Capítulo Cinco – A Comitiva do Apocalipse Pt. 2 (Heróis e Vilões)

Her conscience calls the guilty to come home
Your tears don't fall they crash around me

Gina suspirou profundamente enquanto levava o cobertor até a altura do pescoço. Um frio infernal fazia na Toca e neste momento ela se sentia extremamente sozinha. Claro, haviam cinco pequeninos lotando a Toca, mas do mesmo jeito ela não conseguia parar de pensar em Harry. Em seus irmãos e em Hermione... E se nunca mais voltasse a vê-los?
Fechou os olhos, tentando com toda as suas forças dormir, mas simplesmente não conseguia. Era muito coisa acontecendo ao mesmo tempo... E além de tudo havia a vaca da Cho. Gina vira como o marido lhe falara o nome da chinesinha maldita ontem antes de dormir. Como ele pronunciara o nome dela antes de lhe pousar as mãos nas costas.
Cerrou os punhos e rangeu os dentes: não podia deixar os maus pensamentos tomarem conta de sua cabeça. Virou-se de lado na cama e encarou a escuridão do quarto. A cabeça estava começando a dispersar os pensamentos... Rangeu os dentes mais uma vez... Virou-se... Agora o suor lhe cobria a camisola que usava... Sentiu os olhos pesarem... Então tudo parecia um sonho... Um sonho feliz...

-Você tem certeza Harry? –sussurrou Cho.
-Shhhhhhh –disse Harry pousando o indicador nos lábios da morena que corou ligeiramente. Rapidamente retirou o dedo de lá. McRosbeth atrás da mulher parecia não ter notado.
Os três estavam acocorados embaixo de duas torres brancas e compridas de dimensões enormes. Havia algo parecido com um lago artificial cercando o lugar e as paredes eram reforçadas por vidros resistentes. Na panorâmica havia também uma escultura familiar a um prato virado para o céu.
-Abaixem-se. –sussurrou Harry.
Os três deitaram-se na grama fresca e molhada do lugar. Por um momento Harry teve um alivio pelo calor. No momento seguinte o alivio passara. Sete Comensais da Morte protegidos por máscaras e mantos pareciam flutuar no campo do local.
Eles ainda tinham uma boa distância a cobrir para chegar ao grupo, além de atravessar o lago.
-Escutem. Cho eu quero você ao Leste –e como se todos os dedos se unissem ele apontou para o Leste. –McRosbeth você eu quero ao Oeste. –repetiu o ato que fizera para Cho. –Quando eu gritar AGORA vocês vão atirar basicamente tudo o quê sabem naqueles sete. Me entenderam?
Os dois concordaram e caminharam de quatro como bebês até suas posições. Harry arrastou-se para frente e viu que agora os Comensais não estavam nem a vinte metros de distância... Suspirou, o coração batendo freneticamente... Quinze metros... Dez metros... Eles pareciam querer fechar o cerco violentamente enquanto chegavam mais perto.
De um solavanco, Harry levantou-se e Cho e McRosbeth fizeram o mesmo.
-AGORA! –berrou.
Uma saraivada de jorros vermelhos irrompeu da varinha de vários. Harry desviou-se de um jato esverdeado. Mirou algum mascarado e berrou "Estupefaça!". O homem caiu imobilizado no chão.
McRosbeth fora atingido por algum feitiço nas pernas e dançava incontrolavelmente. Cho jazia alguns metros de distância, inconsciente. Seis Comensais da Morte avançavam mortalmente para ele. Amaldiçoou Cho e McRosbeth por lhe deixarem sozinho.
-Ótimo. –ironizou antes de se proteger de jatos que vieram de todas as direções.
-Rictusempra! –berrou e acertou em cheio um dos Comensais distraídos que ria de McRosbeth. O homem voou quase trinta metros longe basicamente voltando de onde estava alguns minutos atrás.
Um Comensal rosnou e berrou "Crucio!". Harry desviou-se do raio verde e aproveitou o Comensal boquiaberto para estuporar outro. Agora só restavam quatro que pareciam furiosos.
Um jato amarelado raspou na sua perna e um ferimento profundo se abriu na sua panturrilha. Gemeu de dor, mas continuou em pé. Um dos Comensais chegou perto de mais e ele o petrificou.
O tempo passava devagar enquanto ele duelava freneticamente com os três Comensais da Morte restantes. Um dos mascarados pronunciou errado um feitiço e o homem caiu de joelhos no chão, tremendo freneticamente. Devido a isso, a máscara caiu e um rosto bexiguento lhe encarou. A boca era deformada e com tantas cicatrizes, parecia estar sempre formando um sorriso. Os olhos insanos lhe encaravam com uma raiva incontrolável. Por fim, o homem levantou-se e pôs a mascara mais uma vez e quase lhe acertou um feitiço petrificante.
McRosbeth agora se dirigia para ajudá-lo mancando. Cho parecia começar a acordar e se retorcia do outro lado do vasto campo do local. Deu graças a Deus e por esse momento de distração, algo parecido com um bastão de ferro lhe atingiu o cocuruto. Xingou baixinho, enquanto parecia desnorteado pela força do impacto.
O Comensal mais a sua frente girou a varinha e berrou algum feitiço que na calada da noite Harry não entendeu. Não houve tempo para se proteger e o feitiço lhe atingiu o estômago. Teve a impressão de que agora voava a quase cinco metros do chão, o estômago embrulhado. Caiu com um baque surdo e o barulhinho de crack e a dor seguinte nas costas foram facilmente interpretadas por costelas quebradas. Deu para ouvir o rugido de raiva de McRosbeth, mas os Comensais não perceberam.
Alguns Comensais riram, enquanto chegavam mais perto.
-Sabe Potter. –começou um dos Comensais. Harry reconheceu imediatamente a voz do bruxo loiro e antipático que havia mandado a pouco tempo para Azkaban. Rothword continuou a rir enquanto se aproximava. –Dessa vez não há escapatória. São três contra um.
-Hm... Sabe Rothword? Eu acho que você não tem coragem pra fazer... –Harry desviou o olhar para McRosbeth e Cho que se aproximavam dos três sorrateiros. Teria que ganhar algum tempo ali.
-Acha? Que tal isso Potter? Crucio! –disse Rothword entre risos.
Tremeu como um epiléptico por algum tempo no chão, berrando de dor. Logo alguém veria que um homem estava sendo torturado no chão de um dos lugares mais imponentes de Brasília e obviamente chamaria a policia. Faltava pouco para McRosbeth e Cho alcançarem o grupo. Harry teve a ligeira impressão que McRosbeth tinha no momento um olho maior que o outro e um hematoma surgindo em quase todo o braço direito.
-Mais um pouco? –perguntou o homem presunçoso. –Crucio!
Harry tremeu mais uma vez, a varinha em sua mão estava apertada fortemente contra a carne já inchada. Vamos, mas o quê diabos McRosbeth e Cho estavam fazendo para demorar tanto? Ele precisava deles AGORA! Mais um pouco e iria provavelmente implorar para morrer como tantos outros que sofriam tal tortura. A panturrilha ardia tanto que Harry achou que iria vomitar.
-Quer mais Potter? –perguntou Rothword. –Espere um pouco, eu quero usar o feitiço que você usou quando me prendeu. Está bem Potter? Levicorpus!
No momento em que Harry pendurava-se ao ar por uma corda invisível alguém berrou "Expelliarmus". A varinha de Rothword voara de sua mão e no momento que o feitiço quebrou Harry caiu com um estrondo.
A varinha saltou alguns centímetros de distância e sentiu que não tinha mais forças para se levantar. Uma poça de sangue se formava embaixo de sua panturrilha e os nervos e músculos estavam tensos. As costas pareciam sedadas e não sentia nenhuma dor, mas tão pouco conseguia se levantar.
-Petrificus Totalus! –berrou Cho e errou por pouco um comensal.
Harry gemeu, procurando desesperadamente sua varinha. Queria participar da luta, mesmo não tendo quase nenhuma força. Não podia deixar Cho morrer, não, não podia... Um jato verde feio rápido na sua direção mas ele desviou-se habilmente. Um Comensal vinha seguindo Cho, mas a menina foi rápida o bastante para lançar Protego. Agora era fundamental, não podia tirar os olhos dela. Ela fez um movimento brusco, cortando a escuridão e o Comensal desviou-se do raio vermelho que veio a seu encontro. O seu coração já alcançava o pomo-de-adão e Harry tinha a varinha em punho, pronto para qualquer movimento contra Cho, os feitiços na ponta da língua e-
-AVADA KEDRAVA! –a voz pairou na noite.
Harry congelou procurando quem fizera aquilo a Cho. Mas ela estava bem. Em pé, acabando de imobilizar o Comensal. Então um suor frio escorreu pelas suas costas. Desviou o olhar de Cho e procurou McRosbeth que agora jazia morto ao chão.
O único Comensal que restara, Rothword, corria debilmente pela grama provocando ecos involuntários.
Não iria deixá-lo fugir. Mirou de longe as costas do rapaz enquanto Cho corria ao encontro de McRosbeth, aos prantos.
-Expelliarmus! –berrou, uma raiva incontrolável brotando do seu peito. Rothword se desviou a tempo de evitar o raio vermelho que quase se entrelaçou nas suas pernas. Harry tentou se apoiar e levantar para melhorar a mira, mas estava muito difícil até mesmo se locomover. Cho continuava chorando inutilizado no cadáver do marido. –Droga! EXPELLIARMUS!
Dessa vez o raio errou por pouco a varinha e derrubou o homem no chão. Sem hesitar, Rothword se arrastou tentando chegar ao começo do lago. Estava quase desaparatando, Harry não podia... Fora sua culpa... Ele deixara McRosbeth morrer... Ele cuidara de mais de Cho sem prestar atenção nos outros.
-EXPELLIARMUS! –berrou mais uma vez, dessa vez sem efeito. Rothword estava a quase vinte metros de distância. –IMPEDIMENTA!
O feitiço tirou um fino de Rothword, mas o homem pareceu não se importar. Harry apoiou as duas mãos no chão e jogou o corpo para cima. Pendeu sobre os dois pés por alguns minutos a dor espalhando-se em cada local do seu corpo. Mas ele não podia deixar o homem fugir.
-IMPEDIMENTA! –berrou de novo, sem efeito. –SECTUSEMPRA! –gritou, sem saber o que fazia.
Imediatamente uma rajada verde-amarelado saiu da sua varinha direto para a perna direita do homem. Por um momento a visão de Harry ficou emaranhado pelo o quê parecia uma bomba de sangue. Um grito veio da frente, provavelmente de Rothword.
Cho parou de chorar e encarou o acontecimento preocupada. Harry desabou no chão, sentindo o tornozelo se espatifar. Quando sua visão desembaraçou viu uma perna amputada ao chão e Rothword desaparecido.
-M--maldito. –gemeu Harry. Provavelmente o Sectusempra estourara várias artérias da perna e o desgraçado a amputara. –M-maldito. Mal-dito. Maldito-o. –a frase parecia estar em loop na sua cabeça.
Cho lhe abraçou e o ajudou a se sentar.
-Harry, você precisa de um médico. Agora. –disse ela, olhando desesperada para o homem e esquecendo-se do cadáver do marido.
-Não se p-preocupe... –gemeu Harry, asfixiando a cada palavra. As vértebras desviam estar encostando levemente em um dos pulmões. –C- - ho, v-você prec... –engasgou no próprio sangue que descia lentamente pelas vestes. De repente a cicatriz queimou tão forte que ele teve vontade de vomitar. –C- - ho... v-você preciss-as n-nos tirar... D-d-aqui.
Cho concordou rapidamente e buscou o cadáver de McRosbeth, pálido. Quando Cho estava a alguns metros de distancia vários barulhos foram ouvidos.
-Ah, n-não- gemeu Harry buscando a varinha.
Onze Comensais da Morte agora faziam um cerco entre ele e Cho, que corria em sua direção.
-Você estão todos mortos. –falou a voz arrastada. –Todos. –a voz arrastada de Draco Malfoy.

Gina debateu-se na sua cama, o suor lhe escorria. Levantou-se bruscamente a testa ardente. Retirou rapidamente os cobertores e levantou-se, hesitante. Desceu as escadas sem fazer o menor barulho um pouco depois de puxar a varinha.
Se seu sonho fora verdadeiro... Se ele estava mesmo ali...
Com um guincho entrou no quarto das crianças. Viu elas dormindo calmamente, como anjinhos. Respirou aliviada e desceu até a cozinha para servir-se de água.

Com um baque surdo, Rony, Simas e Hermione caíram de volta a Sala dos Aurores no Ministério, de onde haviam saído cerca de um dia atrás. Simas gemeu, procurando o resto do braço direito, que se diminuíra a um simples toco. O sangue respingava no tapete.
Para a sua surpresa a sala não estava vazia como imaginaram. Luna estava sentada ao chão, e pela primeira vez na vida, Hermione a viu aflita. Ernesto estava encolhido a um canto e chorava baixinho, o corpo morto de Alicia Spinnet estendido à sua frente. Jorge abraçava hesitante Susana que chorava desconsolada. No chão, o cadáver de Dênis repousava com uma expressão aterrorizada no rosto.
-Mas o quê diabos? –perguntou Rony, que ajudava Simas a se levantar. Simas parecia com muita dor para reparar na situação.
-Eles nos emboscaram. Eles sabiam. –respondeu sombriamente Ernesto. –Eles nos emboscaram, por que sabiam. Eles mataram.
Com quase uma explosão, Neville, Colin apareceram carregando Lilá inconsciente. Colin estava com um olho inchado e Neville com as roupas rasgadas, quase nu. Havia variados cortes nos rostos dos dois. Colin esfregou os olhos e berrou de ódio ao ver o irmão estendido morto ao chão. Correu e debruçou-se sobre o cadáver os fungos e as lágrimas audíveis.
-Ela está...? –começou Hermione, que chorava de aflito.
-Não. –respondeu agressivo Neville. –Não, não está. Não pode estar.
Foi então que Simas , entre um gemido e outra murmurou:
-E o Harry?
A sala silenciou-se. Ninguém havia pensado no Harry. Todos estavam ali, menos o Harry. E se a grande emboscada fosse... Harry?

Harry berrou de dor para a escuridão. Malfoy tinha uma varinha apontada para o seu peito. Os outros dez comensais riam.
-Você arrancou a perna do Rothword não é? –disse um dos Comensais encapuzados. –Vamos arrancar a dele também Malfoy.
-Cale-se seu traste inútil, Macnair. –guinchou Malfoy, enquanto acocorava-se para encarar Harry de perto. Cho estava desarmada e inutilizada por um dos Comensais.
Harry continuava com a varinha em punho, mas o corpo doía de mais para fazer qualquer coisa. A cicatriz lhe ardia tanto que ele podia jurar que o crânio afundava gradativamente.
-Crucio!
Harry guinchou de dor. Já era a quinta vez que recebia a maldita maldição. Sentia que seus nervos estavam tão contraídos e o cérebro tão apertado que seus olhos se apertaram. Ele só queria dormir... Uma boa noite de sono... Para nunca mais acordar...
-Você vai pedir Potter? –perguntou Malfoy, sorrindo para o homem. –Dessa vez eu vou fazer você pedir. Você me salvou uma vez, eu te deixei escapar outra. Mas dessa vez vai ser diferente. Eu quero ver você pedir para morrer.
-V-vai a m—erd-- a Mal-foy... –resmungou Harry, sentado. Sentia que a qualquer momento um trouxa iria reparar em tudo. E a policia chegaria. E ele não podia deixar aquela tragédia acontecer.
-Ah, Potter. –retrucou Malfoy. –Sabe eu queria ir direto ao ponto. Mas você pede né? Crucio!
Dessa vez Harry gritou tão alto que achou que tinha estourado as cordas vocais. Não pode se conter. A maldição parecia estar tentando penetrar o seu cérebro, querendo esmagá-lo. Ele queria morrer. Abandonar a dor. Mas não daria esse gostinho pra Malfoy.
-Você se lembra do que aconteceu aos Longbottom, Potter? –perguntou Malfoy, parecendo orgulhoso. –Vamos ver se você quebra o recorde deles?
Harry resmungou. Não tinha mais forças para retrucar nada.
-Crucio! –murmurou Malfoy.
Agora sim. Harry não agüentava mais. Berrou com todas as suas forças e as vértebras se contorceram de modo estranho. Dobrou o corpo tão forte que teve a impressão de que as pernas se quebraram. O sangue da panturrilha saiu em jatos quentes e ele cuspiu sangue pela boca. Os Comensais debruçaram-se de tanto rir. Ele queria azarar alguns deles, mas ele mal conseguia mover o braço.
-HARRY! –Cho gritou. Lágrimas escorriam pela sua bochecha. Os olhos acompanhavam McRosbeth ao chão e Harry destroçado por Malfoy.
-Ora Potter. Você está indo bem. Quem sabe mais uma?
-N-não... –resmungou Harry. As lágrimas escorriam pela sua bochecha, que parecia estar sujada de ferrugem. As vestes estavam molhadas pelo sangue quente. Agora normalmente não estava mais parecido com um trouxa. Harry encarou Cho que parecia desesperada. Como ele conseguiria garantir que ela fosse embora antes de Malfoy lhe matar. –M-mate-me... M-mas d--deixa e-la –Harry apontou como conseguia para Cho.
-Viva? –perguntou Malfoy. –Potter, sinceramente não pretendo matar nenhuma garota. Pretendo usá-la melhor.
Alguns Comensais riram, outros passaram os olhos por Cho como se ela fosse um produto.
Harry engasgou no próprio sangue. Pela segunda vez naquela noite a raiva lhe subia até o peito.
-M-Ma-lfoy... S-s-eu f-filho d-d –começou Harry. O cérebro se encolhia a cada palavra e ao final da frase ele já estava se sentindo tonto e pesaroso. –S-seu filh-o de um-a p—
Malfoy sorriu e socou Harry no momento que ele terminava a frase. O punho de Malfoy atingiu o seu joelho que imediatamente se partiu. Ótimo, mais um para a lista. Harry não berrou, só cerrou os olhos.
-Eu estou cansado de suas brincadeiras Potter. Eu quero ver as formigas entrarem na sua boca Potter. Avada Ked-
-EXPELLIARMUS!
A varinha de Malfoy voou longe e atingiu um dos Comensais da Morte no olho.
Harry reconheceu a voz de Hermione lhe chamando... Mas o escuro estava tão perto que ele podia agarrá-lo exatamente como fazia com o pomo-de-ouro... Era só fechar os olhos... E ele fechou... Então a dor passou... E a escuridão reinou no seu interior...