Capítulo Quatro – A Comitiva do Apocalipse Pt. 1 (Gênesis)
There´s always somebody fucking hanging on, Can anybody help make things better? Your tears don´t fall...
Os barulhos secos acompanhavam os seus pés por todo o longo corredor. A pressão sangüínea parecia ter lhe subido levianamente. Suspirou fundo, enquanto tirou a mão dos bolsos. Uma baforada de ar frio saltou de sua boca, enquanto a cicatriz queimou levemente. Encostou a mão na maçaneta dourada e a abriu.
Uma dúzia de rostos lhe encarou, duvidosos. A cicatriz ardeu por alguns segundos, antes de Harry fechar a porta.
A sala não estava quentinha e aconchegante como ontem. A lareira não estava acesa e as fotos dos bruxos das trevas estavam quietas, dormindo. Um clima de tensão pairava no ar.
Luna encarava silenciosamente o teto, vestindo um sobretudo enorme que lhe passava os pés quase trinta centímetros. O sobretudo era preto e estava visivelmente cheio de mofo e empoeirado.
Colin e Dênis estavam sentados no chão, cobertos até a cabeça por um coberto peludo. Colin tremia ligeiramente de frio enquanto Dênis encarava o vazio. Ao lado dos dois, Jorge tragava um cigarro e suas mãos tremiam ligeiramente.
Neville estava sentado apenas sobre as pernas de trás da cadeira. Vestia um casaco preto, com bolsos extremamente práticos. Em uma mão trazia a varinha, bem segura.
Lilá e Alicia Spinnet murmuravam entre si. Lilá usava um casaquinho vermelho, que Harry facilmente confundiria com os trajes de uma vovó. Alicia Spinnet, parecia não sentir o frio e usava uma blusa curta e calças jeans rasgadas nos joelhos.
Macmillan trajava algo parecido com um paletó. Susana Bones parecia ter notado isso, pois mesmo do outro lado da sala o encarava curiosamente.
Rony e Hermione estavam do lado da lareira. Rony havia apertado firmemente Hermione contra o peito e parecia consola - lá. Cho e McRosbeth conversavam logo ao lado.
Por fim, Simas estava sentado no chão encarando os pés.
Harry pigarreou alto e todos notaram a sua presença.
-Acho que todos estamos prontos? –perguntou firmemente, enquanto deixava sua sacola ao chão e dirigia-se a lareira.
Neville concordou brevemente. Parecia absorto em pensamentos agora. Harry sabia que era provável que estivesse pensando em seus alunos de Hogwars e obviamente também em sua esposa Ana.
Luna suspirou, parecendo não convencida de porque faria aquilo. Colin pareceu ter tomado um choque, mas dirigiu-se a lareira do mesmo jeito.
-Hm, muito bom. –disse Harry se locomovendo até a lareira. Lá retirou do bolso um saquinho cheio de pó esverdeado. Pó de flu. –Pensei em começarmos com Japão.
Neville automaticamente se levantou e dirigiu-se a lareira. Lilá pareceu controversa, mas seguiu os passos de Neville. Parou por alguns segundos para arrumar o casaquinho vermelho. Colin pareceu que tinha cada pé com mais de cinqüenta quilos pesando, mas dirigiu-se a lareira.
Neville pegou antes do comando de Harry um punhado do Pó de Flu e o levou até a lareira. Lilá e Colin fizeram o mesmo, mas hesitantes.
-Pra onde Harry? –perguntou Neville, quase largando o Pó de Flu. Colin e Lilá voltaram suas atenção para Harry, enquanto os outros nem pareciam notar que o primeiro grupo estava prestes a partir.
-Tóquio, Japão. –respondeu Harry.
Neville concordou. Lilá suspirou enquanto Colin pareceu se exercitar.
"Tóquio, Japão!" disseram os três juntos. Neville, Colin e Lilá sumiram imediatamente. Cinco minutos se passaram no aposento que agora não era mais tão cativante. Aos poucos os gritos de "Camberra, Austrália", "Moscou, Austrália" e "Otawwa, Canadá" se perderam nos ouvidos de Harry. Agora os melhores amigos, Rony e Hermione já haviam partido. Só sobravam na sala Cho e seu marido McRosbeth.
-Hm... Preparados? –perguntou Harry.
Cho e McRosbeth se levantaram da cadeira de madeira frágil que haviam conjurado. A cadeira rangeu por alguns segundos e com um ato de varinha McRosbeth a desconjurou.
Os três entraram dentro da lareira. Com um grito de "Brasília, Brasil!" os três desapareceram.
Com um baque surdo, Neville, Lilá e Colin saíram no meio de um restaurante, chiquérrimo. Por um minuto todas as atenções se voltaram para os três. Haviam caído no meio de uma lareira de uma pizzaria famosa da região.
-Mas o quê diabos...? –perguntou Colin,enquanto se esquivava das grades endurecidas de ferro que protegiam a região da lareira que por sorte não estava acesa.
O ambiente era abafado e quadrado. O ar parecia rarefeito por ali, e as paredes fortemente pintadas de laranja lhe deram uma forte sensação de claustrofobia – o que era realmente raro, pois Colin só sentia quando estava mesmo muito nervoso. Lilá levantou-se e prendeu a sua atenção na cerca de trinta japoneses que lhe encaravam, curiosos.
-Vamos sair daqui. –disse Neville, o único que parecia ter recuperado a razão.
Um japonês (pelas vestimentas orientais pretas e algo parecido com uma boina na cabeça certamente era o dono do local) que parecia estar com os olhos fechados de tão estreitos encarou-os de forma assustadora e jogou-se na frente impedindo a passagem.
-ここにしようとは何ですか ?-perguntou o japonês.
Neville não entendeu nada que o homem falou, por isso o empurrou para longe liberando a passagem. O japonês indignou-se e gritou um monte de palavras estranhas que não era preciso ser gênio para saber que eram xingamentos.
Neville abriu a porta do restaurante e escapuliu rapidamente do ambiente quente e abafado. Colin e Lilá fizeram o mesmo.
A reação dos três foi imediata. Logo entenderam porque apelidaram aquela cidade de "maior das urbanas". Dezenas de apartamentos empilhados um no outro se erguiam ali. Painéis luminosos erguiam-se entre os prédios, oferecendo diversos produtos na mesma língua do japonês do restaurante. Além disso, havia milhares de pessoas passando apressadas pelas ruas estreitas e carros buzinando freneticamente. A poluição sonora era tanta que Neville mal conseguiu escutar Colin quando ele lhe perguntou se fazia a mínima idéia da onde iriam.
-Vamos nos afastar da periferia Colin. –respondeu Neville, enquanto parecia tentar se localizar ao meio de tanto movimento.
O abafamento era maior do que a do restaurante, e eles perceberam que talvez aquele fosse um dos lugares maios frios da cidade.
Mesmo já sendo noite escura e pelo que Lilá notou, pouco estrelada, os três suavam fortemente. As costas das blusas estavam aquosas de suor e Neville transpirava fortemente.
Por mais que caminhassem as ruas pareciam ser sempre as mesmas, e aos poucos começaram a se acostumar com o barulho rotineiro que vinha daquele lugar. Mais dez minutos e a dor de cabeça surgiu. Neville parecia atordoado e o abafamento estava quase fazendo Colin desmaiar. Colin concentrou-se e fechou os olhos, preocupado.
Por fim, um arzinho frio começou a vir fraco. Colin abriu os olhos, e surpreendeu-se ao ver que as ruas pareciam finalmente diminuir o ritmo e a poluição sonora já não era tanta.
A paisagem agora parecia totalmente diferente. Tufos de grama de quase um metro de altura ocupavam o que antes era amontoados de prédios. Árvores de porte médio que Colin supôs terem folhas roxas. Não havia mais asfalto e tampouco cimento – se andava na pastagem alaranjada. Mas o quê mais assustou Colin foi que agora um lago enorme imergira do nada. Era quase impossível estarem no mesmo lugar de antes.
-Mas o quê diabos é isso Neville? –perguntou Colin, assustado.
-Isso, meu amigo... É Tokyo. –disse Neville, que agora se encontrava há alguns metros de distância estirado no chão, coletando plantas.
-Uou... –exclamou Macmillan, que no momento estava debruçado sobre um amontoado de grama do local.
-Cala a boca Ernesto. –disse Alicia Spinnet, que já estava cheia das exclamações do amigo.
Mas Ernesto não estava exclamando por nada. A paisagem em Camberra – Austrália era linda. Do alto do morro que estavam podiam ver a grama aparada e verde em todo o povoado, que era cercado de casinha de porte pequeno. As ruas eram asfaltadas e eram tão lisas que o haviam deixado surpreendido. As árvores praticamente habitavam todo o lugar.
Uma ponte de estruturas enormes atravessava a cidade. Ela era estruturada por barras grossas e pesadas de ferro; Mesma naquela hora tardia da noite, ainda havia carros passando velozmente pela ponte.
Virou sua cabeça para o grupo que estava amontoado no meio de uma clareira de um dos maiores montes que encontraram. Luna estava deitada em uma rede, desapontada pelo fato de não terem encontrado nenhum canguru a tarde inteira que vasculharam pela Austrália. Alicia Spinnet lhe encarava penosamente. Estava sentada em uma cadeira confortável de chintz que havia conjurado alguns minutos atrás.
Ernesto levantou-se da onde estava debruçado e uma cama confortável no meio das árvores. Dirigiu-se até ela, no meio tempo passando pela fogueira que haviam feito algum tempo atrás.
Deitou-se na cama e absorveu-se em pensamentos olhando para a noite clara, estrelada. A brecha de árvores sufocantes era quase perfeita para o plano deles: perto de Camberra e não chamaria a atenção de ninguém. Quando estava quase dormindo, Alicia Spinnet lhe balançou violentamente.
Com um estrondo, Macmillan se levantou assustado.
-Shhhhhhhhh –disse Alicia, colocando o indicador na boca.
Ernesto absorveu a cena com atenção – devia ter cochilado por alguns minutos. Luna estava levantada e ativa com a varinha levantada na direção de uma brecha na floresta. Alicia Spinnet agora que o acordara imitava o gesto da amiga.
Assustado, puxou a varinha e encarou o vão. Um barulhinho quase irreconhecível de galho quebrado emanou.
-Comensais. –sussurrou Luna, que quebrava o Lumus Maximum. Quando ia desfazer a poltrona, rede e cama alguém berrou "Expelliarmus"!
Ernesto deu um pulo assustado mas berrou de voltar "Protego Maximum". Luna rapidamente voltou sua atenção para a batalha iminente que se formava.
Cerca de quatro Comensais da Morte saíram do meio da floresta apontando a varinha e berrando feitiços dos mais variados.
Ernesto jogou-se ao chão para proteger-se de um estrucho. Arrastou-se até a poltrona que impedia basicamente o caminho deles. Desviou-se de um raio azulado que não fazia a mínima idéia do que era.
A poltrona foi atingida por um feitiço, enquanto deitava-se de barriga e mirava um Comensal, fazendo a perder um dos braços de apoio.
-ESTUPEFAÇA! –berrou momentos antes de um dos Comensais voar cerca de três metros longe, de volta para a floresta.
Agora que tinha uma visão clara do campo viu que Alicia estava deitada no chão, imobilizada. Não quis acreditar naquilo e então viu que Luna já havia abatido mais dois Comensais.
-Avada... –começou um dos Comensais, mas Ernesto lhe desarmou e o estuporou.
Luna caiu de joelhos ao chão, exausta.
-Não fique aí, bosta. –xingou Ernesto. –Vem ajudar a Alicia.
Luna lhe olhou piedosamente.
-Ela esta morta Ernesto.
Dênis deitou-se na cama que lhe haviam oferecido. Para a sua surpresa era quentinha e gostosa. Jorge sentou-se na dele e já estava procurando o cigarro no bolso. Susana examinava curiosa a janela.
-Você acha que vamos achá-lo aqui? –perguntou Susana.
Dênis encarou curioso a janela também, preferindo não comentar. Jorge tragava fortemente o cigarro que lhe pendia na boca.
Suspirou fundo e sentiu uma sensação calorosa no estômago. Olhou para o quartinho. Era amarelo e todo decorar com quadrinhos de barcos pintados. Uma porta de carvalho levava ao banheiro. Na outra extremidade a porta levava a saída. Uma TV de plasma pendia da parede do norte.
Susana pareceu desistir de procurar algum vestígio de Draco na janela e deitou-se na sua cama.
Dênis suou frio quando ouviu um barulhinho no corredor.
-Mas o quê diabos?
Jorge encostou a orelha que ainda tinha na porta. Três segundos depois sussurrou "corram!".
Susana não hesitou e abriu a janela.
-Você está louca? –perguntou Dênis antes de Susana pular pela janela. Dênis olhou para baixo e percebeu que a janela estava enfeitiçada para diminuir o tamanho da distância.
-Genial. –disse Jorge que agora estava na janela também. –Agora vá.
Dênis pulou, ainda um pouco hesitante, Jorge logo atrás. Susana já estava alguns metros na frente, correndo. Jorge puxou varinha e mirou no quarto de hotel.
Na janela aonde estiveram segundos antes um Comensal da Morte atirava feitiços.
-Protego! –falou Dênis quando um feitiço estuporante lhe tirou um fininho do braço.
Apavorou-se quando viu que havia nada mais do que seis Comensais da Morte no quarto.
Devido a neve que o cobria até os joelhos no beco de trás do hotel, tropeçou. Um feitiço que não fazia a mínima idéia havia lhe atingido no estômago e agora ele estava com uma forte vontade de vomitar.
-Droga, corram! –reclamou Jorge que agora empurrava Dênis e Susana para longe dos Comensais.
-Avada Kedrava! – alguém vociferou. Teve quase certeza que alguma coisa havia desabado.
-AI! –berrou Susana.
Dênis voltou sua atenção para a menina e viu que agora faltava um dedo em uma de suas mãos. Quis gritar, apavorado, mas não teve chance já que havia sido quase estuporado.
-Estupefaça! –disse mirando o vazio. Por mais incrível que pareça alguém berrou de dor e um baque surdo lhe indicou que agora só havia cinco comensais.
-Ótimo Dênis, agora CORRA! –berrou Jorge.
O beco havia terminado e desembocava em algo parecido com um campo de plantação. Tinha uma extensão lisa, coberta por neves. O que era mais interessante é que havia ainda algumas árvores sobressalentes. Susana gemia pelo dedo perdido enquanto Jorge disparava maldições furiosamente.
Dênis correu empurrando Susana para longe. Os Comensais haviam pulado da janela do hotel, e agora Dênis pode o ver claramente. Cada um deles usava algo parecido com uma máscara comprimida no rosto e um capuz que certamente seria de fumaça. Uma longa bata descia até os seu pés.
-Crucio! – vociferou o Comensal mais a direita.
Dênis não se desviou há tempo e o feitiço lhe atingiu no peito. Caiu no chão com um estrondo e tremeu violentamente. O corpo parecia estar cheio de agulhas e a cada movimento elas espetavam um ponto crucial. Deu um berro alto, de dor.
-SUSANA CORRE SUA IDIOTA! – Jorge berrou enquanto ajudava Dênis a se levantar, que ainda estava tonta.
Um barulho de trote na neve pode ser ouvido e ficou óbvio que Susana dispara fugindo.
Dênis endireitou-se em pé e tentou localizar-se. Agora estavam quase a cem metros do hotel e a estufa de neve já lhe chegava quase até o peito. Restavam quatro Comensais da Morte. Dênis franziu o cenho e viu que um dos mascarados estava enterrado por uma avalanche de neve, provavelmente morto.
-Você está pronto? –perguntou Jorge enquanto o guiava um pouco mais adiante para poderem descansar por algum segundo.
-Eles mataram o meu irmão. É claro que estou pronto. –respondeu Dênis, agora um pouco rancoroso.
Jorge concordou e agora parecia um pouco mais confiante nas habilidades de Dênis.
-Não se preocupe. Eles mataram o meu também. – e logo após de dizer essas palavras levantou-se e berrou "AVADA KEDRAVA"!.
Dênis ficou boquiaberto e jogou-se sobre Jorge ao mesmo tempo que ouvia um baque surdo de um cadáver caindo ao chão.
-MAS O QUÊ DIABOS VOCÊ PENSA QUE ESTÁ FAZENDO? –berrou o ruivo.
-VOCÊ MATOU! ACABOU DE DESTRUIR UMA FAMILIA! O QUÊ VOCÊ TEM NA CABEÇA? –berrou Dênis. Não acreditava que Jorge havia acabado de se rebaixar ao nível de um Comensal. –VOCÊ SE REBAIXOU – AI!
Berrou desolado. Algo quente lhe atingira nas costas. Sentiu por um momento que o sangue parara de circular. Caiu de cima de Jorge e os segundos pareceram congelarem.
-NÃO! DÊNIS! –disse Jorge enquanto o sacudia febrilmente, as mãos pousadas no seu ombro.
A imagem havia perdido o foco e um vazio lhe preenchia por dentro. Então fechou os olhos e tudo escureceu e pareceu perder o sentido.
Jorge debruçara-se sobre Dênis. Mas já era tarde demais. O segundo irmão Creevey já estava morto.
Virou-se absorto de raiva enquanto alguém lhe estrunchara metada de perna.
-Expelliarmus! –uma voz feminina retrucou e a varinha do Comensal da Morte que lhe atacara voou. Segundos depois o homem voou alguns metros longe: estuporado.
Jorge berrou um ataque qualquer que guardava em mente e mais um Comensal foi enviado para a avalanche de neve.
-Avada... –começou o último Comensal.
-Nem pensar seu idiota. –cortou Jorge, rancoroso. –ESTUPEFAÇA!
O Comensal voou alguns metros longe.
Então Jorge virou-se para ver quem o havia ajudado. Susana lhe encarava, apavorada. Um corte profundo lhe marcava a face. Os seus olhos lacrimejavam e Jorge viu que as lágrimas estavam prestes a cair sobre o rosto da menina.
-Ele está morto Jorge. Morto. –disse apontando para o cadáver de Dênis que refugia sobre a neve.
Então sobre a nuvem de chuva que caía fortemente, lavando os pecados, Jorge abraçou Susana.
