Capítulo 6 – Gotas de sangue escorrem pelo seu corpo (beba-me) e (coma o amor morto) suas lágrimas não caem – elas se cruzam ao meu redor.

I won´t let this build up inside me, I won´t let this build up inside me...

Harry sentiu o gosto de sangue coagulado na boca enquanto batia fortemente contra a cabeceira do sofá. Gemeu e abriu os olhos, respirando com um chiado provido do pulmão. As costelas estavam entrelaçadas erroneamente. Afinal, Hermione não era uma curandeira tão boa. Os olhos ardiam avermelhados e os dentes rangiam de raiva e frio repentino ao mesmo tempo. Se levantou de um estalo e encarou a sala dos aurores do Ministério da Magia. Hermione lhe olhou piedosamente por alguns minutos e passou a mão sobre o seu ombro para lhe ajudar. Harry encarou a sala: Neville estava sentado desolado ao chão, Luna lhe encarava desconfiada e Ernesto estava com o rosto coberto por uma mistura de fuligem, lágrimas e sangue. Harry imaginou que não poderia estar muito diferente.
-Onde estão os outros? –perguntou Harry, desconfiado. –Hermione, por favor não me diga que..
-Mortos Harry. –disse Neville com uma voz que Harry confundiu com um latido.
O pomo-de-adão subiu e desceu na garganta, violentamente, porém sem nenhum barulho. Caminhou em círculos, a mão entrelaçada no ralo cavanhaque. Se lembrou de Malfoy e os seus Comensais.
-E o filho da p*** do Malfoy? –arregaçou Harry, de imediato.
Rony chocou-se com o palavreado chulo e Hermione lhe fuzilou por alguns segundos.
-Harry, nós não temos muita certeza sobre o local que ele...
Um segundo lentíssimo pareceu passar enquanto Harry ouvia a explicação longa de Hermione. No outro instante um barulho desconcertante, parecendo com a explosão de uma segunda bomba atômica, chocou o local a ponto de Rony cair de joelhos no chão.
-Mas o quê diabos? –perguntou Harry, escancarando a porta. Uma fumaça esverdeada pairava no corredor e um vulto corria pra diabo no final do corredor. –HERMIONE NÃO ME DIGA QUE VOCÊ NÃO ESCONDEU OS RASTROS!
-É que...
Harry virou-se para dentro da sala enquanto evocava o grupo para seguir todos.
-POIS VOCÊ ACABOU DE NOS DELATAR! –Harry puxou a varinha e correu na direção do vulto que já havia desaparecido pelos corredores. Harry correu com todas as suas forças pelo o que pareceu uma eternidade – todos o seguindo, igualmente furiosos. O peito arfava de dor e os pulmões pareciam cortados ao meio, mas ele queria uma vingança tão grande... Ele queria matar Malfoy.
-CONFRINGO! – berrou o Comensal da Morte e Harry forçou os pés a derraparem com uma violência que deixou uma marca desenfreada no chão. A parede que lhe cobria a direita envergou-se poderosamente e explodiu ao que pareceu a Harry mil pedaçinhos.
Harry desviou a cabeça de três mas um bloco de porte pequeno lhe atingiu nas juntas do dedo médio e o esmagou. Harry sentiu a unha afundar na carne e uivou, o pulmão chiando perigosamente.
Hermione procurou Harry no meio da chuva de pedras e lhe puxou para um canto aonde os outros três estavam escondidos. Só agora Harry notou que por baixo da franja ruiva Rony tinha os olhos lacrimejados. Então ele percebeu que Jorge não havia aparecido. Ele percebeu que nem Cho e muito ao menos Simas estava ali. Neste exato momento eles estavam deitados, putréficos ao chão do Brasil. Ele percebeu que a m**** da missão havia falhado miseravelmente.
E então num ato que não repetia em quase dez anos, por baixo da fuligem nojenta que cobria o seu rosto e se protegendo de uma chuva de pedregulhos, Harry chorou. E pela dor que sentia por dentro, parecia estar chorando sangue. A amiga percebeu que Harry estava chorando, mas simplesmente continuou o abraçando.
As paredes continuavam desabando por sobre eles e o Comensal já estava a quase seis metros de distância. Harry se encolheu violentamente contra o chão, como uma casca vazia. Ele havia perdido montes de seus amigos. Eles estavam enterrados na frente de um palácio no Brasil. Quantas famílias ele havia destruído em apenas um dia? Quantas crianças sentiriam falta dos pais? Cho... Ele havia perdido Cho e ainda não havia esclarecido seus sentimentos sobre ela. Simas... Simas nem ao menos acreditava nele no passado... McRosbeth que Harry nem ao menos conhecia... Alicia Spinnet, sua companheira de Quadribol...
Perdido em pensamentos, Harry não reparou que ao invés de paredes caindo desgovernadas agora um silêncio constrangedor pairava no ar.
-Vamos pessoal. –Neville murmurou ajudando Luna a se levantar e entusiasmando os outros. Harry se pôs de pé sentindo-se mais limpo por dentro. Olhou para o corredor e percebeu que agora quase tudo estava demolido. A massa corrida das paredes escorria aquosa. A madeira que estruturava tudo plainava segurando fragilmente algumas sustentações. Paredes esmagavam o chão violentamente, formando pontes de pequeno porte. Harry percebeu de imediato o quê estava prestes a acontecer.
-CORRAM! –berrou, enquanto se esquivava de uma montanha de pedras. Escalou uma pedra que calculou ter dois metros enquanto os outros se desvencilhavam e pulavam pelos destroços. A madeira gemia perigosamente atrás deles. –VAMOS, VAMOS!
Harry pulou por alguns pedregulhos e pode enxergar o capuz preto do Comensal ao atravessar a porta do final do corredor que antes possuía pedras esverdeadas.
Rony deu um salto que quase estacou Harry nas pedras. Rony murmurou desculpas enquanto Harry corria deliberadamente agora que já havia passado dos pedregulhos, Rony atrás.
Quando chegou a um metro da porta, virou-se e para o seu horror percebeu que a madeira vergava quase em diagonal agora. E o pior: Luna ainda estava atravessando o começo dos pedregulhos.
Hermione trancou a respiração e Ernesto arregalou os olhos. A madeira estava se quebrando em todos os pontos vitais. Harry puxou a varinha e gritou "Reparo" mirando exatamente na madeira. O feitiço errou por pouco o ponto que queria atingir e acabou por reparar uma pedra quebrada. Luna pareceu perceber que tudo viria desabar e acelerou a corrida. "Reparo!", berrou novamente, e agora acertou a madeira que retingiu perigosamente. Mas era tarde demais, os outros tocos de madeira que seguravam as barras de parede do subterrâneo começaram a dobrar. Luna com um salto saiu dos pedregulhos e mergulhou na direção deles. Harry puxou a maçaneta com um solavanco e empurrou todos para dentro. Luna estava a dois metros de distância e ele só estava esperando por ela... A madeira pareceu retinir com o peso... Luna estava a um metro de distância... A madeira desabou e um estrondo ensurdecedor tudo desabou junto... Luna chegou e Harry empurrou Luna e entrou no mesmo segundo. As paredes do outro corredor desabaram com ferocidade e o barulho quase os enlouqueceu por alguns minutos. Harry estava com os olhos cerrados, o coração batendo fortemente contra o peito.
O seu pomo-de-adão subiu e desceu, porém sem nenhum barulho. A respiração entrecortada provocada pelos pulmões machucados o deixava quase sem fôlego.
-Harry... –Hermione murmurou, pousando a mão no seu ombro. Ela parecia assustada.
Harry abriu os olhos, os pensamentos quase se conectando com os de Hermione. Ele tinha certeza absoluta que quando abrisse os olhos veria o local que menos desejava ver naquele momento. O local aonde ele passara por muito sofrimento, o único local do Ministério que ele desejava nunca mais voltar.
Harry encarou a salinha circular com velas encantadas em todo o seu teto, refletindo a luz do local. A salinha era ocupada com uma única mesinha no canto, e uma dezena de portas presentes em todos os locais. Quando suspirou, a salinha moveu-se em sentido horário por cerca de um minuto.
Pensando em tudo que passara ali, se lembrou do nome do local: Departamento de Mistérios.

A manhã já nascia no horizonte quando Gina se acordou. O copo de água estava pousado sobre a mesa e a sua cabeça debruçada junto. Ouviu o rugir de pés ansiosos no andar de cima. As crianças haviam acordado.
Com um aceno de varinha, ovos fritos, bacon e outras iguarias se puseram a cozinhar sozinhas. Subiu as escadas correndo, pronta para ajudar as crianças a se vestirem.

Draco Malfoy aparatou no meio do que parecia um milharal. Plantas amareladas, que chegavam a quase o seu dobro de altura, se punham sobre todo o local. Mais parecia uma floresta. Se Draco não tivesse a ajuda da varinha, certamente se perderia.
Com um aceno rápido, fez o feitiço dos "Quatro-Pontos". Imediatamente, com uma luz azulada, o Norte se fez à sua frente. Pelo o quê vira no mapa o local ficava mais ou menos ao Leste. Seguiu sua caminhada, a luz do sol que agora se impunha lentamente, lhe ajudando. De vez em quando pousava a mão sobre a cabeça e fazia mais uma vez o feitiço dos "Quatro-Pontos". Sorriu desdenhoso quando viu que a densa plantação diminuía de tamanho lentamente para formar algo parecido com um jardim. Um gnomo estúpido dançou aos seus pés antes de ele lhe chutar quase cinco metros longe. O barulho engraçado que o gnomo fez ao cair o entusiasmou a caminhar mais rápido. Draco permitiu-se correr, e o Sol que agora já estava radiante de calor do meio-dia lhe deixou suado em alguns minutos. Sentiu vontade de retirar a camiseta para poder correr livre, mas não o fez. O suor escorria em gotas longas e cada vez mais o milharal parecia aparado.
Foi quase uma hora depois, com as mangas arregaçadas e o cabelo molhado de suor (com isso, arrebitado para cima) que viu a Casa dos Weasley. E o mais importante: Gina Weasley.

Harry fechou os olhos e abriu de novo, não acreditando que aquilo era possível. Não, só podia ser ironia do destino. O local que ele mais odiava no mundo era o local que aquele maldito resolvera se esconder. Se levantou do local aonde havia se escorado ao mesmo tempo que as paredes se moviam rapidamente.
-É o único jeito. –contemplou Harry para os olhinhos aguçados. Neville parecia estar acordando de um sonho e Luna viajava por seus pensamentos em silêncio. Rony abraçava Hermione em um canto. Hermione tinha os olhos lacrimejados. Ernesto estalava os dedos, encostado em um canto. –Hermione você leva os outros para um local seguro e eu sigo em diante.
-Faça isso meu amor. –disse Rony carinhosamente.
-Você irá também Rony. –falou Harry, a garganta seca. Sentiu pena ao falar isso e ver o rosto espantado do amigo.
-Você certamente não espera que iremos voltar em paz, espera? –perguntou Ernesto. Era a primeira vez que Harry via o homem falar desde que se acordou na sala. Ernesto se levantou, o rosto vermelho como um pimentão. –Você não espera certo? Você não espera, certo? CERTO? – De repente seu tom de voz educado mudou para agressivo e sonoramente doloroso. –CERTO? PORQUÊ SE ACHA QUE VOLTAREMOS COM O RABO ENTRE AS PERNAS ESTÁ MUITO ENGANADO! –Ernesto se aproximou perigosamente e o agarrou pelas golas da roupa suja. – VOLTAREMOS EM PAZ O CACETE, DROGA! VOCÊ NÃO SABE NÃO É? É PORQUE NÃO FOI VOCÊ QUE PERDEU UM AMOR NÃO É? NÃO FOI VOCÊ QUE VIU A DROGA DO SEU AMOR EXPLODIR NA SUA FRENTE! – Dessa vez Ernesto lhe largou no chão e lhe acertou um nervoso soco no maxilar. Harry não protestou. Simplesmente deitou-se ao chão com um baque e violência. Rony empurrou Ernesto violentamente para trás, antes de Harry ver que o homem chorava ferozmente. Neville não moveu um músculo para ajudar Rony apenas encarou Harry com desprezo.
-Por favor... Só vão embora... –murmurou Harry, enquanto se apoiava com os cotovelos e cuspia o sangue coagulado na sua boca. –Vão embora...
-EU NÃO VOU SAIR POR ESSA m**** DE PORTA! –gritou Ernesto enquanto esmurrava o ar e tentava afastar Rony. –EU VOU MATAR AQUELES DESGRAÇADOS! OS DESGRAÇADOS QUE MATARAM ANGELINA!
Harry sentiu os olhos lacrimejarem enquanto se apoiava e a parede girava perigosamente.
-Vocês vão todos sair. Todos irão sair. Essa missão já não é mais de vocês. Nós já perdemos muito. –murmurou Harry, enquanto Neville olhava para baixo e Luna lhe encarava seriamente, ao que Harry notou ser anormal. –E não quero provocar mais perdas.
Ernesto pareceu se acalmar em um canto e Rony parou de empurrar o homem contra o parede.
-Agora saiam daqui de uma vez, antes que eu perca o encalço dos desgraçados. –falou, secamente.
Por um momento de descontração Harry achou que finalmente teria tudo em controle. Os segundos giravam no relógio devagar... Ele achou que estariam esvaziando a sala agora... Mas não estavam... Quando prestou atenção ao redor, Ernesto se atirava na sua direção e agora ele estava atravessando uma porta e...

Malfoy puxou a varinha e entrou sorrateiramente no local previsto. Nunca havia estado ali e para ele o local não passava de um chiqueiro. Uma cozinha miúda e tapetes maltrapilhos. E claro, o fedor desconcertante de sangue-ruim. E ali estava ela, sentada em uma mesa lendo um jornal escrúpulo.
Era só um gesto de varinha e o cadáver da ruiva já estaria no chão. Mas ele se sentiria tão... Tão cafajeste se fizesse aquilo... Seria como brigar com uma mulher.
Pisou, de propósito, com força no chão. O estrépito assustou a mulher que levantou a varinha. Arregalou os olhos para o homem que lhe encarava enquanto olhava desesperada para escada. As crianças deviam estar lá. Mas ele não faria mal as crianças. As crianças.
Harry sentiu o sangue quente no cocuruto da cabeça enquanto ele atravessava a porta em alta velocidade. Ernesto continuava a lhe empurrar enquanto ele escorregava pelos frios degraus de pedra. Suas costas estavam arranhadas e não conseguia respirar devido aos machucados no pulmão. Mas ele continuava descendo, pelo o quê pareceu uma eternidade, a escadaria.
Não se atrevia a olhar para trás, mas viu pelos olhos furiosos de Ernesto que ele transparecia medo. Ouviu os gemidos de Hermione, o berro furioso de Rony, mas não entendia porque tudo aquilo. Era só outra sala. Não era?
Não era. Harry sentiu o seu corpo rígido ser perpassado por algo parecido com um pudim. Um solavanco no seu umbigo o puxou. Então Harry percebeu que com uma mão ainda arrastava Ernesto, no momento apavorado.
Harry caiu com um estrondo. As costas recém remendadas pareciam flutuar ao chão. Harry teve que apertar os olhos para poder enxergar. O céu estava esbranquiçado fora do normal. Então ele reparou que não havia céu... Era só... Era só um vazio.
Harry recuperou a audição que havia perdido segundos atrás e percebeu que Ernesto gemia, assustado.
-Quer fazer o favor de parar de gemer? –perguntou Harry, enquanto encarava os locais ao redor. –Nós perdemos o Malfoy seu idiota.
A sua voz estava retomando o tom irritado. Mas Ernesto não reparou. Ele apontou para o local exato aonde Harry não podia enxergar. Harry sentou-se ao chão e virou-se bem a tempo de ver uma cabeleira negra surgir ao horizonte esbranquiçado. Abriu a boca, se lembrando do passado enquanto o homem troncudo e cheio de cicatrizes aparecia. Um meio sorriso planava na boca do homem que antes fora seu padrinho. Sirius Black.