.in a beautiful morning of May.

"E ele não apareceu mais?"

A pergunta de Demyx ecoou pela lanchonete, fazendo Axel estremecer da amplificação. Uma mulher encarou-os desconfiada, para então voltar a sua atenção a seus filhos, apressando-os para que comessem logo. Bem, não era como se eles causassem uma boa impressão com suas tatuagens no rosto ou o moicano de Demyx.

O restaurante de fast-food em que eles se encontravam era um dos preferidos do loiro, mas em geral Axel não gostava muito daquelas frituras. A verdade era que ele gostava de cozinhar o que comia, mesmo que não tivesse tempo e nem muita habilidade.

O ruivo mexeu em suas batatas mais uma vez, fazendo desenhos estranhos com o ketchup no guardanapo. Como Axel previra, sua dor de cabeça evoluíra para um fraco resfriado, do qual ele esperava se recuperar rapidamente, embora a cabeça ainda latejasse e o estômago estivesse revirado.

"Não. Ele meio que desapareceu."

Naquele dia, ainda estava tentando descobrir o que o atropelara quando abriu os olhos para descobrir que o adolescente loiro se fora, com os únicos vestígios de sua presença sendo a cama provisória desfeita e as roupas de Demyx largadas de qualquer jeito em cima de uma cadeira.

Ao menos ele tinha sinais para provar que a outra noite (a cama estava desarrumada, e tinha pratos na cozinha. Dois!) não fora uma alucinação causada pelo sono extremo mais o resfriado desgraçado combinado com uma pitada de cansaço. Ou se fora mesmo fruto de sua imaginação, Axel estava cogitando a possibilidade de ter sido drogado na casa de Demyx ou no caminho.

Mas como seu dinheiro e sua carteira estavam intactos, logo podia descartar a opção de ter sido seqüestrado por um maníaco, não é? Encarou os olhos azuis do loiro punk a sua frente com descrença. Não era a primeira e nem seria a última vez que o jovem tentava colocar substâncias desconhecidas na bebida dele.

"Que foi? Tem algo na minha cara?" Ele perguntou, tocando o rosto para sentir se algum condimento havia restado.

"Você não colocou nada na minha comida quando eu fui na sua casa, colocou?" Axel perguntou, tendo calafrios na espinha ao pensar naquela possibilidade.

"Por que você acha que eu faria isso?! Axel, estou horrorizado por essa desconfiança!"

O ruivo tentou mais que dignamente erguer uma meia-sobrancelha numa expressão clara de 'Vê se eu tô comprando essa conversa'.

"... Nah. Bem que eu queria, mas meu estoque acabou. Por quê? Tá achando que imaginou o garoto, como daquela outra vez?" Demyx decidiu que era a melhor hora para dar mais uma mordida no gigante sanduíche que devorava, e para o horror de Axel – e provavelmente a genitora deste, se pudesse ver -, com a boca aberta.

"Bem, o que eu posso fazer se alguém colocou extrato de cogumelos ALUCINOGÉNOS no meu noodles? Por isso que eu sempre cozinho quando você está em casa."

Demyx soltou uma gargalhada vibrante com a lembrança. "E depois você passou horas no banheiro. Aaah, pena que eu não consiga mais esses brinquedinhos."

Axel encostou as costas contra a cadeira e ergueu a sobrancelha de um modo que ele próprio tentaria definir como 'ameaçador', mas falhando epicamente devido o fato de seus genes só terem produzido meia sobrancelha ruiva para cada um dos olhos. "Espere só nós estarmos sozinhos para você ver onde esses brinquedinhos vão parar."

A reação de Demyx, ao contrário do que o outro esperava, não foi nada quieta... E muito constrangedora.

"AI MEU DEUS, ELE VAI ME ESTUPRAR~"

Algo lhe dizia que já devia ter esperado por isso. Era Demyx, pelo amor do Kingdom Hearts. Sempre fazendo barulho com aquele sitar insuportável. Sempre escapando do trabalho duro.

Aquela vez não ia ser diferente.

"DEMYX! Cala-essa-boca!" O ruivo praticamente voou em cima da mesa para tapar a dita boca que derramava profanações e ameaçava aumentar ainda mais a sua paranóia. Ele olhou em todas as direções possíveis, apenas para se precaver.

"Demyx! Pare já com isso. Você sabe que desde que o tal filho do prefeito daqui foi violentado, se um menor de idade gritar aquela-palavra-que-você-sabe-qual-é, qualquer outra pessoa que estiver do lado vai presa!"

"É." Demyx assentiu. "Soube até que um pai foi preso por causa disso, só porque a filha estava comentando de um filme... E demoraram horas para tirar ele da cadeia!"

O rapaz ruivo então encarou seriamente o outro, percebendo as intenções deste; "... Você não tá nem aí se eu for preso, não é?"

"Nem um pouco."

"Ótimo. Simplesmente ótimo. Então vou ter que fazer as panquecas que você tanto gosta para meu companheiro de cela. Com licença." E, deixando algumas poucas notas em cima da mesa, Axel se levantou e colocou a mochila pendurada em um dos ombros, com a sensação intermitente de ter esquecido alguma coisa.

Nem precisou esperar aqueles infames três segundos de animações infantis para ouvir Demyx fazer o mesmo.

"Axel~~ Você não está magoado, está?"

"Imagina! Por que estaria? Você só disse que não se importa se eu for preso. Tudo bem. Sem panquecas para você."

O loiro suspirou. "Você não acha que já estamos velhos demais para esse tipo de chantagem?"

"Sempre funciona com você." Axel deu de ombros.

"Aaah, Axel ~ Prometo que vou me importar se você for preso, mesmo que seja por estupro." Demyx acrescentou. "A não ser que a vítima seja eu."

"Já estou me sentindo bem melhor. Obrigado, Demyx, por saber que posso contar com você caso for preso. AGORA PARA DE FALAR ESSA PALAVRA."

Ele se limitou a dar dois tapas amigáveis nas costas do ruivo. "Isso, meu amigo, tem nome: Paranóia."

"Não é como se exatamente eu tivesse sorte como você para essas coisas."

Demyx ficou mudo na mesma hora. Axel percebeu então que talvez aquela não fora uma boa escolha de palavras.

"Sabe, ele parecia um zumbi." Mudar de assunto. Sim, aquilo era a melhor idéia.

"... Tem certeza que não era uma assombração?" Demyx replicou, sorrindo malignamente.

"Nah, ele parecia bem real quando o toquei."

Demyx arregalou os olhos, e recuou antes de falar. "... Axel, eu sabia que você tinha essas tendências estranhas, mas você sabe que pode ir pra cadeia por molestar uma criança, não é?"

"Mas não sou eu que estou atrás de um cara com metade da minha altura."

O adolescente punk corou como resposta. "Pelo menos o Zexy já tem idade o suficiente para não ser preso por beber em público. Ele já trabalha!~"

"Enquanto você, meu caro, mal tem carteira de motorista." Axel revidou. "Acho que o seu caso é o inverso. Nosso caro Zex é o molestador."

Ele se espreguiçou, parecendo feliz. "Uaah, deviam prender ele, então! Aí eu poderia pedir aquelas visitas maritais!" Demyx girou o corpo em direção a Axel, e piscou com apenas um dos olhos.

Ajeitando a mochila nos ombros, e, tentando se desvencilhar do arrepio que subira sua espinha, constatando: "... Sabe, você me assusta, Dem."

"Você me ama, isso sim! "

XXX

Pela que ele achava ser a centésima vez, Roxas fechou mais um caderno com raiva, assustando mais uma cliente da loja compenetrada na escolha de um estojo. Outra vez.

Sora continuava falando, incapaz de notar as indiretas que seu irmão dava.

O rapaz loiro suspirou. Ele tinha certeza que acabaria ouvindo um sermão daqueles assim que Sora o localizasse. Não que ele realmente ligasse.

Ele realmente amava seu irmão. Sora podia ser um idiota às vezes, mas era um idiota com bom coração. Mas mesmo sabendo que isso daria em uma confusão enorme em seu horário de trabalho, o único lugar que o loiro tinha a obrigação de ir e Sora sabia disso, Roxas não conseguiu deixar de evitar o irmão por mais alguns dias, pernoitando na casa de Hayner.

Apesar de Axel ter se provado inocente (ou um anestesista experiente: Roxas não sentiu nada a noite inteira...) e não ter feito nada com o rapaz, ele não conseguiu conter o impulso de sair correndo assim que ouvira os primeiros pássaros cantarem. Bem, qualquer um faria ao mesmo ao acordar no mesmo quarto de um estranho ruivo, com mais de um metro e oitenta e tatuagens estranhas no rosto, e sem lembrar direito como parara ali. Só se recordara do que acontecera quando já tinha pegado seus pertences e estava a duas quadras de distância. Ele se arrependia de seu ataque de pânico, porque ele podia ter desfrutado de um café-da-manhã bem melhor do que aqueles dois hambúrgueres que teve...

"Você não faz idéia de como ficamos preocupados! Eu..."

Roxas ia morrer se Axel soubesse fazer panquecas. Bonito (mesmo sendo um tanto... anoréxico, que cintura era aquela?) e que sabia fazer panquecas? Era um partidão!

"Mas, como você é meu irmão, acho que..."

Como o enésimo sermão de Sora pareceu estar terminando, então Roxas tinha que fingir que prestara atenção o tempo todo. Surpreendentemente, quase sempre dava certo.

"E se você for dormir na casa de um amigo de novo, avise antes!" Sora bufou. "Sabia que quase matou a mamãe de preocupação?"

Espera. Aquilo era o que Roxas mais temia. Respirando fundo e juntando toda a coragem restante em seu ser, que parecia ter fugido assim como a cor em seu rosto, Roxas perguntou:

"... Você ligou pra ela?"

"Claro que liguei!" O mais velho não parecia entender o motivo da pergunta. Roxas estapeou-se mentalmente. Claro que ele ligaria para a responsável por eles, no minuto que tivessem descoberto que Roxas estava desaparecido! "Ela falou que vai ligar mais tarde, pra dar um sermão digno em você."

Ah, claro. Ele suspirou de alivio. Para Roxas, isso significava que ele sairia impune.

A mãe deles sempre se esquecia de ligar "mais tarde".

"Bem, só vim aqui pra isso." Sora coçou a cabeça, e logo aproximou-se do irmão, com os olhos azuis misteriosamente maiores. "E... você me ama? "

O loiro suspirou. "O que você quer que eu compre, com meu desconto de funcionário, desta vez, Sora?"

O moreno deu um belo sorriso de satisfação, e, dando a volta no mostrador, pegou um caderno, o qual Roxas desconfiou que ele já estivesse de olho há algum tempo e só estava juntando coragem o suficiente pra pedir. Com o caderno em mãos, Roxas suspirou.

"Eu trago ele quando voltar pra casa. Ou cê vai precisar dele agora?"

"Não~. Eu queria ele pra escola, mesmo... Eu te pago em casa, falou? " E ele hesitou. "E, Roxas, sobre aquele dia..."

A fala do gêmeo foi interrompida pelo sino da porta, anunciando a chegada de mais um cliente e, para Roxas, um alívio de sermões. Ou, pelo menos, era o que ele rezava para ser.

"Oi, Sora. Achei que você ia estar por aqui. Achou o sumido?"

Riku, que acabara de entrar na livraria, era um dos amigos de infância dos dois. Com cabelos prateados (Mas quem raios teria cabelos prateados? O loiro desconfiava muito de que era tintura.) e olhos de um verde intenso, sem falar de um físico desenvolvido – de que exercício, Roxas não fazia idéia; não era como se Struggle! fosse um esporte que requeresse muito treinamento – e, que, obviamente, tinha uma queda enorme por seu irmão.

"Riku!" Sora exclamou, e, Roxas percebeu, um leve rubor tomou conta de sua face.

Mais ainda, obviamente, Sora tinha um abismo por Riku.

"Sim, e já passei sermão nele."

Roxas parou de ouvir a conversa, já que ele quase nunca sabia do que eles estavam falando. Entre os dois, nos últimos tempos, parecia haver uma redoma de vidro que até a outra do trio, Kairi, parecia ter dificuldades de penetrar.

O mais novo não sabia quando, mas a relação dos dois tinha mudado bastante quando Sora completou quinze anos. Não era como se eles tivessem começado a se agarrar ou algo do tipo, mas os dois se tornaram mais sutis para assuntos como "namoro", "beijo", e, principalmente, "Kairi".

"E você perguntou do tal do Ax-"

Claramente algo havia acontecido entre os três, mas Roxas achava que não devia se meter. Não era da conta dele, mesmo.

(E novamente, ele ficaria sozinho.)

"Ei, Riku, o que você acha desse caderno?" Ele desviou o olhar e a conversa, mas o outro nem percebera isso.

Roxas abaixou a cabeça. Aquele mal-estar, causado pelo tumulto daquele sentimento sem nome, estava vindo com mais freqüência agora, principalmente quando Riku estava por perto. Mas a culpa não era dele.

"Oi, Roxas. 'Tá ouvindo a gente?" Riku o encarou, preocupado.

Era tudo culpa de Roxas.

"Roxy... Cê tá se sentindo bem?" Sora perguntou, tocando levemente seu ombro com uma das mãos. O roçar quente o fez estremecer. Roxas não percebera o quão frio seu corpo estava até aquele toque.

"Roxy?"

Roxy. Era assim que seu irmão sempre o chamava quando o queria acalmar ou quando estava preocupado.

(Ele não podia deixar Sora preocupado.)

Por isso que ele acabava saindo e terminava perambulando por aí, acabando na casa de um "outro" qualquer.

"Não se preocupe, Sora." Ele mentiu. Roxas tinha noção de que mentia mais do que respirava.

"Você está nervoso porque as suas aulas começam amanhã?" Sora inclinou a cabeça contra a testa de Roxas, verificando se a temperatura dele estava maior do que deveria. O loiro suspirou. Estava tudo bem, fisicamente.

Mas respirar doía.

"Eu estou bem." Ele mentiu de novo. "Acho que estou com fome e está quase na hora do meu intervalo. Vou ver se como alguma coisa."

Sora suspirou, e então sorriu. Sim. Isso era bom, que seu irmão sorrisse. Significava que nada estava errado.

"Então devemos ir, Sora. Você quer continuar atrapalhando o Roxas no horário de trabalho dele?"

"Você tá bem mesmo, Roxy?" Sora perguntou mais uma vez. Era essa era a última vez que ele tinha para convencê-lo de que tudo estava bem, ou de desistir e contar tudo para o irmão.

Roxas nunca gostaria de ser um fardo para o irmão.

"Não, sério, estou bem. Vai andando com o Riku. Quando terminar meu turno eu volto pra casa."

"Certo. Me liga antes de ir pra casa?" Ao ver Roxas assentir, Sora sorriu. "Até logo! Venda muito!"

Quando os dois saíram, Roxas apoiou-se na estante atrás dele, assustando por definitivo a cliente dos cadernos, que saiu andando-correndo dele, indo em direção ao caixa mais próximo. Ele riu.

Ele era tão patético.

Ele sabia o quanto Sora ficaria preocupado. Seu irmão gêmeo não poderia dar dois passos para frente sem saber que ele o seguia logo atrás. Claro que descobrir que Roxas havia sumido após uma briga daquelas (que, francamente, ele nem lembrava o motivo dela ter começado) por dois dias iria fazê-lo surtar.

E mesmo assim, Roxas tinha fugido, porque não conseguia respirar direito lá.

Respirar doía. Ele não sabia como isso era possível, mas respirar doía.

Roxas pressionou a mão contra o peito, como se de alguma forma pudesse retirar parte daquele peso insuportável que sentia comprimido contra si. Ele respirou mais fundo, sentindo a dor aumentar. Respirar doía.

Ele passou a mão pelos cabelos, sem se importar muito com os olhares que recebia dos clientes. Calma. Ele precisava se acalmar.

Instintivamente, já estava procurando "outro" com os olhos. Sim, apenas "mais um". Apenas "mais um" e ele iria parar com aquilo. Desde que ele conseguisse respirar novamente, "mais um" não faria diferença na conta.

Mas não tinha nenhum "outro" por perto. Nenhuma pessoa da qual Roxas poderia roubar o calor e algumas horas do dia. Não sabia para onde, mas ele tinha que procurar algum lugar onde conseguisse respirar. Para ele, o ar era mais pesado e poluído em lugares como aquele, porque a falsidade não era filtrada por seus pulmões, sendo retida por eles como um câncer.

E então, o sinete da porta tocou novamente.

XXX

Axel foi categórico.

"A gente não vai entrar aí."

"Ah, a gente vai sim." Demyx respondeu.

O "aí" de Axel referia-se a uma grande loja de departamentos, famosa na cidade por sua dona excêntrica. Era uma pessoa que acreditava profundamente no amor, e não haveria nada de errado nisso, se noventa por cento da loja não fosse coberto pelos tons mais variados de rosa, desde rosa-bebê a magenta, com alguns toques de vermelho-paixão e alguns tons mais frios de violetas e roxos.

Não precisava dizer que a sessão de cartões (principalmente de Dia dos Namorados) de Hearts Store era uma das mais completas de Twilight Town.

Axel tinha pavor daquela loja.

Era certo que alguns de seus amigos de faculdade já haviam lhe alertado que lá era um dos melhores lugares para comprar materiais de arte (parecia que a filha da dona era uma artista, então a mulher fazia questão de oferecer qualidade pelo menor preço possível), mas havia alguma coisa naquela loja que o repudiava.

"Ah, olha aquele ali! Não é um gato?" Uma voz feminina disse às costas dele.

"Espera, é um homem...? Achei que era mulher, olha aquela cintura!"

No fundo, ele sabia a razão de seu horror pela loja. Por ser, na definição de Axel, mais um café com livros mais do que uma livraria, sempre tinha pessoas por lá. Muitas pessoas. Não que Axel fosse completamente anti-social ou com fobias de multidões, mas por causa de sua aparência chamativa, muitas mulheres acabavam se interessando (ele não sabia exatamente como) nele e tentavam alguma coisa. Em todas as vezes que ele foi lá, sempre foi assediado.

"A gente não vai entrar aí." Repetiu, rezando para que o tom autoritário disfarçasse a nuance apavorada de sua voz.

"Ah, vamos! Você quer conhecer o Zexy, não quer?"

"Espera. Você marcou com ele aqui?" Com tantos outros lugares mais normais no mundo, como a Torre do Relógio, a Estação Ferroviária, ou simplesmente na casa do outro, ele precisava marcar na loja mais chamativa do distrito de compras?!

"Não." O loiro de moicano balançou a cabeça. "Ele trabalha aqui."

Axel estacou no lugar. "... Ele. Trabalha. Aqui?"

"É." Assentiu.

Respirando fundo, o ruivo olhou novamente para a fachada de luzes néon rosa-choque de Hearts Store. "... Realmente, não tenho dúvidas quanto à sexualidade dele. Só sendo muito gay mesmo pra agüentar este lugar."

"Vamos logo, Axel." Contrariado, Demyx o puxou pelo braço. "Ou você vai ser atacado por mulheres enlouquecidas por hormônios às seis horas em cinco, quatro, tr-"

"Já entrei! Vamos ver logo o seu namoradinho sexy e-"

E os sinos tocaram. Ou, como Axel descreveria mais tarde: um verdadeiro enxame de badalares, um após o outro, que só faltava um verdadeiro coro de anjos para que ele fosse elevado aos céus. Um enxame ALTO. Ele teve de tapar os ouvidos para conseguir sair da porta.

Como a loja possuía dois andares, o primeiro era projetado para que o cliente padrão ficasse instigado a prosseguir. O estabelecimento, no entanto, era feito para jovens mulheres. Axel era jovem, tá, mas da última vez que ele checara, ele ainda não tinha útero. Então qualquer atrativo considerado "fofinho" era barrado por sua testosterona. Observando um ursinho de pelúcia estrategicamente posicionado ao seu lado direito (e que assustadoramente parecia encará-lo de volta), ele amaldiçoou novamente a loja. Ele era um artista, e não uma bichona.

"Ah, Axel, olha que ursinho lindo...!"

O ruivo tinha certeza de que faltava a Demyx testosterona. Ou bom senso, mas aquilo já era outra história.

"Então," Axel continuou. Quanto mais rápido encontrassem aquele tal de 'Zexy', mas rápido ele poderia sair dali. "Você sabe onde o 'Zexy' trabalha, se é que ele trabalha hoje, ou vamos ter que vasculhar cada canto dessa loja dos infernos...?"

"É, bem..." O loiro sorriu, distanciando-se de Axel. "Eu vou pela esquerda, e te encontro no meio, tá? "

"Demyx. Você. Está. Tão. Morto."

"Até daqui a pouco!"

Axel não sabia quando, nem onde e nem a arma, mas tinha a certeza absoluta dentro de seu ser de que, um dia, acabaria matando Demyx. Era só uma questão de tempo. Ou torturando um pouco, por todas as situações que ele o fazia passar.

Suspirando, tentou raciocinar um pouco antes de sair em uma busca perdida. Se Zexion era mesmo tão rato de biblioteca como Demyx descrevera, ele deveria trabalhar na seção de livros, preferencialmente na parte de literatura clássica. Mas como Dem provavelmente teria se dirigido pra lá, Axel optou por ir na direção contrária: a de artigos de papelaria.

Arts Hearts era a parte que Axel considerava mais normal da loja, que ficava em um canto escondido abaixo das escadas no primeiro andar, e normalmente encontrava-se vazio, até o funcionário responsável escapava freqüentemente para caminhadas demoradas nas outras seções.

Ou seja: o único lugar realmente são naquela loja imensa, a menos que estivesse na época de início das aulas. Aquele período era um pesadelo.

Então era um plano muito bom se esconder na seção de papelaria até que Demyx se cansasse de "procurar" pelo tal Zexion e ele ainda aproveitaria para ver se havia algum desconto na área de aquarelas, já que suas tintas estavam acabando. Dois shadows mortos com uma só keyblade.

Ele nunca esperou reencontrar Roxas naquele lugar. Encostado contra uma das prateleiras, parecendo incrivelmente cansado e um pouco ridículo naquele avental cheio de babados (mas pelo menos não era rosa-bebê como o dele) violeta escuro.

Axel estava começando a se sentir em um daqueles romances de banca, em que o protagonista revê a amada, depois de terem se visto por apenas um dia!, e descobre que ela era da realeza/foragida/assassina profissional/prostituta. Muito clichê. Ao menos o segredo de Roxas era que ele apenas trabalhava naquela loja infame.

O ruivo não se admirava que Roxas tinha tentado se matar. Ele teria feito o mesmo se tivesse que suportar uma loja daquelas e com uma chefe provavelmente ainda mais louca.

Por dois segundos, sua consciência ainda considerou quanto tempo levaria para ir atrás de Demyx e cair fora daquele lugar quando Roxas levantou sua cabeça e começou a olhar perdido para a multidão, como se estivesse procurando algo ou alguém...

Ou qualquer um.

XXX

Roxas estava se sentindo observado. Não seria novidade, já que a loja era gigante e ele era funcionário e mesmo sendo da seção mais esquecida, ainda era procurado por alguns perdidos para distribuir informações.

Ele ergueu a cabeça, mesmo com a dificuldade de respirar se fortalecendo. Roxas sabia que aquela sensação iria passar, eventualmente.

E seus olhos encontraram os verdes hesitantes de Axel.

O susto que ele levou foi tão grande que quase derrubou a prateleira atrás dele, para sua imensa vergonha. Não, não era possível que Axel estivesse naquela loja. Ele nem morava por perto! Com certeza deveria ser outra pessoa!

"Ei, Roxas!"

...Não, definitivamente era ele mesmo.

Axel se aproximou dele, com um sorriso no rosto e as mãos dentro do bolso do casaco, que, ao chegar prontamente, fez questão de tirar uma delas para bagunçar ainda mais os cabelos de Roxas.

"Como está, Roxy?"

"...Roxy?" O adolescente perguntou, incrédulo. Como ele poderia saber do apelido que seu irmão lhe dera?

Axel deu de ombros, voltando a colocar a mão no bolso. "É, apelido pra Roxas, oras. E aê?"

"O que você tá fazendo aqui, mesmo...?" Roxas o cortou, não querendo responder a pergunta, ajeitando de qualquer forma os livros e cadernos atrás de si.

"O Demyx me arrastou pra cá pra ver um tal de Sexy...?" O ruivo cruzou os braços e pareceu pensativo. O outro tentou se lembrar de quem raios ele poderia estar falando. Não havia nenhum funcionário chamado daquela maneira esdrúxula que ele se lembrava… "Zexy…?"

"Você quer dizer o Zexion?"

"Ué, ele existe mesmo? Uau." A reação de Axel surpreendeu o loiro.

"Como assim, se ele existe...?"

"É, bem, como dizer... O Dem tem um histórico de inventar coisas desse tipo." Coçou a cabeça, como se estivesse sentindo-se um pouco culpado. Se Roxas já não duvidasse da sanidade dos dois, passaria a acreditar completamente na falta de senso comum deles.

"O que você está falando de mim?!"

Roxas se virou para o rapaz que acabara se pronunciar, e Demyx foi até Axel para tentar lhe dar um soco nada amigável no ombro.

"Falando no diabo." Axel reclamou, massageando a área atingida.

"Francamente, é só eu dar as costas um minuto..." Demyx bufou, fitando Roxas pela primeira vez, e este, por sua vez, encarava o acompanhante misterioso do outro, Zexion.

Zexion era um dos funcionários da seção de literatura clássica, assim como Axel havia previsto. Particularmente, Roxas tinha um pouco de medo dele. Ele era estóico e calado e, embora fosse educado com os clientes, sua frieza beirava a de um iceberg. Ele tinha cabelos de um tom azul cinzento que tiravam-lhe a visão do olho direito. O que não fazia muito sentido a Roxas, visto que ele freqüentemente utilizava óculos para trabalhar ou ler na sala de descanso dos funcionários.

Já Demyx era seu completo oposto. Pelo pouco que ouvira de Axel sobre o amigo, ele parecia ser uma pessoa que não ligava para as conseqüências de suas ações. Mas ele não esperava ver um adolescente quase da idade dele com um moicano loiro-escuro usando um casaco jeans desfiado e uma camiseta de uma banda de rock qualquer.

Era de se esperar, Roxas achava. Demyx andava com Axel, e ele tinha tatuagens no rosto.

"Aqui, Axel, este é o Zexy! "

"...Prazer." Zexion se apresentou, parecendo extremamente incomodado. Roxas tinha quase certeza que Demyx o havia arrastado para lá. Nunca vira duas pessoas tão diferentes uma da outra. Era como se fossem branco e preto ou os dois pólos opostos de um imã. Demyx definitivamente era a loira sexy dos filmes de ação enquanto Zexion era aquele seqüestrado padrão.

As duas pessoas mais improváveis de estarem sobre o mesmo teto.

"Ah, prazer, Zexy. Eu sou o Axel."

"Zexion. Meu nome é Zexion." Reclamou, em vão. Roxas podia jurar que Zexion teria um aneurisma só por ouvir aquele apelido.

"Ah, mas admita que Zexy é um apelido bonito. " Demyx respondeu, parecendo não se conter de felicidade. O adolescente parecia que a qualquer instante sairia dando piruetas ou fazendo malabarismo com os artigos da loja.

E Roxas tinha a certeza que Demyx algum dia ia ser morto por causa de sua boca grande. O olhar de Zexion garantia isso.

"..."

"E quem é esse aí, Axel?"

Bagunçando novamente os cabelos dele, Axel respondeu. "É o Roxas."

"Ah, o tal Roxas?" Demyx indagou vago, fazendo questão de examinar cada detalhe do rapaz em questão, e até chegando a tocar em seu ombro. "... Você deve estar aliviado porque ele não é fruto de sua imaginação pós-ingestão de cogumelos, né?"

Axel estremeceu só de lembrar daquilo.

"Você ainda me paga. Um dia."

"O que você falou de mim?" Eles eram pessoas estranhas. Roxas não podia deixar de duvidar do conteúdo dos comentários, e estava com medo daquele papo de 'cogumelos'.

"Ah, pouca coisa. Só que você me abandonou pela manhã, e eu nem consegui fazer meu café-da-manhã deluxe."

"Como você pode sair sem tomar o café-da-manhã deluxe à La Axel?" Demyx parecia horrorizado. Era uma heresia tão grande assim ter corrido de um suposto molestador enquanto ele dormia?

Zexion parecia estar pensando a mesma coisa. Encarou Axel de cima a baixo. "Quantos anos você tem?"

"Vinte e quatro."

"E Roxas tem dezesseis, não é?"

"Sim." Ele respondeu inseguro, não sabendo onde o outro queria chegar. Já Roxas queria saber como os dois sabiam da idade dele.

"... Você sabe que isso se caracteriza como abuso de menores?"

"O quê-"

"Espera, eu e o Axel não tivemos nada!" Roxas gritou, muito constrangido. Era só o que faltava em seu dia!

"Posso ter mal interpretado sua conversação, mas, de fato, deu a entender isso..." Zexion disse pausadamente, e o adolescente podia jurar que havia um sorriso diminuto em seus lábios. Estaria ele se divertindo?!

E ao invés de defender o amigo, Demyx simplesmente gritou. "Gah, eu sabia que você era um molestador de criancinhas, Axel...!" E, com dedo em riste apontando para o ruivo, disse. "Prenda ele, Zexy!"

"Se me chamar de 'Zexy' mais uma vez..." Zexion ameaçou em vão.

"Calaaboca, Demyx!" Axel gritou, irritado. "Já não tivemos essa conversa hoje de manhã?" Um dia, não muito distante, Axel ainda mataria Demyx. Ele tinha certeza absoluta. E essa escolha só se afirmava mais quando ele reparava no número de pessoas que já parara para observar a conversa deles.

Uma música alta e cheia de guitarras tocou e Demyx levou a mão instintivamente ao bolso. "Oh, espera. Meu telefone." E se afastou um pouco deles, para tentar ouvir através dos gritinhos de garotas e revoltas de Axel.

O ruivo apenas suspirou e voltou-se para os dois funcionários. "Peço desculpas pelo comportamento de Demyx . E eu não molestei o garoto, Zexy."

"Se você diz..." Zexion deu de ombros e dirigiu-se a Roxas. "Devemos chamar a polícia nesse caso?"

"... Sério, Zexion, não dá pra saber se isso é uma piada ou não." Roxas disse, sentindo Axel se retesar ainda mais só por causa da palavra "polícia".

"É uma brincadeira, lógico." O rapaz encarou o rosto de Axel, e este engoliu em seco. "Só sendo bastante... imbecil para tatuar o rosto e ainda assim sair molestando criancinhas."

"Olha o preconceito contra tatuagens!" Axel bufou. "Elas têm seu charme. As mulheres adoram."

Roxas sentiu que era uma bela oportunidade para saciar a curiosidade sobre as tatuagens em forma de gotas nas bochechas do rapaz.

"Por que, de todos os lugares, você tatuou o rosto?"

"Ahnn..." Ele pareceu levemente surpreso com a pergunta. "Rebeldia?" Respondeu, depois de pensar um pouco.

E antes que Roxas pudesse perguntar sobre o motivo da tal rebeldia, Demyx já tinha terminado a sua ligação.

"Axel, minha mãe tá pedindo pra eu voltar pra casa."

"Certo. Vou te acompanhar, é caminho pra minha." Ele sorriu, feliz por finalmente poder sair daquela loja dos infernos.

"Já vão tão cedo...?" Por uma fração de segundo, Roxas conseguiu ver um brilho de desapontamento nos olhos de Zexion. Será que...? "E sem comprar nada?" Ah.

"Deixa para a próxima, certo?" Axel tentou alegrá-lo. Como se ele fosse gastar seu pouco salário na seção em que o outro trabalhava. Se ainda fosse na de papelaria...

"Ué, Axel, achei que você nunca mais ia querer voltar nesse lugar... mudou de idéia por quê...?" Demyx sorriu maliciosamente.

"Demyx, me faz um favor, cala a boca e anda logo." Axel disse, pegando-o pela gola da camisa e o arrastando prontamente para fora da loja.

"Tecnicamente, são dois favores..."

"Demyx!"

"Tá, já entendi." Bufou. "Tchau, Zexy, tchau, Roxy! Até a próxima~!" Acenou para eles, e Axel fez o mesmo.

"Certo. Então eu devo voltar. Tenha um bom dia." Zexion desejou à Roxas e caminhou de volta para a sua seção.

"... Obrigado." Roxas respondeu, tentando entender o furacão que foi a sua vida naqueles últimos minutos.

Passou-se algum tempo depois que Axel e Demyx deixaram a loja e Zexion voltou a sua posição, o ruivo acenando feliz e falando alguma coisa sobre voltar lá algum outro dia e Demyx garantindo a Zexion que eles deveriam se encontrar em cinema qualquer dia desses, quando Roxas percebeu que sua respiração se acalmara.

E respirar não doía mais.

XXX

A visão daquele pôr-do-sol quase eterno de Twilight Town era uma das mais fascinantes para Axel. Ele se sentia muito bem ao voltar para casa com aquela paisagem ao seu redor, mesmo que ela trouxesse aquele gosto amargo em sua boca.

Mas ele sabia como Demyx odiava poentes.

Axel suspirou. Aquele fora um dia bem... Surpreendente para ele. Além de ter reencontrado Roxas, ainda pode ver Demyx fazendo algum progresso. Com certeza, aquela tarde ainda seria memorável.

E ele finalmente se lembrou do que havia esquecido.

"E, no final, o que você queria me falar hoje, Demmy?"

O silêncio constrangedor fez o coração de Axel comprimir-se no peito, antecipando o que viria.

"Não minta que era sobre o Zexion, porque não era." Ele alertou.

"Ah, bem..." Demyx respirou fundo. "É só que..." Ele hesitou. "Eu vou começar em um colégio novo amanhã."

"É?" Axel o encarou surpreso. "Qual? Sua mãe não me falou nada." Insistiu. Como podia a dona Mizuko (43 anos) não comentar algo daquele calibre com ele?

"É o que eu disse que queria contar." O loiro resolveu encarar seus próprios sapatos, de modo que o outro não conseguia distinguir muito bem suas feições.

Só naquele momento Axel conseguira reparar que as mãos de Demyx estavam brancas de tanto apertar as alças de sua mochila. A força era tanta que os dedos já ameaçavam começar a tremer. O ruivo, gentilmente, afrouxou a mão da posição incômoda, sem, no entanto, deixá-la cair de volta.

"Então, você vai querer que eu te leve pra casa amanhã?" Ele entrelaçou as mãos dos dois, voltando a caminhar lentamente pelas ruas.

Por pouco Axel não deixou escapar o murmúrio de resposta.

"... Adoraria."