava disposta a tudo para manter o destino que havia traçado anteriormente. Não seria justo tentar demovê-la de sua idéia até mesmo porque ela era uma serva, e como nos tempos atuais aquele reino tinha desenvolvido a pratica da escravidão, entendeu o que aquilo significava para ela, um ser tão honrado com seus deveres. Queria ter o poder para livrá-la dessa situação, mas nada poderia fazer se ela mesma demonstrava tanta lealdade a ponto de se sacrificar por sua senhora. Esses pensamentos foram interrompidos pelo cansaço que o assolava. Fizera muito em apenas um dia. Lutou com meros ladrões no dia anterior após ter retornado do castelo em que a regente residia, depois teve uma noite insone tentando desvendar o mistério da jovem que demonstrava um largo conhecimento sobre seu povo. Logo na manha seguinte travou um combate com um guerreiro estrangeiro, e teve que cavalgar com o máximo de pressa para impedir que Yarmilla cumprisse com as ameaças do dia anterior. Depois mais uma vez travou combate com o soldado de roupas estranhas em seu próprio castelo. Surpreendeu-se ao descobrir que ele era na verdade uma mulher, e sua determinação mostrava que não era uma mulher qualquer. Mas os dois estavam ali, deitados naquela cama e sabendo que aquela seria a última vez que estariam assim, juntos. Vencido pelo cansaço, o guerreiro sami adormeceu abraçado a jovem que tanto lhe despertava desejo e admiração.

Continua...