Sentindo uma grande moleza no corpo a jovem finalmente despertava. Pelos sons que escutava vindo de fora daquele quarto já devia ter amanhecido a um bom tempo. Dando uma rápida vistoria com o olhar, reparou que estava sozinha. Sentiu uma sensação de vazio apoderar-se de seu corpo mais uma vez, só que agora parecia ser algo mais permanente, e que só passaria quando estivesse novamente com a pessoa do seu sonho por perto. Ao ver sua vestimenta empilhada no canto da cama, teve certeza que a noite passada não havia sido um sonho. Estivera dormindo nos braços daquele guerreiro. Não. Não podia pensar na noite passada. Deveria encontrar sua companheira de viagem e partir dali o quanto antes. E se ele não cumprisse com o combinado? Seria obrigada a enfrentar ele e quem surgisse a sua frente. Não, não deveria se precipitar novamente. Fora por causa de sua pressa que haviam se metido naquela confusão.
No salão, alguns soldados montavam guarda. A jovem a quem veio resgatar estava sentada à mesa, ao lado do guerreiro, em completo silencio. Ela se mostrou feliz ao ver que seu "soldado" sarraceno estava ali, são e salvo, encostado a parede. Ela olhou para o guerreiro ao seu lado e perguntou:
- Nos deixará partir? – o viu menear a cabeça afirmativamente então sorriu feliz – Muito obrigada por tudo. Gostaria de partir o mais breve possível.
- E quanto a ele? – olhou para a jovem com um olhar sombrio, suavizando a expressão ao observar que o soldado aparentava serenidade mesmo com aquele monte de pano cobrindo seu rosto – Pretende levá-lo sem ao menos deixar que faça uma refeição?
- Ele comerá no caminho. – respondeu apreensiva, mas logo se deu conta do erro que cometeu. Adquirindo um tom de voz tranqüilo anunciou levantando-se – Agora devemos partir.
O guerreiro sarraceno afastou-se da parede que parecia estar lhe sustentando o corpo. Dados apenas três passos caiu no chão causando um grande estrondo, chamando a atenção de todos. A jovem foi até o guerreiro sarraceno, tentando fazê-lo despertar.
- Saiam todos daqui. – os soldados e as pessoas que estiveram servindo a refeição saíram ao escutar aquela ordem de seu senhor – Eu disse para todos saírem, e isso inclui você também, menina.
- Ele é meu servo, por isso eu cuidarei dele.
- Do mesmo jeito que tem cuidado "dele"? Não permitirei mais que faça o que bem entender. Ela é uma pessoa como eu e você, e não um animal.
Ergueu a guerreira que até então mantinha seu disfarce, levando-a para seus aposentos, fechando a porta para que a outra jovem não o seguisse até ali. A jovem que ficou do lado de fora do quarto não conseguia entender como aquele homem podia saber da identidade da guerreira. Sabia muito bem que ela sempre fora muito cuidadosa em não revelar que era uma mulher. Então como ele podia saber disso?
Dentro do quarto, o guerreiro sami depositou-a na cama, e retirou aquele tecido que cobria seu rosto. Seu olhar parecia de uma grande preocupação. Ela estava ardendo em febre. Pegou um tecido e molhou-o com a água fresca da jarra. Colocou o tecido embebido sobre a fronte da testa da jovem, sussurrou:
- Eu cuidarei de você, minha guerreira sem nome. Não permitirei mais que seja tratada como uma escrava sem valor. E quanto tudo isso passar, me dirá seu nome para que eu possa sussurrar seu nome toda vez que estivermos nesta cama, nos amando.
- Temos que partir... – a voz da guerreira agora não tinha aquele sotaque tão arrastado quanto da noite passada – Só uma pessoa pode ajudar...
O guerreiro sami sabia que ela estava delirando. A febre era a responsável por aquilo. Mas quem era a pessoa que ela estava procurando e que seria seu salvador? Aquilo não fazia sentido.
- Derek... – o guerreiro sami arregalou os olhos, teria escutado mesmo ela chamar por este nome? – Derek ajudará... ele me reconhecerá...
- Você não pode ser a pessoa por quem procuro há tantos anos... não pode. – o guerreiro sami estava transtornado. Mas ainda poderia estar enganado quanto ao que se passava por sua cabeça. – Você é uma das crianças que foram levadas deste reino? Por favor, diga que seu nome é Birgitta. Que você é a princesa Birgitta e que a sua companheira de viagem é a outra criança que foi levada.
- Não há princesa... nunca...
Então o guerreiro sami caiu de joelhos, após ter recuado vários passos. Aquilo não poderia estar acontecendo com ele. Justo agora que ele acreditava ter encontrado alguém que o fazia sentir-se completo. Uma excelente guerreira tinha suas virtudes, e acima de tudo era muito linda. Mas agora não poderia pensar mais nela. Nunca mais, deveria esquecê-la. Teria que tirá-la dali e da sua mente. Não conseguia nem mais olhar pra ela, pois isso o fazia lembrar que havia cometido um grande erro. Teria que pagar por ele. Deveria pagar em vida, e sabia muito bem o que deveria fazer para diminuir seu arrependimento. Subitamente, ele olha para o alto como se pudesse enxergar além do que seus olhos podiam ver e diz em voz alta:
- Que minha barba cresça tanto até atingir o tamanho para que eu mesmo possa me enforcar com ela quando não mais agüentar os tormentos que me forçarei a viver ao lado de Yarmilla. Ainda assim, não terei pagado pelo mau que fiz. Nem mesmo quando estiver diante de meus antepassados terei coragem de levantar meus olhos diante de tamanha vergonha que os fiz passar com minha libido desregrada.
Levantou-se sem olhar para cama, seguindo pelos cantos do quarto como se houvesse algo horrendo com o qual temia chegar perto. Abriu a porta, dando de cara com a jovem donzela que estava com os olhos arregalados.
- Leve-a daqui. Vá até a morada de Czeslaw. Assim que ela se restabelecer, parta deste reino. – a jovem olhou para ele com um olhar de assombro e ele continuou – Te darei muitas moedas para que a deixe viver livre. Agora cubra o rosto dela enquanto faço os preparativos necessários para transportá-la.
Algum tempo depois, a casa de Czeslaw parecia agitada como nunca tinha se visto antes. O homem andava de um lado para o outro, praguejando sem se importar com quem poderia estar escutando.
- Derek enlouqueceu de vez!! Só isso explicaria esse súbito interesse em desposar Yarmilla. Queria poder ir ao seu castelo, mas ele deseja que eu me empenhe numa tarefa sigilosa e muito importante pra ele. O que poderia ser? – quando retirou a manta que cobria o corpo daquele guerreiro que esteve a poucos dias em sua casa, não viu nada que explicasse o motivo para tanto segredo. No entanto ao retirar o tecido que cobria seu rosto conseguiu entender o que se passava – Mas o que é isso? O estrangeiro é uma mulher?! E parece estar muito doente. Mesmo assim isso não explica o motivo de tomar tal decisão. Quanto antes conseguir curar esta jovem, melhor. Assim poderei ter com Derek.
Pelo lado de fora da casa, à jovem que seguia viagem com a guerreira escutava tudo atentamente. Não sabia o motivo de aquilo tudo estar acontecendo, mas teria que fazer alguma coisa a respeito. Tomando o rumo para celeiro, dizia ao vento como se sua companheira pudesse ouvir:
- Você fez tudo o que estava ao seu alcance, minha amiga. Está na hora de retribuir. Encontrarei Derek, e farei com que ele desista dessa idéia absurda de se unir a regente. Se você estivesse bem, resolveria essa questão sozinha.
Czeslaw esteve o tempo todo ao lado da guerreira como lhe foi ordenado na carta enviada por Derek. Ninguém tinha acesso ao quarto apenas ele. A alimentação dos dois era trazida por um de seus vassalos, e deixado em frente à porta após dar três batidas na porta. Passaram-se quase dois dias desde que a guerreira chegara. Ainda não era hora de trazerem o jantar quando um dos soldados bateu firmemente na porta enquanto gritava a plenos pulmões:
- Um exército sem bandeira está vindo do sul, meu senhor. Não demorará muito para que alcance suas terras.
- Prepare os homens. Peguem apenas o essencial. Onde está a jovem que veio do castelo de Derek?
- A escutei dizendo alguma coisa sobre ter que falar com o senhor do norte quando pegou um de nossos cavalos.
- E você não a impediu? Raios. Não temos tempo para nos preocupar com isso agora. Devemos nos retirar o quanto antes. Faça as mulheres levarem o mínimo de carga possível. – virando-se pra jovem que finalmente abrira os olhos após o soar das trombetas de alerta, disse seriamente – Logo o exército que veio do sul nos alcançará. Se isso acontecer, não faço idéia do que eles seriam capazes de fazer se souberem que é uma mulher. Levarei-te como se fosse um prisioneiro. É tudo o que posso fazer para manter leal ao desejo de Derek.
Ela apenas meneou a cabeça afirmativamente, mostrando que compreendia sua preocupação. Pretendia cooperar, por isso deixou que aquele homem a ajudasse a vestisse.
Em pouco tempo, a guerreira disfarçada estava acomodada na carruagem da qual havia vindo com a outra jovem. O homem que conduzia os animais exigia deles que apertassem os passos. Logo atrás, um grupo pequeno de soldados cavalgava atento, fitando sempre o local de onde vieram. Era quase impossível enxergar alguma coisa naquela floresta fechada que só tinha uma pequena trilha. Todavia, os sons inconfundíveis estavam se aproximando. As mulheres que estavam à frente da carruagem apressaram-se, afastando do grupo assim que Czeslaw ordenou que seguissem para o castelo do senhor do norte.
Então o previsível acontece. Os soldados que vinham do sul os alcançou, e gritos de guerra davam lugar ao ambiente que há pouco tempo era silencioso. Aos poucos, pequeno contingente de Czeslaw que haviam lutado com bravura tombava sob os rigorosos ataques de seu oponente. Um dos soldados atacantes passou por Czeslaw que estava dando trabalho para seus companheiros, acertando-lhe o punho da espada em sua nuca, fazendo-o cair semi-acordado. A seguir, entrou na carruagem, e saindo com o prisioneiro. Cortou as amarras assim que pisaram em solo firme com apenas um movimento de espada. A guerreira disfarçada ainda de sarraceno recebeu deste soldado um cinto com espada e adagas, prendendo-os na cintura enquanto observava o jovem alto de cabelos negros entrar na carruagem, voltando logo em seguida com seus olhos azuis vidrados de ódio. Este fez várias perguntas para ela em tom autoritário. Czeslaw e seus soldados nada entendiam sobre o que se tratava, pois aquele idioma era algo deveras estranho para eles. Mas uma coisa ele tinha certeza, a garota que usava o disfarce os conhecia. Eis que o jovem de cabelos negros atinge o rosto da jovem que nada dizia escondida em seu disfarce. Recuando alguns passos devido ao impacto, sacou a espada assim que viu o rapaz tomando a iniciativa de atacar. Os golpes dele atingiam com força sua espada, e para diminuir o impacto, deixava espada curvada para baixo ao lado do ombro esquerdo. Então a espada dele apenas deslizava, e mais uma vez atacava com ferocidade deixando Czeslaw mais confuso que antes.
- Contenha-se, Bermondo! – uma voz que parecia um trovão sobrepujou o som do atrito das duas espadas, fazendo os dois pararem de lutar imediatamente e virando-se para sua direção.
- Contenha-se, Bermondo! – uma voz que parecia um trovão fez com que os dois parassem de lutar e virar-se para sua direção.
Os soldados abriam espaço, deixando o senhor daquela voz imponente passar. Era um homem de estatura alta, seus cabelos eram longos e grisalhos. Usava uma armadura de metal fosco. O jovem que atendia pelo nome de Bermondo agora falava no idioma que ele havia dito e que era compreensível para Czeslaw, que acompanhava tudo de onde estava, deitado no chão com as mãos amarradas as costas, e o pé do soldado que o prendeu sobre suas costas indicando que deveria ficar ali:
- Nossa senhora sempre confiou mais neste cão que em mim. E agora ela foi levada para Deus sabe lá onde. – tentando por um pouco de juízo em seu ser ele guarda a espada, se lamuriando – Eu não devia ter aceitado essa idéia absurda. Que o raio me parta, e que nosso suplício no inferno seja inúmeras vezes pior que imaginamos sofrer após a morte se algo lhe acontecer.
- Ao que parece às coisas não aconteceram como esperávamos. Ao menos conseguiram cumprir a missão?
Então para a surpresa de todos, ela disse, tirando aqueles apetrechos que escondia seu rosto:
- Não, e agora isso não tem mais importância. Ele já escolheu o lado que pretende ficar. – Olhou rapidamente para ver os olhos espantados de todos e prossegue sem dar muita importância – Devemos resgatar a garota, e impedir que Derek se alie a Yarmilla.
- Então deve agir rapidamente, guerreira. – a jovem virou-se para Czeslaw que enfim se pronunciava depois de manter-se quieto todo o tempo – Pouco antes de partirmos de minha morada, recebi informação de que a jovem escoltada por você foi raptada por Yvor. Faz idéia do perigo que ela corre nas mãos daquele homem? Ele é o senhor do reino a oeste, um ser repugnante e perigoso. Derek tem conseguido impedir que suas mãos avancem sobre nossas terras, contudo, não há como vigiar toda essas paragens.
Continua...
