Cavaleiros Apaixonados 2

Por Mary Ogawara

Capítulo 19 – Doces Lembranças – parte I


Girando o anel dourado em seu dedo anelar da mão esquerda, Saori sorriu ao ler a inscrição gravada nele a exatamente dez anos antes daquela noite. Dez anos... Já tinha se passado tanto tempo assim...?


Saori observava sua imagem refletida no espelho de um dos cômodos do primeiro andar da mansão onde morava, que havia sido decorado especialmente para a ocasião. Enquanto algumas de suas amigas conversavam, a garota respirava fundo, examinando seu traje uma última vez.

O longo vestido branco era um tomara-que-caia com uma saia longa e franzida, que lembrava as vestes dos antigos gregos. Tinha detalhes em ouro na barra e no decote, e uma cauda pequena. A garota também usava luvas brancas no mesmo tom do vestido, brincos e uma gargantilha dourados e um véu, que partia de uma tiara que prendia parte do seu cabelo.

Tanto o vestido quanto os acessórios e a maquiagem, mesmo muito bonitos, denunciavam que Saori havia optado por uma festa muito mais simples do que poderia fazer, caso assim desejasse. O sorriso no rosto da garota, porém, qualquer um poderia perceber, estava ainda mais belo e sincero do que em qualquer outro momento passado. Isso porque aquele era o primeiro dia desde que Seiya a pedira em casamento, que o anel de noivado não estava na sua mão direita. Porque aquele era o dia em que se tornaria esposa dele.

- Você está linda, Saori! – elogiou Pearl, aproximando-se da garota enquanto June dava a Fleur algumas dicas no estilo "como morar com um garoto".

- Obrigada! – ela agradeceu, sorrindo – Parece que demorou tanto para este momento chegar... E ao mesmo tempo parece que fiquei noiva ontem... Acho que devo estar muito ansiosa! – ela sorriu ainda mais, divertida.

Pearl também sorriu.

- Mas está tudo bem? Você não está com medo? – perguntou a garota, impressionada com a serenidade da expressão de Saori, mesmo com tanta animação.

- Não, acho que não. – respondeu a garota, ainda sorrindo – Mesmo com tudo o que já aconteceu, mesmo sabendo que muito ainda poderá acontecer... Acho que se o Seiya estiver do meu lado e eu do dele, tudo vai dar certo, sabe? – disse ela, dando uma piscadela para a amiga – Acho que isso é o mais importante, não é?

Pearl ficou calada por um instante, enquanto Saori comentava alguma coisa a respeito da sua franja ou algo assim.

Aquelas palavras... Era tudo verdade. De fato, Pearl sentia aquilo; sentia que precisava continuar acreditando sempre... Afinal, não era assim mesmo o amor?

Ficamos muito mais tristes quando alguém que realmente amamos nos decepciona, mas não é essa apenas mais uma prova do nosso sentimento tão forte por essa pessoa?

Pensando bem... Deve ter havido dias em que tivesse dito ou feito algo que Ikki não gostaria, ou que preferia que tivesse sido diferente. Talvez seja um direito de todos errar e ser perdoado, não?

Sim. Era por isso que precisava continuar acreditando no amor, mesmo que a ferida em seu coração ainda doesse. Algo tão precioso quanto aquele amor que ela encontrou com Ikki simplesmente merecia essa chance.

- Eu... Eu vou resolver uma coisa! É urgente! – disse Pearl de repente, interrompendo o discurso de Saori a respeito das flores do seu buquê.

A loura saiu em disparada em direção ao quarto onde sabia ser a "concentração" dos garotos, passando por Hilda na escadaria da mansão sem tempo para cumprimentá-la. Mas a garota de cabelos azuis não estava sozinha.

- Então... Está tudo bem entre a gente? – perguntou ela, que, como as outras, também usava um vestido de dama de honra dourado.

- Está sim, Hilda. – respondeu Shunrei, com um sorriso sincero – Eu peço... Peço desculpas pelo transtorno que causei a vocês.

- E eu por ter agido como uma idiota... – disse a primeira, abraçando a amiga.

Shunrei conseguira falar com Shiryu no dia anterior, como queria. De fato, falara tudo o que sentia por ele, e como ele fazia falta. Parecia que, depois de tanto tempo, estava pronta para fazer algo que um dia lhe parecera impossível: seguir em frente.

Seria mais fácil aceitar que coisa alguma jamais iria mudar. Principalmente quando tudo parecia estar em uma direção que poderia ser muito boa. Seria, sim, muito bom ter alguém para estar ao seu lado; alguém para amar de verdade. Esse alguém um dia fora Shiryu.

Mas as coisas mudam. Às vezes para pior, infelizmente. Às vezes para inesperadamente melhor. Quem sabe o que o futuro traria? O importante é que essas mudanças nos fazem evoluir como pessoas.

- Eu realmente queria que você me desculpasse. – continuou Hilda, depois de um breve instante – É que às vezes eu tenho tanto medo...

- Medo? – Shunrei repetiu, sem entender.

- Sim. – disse Hilda, parecendo um pouco envergonhada – Quando eu penso em como a minha vida mudou tão rapidamente... Em tudo o que eu deixei para trás.

Shunrei sorriu, surpresa. Não sabia que aquela garota e ela tinham tanto em comum.

- Hilda, sabe o que eu ouvi uma vez? – ela começou, com um tom de voz gentil – "Às vezes a gente encontra o nosso destino na estrada que tomamos para evitá-lo".

Hilda sorriu.

- É, acho que você deve ter razão.

A escadaria da mansão, por onde Pearl passava, um pouco apressada, havia sido adornada com flores em seu corrimão e muitas pétalas deixavam mais gracioso o caminho até o amplo hall de entrada, onde um tapete vermelho indicava o caminho de Saori até o jardim da casa, onde havia sido montado o altar.

Faltava menos de meia hora para a hora marcada para o início da cerimônia, e muitas pessoas já haviam tomado seus lugares. A garota procurou com os olhos por Ikki, mas ele não estava lá. Ainda deveria estar com Seiya e os outros.

- E então, Seiya? – Ikki chamou a atenção do amigo – Pronto para as algemas do casamento?

O garoto lançou um olhar divertido para o amigo, antes de responder:

- Se eu tivesse mesmo alguma dúvida agora você ia ter ajudado bastante, Ikki! – disse, com ironia.

- Estamos aqui para isso. – o outro tornou a brincar, afastando-se para cochichar algo com Hyoga e Shun.

Nesse momento, Seiya sentiu algumas batidas em suas costas, como em um cumprimento.

- Finalmente o grande dia chegou, hein? – disse Shiryu, sorridente.

Seiya respirou aliviado. Não tinha problema em mostrar um pouco de nervosismo para o amigo.

- Acho que a ficha ainda não caiu. – disse, sorrindo de si mesmo – Deu tudo certo com a Hilda?

- Eu nunca disse que... – Shiryu parou, de repente.

Nunca dissera a Seiya que queria mesmo ficar com a garota. Não achou que o amigo fosse ser capaz de perceber isso.

- Sim. – ele respondeu, finalmente.

- Vê se não vai se meter em mais briga de mulheres, não faz o seu tipo, certinho! – Seiya sorriu da expressão desconcertada do amigo.

- Pode deixar. – o Dragão sorriu – Agora eu vou arrastar esses marmanjos daqui. Vê se não se atrasa.

- Não vou. – ele sorriu, mas sua expressão mudou à medida em que o amigo se afastava – Shiryu!

Shiryu virou-se para encarar o garoto, que nada disse, entretanto. Não precisavam de palavras para se comunicar, eram irmãos.

Os dois se "despediram" com sinais positivos, e quando a porta se fechou, Tatsumi, "o fiel mordomo de Saori", aproximou-se do garoto.

Tokumaru Tatsumi sempre o tratara como se fosse da ralé, mesmo agora que morava com Saori – de fato, depois disso a implicância até aumentara. Devia achar que a garota era louca de se casar com ele. Que teria para falar agora?

No corredor, Shiryu e os outros se dirigiam até o local da cerimônia, quando Pearl surgiu. A garota arrependeu-se instantaneamente daquilo, mas ao mesmo tempo sabia que tinha que ir até o final.

- Com licença, Ikki. – ela começou, com o rosto escarlate – Podemos conversar um pouco?

- Claro. – ele respondeu, enquanto os três amigos se afastavam.

Pearl olhava para o chão. Aquilo era bem mais difícil do que parecera quando imaginou.

- Ikki, eu...

Mas o beijo do garoto a impediu de falar.

- Eu amo você. – disse ele, depois que a soltou.

- Você... Você disse...

- Disse que amo você. – ele sorriu – Desculpe se eu não estava pronto para dizer isso antes.

- Ikki...! – ela se atirou nos braços dele, beijando-o mais vezes.

Finalmente ele a deixaria ir... A lembrança mais querida da sua vida.

- Seiya! – começou Tatsumi, de repente.

- Sim? – disse o Pégaso, curioso. O cara o chamava pelo nome!

- Eu confesso que eu nunca gostei muito da senhorita Saori ter começado esse relacionamento com você.

"Sério? Nem percebi.", Seiya teve vontade de responder.

- Mas não posso negar que nunca a vi tão bem antes. – continuou Tatsumi – Durante muitos anos eu fui o tutor legal da senhorita, e fiz tudo ao meu alcance para ajudá-la, apesar dela sempre ter sido uma garota independente e forte. A senhorita Saori sempre cuidou de tudo sozinha.

- Eu sei disso. E admiro isso. – Seiya respondeu, sério.

- Mas a Saori também é uma mulher, e precisa de proteção e apoio. Por isso... – o mordomo hesitou antes de continuar – Por isso eu fico feliz com essa união. Sei que são coisas que você não vai deixar faltar.

Seiya teve vontade de se beliscar para saber se estava mesmo acordado. Tatsumi o estava... Elogiando?

- Obrigado. – ele respondeu, sem saber o que mais dizer.

- Cuide bem da senhorita Saori daqui pra frente. – pediu Tatsumi, prestes a deixar o quarto.

- Prometo que você nunca vai precisar se preocupar com isso, careca. – o garoto sorriu.

Algum tempo depois, ouviu-se a bela música de um piano e todos os convidados ficaram de pé. Do altar montado para a ocasião, Seiya e seus amigos puderam ver surgirem, uma a uma, Fleur, Pearl, June, Shunrei e Hilda, cada uma delas segurando um pequeno buquê de flores.

As garotas atravessaram o caminho até os outros até tomarem seu lugar, do lado esquerdo do altar. Foi então que surgiu a figura da noiva, que lentamente, começou a percorrer o mesmo trajeto que as outras. Sozinha.

Ao som do piano, cada um de seus passos lhe trazia uma memória diferente... A conversa pelo telefone antes de a garota voltar ao Japão. A noite estrelada em que os dois confessaram seu amor. O momento e que Seiya a pediu em casamento. O dia em que descobriram que iam ter gêmeos. Mesmo as lembranças ruins.

Os olhos de Saori se encheram de lágrimas de felicidade. Tinha esperado tanto por aquele momento... Não se importava de estar sozinha agora, podia ver claramente que estava caminhando na direção da sua família.

"Sempre foi você", era a frase gravada na aliança que trocaram.

Terminada a cerimônia de casamento, os noivos e os convidados se dirigiram até a parte de trás da mansão, onde haviam sido distribuídas algumas mesas pela grama. Havia sido montada uma grande tenda aonde estavam as mesas com a comida e o bolo com dois bonequinhos no topo, e outra menor, aonde estavam os músicos que alternavam canções românticas e mais agitadas, fazendo a diversão dos que dançavam.

Depois da tradicional primeira dança do casal, dos discursos dos padrinhos e de cortarem o bolo, os convidados se dividiram entre os que ainda dançavam e os que permaneceram sentados, conversando alegremente, mas, claro, todos queriam cumprimentar o casal, o que os deixou ocupados por um bom tempo.

Apesar de fazer muito tempo desde a última vez que os vira, Seiya reconheceu imediatamente o próximo casal que se aproximava para falar com eles.

- Aiolia! Marin! – o garoto os recebeu com abraços, animado.

- Que surpresa boa! – Saori também os cumprimentou.

- Não poderíamos deixar de vir! Parabéns para vocês! – disse a mestra de Seiya, animada – E feliz aniversário, Seiya!

- Todos no Santuário mandaram lembranças para os dois. – disse o cavaleiro de ouro.

Os dois agradeceram e Saori apertou a mão do marido, lançando-lhe um olhar que o fez entender o que ela queria.

- Aiolia, - Seiya começou – queríamos saber a sua opinião a respeito de um assunto muito importante para nós. Nós queríamos que você soubesse que decidimos chamar um dos bebês de Aiolos.

- Significaria muito para nós se você apoiasse essa decisão. – completou Saori.

Aiolia demorou um pouco para responder.

- Seria uma honra se vocês o fizessem. – ele respondeu, sorrindo, emocionado.

Os quatro ainda conversaram bastante, antes que um insistente Tatsumi pudesse arrastá-los para que fossem tirar fotografias.

Aiolia e Marin os observaram enquanto o fotógrafo pareciam ter dificuldades em fazer Seiya parar de se mexer para uma foto decente.

- Eles vão ficar tão felizes quando souberem, não é? – Marin comentou, sorrindo dos recém-casados.

- Perfeito! – Tatsumi gritou, de repente, satisfeito com o resultado de pelo menos uma foto em mil.

Saori e Seiya sorriram do homem.

- Saori, e se juntássemos todo mundo em uma foto só?


- Deixa que eu ajeito a sua gravata, Shun! Vai ficar perfeita, não se preocupe!

- Obrigada, June. Capricha!

- E o meu irmãozinho? Quando vai casar também?

- Ikki!

- Nem parece que suava só de pensar em casamento, hein?

- Mas que meigo você e a Pearl juntos de novo!

- Mas não esqueçam que a próxima a casar serei eu! Euzinha aqui, ó! Snif! Snif!

- Fleur, meu amor, por que está chorando?

- Acho que hoje descobri que sempre choro em casamentos... Snif!

- Só podia ser a doida da minha irmã!

- Bem, todos prontos gente?

- Acho que sim!

- Espera aí, Saori! Acabei de me lembrar de uma coisa...!

- O que foi, Seiya?

- Shiryu, que assunto foi aquele que vocês estavam fofocando mais cedo?

- Eu não estou sabendo de nada, Seiya.

- Então me digam vocês, Hyoga, Shun e Ikki!

- Bem, nós...

- Nós estávamos meio que...

- Fizemos uma aposta pra ver quem ia chorar primeiro no casamento e eu ganhei!!

- Por pouco!

- Não imaginávamos que você não ia agüentar nem ver a noiva chegando!

- Ora seus...

- Digam "xis"!

- ...Viciados em apostas!!!

- Buááá... Vou sair com o rosto inchado na foto!

- Ikki, desgraçado! Você acabou com a minha pose!

- Eu só falei a verdade!

- Agora você vai ver o que é verdade...!

E enquanto todos sorriam ou choravam, Saori teve certeza de que aquela era uma lembrança perfeita que iria guardar para sempre...


- Saori? Amor? – uma voz a despertou de lembranças que, mesmo rápidas como flashes, pareciam tê-la prendido por uma eternidade.

Saori consultou o relógio de pulso. Cinco minutos... Só? Incrível como o tempo faz com que mesmo as nossas mais preciosas memórias eventualmente se tornem... Apenas doces lembranças.


Nota da autora:

Olá!

Realmente não tenho desculpa alguma para a demora ou mesmo para o fato de estar atualizando a fic agora, eu acho. Era algo que eu achei que tinha que fazer. Não ia me sentir bem em deixar as coisas largadas, assim como não me senti bem para atualizar a fic antes.

A minha pausa não foi planejada, mas foi muito bem recebida. Há tempos que eu vinha pensando em parar de escrever, mas não que eu realmente quisesse. Cheguei a pensar que não ia conseguir voltar nem mesmo a digitar, mas aqui estou eu.

Espero que tenha sido um bom ano para todos e que possam me desculpar pela demora.

Feliz Natal!

Mary Ogawara