Capítulo cinco: Os homens da vida de Sakura

Naruto e Sasuke estavam no meio de uma séria discussão sobre quem lavaria a louça naquela noite de sexta-feira, quando Sakura adentrou o apartamento, segurando nos braços uma sacola de papel e chamando a atenção dos garotos após soltar uma gargalhada alta.

– Que se foda a louça! – disse ela, ao fechar a porta do apartamento com o pé, trancando-a com a mão livre e, em seguida, colocando a sacola em cima da mesa. – A Hokage finalmente me liberou para sair em missão, e já posso voltar a trabalhar no hospital amanhã – contou, sem disfarçar a óbvia felicidade que sentia.

– Ah, que bom, Sakura-chan! – exclamou Naruto, esquecendo-se completamente da louça.

A rosada soltou um gritinho estridente e alegre ao tirar da sacola uma garrafa que continha um líquido logo reconhecido como sake.

– Então, vamos comemorar ficando extremamente bêbados! – ela disse num tom que deu certeza aos dois garotos que eles não tinham outra escolha a não ser aceitar. Naruto não se importava realmente, porém Sasuke não tinha muita tolerância ao sake e, por isso, sabia que acordaria no dia seguinte desejando estar morto.

Naruto foi pegar os copos na cozinha. E, sabendo que seria inútil protestar, o Uchiha deu de ombros, sentando-se no chão da sala, ao lado do loiro e em frente de Sakura. O Uzumaki depositara os três copinhos em cima da mesinha do centro, onde já se encontravam as quatro garrafas de sake compradas pela Haruno.

– Você sabe que volta a trabalhar amanhã, certo? – perguntou o Uchiha, ao ver a moça enchendo os copos com o líquido transparente, numa tentativa falha de fazê-la desistir daquela ideia.

– Fui colocada no turno da noite. – Ela o olhou nos olhos e sorriu divertida. – Não se preocupe com a ressaca, Sasuke-kun, eu cuidarei de você – ela garantiu.

"Não sorria que nem um retardado, quem faz isso é o Naruto", pensou o Uchiha, desviando os orbes do olhar esverdeado.

– Então, vamos beber, dattebayo! – berrou o loiro.

E então aconteceu. Aquela foi a primeira vez em que eles dormiram juntos. E não no sentido de adormecer, mas sim no de fazer sexo.

Não foi exatamente como cada um deles pensara que seria. Na verdade, foi bastante ridículo, considerando a quantidade copiosa de álcool envolvida. Naruto caiu da cama duas vezes, Sasuke parecia ter esquecido como se coloca uma camisinha e Sakura não conseguia parar de rir da cara do Uchiha, irritando-o profundamente. No final das contas, essa coisa toda de sexo a três era bem mais complicada do que os livros pervertidos de Jiraya faziam parecer, para grande decepção de Naruto.

Após o efeito do álcool ter passado, eles fizeram um acordo de nunca mais falarem a respeito daquela noite e simplesmente fingirem que ela nem sequer acontecera. Era mais fácil assim, evitaria constrangimentos e complicações futuras. Era apenas uma daquelas insanidades que ninjas colocavam em "lista das coisas que preciso fazer antes de morrer".

Fora esse mesmo argumento que Naruto usara para convencer os dois amigos; o drama da incerteza do amanhã, de como ele poderia morrer na sua próxima missão e de como ele, em forma de fantasma, atormentaria ambos por não terem aceitado realizar sua mais erótica fantasia. Pensando bem, se eles não estivessem bêbados até a alma, Sasuke teria soltado um seco e sonoro "Cala boca, dobe", e Sakura, por sua vez, teria tratado de socar o loiro até este desmaiar. Porém, o sake, feliz ou infelizmente, falara mais alto do que qualquer bom senso.

Algumas horas depois, quando o dia já amanhecia, eles ainda estavam deitados na cama, acordados, conversando amenidades. Bom, na verdade, Naruto e Sakura eram os que lideravam o falatório, enquanto Sasuke liberava alguns "Hn's" e "Tsk's".

A Haruno se encontrava no meio da cama, repousando a cabeça no torso de Naruto, podendo assim ouvir os batimentos ritmados do seu coração. Já Sasuke fechara os olhos e afundara o rosto no pescoço de Sakura, enquanto um de seus braços envolvia frouxamente a cintura dela.

O mundo, de súbito, tornara-se um lugar tranquilo, e o sono foi, vagarosamente, tomando conta deles. O ritmo da conversa diminuiu, o silêncio se instalou, e, antes que eles pudessem se dar conta, já estavam profundamente adormecidos.

– Sakura!

A rosada pensou ter ouvido a voz de sua mãe. Achou que estivesse sonhando. Entretanto, ao abrir os olhos, a voz continuou e até mesmo acordou os dois rapazes.

– Sakura! – gritou, e agora os três podiam ouvir claramente as batidas à porta.

– Oh não. – O sangue sumiu do rosto da Haruno, deixando-a totalmente pálida, e, por alguns segundos, ela pareceu prestes a desmaiar. Porém, rapidamente se recompôs. – É a minha mãe – informou aos dois outros, levantando-se da cama, tropeçando nas roupas que estavam jogadas no chão.

"Mas que merda", pensou irritada e nervosa ao mesmo tempo, avaliando mil e uma desculpas para justificar a presença dos dois companheiros em seu apartamento, já que sua mãe não podia nem sonhar que eles estavam morando com ela.

– Naruto, vista-se e finja estar dormindo no sofá da sala. Sasuke, você vai pro banheiro e liga o chuveiro, assim ela vai achar que você estava tomando banho. – mandou, bem trêmula, à medida se vestia e passava os dedos pelos cabelos emaranhados.

– Sakura!

– Já estou indo, mãe! – gritou a rosada, indo somente em direção à porta quando os dois garotos estavam em seus lugares.

Ela destrancou a porta, agradecendo mentalmente a Kami-sama por ter feito essa proteção, ou sua mãe teria simplesmente entrado no apartamento e... bom, não teria sido nada agradável.

"O que diabos você está fazendo aqui às sete horas da manhã?", Sakura quis gritar quando deixou sua mãe entrar no apartamento, porém, deteve-se, não era uma boa ideia recebê-la daquele jeito.

– O que diabos você está fazendo ainda de pijama às sete horas da manhã? – indagou a senhora Haruno, fixando o olhar severo na filha.

Sakura teria rido se não estivesse tão irritada por causa daquela presença naquela hora totalmente inoportuna.

– Só trabalho no turno da noite – respondeu a jovem.

– Você precisa... – começou a mãe, mas, no mesmo instante, notou a presença de Naruto no sofá, que, para a surpresa de Sakura, conseguia fingir muito bem estar profundamente adormecido. – O que esse garoto-problema está fazendo na sua casa? – quis saber.

A senhora Haruno e metade dos adultos de Konoha chamavam o possuidor da Kyuubi de garoto-problema ou de outros nomes cruéis do gênero, e Sakura precisou de muita força de vontade para não expulsar a mãe do apartamento. Alguns anos atrás, tal comportamento não a teria incomodado, mas se tornara muito protetora quando o assunto envolvia seus companheiros do Time Sete, principalmente Naruto.

– Ele e Sasuke vieram me ver depois de uma missão para que eu pudesse cuidar de seus ferimentos, e, como eles estavam exaustos, deixei que dormissem aqui – mentiu Sakura, com um tom claro de exasperação na voz.

– Eu não acho apropriado que uma jovem como você... – ela começou o sermão, e Sakura estava prestes a suspirar, quando, pela segunda vez, sua mãe parou no meio da frase. – Que seja, discutimos isso outra hora, vim aqui por causa do seu pai – disse, e, apesar de sentir o cheiro de álcool que sua filha tinha, Masaki Haruno preferiu apenas deixar para lá.

Os olhos verdes de Sakura arregalaram-se.

– O que tem o papai? – quis saber.

– Ele está no hospital.

– O quê? Por quê? – questionou, assustada.

– Bom, a Alzheimer dele piorou um pouco desde a última vez que você o viu, e, hoje de manhã, ele não me reconheceu e ficou gritando, acabou caindo feio, quebrando a perna e batendo a cabeça no concreto... então o levei ao hospital – explicou a senhora Haruno, e, em contraste com seu aspecto severo, havia um abalo na face.

– Eu... – A rosada não sabia o que dizer para reconfortar a mãe naquela situação. – Vou me trocar e iremos ao hospital juntas – disse, por fim, correndo para o quarto, sendo seguida por Naruto que fingira ter acordado com o barulho da conversa das duas mulheres.

Sakura vestiu sua saia azul marinho, mas não conseguia encontrar sua blusa de jeito nenhum. Naruto, vendo que ela explodiria e quebraria tudo que aparecesse no caminho, achou sábio entregar-lhe uma das camisas brancas sem mangas que ele e Sasuke vestiam debaixo das roupas usuais quando o tempo estava frio.

– Vista isso também – pediu o Uzumaki entregando a ela seu famoso casaco laranja e preto. – Está ventando muito lá fora.

Ela colocou o casaco e agradeceu ao loiro com um aceno de cabeça silencioso.

– Vá com sua mãe, eu e o Sasuke alcançamos vocês depois – disse com confiança.

Assim que a porta do apartamento foi fechada, Sasuke saiu do banheiro, vestido e com uma expressão sombria no rosto.

– Você sabia? – perguntou, referindo-se à doença degenerativa do pai da rosada.

– Não fazia a mínima ideia – respondeu Naruto.

– X –

Quando Sakura entrou no quarto de hospital onde seu pai se hospedara, prendeu a respiração sem perceber. Logo ela, que era médica e já estava acostumada com o ambiente branco demais, com o cheiro desagradável, com as pessoas chorando nas salas de espera, com o vai-e-vem de médicos e enfermeiros vestidos de azul. Ela estava acostumada com aquilo. Ela deveria estar acostumada, afinal médicos não se tornam frios com o passar do tempo?

"Apenas um mito ridículo", pensou aborrecida. Médicos podiam até agir com frieza, mas sempre existiria essa camada de humanidade escondida debaixo da barreira de proteção que usam para que as perdas não os afetem tanto. E essa parte humana nunca se acostumaria com um hospital.

– Sakura – seu pai, Usui Haruno, chamou-a, alegre por rever a filha depois de tantos meses. – Venha aqui – indicou a cama, afastando-se um pouco para o lado.

Ela o respeitou, sentando-se na beira da cama, e o Sr. Haruno tomou sua mão entre as dele. Sakura reparou na faixa que estava escondendo sua testa e o gesso que cobria sua perna.

– Suas mãos estão geladas – constato Usui, preocupado.

– Sempre estão, papai – respondeu ela, sorrindo um pouco triste.

– Hum – fez e fixou seu olhar no dela, encarando-a longamente, como se memorizasse os traços de seu rosto. – Então, ouvi dizer que você tornou-se jounin recentemente.

– Sim – confirmou, um pouco envergonhada, pois deveria ter ido para casa contar a notícia ao pai pessoalmente, mas ficou adiando tal visita, tentando convencer-se de que não tinha tempo. Na verdade, só estava com medo. Entrava em pânico só de pensar na possibilidade de chegar em casa e o pai não reconhecê-la, era honestamente a coisa mais dolorosa que Sakura já tivera que enfrentar e não sabia de onde deveria tirar forças para ser menos covarde.

– Parabéns, querida. Eu sempre disse à cabeça-dura da sua mãe que você seria uma kunoichi de muito sucesso. – Sorriu, e Sakura podia ver o orgulho estampado no rosto naquele rosto envelhecido pelo tempo. Observou-o atentamente, os cabelos castanhos curtos e emaranhados, a barba rala, a cor peculiar de seus olhos, aquele tom entre o verde e o castanho.

– Desculpa, pai – disse, abaixando a cabeça. O coração doía horrivelmente, e sentiu os olhos se encherem de lágrimas.

– Pelo quê, criança? – quis saber, confuso.

– Por não ter ido visitar vocês – respondeu, segurando o choro.

– Oras. – Ele riu, afagando os cabelos rosados de sua filha. – É normal, você só está aproveitando sua recente liberdade adquirida. Não precisa chorar por isso. Quando puder você vem e farei aquele mingau de aveia que você adora. – Piscou um olho pra ela.

Sakura sorriu, apesar de saber que os momentos de lucidez de seu pai seriam cada vez menores, chegando ao ponto em que ele se esqueceria dela. Apesar de tudo, ela sorriu para ele. Afinal, o importante era que ele estava ali agora.

– E por onde anda aquele seu namorado? – perguntou Usui, mudando de assunto.

– Que namorado? – Corou. – Não tenho namorado, pai.

O embaraço da filha parecia divertir Usui, que sorria malicioso.

– Aquele garoto de cabelos pretos. O caçula dos Uchihas – continuou, e Sakura perguntou-se por que ela não podia ter um pai mais ciumento, como o de Ino, pois, ao contrário da esposa, Usui gostava de perturbar a filha com perguntas sobre sua vida amorosa. – Aquele da foto que você escondia debaixo do seu travesseiro quando tinha doze anos.

– Pai! – gritou, chocada e envergonhada. – Como você sabe sobre a foto do Sasuke? – quis saber.

Usui riu alto da expressão indignada que enfeitava o rosto de Sakura.

– Sasuke? – ele arqueou as sobrancelhas. – Porque você parou de usar o sufixo "kun" depois do nome dele?

Sakura abriu a boca para responder, porém a fechou logo em seguida, percebendo que não sabia a resposta para aquela pergunta. Ela franziu o cenho, lembrava de ter parado, aos poucos, de chamar o moreno de Sasuke-kun na época em que eles começaram a treinar para o Exame Chunnin, mas não se recordava da razão exata. Talvez fosse porque ela tivesse decidido que devia se focar mais no treino do que nas batidas aceleradas de seu coração bobo. No começo, fora bem difícil, ela precisava se esforçar muito para chamá-lo somente de Sasuke. Contudo, com o tempo, foi se acostumando e acabou criando um novo hábito.

– Eu não sei por quê – disse, por fim, dando de ombros. – Acho que percebi que eu não podia obrigá-lo a gostar de mim. Amadureci, e, graças a isso, viramos bons amigos.

– Mas não é o suficiente, é? – Apesar de isso sair como uma pergunta, Usui já sabia a resposta, ele podia ler nos olhos da filha que ter o Uchiha como amigo não era o bastante.

– É melhor do que nada – respondeu, sincera.

Usui não teve a oportunidade de responder, pois Masaki, sua esposa, entrou no quarto, interrompendo a conversa.

– Sakura, seus amigos estão esperando por você – avisou ao aproximar-se da filha e do marido.

– Então, melhor eu ir – disse, viera mesmo ao hospital mais para certificar-se de que o pai estava realmente sendo bem cuidado.

Despediu-se dele, dando-lhe um abraço e um beijo na bochecha. Levantou-se da cama e pôs-se em frente a Sra. Haruno, que tinha seus longos cabelos cor-de-rosa presos em um coque, uma expressão cansada no rosto. Ainda assim, Sakura continuava achando que Masaki deveria ser a mulher de cinquenta anos mais linda do mundo.

– Mamãe, me chame se precisar de qualquer coisa – pediu Sakura, mesmo sabendo que, do jeito que Masaki era orgulhosa, ela provavelmente não o faria sem que algo muito grave acontecesse.

– Está bem. – A Haruno mais velha assentiu. – E, você, trate de se cuidar, está magra demais. Tem se alimentado direito?

– Eu me alimento bem, mamãe. Não se preocupe. E vou me cuidar – garantiu Sakura. – Venho visitar vocês logo – prometeu.

– É bom mesmo – disse Masaki, dando um abraço na filha. – Juízo, viu, menina?

– Vi, mãe. – Sakura revirou os olhos, rindo, e caminhou até a porta, acenando um tchau para os pais antes de deixar o quarto.

Um pouco mais longe, na sala de espera da ala civil do hospital de Konoha, três homens estavam sentados nas cadeiras desconfortáveis.

– Eu não entendo – Naruto repetiu, mantendo a voz baixa, para grande surpresa de Sasuke e Kakashi. – Não consigo entender por que ela não nos contou.

– Ela nunca falou sobre a família dela – disse Sasuke, após falhar em lembrar-se de alguma ocasião onde Sakura teria falado mais do que uma frase sobre a família Haruno.

– Vocês nunca perguntaram – apontou Kakashi, parando de ler, ou fingir ler, seu famoso livro pervertido. Naruto fora buscá-lo aos gritos, dizendo que o pai de Sakura estava no hospital e ele precisava vir dar apoio moral.

Naruto entreabriu a boca, disposto a defender-se daquela acusação, mas ela era a mais pura verdade. Ele nunca fizera questão de saber mais a respeito da Sakura Haruno que existia no mundo das missões e nas ocupações de med-nin. Ele virou-se na cadeira, questionando Sasuke com os olhos, contudo, o Uchiha apenas suspirou ao balançar a cabeça negativamente.

– Ela não teria falado mesmo que vocês tivessem sido menos egoístas e perguntado – disse Kakashi e os dois garotos olharam-no interrogativos. – Naruto, você é órfão – começou, e o loiro abaixou a cabeça. – Sasuke, você é filho de um dos clãs mais poderosos de Konoha e saiu de casa muito cedo por ter problemas demais com seu pai. Sakura nunca falou a respeito, porque ela teve uma infância mais feliz, e não achava justo esfregar, mesmo que sem querer, isso na cara de vocês.

– Que besteira! – exclamou Naruto, apontando um dedo acusador em direção ao ex-sensei. – Não é porque eu não tenho pais e o Teme tem problema com os dele que a Sakura-chan não pode falar com a gente a respeito dos dela.

– Não estou dizendo que ela estava certa em achar isso – respondeu o Hatake, calmamente. – Apenas expus o que aconteceu.

– E o que você quer? – quis saber o Uchiha, sabendo que Kakashi não falaria tudo aquilo pra eles em vão.

– Que vocês cuidem dela – respondeu.

– Nós sempre cuidamos dela, dattebayo! – indignou-se o Uzumaki. – Quando ela voltou machucada da primeira missão como jounin...

– Machucados físicos são completamente diferentes dos emocionais – interrompeu Kakashi. – Eles são muito mais graves, principalmente em pessoas que conseguem disfarçá-los tão bem como Sakura.

Naruto estava prestes a replicar, mas Sakura estava se aproximando deles e isso foi o suficiente para calá-lo.

– Obrigada por me esperarem aqui – ela agradeceu, sorrindo amarelo na direção dos três rapazes sentados a sua frente.

– Eu ficaria mais tempo, mas fui escalado para uma missão com Sai e Yamato e já estou atrasado. – O sensei pôs-se de pé e aproximou-se da ex-aluna, afagando-lhe o topo da cabeça com a mão, e assanhando levemente os cabelos cor-de-rosa.

Ele não precisou dizer nada, Sakura conseguia entender perfeitamente todo o amor e carinho que se escondia por trás daquele gesto. Kakashi, mesmo que não se desse conta, era, além de professor, uma espécie de pai para o Time Sete, sempre tomando conta de seus alunos, de suas crianças.

Quantas vezes, ele já fizera compras para encher a geladeira e despensa de Naruto com algo além de leite estragado e rámen? Ele já perdera as contas. Vivia obrigando o loiro a comer frutas e legumes, ameaçando-o com as piores torturas possíveis caso não o fizesse.

Fora ele quem ajudara Sasuke a treinar para passar no exame da Anbu, e jamais se esqueceria do sorriso vitorioso e da felicidade quase infantil que o jovem estampava no rosto ao contar-lhe a boa notícia da aprovação.

Era ele que, discretamente, seguia Sakura a caminho de casa quando ela terminava de trabalhar muito tarde. A Haruno não demorara muito para perceber a perseguição e gritara com ele dizendo que não precisava de um guarda-costas. E Kakashi sabia disso, no entanto, não conseguia evitar ser meio velho e super-protetor em relação a ela, mesmo que se esforçasse bastante para disfarçar.

Não eram coisas grandiosas, Kakashi sabia que poderia fazer muito mais, porém, aquele era o seu jeito de tomar conta de seus alunos. Mesmo que fossem coisas pequenas como comprar legumes. Mesmo que fosse de longe. Mesmo que eles nem percebessem que ele sempre se encontrava por perto, mantendo um olho neles, se assegurando de que estavam bem.

E as pequenas recompensas também valiam a pena. Como quando Naruto comprara a nova edição de Icha Icha para o seu aniversário. Ou quando conseguira ensinar Sasuke a fazer um chidori. Ou quando, no casamento de Temari com Shikamaru, ele ouvira Sakura comentar com Ino que ela fazia questão de andar até metade do altar, primeiro, com seu pai, e, depois, com o ex-sensei. Nessas horas, se Kakashi fosse mais parecido com seu amigo e rival Maito Gai, sairia apertando as bochechas de seus alunos enquanto chorava grossas lágrimas de emoção, mas ele continuava sendo o famoso ninja copiador e sorrisos orgulhosos e paternais escondidos por debaixo de sua máscara bastavam.

Antes de sumir numa nuvem de fumaça, Kakashi observou os olhares preocupados que os dois rapazes lançavam na direção de Sakura, como se ela fosse a mais preciosa e delicada peça de cristal, e ele teve certeza de que tudo ficaria bem. Poderia levar algum tempo, mas tudo ficaria bem, estava seguro quanto a isso. Afinal, aqueles três sempre davam um jeito de curar as feridas uns dos outros.

– X –

Sakura estava sentada na cama, com as pernas balançando em um tique nervoso, enquanto Naruto e Sasuke encontravam-se sentados um no lado esquerdo e um no lado direito em relação a ela. A tensão no ar era tão evidente, quase palpável, e a rosada soltou uma gargalhada alta, beirando à histeria. Era cômico, ou trágico, Sakura não saberia dizer. E pensar que algumas horas atrás também existia tensão no ar... e, contudo, uma tensão bem diferente da que os envolvia agora.

O fato dos dois companheiros de time estarem ali, ao lado dela, exatamente como mais cedo naquele dia, era surreal. Quanta coisa mudara no espaço de apenas algumas horas? E, ao mesmo tempo, ela pensava que quase nada mudara. Afinal, o cenário e os personagens eram os mesmos, a única diferença eram as circunstâncias.

Ela não chorara no hospital, nem mesmo no dia em que descobrira a doença que o pai tinha. Não perdera a compostura, recusando-se a chorar que nem uma criança desamparada na frente dos pais, eles não precisavam daquilo. Sakura sabia que já estava sendo difícil para eles. Chorar só pioraria a situação.

Então ela fora forte, ou, melhor, ela fora covarde. Ela escolhera o caminho mais fácil: fugir. Afinal, pouco tempo após a descoberta da Alzheimer do pai, ela se mudara para este apartamento, alegando que precisava de mais liberdade, e, em partes, era verdade. Contudo, saíra da casa dos pais também porque não se achava capaz de lidar com o fato de seu pai estar perdendo a lucidez e a saúde aos poucos, sem que ela pudesse curá-lo.

Ela sempre tivera esse complexo de querer cuidar de todo mundo, de querer consertar as coisas. Não era ela quem fazia de tudo para ver Kakashi feliz, sabendo o quanto o sensei, no fundo, era destruído pela morte de seus amigos? Não era ela quem virava uma leoa quando alguém que não fosse ela ou Sasuke ousava insultar Naruto? Não era ela quem se preocupava demais com Sasuke, chegando a irritá-lo às vezes? Era mais forte do que ela, tinha que estar constantemente cuidando dos outros, curando feridas tanto de corpo quanto de alma.

"Mas isso eu não posso consertar", pensou amarga. "Não posso curar algo que não tem cura."

Sakura levou as mãos ao rosto, escondendo as lágrimas que começaram a escorrer abundantes por ele. Havia segurado esse choro por tanto tempo que agora tinha a impressão de não conseguir mais parar. Não tinha mais forças para reprimir aquelas lágrimas. Os seus soluços preencheram o silêncio do cômodo.

Naruto lançou um olhar na direção de Sasuke, pedindo, sem usar palavras, que ele o ajudasse. O moreno compreendeu. Os dois amigos, ao mesmo tempo, passaram os braços em volta da cintura de Sakura. Eles formaram, em volta dela, um abraço protetor e reconfortante, e a soltaram somente quando, muito tempo depois, as lágrimas e os soluços cessaram.

Por fim, eles estavam deitados na cama, como muitas vezes antes. Pela janela aberta um vento frio entrava, mas eles estavam tão próximos, tão entrelaçados, que o calor ia passando de um corpo para o outro, deixando os três confortavelmente aquecidos.

– Eu tou com fome. – Naruto foi o primeiro a ceder e quebrar o silêncio, choramingando ao ouvir a barriga roncar, exigindo comida.

– Idiota – ralhou Sasuke, revirando os olhos.

E, para a surpresa dos dois garotos, Sakura riu alto, uma risada divertida e contagiante.

– O que foi? – indagou o Uzumaki, encarando-a com os olhos esbugalhados, o que a fez rir ainda mais forte.

– Nada nada. – Balançou a mão.

"Vocês são adoráveis", pensou, agradecendo aos céus por ter a sorte de ser amiga daqueles dois.

O estômago de Naruto roncou alto mais uma vez e até mesmo Sasuke teve que rir.

– Naruto, vai comprar refrigerantes – mandou Sakura, levantando-se da cama. – Eu e o Sasuke vamos preparar alguma coisa para o almoço.

– Okay! – berrou o loiro, praticamente voando para fora do apartamento, ao sair pela janela aberta, correndo em cima dos telhados em direção ao supermercado.

Já eram duas horas da tarde, e apesar de não estar com o estômago gritando, Sakura tinha que confessar que também estava com fome. Afinal, ela nem tomara café da manhã.

– Yakisoba? – sugeriu Sasuke, olhando o que havia dentro da geladeira, enquanto Sakura lavava as mãos.

– Aham. – Fez que sim. – Mas só se você me ajudar – disse, sabendo que o Uchiha cozinhava melhor do que ela, um fato que sempre a revoltava. Por que diabos ele tinha que ser tão perfeito?

Sasuke estava cozinhando o frango e pedira, sabiamente, que Sakura cuidasse de cortar os legumes, pois pelo menos isso ela sabia fazer.

– Você vai ficar bem? – a voz de Sasuke saiu mais séria e rouca do que o normal.

Ele não estava olhando para ela, e Sakura pensou em sorrir e dizer que estava tudo ótimo. Entretanto, não achou certo mentir, até porque sabia que Sasuke não acreditaria nela de qualquer forma.

– Eu vou ficar bem – falou, finalmente, depois de pensar a respeito. Ela sabia que não seria fácil, que teria que ser mais forte. Mas, tendo amigos como Naruto e Sasuke, a rosada tinha certeza de arrumar coragem para enfrentar qualquer dor.

– X –

Algumas semanas se passaram. Naruto e Sakura tentavam convencer Sasuke a livrar-se do apartamento que alugava para vir morar definitivamente no dela. Porém, o moreno vivia lá desde os quinze anos e, como não precisara da ajuda dos pais para sustentar-se sozinho, mesmo sendo tão novo, aquele lugar era motivo de orgulho.

Ele acabara de voltar justamente de seu apartamento, onde fora pegar algumas roupas limpas, equipamentos para missões e sua correspondência.

– Puta merda – ralhou ao abrir um envelope branco com o símbolo Uchiha em cima. – Puta merda! – repetiu com mais ênfase, sentando-se no sofá, onde Sakura encontrava-se largada, ainda vestida com o uniforme azul do hospital, pois ela acabara de chegar de um plantão e estava tentando reunir forças para ir tomar banho e ir dormir, mesmo que fosse apenas seis horas da noite.

– O que foi, Teme? – perguntou Naruto, voltando da cozinha com um copo de rámen, sentando-se ao lado do Uchiha.

– O meu irmão está tentando acabar com a minha vida – respondeu Sasuke, de modo vago.

Curiosa para ver sobre o que o moreno estava falando, Sakura apoiou o queixo no ombro de Sasuke, dessa forma poderia espiar o que havia escrito no cartão que ele segurava.

– Oh, Itachi-san vai se casar! – ela exclamou ao terminar de ler o cartão vermelho.

– Que legal! Ele me convidou? – quis saber Naruto, eufórico.

– Sim – disse Sasuke, entregando um envelope ao loiro que sorriu ao ver seu nome escrito em letras brancas no convite vermelho vinho.

– E qual o problema? – perguntou, Sakura, confusa pela expressão azeda que o Uchiha tinha no rosto.

– Preciso levar uma acompanhante – respondeu.

– Mas o casamento é em duas semanas, dá tempo de arranjar alguém que queira ir com um feioso que nem você, Teme – disse Naruto, e Sakura notou com desgosto que o loiro estava pegando as manias de apelidos carinhosos de Sai.

– Sim, mas tem esse jantar de família antes do casamento – explicou Sasuke, suspirando com desânimo.

– E quando é isso? – perguntou Sakura.

– Hoje à noite. Em duas horas. – Ele se amaldiçoava por ter demorado tanto tempo para ir pegar suas correspondências. Se tivesse achado o convite mais cedo...

– Bom. – Sakura bateu as mãos nas coxas e levantou-se, de repente, cheia de energia. – Eu te salvarei, Sasuke. – Socou o ar de um jeito dramático, rindo logo em seguida. – Vou tomar banho e me arrumar e serei sua acompanhante nesse jantar.

E, com isso, a rosada correu para o banheiro, não dando oportunidade de protesto ao moreno. Não que ele fosse o fazer, pois aparecer nesse jantar de noivado do irmão mais velho sem acompanhante era pedir que os pais e Itachi pegassem no seu pé durante toda a noite.

E quando, uma hora depois, Sakura pôs-se em frente a ele, com os cabelos ainda úmidos, levemente maquiada e trajando um vestido simples preto de alças finas, Sasuke quase engasgou. Para sua grande felicidade, nem Sakura e nem Naruto notaram, livrando-o assim de perguntas embaraçosas.

– Então – Sakura olhou-o interrogativa. –, vamos?

– Vamos. – Sasuke levantou-se do sofá.

– Huh, boa sorte! – disse o loiro, rindo um pouco da cara de Sasuke, pois já convivera o bastante com a família do melhor amigo para saber o quanto este odiava aquelas reuniões, principalmente quando seus pais resolviam parar de – como dizia o mesmo – idolatrar Itachi e passavam a se dar conta da mísera existência do filho caçula.

Naruto sabia que Sasuke às vezes exagerava. Porém, não podia negar que era evidente o favoritismo que Fugaku tinha em relação ao primogênito. Já Mikoto era mais neutra e parecia gostar dos dois da mesma forma.

– X –

Sakura caminhava calmamente ao lado de Sasuke, o vento secava seus cabelos e roubava deles um cheiro de morango que foi se espalhando no ar.

Era uma noite de céu nublado, no começo do mês de setembro, e o tempo, apesar de um pouco abafado, estava agradável. Eram os últimos resquícios de um verão longo e calorento, e, vendo as nuvens cinzas que escondiam a lua, Sakura pensou que provavelmente choveria durante a madrugada.

– Minha namorada. – A voz do Uchiha tirou-a de seus devaneios sobre o tempo.

– O quê? – sobressaltou-se, numa exclamação estridente.

– Eu disse que você precisa fingir que é minha namorada – repetiu Sasuke, olhando-a de um jeito estranho.

Sakura encarou-o interrogativa, demorando alguns segundos para processar a informação.

– Meus pais – ele começou, parecendo desconfortável com aquela situação. Odiava pedir favores. E, no lado oposto, só de pensar na tortura que seria dizer aos pais que Sakura era apenas uma amiga...

– Tudo bem – a Haruno interrompeu-o. – Eu disse que te ajudaria, mas você vai ficar me devendo uma. – Ela sorriu.

– Hum. – respondeu, monossilábico.

Eles já estavam caminhando dentro do clã Uchiha, a poucos metros da casa principal, e Sakura reparou que, apesar de aparentar-se tranquilo como sempre, Sasuke lutava contra certa agitação. Ela o conhecia bem demais para não perceber a forma como franzia levemente o cenho ou como tinha os ombros tensos.

– Hei – ela chamou a atenção, pousando gentilmente uma de suas mãos no braço desnudo do amigo, já que ele usava sua blusa em gola V preta sem mangas ao invés da usual camisa branca de mangas longas. –, relaxa.

Sasuke surpreendeu-se com a facilidade que a rosada tinha para ler através dele, como se ele fosse uma mera folha de papel celofane. Ponderou que aquela não havia sido a primeira vez em que ela fazia isso, e, mesmo assim, cada vez que a Haruno o entendia sem que ele precisasse pronunciar uma única palavra, ele ficava atônito.

O moreno virou o rosto, para poder fixar o olhar nos orbes verdes brilhantes de Sakura, que pareciam querer transmitir coragem e força pra ele. Sasuke sorriu para ela. Na verdade, havia sido apenas um leve curvar de lábios, entretanto, esse leve curvar de lábios era direcionado a ela, somente a ela. Sakura sentiu o coração acelerar.

Chegando na frente da casa principal, havia alguns degraus a serem subidos. Sasuke teve um segundo de hesitação e isso não passou despercebido aos olhos atentos da médica-nin, a qual retirou a mão que mantivera no braço do Uchiha, para poder segurar a mão dele, fria como a sua, porém maior e mais calejada.

Sasuke acalmou-se um pouco com aquele contato, aquela mãozinha entre a dele. O moreno entrelaçou seus dedos com os da rosada, puxando-a para mais perto dele, de forma que seus braços se tocassem.

Eles, então, subiram os degraus e, antes que Sasuke tocasse a companhia da casa dos pais, Sakura levantou o braço, carregando a mão do moreno até seus lábios, beijando-a carinhosamente.

– Relaxa – ela repetiu.

Os olhos pretos de Sasuke estavam fixos no rosto de Sakura, mas dessa vez não eram as esmeraldas que ele observava, e sim a boca vermelha que acabava de tocar a pele de sua mão. E algo pareceu atingi-lo, como se alguém tivesse jogado uma pedra na sua cabeça, e isso o fez perceber o óbvio: Ele queria beijar Sakura.

Ele queria beijar aquela boca, queria provar aquela doçura com os lábios, com a língua, com os dentes. Queria empurrar aquela mulher, tão mais baixa que ele, contra a porta e beijá-la furiosamente, até seus pulmões gritarem por ar. Queria segurar seu queixo com os dedos e beijá-la delicadamente, sentindo-a suspirar e sorrir contra os seus lábios. Queria beijá-la. Ah, como queria...

E teria feito isso tudo, caso Itachi não abrisse a porta no mesmo instante em que ele se inclinava para possuir os lábios de Sakura.


N/A: Ufa. Estou aliviada e feliz, esse capítulo ficou bem maior do que os outros, foram treze páginas no Word e normalmente meus capítulos tem cinco ou no máximo sete folhas. E, eu não levei séculos para postar como antigamente. Tudo bem, demorou um mês, mas quem acompanha os Deuses da Cama desde o começo sabe que já demorei muito mais.

Quero deixar aqui um beijo pra Amanda que todo dia me perguntava se eu já tinha terminando de escrever. Um beijo pra Raiane que me dá ideias. Um beijo pra Agatha que tem a paciência de betar isso daqui. Um beijo pra Jana, uma leitora que me add no face e foi um amor de pessoa comigo. E um beijo pra você que está lendo isso e vai clicar no troço verde lá embaixo para me deixar um lindo feedback! Até a próxima! ;*

Petit Suisse.

(24/06/11)