Praticamente um ménage a trois

I've been roaming around
Always looking down at all I see
Painted faces, build the places I can't reach

Ela não era chegada em bebida alcoólica. Foram raras às vezes em que ela se deixou levar por uma ou duas taças de vinho, mas nunca, nem de longe, ela passou por uma ressaca como aquela. O mundo estava rodando muito mais do que deveria, a cabeça parecia que ia estourar, o estomago dava voltas homéricas e tudo o que Shina queria era botar o fígado pra fora.

Abriu os olhos com cuidado. O quarto era escuro, a cama macia e o silêncio abençoado. Tudo em seu devido lugar, menos ela. Não estava em seu quarto, não sabia que lugar era aquele e, a julgar pela ressaca, nem sabia se queria lembrar.

Ela não tinha cabeça nem pra entrar em pânico. Virou-se na cama. Antes não tivesse esta infeliz idéia. Milo de Escorpião estava deitado ao lado dela, com o tronco nu enquanto o cobertor o cobria da cintura pra baixo, encarando o teto como se fosse a coisa mais interessante do mundo.

Shina tentou se afastar dele, mas assim que tentou levantar da cama sentiu uma pontada dolorosa na cabeça. Nada de movimentos bruscos. Seu estomago precisou de alguns segundos para se acalmar.

- Se eu fosse você, ficaria deitado mais um pouco. – ele disse manso – Não se sentiria tão mal se bebesse vinho com mais freqüência, mas você sempre passa por esta faze politicamente correta.

- Por quanto tempo eu dormi? – ela disse sonolenta.

- Dois dias. – ele se virou para ela – Acho que exagerei um pouco na dose.

- Dá pra dizer por que raios você me dopou?! – a mínima exaltação fez a cabeça dela estourar – Aí! Minha cabeça!

- Imaginei que não concordaria com meu plano de voltar a Naxos e tentaria ser irritantemente arredia quando eu tentasse uma conversa civilizada. – ele sorriu – Os fins sempre justificam os meios, minha cara.

- Vai se arrepender por isso. – ela disse segura – Sou uma amazona de Athena. Logo virão procurar por mim e você será morto na melhor das hipóteses. – ela disse sombria.

- Correção, querida. – ele sorriu – Você era uma amazona de Athena. Não é mais. – a voz dele era indulgente – Você não é mais responsabilidade de Athena e, mesmo que algum pupilo seu tente, não poderá tirá-la daqui.

- Você não pode manter uma pessoa em cárcere privado. – ela tentou argumentar, mas tanta discussão só estava fazendo sua cabeça doer ainda mais.

- Por que eu não poderia manter minha esposa em minha própria casa? – ele questionou como se fosse algo óbvio.

- Acho que você está louco. – ela se sentou na cama, de costas para ele – Não sou sua esposa, Milo de Escorpião. – em segundos ele estava junto dela, deslizando suas mãos pelos ombros expostos.

- Não seja tão severa com o garoto. – ele sussurrou – Milo tem uma parcela ínfima de culpa nesta história. Só estou usando o corpo dele emprestado. Se quer culpar alguém, culpe a mim, Dionísio.

- Faz-me rir! Você não é um deus.

- Eu sou, você sabe disso. Sentiu o poder do meu cosmo quando eu a ataquei, não tentou fugir na noite do labirinto. Parte de você sabia quem eu era, Ariadne. – ela sentiu um arrepio percorrer a espinha.

- Meu nome é Shina, amazona de prata da constelação de Serpente. – ela respondeu convicta.

- Tanto faz. Não me importo com seu nome nesta vida, ou seus títulos. Você sempre será Ariadne, minha esposa. – ele se levantou da cama, revelando o corpo totalmente nu. Shina desviou o rosto, desconsertada, enquanto ele caminhava até uma pequena mesa e se servia de uma taça de vinho. Dionísio sorriu. – Pode olhar o quanto quiser. É parte do pacote.

- Vista alguma coisa, por favor. – ela pediu.

- Por que? – ele a encarou com interesse – Não há nada aqui que nunca tenha visto. – ela se recusou a responder. Parecia uma criança. – Como está sua cabeça?

- Ainda dói. – ela respondeu secamente. Ele caminhou até ela e lhe estendeu uma taça de vinho.

- Beba. – ele disse. - Vai se sentir melhor.

- Eu já estou de ressaca. Tudo o que eu não preciso é de mais vinho. – ela disse sem encará-lo.

- Confie em mim. Você vai melhorar assim que a taça estiver vazia. – ele disse paciente enquanto ela aceitava a taça e a esvaziava de um só gole. – Muito bem. – ele sorriu. Como por milagre a cabeça parou de doer e o estomago se acalmou. – Não foi tão ruim assim, foi?

- Poupe-me do sarcasmo. – ela disse mal humorada.

- Pelo menos sei que você não está grávida. – ele deu de ombros – Se estivesse esperando um filho meu teria me implorado pela garrafa inteira.

You know that I could use somebody
You know that I could use somebody

Ele deixou o quarto assim que vestiu uma túnica longa, muito parecida com aquelas que ela havia visto Hades, Apólo e Abel usando. A solidão deu a ela uma chance de organizar as idéias. Sabia que ele voltaria cedo ou tarde e, se tratando de Dionísio, eventualmente exigiria algo mais dela.

Era ridículo. Ela não era nem nunca seria Ariadne. Tudo o que Shina era se resumia a sua condição de amazona de Athena, seu dever para com a deusa e o santuário. Ela amava o que fazia e tão somente isso. Nunca conheceu uma vida em que essas coisas não existissem e aparentemente Dionísio não estava disposto a permitir que ela continuasse com seus hábitos. De uma coisa ela estava certa, precisava fugir o quanto antes.

Fugir era tudo o que ela queria, mas se fizesse isso acabaria colocando o Santuário em perigo. Pelo que ela sabia os deuses não gostavam de ser contrariados. Mais uma guerra, com todos os desfalques que já haviam ocorrido, o mais provável é que os cavaleiros restantes não dessem conta do recado.

Ela se jogou na cama mais uma vez e ficou encarando o teto. Estava perdida e não tinha chances de se livrar daquela situação. Pior que isso, agora ela se dava conta do quão solitária era sua vida dês da morte de seu pupilo, Cassius. Ninguém mais arriscaria o pescoço por ela, até mesmo Athena a havia abandonado...

Ótimo. Finalmente Dionísio resolveu dar um descanso e permitir que Milo recobrasse o controle do próprio corpo. A vida era uma droga mesmo. Em um momento você se julga o todo poderoso por ser dono do próprio nariz e ai aparece um deus pirracento e mimado se apossando da sua vida como se fosse um objeto. Milo estava com vontade de mandar o Senhor Rei dos Barris de Vinho pro inferno.

E ainda tinha a amazona. Onde aquele louco estava com a cabeça quando simplesmente a nocauteou e raptou de dentro do Santuário?! Milo sabia exatamente onde ele estava com a cabeça, mas não era hora pra pensar nisso, ele tinha coisas mais importantes pra ocupar a cabeça.

Uma coisa é você ser refém de alguém poderoso, outra bem diferente é ser refém de você mesmo. No caso dele a coisa era bem complicada. Já não sabia mais se seus gostos, suas manias e seus hábitos eram coisas inerentes à personalidade dele, ou se eram mero reflexo da existência de Dionísio. Ele não confiava em ninguém, principalmente nele mesmo.

Essa história, de ter que ceder seu corpo para que o deus da farra aproveitasse a vida com a mulher, era ridícula. Na prática, aquilo era um ménage a trois muito bizarro. Ele se sentia quase um vouyerista por estar sempre ali, de olho no que os dois estavam fazendo. Ele via, ouvia e sentia tudo, e mesmo assim não era ele, Milo nem mesmo queria um envolvimento, mas estava lá do mesmo jeito.

Não que Shina fosse feia, ou não provocasse desejo nele. Os deuses são testemunha de que a metade heterossexual do Santuário já havia fantasiado várias vezes a respeito dela. Não tinha um único homem naquele lugar que nunca tivesse se perguntado "O que existe de baixo da armadura?" Ele mesmo assumia sua culpa e quando as máscaras foram abolidas a coisa ficou ainda mais séria. Todo dia algum marmanjo fazia um comentário indecoroso a respeito do que seria capaz com uma mulher daquelas.

Ele não gostava dos comentários na época e não gostava hoje. Tinha medo de que Dionísio já estivesse tão ligado a ele que um não passava de uma extensão do outro. Um bom exemplo disso era Seiya. Ele simplesmente tinha uma antipatia gratuita pelo garoto, ao ponto de ficar muito feliz toda vez que ele tomava uma surra de alguém.

Mas o bem dito cavaleiro de bronze nunca apanhava o bastante pra ganhar uma passagem só de ida pro Hades. Por um acaso o moleque era um deus e ninguém sabia? Era irritante ver um frangote que vivia rodeado por mulheres bonitas, o que incluía Shina e a própria Athena, nunca perdia uma batalha, nunca crescia e nunca aproveitava as atenções de nenhuma beldade! Era simplesmente ILÓGICO! Depois disso ele tinha certeza de que Zeus não dava asa a escorpião.

Milo nunca teve qualquer inclinação a um relacionamento sério com qualquer mulher que fosse, mas era cuidadoso com aquelas que considerava especiais. Shina entrava para esta seleta lista de um jeito incerto. Ele não queria nada com ela, eles se ignoravam dentro do Santuário, ele tinha até um pouco de medo daquela mulher extremamente passional, mas decididamente sentia ciúmes quando alguém se insinuava para ela.

Someone like you, and all you know, and how you speak
Countless lovers under cover of the street

Ele agora não sentia nada por ela além de pena e este não é um sentimento nobre quando se trata de alguém que já ostentou uma poderosa armadura. Shina tinha tantas escolhas e opções quanto ele, se não fosse pior. Milo sabia exatamente o que se passava na mente torpe de Dionísio e sabia que a amazona não aceitaria de forma alguma.

Deuses não são criaturas pacientes, muito menos dados à misericórdia e tolerância. Dionísio não pensaria duas vezes antes de forçá-la outra vez. Seu estomago revirava só de pensar na hipótese. Milo podia ser muita coisa, mas não era um covarde ao ponto de abusar de uma mulher, ainda mais uma mulher que passou pelas mesmas provações que ele em campo de batalha.

Dionísio o enojava de uma maneira indescritível, mas uma coisa ele não podia negar. Deus ou não, ele amou a mulher que agora ele buscava. Ariadne foi e sempre seria a única pessoa capaz de transformar a vida dele.

Milo tinha acesso à maior parte das memórias de Dionísio e as melhores sempre estavam povoadas por risos, cantos e carinhos de Ariadne. Quando ele a viu pela primeira vez ela estava sentada na areia encarando o mar com desespero e dor. Seus olhos vermelhos já não derramavam mais lágrimas e ela estava exausta de tanto chorar. Ela havia sido abandonada em uma ilha estranha, deixada para trás pelo homem que ela amava e confiava. Ela salvou a vida de Teseu e o ajudou a sair do labirinto de Minos, como retribuição ela recebeu o abandono.

A despeito da primeira impressão, Dionísio não pode evitar o fato de que ela era uma mulher de beleza rara. Além disso ela era uma jovem dedicada aquilo que amava, responsável, um pouco arredia e não demorou para que ele sentisse a necessidade de tê-la por completo.

Ela o desejou também. Diante da falta de sorte e da solidão, um deus de beleza única, cercando-a de cuidados e atenção era muito mais do que o que ela poderia resistir. Ela tinha seus brios, manteve-se casta por um tempo muito maior do que o que ele gostaria, mas eles acabaram se casando e Dionísio nunca mais tomou outra esposa.

De tudo o que passou no decorrer da eternidade, a única coisa que Dionísio lamentava era não ter conseguido a imortalidade para Ariadne. Ela viveu pouco, morreu conservando toda glória e toda beleza da juventude. Ele nunca superou a experiência da morte, ele nunca entendeu o por que da fragilidade dos humanos e buscou nos prazeres mundanos a resposta. Ele chegou a pedir a intercessão de Zeus no assunto, mas diferente do que acontecera com sua mãe, Zeus não viu a necessidade de conceder à Ariadne a imortalidade.

Depois disso ele viveu de prazer em prazer, aproveitando a eternidade rodeado por mulheres e toda bebida que conseguisse. E toda vez que ele despertava era de Ariadne que lembrava. Acabou decidindo procurar por ela toda vez que ela reencarnasse, repetindo a mesma sina ao longo dos anos.

Milo até poderia sentir alguma simpatia por Dionísio se não conhecesse a versão completa da história. Quantas mulheres ele tomou a força, embebedou e possuiu num altar erguido em honra a ele, em meio aos famosos bacanais. Milo também sabia que foi Dionísio o responsável por Ariadne ter sido abandonada por Teseu. Foi ele quem convenceu o herói a deixá-la em Naxos, tudo porque ele já estava interessado na princesa de Creta.

Ele estava disposto a fazer o mesmo com Shina e, mesmo que quisesse, Milo não podia ajudá-la a se livrar do problema. Ao mesmo tempo em que se via de pés e mãos atadas, ele sentia-se ainda pior por estar sendo arrastado para esta trama sórdida. Devia a Shina explicações, ou no mínimo um pedido de desculpas por erros que não eram seus em sua maior parte. Decidiu procurá-la.

You know that I could use somebody
You know that I could use somebody
Someone like you

Ela já havia se servido de uma mesa cheia de frutas, pães, sucos e queijos. Estava devidamente vestida, respirando, caminhando, tentando não pensar em nada que não fosse estritamente essencial. Fugir de um deus era burrice, quando o deus em questão usava o corpo de um cavaleiro de ouro era pior ainda.

Deu graças por ele ter sumido por toda manhã. Não fazia idéia de onde Dionísio estava e nem queria saber. Quando ele estivesse de volta não tinha dúvidas do que ele iria querer, não tinha dúvidas de que seria algo degradante para uma amazona.

Ela se jogou de braços abertos na cama e ficou encarando o teto. Por mais que o lugar fosse grande ela se sentia claustrofóbica e precisava andar um pouco para espairecer. Ainda que quisesse, não conseguiria sair da propriedade de qualquer jeito.

Havia um grande terraço com uma vista estonteante para o mar. Ela reconhecia o lugar como a mansão onde ficava o labirinto. Havia partes da construção que ela reconhecia como sendo do período clássico da Grécia, como se o lugar tivesse reaproveitado ruínas antigas para edificar aquela mansão. O lugar era bem isolado, provavelmente não havia uma viva alma no raio de um quilômetro, no mínimo.

O terraço era amplo e estava ensolarado, enquanto a vista para o mar era estonteante. A sensação é que a casa estava quase dentro do mar de um azul impecável. O vento soprava gentil. Aquele lugar tinha tudo para ser um paraíso. Quis se bater pelo ultimo pensamento. Ela devia estar revoltada por estar naquele lugar e não admirando a paisagem.

Acabou se distraindo com a vista e não notou a aproximação dele.

- Finalmente te achei. – a voz impaciente disse e ela se sobressaltou ao dar de cara com o rosto de Milo, ou seria Dionísio.

- O que você quer? – ela perguntou se colocando em posição defensiva. Milo manteve o rosto sereno, sabia que estava em um campo minado e tudo o que não precisava era de uma amazona histérica.

- Calma, amazona. Desta vez é Milo de Escorpião quem está no comando. – ele disse sério e aos poucos ela relaxou. – Estava procurando você a algum tempo, mas você sumiu.

- Estava querendo o que? Queria que eu esperasse pacientemente no quarto até ser atacada por um deus depravado outra vez? – ela questionou ácida. Ele riu.

- Pelo menos seu temperamento continua o mesmo. Terrivelmente lendário. – ele disse rindo – Como você consegue?

- O que? – ela arqueou a sobrancelha sem entender.

- Manter a cabeça no lugar com tudo isso? – ele questionou calmo – Você não deu escândalo, não tentou atacar o infeliz e também não tentou me atacar agora a pouco. Suponho que a minha cara tenha se tornado algo bem desagradável de encarar depois dos últimos dias. Não sei como você consegue ser você mesma.

- E vai adiantar alguma coisa me desesperar e sair por ai atacando tudo e todos? A menos que eu esteja muito enganada estamos falando de um deus no corpo de um cavaleiro de ouro. – ela disse impaciente – Eu posso ter um gênio do cão, mas não sou suicida. Isso não quer dizer que eu estou gostando da idéia.

- Tive a ligeira impressão de que você gostou da noite no labirinto. – Milo não resistiu à provocação. Shina rangeu os dentes.

- Não sei se você notou, mas eu não tive tempo de escapar. – ela disse. Ele sorriu.

- Nem dá pra te culpar por isso. Você ficou dopada no primeiro beijo. – Milo disse simplesmente – Considere este um dos poderes dele. Toda vez que ele beija uma mulher, toda vez que ele está com uma mulher, ele provoca esse efeito. Parece que litros de vinho estão circulando em suas veias e a pessoa fica tão tonta que é muito comum algumas desmaiarem, como aconteceu com você.

- Eu achei que estava ficando louca. – ela disse.

- Não estava. O cara não é o deus dos prazeres mundanos à toa. – ele deu de ombros.

- Por que você está aqui, falando comigo? – ela o encarou com seus olhos intensos – Nós nunca nos demos ao trabalho de trocar meia dúzia de palavras todos estes anos e agora você está aqui, falando comigo, enquanto há o espírito de um deus prestes a tomar o controle do seu corpo só pra me arrastar pra cama.

- Pense o que quiser, mas eu não me sinto nem um pouco confortável com a idéia de conviver com você sabendo de tudo o que aconteceu. – ele disse tenso – Eu não sou dado a este tipo de coisa, então dê-se por satisfeita. Eu estou envergonhado por tudo o que aconteceu e de certa forma me sinto responsável por você. O que eu estou tentando fazer é...

- Pedir desculpas? – ela arriscou.

- É. Isso mesmo. – ele disse a contra gosto.

Off in the night, while you live it up, I'm off to sleep
Waging wars to shape the poet and the beat
I hope it's gonna make you notice
I hope it's gonna make you notice

- Pedidos de desculpas implicam em falta anterior. O que aconteceu no labirinto foi culpa sua? – ela arqueou a sobrancelha e ele sentiu uma gota de suor escorrer por suas têmporas.

- Eu... – ele perdeu a fala por um segundo – Digamos que eu não resisti tanto quanto eu podia.

- Está admitindo que foi conivente com tudo?! – ela estava furiosa. Ele se sentiu alarmado.

- Não! – ele respondeu – Estou admitindo que minha força de vontade tem limites! Eu não sou de ferro e as suas pernas são uma tentação e tanto! Eu sou um cavaleiro, não um santo!

- Você é um grande cafajeste! – ela resmungou dando as costas pra ele – É exatamente como ele!

- Não diga isso! – agora quem estava furioso era ele – Eu tentei! Juro que tentei, mas foi de mais pra mim! Qualquer cavaleiro teria cedido só pelo fato de ser você, a amazona de Serpente! Tem idéia do quanto você meche com a cabeça daquele bando de marmanjos? Por isso, não me culpe!

- Inacreditável! – ela continuou caminhando furiosa. Milo correu até ela e a segurou com cuidado pelo braço.

- Espera! – ele disse num tom de súplica – Eu não quis ofender, mas acabei metendo os pés pelas mãos. Shina, eu sinto muito. Eu só estou tentando ser gentil com você por tabela aliviar um pouco do peso da minha consciência.

- Faça um favor a você mesmo. Pare de tentar e se conforme. Não temos como lidar com isso de qualquer jeito. – ela resmungou.

- Quando foi que você se tornou tão conformada com a vida? – ele questionou irritado.

- Quando eu me dei conta de que eu estou cansada de nadar e morrer na praia. Não tenho como evitar, tenho? Primeiro uma máscara no meio do caminho para a glória, depois Seiya e toda desgraça que ele representou na minha vida, a morte de Cassius, uma coisa trás da outra e tudo o que eu consegui lutando foi parar nesta ilha, sozinha. – ela nunca disse aquelas coisas ninguém, mas limites existem. Ela não agüentava mais.

Milo não sabia o que dizer. Talvez devesse admitir que ela tinha razão. Shina não precisava da piedade de ninguém, aliás, ela estava aceitando as coisas muito melhor do que ele. Ela estava resignada com qualquer que fosse o destino dela. Aquela mulher era uma muralha.

- Eu sinto muito. – Milo disse sem graça – Eu só não queria ter de me sentir sozinho também. Já que estamos sendo sinceros, eu teria adorado aquela noite no labirinto, se eu não tivesse qualquer respeito por você.

- O que quer dizer? – ela se virou para encará-lo mais uma vez.

- Que eu devia ter pensado em te seduzir a um bom tempo. – ele disse entre dentes.

- O que ele pensa de você me dizer esse tipo de coisa? – ela disse incrédula.

- Ele não gosta nem um pouco da idéia de dividir você, nem que seja comigo. – ele disse sorrindo.

- Como se você representasse alguma concorrência. – ela debochou. Aquilo era um insulto ao orgulho dele e Milo não aceitava levar desaforo pra casa.

- E quem disse que eu não sou? – com um puxão brusco pelo braço ele a trouxe para si e sem aviso calou a boca dela com um beijo.

Someone like me
Someone like me
Someone like me, somebody

Someone like you, somebody
Someone like you, somebody
Someone like you, somebody

Não era a mesma sensação de beijar Dionísio. Era novo, era totalmente diferente. Milo não a deixava tonta, não a fazia perder a consciência. Ela estava totalmente lúcida e ainda assim não quis afastá-lo, simplesmente porque era uma sensação ótima. Ela se sentia amparada, de alguma forma, pelo mais improvável dos cavaleiros.

O beijo era intenso, provocativo, excitante. Infelizmente ela ainda era humana e ar era algo indispensável à sobrevivência. Eles se afastaram e o que ela viu nos olhos de dele a assustou. Milo lançou a ela um sorriso maldoso.

- Este cavaleiro está me saindo um traiçoeiro de primeira categoria. – a voz mansa e sedutora falou junto ao ouvido dela – Não gosto de competições, principalmente envolvendo você. Também não gosto da idéia de você corresponder a um beijo de Milo de Escorpião, enquanto eu estou aqui, ávido para tê-la outra vez, Ariadne.

I've been roaming around,
Always looking down at all I see

Nota da autora: Eu tava querendo mais um hentai neste capítulo, mas ai eu empolguei escrevendo e cheguei à conclusão de que não ia encaixar direito. O título deste ficou bem curioso, mas se pararem pra pensar ela estava com os dois no labirinto XP. Dionísio é um ser feliz que não tem problemas em sair por ai andando peladão, então não se espantem se ele aparecer fazendo exibição de sua figura. Milo sente atração pela Shina, obviamente, mas ele não é o tipo de pessoa que sai por ai se apaixonando ou dizendo "Eu te amo" sem sofrer um bocado antes. A Shina está se sentindo sozinha, perdida e carente, então quem for gentil primeiro leva. Coisa que Dionísio e Milo têm em comum, além do corpo e do gosto por mulheres bonitas e uma boa bebida, é que ambos ODEIAM Seiya.

Espero que gostem e comentem.

Bjux

Bee