.a prophet's dream.

Foi inútil a Roxas reclamar, e mesmo sendo um trajeto curto até o apartamento, pareceu a ele muito mais longo devido ao silêncio entre os dois e a chuva torrencial que os encharcava terrivelmente.

O adolescente tremia de frio quando o ruivo finalmente o colocou de volta ao chão, em frente a um edifício popular, e começava a procurar por suas chaves no interior de um dos bolsos. Roxas sentia-se completamente congelado e piadas mórbidas sobre acabar virando um Sea-Salt Ice Cream não paravam de irromper em sua mente. Se bem, que, considerando a situação na qual o outro o encontrara, este seria mesmo seu destino...

"Pronto. Vamos lá."

Não era um dos apartamentos mais confortáveis ou mais arrumados. Na verdade, Roxas acreditava já ter visto banheiros públicos mais asseados que a casa do ruivo, incluindo nessa conta até o do ginásio da escola. Axel jogou as chaves em uma mesinha e adentrou o corredor.

"Eu devo estar louco." Roxas murmurou para si mesmo, passando uma mão pelos cabelos molhados. Era uma verdadeira novela a qual vivia. Praticamente fora seqüestrado por um ruivo que nunca havia visto na vida e já estava em sua casa, como se fosse uma virgem bêbada a qual o outro havia prometido amor eterno só para deitar-se com ela.

Ou seja, ele estava numa péssima situação.

"Isso explica muita coisa, sabia?" O ruivo respondeu inesperadamente, surpreendendo Roxas ao voltar com duas toalhas felpudas nas duas mãos. O destino da primeira foi secar os fios carmesins, enquanto Axel estendia a outra para o adolescente.

"Do que você sabe?" Ele resmungou, aceitando a gentileza. Axel sorriu.

"Não muito, verdade..." Era a primeira vez que Roxas notava os olhos incrivelmente verdes do outro. O tom o fazia lembrar da grama primaveril dos dias alegres infantis, mas o olhar que o ruivo lhe oferecia trazia-lhe lembranças aterradoras demais para que os orbes celestes conseguissem continuar a fitá-lo.

O silêncio de Roxas e seu conseguinte abaixar de cabeça pareceu encerrar aquele assunto, então restou apenas a Axel suspirar e prosseguir com o que tinha a dizer. "O banheiro é virando à esquerda, a primeira porta. Se você me der suas roupas eu posso colocá-las para secar e..."

"C-Como assim?" Ele perguntou, um rubor virginal espalhando-se por sua face, para o divertimento do ruivo.

"Quê...? Para tomar banho, oras! Não se preocupe, o banheiro tem tranca... Ah, eu devia ter pegado algumas roupas para você usar, não é...? Vai indo que eu já volto!" Axel exclamou.

"Espera...!" Ele pediu, mas o outro já havia deixado o hall de entrada, novamente adentrando os aposentos escuros.

Deixado sem outra opção, Roxas seguiu pelo caminho indicado, observando timidamente o apartamento do outro. Embora parecesse ser bem espaçoso, trazia consigo um ar de desorganização e praticidade que somente o lar de um homem solteiro exalava. Era bem modesto para os padrões os quais o loiro estava acostumado, mas ainda assim era único. Ele ainda não descobrira o que tornava aquela casa especial, mas talvez fosse este o sentimento que impedia-lhe de a razão de funcionar corretamente e não o deixava sequer cogitar fugir de lá ou gritar por socorro.

No final, talvez ele fosse apenas realmente masoquista e desejasse uma morte realmente dolorosa (afinal, Roxas já cogitara a possibilidade do outro ser um psicopata serial killer, ou o mais provável, um estuprador pedófilo...!).

O banheiro do ruivo refletia mais ainda o espírito da casa. Pintado em tons neutros, o aposento parecia sofrer da mesma falta de arrumação lógica. Embora, ao abrir o pequeno armário espelhado, o adolescente pudesse ver alguma ordem entre os remédios e aparelhos de barbear, roupas sujas podiam se encontrar amontoadas no cesto de roupas ou próximo a ele. A própria toalha do dono da casa, em um tom absurdamente chamativo de vermelho, estava largada de qualquer jeito sobre a porta do boxe. Bem, Roxas pensou, podia ser pior.

Decidindo não mais adiar o banho, pois já sentia seu corpo reclamar pelos maus tratos causados a ele por causa da chuva na forma de um resfriado. Ele tinha apenas retirado a camisa quando um suave toque bateu a porta, para em seguida abri-la, tendo Roxas esquecido-se de trancá-la. Axel trazia em sua mão um pequeno amontoado de roupas azul-escuras com alguns detalhes em branco.

"Desculpe, mas não achei coisa melhor. São as roupas de um amigo meu que ele esqueceu aqui em casa, mas acho que devem servir melhor do que as minhas." Ele explicou, colocando-as em cima da pia. Movendo-se para perto do chuveiro, chamou a atenção do adolescente. "A água quente sai pela torneira da esquerda, mas você tem que esperar um pouco para a água esquentar. Pode usar o sabonete que está aí mesmo, assim como o resto das coisas."

"Certo. Entendi." O outro assentiu, continuando a se despir.

"Vou preparar alguma coisa pra gente comer, mas não espere boa coisa, viu? Normalmente eu só como comida semi-pronta mesmo."

Era constrangedor para ambos ter de compartilhar um momento daquele tipo, então Roxas logo entregou suas roupas encharcadas para o outro, o rosto completamente vermelho fitando o chão. "Obrigado." Disse.

"Ah... seu celular." Axel notara o peso a mais das roupas, e logo pescou o aparelho de um dos bolsos. "Acho que molhou."

"Droga." Roxas resmungou, não realmente achando um problema. "Tudo bem. Não tem mesmo nenhum número importante nele. Pode jogar fora se quebrar."

"... Vou ver o que posso fazer por ele. Vá logo pro chuveiro." Com um último aceno, ele deixou o loiro a sós. Roxas finalmente retirou sua última peça de roupa, colocando-a ao lado das que vestiria, seguindo então para o boxe.

Bem, ao menos uma certeza eu tenho, pensou enquanto esperava pacientemente pelo aquecimento da água. Ele não é um tarado, do contrário já teria me atacado. Mas talvez ele ainda possa me matar e comer minha carne depois, como naquele filme que eu vi com o Sora...

Argh, Sora. Roxas havia se esquecido completamente dele. O moreno devia estar uma fera com ele, não era de seu feitio tardar-se tanto fora de casa. Iria ouvir tanto quando chegasse em casa...

(Ouviria mesmo?)

Roxas vacilou, tendo a mente chocada por aquela frase. Mas não era verdade? Ele não possuía nenhuma garantia de que seu irmão ainda lembrava-se dele. Com certeza ele o esqueceria como os outros.

(Será que se lembrava ainda seu irmão de sua existência?)

"Estou cansado..." Roxas murmurou, apoiando a testa contra a parede fria, deixando que a água escorresse por seus cabelos, como se esta pudesse levar também embora aqueles pensamentos.

XXX

"Novo em folha!" Axel exclamou satisfeito para si mesmo. Ele demorara apenas alguns minutos para trocar de roupa e aquecer-se, quando resolveu dedicar-se às tarefas do loiro. Sentia-se um pouco ridículo agora por estar lavando e secando a roupa de uma pessoa que mal sabia o nome (e sem estar sendo pago!), mas decidira pegar leve com o garoto. Enquanto as máquinas faziam um barulho enorme na área de serviço (e os vizinhos iriam ralhar com ele pela manhã), ele encostou-se contra uma delas e desmontou o pequeno aparelho a fim de secá-lo. Não tinha muitas esperanças sobre a vida deste, mas o celular o superara, ligando-se de forma completamente normal e sem nenhum apito ou sinal de que algo estava errado. Realmente, ele devia ter entrado para a área de Informática... Era a genialidade em pessoa!

Assustou-se quando ouviu um bip vindo do aparelho, mas verificou, surpreso, que era apenas de mensagens e ligações perdidas. Interessante, não se lembrava de ter digitado senha alguma. Um nome na tela piscava brilhante no centro. "Roxas", Axel leu.

"Então é este seu nome, huh? Até que combina."

Como ainda as roupas iriam demorar a secar e o garoto parecia querer-se afogar em seu banheiro (por favor, ele implorou a alguma entidade, que ele não tente se matar no meu banheiro, vão comer meu fígado se isso acontecer! E que ele não fique por muito tempo lá!), resolveu checar algumas funções do aparelho quando uma ligação apareceu na tela. Ele obviamente não reconhecia o número, mas como já havia outras chamadas perdidas, achou que podia ser a mesma pessoa querendo saber o paradeiro de "Roxas". Arrependendo-se amargamente da decisão de ter levantado naquela manhã, Axel atendeu ao telefone.

"ALELUIA!" Uma voz gritou ao seu ouvido, o som ainda saindo de forma estática devido à água. "ROXAS! Finalmente você atendeu! ONDE VOCÊ ESTÁ? Você está bem? Está com fome? Oh meu deus, você não foi assaltado, foi? Ou seqüestrado? MINHA SANTA PAOPU, Roxas, você foi estuprado? Fale algo! Responda!"

Axel só conseguia comparar tal velocidade na fala com a de Demyx, quando este ficava por demais animado ao falar de suas bandas preferidas. O ruivo percebeu que estava errado. Ele devia é ter entrado em coma misteriosamente durante o sono.

"Acalme-se, por favor." Pediu, tentando descobrir como raios abaixava-se o volume da chamada.

"...Você não é o Roxas." A voz disse, e Axel teve de controlar a vontade de exercer todo seu sarcasmo contra o dono desta. Contentou-se com diversos xingamentos e cenas de torturas passando em menos de um segundo em sua mente. Fazer o quê? Sadismo era sempre fácil de imaginar.

"Não. Eu sou o Axel."

"Por favor, senhor seqüestrador, liberte meu irmão! Ele é bonzinho! Não machucaria uma mosca! Por favor, solte ele!" A pessoa voltou a entrar em um estado histérico, para o desespero de Axel. Realmente não era seu dia.

"O que está acontecendo, Sora?!" O ruivo ouviu outra voz mais baixa do outro lado da linha, e ele sentiu pena do pobre coitado que devia estar tentando controlar o tal "Sora" para que eles estabelecessem um diálogo inteligível.

"Seqüestraram o Roxas!"

"Não, eu não seqües-" Axel tentou dizer, mas os outros o ignoraram.

"O quê? Passe o telefone para cá, você está-"

"Não, eu preciso falar com ele e-"

"Alô? Quem fala?" A outra voz parecia ter sido vitoriosa na disputa do telefone, embora ainda houvesse protestos vindos da outra parte.

"Ahn... Aqui é o Axel." Disse, inseguro do que viria ser a reação do outro.

"Eu sou Riku. Então, como você conseguiu o telefone do Roxas?" Uma pessoa sensata! Axel quase agradeceu aos céus por aquele minúsculo raio de esperança.

"Bem, encurtando a história: eu estava voltando para casa quando o encontrei meio que... perdido no meio da rua. Como já estava tarde e ele estava debaixo de chuva, eu resolvi levá-lo para casa, para ele ao menos tomar um banho e comer alguma coisa."

"... Você é um pervertido?" Sério. Axel estava quase desligando o telefone. Até entendia porque o outro havia ignorado todas aquelas chamadas, agora. Quanta falta de confiança nas pessoas hoje em dia!

"Sora, fica quieto! Axel, será que nós poderíamos falar com o Roxas?"

"Ele ainda está no banho, para o desespero da minha carteira." Ele ouviu a decepção do outro lado da linha silenciar até mesmo o misterioso 'Sora'. Nossa. "Riku... houve alguma coisa com ele...?" As palavras deixaram sua boca antes mesmo que as notasse, e ele se amaldiçoou no mesmo momento que as ouviu.

"... Por que a pergunta?"

Ia replicar sarcasticamente que, para um perdido, Roxas sabia muito bem que o caminho até o necrotério, mas seu bom senso lhe impediu de ser tão cruel assim para as pessoas, que obviamente, estavam preocupadas com o loiro. Ou consciência. Ou qualquer coisa do tipo.

"Ah... esqueça." Ele meneou a cabeça, mesmo sabendo que Riku não podia vê-lo do outro lado da linha. "Acho que ele deveria ficar aqui, pelo menos por hoje. Tipo umas férias. Aproveitem também para descansar e pensar sobre o que vão falar com ele depois."

"Com todo o respeito, nós não sabemos o tipo de pessoa que você é-"

"E eu não conheço vocês." O ruivo replicou, já estafado de toda aquela discussão inútil. "Vocês podem ser seqüestradores ou algo do tipo, que querem Roxas de volta porque ele fugiu."

Mesmo com altos protestos, ainda era a voz de Riku que mantinha a posse do telefone. "... Imaginação criativa a sua."

"Obrigado."

"Concordo com este seu plano apenas se forçar Roxas a ligar para nós amanhã. E nos passe seu endereço, no caso de precisarmos recolher o corpo dele."

"Certo. A propósito, qual é a comida preferida do Roxas?"

XXX

O garoto saiu lentamente do banheiro com a toalha ainda pendurada ao redor do pescoço. Já sentia novamente o corpo aquecido, e isso por si só era uma benção. As roupas que o outro lhe emprestara ficaram folgadas como ele previra, mas Roxas não tinha do que reclamar.

Com as luzes acesas, ficava mais fácil observar o apartamento agora. Havia apenas um corredor, na entrada, interligando os aposentos. Na frente do banheiro, onde o loiro estava, havia uma porta fechada na qual ele presumia que o dormitório se encontrasse atrás. Do outro lado do corredor, havia um umbral dando-lhe acesso a uma mistura bizarra entre sala de estar e cozinha.

Ou ao menos Roxas achava que era a sala de estar. Era difícil dizer com tantos papéis de jornais forrando o chão e corpos amorfos no meio do quarto.

"Já saiu?" O ruivo perguntou, chamando sua atenção atrás do balcão. "Venha cá! Siga a trilha de jornais se preza por sua vida!"

Ele já tinha algumas suspeitas, mas o outro acabara de lhe confirmar sua falta de sanidade. Bem, não era como ele próprio fosse a pessoa mais sã do mundo. Afinal, ele estava ali, num apartamento de um desconhecido, a sua mercê... Ótimo, Roxas, pare de pensar como uma virgem a ser sacrificada!

Axel, por sua vez, não parecia mais incomodado com a presença do garoto. Aparentando apenas ter se secado e trocado suas roupas por outras mais confortáveis (e secas), trajava também um avental branco com detalhes rosáceos e babados.

Notando o olhar incrédulo sobre si, ele suspirou e tentou se explicar. "Bem, isso aqui era da mãe do Demyx, mas quando eu me mudei ela meio que me deu. Ou foi o Dem que colocou isso nas caixas de mudanças."

Ignorando novamente à referência as amizades do homem, Roxas sentou-se em um dos banquinhos ao lado do balcão. Havia dois pratos postos ali, e o próprio ruivo havia dado as costas ao adolescente para dar atenção às panelas. O cheiro parecia mais forte dali, já que ele não o havia sentido da entrada. Ao lado da pia havia alguns instrumentos e sobras de tomates e alguns outros temperos que o loiro não reconhecia.

"Bem, eu não sei se você vai gostar, mas eu tentei." Ele continuou, virando-se novamente para a visita com uma panela em uma das mãos, destampando-a para que Roxas pudesse ver o conteúdo. "Noodles à la Axel, mon ami."

O estômago do loiro grunhiu em resposta, para o horror deste. Rindo do rubor do outro, Axel colocou uma grande porção da massa no prato deste, para então se servir. Enquanto comia, a informação pareceu atingi-lo de repente.

"Então... Seu nome é Axel?"

"Loirinho, eu ouvi a ficha atingir o fundo daqui." E encarou novamente os orbes azuis lhe fitarem em confusão. "Sim, e agora eu suponho que seja a sua vez de me dizer seu nome?"

"... Roxas."

"Então, Roxas..." Ele repetiu, como quisesse se assegurar de sua pronúncia ou apenas memorizar melhor o nome do adolescente. O olhar dele, percebeu o outro, tornou-se mais sério e ele sabia o que viria agora.

Ele estava preparado para aquela pergunta. O loiro sabia que a qualquer momento ela sairia dos lábios do outro, desde a hora em que o ruivo o arrastara para aquele apartamento. Uma das outras prováveis teorias que Roxas possuía sobre Axel era que ele era um pastor ou algo do tipo, que logo iria começar um sermão quilométrico sobre como o suicídio era um pecado. Por isso, o adolescente havia se preparado. Não conseguia muito bem pensar no que iria responder, mas iria mentir para resolver aquele problema. Todos acreditavam em sua carinha de anjo e caiam em suas falcatruas. Com Axel não seria diferente.

"O que achou do macarrão? Sinta-se feliz, pois há poucas pessoas que podem afirmar no mundo terem experimentado meus maravilhosos dotes culinários. Acho que, além do Dem, só a mãe dele!" Axel prosseguiu, continuando a comer como se não fosse nada.

"Ahn...?"

"Aliás, não ligue para a bagunça. É meio impossível tentar organizar essa parte da sala, parece que ela tende ao caos. E eu não sou muito de contrariar essas teorias, sabe."

"Você não vai perguntar o que eu estava fazendo na ponte?". A incredulidade ante a falta de curiosidade do outro o deixara tão surpreso que ele não conseguiu conter a pergunta. Roxas xingou-se no momento que ouviu sua voz produzir aquelas palavras.

Um momento de silêncio constrangedor seguiu-se, e o adolescente não conseguia deslocar seu olhar do prato.

"... Bem, eu sei que, mesmo que eu pergunte, você não vai me dizer." Axel respondeu. "Eu não sou uma pessoa de desperdiçar palavras, capice? Nem de jogar conversa fora. Termine de comer logo, meu noodles só prestam quentes."

Era uma sensação nova para Roxas. Não era nada parecido com felicidade, nem animação. Ele estava... Aliviado. Estava aliviado por não precisar mentir. Por não precisar se explicar.

Talvez fosse por isso que não conseguisse fugir daquela casa. Por que ele sabia que, interiormente, Axel não dava a mínima para ele.

Porque ele sabia que podia finalmente respirar em paz ali.

"... Obrigado. Está delicioso."

XXX

Passado a refeição, Roxas ficou a observar melhor o cômodo. A sala era totalmente forrada de jornais, para evitar que o chão se sujasse de forma permanente. Obviamente, nem sempre os papéis de notícias cumpriam sua função, já que havia alguns... Queimados? Hu. Por alguma razão, ele não queria muito saber como aquilo acontecera.

O ruivo havia saído para ele mesmo gozar de um bom banho, já que o rapaz estava seguro e bem alimentado em sua sala, além de aquecido. Roxas, para se distrair, resolveu lavar os pratos para não se sentir completamente inútil. Já estava abusando demais da boa vontade do outro para tratá-lo como um servo.

A cozinha era a menor parte da casa, se ela fosse considerada a parte da sala de estar. Muito menor do que a de sua própria casa, Roxas comparou, mas completamente diferente.

A sensação que ambas o davam eram completamente distintas em sua natureza.

Embriagado com aquele sentimento, o loiro não reparou que Axel voltara até que o próprio denunciara a sua presença por um bocejo.

"Argh... está tarde." O rapaz mais velho aproximou-se do outro, novamente pingando água pela casa devido aos cabelos molhados. "Não precisava ter limpado os pratos, Roxas."

"...Eu precisava fazer alguma coisa." Ele explicou, envergonhado.

"Bem, você devia estar é dormindo. Não acha que passou da sua hora de dormir?"

"Não me trate como uma criança!"

O ruivo deu de ombros e deu um novo bocejo. "Bem, eu sei que passou da minha hora de dormir. Então, boa noite. Se quiser ver TV, ouça baixo."

"... Onde eu vou dormir?"

"No quarto, oras."

Roxas retesou o corpo.

"Eu já disse que não sou pedófilo, não disse? A perspectiva de pegar cadeia não é muito boa para mim."

"... Certo." Até porque, Roxas pensou, se Axel tivesse querido alguma coisa com ele provavelmente já teria feito.

E a situação não poderia ficar pior do que já estava.

Acompanhou o rapaz até o quarto que, para sua maior surpresa, era ainda mais bagunçado do que a casa em geral. Roxas prometeu naquele instante nunca mais ser surpreendido em vida.

Mas a "operação limpeza" a qual Axel se submeteu fora a mais rápida já vista pelo outro. O loiro viu várias peças de roupas, limpas ou não, serem arremessadas de qualquer jeito para dentro do armário, enquanto o rapaz lhe pedia para que arrastasse móveis aleatoriamente. Em pouco tempo, o chão do aposento podia ser visto, no qual Axel forrava agora uma cama meio improvisada.

"Pronto." Ele anunciou, jogando-se em cima da cama de solteiro. Roxas o encarou sem compreender. "Quê, está sem sono?"

"Eu vou dormir no chão?"

"Algum problema com isso, princesa?" Ele grunhiu, jogando o rosto contra o próprio travesseiro.

"A etiqueta não manda o anfitrião ficar no desconforto?"

"A etiqueta manda que você não fale com estranhos. Além disso, mi casa, mi regras, maninho."

"...Touché. E eu não sou seu maninho." Roxas resmungou, deitando-se na cama e aquecendo-se. Ao contrário do que pensara inicialmente, o colchão era macio – mas seu cheiro o incomodava. Não que fosse ruim, mas... Ele não conseguia descrever muito bem o que era. Mas antes que pudesse formular alguma teoria sobre aquilo, adormeceu, embalado pelo calor que toda a casa emanava.

Em poucos minutos o adolescente já havia caído em um sono profundo e tranqüilo. O ruivo sorriu quando ele se moveu, aconchegando-se mais na cama improvisada, fazendo uma marota mecha dourada atrapalhar-lhe a face perfeita, e imediatamente Axel a colocou de volta no lugar.

Para ele, fora um gesto inocente. Não conseguia contar quantas vezes já fizera isso com Demyx. Porém, a paranóia vinha com o sono e começou a se questionar se qualquer outra pessoa veria sua ação como casta. E se alguém os tivesse visto e interpretado a situação de outra forma? O que seria dele?

A suposição o aterrorizou. Retirou a mão como se tivesse acabado de metê-la em ácido sulfúrico. Recriminou-se imediatamente. O outro era uma criança! Olha a "era anti-pedofilia"!

Continuando a observar (e controlando muito bem os movimentos de seu corpo), Axel conseguia ler perfeitamente a palavra 'problemas' escrita naquele rosto, logo acima daqueles olhos brilhantes azulados. Suspirando, pensou na sua incapacidade de deixá-lo em paz. Mesmo com quase nenhum conhecimento sobre Roxas, havia algo dentro dele que o fazia sentir-se responsável por suas ações. Era um sentimento sacana e masoquista, que provavelmente traria seu fim.

Mas uma parte de seu cérebro não podia deixar de compará-lo com Demyx.

O ruivo novamente deu um longo suspiro. Seus pensamentos não o estavam ajudando em nada. Ele já conseguia sentir uma dor de cabeça se formando, e não era por causa do resfriado que suspeitava estar desenvolvendo.

"Argh!" Axel reclamou. Do que adiantava pensar naquelas coisas naquele momento? O melhor que tinha a fazer era dormir. Cobrindo-se com o lençol, afundou-se ainda mais na cama, mas lançou um último olhar para o adolescente adormecido.

Roxas estava em um sono sereno, nada lembrando o pseudo-emo suicida de antes. Ele parecia uma das típicas crianças alvos daqueles malditos pervertidos que ofereciam doces à criancinhas desprevenidas em parques, para então levá-las até seu apartamento.

Refletindo agora, era o que Axel havia feito. Excluindo a parte dos doces. Talvez ele não devesse culpar tanto quem pensasse que ele era um molestador.

"Se eu for preso, a culpa vai ser sua!" Ele resmungou, antes de se virar para o outro lado e dormir.

O amanhã, ele temia, seria ainda pior.